Pegue numa série de pensões e congele-as.
Depois, sem deixar descongelar, corte-as em fatias, utilizando uma faca eléctrica especial de marca PEC 4.
Consumir com moderação para não dar lugar a indigestões.
2011-03-17
2011-03-04
Como a ignorância pode condicionar a ideologia
Um dos programas Observatório do Mundo que a TVI 24 emite, foi dedicado às zonas profundas dos Estados Unidos da América do Norte e á atitude desses americanos face à reforma do sistema de saúde implementada por Obama.
Como sempre havia prós e contras e a reportagem, originada por uma cadeia francesa de TV entrevistou representantes de ambos os lados.
Em certo momento falou com uma feroz inimiga da reforma de Obama que baseava a sua crítica no passo para o socialismo que a reforma implicava, segundo ela, “ vamos então adoptar uma medida socialista, nós americanos que morremos na segunda guerra mundial para combater o socialismo?” perguntava ela indignada.
Estupefacto o repórter corrigiu: “Os EUA combateram o Nazismo na II guerra, não o socialismo!”
A mulher poderia talvez ter lembrado que o partido Nazi se chamava Nacional socialista mas não tinha conhecimento para tanto e limitou-se a retorquir atrapalhada: “ Então não lutámos contra o Hitler e o Estaline e essa cambada?”. O repórter corrigiu de novo “Contra o Hitler sim mas o Estaline até foi vosso aliado”.
Aflita a senhora deu um grito para dentro para a filha “ Então não foi o Estaline, como se chamava o outro mau, ah, era o Lenine não era?”
A filha respondeu titubeando, “o Sr. tem razão mãe, não foi na segunda guerra mundial, foi depois.”
A entrevista ficou todavia por aqui, e bastou.
Como sempre havia prós e contras e a reportagem, originada por uma cadeia francesa de TV entrevistou representantes de ambos os lados.
Em certo momento falou com uma feroz inimiga da reforma de Obama que baseava a sua crítica no passo para o socialismo que a reforma implicava, segundo ela, “ vamos então adoptar uma medida socialista, nós americanos que morremos na segunda guerra mundial para combater o socialismo?” perguntava ela indignada.
Estupefacto o repórter corrigiu: “Os EUA combateram o Nazismo na II guerra, não o socialismo!”
A mulher poderia talvez ter lembrado que o partido Nazi se chamava Nacional socialista mas não tinha conhecimento para tanto e limitou-se a retorquir atrapalhada: “ Então não lutámos contra o Hitler e o Estaline e essa cambada?”. O repórter corrigiu de novo “Contra o Hitler sim mas o Estaline até foi vosso aliado”.
Aflita a senhora deu um grito para dentro para a filha “ Então não foi o Estaline, como se chamava o outro mau, ah, era o Lenine não era?”
A filha respondeu titubeando, “o Sr. tem razão mãe, não foi na segunda guerra mundial, foi depois.”
A entrevista ficou todavia por aqui, e bastou.
2011-02-28
Se houvesse Justiça
Sócrates deveria apanhar um tiro de pistola theiser e ser violentado até limpar bem o país de toda a merda que tem feito.
2011-02-22
O que estamos a assistir no mundo árabe
Não é mais do que o avanço natural do processo de globalização do pensamento e cultura únicas e homogéneas por todo o globo.
É a sedução do canto de sereia da civilização actual.
Foi interessante ouvir Hillary Clinton declarar o acesso à internet como mais um direito fundamental dos seres humanos, isto para criticar a tentativa de Mubarak de suprimir o acesso ao facebook e ao Twitter no Egipto quando este acesso o incomodou.
È claro que, certamente para Hillary, o direito fundamental não engloba o acesso ao Wikileaks que incomoda os Eua ou, pelo menos, esqueceram esse direito quando tentam de todas as formas banir este “site”.
Todos têm direitos iguais mas há uns que são mais iguais do que outros.
É a sedução do canto de sereia da civilização actual.
Foi interessante ouvir Hillary Clinton declarar o acesso à internet como mais um direito fundamental dos seres humanos, isto para criticar a tentativa de Mubarak de suprimir o acesso ao facebook e ao Twitter no Egipto quando este acesso o incomodou.
È claro que, certamente para Hillary, o direito fundamental não engloba o acesso ao Wikileaks que incomoda os Eua ou, pelo menos, esqueceram esse direito quando tentam de todas as formas banir este “site”.
Todos têm direitos iguais mas há uns que são mais iguais do que outros.
2011-02-04
Na manhã de 4 de Fevereiro
Recordo hoje quando em 1972, no grande Hotel do Uíge (na então chamada “Carmona”) ouvia na rádio Brazavile uma marcha que dizia qualquer coisa como isto:
Na manhã de 4 de Fevereiro
Na nossa luta contra a opressão
Nós fizemos a revolução
Sob a bandeira do MPLA
A nossa luta triunfará
O que é certo é que triunfou mesmo.
Na manhã de 4 de Fevereiro
Na nossa luta contra a opressão
Nós fizemos a revolução
Sob a bandeira do MPLA
A nossa luta triunfará
O que é certo é que triunfou mesmo.
2011-01-31
O valor do dinheiro, hoje
Quando, há pouco tempo, morreu Ernâni Lopes, no programa “Contraditório” da RDP1, entre os habituais elogios fúnebres (neste caso bem merecidos), Luis Delgado referiu como um pequeno sinal de senilidade no final de vida de Ernâni Lopes, que este costumava dizer que o dinheiro de hoje, desligado, como está, de qualquer padrão de valor, circulando “on line” aos milhões de lado para lado, não era mais do que meros fotões.
- Fotões, são apenas fotões, dizia Ernâni Lopes.
A verdade é que não era qualquer sinal de senilidade que o fazia dizer isto, era apenas a sua lucidez.
- Fotões, são apenas fotões, dizia Ernâni Lopes.
A verdade é que não era qualquer sinal de senilidade que o fazia dizer isto, era apenas a sua lucidez.
2010-12-21
Parecia difícil de compreender
Como a Igreja Católica tão rápida a reagir contra tudo o que fere a sua susceptibilidade, como o livro Caim de Saramago, por exemplo, não tenha reagido, pelo menos de forma que eu desse por isso, ao ultrajante anúncio da Nexpresso, que trata do Céu e do Divino como sendo um antro de malfeitores, e S. Pedro como um Chefe da Máfia.
Estranhei este silêncio e só antevejo uma explicação:
A imagem do Céu que nos é dada no anúncio não difere muito, de facto, da própria imagem de Céu e do Divino que a Igreja Católica nos apresenta.
Estranhei este silêncio e só antevejo uma explicação:
A imagem do Céu que nos é dada no anúncio não difere muito, de facto, da própria imagem de Céu e do Divino que a Igreja Católica nos apresenta.
2010-11-22
A ajuda
Que ajuda é esta que a Irlanda foi obrigada a aceitar, chorando como se fosse para a forca?
Que ajuda é esta que Portugal combate desesperadamente para não recorrer a ela?
Que ajuda é esta que Portugal combate desesperadamente para não recorrer a ela?
2010-11-20
Como montar uma estratégia mediática
Pegue numa bola de ping-pong e deixe-a cair à altura do peito.
Dê a notícia: “A bola está a cair”
Prepare debates, uns técnicos com especialistas que nos explicam a lei da gravidade, estimam a velocidade da bola, desenham o seu percurso e a sua posição a cada momento, outros debates para procurar culpados, porque caiu a bola? Porque não a segurou? Foi sozinho ou alguém empurrou a sua mão e por aí fora, debata de quem foi a culpa.
Entretanto a bola bate no chão e começa a subir.
Dê a notícia: “a bola agora está a subir”.
Prepare novos debates, uns técnicos, explicando tudo, determinando a velocidade a posição e o novo percurso da bola, outros especulando sobre se esta subida é permanente ou não, se é boa ou não, e o que irá acontecer à bola.
Entretanto a bola volta a cair e tudo recomeça seguindo os ciclos.
Nós vamos assistindo a tudo curiosos e tomando partido de acordo com as nossas simpatias embora já todos saibamos o que irá acontecer: que a bola há-de cair de novo e subir de novo, algumas vezes, em percursos cada vez com menor amplitude até se quedar no chão, rolar um pouco e aí ficar até que alguém a vá buscar ou não.
Dê a notícia: “A bola está a cair”
Prepare debates, uns técnicos com especialistas que nos explicam a lei da gravidade, estimam a velocidade da bola, desenham o seu percurso e a sua posição a cada momento, outros debates para procurar culpados, porque caiu a bola? Porque não a segurou? Foi sozinho ou alguém empurrou a sua mão e por aí fora, debata de quem foi a culpa.
Entretanto a bola bate no chão e começa a subir.
Dê a notícia: “a bola agora está a subir”.
Prepare novos debates, uns técnicos, explicando tudo, determinando a velocidade a posição e o novo percurso da bola, outros especulando sobre se esta subida é permanente ou não, se é boa ou não, e o que irá acontecer à bola.
Entretanto a bola volta a cair e tudo recomeça seguindo os ciclos.
Nós vamos assistindo a tudo curiosos e tomando partido de acordo com as nossas simpatias embora já todos saibamos o que irá acontecer: que a bola há-de cair de novo e subir de novo, algumas vezes, em percursos cada vez com menor amplitude até se quedar no chão, rolar um pouco e aí ficar até que alguém a vá buscar ou não.
2010-11-12
2010-11-02
Agora sou mais de ler do que de escrever
Não é que me faltem tópicos e bocas para ir pondo aqui, só que quando decido escrevê-las logo me vem a ideia que não terão assim grande interesse público, que não vou conseguir dizê-lo de forma que me compreendam.
Passo mais tempo a ler, portanto e ler é bom também.
Li “Ecce Homo” de Nietzche em que este nos fala de si próprio e das sua história, “Eis o homem”, “Ecce Homo” é por tanto um bom título, só que não é o título da edição portuguesa, que é mais qualquer coisa como “O erro da civilização” mas que, em concreto, já não sei bem, já me esqueci.
Recomendo vivamente a sua leitura e conforta ver como Nietzche chegou há 150 anos à mesma conclusão que eu vou penosamente vislumbrando: O que importa na vida é o lugar onde vivemos, o país, a gastronomia e o funcionamento das nossa funções vitais, é isso que nos molda e que nos faz ser aquilo que somos.
Li também “A Inssureição que Vem” do Committé Invisível, e de que de uma passagem já dei conta aqui abaixo neste blogue. É um livro perturbador e deprimente na análise que faz do nosso tempo, no entanto é um livro muito lúcido que também vale a pena ler.
Li ainda “Mendigos e Altivos”, um clássico de Albert Corssery, autor Franco-Egípcio que relata a miséria e a natureza humana como mais ninguém,
Curiosamente revi ontem o excelente filme de Wim Wenders “The Million Dolars Hotel” e percebi agora que esse filme não é mais do que uma outra versão de “Mendigos e Altivos”.
Li também “Livros e Cigarros” de George Orwell, uma colectânea de pequenos ensaios auto reflexivos do autor, sobre experiências suas. Um grande livro também, embora pequeno em tamanho.
Recomendo a leitura de todos estes livros.
Não será certamente uma perda de tempo.
Passo mais tempo a ler, portanto e ler é bom também.
Li “Ecce Homo” de Nietzche em que este nos fala de si próprio e das sua história, “Eis o homem”, “Ecce Homo” é por tanto um bom título, só que não é o título da edição portuguesa, que é mais qualquer coisa como “O erro da civilização” mas que, em concreto, já não sei bem, já me esqueci.
Recomendo vivamente a sua leitura e conforta ver como Nietzche chegou há 150 anos à mesma conclusão que eu vou penosamente vislumbrando: O que importa na vida é o lugar onde vivemos, o país, a gastronomia e o funcionamento das nossa funções vitais, é isso que nos molda e que nos faz ser aquilo que somos.
Li também “A Inssureição que Vem” do Committé Invisível, e de que de uma passagem já dei conta aqui abaixo neste blogue. É um livro perturbador e deprimente na análise que faz do nosso tempo, no entanto é um livro muito lúcido que também vale a pena ler.
Li ainda “Mendigos e Altivos”, um clássico de Albert Corssery, autor Franco-Egípcio que relata a miséria e a natureza humana como mais ninguém,
Curiosamente revi ontem o excelente filme de Wim Wenders “The Million Dolars Hotel” e percebi agora que esse filme não é mais do que uma outra versão de “Mendigos e Altivos”.
Li também “Livros e Cigarros” de George Orwell, uma colectânea de pequenos ensaios auto reflexivos do autor, sobre experiências suas. Um grande livro também, embora pequeno em tamanho.
Recomendo a leitura de todos estes livros.
Não será certamente uma perda de tempo.
2010-10-21
O Caminho do sucesso
A revista humorística MAD, de banda desenhada ou de quadradinhos como dantes se chamava, foi minha companheira de muitos momentos da minha juventude.
Lembro-me, ainda hoje, de muitos episódios que então aí li e foi um deles que me veio agora à memória que eu vou recordar aqui:
“Um pai, de meia-idade falava com um seu filho jovem como um ar importante e paternalista, dizia-lhe:
- Meu filho, quando cheguei a Nova Iorque, tinha 20 anos, a roupa do corpo e apenas 50 cêntimos no bolso. Agora, passados todos estes anos, tenho esta casa enorme, um belíssimo carro e 500 milhares de dólares, de dívidas que tu, meu filho, ainda irás pagar um dia.”
Lembrei-me desta história e lembrei-me de Sócrates a falar aos portugueses.
Não sei exactamente porquê mas não deixei de associar as duas coisas.
Lembro-me, ainda hoje, de muitos episódios que então aí li e foi um deles que me veio agora à memória que eu vou recordar aqui:
“Um pai, de meia-idade falava com um seu filho jovem como um ar importante e paternalista, dizia-lhe:
- Meu filho, quando cheguei a Nova Iorque, tinha 20 anos, a roupa do corpo e apenas 50 cêntimos no bolso. Agora, passados todos estes anos, tenho esta casa enorme, um belíssimo carro e 500 milhares de dólares, de dívidas que tu, meu filho, ainda irás pagar um dia.”
Lembrei-me desta história e lembrei-me de Sócrates a falar aos portugueses.
Não sei exactamente porquê mas não deixei de associar as duas coisas.
2010-10-06
16 Toneladas
16 Toneladas e o que ganhas na vida?
Ficas um dia mais velho e mais fundo na dívida
S. Pedro não me chames, porque eu nunca iria
A minha alma pertence ao armazém da Companhia.
Ficas um dia mais velho e mais fundo na dívida
S. Pedro não me chames, porque eu nunca iria
A minha alma pertence ao armazém da Companhia.
2010-09-21
Agora, com Paulo Bento seleccionador nacional
Vamos muito provavelmente falhar a qualificação mas, pelo menos assim vai ser com muito mais tranquilidade
2010-09-15
Pior a emenda do que o soneto
Ao PSD faz-lhe confusão a expressão constitucional “despedimento por justa causa”, que ninguém sabe ao certo o que será mas tem, pelo menos, o condão de referir a justiça como a noção que deve orientar as decisões naquele domínio.
Para substituir propôs, o PSD, “razão atendível”, sem referir atendível como e atendível por quem, aumentado a dificuldade de interpretação.
Reconhecida a dificuldade sai-se com uma “pérola” pior: “legalmente atendível” ou seja atendível pela lei e quer isto escrito na constituição.
Como é sabido é a constituição que condiciona a lei, é para isso que existe, para definir princípios universais que devem se consagrados na lei e impor-lhe limites inconstitucionais.
Ao condicionar esta norma constitucional à lei, o PSD produziu uma aberração cheia de som e fúria mas significando nada.
Se a lei ocasionalmente disser que não se pode despedir em caso algum, ninguém é despedido, se, pelo contrário disser que se pode despedir quem tem olhos castanhos, isso passa a ser uma razão atendível.
A norma constitucional não serve absolutamente para nada.
Para substituir propôs, o PSD, “razão atendível”, sem referir atendível como e atendível por quem, aumentado a dificuldade de interpretação.
Reconhecida a dificuldade sai-se com uma “pérola” pior: “legalmente atendível” ou seja atendível pela lei e quer isto escrito na constituição.
Como é sabido é a constituição que condiciona a lei, é para isso que existe, para definir princípios universais que devem se consagrados na lei e impor-lhe limites inconstitucionais.
Ao condicionar esta norma constitucional à lei, o PSD produziu uma aberração cheia de som e fúria mas significando nada.
Se a lei ocasionalmente disser que não se pode despedir em caso algum, ninguém é despedido, se, pelo contrário disser que se pode despedir quem tem olhos castanhos, isso passa a ser uma razão atendível.
A norma constitucional não serve absolutamente para nada.
2010-09-10
A estranha proposta de queimar o Alcorão
A proposta desmiolada do Pastor Terry Russel de efectuar uma queima pública do Alcorão para comemorar o 11 de Setembro, sugere-me a mesma observação que ouvi atribuída a Tony Blair:
“Em vez de o queimar fariam talvez melhor que tentassem, pelo menos, lê-lo”
“Em vez de o queimar fariam talvez melhor que tentassem, pelo menos, lê-lo”
2010-09-09
A propósito da política xenófoba de França
Para os Portugueses que estão integrados, como terão aprendido na escola, no mais antigo Estado da Europa, em condições históricas quase únicas para terem ainda algum sentido de pertença, podem não sentir este texto da mesma forma que os franceses, embora este seja um texto muito lúcido e que toca exactamente no âmago da questão.
O rebentar de uma explosão de riso seria a resposta adequada a todas as graves «questões» que a actualidade tanto gosta de levantar. A começar pela mais repisada de todas: a «questão da imigração», que não existe. Quem é que ainda cresce no mesmo sítio onde nasceu? Quem é que vive no mesmo sítio onde cresceu? Quem é que trabalha no mesmo sítio onde vive? Quem é que vive no mesmo sítio onde os seus antepassados viveram? E as crianças desta época são filhas de quem, da televisão ou dos pais? A verdade é que fomos, em massa, arrancados a toda e qualquer pertença, já não somos de lado nenhum, e que daí resulta, a par de uma inédita propensão para o turismo, um inegável sofrimento. A nossa história é a das colonizações, das migrações, das guerras, dos exílios, da destruição de qualquer enraizamento. Foi a história de tudo isso que fez de nós estrangeiros neste mundo, convidados na nossa própria família. Fomos expropriados da nossa língua pelo ensino, das nossas canções pelos espectáculos de variedades, da nossa carne pela pornografia de massa, da nossa cidade pela polícia, dos nossos amigos pelo trabalho assalariado. A isto junta-se, em França, o trabalho feroz e secular de individualização levado a cabo por um poder de Estado que regista, compara, disciplina e separa os seus cidadãos desde a mais tenra idade, que tritura instintivamente as solidariedades que lhe escapam, de modo a que não reste nada senão a cidadania, a pura pertença — fantasmática — à República. O francês, mais do que qualquer outra coisa, é o espoliado, o miserável. O ódio que tem ao estrangeiro funde-se com o ódio a si próprio enquanto estrangeiro. O misto de inveja e terror que sente em relação às «cités» revela apenas o seu ressentimento por tudo o que perdeu. Não consegue evitar invejar esses bairros ditos «problemáticos» onde ainda persiste um pouco de vida comum, alguns laços entre as pessoas, algumas solidariedades não-estatais, uma economia informal, uma organização que ainda não se separou daqueles que se organizam. Chegámos a um ponto tal de privação que a única maneira de nos sentirmos franceses é barafustarmos contra os imigrantes, contra aqueles que são mais visivelmente estrangeiros como eu. Os imigrantes ocupam neste país uma curiosa posição de soberania: se eles cá não estivessem, os franceses talvez já não existissem.
L`insurrection que vienne – Comité Invisible
Livro, excelente, publicado em França em 2007, foi agora traduzido e editado em português pelas “Edições Antipáticas”.
O texto global pode e deve ser descarregado em PDF aqui, site onde pode ainda descarregar outras pérolas filosófico-literárias.
O rebentar de uma explosão de riso seria a resposta adequada a todas as graves «questões» que a actualidade tanto gosta de levantar. A começar pela mais repisada de todas: a «questão da imigração», que não existe. Quem é que ainda cresce no mesmo sítio onde nasceu? Quem é que vive no mesmo sítio onde cresceu? Quem é que trabalha no mesmo sítio onde vive? Quem é que vive no mesmo sítio onde os seus antepassados viveram? E as crianças desta época são filhas de quem, da televisão ou dos pais? A verdade é que fomos, em massa, arrancados a toda e qualquer pertença, já não somos de lado nenhum, e que daí resulta, a par de uma inédita propensão para o turismo, um inegável sofrimento. A nossa história é a das colonizações, das migrações, das guerras, dos exílios, da destruição de qualquer enraizamento. Foi a história de tudo isso que fez de nós estrangeiros neste mundo, convidados na nossa própria família. Fomos expropriados da nossa língua pelo ensino, das nossas canções pelos espectáculos de variedades, da nossa carne pela pornografia de massa, da nossa cidade pela polícia, dos nossos amigos pelo trabalho assalariado. A isto junta-se, em França, o trabalho feroz e secular de individualização levado a cabo por um poder de Estado que regista, compara, disciplina e separa os seus cidadãos desde a mais tenra idade, que tritura instintivamente as solidariedades que lhe escapam, de modo a que não reste nada senão a cidadania, a pura pertença — fantasmática — à República. O francês, mais do que qualquer outra coisa, é o espoliado, o miserável. O ódio que tem ao estrangeiro funde-se com o ódio a si próprio enquanto estrangeiro. O misto de inveja e terror que sente em relação às «cités» revela apenas o seu ressentimento por tudo o que perdeu. Não consegue evitar invejar esses bairros ditos «problemáticos» onde ainda persiste um pouco de vida comum, alguns laços entre as pessoas, algumas solidariedades não-estatais, uma economia informal, uma organização que ainda não se separou daqueles que se organizam. Chegámos a um ponto tal de privação que a única maneira de nos sentirmos franceses é barafustarmos contra os imigrantes, contra aqueles que são mais visivelmente estrangeiros como eu. Os imigrantes ocupam neste país uma curiosa posição de soberania: se eles cá não estivessem, os franceses talvez já não existissem.
L`insurrection que vienne – Comité Invisible
Livro, excelente, publicado em França em 2007, foi agora traduzido e editado em português pelas “Edições Antipáticas”.
O texto global pode e deve ser descarregado em PDF aqui, site onde pode ainda descarregar outras pérolas filosófico-literárias.
2010-09-08
Bom dia
Hoje ouvi nas notícias que o INE tinha revisto em alta o crescimento desta nossa nação.
O crescimento homólogo não é de 1,4% como atrás parecem ter dito, mas antes
1, 5% .
Ficámos todos muito felizes.
O crescimento homólogo não é de 1,4% como atrás parecem ter dito, mas antes
1, 5% .
Ficámos todos muito felizes.
O trágico acidente de viação entre Ceuta e Tetuão.
Hoje, nas notícias, ouvi um, parece que Secretário de Estado, que tem alguma coisa a ver com este tipo de acidentes, que o acidente ocorreu entre Ceuta e uma cidade que se designa “Tetouan” ou talvez “Tetuan”.
Na altura chamou-me a atenção uso desse termo: “que se designa por …”.
Será que se fosse Paris ele diria: “uma cidade que se designa por Paris”?
Mas Tetuão, como praticamente todas as cidades marroquinas, são-nos familiares, há séculos.
Eu, em miúdo, fui obrigado a decorar a cantilena das praças portuguesas em Marrocos das quais só permaneceram no meu consciente “Arzila” e “Marzagão”, mas que em Marrocos os próprios marroquinos me fizeram recordar com orgulho e escrevem nas suas ruas a toponímia portuguesa.
Algumas até têm, mesmo hoje designações portuguesas que os marroquinos conservam com orgulho e respeito como “Mogador” que é afinal, em Árabe, Essaouíra, na transliteração francesa ou Essauíra, na transliteração portuguesa e que os portugueses, infelizmente, vão esquecendo.
Na altura chamou-me a atenção uso desse termo: “que se designa por …”.
Será que se fosse Paris ele diria: “uma cidade que se designa por Paris”?
Mas Tetuão, como praticamente todas as cidades marroquinas, são-nos familiares, há séculos.
Eu, em miúdo, fui obrigado a decorar a cantilena das praças portuguesas em Marrocos das quais só permaneceram no meu consciente “Arzila” e “Marzagão”, mas que em Marrocos os próprios marroquinos me fizeram recordar com orgulho e escrevem nas suas ruas a toponímia portuguesa.
Algumas até têm, mesmo hoje designações portuguesas que os marroquinos conservam com orgulho e respeito como “Mogador” que é afinal, em Árabe, Essaouíra, na transliteração francesa ou Essauíra, na transliteração portuguesa e que os portugueses, infelizmente, vão esquecendo.
2010-09-04
A sentença do Processo Casa Pia
Ludwig Vittgenstein, terá dito que “não há verdade nem mentira, apenas certeza e dúvida”.
A sensação que tenho relativa à sentença sobre o Processo Casa Pia é que ela traduz a certeza de muitos, a dúvida de muitos outros mas a verdade de ninguém.
A sensação que tenho relativa à sentença sobre o Processo Casa Pia é que ela traduz a certeza de muitos, a dúvida de muitos outros mas a verdade de ninguém.
2010-08-25
David e Golias
Os únicos combates que me interessam hoje são os combates entre David e Golias onde Golias ganha quase sempre.
Mas há vezes raras em que os deuses no Olimpo se conjugam para que David ganhe e são esses os momentos raros e únicos que valem e fazem suportar a permanente desilusão.
Ontem foi assim com o Braga: David bateu Golias.
Foi um momento raríssimo e, como tal, todos os adeptos exultaram, “fizemos o quase impossível!”.
Quem não gosta destes momentos raros é o sistema, a polícia, a ordem, que não suporta a felicidade dos outros.
Por um acaso, assisti em directo à chegada ao Porto da equipa do Braga, perto das 2 horas da matina. Foi um momento em que a felicidade de todos transbordava.
Só a polícia destoava, batia e punia o mínimo “excesso”, estragava a festa.
Hoje, nas notícias punha a capa de santa e dizia, “ninguém ficou detido”.
Eu digo “è mentira, ficou detido e maltratado um adepto do Braga, que eu vi, detido no pior momento, num momento em que estava eufórico de alegria, detido por quase toda a vida, portanto”.
Mas há vezes raras em que os deuses no Olimpo se conjugam para que David ganhe e são esses os momentos raros e únicos que valem e fazem suportar a permanente desilusão.
Ontem foi assim com o Braga: David bateu Golias.
Foi um momento raríssimo e, como tal, todos os adeptos exultaram, “fizemos o quase impossível!”.
Quem não gosta destes momentos raros é o sistema, a polícia, a ordem, que não suporta a felicidade dos outros.
Por um acaso, assisti em directo à chegada ao Porto da equipa do Braga, perto das 2 horas da matina. Foi um momento em que a felicidade de todos transbordava.
Só a polícia destoava, batia e punia o mínimo “excesso”, estragava a festa.
Hoje, nas notícias punha a capa de santa e dizia, “ninguém ficou detido”.
Eu digo “è mentira, ficou detido e maltratado um adepto do Braga, que eu vi, detido no pior momento, num momento em que estava eufórico de alegria, detido por quase toda a vida, portanto”.
2010-08-10
Ser único
Um dos valores que a sociedade global valoriza e procura é precisamente aquela que parece tornar-se escassa: a qualidade da diferença, da unicidade.
Por isso se festejam os campeões, os primeiros a fazer algo, os que se inscrevem no “Guiness Book of Records”.
Todavia e felizmente ainda é essa unicidade que caracteriza cada um de nós.
Todos os dias somos únicos e primeiros a fazer alguma coisa.
Cada dia vejo e oiço coisas que só eu vejo e oiço, e que mais ninguém vê e ouve. Cada dia tenho pensamentos únicos, só meus, e que a mais ninguém são sugeridos. Cada dia sou um campeão de mim mesmo.
Só me falta o espectáculo global e o reconhecimento público, é verdade.
Mas. para mim, é precisamente isso que me torna mais único e diferente.
Esta reflexão foi-me sugerida pela notícia de alguém do mundo global (não retive o nome, no mundo global todas as proezas também são efémeras) que desceu a pé o rio amazonas da Venezuela até à foz, no Brasil. Na notícia diziam que foi sempre acompanhado e muito ajudado por um guia local e que sem ele, o tal guia, a proeza não seria conseguida.
Todavia, esse guia que possivelmente já fez essa proeza várias vezes e que provavelmente ganha a vida acompanhando cidadãos do mundo global nessas viagens, não teve o nome inscrito nesta história e apenas se viu o seu rosto, por detrás da imagem do “herói” global na entrevista final da sua apoteose.
Por isso se festejam os campeões, os primeiros a fazer algo, os que se inscrevem no “Guiness Book of Records”.
Todavia e felizmente ainda é essa unicidade que caracteriza cada um de nós.
Todos os dias somos únicos e primeiros a fazer alguma coisa.
Cada dia vejo e oiço coisas que só eu vejo e oiço, e que mais ninguém vê e ouve. Cada dia tenho pensamentos únicos, só meus, e que a mais ninguém são sugeridos. Cada dia sou um campeão de mim mesmo.
Só me falta o espectáculo global e o reconhecimento público, é verdade.
Mas. para mim, é precisamente isso que me torna mais único e diferente.
Esta reflexão foi-me sugerida pela notícia de alguém do mundo global (não retive o nome, no mundo global todas as proezas também são efémeras) que desceu a pé o rio amazonas da Venezuela até à foz, no Brasil. Na notícia diziam que foi sempre acompanhado e muito ajudado por um guia local e que sem ele, o tal guia, a proeza não seria conseguida.
Todavia, esse guia que possivelmente já fez essa proeza várias vezes e que provavelmente ganha a vida acompanhando cidadãos do mundo global nessas viagens, não teve o nome inscrito nesta história e apenas se viu o seu rosto, por detrás da imagem do “herói” global na entrevista final da sua apoteose.
2010-08-09
Afinal não são só os “bárbaros”
Há dias ouvi a notícia de que a Arábia Saudita tinha proibido os telemóveis “Blackberry” no país.
Hoje, de manhã, ouvi a notícia de que a Alemanha tinha proibido os telemóveis “Blackberry” na administração pública alemã.
Que raio terão aqueles telefones que começam a assustar governos ?
Hoje, de manhã, ouvi a notícia de que a Alemanha tinha proibido os telemóveis “Blackberry” na administração pública alemã.
Que raio terão aqueles telefones que começam a assustar governos ?
2010-08-08
Não há Rosa como ela
Há dias acordei ouvindo esta canção de João Gil na telefonia e passei todo o dia bem-disposto.
Tem toda a simplicidade profunda da poesia popular.
Tem toda a simplicidade profunda da poesia popular.
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