2007-03-18

Por uma última vez

Desculpem-me a insistência em Dylan Thomas, tão breve não falarei mais dele, prometo, mas o meu fascínio pelo poema transcrito abaixo fez-me procurar pelas suas traduções para a nossa língua.
Na verdade, encontrei apenas 2 e nenhuma delas me agradou.
Entre outras razões, vi que nenhuma utilizava o termo “boa noite”: uma dizia “noite serena” e outra “noite acolhedora”.
Ora, para mim, uma das riquezas desse primeiro verso “Do not go gentle into that good night” provêm precisamente desse duplo sentido entre “noite boa” (que poderia ser acolhedora ou serena) e “boa noite” (como despedida de quem se vai deitar) e esse duplo sentido de “good night” resulta tal qual em português se utilizar “boa noite” e apenas se o utilizar.
Pus mãos à obra, fiz a minha própria tradução.
Uma dificuldade que não consegui ainda ultrapassar (aceito sugestões dos meus leitores amantes da língua) é a de que Dylan Thomas não disse “Do not go gently into that good night”, usou “gentle” preferindo o adjectivo ao advérbio, preferindo caracterizar a atitude de quem entra nessa boa noite e não o modo como se deve entrar e isto parece-me importante no poema (embora mesmo em inglês tenha encontrado citações que referiam “gently” significando que também algumas pessoas de língua inglesa consideram este aspecto como uma minudência), o problema com que me defrontei então foi o das rimas, embora para muitos tradutores consagrados (até por o serem) as rimas devam ser secundarizadas, para mim, também são importantes.
Acontece que “gentle” tem um campo semântico vasto.
Intuitivamente, para mim, neste contexto, era “suave” a melhor tradução mas as 2 traduções que vi foram “com doçura” e “docilmente”, mas poderiam também ser, talvez, “com cuidado” “gentil” e ainda algumas outras.
O problema é que o final desta frase forte deverá rimar com o final da outra “dying of the light”, como “night” rima com “light” e aí é que está o busílis, noite tem poucas rimas em portugês e invertendo a frase para “Na boa noite não entres suave” (para usar suave) não encontrei rimas que não afastassem demasiado o texto do seu sentido original, optei então por “Não entres nessa boa noite suavemente” (com o advérbio maldito mas garantindo uma maior facilidade de rimas).
Quanto ao resto da poesia não tive grandes dificuldades (possivelmente por inconsciência) tirando o “last wave” que pode ser “última onda” ou "último aceno” (opções de cada uma das traduções que vi). Para mim “last wave” foi claramente “último aceno".
O “rage” de “Rage, rage against the dying of the light” também não é uma questão simples.
Nas duas traduções vistas, os autores optaram por “ódio”, mais natural em português, mas julgo que longe do “rage” inglês para o qual não teremos uma tradução perfeita .
O ódio parece-me construído, fundamentado, justificado interiormente, o “rage” é selvagem, irracional, sai das entranhas de um homem ou de um animal.
Visto isto optei por “raiva” que tem mais essas características irracionais, embora com a consciência de que também não é a palavra perfeita.

Posto isto a minha tradução é a seguinte:
(PS entrando em conta com a sugestão da Joana alterei a raiva para um verbo "reage"

Não entre nessa boa noite suavemente

Não entres nessa boa noite suavemente
A velhice deve arder em festa ao encerrar do dia
Reage, reage contra a luz evanescente.

Embora os sábios conheçam no seu fim a escuridão presente
Porque suas palavras não penetraram a luz que ardia
Não entram nessa boa noite suavemente.

Bons homens ao último aceno, clamam o brilho ardente
Dos seus frágeis feitos que quase dançaram na verde baía
Reagem, reagem contra a luz evanescente.

Homens audazes que apanharam cantando o sol movente
E viram, já tarde, como o perturbaram na sua via
Não entram nessa boa noite suavemente.

Homens graves, próximo da morte, que vêm turvamente
Que olhos cegos podem resplandecer tal meteoros na alegria
Reagem, reagem contra a luz evanescente.

A ti, meu pai, lá nessa triste altania,
Amaldiçoa-me, abençoa-me com as tuas lágrimas cruéis, pedia,
Não entres nessa boa noite suavemente
Reage, reage contra a luz evanescente


Dylan Thomas

Tradução de Nuno Jordão

2 comentários:

joana disse...

Pai,

A mim chocou-me o entenderes "rage" como um nome e não um verbo. "Rage against the dying of the light" sempre foi interpretado por mim como uma incitação à revolta. Algo como "Revolta-te contra essa luz moribunda" (não estou a pensar em rimas).

Nuno Jordão disse...

É, revolta-te é de facto melhor em termos de significado, mas é difícil a sua repetição por quetões de métrica e de musicalidade e custa tanto perder a força dessa repetição.
É por isto que traduzir poesia é um bico de obra.