2008-08-01

Esta noite em Mirandela...

O som da percussão intenso, monótono, repetido, até à exaustão, tem um fascínio para a nossa espécie que talvez se explique apenas por qualquer fenómeno de psicoactividade.
O que é certo é que ele está presente em praticamente todas as culturas humanas e faz parte do folclore e de diversos rituais sociais próprios de cada cultura.
Luis Buñuel descreve como foram marcantes para ele e como essa memória o acompanhou sempre, os tambores de Calanda (a sua aldeia natal) percutidos em uníssono e com grande intensidade na festa da Semana Santa.
Aqui fica um pequeno trecho do que Buñuel escreveu sobre o assunto:
Cuando el reloj de la Torre del Pilar inicie la cuenta de las 12, en la mañana del Viernes Santo calandino, la hora quedará rota. El sonido de los redobles se convierte en un lenguaje expresivo. A la primera campanada de las doce del reloj de la iglesia, un estruendo enorme como de un gran trueno retumba en todo el pueblo con una fuerza aplastante. Todos los tambores redoblan a la vez. Una emoción indefinible que pronto se convierte en una especie de embriaguez, se apodera de los hombres.
Do livro “O último suspiro” de Luis Buñuel
É interessante ver como ele sentiu esse efeito inebriador dos tambores.
O Youtube permite-nos sentir um ar dessa graça.




Em Mirandela, a noite dos bombos, que será esta noite, tem porém características diferentes:
Não é uma tradição antiga: conta-se que em meados do século passado, um grupo de médicos do hospital de Mirandela roubou ou de qualquer forma se apoderou dos bombos de um grupo que deveria actuar nas festas anuais da Srª do Amparo e, com a ajuda de muito álcool iniciou uma batucada infernal que terá durado toda a noite. Como eram doutores tiveram alguma complacência das autoridades e da população e assim nasceu a tradição que ano após ano se repete em Mirandela e atrai já muitos forasteiros.
Chama-se “Noite dos Bombos” e é praticamente desorganizada, daí talvez parte do seu encanto, consiste essencialmente em vários, muitos, grupos informais de ambos os sexos e de todas as idades, alguns trajando a bata branca médica, remetendo-nos para a sua origem, outros simplesmente bebendo e tocando por toda a cidade até à manhã seguinte, até não poderem mais.
É uma noite sem regras, sem freios e sem tino.
Alguns habitantes da cidade, porque gostariam de dormir, não suportam esta noite em claro e procuram fugir da cidade, outros sonham com ela e lamentam apenas que seja só uma vez por ano.
O melhor é mesmo participar.
É sempre um “happening”.
A baixo, fica também um breve filme sobre um dos muitíssimos grupos actuantes que pode dar uma muito pálida ideia do que esta noite vai ser.
Viva a noite dos bombos de Mirandela.

2 comentários:

Eduardo Jordão disse...

É de facto um acontecimento do qual não me esqueço, faz parte das minhas recordações de infância, quando eu teria talvez uns 10 anos e passei uns tempo na sua casa. A noite dos bombos foi a primeira noite em que estive acordado até Às 6 da manhã. Memorável.

Joaquim.pires disse...

Estava eu agora a dormir, contando com uma noite normal nas minhas ferias em Mirandela quando ouço dentro de meu sonho um ritmo, um uma se suspiro longínquo repetido.

O suspiro aumenta, o som sobe, percebo que são tambores e que saltaram do sonho e passaram para fora do quarto.
Acordo.
São os bombos da festa. Levanto-me da cama e sigo o som até à rua. Percebo por entre os estampidos, um rufos e gritos de gente que incentiva.
São 4 da manha. Na rua de baixo uma turba de gente percorre e rua numa procissão de bombos.
O ritmo é infernal, pagão. Na maioria jovens, as pessoas estão compenetradas no seu papel, a cadencia repete-se, numa dinâmica gerida pelo grupo como um todo. Um uníssono redondo, repetdo. Hipnótico.
Estranho a falta de gentes a vervpassar este cortejo.
Deve ser de se ficar em casa, à espera que passe. O efeito devem ser bem mais assustador.
Muito bom.