2005-04-01

Neste mundo global

Nesta era das novas tecnologias de informação, neste “brave new world” onde tudo se “simplifica”, se contratam serviços do pé para mão, por contacto telefónico ou pela internet, onde circula o dinheiro escritural, virtual, através de pagamentos por cartão ou por telefone, onde interagimos diariamente, via telefone, com “fantasmas”, simpáticos poucos, antipáticos a maioria e automatizados quase todos, onde o contacto interpessoal desaparece lentamente; de uma coisa já suspeitava: à medida que se facilita a adesão a tudo, dificulta-se extraordinariamente as desvinculações de tudo e a possibilidade de dizer não, dizer não quero mais, torna-se absurdamente difícil.
Já tinha várias experiências destas, como a de para terminar um contrato mensal com uma operadora de GSM, um não quero mais não bastava, era precisa uma carta com a justificação, isso mesmo, tinha que lhes dar satisfações, supondo eu que se essas minhas razões os não convencessem seria obrigado a manter o contrato de adesão mesmo contra minha vontade.
Mas o que se passou hoje comigo passou todos os limites:
Tendo pedido uma ligação TV-Cabo e Net-Cabo, através da linha telefónica de apoio a clientes, ao verificar que após 2 agendamentos que não cumpriram e que me fizeram estar de plantão à espera inutilmente, adiando sucessivamente de vários dias a esperança de nova ligação, resolvi dizer basta, já não quero mais.
Telefonei para o mesmo apoio a clientes manifestando essa minha intenção e para que anulassem o meu pedido. A resposta foi que para cancelar teria que telefonar para outro número. Liguei para o outro número onde me era oferecida a hipótese de carregar na tecla 1 para “adesões e contratos comerciais” e na 2 para “apoio técnico”, na minha modesta compreensão do português pensei que para anular um pedido de contrato de adesão seria na 1 “adesões e contratos comerciais”, erro meu, para a menina que me atendeu era óbvio que deveria ter premido a tecla 2. Voltei a ligar e premi então a tecla 2, exposto o assunto tentaram demover-me, pedindo desculpas e jurando emendar a questão. Como me mantive firme na minha decisão, referiram que teriam que transferir a chamada para outra secção. Ao fim de uns instantes de música, atenderam-me noutra secção. No início de cada um destes contactos era confrontado com um interrogatório, para conferir a minha identidade, sempre diferente e sucessivamente mais exigente, quando se convenceram que era eu mesmo que falava, reproduziram os mesmos pedidos de desculpas até que, ao verem que eu não quebrava, me disseram que teria que escrever uma carta explicando as minhas razões, uma carta outra vez !.
Foi a gota de água, tenho que escrever para quê ?, se posso fazer a adesão pelo telefone porque não posso desistir dessa adesão pelo mesmo telefone ? A resposta foi simples, espantosa e em tom mais ameaçador: Se não o fizer terá que pagar as facturas que iremos emitir. Mas quais facturas ? de quê ? se não me prestaram serviço nenhum.
Despedi-me dizendo que não iria escrever nada nem pagar qualquer factura e à insistência da “fantasma” respondi apenas: nesse caso veremos em tribunal como as coisa vão ficar.
Aqui estou então, aguardando ansiosamente a primeira factura, estou bem curioso de ver o que inventam.

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