2003-09-30

Duas observações

O espectáculo dos media começou, e bem, a levantar problemas de incompatibilidades entre negócios ligados ao combate ao fogo e a actividade de bombeiro.
Mas inevitavelmente, começa o típico processo de homogeneização e passa a ser tudo igual: vender extintores, vender viaturas e mesmo fazer projectos de segurança contra fogos destinados ao público em geral e não aos bombeiros.
Assim não se chega lá.
Entretanto, Pedro Santana Lopes, na SIC, revelou o sentimento positivo da semana:
O concerto dos Rolling Stones: “Coimbra recuperou a importância que nunca perdeu”, disse.
Isto é deveras notável, recuperar o que nunca se perdeu, só mesmo os Rolling Stones eram capazes de tamanho feito.

2003-09-28

Declaração de um contribuinte

Para os devidos efeitos declaro que autorizo, com gosto, que os euros dos meus impostos ajudem a financiar algumas horas de prazer de funcionárias da cantina da Câmara de Lamego e outros concidadãos, em passeios de helicóptero sobre o Douro.
Mais declaro que me oponho absolutamente em contribuir com esses mesmos euros para financiar a deslocação de agentes da GNR para o Iraque, ao serviço das forças de ocupação daquela nação.

2003-09-26

O homem médio

Ao ler este artigo de Eduardo Prado Coelho sobre o livro de Gilles Châtelet: "Vivermos e pensarmos como porcos", pressinto que a noção de homem médio aí referida não é mais do que o de “réplicas” de que o Adriano fala em baixo.
Não li ainda o livro nem, de facto, conheço o autor mas não deixarei de o fazer e agradeço ao Eduardo PC o ter-me mostrado um pouco do que pode estar está por trás de um título e de uma capa “kitsch”.

2003-09-25

Os anti-Midas

O Blog de Esquerda publicou um poema de José Miguel Silva, todo ele interessante e certeiro, sigam o “link” e vejam se não é.
Mas o que mais gostei foi da introdução que aí é feita da noção de anti-Midas: os que transformam em merda tudo em que tocam.
Pelo menos Portugal está cheio de anti-Midas, infelizmente muitos, em posição de influenciar as nossas vidas.
Este termo vai já entrar no meu dicionário.

Os mortos na estrada

Imaginemos que um estudo “científico”, um desses que diariamente nos chegam pela tv, demonstra que o uso de botões metálicos provoca uma ligeira alteração na concentração de quem os utiliza.
O governo, sempre atento a estas descobertas, proíbe o uso de casacos com mais de 3 botões metálicos na condução.
A vida continua, há acidentes na estrada e suponhamos que se verifica que 10% dos acidentados usavam mais de 3 botões metálicos.
A tese fica provada, independentemente da correcção do estudo de base, agora a experiência comprova os factos: usavam mais de 3 botões e tiveram, na realidade acidentes, o uso de botões metálicos passa a ser uma importante causa de acidentes e a solução é óbvia: baixa-se o limite de 3 para 2 botões metálicos.
Infelizmente esta medida não tem efeito pela irresponsabilidade dos automobilistas que continuam a usar botões metálicos em excesso.
Parece uma anedota esta história mas traduz exactamente o que se passa na realidade com as supostas principais causas de acidentes: a velocidade e o álcool.
Os limites de velocidade são estabelecidos administrativamente, a partir daí, todos os acidentes em que uma viatura circule a mais velocidade do que a legal, passam a ter como causa o excesso de velocidade, a solução tomada é sempre a de baixar esse limite legal e fica-se espantado porque os acidentes persistem.
Com o álcool passa-se o mesmo, não restam quaisquer dúvidas que o álcool retira capacidades de condução, só que os efeitos nocivos não se verificam ao nível dos 0,2 ou mesmo 0,5 ou 0,8 e baixar limites nesta faixa não tem qualquer efeito mas como o termo de comparação é sempre o limite legal, se esse limite for 0, como alguns querem, uma taxa de 0,001 g/l passa imediatamente a ser causa de acidente.
E assim persiste esta calamidade e se distrai a atenção dos verdadeiros problemas: o excesso de velocidade quando ele é aferido em relação às condições objectivas da viatura e da via e não ao limite legal, o excesso de álcool quando ele aferido relativamente às condições de concentração e consciência do condutor e não ao limite legal, mas também e sobretudo as manobras perigosas e aquela que pressinto ser, de facto, a principal causa: o sono ao volante.
Mas como nunca saberemos se o morto estava a dormir ou não, esta nunca será considerada uma importante causa de acidente.
Não está nas estatísticas, não existe.

O balanço do Euro 2004

Hoje estava sem inspiração, pensei mesmo em não postar neste blog mas o Ministro Arnauld é uma permanente fonte de inspiração.
Disse ele, mais ou menos, que os portugueses querem saber qual o saldo do Euro 2004 e, para satisfazer esses desejos encomendou uma avaliação sobre o impacto económico.
Sabe-se já o custo dos estádios, não disseram os custos desta avaliação mas, comparativamente suponho que é insignificante, resta avaliar os benefícios.
E aqui é que surge a dificuldade, para além dos benefícios directos nas receitas de bilheteira, das transmissões televisivas, do “merchandizing”, do turismo derivado e outros, grande parte dos benefícios caiem nesse domínio nebuloso imaterial para o qual não existe ainda uma metodologia de avaliação fixada, como sejam o aumento do prestígio de Portugal no mundo, traduzível talvez em turismo e contratos futuros ou o aumento do amor próprio dos portugueses que certamente se traduzirá em aumento da produtividade.
De qualquer forma é uma área com grande margem para especulação.
Antevendo todas as dificuldades e polémica que pode rodear este estudo para quem o queira observar em detalhe gostaria de avisar o Sr. Ministro que eu, apesar de ser português, não estou interessado em conhecer este saldo.

2003-09-23

Lay off na função pública

Funcionário público há uma porrada de anos e vendo a facilidade com que os sucessivos governos declaram serviços inúteis para criar outros ainda mais inúteis, fiquei alarmado com estas notícias do lay off na administração pública.
Logo a seguir, o aumento do horário semanal, ou seja: a tecnologia avança e nós em lugar de trabalhar menos temos de trabalhar ainda mais.
Mas logo o Governo me sossegou: Isto não é para os actuais funcionários é só para os futuros e para os de contrato individual.
Ai que bom, não é para mim, os outros que se amanhem, pois então.

2003-09-22

A credibilidade do anónimo

JPP disse ontem na SIC que as cartas anónimas se devem rasgar.
Luís Guilherme, presidente da Comissão de arbitragem da Liga, também disse:
“O doutor Bettencourt vai ter de dizer quais são os cozinhados que eu faço e quem me telefona para me pressionar”
Tudo isto são declarações politicamente correctas, sem dúvida, mas se toda a gente só falar dispondo de provas e assumindo nominalmente o que diz será que, por exemplo, ter-se-ia levantado a questão da pedofilia ?
Não tenho dúvidas que o anonimato e o rumor permitem todas as calúnias e injustiças mas não tenho também dúvidas que o dizer a verdade pode custar a muita gente a carreira a credibilidade e por vezes a vida que leva muitos a calarem-se ou a ter que recorrer a essa “indignidade” .
Afastar liminarmente o anónimo é confundir a mensagem com o mensageiro e pode ser, muitas vezes, pactuar com o status quo podre e mal cheiroso.
Também se só pudéssemos denunciar na posse de todas as provas, não precisaríamos de Tribunais.

A contra informação

Ontem, graças ao vídeo, lá vi JPP na SIC, prosseguir a sua campanha contra o Muito Mentiroso: técnicas de contra informação dizia, muito acertadamente.
O que não disse é que essas técnicas são usadas todos os dias, mesmo nos discursos mais politicamente correctos; vivemos, aliás, numa sociedade de contra informação.
Um pequeno exemplo tirado da SIC Notícias há momentos sobre a queda da passagem pedonal do IC 19:
Uma informação interna do Instituto das Estradas (espero que se chame assim) dizia já que o risco existia e isto 41 dias antes do colapso e induz nos ouvintes que apenas por incúria daquele Instituto não se fechou imediatamente o IC 19 para corrigir a fonte do perigo.
Vejo-me na posição do decisor do Instituto: é fácil, fecha-se o IC 19 e corrige-se a deficiência, era, sem dúvida, a decisão racional.
Imagino, no entanto, qual seria o meu futuro e o julgamento dos media se tomasse essa decisão elementar.

2003-09-21

Partilha

Como se vê e para o tornar mais dinâmico, este blog é agora partilhado com o Adriano.
Teremos posts “soft” e posts “hard”, todavia a linha editorial não irá diferir muito.
Ficará mais rico, creio eu

Réplicas

A réplica é todo aquele que se demite de gente.
A réplica substitui a consciência de si, pela imagem, pelo abstracto.
A réplica è a materialização não-viva do status-quo, ela reflecte e justifica o comportamento da mercadoria.
A réplica tem como fim a manutenção da taxa e do balanço, invenções medievais e meios de dominação.
A réplica produz energia viva que fornece à abstracção, de modo a prolongar esse ciclo de abre e tapa buracos, a que chamam orgulhosamente de trabalho, até o corpo estar gasto, velho ou feio.
A réplica substitui a justiça pelo argumento económico, ela prostituí a liberdade na noção tacanha de "poder de escolha": entre o nada e o nada, entre o morto e o morto, de e para os mortos.

Intelectuais e especialistas, ou melhor, os filhos da puta dos intelectuais e dos especialistas constróem pouco a pouco os episódios da novela de tédio em que consiste a não-vida e a não-opinião da réplica.
Trata-se de um "Role-Play Game", onde o herói enfrenta o mundo virtual com um objectivo bem demarcado (no entanto desconhecido para o próprio), objectivo esse que permite o desenrolar do enredo, onde se encontram personagens que se satisfazem com uma das 3 opções escritas a branco no monitor ou zurradas domingos à noite pelo Sr. Prior esse já visto "educador do povo".

Á medida que toda a comunicação se desvirtua e se torna simplex, (este termo pode ser interpretado em toda a sua extensão) processa-se a transformação do indivíduo em espectador. A linguagem esvazia-se na hegemonia do "senso comum". As soluções vêm por cabo, as emoções vêm por cabo, o prazer vêm por cabo. Para quê a linguagem, se não existe opinião nem associação? A linguagem da réplica fica reduzida ao necessária para cumprir o seu fim produtivo, sendo ela o grande meio. A gíria estabelece-se agora em função da produção e não por condicionantes culturais ou geográficas.

A réplica só possui capacidade de analisar uma situação se esta contribuir para o seu fim produtivo. Se tal for o caso, a réplica, é capaz da mais prodigiosa das inferências. Mas não é por ela que pensa, não é por ela que decide mas por algo que a supera e que no entanto por ela é produzido e consumido.

O processo está longe de ser pacifico e ainda existem muitas dificuldades e incompatibilidades na adaptação do corpo a esta nova "alma colectiva". A doença mental aparece, explorando a fenda, entre o natural e o artificial. Entre o seu corpo e as suas abstracções.

Toda a réplicas tem numero de serie diferente. É nesta diferenças que o termo "réplica" se pode aplicar com mais propriedade, e onde mais facilmente se identifica.

A réplica nada cria tudo produz.

2003-09-19

O que dizem os mestres

Percorrendo os vários noticiários televisivos ocorreu-me o que Aldous Huxley já tinha dito em 1959, muito melhor do que eu o poderia fazer:

“No que à propaganda diz respeito, os primeiros defensores da instrução obrigatória e de uma Imprensa livre só encaravam duas possibilidades: a propaganda podia ser verdadeira ou podia ser falsa. Não anteviam o que na realidade aconteceu, principalmente nas nossas democracias capitalistas ocidentais – o desenvolvimento de uma vasta indústria de comunicações com as massas, que na sua maior parte se não ocupa nem do verdadeiro nem do falso, mas do irreal, o mais ou menos totalmente irrelevante. Numa palavra, não tiveram em conta o quase infinito apetite humano de distracções.”
Huxley, Aldous: Regresso ao Amirável Mundo Novo.
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2003-09-18

Chegou um e-mail de Sharon

Ainda ontem, Colin Powell, afirmava a posição dos EUA como sendo contra a insensata posição do Governo de Israel de eliminar Arafat da cena política.
Pois é mas foi ontem. Hoje, Bush recebeu ordens de Sharon e já afirmou que Arafat foi a principal causa do colapso do “road map”, não disse o resto mas releva imediatamente.
Torna-se assim claro o que já se sabia. O conceito de civilização ocidental e de democracia, para Bush é o que serve os interesses dos EUA e liderança democrática não é, como alguns ingénuos pensavam, a liderança escolhida pelos liderados, mas só essa se tiver o aval de Sharon, neste caso, e, por extensão, de Bush.
Mas a sua afirmação mais séria foi a de que Arafat foi um mau líder e isso sim, vindo de quem vem, daquele portento de líder, verdadeiro farol que ilumina o mundo, tem que nos fazer pensar a todos.
De boa liderança Bush tem-se mostrado, de facto, um mestre.

Aguenta-te Abrupto

Mal eu imaginava, quando fiz aquele socio-post sobre a blogosfera e vaticinei a perda da realeza do “abrupto”, que as minhas palavras fossem tão proféticas e tão rapidamente.
Não é que num relâmpago o “muito mentiroso” chegou viu e venceu, com mais de 170 mil visitas em cerca de um mês para as portentosas 163 mil, laboriosamente conquistadas por JPP ao longo de alguns meses.
Mas, infelizmente, não era nada disto que eu queria. Queria uma luta honesta cimentada na qualidade e que derrotasse o Rei pelo seu próprio mérito.
Ora este arrivista é uma vergonha, nem sequer diz nada, não sabe nada, só faz perguntas e mesmo estas, segundo afirma, são emprestadas por misteriosas vozes do além que diz ouvir.
Ora perguntas que cheguem já eu tenho de sobra, o que queria é ver respostas.
Num ponto só, parece honesto, quando afirma não acreditem em nada do que digo mas, vendo bem, afinal o que é que diz que nós não devemos acreditar se na realidade nem diz nada ?
O “Abruto” tem lutado, justiça lhe seja feita.
Espero que vença esta, rapidamente, e que venha então a ser derrotado por alguém que mereça.

2003-09-17

Inspiração 2

Este período de convalescença tem-me permitido deambular preguiçosamente pelos vários canais do cabo. Hoje passei algum tempo assistindo à primeira sessão plenária após o regresso de férias do Parlamento, no respectivo canal da TV.
Nessa observação despreocupada foi-se reafirmando na minha mente um sentimento antigo e que se assume como regra na nossa democracia:
As oposições mostram-se quase sempre mais lúcidas do que os governos e talvez isso se possa explicar pela menor dependência dos lobies e capelinhas que enleiam a acção governativa, permitindo-lhes uma apreensão mais fiel da realidade.
E foi assim que a minha cabecinha pensadora formulou uma hipótese de grande alcance:
Se assim é, deveriam ser sempre as oposições a governar mas, de tal maneira, que se mantivessem na oposição, sob pena de perderem fatalmente a lucidez.
A minha proposta é assim a seguinte: as oposições deveriam concertar um verdadeiro governo sombra, como muitas já têm ou dizem que têm, a diferença é que todas as manhãs os ministros do governo deveriam ir a despacho aos respectivos sombra e ficavam vinculados às decisões destes últimos.
Teríamos assim sempre a oposição no poder !?
Para os governos era sempre cómodo o poderem desculpar as suas asneiras com a incapacidade da oposição, para a oposição seria mais simples poderem dizer mal das suas próprias medidas. A democracia beneficiava da prudência e autocrítica permanente que a implementação do sistema iria exigir.

2003-09-15

Inspiração

Neste período de convalescença, com tempo disponível para a especulação e auxiliado por um cocktail de drogas médicas que inundam o nosso corpo, permite-nos revisitar velhos problemas com um novo olhar mais lúcido.
Vejamos:
Ouço falar nos “media” que não há juizes suficientes, obrigando a administração judicial a trocas e arranjos permanentes pouco funcionais.
Pois eu achei a solução: à semelhança do que se passa na saúde, contrate-se rapidamente juizes espanhóis (ou talvez ucranianos porque os há em barda, suponho) e ficamos com o problema da falta de juizes resolvida.
Poderão dizer que o problema da língua poderá colocar algumas dificuldades à justiça mas para isso também há uma solução:
Audiências em inglês, que é uma língua que todos os juizes conhecem até noutras galáxias, como vemos nos filmes, e para os pobres arguidos portugueses, ignorantes, que não conhecem o inglês usavamos, como intérpretes, os milhares de professores de inglês que ficaram desempregados no último concurso.
Era um golpe de génio: com uma só cajadada, matava-se coelho da Justiça mais o coelho da Educação.
É ou não é brilhante ?

2003-09-13

Sobrevivi

É certo que estou longe dos 100 %. A imaginação ainda é tolhida por dores incomodativas e persistentes mas, lentamente, volta algum ânimo e tenho esperança que muito em breve possa voltar a “postar” com alguma regularidade.
A ver vamos.
Por agora limito-me a constatar que o 11 de Setembro passou e que os supostos livros por bombas ninguém os viu, parece.
Afinal, para os seus autores, o “happening” limitou-se ao anúncio do acto.
O efeito não foi tão espectacular mas, pelo menos, saiu muito mais barato.

2003-09-08

Paciência

Amanhã, vou ser submetido a uma intervenção cirúrgica, a primeira, para mim, digna desse nome.
Receio bem que nos próximos dias não tenha a capacidade e/ou a pachorra para postar neste blog.
Mas esses dias hão de passar, espero bem, eu depois conto.
Entretanto aguardem por algumas considerações sobre a morte do “pá” que eu ainda conheci viçoso e de boa saúde e uma pequena homenagem ao Bobby Fisher porque acho que o gajo merece.
Até breve, espero eu.

O Coito interrompido

Que me perdoem os anti-tabagistas mergulhados no seu obscurantismo ingénuo e bem intencionado mas vejo com apreensão, por esse mundo fora, o crescendo de restaurantes onde é proibido fumar.

É um pouco como um bordel onde seja proibido ter orgasmos.

Para mim, sempre assim foi: uma boa refeição é como o preliminar para o amor mas o êxtase mesmo, onde os espirito se liberta, a paz e o prazer invade o nosso corpo, é o momento final de álcool, cafeína e nicotina. È um orgasmo tântrico, pode durar 15, 20, 30 minutos e, se álcool provier de uma aguardente vínica velha e excelente e, a nicotina de um habano igualmente sublime, o orgasmo poderá atingir os 45 minutos a uma hora com uma intensidade inigualável.

Que pena não os poder ter sempre e ver que muitos nunca o presenciaram.

2003-09-07

Só nos dão merda

Outro dia, fiz uma pausa nos meus zapings contínuos, parando no canal Mezzo, atraído por uma música belíssima, profunda de emoção e que era um pouco estranha para mim.

Aprendi que eram romenos que se chamavam Taraf de Haidouks, um vasto grupo multigeracional, tocando maravilhosamente e cantando palavras que não percebia, embora compreendesse tudo.

Bendito KAZAA que me permitiu enriquecer a minha colecção de mp3 com essas músicas fabulosas e que prontamente, como qualquer neófito, fiz ouvir ao meu filho perguntando-lhe: "Porque é que nunca ouvimos isto na rádio ? ao que ele me retorquiu sabiamente: "Pois é, pai, só nos dão merda".

Pela minha mente passaram ideias:

A sociedade global que homogeneíza e me priva de muito do que é bom, certamente do melhor, que nunca hei de conhecer.

A globalização digital que me aproxima de tudo e me permite chegar ao melhor. E há quem queira acabar com esta: Deus ou os homens os tornem impotentes.

2003-09-06

Livros por bombas

Terminado mais um jogo do nosso descontentamento, nada melhor do que esquecer imediatamente e passar a diante.

Ouvi ontem a notícia na TSF mas tão mal explicada, tão falha de pormenores que me deixou levemente expectante mas muito céptico.

Dizia-se que um grupo de poetas, iria comemorar o 11 de Setembro, lançando livros em várias cidades dos EUA e europeias. Livros daqueles que mudam o mundo ou, pelo menos, o mundo interior de quem os lê.

Naturalmente, será logisticamente difícil por em prática uma acção destas de forma minimamente visível, de qualquer modo, esta forma de “terrorismo poético” ao estilo de Akim Bay, se bem praticada, poderá bem ser uma pedrada no charco de muitas consciências.

2003-09-05

O que se come por aí

Já repararam a quantidade de gente que se anda a alimentar de hidratos de carbono, calorias, proteínas, sais minerais, vitaminas e coisas como estas.

Cá por mim continuo a preferir pão, açordas, bifes de vitela, feijoadas à transmontana, arroz de frango, robalo cozido, couves salteadas em azeite e alho, enfim, coisas saudáveis e saborosas. Proteínas ? Deus me livre.

E, felizmente, não devo ser o único, acabo de ouvir na SIC Notícias que Portugal é o país da UE que mais gasta com a comida, antes assim.

2003-09-04

Os mortos do calor

O debate deste tema em Portugal tem assumido laivos surrealistas.

Em França, como sabemos, morreram cerca de 11 000 franceses mais do que o normal, devido ao calor excessivo que assolou aquele país e em geral a Europa e, esse acréscimo causou a falência dos serviços de apoio, hospitais, centros de saúde, e mesmo cemitérios.

O debate que se faz em França não é pois sobre o facto de o calor matar ou não matar franceses mas sim sobre a incapacidade de resposta dos serviços públicos para esse drama, o que levou à demissão do ministro, e sobre a organização social em geral que despreza os seus idosos e os vota à solidão e ao abandono.

Em Portugal não houve essa falência dos Serviços públicos, pelo menos de forma notória, e debate-se então o número de mortos: será que o calor só mata franceses ou também mata portugueses ?

O insólito vem quando o Sr. Ministro chega a uma conclusão espantosa, que a ser verdade, deveria levar sim a uma investigação muito séria e cuidada: Em Portugal o calor não mata as pessoas, só 4 portugueses (que, direi eu, deveriam ter algum sangue francês).

Para pôr a situação em perspectiva vou contar-lhes o que se passou perto de mim.

No passado 8 de Agosto morreu, na sua casa, um familiar meu idoso, com fortes problemas respiratórios. Ao sentir-se tão mal dirigiu-se em ambulância à urgência do hospital de Évora e ao fim de pouco mais de 1 hora foi remetido de novo para casa, pelo hospital, aconselhado a consultar um otorrinolaringologista.

Horas depois, morria em casa, só, no seu leito e em grande desespero.

A autópsia diz: morte por causas desconhecidas.

Histórias destas devem haver aos milhares e explicam tudo o que se passou em Portugal:

1.Morreu tanta gente como nos outros países, naturalmente, somos todos seres humanos.
2.Os serviços não faliram porque estão em falência permanente, não congestionam porque não recebem as pessoas em aflição e as remetem para morrer em casa.
3.Consultando os registos hospitalares o Sr. Ministro pode ficar assim contente, nos hospitais não morreu quase ninguém.

Não tenho qualquer dúvida.

2003-09-03

É inevitável mas espanta-me sempre

Já repararam como a blogosfera portuguesa reproduz a sociedade:

Há blogs aristocráticos, blogs burgueses, blogs proletários, blogs jovens, blogs velhos e de meia idade, blogs masculinos, blogs femininos, blogs saudáveis, blogs doentes, blogs honestos, blogs criminosos, blogs artistas, blogs cientistas, blogs sábios, blogs ignorantes, blogs liberais, blogs trabalhadores por conta de outrem, blogs funcionários, blogs militantes, blogs indiferentes, enfim é uma micro-sociedade de faz de conta.

Neste momento, há mesmo um rei que é o "abrupto".

Estou ansioso por um golpe de estado.

2003-09-02

O despertar do Homo Sapiens

Uma coisa que me incomoda e assusta é como a virtualidade informática contaminou já o suposto contacto humano das linhas de apoio a clientes:

Sim, Sr. Nuno, com certeza Sr. Nuno, mais alguma questão Sr. Nuno ?, obrigado pela sua atenção Sr. Nuno, desculpe tê-lo feito esperar Sr. Nuno. As fórmulas estão lá todas, impessoais na sua pessoalidade e, sobretudo, muitas vezes ineficazes se o problema transcende a rotina contida nas FAC.

Mas no outro dia experimentei uma nova táctica para despertar o Homo sapiens escondido atrás da linha telefónica.
Lembrei-me, sabem de quê?, do Hallo Hallo. Lembram-se daquela agente secreta da resistência e da sua fórmula permanente: “Listen very carefully, I shall say it only once” ?

Pois eu resolvi utilizá-la com a TMN, traduzida, é claro, e posso-vos dizer que o resultado foi espectacular. Dois dias depois fui despertado de manhã por um correio privado que me trazia em mão o extracto que já há perto de 2 meses, e após múltiplos contactos para o apoio a clientes, desesperava em obter.

2003-09-01

Este artigo de João César das Neves no DN, levanta uma questão essencial, direi mesmo a questão essencial: a procura da felicidade e a resposta a esta eterna questão: O progresso e a riqueza trazem-nos a felicidade ?
Deixando de parte, por agora, a questão mesma da "felicidade" (como Agostinho da Silva, penso que a obsessão pela "felicidade", como arquétipo, não traz senão a infelicidade), a resposta aquela questão é claramente não e não é preciso teorizar sobre o assunto, o artigo mostra-o e, mais importante, o nosso conhecimento e experiência também.
Por agora, limito-me a juntar um tijolo a esta construção:
Como primatas que somos, macacos, embora deuses, o bem estar e a "felicidade" está na nossa própria natureza, na vida em pequenos bandos, onde mantemos uma identidade e usufruímos do convívio com outros homens e mulheres, também eles concretos e únicos nas suas característica individuais que poderemos classificar de defeitos e qualidades.
E são estas estruturas simples que o "progresso" e a riqueza vêm destruindo, ao construir a sociedade global: tentando converter os primatas que somos, nalguma espécie social mais semelhante à das abelhas ou formigas.
Consciente ou inconscientemente, é esta luta que travamos sempre, constituindo os nossos bandos, formais ou informais, do café, do desporto, de interesses diversos, onde nos sentimos bem e que queremos sempre muito nossos.
Aliás, a própria blogosfera, ou segmentos dela, são também, de certa forma, as nossas aldeias de macacos.