2008-07-02

Breve reflexão sobre o poder na sociedade global

Ao procurar um equivalente em português para a expressão “empowerment”, actualmente corrente na problemática do desenvolvimento, o meu pensamento divagou sobre a noção de poder e as suas estruturas na sociedade contemporânea.
Depois reparei que havia alguma inovação na minha divagação e resolvi então resumir os seus aspectos essenciais e publicá-los aqui.

A sociedade humana sempre se organizou em relações de poder, entendendo-se por poder a capacidade de condicionar o comportamento de terceiros.
Quando convido alguém para jantar comigo e esse alguém aceita, posso dizer que tive poder sobre ele porque provoquei a alteração do seu comportamento e este tipo de relações é geralmente útil e desejável por todos dado que muitas vezes até procuramos que esse poder se exerça sobre nós, quando vamos, por exemplo, a um médico precisamente para que ele nos condicione fazendo-nos tomar medicamentos, fazer exames e até alterar rotinas de vida.
Neste tipo de relações todos nós temos momentos de poder sobre terceiros e outros momentos em que somos sujeitos ao poder de terceiros e é assim que vivemos em sociedade.
O problema surge apenas quando esse poder é exercido, sendo guiado exclusivamente pelos interesses do poderoso e contra os interesses do sujeito ao poder e quando se começa a estruturar, de forma, mais ou menos organizadas, em estruturas de poder.
Na sociedade actual há 4 estruturas dominantes de poder, a ver:
O 1º Poder é espiritual, transcendente, metafísico, apoia-se nas nossas crenças e temores, é apropriado por todas as igrejas seitas e religiões.
O 2º Poder provem da força é o do Estado e de todas as suas instituições, e aparelhos repressivos, inclui aquilo a que se chamam os poderes executivo, o legislativo e o judicial, que já foram considerados como poderes autónomos mas que não são mais do que articulações de um mesmo único poder, o poder dos Estados.
O 3º Poder provem do dinheiro e da capacidade económica e do controlo dos recursos, é o poder económico, cada vez mais prevalecente e dominador.
O 4º Poder fundamenta-se no domínio da informação, na formulação das agendas, é o poder dos “media”.
Todos eles têm as suas armas próprias, todos eles se degladiam ou cooperam, às vezes em alianças tácticas e estratégicas, procurando sempre, cada um deles, a hegemonia que quase alcançam por momentos em algumas zonas do mundo:
O 1º Poder é dominante em algumas sociedades, sobretudo islâmicas, o 2º Poder é hegemónico em algumas ditaduras militares, é o 3º poder que tende a controlar o mundo mas que sendo mais “low profile” exerce-se indirectamente, geralmente controlando os restantes poderes e, por último, o 4º poder sempre estrategicamente aliado ao terceiro mas com alguns momentos de independência e de afirmação própria.
A generalidade de nós está ao serviço de alguma destas estruturas de poder mas depois, temos uma vasta massa de deserdados sem poder algum, joguetes nas mãos dos diferentes poderes, utilizados por uns e por outros e por uns contra outros sem que eles próprios possam ter um mínimo de controlo das suas próprias vidas.
E é precisamente para estes que se inventou o tal ”empowerment”, termo muito em voga nas modernas correntes filosóficas do desenvolvimento e que até já tem uma tradução em português, já dicionarizada, pelo menos num dicionário, embora seja ainda ignorada pela maioria: ”empoderamento”.
Consiste afinal no ideal de proporcionar poder aos que não têm poder algum, de forma a permitir-lhes defenderem-se dos restantes poderes e serem assim mais senhores do seu próprio destino.
È uma ideia nobre e generosa, sem dúvida, mas parece apenas retórica, dado que ninguém empondera ninguém de livre vontade, excepto em situações pontuais e efémeras. Apenas em “zonas temporariamente autónomas”, os TAZ, teorizados por Akim Bay.
Por mim, resta-me esperar por um vácuo de poder porque também os há, ás vezes.

7 comentários:

Joana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joana disse...

Eu acho que o "empowerment" pode ser reclamado, exigido. É tomar determinado assunto nas nossas próprias mãos. Não precisa ser-nos dado...

Eu traduziria mais como "capacitação". Ou, antes, o empwerment é uma "sensação" que resulta da capacitação.

Nuno Jordão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno Jordão disse...

É, Joana
Não há dúvida que a capacitação é uma forma que facilita o acesso ao poder ou, pelo menos em usar um sistema esclarecido de alianças que proporcione esse poder.
Hoje temos o exemplo daqueles Índios Brasileiros que certamente com o apoio de alguém vieram ao parlamento português com cobertura mediática que os poderá ajudar a obrigar o Governo brasileiro a respeitar os seus direitos. Tiveram uma ajuda do 4º poder que os fez chegar ao 2º poder em Portugal para que daqui chegue ao 2º poder no Brasil.
De qualquer forma são sempre poderes pontuais, ocasionais e não estruturais.
Uma coisa é certa o empowerment é fundamental seja lá como for que se consiga.

Anónimo disse...

Menina tenha muito cuidado nos conceitos de "poder", "influencia", "força","potencia", "capacidade", "coaçao","hegemonia","dissuasao","persuasao" pois sao conceitos com alcances diferentes, sugiro que leia um pouco de Gramsci e alguma eciclopedia.

Nuno Jordão disse...

Caro anónimo
O seu comentário lembrou-me, Gramsci foi um autor importante na minha adolescência, só que o que mais me interessou nele foram as suas ideias sobre estética e não tanto sobre o poder. Enciclopédias, essas, por mim quase não há dia que não as consulte e continuarei a fazê-lo sem dúvida.
Quanto ás noções que transcreve é bem verdade que são noções diferentes e cada uma delas daria muito mais do que um poste, por isso não tive intenção falar sobre formas e fontes de poder nem sobre outros aspectos que o tema pode sugerir, o que procurei foi apenas fazer uma pequena reflexão sobre estruturas de poder na sociedade global. Nem mais nem menos.
O comentário da Joana, porém também faz sentido a capacitação pode ser de facto uma fonte de poder, apenas me parece insuficiente na complexidade global.

danilo guerra disse...

O grande problema não está no poder, mas na mente humana...todas as relações de poder são frutos da administração dessa mente...e onde ela tem nos levado?