2006-07-01

A aristocracia e o povo

Li algures que a “nobreza”, a “educação”, o “chá”, enfim espero que se perceba o que quero dizer, estão nestas duas pontas da estratificação social: na aristocracia e no povo.
Pelo meio está esse vasto mundo da “burguesia” do “dinheiro” do “status” com um esquema de valores inteiramente diferente.
Eu, que sou do povo, por acasos da vida, de quando em vez viajo de avião em “1ª classe”. Digo 1ª classe porque é assim que o povo chama e conhece aquelas designações de “business”, “executive” e expressões equivalentes que usam as burguesas companhias aéreas, politicamente correctas.
Esta situação aconteceu-me hoje no meu regresso da Ilha Terceira, onde estive na passada semana e, nesta curta viagem de duas horas, aconteceram-me duas insólitas situações que passo a relatar:
Para os “burgueses”, meus companheiros de 1ª classe, como mesmo para aqueles que não viajam em 1ª classe, o cúmulo do prazer em viagens de avião parece ser o de se reclinarem nas cadeiras até ao limite mecânico destas e isto independentemente de se levantarem das ditas cadeiras com uma enorme frequência, talvez para irem, dezenas e vezes às casas de banho.
Na 1ª classe a principal vantagem que se tem, nestas viagens curtas, é precisamente o espaço e a distância entre filas que é considerável. Pois, não obstante esta distância considerável o meu companheiro da frente após várias tentativas que começaram com o avião ainda no terreno, conseguiu reclinar-se de tal maneira que derrubou uma garrafa que estava sobre a minha mesinha, a talvez uns 80 cm de distância das suas costas, quando direitas.
Depois, houve este diálogo, quase textual, entre mim e a hospedeira:
- Com o café gostaria de beber uma água ardente, pode ser ?
- Água ardente não temos, só Cognac.
- Cognac está óptimo, aliás não é mais do que uma água ardente.
- Sim, de certo modo.
Pouco depois, vem o Cognac e esta declaração que me imprimiu tendências assassinas, diz-me ela assim:
- Peço desculpa de não ser branco mas não há Cognac branco !
Apeteceu-me responder-lhe:
- Sim, sim, é o cognac e o guarda-chuva da minha enteada !
Mas fiquei simplesmente saboreando o meu cognac e meditando sobre o estranho mundo que se passaria naquela linda cabecinha.

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