2005-08-16

O chapéu de Bono

Estávamos em pleno PREC, corriamos para uma importante reunião na Casa do Povo do Ladoeiro. Em causa os eternos conflitos de interesses em torno da reforma agrária, que dividia o povo ao meio naquela região Beirã.
No caminho cruzámo-nos com o carro de uns colegas (da Administração) que voltavam em grande velocidade a caminho do hospital de Castelo Branco.
“O que se passou ?” perguntei eu, “uma confusão, está um ambiente de cortar à faca, o Capelo foi agredido e vai para o hospital, não vão lá sem a GNR” foi o que nos disseram.
Mas nós éramos então jovem e, um pouco inconscientes, “não há de ser nada” pensámos.
De facto não foi nada, as pessoas receberam-nos civilizadamente e a reunião decorreu sem mais sobressaltos.
Viemos a saber então o que se tinha passado com o Capelo:
“O homem entrou na Casa do Povo de chapéu na cabeça”, disseram.
Assim foi, Capelo, anacronicamente, usava sempre chapéu e entrou na reunião com o dito na cabeça.
Uns anos atrás, teria sido considerado um capricho do Sr. Engenheiro, afronta que o povo suportaria em silêncio, comentaria em privado e classificaria definitivamente o Sr. Engenheiro Capelo de mal criado, mas naquele tempo não, o povo é quem mais ordenava e não faltaram as vozes de “tira o chapéu”, num coro crescente, a que Capelo, na sua pose altiva de funcionário do Castelo, não obedeceu.
Até que alguém, mais afoito, se chegou a ele e com um gesto brusco lhe fez saltar o chapéu da cabeça. Capelo reagiu violentamente e o povo perdeu a cabeça e desancou o Engenheiro que teve que ser levado, pelos seus colegas presentes, a correr para o hospital.
Para justificar a sua acção, ao contarem-nos esta história disseram-nos:
“A Casa do Povo é como uma Igreja. Se na Igreja um homem de chapéu afronta Deus, na Casa do Povo afronta o povo”
Mesmo nesse momento quente da nossa história recente, quando se vivia uma profunda desagregação de valores, havia comportamentos simbólicos que mantinham o seu papel identificador.

Lembrei-me desta história que vivi, quando vi Bono, com o seu enorme “stetson” na cabeça, a ser condecorado por Jorge Sampaio.
Entristece-me este laxismo, esta falta de vergonha na cara, este achar tudo natural e engraçado, este gozo com símbolos nacionais.
Se a condecoração já foi mais do que duvidosa, naquelas condições foi repelente e creio que desvaloriza toda a “Ordem da Liberdade”, todos os que receberam já e todos os que a irão receber.
Foi um ultraje.
Eu, senti-me afrontado, como Português, e sei que muitos mais sentiram o mesmo, apesar de que na minha volta pelos jornais e pela blogosfera, não tenha detectado uma única referência ao caso.

Lamento que ninguém do protocolo lho tenha tirado, á força se preciso fosse. Era o mínimo.

3 comentários:

Suão disse...

Perfeito.

Vera disse...

que pena que esta opinião não chegue, não só a toda a classe política, como à grande maioria do povo português. Mas se chegasse, será que a compreenderiam?... Penso que é por isso que não há referências ao facto em nenhum outro lado. Haja Deus que alguém ME compreende!

Anónimo disse...

«Quem não quiser ser lobo que não lhe vista a pele»!
Se o sr. PR se desse ao respeito, e mostrasse ser o símbolo da Nação portuguesa, nada disto aconteceria.
Pergunto: - Será que a rainha de Inglaterra, sua alteza real, se daria ao incómodo de proferir um discurso em português - para mostrar uma grande erudição - a alguns dos nossos concidadãos?
E, para terminar, outro provérbio popular: «Quanto mais nos baixamos, mais mostramos o cu»!