2003-12-21

Christmas sucks

Canta Tom Waits com Peter Murphy:
“This Holiday season is all the more reason to die”
Porque será que esta época, supostamente de amor e alegria, desperta em tanta, tanta gente esta espécie de melancolia mórbida ?
Enquanto não tenho a resposta, aqui vão os meus desejos de boas festas para os milhões de visitantes desta página.

2003-12-20

O pacto leonino

Manuela Leite decidiu vender uma quantidade enorme de impostos incobravéis ao City Bank. Parece que o valor acordado para a transação é de cerca de 1/6 do valor total dos incobráveis.
Considerando que essas dívidas já se arrastam há vários anos, que muitos dos credores já morreram ou as firmas se desfizeram que o Estado com toda a sua máquina já desesperava de ver daí um tostão, pensei que a recuperação de pelo menos 1/6 era já um evento de elevado risco para o City Bank.
Curiosamente, os jornalistas acharam pouquíssimo esse valor e anteviam uma grande negociata para o City Bank.
Mas o Governo já esclareceu os jornalista, se o City Bank conseguir cobrar mais, essa mais valia também vai para o Estado. Ou seja o Estado ganha sempre e tem todos os direitos, o City Bank tem todo o esforço e todas as obrigações e se tinha em mira algum proveito pode tirar o cavalinho da chuva.
Este tipo de contrato tem um nome: Pacto Leonino e é considerado nulo pela nossa lei.
Os jornalistas ficaram felizes.
Eu, pelo contrário, comecei a ficar preocupado, esta versão da história parece-me muito mal contada.

2003-12-19

Burqah



A polémica que percorre a Europa sobre o direito ao uso do véu, ou burqah, por estudantes islâmicas em escolas públicas europeias e que tem suscitado algumas crónicas em blogues como o abrupto e o Aviz, entre muitos outros, não é de facto uma polémica é uma aberração absurda, anacrónica, tonta, hipócrita e inadmissível. Tão absurdo como proibir que se leve um crucifixo pendurado de um cordão.
Polémico é que se admita discutir tal questão, na Europa, em 2003.
Parece afinal que os bárbaros, iconoclastas, não são só os Talibans.

2003-12-18

A Caravana

Entrei na Caravana, para um rápido repasto de febras.
À minha frente uma mesa de 6 operários da auto (qualquer coisa) Laranjeiro, debatiam-se com um cozido a portuguesa..
Disse operários mas não é verdade, havia operários sim, mas também um com aparência de administrativo e outro com aparência de capataz.
Todos iguais e todos diferentes nas suas individualidades, confraternizando em volta do cozido e de jarros de vinho da casa.
Corriam as histórias profissionais, os comentários à vida, um murmúrio permanente, entrecortado de gargalhadas.
No canto da mesa um “administrativo”, sempre calado, mas muito atento.
Fazia-me imaginar M. Stirner em tertúlia com Marx e Proudon.
Ao fundo da mesa um operário de bigode, forte e aloirado, dominava o ambiente geral.
Aqui e além o empregado, solícito, da Caravana perguntava se tudo estava bem, respondiam-lhe com leves acenos quase enfastiados para quem lhes perturbava o prazer do momento.
No fim, as inevitáveis bicas e uma garrafa esguia, cheia de ervas misteriosas e de um líquido dourado pálido, que era repartido por todos com evidente satisfação.
Senti inveja daquele bem estar, perguntei ao empregado pela tal bebida.... É a nossa bagaceira especial, diz-me.
Pedi-a também fui saboreando-a com o meu café.
Nisto, uns e outros olham automaticamente para os relógios e começam a levantar-se. Os semblantes mudam um pouco.
Seguem-se as contas amigáveis e sem problemas, mas desconfortáveis naquele fim de refeição: pegar em dinheiro agora, que mau gosto!
O silencioso, M. Stirner, faz o interface para a realidade comercial.
E todos saem, uns atrás dos outros, para mais meia jornada de trabalho.
A sua boa disposição passou para mim, bem hajam.

Debate no Parlamento

A oposição diz:
Raz traz paz ponga bonga catrapum zaz catrapaz
Responde o Governo:
Miau perlim pom pom tiu piu.
Nós... ficamos esclarecidos.

2003-12-15

Sadam



Dois factos me surpreendem nesta história da prisão de Sadam:

1. Já viram as barbas do homem ? Conseguir uma tal dimensão de barbas em apenas 7 ou 8 meses é um feito notável. Qualquer homem normal precisaria de pelo menos um ano. Isto digo eu, que percebo de barbas.

2. Pois então o teimoso obstinado insiste em dizer que não tem armas de destruição maciça. Coisa que todo o mundo sabe que tem e que até fundamentou a invasão do Iraque com elevadíssimo número de mortos e feridos de ambos os lados. É preciso ser atrevido.

2003-12-14

Constituição

Lá voltei de Varsóvia e, não obstante o meu polaco ser ainda muito elementar, lá me fui apercebendo que a carta constitucional europeia caiu num impasse porque a Espanha e a Polónia não se entenderam com a França e Alemanha no processo de distribuição de poder na futura União Europeia.
Não consegui perceber o que é que os outros Estados, como Portugal, por exemplo, pensavam sobre este assunto menor.
E fiquei também sem saber como ficou, se é que ficou algo definido, sobre aquela questão maior que condiciona o futuro de todos nós e sobre a qual tem havido um grande debate e grande preocupação em Portugal: Vai ou não haver menção à herança cristã na cultura europeia.
Questão tão importante assim meia esquecida e o pessoal, todo, distraído com os detalhes do processo de decisão interno.

2003-12-10

Varsóvia

Regresso, dentro de horas a Varsóvia.
Pela primeira vez ao serviço do Estado português, que tudo corra pelo melhor, espero.
Entretanto não sei se durante a minha estada, até Domingo, terei acesso à web para postar sobre os encantos da “stare miasto”, do palácio do governo ou o da cultura, ou qualquer coisa assim.
Não falharei, sem dúvida, um saboroso “żurek” seguido de um tão varsoviano pato com maçãs.
Isto me basta, por agora.

Notícias do dia

As forças dos EUA no Afganistão mataram 6 crianças, isto na sequência de outras 9 morta no Sábado mas foi tudo justificado porque foi uma operação para neutralizar um perigosíssimo terrorista.
Infelizmente, morreu também um americano o que põe em causa todo o processo de democratização e pacificação do país.
Se o perigosíssimo terrorista foi neutralizado, ainda não nos disseram.
Também, José Mourinho, a seguir ao empate com o Real Madrid disse que o dedicava este resultado a Pinto da Costa porque no seu vastíssimo currículo faltava-lhe ainda o não perder no Barnabéu.
Agora que Pinto da Costa já dorme descansado por não ter perdido no Barnabéu espero que deixe ao Sporting a proeza, mais comezinha, de ganhar a super liga nacional. O que é que isso interessa ao FC Porto agora que já não perdeu no Barnabéu ?
Entretanto começou a dança dos abutres sobre a carniça Iraquiana:
O lombo é para os EUA só, pois claro.
O resto para 63 países amigos que ajudaram, como Portugal, pois então.
Os malandros que se opuseram, a França, a Alemanha e a Rússia, podem só debicar o que cair das bocas dos outros.
Haja justiça.

2003-12-08

As Audiências

Nos anos 60 como agora:
“Sempre que um dono e senhor da Massicultura é censurado pela baixa qualidade da sua produção, responde automaticamente: “Mas é o que o público quer ! Que posso eu fazer ?” Trata-se, à primeira vista, de uma defesa simples e conclusiva. Mas, vendo bem, ela revela que: 1) na medida em que o público “o quer”, o próprio público fica dentro de certos limites pelo menos, condicionado pela referida produção, e 2) os esforços do dono e senhor da Massicultura tomaram essa direcção porque a) também ele o quer (não se deve nunca subestimar a ignorância e a vulgaridade de editores, produtores cinematográficos, dirigentes de rádio e televisão e outros arquitectos da Massicultura) e b) a tecnologia da produção de “divertimentos” de massa (e também neste caso as citações são prudentes) impõem um esquema simplista, repetidor, de modo a que seja mais fácil dizer que é o público a querê-lo do que dizer a verdade, isto é, que o público o vê oferecer-se-lhe e, por isso, o quer.
A Lebre Marçalina explica a Alice que: “Agrada-me aquilo que tenho” não é a mesma coisa que “tenho aquilo que me agrada”, mas a Lebre Marçalina nunca mais foi bem vista na Madison Avenue.”
Dwigth MacDonald - Masscult & Midcult

2003-12-07

Mitos modernos

Há vários mitos modernos interessantes de analisar, entre eles figuram o mito da ciência e o mito da formação.
Qualquer deles dava para escrever vários livros, além dos muitos que já foram escritos, mas neste “medium” bloguista, que impõe teses em “pastilhas”, limitar-me-ei, por agora, a falar um pouco do mito da formação.
A formação assume-se hoje com uma panaceia universal, é o que faz falta, proporciona a passagem do amador ao profissional (outro mito moderno), concede os conhecimentos e as qualidades necessárias para nos podermos afirmar. Quem tem formação tem tudo, quem não tem é um zero à esquerda, não tem nada.
Mas como o que faz, de facto, falta é avisar a malta, como dizia o poeta, aqui fica o meu aviso.
Há formação e formação e a generalidade da que se produz agora é a da pior qualidade.
Paulo Freire e Piaget, entre outros, já explicaram tudo o que se deveria saber sobre o assunto: formar não é despejar conceitos, noções e práticas sobre sujeitos passivos, moldando-os numa forma homogeneizada, produzindo réplicas de uma mesma coisa e anulando os dons, as experiências, a criatividade que cada um vai estruturando dentro de si. Deverá ser antes um processo de construção interna onde se equilibra nova informação numa parede já em construção.
Os programas “ídolos”, da SIC, e “a operação triunfo”, da RTP, são um exemplo claro e elucidativo destes aspectos.
Nos “ídolos” escolheram-se potenciais talentos onde se incorporaram algumas técnicas que permitiram ultrapassar as principais deficiências: Os resultados estão há vista.
Na “operação triunfo” procura-se fazer tábua rasa de tudo, criando monstros homogeneizados, replicantes , todos iguais uns aos outros, sem graça e sem chama (até porque nem os deixam bulir a chama de uma vela).
É uma autentica fábrica castradora de talentos.
O que se assiste aí é a uma verdadeira feira de vaidades de pseudo-formadores medíocres e frustrados.

2003-12-04

Nassíria

Porque insistem os jornalistas e políticos portugueses em chamar Nassíria à obscura cidade iraquiana onde se encontram os nossos GNR, quando ouvimos os próprios locais, assim como os italianos aliás, chamarem-lhe Nasaría.
É para mim estranho, tanto mais que, não obstante não saber um mínimo de árabe ou talvez por isso mesmo, ao ouvir Nasaría nunca deixo de me lembrar sempre da bíblica assim como da tão portuguesa Nazaré.

2003-12-03

Silêncio

Como já não há deus, nem bem nem mal, como já não há ideologias, nem sonhos em que acreditar, como já não há senão ruínas duma riqueza longínqua, já que esta estrela é feia e já que estou só; se os seres não me podem ajudar.
Eu rezo
Damien Saez (tradução minha)

2003-11-30

Esquerda e Direita

Como definir esta velha noção política partidária ?
Paulo Portas, líder de direita, conservadora, apela para a reforma da constituição: Queremos uma constituição do século XXI, diz !
Jorge Sampaio, líder da esquerda “revolucionária” defende a conservação da lei “fundamental”: Temos que acabar com o frenesim para alterar a constituição !
O que pensar quando são os conservadores que querem a mudança e os reformistas que defendem o estado das coisas.

2003-11-28

Números 3

Luis Delgado veio à liça, como lhe é habitual para mostrar que o branco é, de facto, negro e, talvez, vice versa.
A OCDE prevê, voltamos a dizer, prevê, o decréscimo de 0,8% do pib português em 2003.
Anteriormente, este e outros videntes tinham previsto, voltamos a dizer, previsto, um decréscimo maior, 1%, ou mesmo1,75% .
Insurge-se assim Delgado quanto aos títulos de jornais que relatam exactamente o que se passa, que a OCDE prevê um decréscimo 0,8% do nosso PIB.
Decréscimo ? diz ele escandalizado, não melhorou muito a situação quanto às anteriores previsões ?
E assim se constrói uma nova forma de manipular números: comparar previsões com previsões.
Como as previsões, na ausência de fundamentação, podem dizer o que se queira, prevendo sucessivamente o pior promove-se o pessimismo, prevendo sucessivamente o melhor, promove-se o optimismo.
Num caso ou noutro estas previsões têm o mesmo valor: Zero.
Não quero com isto dizer que as previsões não possam ter valor, mas apenas que se elas são bem feitas, trazem consigo os respectivos pressupostos e fundamentação, mas disto, que é essencial, nunca nos falam os jornais.

2003-11-27

Ontem como hoje

Ora Porra!
Então a imprensa portuguesa
é que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

Álvaro de Campos

2003-11-26

O Pacto

Agora, que já mataram o pa(c)to, o Governo prepara-se para nos dar o arroz.

2003-11-25

Não sei se já repararam

O Big brother (o de Orwell, não o da TVI) já deu ordem para aumentarmos o nosso optimismo.
Os sinais estão por aí: O infame apoio nacional à política económica da França e Alemanha, independentemente de convicções e políticas, é apoiado, com naturalidade, pelo Bloco de Esquerda; o tímido reflorescimento do mercado de capitais; as sucessívas profecias de luz à frente do túnel, muitos outros imdicadores estão aí por todo o lado.
É um processo lento e progressivo mas, embora tudo esteja, mais ou menos, na mesma, lentamente, as coisas vão-nos parecer melhores.
Para quem não se apercebeu ainda, espere 6 meses e fale comigo.

Antes assim ! Poderemos continuar a viver, tal como até aqui, mas mais alegremente.

2003-11-24

O atentado

Aguarda-se insistentemente um novo ataque terrorista de grande impacto.
O local e o modo são motivos de especulação.
Depois de me debruçar sobre o assunto ocorreu-me uma forma de ataque utilizável para a qual, julgo, a CIA não está devidamente preparada:
Consiste no seguinte: em dia e hora determinados, na cidade de Nova Yorque, em lugar de grande concentração de público, uns tantos terroristas, estrategicamente colocados entre a multidão, acenderem simultaneamente cigarros, prejudicando gravemente a saúde dos que os rodeiam.
Considerando a informação que nos chega em doses avassaladoras nos maços de tabaco, apenas estranho como ainda ninguém se lembrou disso; seria um ataque devastador e simples de praticar.
A hora, o local e o número de terroristas necessário, que antevejo, não os divulgo aqui, por razões de segurança.

2003-11-20

COLAGEM

Retive do que vi e ouvi hoje algumas pequenas notícias e informações:

1. Desemprego aumenta, em Portugal: Em Outubro de 2003 surgiram mais 22% de desempregados do que em Outubro de 2002 (TSF noticiário das 18h).
Vila Verde Cabral comenta: Ainda vai ser pior, quando o governo, ele próprio, está determinado em destruir o aparelho do Estado.

2. Aumenta a mendicidade infantil nas ruas de Lisboa (RTP 1 Jornal da noite).
Uma deputada do PP comenta: É necessário arranjar formas de pôr estas crianças em creches e jardins de infância, como é seu direito.

Pobres decisores atentos, dirão uns e outros:

- Pois é pá, temos de reforçar os serviços públicos, contrata-se uma série de gente, diminui-se o desemprego.
- Tás maluco pá, então e a despesa pública e o défice?
- Tens razão pá, mas se aumenta o desemprego é natural que aumente a mendicidade infantil o que é uma grande chatice e um grande incómodo, temos que arranjar uma solução para esses miúdos: Já sei, criamos uma espécie de Casa Pia.
- Estás maluco pá, safa !
- Olha o melhor é deixarmos andar tudo como está, com sorte aguentamos até 2006.

E assim vai o mundo.

2003-11-19

Walkeman

Sento-me no banco do combóio, coloco os auriculares, acciono o comando e Zás, salto para outro mundo.
Os companheiros de viagem transformam-se subitamente numa espécie de autómatos, alheios a tudo o que se passa.
Por vezes noto o olhar atento de um deles, que, por momentos, parece partilhar a minha música. Na realidade, deve apenas estranhar os meus ligeiros movimentos da perna, ou dos músculos da face, ao compasso da música, para ele silenciosa.
É assim, por vezes, a comunicação que estabelecemos diariamente: Como nos podemos entender se só um de nós ouve a música ?

2003-11-16

Cultura

Passei há momentos pela SIC notícias onde Bárbara Guimarães entrevistava o autor de uma “História Constitucional do Brasil”.
Pergunta importantíssima de Bárbara, “Há quanto tempo começou a escrever este livro ?”
O Autor hesita, enquanto Bárbara comenta com respeito: são cerca de 1000 páginas !
Bárbara Guimarães que ganhou o estatuto de vedeta cultural em tempo record, certamente por absorção osmótica do seu companheiro Carrilho, teve que reconhecer a importância cultural do seu entrevistado:
1000 páginas em cerca de 2 meses é, de facto, uma obra notável, temos todos que correr a comprar a “História Constitucional do Brasil

A Europa

Maria João Ruela regressa a Portugal.
Os bandidos que a balearam, simpáticos, devolveram-lhe a sua bolsa através de Raleiras.
A simpatia dos bandidos já era esperada, eu já tinha descansado um pouco quanto à segurança de Raleiras no seu sequestro, quando ouvi MJ Ruela dizer que logo que saiu da viatura baleada um assaltante armado lhe disse: “sorry”.
O significativo desta devolução, é que os bandidos apenas lhe roubaram os dollars, os Euros foram restituídos.
Tamanha humilhação no nosso orgulho Europeu já eu a tinha sentido em S. Luis do Maranhão, onde os meus Euros foram desprezados por todos os bancos, incluindo a representação do Banco do Brasil naquela cidade.
O que se passa com a Europa e a sua fortíssima moeda ?
É certo que o capital não tem pátria, mas em situações como esta parece que tem.

2003-11-14

IRAQUE

Hoje é o dia do Iraque.
GNR, Jornalistas, feridos, sequestros, bandidos, Sadam, resistentes, coligação, Italianos, Ingleses, Americanos, Portugueses, TSF, SIC, TVI, RTP, JN.
É tudo muito confuso e absurdo.
Só uma coisa me vem à cabeça, só uma mesma emoção se desperta em mim: Aquela mesma que me é sugerida pela magnifica cena do “Dear Hunter” onde Robert de Niro assiste impotente à corrida para a morte, do seu amigo, num antro obscuro de roleta russa.

2003-11-13

2 questões

Há dias que não actualizava o blog.
Por falta de ideias ? não, muito melhor, simplesmente por ter passado vários dias longe de computadores e da net, belos dias por sinal.
Para retomar estas crónicas numa onda aparentemente soft vou colocar apenas duas pequenas questões para reflexão:
1. A democracia fundamenta-se na maioria, como afirma o projecto de constituição europeia ou será antes no povo ?
2. Os Juizes existem para vigiar o cumprimento da lei, como diz o Meritíssimo Rui Teixeira e quase todos os outros, ou será para procurar fazer justiça ?
São questões simples mas penso que muito pertinentes.

2003-11-07

Números-2

Há ainda outras formas de manipular números e estas tão ingénuas que chegamos a estranhar como conseguem ser eficientes. Mas são-no.
Se leram o 1984 de Orwell, recordar-se-ão que toda a acção decorre sob um pano de fundo de uma guerra, onde as notícias de vitórias e derrotas mudavam diariamente, ao ponto de uma derrota de ontem ser hoje uma vitória e poder tornar-se em derrota, de novo amanhã. Não estamos no mundo do 1984, mas nunca estivemos tão próximos e fenómenos desse tipo começam a passar-se apoiados no grande fluxo de informação que se vai sempre neutralizando com nova informação.
Há vários exemplos, falo agora, apenas, dos americanos mortos no Iraque. Se estiverem atentos verão que não há coerência e, após o mesmo facto, as notícias vão variando. Hoje por exemplo, na TSF houve 4 mortos num helicóptero e na SIC 6 no mesmo helicóptero.
O total de mortos pós guerra vai crescendo e decrescendo e ninguém sabe exactamente. Hoje ouvi centena e meia, na BBC, há alguns meses, falavam em mil e cem, incluindo estropiados. No New York Times li que a informação exacta era sempre muito difícil de obter junto das forças armadas americanas.
Estou a ver que sim.
Espero que, pelo menos, as infelizes famílias, vão recebendo correctamente os seus sacos pretos.

2003-11-05

Números

Não, não é o respectivo livro da Bíblia que quero reproduzir aqui.
Apenas uma reflexão sobre a utilização de números para fazer vingar uma ideia.
Exemplo 1.
Ontem vi o Primeiro Ministro, na Assembleia, arrasar a oposição com o custo das estradas sem portagem, bastou falar em milhões. Quantos já não sei, duvido que alguém que tenha ouvido, sem estar minimamente envolvido no assunto, se recorde do número, mais ou menos, exacto e é precisamente esse efeito que se pretende. Para nós, milhões exigem lápis e papel.
Nada melhor, para nos atrapalhar, do que falar em milhões; à nossa escala, milhões só tem um significado qualitativo: é muito.
Para explicar o que pretendo dizer atente-se neste exemplo:
Se se falar em 2 pacote de manteiga, todos sabemos o que é e que espaço ocupam num frigorífico. O mesmo se passará se falarmos em 20 ou 30 pacotes de manteiga; se porém eu disser um milhão de pacotes de manteiga gostava que imaginassem e sem recorrer a contas me dissessem: cabem num frigorífico ? suponho que não, e numa sala média ? já não sei, numa grande armazém, também não sei; nesta escala, estou disposto a acreditar, praticamente, em tudo o que me disserem ; Só sei uma coisa: é muita manteiga.
É assim que o argumento do Sr. Primeiro Ministro não me diz nada e, de qualquer forma, é sempre um pau de 2 bicos: Significa exactamente que é preciso que os utentes das SCUT paguem em portagens esses milhões e como são tantos parece-me que vão ficar todos na miséria, por várias gerações. Como disse o nosso Primeiro Ministro, são eles que irão permitir que haja algumas obras públicas em Portugal.
Exemplo 2
Se tiver um preço de 100 unidades e reduzir 70%, de cabeça digo que passará para 30, porém, se o preço for de 30 e aumentar 70%, não passará para 100 mas, também de cabeça, digo que andará pelos 50.
No entanto falamos sempre dos mesmos 70%.
Falar em percentagens é assim um tanto traiçoeiro, como se costuma dizer, e as manipulações psicológicas das percentagens são mais do que muitas, basta não dizer x% de quê, precisamente.
Exemplo 3
Um anúncio da PT diz que a diferença de preço do telefone fixo para o móvel é de 15 vezes, reparem, não fala em percentagens mas em valores absolutos, significa que se eu gasto 100 no fixo gastaria 1 500 no móvel e vice-versa.
Esta afirmação não sei desmontar, porque não me disseram como fizeram as contas, mas não corresponde nada ao que eu vejo nas minhas facturas, não condiz nada com a minha experiência, não acredito.

2003-11-04

Saez

Quando falava ontem dos jovens, referia-me, evidentemente ao “jovem médio”, o que está nas estatísticas, o que interessa aos média, “jovem médio” no sentido de Chàteliet, no livro “Vivermos e pensarmos como porcos” de que já falei numa outra crónica e que, entretanto, já tive o prazer de ler.
Felizmente, há ainda muitos que se conservam, teimosamente, macacos-deuses.
Queria hoje falar dum deles: Damien Saez.
Pouca gente o conhece hoje em Portugal, os seus discos não estão cá à venda, ainda, no entanto é um músico fabuloso, juntando qualidades de excelente músico, intérprete magnífico e muito bom poeta.
As suas canções lembram imenso Brel, tem 26 anos apenas e publicou o seu primeiro disco com 23. Não tenho dúvidas que dentro de alguns anos toda gente conhecerá o seu nome.
Infelizmente não domino, ainda, a tecnologia para por ficheiros de som no blog e só poderei dar uma pálida imagem do seu valor transcrevendo um texto de uma das suas canções, escolhi este mas poderiam se muitos outros::

Usé

Usé par les hommes
Par le bruit qui rend fou
Usé par la vie
Par les hurlements
Usé par le silence
Usé par le vent
Usé par l'oubli
On oublie pourtant
Qu'un jour on s'est aimé,
Qu'un jour on a vécu,
Que la vie est passée,
Que le passé n'est plus
Qu'un jour on s'est aimé
Que ce jour n'est plus
Qu'une postérité
Noyée dans l'inconnu

Usé par un monde
Qu'on ne comprends plus
Qu'on a jamais compris
Mais qu'il continue
A tourner encore
A tourner toujours plus
A faire tourner la tête
A nos âmes perdues
A nos cœurs qui appellent
Et hurlent au secours
Mais non y a plus de ciel
Et non, y a plus d'amour
Et plus que des troupeaux
Des vendus, des vautours
Des vendeurs de merveilles
Des joueurs de tambours

Usé par l'avenir
Usé par un meilleur
Qui ressemble au pire
Et oui, ça fait mal au cœur !
Usé par l'ironie
Qui tua ma jeunesse
Usé par la comédie
Usé par les promesses
Usé par la folie
Usé par le dégoût
Usé d'être incompris
De marcher à genou
Usé par l'usure
Usé par les regrets
D'avoir fui l'aventure
D'avoir fui la beauté
Te voilà qui revient
Te voilà toi mon frère
Qui me dit prends ma main
Marchons vers la lumière

Et le cœur plein d'espoir
Et le cœur infini
On oublie qu'il fait noir
Alors enfin on vit
Et loin de leur tambours
Et loin de l'inhumain
On redevient fou à chaque matin
Un jour on s'est aimé
Et ce jour c'est demain
Un jour d'humanité
Un jour de gloire
Un jour on s'est aimé
Et ce jour c'est demain
Un jour d'humanité
Un jour d'humain

2003-11-03

Jovens

O processo de desumanização que nos ameaça faz-se sentir de forma acelerada entre a juventude.
É talvez natural que na fase de descoberta que se vive na juventude, se verifique a inserção quase automática, sem crítica, na sociedade do espectáculo ou na intrujice da civilização para a qual caminhamos apressadamente.
Será assim em todas as gerações, o que diferencia esta, pela própria natureza da sociedade global que se construi pela primeira vez na história é que a castração de humanidade que se verifica poderá vir a transformar esta juventude em adultos impotentes e apáticos.
Lamentavelmente, o inconformismo que também é apanágio dos jovens e que poderia conduzir a uma inserção mais atenta e independente, não parece resultar neste modelo de sociedade, onde alguma assimetria é também condição da sua manutenção e o radicalismo juvenil é incorporado no sistema, transformando uma suposta marginalização no alinhamento mais puro.
É assim que vemos a juventude, utilizando o argumento da afirmação da diferença, vestir verdadeiros uniformes, quase militares, de roupa de marca normalizada pelo mercado, típicos da respectiva tribo urbana, tornando difícil descortinar qualquer elemento da individualidade que pensam afirmar.
São mais que alinhado, são alinhadíssimos, previsíveis, fiéis intérpretes de modelos estereotipados; tornando-se mais clara a inserção no processo de homogeneização social que vivemos, constituído verdadeiros exércitos de replicantes.
Preocupante é já, neste processo de desumanização da juventude o abastardamento da expressão humana:
Os jovens já dificilmente conversam, o vocabulário reduz-se drasticamente a alguns substantivos, poucos adjectivos, e um mínimo de verbos.
Nos "chats" cibernéticos, onde são exímios, as própria palavras, já de si limitadas, são despidas de sílabas e de letras reduzindo-se a uma expressão minimamente significante, quando não são substituídas por rudimentos da língua internacional: o “broken English".
Qualquer forma de raciocínio abstracto torna-se inexprimível e, assistimos já ao horror de ver, com demasiada frequência, em publicidade dirigida à juventude, reduzir a expressão oral a grunhidos de besta, do tipo Reeereeereeereeeumreee ou ihaaahuuuu, ihaaaaahuuuuu, entrecortados com gritos lancinantes de dor ou de prazer.
Parece-me, sem dúvida, preocupante esta tendência e para que não estereotipem esta minha posição, enquadrando-a, apressadamente, no conflito geracional, amanhã falarei de franjas de resistência e de esperança de alguma juventude mais esclarecida.
Como diz o Poeta Alegre: "mesmo na noite mais escura do tempo de solidão; há sempre alguém que resiste; há sempre alguém que diz não.

2003-10-31

José Alvalade

Hoje acordei com uma pequena angústia, inspirada pelas eleições do Benfica.
Sou adepto do Sporting, desde que nasci. Porquê ? não sei explicar racionalmente, creio mesmo que essa adesão profundamente emotiva, teve uma origem meramente aleatória; o meu pai, sem ser amante do futebol, era já simpatizante do Sporting e assim ficámos eu e os meus irmãos e irmãs.
Este sportinguismo não foi com as vitórias que se cimentou, pelo contrário, foram os longos anos de derrotas, que vivemos, que reforçaram esse espirito de pertença (os dois, relativamente recentes, campeonatos nacionais deram-me forças para mais 17 ou ainda mais anos de jejum) e me deram sempre aquele secreto conforto de pertencer a uma minoria suficientemente valorosa para poder ganhar, mas eternamente vítima de injustiças e de todo um rol de adversidades.
Gerou-se esta afeição como a natural simpatia, que muitos partilhamos, pelos índios em relação aos “cow-boys” e, em geral pelos mais fracos relativamente aos seus opressores.
Se virmos a história, porém, o Sporting nunca foi fraco, pelo contrário, foi sempre um clube das elites economicamente poderosas e é, de facto, o Benfica, o clube de Lisboa que nasceu do povo e lutou com garra para conquistar a sua posição cimeira.
Não obstante todas as vicissitudes da história, as eleições do Benfica continuam sempre recordar-nos essa origem popular e combativa.
No Sporting e na generalidade dos grandes clubes, mudam as direcções num nível etéreo (não duvido que muito legal e estatutariamente correcto) talvez de forma mais acertada e conduzindo a melhores soluções, mas que a luta pelo poder e as eleições disputadas do Benfica são um espectáculo bonito de se ver, ninguém pode desmentir.
Não obstante e porque estamos num domínio meramente emocional, onde o cérebro não tem nada a dizer, continuo a ser de alma e coração do Sporting.
Vem tudo isto trazer-me à memória os nomes dos novos estádios:
O da Luz passa a Catedral, procurando fazer subir o Benfica a esse nível quase divino a que eles se assumem com direito.
O das Antas passa a Estádio do Dragão, elevando o FC Porto ao nível mitológico, maravilhoso, onde eles se sentem estar.
O José de Alvalade passa a Alvalade XXI, talvez para dizer que este é que é o nosso século, vamos a ver, mas Alvalade porquê ? Quem foi afinal o José de Alvalade que nomeou um importante bairro de Lisboa, um importante estádio e persiste todavia para todo o século XXI, ombreando com uma Catedral e com um Dragão.
Quem foi José de Alvalade ? Não faço ideia nenhuma, já pesquisei na net e só encontro referências ao estádio seu referenciado.
A sua notoriedade faz-me pensar que sou só eu que não sei e daí a minha pequena angústia.
Talvez a Duquesa Charlotte, que muito sabe, me possa elucidar, por mim fico aguardando ajuda e, só espero, que ele não seja apenas um qualquer “pato bravo” endinheirado.

2003-10-30

A frase do dia

“O Governo PS era mau, mas este não é melhor !”
Anónima, manifestante da CGTP

2003-10-29

Os bandos

Como primatas organizamo-nos em bandos, é assim que nos sentimos bem, é a escala que dominamos.
Os problemas e o mal estar surgem quando se pretende construir o “bando global” bem contra a nossa natureza e os nossos interesses e reagimos, naturalmente, organizando os nossos próprios bandos, de interesses, de conformidade de ideias, estilos de vida etc,
O fenómeno é bem nítido na blogosfera: há um grupo de notáveis que se conhecem todos pelo nome, se encontram em jantares e reuniões sociais, “lincam-se” (perdoe-se-me o estrangeirismo, inevitável) e citam-se mutuamente, vão quase todos às FNAC e outros centros de cultura, têm o culto da escrita, escrevem geralmente muito bem (é essa estética que me atrai neles), rondam a medicultura, aquela franja que procura mimar o génio que lhes falta, são light, light, light., interessam-se vivamente por coisa tão diversas como animais domésticos, DVD, política, quanto baste, livros, muitos livros, lugares do mundo, futebol também, um pouco, outros desportos, centros de lazer, restaurantes “in”, não os de verdadeiro culto à gastronomia e dão a tudo isto o mesmo peso e a mesma medida.
Gosto imenso de os ler, não são bons nem maus mas não são, decididamente, não são macacos do meu bando.
Os macacos do meu bando não têm ainda muitos blogs.

2003-10-28

Dois factos insólitos

Hoje assisti, de uma assentada, a dois factos insólitos:
Primeiro
Um ministro que nunca tinha visto antes, o do ambiente, a dar uma conferência de Imprensa contra o governo. Nem mais, o Ministro contra o governo de que parece fazer parte.
Todavia parece que a estratégia resultou e o governo inverteu a sua posição ou pelo menos definiu-se.
Pensando bem, no entanto, não há razão para o meu espanto, tudo faz parte do espectáculo, existem precedentes, veio-me logo à memória quando no governo anterior o Ministro, Gomes da Silva, participou numa manifestação de protesto contra a sua própria política assim como outras cenas semelhantes a que assisti em importantes fora da administração.
Na realidade é assim que se faz política, se perde e se ganha.
Segundo
A Provedora da Casa Pia, Catalina Pestana, deu também uma conferência de imprensa desancando a justiça portuguesa e depois, quando foi questionada sobre a sua confiança na justiça respondeu inequivocamente: sim confio na justiça.
O que faria se não confiasse ? nem quero imaginar.

2003-10-27

O paradoxo de Bush

Hoje dizem que foi o dia mais sangrento da guerra no Iraque, aquele em que a reacção à ocupação Americana e Inglesa mais vítimas produziu.
Todavia não se iludam, tratou-se apenas de uma reacção desesperada aos claros progressos que estão a ser feitos em prol da democratização e pacificação do país.
Na realidade a guerra intensifica-se, simplesmente porque a paz avança.
É preciso compreender bem estas evidências.

2003-10-24

Ecologia

Recebi um cartão da Óptimus informando-me que para defender a ecologia e evitar a acumulação de tanto papel que entra pela nossa caixa de correio, vai deixar de enviar os extractos mensais.
Graças a Deus que a Óptimus está assim tão preocupada com a ecologia e defende assim tão bem os nossos interesses.
Uma nota apenas me não caiu bem: se pagar 1,25 Euros, já mandam lixar a ecologia e enviam-me os extractos.
Caraças, para a Óptimus a ecologia só vale 1,25 Euros !

A Rainha Vermelha

São assim as actuais tecnologias de informação:
Pouco tempo após a publicação do meu post anterior, a minha filha Joana, lê o post nos EUA, onde está temporariamente, e contacta-me, via “messenger”, dando-me conta do princípio da Rainha Vermelha.
Para saber o que isto é poderão encontrar aqui Informação mais detalhada mas, em termos gerais, posso dizer que se trata de um interessante princípio da área da biologia que traduz um fenómeno semelhante ao que eu tinha aplicado no meu post anterior num contexto macro-económico.
O nome provem do segundo livro de Alice, de Lewis Carroll: “Alice por de trás do espelho”, se não me engano e da observação que a Rainha Vermelha aí faz a Alice dizendo-lhe que, naquele lugar, era necessário correr muito para se ficar no mesmo sítio.
No linque referido vem um exemplo de determinadas situações florestais, onde as árvores têm que crescer para aceder à luz solar e continuar a viver e se ficam para trás são sombreadas pelas outras e sofrem com isso. O mais interessante neste exemplo é a constatação que se todas se mantivessem pequenas teriam todas beneficiado e poupado muitos recursos.
A verdade é que nós não somos árvores e, não obstante as leis naturais, poderíamos exercer o nosso livre arbítrio e escolher a nossa própria dimensão.

2003-10-23

Afinal, corremos para onde ?

É uma “verdade” insofismável, diz o Governo e a Oposição, temos que apanhar a Europa, o pelotão da frente, é preciso crescer mais que os outros. Roemo-nos de inveja pelo crescimento Irlandês, gozamos de prazer quando a bendita Grécia nos tira do último lugar de alguma coisa.
Mas afinal, estamos a correr para onde ?
Com tanta corrida já devíamos estar a atingir um nirvana de felicidade.
Um raciocínio simples poderia dizer: sinto-me bem, se não crescer mais ... que se lixe, continuo assim que não é tão mau.
É isso aliás o que sinto quando visito os tais países do pelotão da frente: afinal lá atrás não se está assim tão mal, nalguns casos, muitos, antes pelo contrário.
A realidade é que estamos a correr apenas para sobrevivermos. A ausência de crescimento não significa ficar na mesma, não, aumenta o desemprego, a miséria, de facto, andamos para trás, ficamos pior.
É isto que é a “intrujice da civilização” de que falava, (desculpem-me a insistência, não é, está longe de ser, o único lúcido mas está aqui a jeito) Almada Negreiros.
Vivemos um modelo civilizacional onde progredimos ou morremos, como que mergulhados numa piscina onde procuramos sempre tirar a cabeça de dentro de água, mas onde o nível sobe permanentemente e mesmo que tenhamos a ventura de chegar à tona e respirar, nem aí poderemos descansar e usufruir esse sucesso, se pararmos afundamo-nos de novo.
Ora a grande porra.

2003-10-22

Responsabilidade

Na construção da organização civilizacional, é normal atribuir-se àqueles homens e mulheres que assumem uma posição de direcção, de comando, uma capacidade de orientar o devir num determinado sentido, a uma determinada escala, a designação genérica de “responsáveis”.
É um princípio facilmente aceite e compreendido: Quem tem o privilégio de determinar ou influenciar resultados específicos, deverá igualmente responder pela qualidade dos seus actos e pelo facto de estes servirem mais ou menos a comunidade em geral.
A responsabilidade é assim o reverso da medalha da chefia ou direcção e encarado, pela generalidade das pessoas, como a contrapartida ou o ónus que recai sobre quem exerce e funções de chefia e como contrapartida de eventuais benefícios associados a essa função.
Porém, o que se assiste, cada vez mais, é a procura do melhor dos dois mundos, chegando-se, no nível organizacional moderno, a constatar que os responsáveis muito raramente respondem por coisa alguma.
As tácticas são duas: “sacudir a água do capote” se algo acontece de mal ou, melhor ainda, fazer o menos possível para que nada ou pouco aconteça.
Veio-me esta velha constatação à memória com as recentes notícias sobre o famigerado caso da fuga de informação no processo da Casa Pia e o relatório sobre o acidente da passagem de piões do IC19.
É tão natural esta desresponsabilização que a generalidade das pessoas já equacionou o termo responsável exclusivamente à função de direcção, despindo-a do seu significado real.
Daí aquela frase sábia e desesperada que vi, já há alguns anos, num cartaz em Sines, reclamando umas obras inadiáveis: “Já que os responsáveis se mostram incapazes, apelamos para os irresponsáveis”.

2003-10-20

Finalmente, um verdadeiro metapost

Porquê um blog ?
Porque tenho muitas coisas a dizer
Porquê os posts?
Porque são a forma que este “media” admite para comunicar.

É certo que procuro sempre o post dos posts: aquele em que num pequeno parágrafo consiga resumir tudo o que é para mim importante dizer.
Mas sei já, também que isso é impossível e chego, por vezes, a não escrever nada vencido pela montanha de coisas a dizer.
O que eu pretende transmitir são as sensações e/ou emoções que determinadas vivências me provocam, talvez só a mim porque foram vividas num momento e em circunstâncias únicas e me tocaram especialmente por se articularem e despertarem um conjunto de outras vivências pessoais, recordações, sensações e emoções diversas, tornando o resultado indizível num discurso articulado e racional mas antes, apenas atingível numa forma de expressão artística, se possuísse o necessário talento para isso, é claro.
Essa expressão artística teria qualidade se conseguisse despertar em quem a usufrui uma emoção que lhe permitisse antever o que supostamente o artista viveu e quer transmitir.
Por mim, limito-me a ter esperança que alguém que leia este blog, no conjunto dos seus posts, ao ver os vários ângulos deste difícil discurso possa, pelo menos, antever a complexidade que eu gostaria de transmitir num jacto apenas.

Jornalistas

Na blogosfera falam muito e fala-se muito de jornalistas.
Conheço-os. A última vez que os vi estavam satisfeitíssimos vasculhando o lixo à porta de um tribunal.

2003-10-16

Hoje aprendi

Que é fundamental comer cereais ao pequeno almoço.
Mas cereais já não são o trigo, milho, aveia, centeio e cevada, entre outros, como eu tinha aprendido antes, nem são mesmo os alimentos provenientes da sua transformação que o homem foi inventando na sua história civilizacional como a farinha e tudo o que se pode fazer com ela, os cuscuz, e o pão, nada disso, cereais, hoje, são exclusivamente uma espécie de batatas fritas contidas em caixas de diversas marcas entre as quais a Kellogs.
Sendo este um derivado produzido já no século XX, questiono-me como terá sido possível a humanidade sobreviver e prosperar sem consumir os ditos cereais ao pequeno almoço.
Aprendi também que Paulo Pedroso recuperou hoje mais um sapato que tinha deixado na sua cela., visto que ontem já tinha assistido à recuperação de um sapato esquecido nas mesmas circunstâncias.
Reconstituído assim o par, espero que amanhã não tenha que ver de novo Paulo Pedroso tomar o seu pequeno almoço junto a Vera jardim (e ao que me pareceu sem cereais) e a recuperar novo sapato na penitenciária.

2003-10-14

Uma tentativa de metapost

Nelson Heitor, um reputado enófilo e enógrafo da nossa praça, disse-me um dia que se irritava sumamente quando algum seu convidado de jantar, ao ser-lhe proporcionado um excelente vinho branco, lhe demonstrava o prazer que lhe era proporcionado com este elogio bastante comum:
Está bom, está fresquinho !
De facto, para quem conhece profundamente um vinho e os segredos que ele desvenda, destacar como qualidade determinante o estar fresquinho é extremamente pobre.
Era tão bom que assim fosse, todos poderíamos extrair o profundo prazer de um vinho branco baixando a sua temperatura apenas.
Hoje e a propósito, meditei também num comentário que ouvi a uma lindíssima “top model” que, depois de pensar um pouco, resumiu a qualidade do vestido que envergava como sendo:
Muito feminino !
Ao ver aquela inequívoca mulher lindíssima questionei-me:
Porquê procurar apenas ou determinantemente num traje a confirmação da sua já óbvia feminilidade ?
Será que na riqueza e complexidade de um ser humano o relevante mesmo é esse estado, meramente aleatório que nos impõe um género ?
Mas é assim: uns contentam-se em beber um vinho fresquinho, outras em ser suficientemente femininas.
São estas situações que me recordam permanentemente aqueles 3 versos determinantes de Almada Negreiros que já transcrevi num post abaixo:

Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
A boiar à tona d`água, à mercê dos ventos
Sem nunca saber que fundo que é o Mar

Eu, também como disse Almada, quero mais, eu quero sempre muito mais !

2003-10-13

O Homem da voz doce

Vindo de fundo dos tempos, cavalgando as ondas da radio, o homem da voz doce e olhar profundo e penetrante abre-nos, diariamente, a janela do mundo revelando-nos sinais.
Sinais de um quotidiano sempre repetido e sempre renovado, brotando sangue ou rindo e gargalhando nos dias claros e escuros sob o sol escaldante do verão ou entre a chuva e o frio árctico de todos os Invernos.

Falo de quem ? De Fernando Alves, obviamente.

Porra, Fernando Alves, creio que já ninguém o suporta diariamente na TSF, alardeando esses textos pseudo-poéticos de um enorme mau gosto, conseguindo a proeza de transformar alguns temas interessantes numa massa homogénea e ridícula de linguagem ultra "Kitsch".
É a medicultura na sua plenitude.
Parece que se confirmam os meus piores receios relativos à substituição de Carlos Andrade na TSF: O fim de alguma objectividade e oportunidade, que colocaram essa estação num lugar único entre todas as rádios, e o nascimento de uma grelha medíocre e homogeneizadora, com muito Fernando Alves, construída, supostamente, para agradar às massas, seja lá o que isso for.
Isto para não falar da música mas sobre isso já se pronunciou, muito bem, o "Muro sem vergonha.

2003-10-11

Reciclagem

Se bem que me considere macaco, notem bem que assumo essa qualidade sim mas complementada por uma chama Divina e, não esperava, absolutamente não esperava, ter mais dificuldade em separar ecologicamente o meu lixo do que o chimpanzé da televisão que, dizem, aprendeu essa tarefa em tempo relâmpago.
A realidade é a seguinte:
Tenho 4 contentores, um que diz pilhas, outro embalagens, outro papel/cartão e ainda outro que diz vidro.
Os detritos que eu produzo em maior abundância são garrafas de vinho; claramente de vidro, mas geralmente com rótulos de papel e que são, igualmente para todos os efeitos embalagens.
O instinto diz-me que é o vidro que é determinante mas não me apetecendo retirar o rótulo para colocar no depósito de papel, o depósito de embalagens torna-se mais tentador.
Felizmente que após uma vista a uma fábrica da Barbosa e Almeida aprendi que o processo de reciclagem suporta o papel dos rótulos que são eliminados e as garrafas vão assim para o depósito do vidro, embora, quando não são de vinho e têm tampa metálica, por minha iniciativa, retire a tampa e a enfie no contentor das embalagens, para onde vão todas as latas de cerveja, sardinha, atum etc.
Defini assim a minha rotina embora apenas ao fim de algum tempo.
Hoje a minha mulher perguntou-me onde poria uns cacos de barro produzidos por um acidente caseiro.
Pensei, pensei, pensei mas não arranjei solução, tive que lhe dizer: Tens de perguntar ao chimpanzé.

2003-10-10

Eu estava lá

Não, não fui assistir ao desfile de Eanes, como candidato a PR em Évora.
Estava naquele dia, naquele exacto momento, com a minha filha no parque infantil donde, do alto, se domina a rua por onde passava o desfile.
Ouvi os tiros e vi Eanes, imediatamente, erguer-se bem de pé na sua viatura, oferecendo o seu peito às balas que todavia nunca chegaram para ele.
Lembro-me de pensar no momento, este homem veio completamente cacimbado da Guiné.
O gesto é sem dúvida bonito e, no momento, exultou o povo que assistia, mas, na realidade revelava uma enorme imprudência, direi mesmo inconsciência. Se alguém o quisesse ferir ou matar tinha-o feito ali com a maior das facilidades.
Só hoje, passados 25 anos, soube que morreu um homem com uma bala perdida que o atingiu sobre o muro onde estava sentado, também com a sua filha que teria idade próxima da minha.
Só hoje, passados 25 anos, soube que, muito presumivelmente, as balas terão surgido da própria segurança de Eanes.
O que me passa pela cabeça é demasiado obsceno para o revelar aqui.

2003-10-08

Enganar a Fome

Os especialistas da fome no mundo (há muitos e trabalham em conjunto com outros especialistas empenhados em fazer-nos acreditar que vivemos num reino de abundantes delícias, embora nenhuma "grande farra" se vislumbre ...) vêm comunicar-nos os seus cálculos: o planeta será capaz de produzir a quantidade suficiente de cereais para que ninguém passe fome, mas o que é perturbante nessa visão idílica é o facto dos "paises ricos" consumirem abusivamente metade dos cereais, só para alimentação do seu gado. Mas quando se conhece o gosto desastroso da carne que nos chega dos matadouros, proveniente da engorda acelarada à base de cereais, poderá falar-se de "paises ricos" ? Certamente que não. Não é para nos fazer viver no sibaritismo que uma parte do planeta tem de morrer à fome: é para nos fazer viver na lama. O eleitor, contudo, adora ser lisonjeado quando lhe lembram que o seu coração pode estar a ficar um pouco insensível - ele a viver tão bem enquanto outros países contribuem, à custa de cadáveres dos filhos, stricto sensu, para que vá engordando. O que agrada ao eleitor, neste discurso, é ouvir dizer que vive como um rico.
Sente-se bem a acreditar nisso.

Parte do texto "Enganar a Fome" por Abat-Faim
(atribuído a Guy Debord)


Fiquei atónito

Os factos todos os conhecem, levaram à demissão de 2 Ministros.
O que me deixou atónito, todavia, foi a nota do MNE desta manhã que, segundo as transcrições que pude ler na imprensa, referem que o Secretário de Estado das Comunidades, José Cesário elaborou uma proposta de alteração da lei de acesso ao ensino superior que previa a alteração da excepção em causa de forma a limitar a exigência de frequência do 11º ano no estrangeiro e não do 12º como a actual lei exige e que foi próprio Ministro que não autorizou que essa proposta avançasse.
Ouviram bem ? Foi o próprio Ministro que não autorizou que a proposta seguisse, quer dizer, o Ministro não concordava com a proposta, o Ministro não concordava com a excepção que legalizaria a admissão da sua filha.
Então o que é isto ? Não concorda com a alteração que permite enquadrar a situação e autoriza que a sua filha faça um requerimento no sentido de que seja interpretada a lei no sentido que ele não concorda ?
Curiosamente não vi nenhum jornalista ou comentador a salientar este aspecto, pelo contrário, criticavam a apresentação da proposta por parte do Secretário de Estado, e deixaram passar o deveras espantoso que é a recusa do Ministro.
Entretanto as coisas vão-se superando, só falta perguntar agora: e o Director Geral cuja informação desencadeou todo este imbróglio e meteu os pés pelas mãos nas entrevistas que concedeu e até falou das “leis que não estão na lei”, é um anjinho ? está bem no lugar ?, parece que sim porque dele quase ninguém fala.

2003-10-06

Reflexão sobre o “light”

Sei muito pouco sobre poesia e embora goste imenso dessa forma de expressão, é um puro amor de amante e não de especialista, gosto ou não gosto quase por sentimento, pelas emoções que me desperta ou não e pela consonância dessas emoções com o que penso ser as intenções do autor, mas não sei explicar por quê, julgo aliás que, por definição, a arte nunca se explica ou perderia a dimensão artística e transformar-se-ia num ensaio mais ou menos racional
Dos versos que se seguem gosto muitíssimo. É raro o dia em que eles me não vêem à memória ao ler alguns blogs:
...
Eu queria que a vida fosse tão divinal
Como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
A boiar à tona d`água, à mercê dos ventos
Sem nunca saber que fundo que é o Mar|
...
Pequeníssimo trecho da “Cena do ódio” de José de Almada Negreiros

2003-10-03

Não, não vou falar dos Srs. Ministros

Hoje limito-me a dizer adeus à Formiga de Langton que encontrou a sua auto-estrada e partiu.
Boa viagem
O meu link, porém, vai ainda permanecer alguns dias

2003-10-02

Falando Sério

Foram apreendidos, em Portugal uma série de DVD piratas oriundos, parece, da Malásia.
Em Varsóvia, como alguns conhecem, existe o chamado mercado russo.
Uma espécie de feira de Carcavelos ou semelhante, mas em grande, em muito grande escala, que domina um estádio, quase no centro da cidade, e que consta de todos os guias turísticos, onde grande parte dos turistas vão, e onde os táxis ultrapassam qualquer barreira linguística e nos conduzem prontamente a partir de qualquer expressão, mesmo mal pronunciada de “Russian market”, “marché russe” e, creio, ainda que não tenha experimentado, “mercado russo”, ou “Rynek russky” ou algo semelhante. Não se pode falhar.
Comprei aí, muito em conta, alem de outras coisas, diversos DVD e CD pirata.
Ao longo de vários meses deste ano vivi várias situações relativas à atitude da polícia naquele mercado.
Primeiro, em Fevereiro, comprei abertamente: quando a polícia, sempre presente, passava, os tendeiros cobriam com decoro o escaparate que logo reabriam quando os guardas ultrapassavam os 2 metros de distância.
Meses passados, após o referendo de adesão à UE, voltei a comprar mas já como, suponho, se compra droga ou algo assim: falando ao ouvido, entrando em meandros esconsos, por baixo de balcões.
Um pouco mais tarde, depois de assistir a aparentes prisões públicas, pela minha timidez, já não consegui comprar nada do tipo.
Alguns dizem: é a Polónia a entrar na legalidade, na perspectiva da adesão à UE.
A minha reflexão foi um pouco diferente:
O que vi naquele mercado, a princípio, foi o capitalismo liberal em acção, “laisser faire laisser passer”, com o tempo e a evolução descrita e a intervenção da polícia, do Estado, verifiquei “Isto é o capitalismo global em luta contra o capitalismo local”.
Extrapolando para os DVD apreendidos em Portugal questiono-me: A quem está a proteger de facto a polícia com esta apreensão ?
A mim e ao comum dos cidadãos não é de certeza porque me impede o acesso à livre concorrência e a beneficiar dos mesmos bens a muito melhor preço.
Dizem-me, que não estou a ver bem, que é para salvaguardar os direitos de autor e impedir que outros usufruam do trabalho árduo dos verdadeiros criadores.
Reconheço que a questão é muito complexa mas quando vejo a opulência dos referidos criadores e das distribuidoras globais, penso que todos já foram regiamente pagos pelo seu trabalho e quando imagino os desgraçados malaios que copiaram com engenho e arte aqueles DVD para mo proporcionarem a preços acessíveis, julgo que são mais merecedores do meu dinheiro, embora tenha também consciência que uns e outros são pedras de um mesmo sistema e veja, com clareza, que quem vai beneficiar mais, mesmo da compra dos DVD piratas, não são os pobres malaios mas será sempre o mesmo capital.
Fico a aguardar pela aldeia de macacos onde deveríamos viver e onde esta complexidade se simplifica de modo mais simples, em dimensão humana e onde uma maior equidade poderia reinar.

2003-10-01

Porque chora meu coração ?

Numa recente reunião familiar, onde se tenta resumir os dias não ouvistos, tive a oportunidade de ler um artigo escrito pelo meu Pai, sangue do meu sangue, raiz minha neste mundo, sobre as suas opiniões sobre "desenvolvimento sustentado".
O que é ? esse tal de "desenvolvimento sustentado" ?
O "desenvolvimento sustentado" aparece-nos como um capitalismo saudável ! Algo que apesar do "desenvolvimento", está igualmente distribuído no "deve" e no "haver" da contabilidade da vida.
É o sonho "naif" das quimeras do PREC, é a Suécia !
Acertadamente, e porque tem um coração puro e verdadeiro, apontava ele (meu Pai) para o facto da "diversidade" ser a chave para esse "desenvolvimento sustentado". O problema, e a razão porque chora meu coração, reside no facto em que esta "diversidade" só ser possível na condição que se "sustente o desenvolvimento".
Apesar do correcto instinto, não concebe "diversidade" fora dos padrões do que se entende por "desenvolvimento". Não se trata de um apelo ao verdadeiramente diverso ! A tudo aquilo que não se concebe neste mundo !
A "diversidade" junta ao "desenvolvimento sustentado" não passa de todos os "flavors" que sustentam esse desenvolvimento !
É como nas lendas medievais; munidos de boas intenções todos andam à procura do santo gral: O capitalismo corrigido !
Só a negação da totalidade existente, apela ao verdadeiramente diverso, a tudo aquilo que se aprecia pela poética de se ser INDIVIDUO e INDIVIDUAL.

2003-09-30

Duas observações

O espectáculo dos media começou, e bem, a levantar problemas de incompatibilidades entre negócios ligados ao combate ao fogo e a actividade de bombeiro.
Mas inevitavelmente, começa o típico processo de homogeneização e passa a ser tudo igual: vender extintores, vender viaturas e mesmo fazer projectos de segurança contra fogos destinados ao público em geral e não aos bombeiros.
Assim não se chega lá.
Entretanto, Pedro Santana Lopes, na SIC, revelou o sentimento positivo da semana:
O concerto dos Rolling Stones: “Coimbra recuperou a importância que nunca perdeu”, disse.
Isto é deveras notável, recuperar o que nunca se perdeu, só mesmo os Rolling Stones eram capazes de tamanho feito.

2003-09-28

Declaração de um contribuinte

Para os devidos efeitos declaro que autorizo, com gosto, que os euros dos meus impostos ajudem a financiar algumas horas de prazer de funcionárias da cantina da Câmara de Lamego e outros concidadãos, em passeios de helicóptero sobre o Douro.
Mais declaro que me oponho absolutamente em contribuir com esses mesmos euros para financiar a deslocação de agentes da GNR para o Iraque, ao serviço das forças de ocupação daquela nação.

2003-09-26

O homem médio

Ao ler este artigo de Eduardo Prado Coelho sobre o livro de Gilles Châtelet: "Vivermos e pensarmos como porcos", pressinto que a noção de homem médio aí referida não é mais do que o de “réplicas” de que o Adriano fala em baixo.
Não li ainda o livro nem, de facto, conheço o autor mas não deixarei de o fazer e agradeço ao Eduardo PC o ter-me mostrado um pouco do que pode estar está por trás de um título e de uma capa “kitsch”.

2003-09-25

Os anti-Midas

O Blog de Esquerda publicou um poema de José Miguel Silva, todo ele interessante e certeiro, sigam o “link” e vejam se não é.
Mas o que mais gostei foi da introdução que aí é feita da noção de anti-Midas: os que transformam em merda tudo em que tocam.
Pelo menos Portugal está cheio de anti-Midas, infelizmente muitos, em posição de influenciar as nossas vidas.
Este termo vai já entrar no meu dicionário.

Os mortos na estrada

Imaginemos que um estudo “científico”, um desses que diariamente nos chegam pela tv, demonstra que o uso de botões metálicos provoca uma ligeira alteração na concentração de quem os utiliza.
O governo, sempre atento a estas descobertas, proíbe o uso de casacos com mais de 3 botões metálicos na condução.
A vida continua, há acidentes na estrada e suponhamos que se verifica que 10% dos acidentados usavam mais de 3 botões metálicos.
A tese fica provada, independentemente da correcção do estudo de base, agora a experiência comprova os factos: usavam mais de 3 botões e tiveram, na realidade acidentes, o uso de botões metálicos passa a ser uma importante causa de acidentes e a solução é óbvia: baixa-se o limite de 3 para 2 botões metálicos.
Infelizmente esta medida não tem efeito pela irresponsabilidade dos automobilistas que continuam a usar botões metálicos em excesso.
Parece uma anedota esta história mas traduz exactamente o que se passa na realidade com as supostas principais causas de acidentes: a velocidade e o álcool.
Os limites de velocidade são estabelecidos administrativamente, a partir daí, todos os acidentes em que uma viatura circule a mais velocidade do que a legal, passam a ter como causa o excesso de velocidade, a solução tomada é sempre a de baixar esse limite legal e fica-se espantado porque os acidentes persistem.
Com o álcool passa-se o mesmo, não restam quaisquer dúvidas que o álcool retira capacidades de condução, só que os efeitos nocivos não se verificam ao nível dos 0,2 ou mesmo 0,5 ou 0,8 e baixar limites nesta faixa não tem qualquer efeito mas como o termo de comparação é sempre o limite legal, se esse limite for 0, como alguns querem, uma taxa de 0,001 g/l passa imediatamente a ser causa de acidente.
E assim persiste esta calamidade e se distrai a atenção dos verdadeiros problemas: o excesso de velocidade quando ele é aferido em relação às condições objectivas da viatura e da via e não ao limite legal, o excesso de álcool quando ele aferido relativamente às condições de concentração e consciência do condutor e não ao limite legal, mas também e sobretudo as manobras perigosas e aquela que pressinto ser, de facto, a principal causa: o sono ao volante.
Mas como nunca saberemos se o morto estava a dormir ou não, esta nunca será considerada uma importante causa de acidente.
Não está nas estatísticas, não existe.

O balanço do Euro 2004

Hoje estava sem inspiração, pensei mesmo em não postar neste blog mas o Ministro Arnauld é uma permanente fonte de inspiração.
Disse ele, mais ou menos, que os portugueses querem saber qual o saldo do Euro 2004 e, para satisfazer esses desejos encomendou uma avaliação sobre o impacto económico.
Sabe-se já o custo dos estádios, não disseram os custos desta avaliação mas, comparativamente suponho que é insignificante, resta avaliar os benefícios.
E aqui é que surge a dificuldade, para além dos benefícios directos nas receitas de bilheteira, das transmissões televisivas, do “merchandizing”, do turismo derivado e outros, grande parte dos benefícios caiem nesse domínio nebuloso imaterial para o qual não existe ainda uma metodologia de avaliação fixada, como sejam o aumento do prestígio de Portugal no mundo, traduzível talvez em turismo e contratos futuros ou o aumento do amor próprio dos portugueses que certamente se traduzirá em aumento da produtividade.
De qualquer forma é uma área com grande margem para especulação.
Antevendo todas as dificuldades e polémica que pode rodear este estudo para quem o queira observar em detalhe gostaria de avisar o Sr. Ministro que eu, apesar de ser português, não estou interessado em conhecer este saldo.

2003-09-23

Lay off na função pública

Funcionário público há uma porrada de anos e vendo a facilidade com que os sucessivos governos declaram serviços inúteis para criar outros ainda mais inúteis, fiquei alarmado com estas notícias do lay off na administração pública.
Logo a seguir, o aumento do horário semanal, ou seja: a tecnologia avança e nós em lugar de trabalhar menos temos de trabalhar ainda mais.
Mas logo o Governo me sossegou: Isto não é para os actuais funcionários é só para os futuros e para os de contrato individual.
Ai que bom, não é para mim, os outros que se amanhem, pois então.

2003-09-22

A credibilidade do anónimo

JPP disse ontem na SIC que as cartas anónimas se devem rasgar.
Luís Guilherme, presidente da Comissão de arbitragem da Liga, também disse:
“O doutor Bettencourt vai ter de dizer quais são os cozinhados que eu faço e quem me telefona para me pressionar”
Tudo isto são declarações politicamente correctas, sem dúvida, mas se toda a gente só falar dispondo de provas e assumindo nominalmente o que diz será que, por exemplo, ter-se-ia levantado a questão da pedofilia ?
Não tenho dúvidas que o anonimato e o rumor permitem todas as calúnias e injustiças mas não tenho também dúvidas que o dizer a verdade pode custar a muita gente a carreira a credibilidade e por vezes a vida que leva muitos a calarem-se ou a ter que recorrer a essa “indignidade” .
Afastar liminarmente o anónimo é confundir a mensagem com o mensageiro e pode ser, muitas vezes, pactuar com o status quo podre e mal cheiroso.
Também se só pudéssemos denunciar na posse de todas as provas, não precisaríamos de Tribunais.

A contra informação

Ontem, graças ao vídeo, lá vi JPP na SIC, prosseguir a sua campanha contra o Muito Mentiroso: técnicas de contra informação dizia, muito acertadamente.
O que não disse é que essas técnicas são usadas todos os dias, mesmo nos discursos mais politicamente correctos; vivemos, aliás, numa sociedade de contra informação.
Um pequeno exemplo tirado da SIC Notícias há momentos sobre a queda da passagem pedonal do IC 19:
Uma informação interna do Instituto das Estradas (espero que se chame assim) dizia já que o risco existia e isto 41 dias antes do colapso e induz nos ouvintes que apenas por incúria daquele Instituto não se fechou imediatamente o IC 19 para corrigir a fonte do perigo.
Vejo-me na posição do decisor do Instituto: é fácil, fecha-se o IC 19 e corrige-se a deficiência, era, sem dúvida, a decisão racional.
Imagino, no entanto, qual seria o meu futuro e o julgamento dos media se tomasse essa decisão elementar.

2003-09-21

Partilha

Como se vê e para o tornar mais dinâmico, este blog é agora partilhado com o Adriano.
Teremos posts “soft” e posts “hard”, todavia a linha editorial não irá diferir muito.
Ficará mais rico, creio eu

Réplicas

A réplica é todo aquele que se demite de gente.
A réplica substitui a consciência de si, pela imagem, pelo abstracto.
A réplica è a materialização não-viva do status-quo, ela reflecte e justifica o comportamento da mercadoria.
A réplica tem como fim a manutenção da taxa e do balanço, invenções medievais e meios de dominação.
A réplica produz energia viva que fornece à abstracção, de modo a prolongar esse ciclo de abre e tapa buracos, a que chamam orgulhosamente de trabalho, até o corpo estar gasto, velho ou feio.
A réplica substitui a justiça pelo argumento económico, ela prostituí a liberdade na noção tacanha de "poder de escolha": entre o nada e o nada, entre o morto e o morto, de e para os mortos.

Intelectuais e especialistas, ou melhor, os filhos da puta dos intelectuais e dos especialistas constróem pouco a pouco os episódios da novela de tédio em que consiste a não-vida e a não-opinião da réplica.
Trata-se de um "Role-Play Game", onde o herói enfrenta o mundo virtual com um objectivo bem demarcado (no entanto desconhecido para o próprio), objectivo esse que permite o desenrolar do enredo, onde se encontram personagens que se satisfazem com uma das 3 opções escritas a branco no monitor ou zurradas domingos à noite pelo Sr. Prior esse já visto "educador do povo".

Á medida que toda a comunicação se desvirtua e se torna simplex, (este termo pode ser interpretado em toda a sua extensão) processa-se a transformação do indivíduo em espectador. A linguagem esvazia-se na hegemonia do "senso comum". As soluções vêm por cabo, as emoções vêm por cabo, o prazer vêm por cabo. Para quê a linguagem, se não existe opinião nem associação? A linguagem da réplica fica reduzida ao necessária para cumprir o seu fim produtivo, sendo ela o grande meio. A gíria estabelece-se agora em função da produção e não por condicionantes culturais ou geográficas.

A réplica só possui capacidade de analisar uma situação se esta contribuir para o seu fim produtivo. Se tal for o caso, a réplica, é capaz da mais prodigiosa das inferências. Mas não é por ela que pensa, não é por ela que decide mas por algo que a supera e que no entanto por ela é produzido e consumido.

O processo está longe de ser pacifico e ainda existem muitas dificuldades e incompatibilidades na adaptação do corpo a esta nova "alma colectiva". A doença mental aparece, explorando a fenda, entre o natural e o artificial. Entre o seu corpo e as suas abstracções.

Toda a réplicas tem numero de serie diferente. É nesta diferenças que o termo "réplica" se pode aplicar com mais propriedade, e onde mais facilmente se identifica.

A réplica nada cria tudo produz.

2003-09-19

O que dizem os mestres

Percorrendo os vários noticiários televisivos ocorreu-me o que Aldous Huxley já tinha dito em 1959, muito melhor do que eu o poderia fazer:

“No que à propaganda diz respeito, os primeiros defensores da instrução obrigatória e de uma Imprensa livre só encaravam duas possibilidades: a propaganda podia ser verdadeira ou podia ser falsa. Não anteviam o que na realidade aconteceu, principalmente nas nossas democracias capitalistas ocidentais – o desenvolvimento de uma vasta indústria de comunicações com as massas, que na sua maior parte se não ocupa nem do verdadeiro nem do falso, mas do irreal, o mais ou menos totalmente irrelevante. Numa palavra, não tiveram em conta o quase infinito apetite humano de distracções.”
Huxley, Aldous: Regresso ao Amirável Mundo Novo.
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2003-09-18

Chegou um e-mail de Sharon

Ainda ontem, Colin Powell, afirmava a posição dos EUA como sendo contra a insensata posição do Governo de Israel de eliminar Arafat da cena política.
Pois é mas foi ontem. Hoje, Bush recebeu ordens de Sharon e já afirmou que Arafat foi a principal causa do colapso do “road map”, não disse o resto mas releva imediatamente.
Torna-se assim claro o que já se sabia. O conceito de civilização ocidental e de democracia, para Bush é o que serve os interesses dos EUA e liderança democrática não é, como alguns ingénuos pensavam, a liderança escolhida pelos liderados, mas só essa se tiver o aval de Sharon, neste caso, e, por extensão, de Bush.
Mas a sua afirmação mais séria foi a de que Arafat foi um mau líder e isso sim, vindo de quem vem, daquele portento de líder, verdadeiro farol que ilumina o mundo, tem que nos fazer pensar a todos.
De boa liderança Bush tem-se mostrado, de facto, um mestre.

Aguenta-te Abrupto

Mal eu imaginava, quando fiz aquele socio-post sobre a blogosfera e vaticinei a perda da realeza do “abrupto”, que as minhas palavras fossem tão proféticas e tão rapidamente.
Não é que num relâmpago o “muito mentiroso” chegou viu e venceu, com mais de 170 mil visitas em cerca de um mês para as portentosas 163 mil, laboriosamente conquistadas por JPP ao longo de alguns meses.
Mas, infelizmente, não era nada disto que eu queria. Queria uma luta honesta cimentada na qualidade e que derrotasse o Rei pelo seu próprio mérito.
Ora este arrivista é uma vergonha, nem sequer diz nada, não sabe nada, só faz perguntas e mesmo estas, segundo afirma, são emprestadas por misteriosas vozes do além que diz ouvir.
Ora perguntas que cheguem já eu tenho de sobra, o que queria é ver respostas.
Num ponto só, parece honesto, quando afirma não acreditem em nada do que digo mas, vendo bem, afinal o que é que diz que nós não devemos acreditar se na realidade nem diz nada ?
O “Abruto” tem lutado, justiça lhe seja feita.
Espero que vença esta, rapidamente, e que venha então a ser derrotado por alguém que mereça.

2003-09-17

Inspiração 2

Este período de convalescença tem-me permitido deambular preguiçosamente pelos vários canais do cabo. Hoje passei algum tempo assistindo à primeira sessão plenária após o regresso de férias do Parlamento, no respectivo canal da TV.
Nessa observação despreocupada foi-se reafirmando na minha mente um sentimento antigo e que se assume como regra na nossa democracia:
As oposições mostram-se quase sempre mais lúcidas do que os governos e talvez isso se possa explicar pela menor dependência dos lobies e capelinhas que enleiam a acção governativa, permitindo-lhes uma apreensão mais fiel da realidade.
E foi assim que a minha cabecinha pensadora formulou uma hipótese de grande alcance:
Se assim é, deveriam ser sempre as oposições a governar mas, de tal maneira, que se mantivessem na oposição, sob pena de perderem fatalmente a lucidez.
A minha proposta é assim a seguinte: as oposições deveriam concertar um verdadeiro governo sombra, como muitas já têm ou dizem que têm, a diferença é que todas as manhãs os ministros do governo deveriam ir a despacho aos respectivos sombra e ficavam vinculados às decisões destes últimos.
Teríamos assim sempre a oposição no poder !?
Para os governos era sempre cómodo o poderem desculpar as suas asneiras com a incapacidade da oposição, para a oposição seria mais simples poderem dizer mal das suas próprias medidas. A democracia beneficiava da prudência e autocrítica permanente que a implementação do sistema iria exigir.

2003-09-15

Inspiração

Neste período de convalescença, com tempo disponível para a especulação e auxiliado por um cocktail de drogas médicas que inundam o nosso corpo, permite-nos revisitar velhos problemas com um novo olhar mais lúcido.
Vejamos:
Ouço falar nos “media” que não há juizes suficientes, obrigando a administração judicial a trocas e arranjos permanentes pouco funcionais.
Pois eu achei a solução: à semelhança do que se passa na saúde, contrate-se rapidamente juizes espanhóis (ou talvez ucranianos porque os há em barda, suponho) e ficamos com o problema da falta de juizes resolvida.
Poderão dizer que o problema da língua poderá colocar algumas dificuldades à justiça mas para isso também há uma solução:
Audiências em inglês, que é uma língua que todos os juizes conhecem até noutras galáxias, como vemos nos filmes, e para os pobres arguidos portugueses, ignorantes, que não conhecem o inglês usavamos, como intérpretes, os milhares de professores de inglês que ficaram desempregados no último concurso.
Era um golpe de génio: com uma só cajadada, matava-se coelho da Justiça mais o coelho da Educação.
É ou não é brilhante ?

2003-09-13

Sobrevivi

É certo que estou longe dos 100 %. A imaginação ainda é tolhida por dores incomodativas e persistentes mas, lentamente, volta algum ânimo e tenho esperança que muito em breve possa voltar a “postar” com alguma regularidade.
A ver vamos.
Por agora limito-me a constatar que o 11 de Setembro passou e que os supostos livros por bombas ninguém os viu, parece.
Afinal, para os seus autores, o “happening” limitou-se ao anúncio do acto.
O efeito não foi tão espectacular mas, pelo menos, saiu muito mais barato.

2003-09-08

Paciência

Amanhã, vou ser submetido a uma intervenção cirúrgica, a primeira, para mim, digna desse nome.
Receio bem que nos próximos dias não tenha a capacidade e/ou a pachorra para postar neste blog.
Mas esses dias hão de passar, espero bem, eu depois conto.
Entretanto aguardem por algumas considerações sobre a morte do “pá” que eu ainda conheci viçoso e de boa saúde e uma pequena homenagem ao Bobby Fisher porque acho que o gajo merece.
Até breve, espero eu.

O Coito interrompido

Que me perdoem os anti-tabagistas mergulhados no seu obscurantismo ingénuo e bem intencionado mas vejo com apreensão, por esse mundo fora, o crescendo de restaurantes onde é proibido fumar.

É um pouco como um bordel onde seja proibido ter orgasmos.

Para mim, sempre assim foi: uma boa refeição é como o preliminar para o amor mas o êxtase mesmo, onde os espirito se liberta, a paz e o prazer invade o nosso corpo, é o momento final de álcool, cafeína e nicotina. È um orgasmo tântrico, pode durar 15, 20, 30 minutos e, se álcool provier de uma aguardente vínica velha e excelente e, a nicotina de um habano igualmente sublime, o orgasmo poderá atingir os 45 minutos a uma hora com uma intensidade inigualável.

Que pena não os poder ter sempre e ver que muitos nunca o presenciaram.

2003-09-07

Só nos dão merda

Outro dia, fiz uma pausa nos meus zapings contínuos, parando no canal Mezzo, atraído por uma música belíssima, profunda de emoção e que era um pouco estranha para mim.

Aprendi que eram romenos que se chamavam Taraf de Haidouks, um vasto grupo multigeracional, tocando maravilhosamente e cantando palavras que não percebia, embora compreendesse tudo.

Bendito KAZAA que me permitiu enriquecer a minha colecção de mp3 com essas músicas fabulosas e que prontamente, como qualquer neófito, fiz ouvir ao meu filho perguntando-lhe: "Porque é que nunca ouvimos isto na rádio ? ao que ele me retorquiu sabiamente: "Pois é, pai, só nos dão merda".

Pela minha mente passaram ideias:

A sociedade global que homogeneíza e me priva de muito do que é bom, certamente do melhor, que nunca hei de conhecer.

A globalização digital que me aproxima de tudo e me permite chegar ao melhor. E há quem queira acabar com esta: Deus ou os homens os tornem impotentes.

2003-09-06

Livros por bombas

Terminado mais um jogo do nosso descontentamento, nada melhor do que esquecer imediatamente e passar a diante.

Ouvi ontem a notícia na TSF mas tão mal explicada, tão falha de pormenores que me deixou levemente expectante mas muito céptico.

Dizia-se que um grupo de poetas, iria comemorar o 11 de Setembro, lançando livros em várias cidades dos EUA e europeias. Livros daqueles que mudam o mundo ou, pelo menos, o mundo interior de quem os lê.

Naturalmente, será logisticamente difícil por em prática uma acção destas de forma minimamente visível, de qualquer modo, esta forma de “terrorismo poético” ao estilo de Akim Bay, se bem praticada, poderá bem ser uma pedrada no charco de muitas consciências.

2003-09-05

O que se come por aí

Já repararam a quantidade de gente que se anda a alimentar de hidratos de carbono, calorias, proteínas, sais minerais, vitaminas e coisas como estas.

Cá por mim continuo a preferir pão, açordas, bifes de vitela, feijoadas à transmontana, arroz de frango, robalo cozido, couves salteadas em azeite e alho, enfim, coisas saudáveis e saborosas. Proteínas ? Deus me livre.

E, felizmente, não devo ser o único, acabo de ouvir na SIC Notícias que Portugal é o país da UE que mais gasta com a comida, antes assim.

2003-09-04

Os mortos do calor

O debate deste tema em Portugal tem assumido laivos surrealistas.

Em França, como sabemos, morreram cerca de 11 000 franceses mais do que o normal, devido ao calor excessivo que assolou aquele país e em geral a Europa e, esse acréscimo causou a falência dos serviços de apoio, hospitais, centros de saúde, e mesmo cemitérios.

O debate que se faz em França não é pois sobre o facto de o calor matar ou não matar franceses mas sim sobre a incapacidade de resposta dos serviços públicos para esse drama, o que levou à demissão do ministro, e sobre a organização social em geral que despreza os seus idosos e os vota à solidão e ao abandono.

Em Portugal não houve essa falência dos Serviços públicos, pelo menos de forma notória, e debate-se então o número de mortos: será que o calor só mata franceses ou também mata portugueses ?

O insólito vem quando o Sr. Ministro chega a uma conclusão espantosa, que a ser verdade, deveria levar sim a uma investigação muito séria e cuidada: Em Portugal o calor não mata as pessoas, só 4 portugueses (que, direi eu, deveriam ter algum sangue francês).

Para pôr a situação em perspectiva vou contar-lhes o que se passou perto de mim.

No passado 8 de Agosto morreu, na sua casa, um familiar meu idoso, com fortes problemas respiratórios. Ao sentir-se tão mal dirigiu-se em ambulância à urgência do hospital de Évora e ao fim de pouco mais de 1 hora foi remetido de novo para casa, pelo hospital, aconselhado a consultar um otorrinolaringologista.

Horas depois, morria em casa, só, no seu leito e em grande desespero.

A autópsia diz: morte por causas desconhecidas.

Histórias destas devem haver aos milhares e explicam tudo o que se passou em Portugal:

1.Morreu tanta gente como nos outros países, naturalmente, somos todos seres humanos.
2.Os serviços não faliram porque estão em falência permanente, não congestionam porque não recebem as pessoas em aflição e as remetem para morrer em casa.
3.Consultando os registos hospitalares o Sr. Ministro pode ficar assim contente, nos hospitais não morreu quase ninguém.

Não tenho qualquer dúvida.

2003-09-03

É inevitável mas espanta-me sempre

Já repararam como a blogosfera portuguesa reproduz a sociedade:

Há blogs aristocráticos, blogs burgueses, blogs proletários, blogs jovens, blogs velhos e de meia idade, blogs masculinos, blogs femininos, blogs saudáveis, blogs doentes, blogs honestos, blogs criminosos, blogs artistas, blogs cientistas, blogs sábios, blogs ignorantes, blogs liberais, blogs trabalhadores por conta de outrem, blogs funcionários, blogs militantes, blogs indiferentes, enfim é uma micro-sociedade de faz de conta.

Neste momento, há mesmo um rei que é o "abrupto".

Estou ansioso por um golpe de estado.

2003-09-02

O despertar do Homo Sapiens

Uma coisa que me incomoda e assusta é como a virtualidade informática contaminou já o suposto contacto humano das linhas de apoio a clientes:

Sim, Sr. Nuno, com certeza Sr. Nuno, mais alguma questão Sr. Nuno ?, obrigado pela sua atenção Sr. Nuno, desculpe tê-lo feito esperar Sr. Nuno. As fórmulas estão lá todas, impessoais na sua pessoalidade e, sobretudo, muitas vezes ineficazes se o problema transcende a rotina contida nas FAC.

Mas no outro dia experimentei uma nova táctica para despertar o Homo sapiens escondido atrás da linha telefónica.
Lembrei-me, sabem de quê?, do Hallo Hallo. Lembram-se daquela agente secreta da resistência e da sua fórmula permanente: “Listen very carefully, I shall say it only once” ?

Pois eu resolvi utilizá-la com a TMN, traduzida, é claro, e posso-vos dizer que o resultado foi espectacular. Dois dias depois fui despertado de manhã por um correio privado que me trazia em mão o extracto que já há perto de 2 meses, e após múltiplos contactos para o apoio a clientes, desesperava em obter.

2003-09-01

Este artigo de João César das Neves no DN, levanta uma questão essencial, direi mesmo a questão essencial: a procura da felicidade e a resposta a esta eterna questão: O progresso e a riqueza trazem-nos a felicidade ?
Deixando de parte, por agora, a questão mesma da "felicidade" (como Agostinho da Silva, penso que a obsessão pela "felicidade", como arquétipo, não traz senão a infelicidade), a resposta aquela questão é claramente não e não é preciso teorizar sobre o assunto, o artigo mostra-o e, mais importante, o nosso conhecimento e experiência também.
Por agora, limito-me a juntar um tijolo a esta construção:
Como primatas que somos, macacos, embora deuses, o bem estar e a "felicidade" está na nossa própria natureza, na vida em pequenos bandos, onde mantemos uma identidade e usufruímos do convívio com outros homens e mulheres, também eles concretos e únicos nas suas característica individuais que poderemos classificar de defeitos e qualidades.
E são estas estruturas simples que o "progresso" e a riqueza vêm destruindo, ao construir a sociedade global: tentando converter os primatas que somos, nalguma espécie social mais semelhante à das abelhas ou formigas.
Consciente ou inconscientemente, é esta luta que travamos sempre, constituindo os nossos bandos, formais ou informais, do café, do desporto, de interesses diversos, onde nos sentimos bem e que queremos sempre muito nossos.
Aliás, a própria blogosfera, ou segmentos dela, são também, de certa forma, as nossas aldeias de macacos.

2003-08-31

Reflexões sobre duas notícias da SIC notícias:
A

Empatia
Ingrid, prisioneira das FARC na Colômbia, produziu uma mensagem televisiva dizendo, mais ou menos isto, que devemos guiar-nos pelos nossos princípios e não pelos nossos interesses, que a decisão deverá ser política e não militar, que o resgate pedido deverá ser pago.
Análise, mais ou menos, racional de quem assiste a tudo isto num país distante, comodamente instalado frente a um televisor:
É evidente que são declarações de uma prisioneira, lutando pela sua vida e que, “por fraqueza”, serve os interesses dos seus algozes: captar mais fundos para que outras “Ingrid” sejam raptadas e todo este processo se perpetue até a um desfecho imprevisível.
O que gostaria de ouvir da boca de Ingrid seria, na sua dimensão divina: acabem com este círculo de morte, dialoguem, negoceiem com as FARC com base nas suas questões profundas, ofereço-me em sacrifício pela paz na Colômbia.
Mas pondo-me, empaticamente, no papel de Ingrid, tenho poucas dúvidas, faria exactamente como ela, e se tudo corresse bem, tentaria continuar a dormir.
B
Os Rolling Stones vão estar na inauguração do estádio municipal de Coimbra, vulgo, da Académica.
Tudo está a ser meticulosamente preparado. Estão envolvidos 5 camiões TIR. E mesmo a exigência de Mick Jagger de ter uma sala de snooker com a iluminação típica de um pub londrino vai ser satisfeita..
Graças a Deus, falhar nesse ponto seria imperdoável.
Por outro lado, se eu fosse o Mick Jagger, exigia isso e muito mais.
Paradoxo
Como pode terminar o “flashback” sem que o tema seja devidamente tratado no “flashback”.

2003-08-30

Foi já há muitos dias.
No espectáculo televisivo permanente, vejo Sua Excelência o Ministro Arnaud balbuciar incoerências quase incompreensíveis sobra a Casa do Douro e o que o governo quer ou não quer para ela. Foi o poder a falar muito, dizendo muito pouco.
Pouco depois uma reportagem sobre o aluno único de uma escola a fechar em meio rural. O jornalista, ou a, não me recordo, entrevista os pais da criança: "O que é que acha do seu filho mudar para outra escola com mais alunos ?" A mãe achava mal, entendia que o ensino dedicado era mais eficaz mas o pai, esse, dizia que era bom: os colegas também contribuem para a formação e sumariou o seu conceito nesta fórmula sábia: "Acho que um homem é para o mundo". Foi o povo a falar pouco dizendo muitíssimo.

2003-08-29

Macacos Deuses somos todos nós, movidos pela natureza de primata que nos imprime os desejos e os impulsos de vida mas com uma centelha Divina que nos dá rasgos de génio, nos eleva ou nos oprime e mata.
Uhf ! Custou mas foi.
Hesitei muitíssimo antes criar este Blog, sobretudo porque não tenho muito tempo para alimentar o "monstro" diariamente como penso que ele precisa mas, por outro lado, há tantas coisas que gostaria de dizer e que sem Blog estarão irremediavelmente condenadas a permanecerem em mim até deslizarem para esquecimento.
E assim, cá está o meu Blog, novinho em folha, feito sem pretensões nem preocupações, apenas por prazer, será o que eu quiser e poder.
Entretanto, ainda não percebo nada disto. Perdoem-me as deficiências que certamente virão por aí.
Com o tempo será talvez melhor.