2006-09-14

Associação de ideias

Ou:
Como a partir do filme “O Fiel Jardineiro” se pode derivar até uma interessante concepção ontológica.

Primeiro tempo
Num pequeno trecho desse excelente filme de Fernando Meireles, “O Fiel Jardineiro”, há um momento em que numa situação de grande de stress e perigo, Tessa, propõe dar a mão e ajudar na fuga uma miúda sua conhecida que passava por eles, ao que ,Justin, reage afirmando qualquer coisa como isto:
“Por quê perder tempo e arriscarmo-nos ajudando esta criança que até podemos não conseguir salvar ? Ainda se pudéssemos, salvar todas os milhares de crianças que estão a sofrer tanto ao mais do que esta !”
Tessa responde simples e lucidamente: “porque esta está aqui !”
E ajudaram a criança.
(vi o filme há já algum tempo, relatei esta cena de cor ou seja, como o coração se lembra, como dizia Almada Negreiros)

Segundo tempo
Este conflito, retractado no filme, está presente no nosso dia a dia “ajudar este homem para quê ?” a pobreza no mundo e no país vai continuar tal qual”, “para quê proceder deste modo correcto, quando mais ninguém o faz ?, serve para quê ?” ,“para que servirá mais uma gota de água no oceano ?”. Esta reflexão conduziu-me à história referida, no novo testamento, em Lucas 10,25-37.
Um Doutor da Lei judaica, para experimentar Jesus, segundo S. Lucas, pergunta a propósito do preceito bíblico “ama o teu próximo como a ti mesmo” a pergunta fundamental: “E quem é o meu próximo ?” Jesus responde, como era seu hábito, com uma parábola, levando o Doutor da Lei a perceber que o seu próximo significa exactamente isso mesmo, o que está próximo, perto, aqui ao lado, a mesma conclusão de Tessa no filme.

Terceiro tempo
Esta meditação produziu em mim o efeito de uma verdadeira revelação:
O preceito bíblico e os versículos de Lucas 10,25-37 já eu os conhecia desde a minha infância mas a ideia que me era transmitida, e que estava no meu subconsciente, era a de que o “próximo” se referia a toda a humanidade, “somos todos irmãos” dizem.
É esta, aliás a interpretação mais comum, como se pode verificar numa pesquisa no Google sobre o tema. Mas esta interpretação ou antes esta generalização, em lugar de engrandecer, apenas empobrece o preceito, tornando-o inútil.
Agora, abria-se-me uma nova luz, um mundo novo: o meu próximo não pode ser toda a gente ou será apenas toda a gente na medida em que toda a gente me poderá eventualmente estar ou vir a estar próxima.
O que nos é sugerido na realidade, é que não nos preocupemos em mudar o mundo mas antes nos limitemos a amar o “próximo”, actuar no nosso nível de abrangência.
Naturalmente, se todos seguirem este preceito, e apenas desta forma, o mundo poderá alterar-se no melhor sentido.
Parece ser um verdadeiro manifesto anti-globalização!

Quarto tempo
Tendo sido um Doutor da Lei a enunciar o referido preceito Divino, não Jesus (Lucas 10,25-37) significaria que não se tratava de facto de um preceito cristão, mas antes um muito mais antigo, vindo mesmo directamente de Javé, o Deus judaico-cristão.
Parti então em busca do tal preceito sábio inscrito talvez nas tábuas da Lei, nos famosos Dez Mandamentos, de que esta determinação de amar o próximo seria parte do primeiro e mais importante mandamento, segundo o tal Doutor.
A minha busca foi infrutífera, aprendi mesmo que ninguém sabe bem quais são os tais Dez Mandamentos Divinos.
O que há são inúmeros preceitos de Javé, que vários estudiosos Judeus e Cristãos têm associado de diversas formas para formar diferentes versões do tal Decálogo.

Quinto tempo
Uma das normas Divinas que encontrei (Êxodo 21) é a seguinte:
“Quando comprares um servo hebreu, ele servirá durante seis anos: no sétimo readquirirá a liberdade sem nada pagar. Se entrou só, sairá só; se tinha mulher a mulher sairá com ele. Mas se for o senhor que lhe deu mulher, e se tiver filhos e filhas dele, a mulher e os filhos são propriedade do senhor e ele sairá sozinho.”
Afinal, mais uma vez verifiquei que a “infinita bondade” do Deus judaico-cristão, aproxima o seu pensamento ao do execrável senhor de escravos, Senhor Barão de Araruna!.

Sexto tempo
Não parece haver dúvidas a ideia genial da acção voltada para o “próximo” não pode vir daqui, directamente do Deus de Israel, só poderá vir mesmo da cabeça desse sábio homem chamado Jesus Cristo, que aliás a enuncia explicitamente no mesmo ou episódio semelhante ao relatado por S. Lucas, passado agora com um Escriba e referido em Marcos 12,28-34.
A noção do “próximo” foi de facto uma mensagem nova e revolucionária mas, ainda hoje, não bem compreendida.

Sétimo tempo
È por estas e por outras que eu não posso ser cristão, pelo menos da maneira que as pessoas normalmente dizem “sou cristão”, não obstante considerar Jesus Cristo, como um homem justo, muito lúcido e com uma enorme riqueza de pensamento que todos aproveitaríamos em conhecer melhor de todas as formas possíveis, já que ele próprio não escreveu nada que nos chegasse à mão.

2 comentários:

joana disse...

A epifania que tiveste, sobre a acção local, é no fundo o mote "Pensar global, agir local" que rege os pequenos movimentos cívicos e de cidadania. Acho que nos dias de hoje o ambientalismo é talvez o movimento que mais tenta passar essa mensagem: recicler mesmo que o vizinho não faça, poupar água, mesmo que a cidade não o faça. As conquistas fazem-se de esforços individuais. Obviamente acho que isto vale para tudo, eu nem sou ambientalista.

Choca-me no entanto um pouco que esta noção seja uma novidade para ti. Lembro-me de ter aulas de português no 8º ano com um padre e de ele nos contar, como tu, que ao andar por Lisboa nunca dava esmolas pq não poderia dar a todos os que precisavam. Mas que após reflexão chegou à conclusão que estava ao seu alcance ajudar pelo menos alguns. Para ele, isto também foi uma grande revelação. Mas lembro-me da sensação que tive dele nos estar a ensinar algo óbvio. Um que seja é sempre mais do que nenhum.

Nuno Jordão disse...

Poi é Joana mas a revelação, para mim, não foi o princípio em si, a revelação foi a sua constatacção, clara como a água, no Novo Testamento e o facto da Igreja não ver esta evidência.