2011-01-31

O valor do dinheiro, hoje

Quando, há pouco tempo, morreu Ernâni Lopes, no programa “Contraditório” da RDP1, entre os habituais elogios fúnebres (neste caso bem merecidos), Luis Delgado referiu como um pequeno sinal de senilidade no final de vida de Ernâni Lopes, que este costumava dizer que o dinheiro de hoje, desligado, como está, de qualquer padrão de valor, circulando “on line” aos milhões de lado para lado, não era mais do que meros fotões.
- Fotões, são apenas fotões, dizia Ernâni Lopes.
A verdade é que não era qualquer sinal de senilidade que o fazia dizer isto, era apenas a sua lucidez.

2010-12-21

Parecia difícil de compreender

Como a Igreja Católica tão rápida a reagir contra tudo o que fere a sua susceptibilidade, como o livro Caim de Saramago, por exemplo, não tenha reagido, pelo menos de forma que eu desse por isso, ao ultrajante anúncio da Nexpresso, que trata do Céu e do Divino como sendo um antro de malfeitores, e S. Pedro como um Chefe da Máfia.
Estranhei este silêncio e só antevejo uma explicação:
A imagem do Céu que nos é dada no anúncio não difere muito, de facto, da própria imagem de Céu e do Divino que a Igreja Católica nos apresenta.

2010-11-22

A ajuda

Que ajuda é esta que a Irlanda foi obrigada a aceitar, chorando como se fosse para a forca?
Que ajuda é esta que Portugal combate desesperadamente para não recorrer a ela?

2010-11-20

Como montar uma estratégia mediática

Pegue numa bola de ping-pong e deixe-a cair à altura do peito.
Dê a notícia: “A bola está a cair”
Prepare debates, uns técnicos com especialistas que nos explicam a lei da gravidade, estimam a velocidade da bola, desenham o seu percurso e a sua posição a cada momento, outros debates para procurar culpados, porque caiu a bola? Porque não a segurou? Foi sozinho ou alguém empurrou a sua mão e por aí fora, debata de quem foi a culpa.
Entretanto a bola bate no chão e começa a subir.
Dê a notícia: “a bola agora está a subir”.
Prepare novos debates, uns técnicos, explicando tudo, determinando a velocidade a posição e o novo percurso da bola, outros especulando sobre se esta subida é permanente ou não, se é boa ou não, e o que irá acontecer à bola.
Entretanto a bola volta a cair e tudo recomeça seguindo os ciclos.
Nós vamos assistindo a tudo curiosos e tomando partido de acordo com as nossas simpatias embora já todos saibamos o que irá acontecer: que a bola há-de cair de novo e subir de novo, algumas vezes, em percursos cada vez com menor amplitude até se quedar no chão, rolar um pouco e aí ficar até que alguém a vá buscar ou não.

2010-11-12

Morreu João Serra

Só o vi uma vez, disse-me adeus.
Adeus, João Serra

2010-11-02

Agora sou mais de ler do que de escrever

Não é que me faltem tópicos e bocas para ir pondo aqui, só que quando decido escrevê-las logo me vem a ideia que não terão assim grande interesse público, que não vou conseguir dizê-lo de forma que me compreendam.
Passo mais tempo a ler, portanto e ler é bom também.
Li “Ecce Homo” de Nietzche em que este nos fala de si próprio e das sua história, “Eis o homem”, “Ecce Homo” é por tanto um bom título, só que não é o título da edição portuguesa, que é mais qualquer coisa como “O erro da civilização” mas que, em concreto, já não sei bem, já me esqueci.
Recomendo vivamente a sua leitura e conforta ver como Nietzche chegou há 150 anos à mesma conclusão que eu vou penosamente vislumbrando: O que importa na vida é o lugar onde vivemos, o país, a gastronomia e o funcionamento das nossa funções vitais, é isso que nos molda e que nos faz ser aquilo que somos.
Li também “A Inssureição que Vem” do Committé Invisível, e de que de uma passagem já dei conta aqui abaixo neste blogue. É um livro perturbador e deprimente na análise que faz do nosso tempo, no entanto é um livro muito lúcido que também vale a pena ler.
Li ainda “Mendigos e Altivos”, um clássico de Albert Corssery, autor Franco-Egípcio que relata a miséria e a natureza humana como mais ninguém,
Curiosamente revi ontem o excelente filme de Wim Wenders “The Million Dolars Hotel” e percebi agora que esse filme não é mais do que uma outra versão de “Mendigos e Altivos”.
Li também “Livros e Cigarros” de George Orwell, uma colectânea de pequenos ensaios auto reflexivos do autor, sobre experiências suas. Um grande livro também, embora pequeno em tamanho.
Recomendo a leitura de todos estes livros.
Não será certamente uma perda de tempo.

2010-10-21

O Caminho do sucesso

A revista humorística MAD, de banda desenhada ou de quadradinhos como dantes se chamava, foi minha companheira de muitos momentos da minha juventude.
Lembro-me, ainda hoje, de muitos episódios que então aí li e foi um deles que me veio agora à memória que eu vou recordar aqui:
“Um pai, de meia-idade falava com um seu filho jovem como um ar importante e paternalista, dizia-lhe:
- Meu filho, quando cheguei a Nova Iorque, tinha 20 anos, a roupa do corpo e apenas 50 cêntimos no bolso. Agora, passados todos estes anos, tenho esta casa enorme, um belíssimo carro e 500 milhares de dólares, de dívidas que tu, meu filho, ainda irás pagar um dia.”
Lembrei-me desta história e lembrei-me de Sócrates a falar aos portugueses.
Não sei exactamente porquê mas não deixei de associar as duas coisas.

2010-10-06

16 Toneladas

16 Toneladas e o que ganhas na vida?
Ficas um dia mais velho e mais fundo na dívida
S. Pedro não me chames, porque eu nunca iria
A minha alma pertence ao armazém da Companhia.

2010-09-21

Agora, com Paulo Bento seleccionador nacional

Vamos muito provavelmente falhar a qualificação mas, pelo menos assim vai ser com muito mais tranquilidade

2010-09-15

Pior a emenda do que o soneto

Ao PSD faz-lhe confusão a expressão constitucional “despedimento por justa causa”, que ninguém sabe ao certo o que será mas tem, pelo menos, o condão de referir a justiça como a noção que deve orientar as decisões naquele domínio.
Para substituir propôs, o PSD, “razão atendível”, sem referir atendível como e atendível por quem, aumentado a dificuldade de interpretação.
Reconhecida a dificuldade sai-se com uma “pérola” pior: “legalmente atendível” ou seja atendível pela lei e quer isto escrito na constituição.
Como é sabido é a constituição que condiciona a lei, é para isso que existe, para definir princípios universais que devem se consagrados na lei e impor-lhe limites inconstitucionais.
Ao condicionar esta norma constitucional à lei, o PSD produziu uma aberração cheia de som e fúria mas significando nada.
Se a lei ocasionalmente disser que não se pode despedir em caso algum, ninguém é despedido, se, pelo contrário disser que se pode despedir quem tem olhos castanhos, isso passa a ser uma razão atendível.
A norma constitucional não serve absolutamente para nada.

2010-09-10

A estranha proposta de queimar o Alcorão

A proposta desmiolada do Pastor Terry Russel de efectuar uma queima pública do Alcorão para comemorar o 11 de Setembro, sugere-me a mesma observação que ouvi atribuída a Tony Blair:
“Em vez de o queimar fariam talvez melhor que tentassem, pelo menos, lê-lo”

2010-09-09

A propósito da política xenófoba de França

Para os Portugueses que estão integrados, como terão aprendido na escola, no mais antigo Estado da Europa, em condições históricas quase únicas para terem ainda algum sentido de pertença, podem não sentir este texto da mesma forma que os franceses, embora este seja um texto muito lúcido e que toca exactamente no âmago da questão.

O rebentar de uma explosão de riso seria a resposta adequada a todas as graves «questões» que a actualidade tanto gosta de levantar. A começar pela mais repisada de todas: a «questão da imigração», que não existe. Quem é que ainda cresce no mesmo sítio onde nasceu? Quem é que vive no mesmo sítio onde cresceu? Quem é que trabalha no mesmo sítio onde vive? Quem é que vive no mesmo sítio onde os seus antepassados viveram? E as crianças desta época são filhas de quem, da televisão ou dos pais? A verdade é que fomos, em massa, arrancados a toda e qualquer pertença, já não somos de lado nenhum, e que daí resulta, a par de uma inédita propensão para o turismo, um inegável sofrimento. A nossa história é a das colonizações, das migrações, das guerras, dos exílios, da destruição de qualquer enraizamento. Foi a história de tudo isso que fez de nós estrangeiros neste mundo, convidados na nossa própria família. Fomos expropriados da nossa língua pelo ensino, das nossas canções pelos espectáculos de variedades, da nossa carne pela pornografia de massa, da nossa cidade pela polícia, dos nossos amigos pelo trabalho assalariado. A isto junta-se, em França, o trabalho feroz e secular de individualização levado a cabo por um poder de Estado que regista, compara, disciplina e separa os seus cidadãos desde a mais tenra idade, que tritura instintivamente as solidariedades que lhe escapam, de modo a que não reste nada senão a cidadania, a pura pertença — fantasmática — à República. O francês, mais do que qualquer outra coisa, é o espoliado, o miserável. O ódio que tem ao estrangeiro funde-se com o ódio a si próprio enquanto estrangeiro. O misto de inveja e terror que sente em relação às «cités» revela apenas o seu ressentimento por tudo o que perdeu. Não consegue evitar invejar esses bairros ditos «problemáticos» onde ainda persiste um pouco de vida comum, alguns laços entre as pessoas, algumas solidariedades não-estatais, uma economia informal, uma organização que ainda não se separou daqueles que se organizam. Chegámos a um ponto tal de privação que a única maneira de nos sentirmos franceses é barafustarmos contra os imigrantes, contra aqueles que são mais visivelmente estrangeiros como eu. Os imigrantes ocupam neste país uma curiosa posição de soberania: se eles cá não estivessem, os franceses talvez já não existissem.


L`insurrection que vienne – Comité Invisible

Livro, excelente, publicado em França em 2007, foi agora traduzido e editado em português pelas “Edições Antipáticas”.
O texto global pode e deve ser descarregado em PDF
aqui, site onde pode ainda descarregar outras pérolas filosófico-literárias.

2010-09-08

Bom dia

Hoje ouvi nas notícias que o INE tinha revisto em alta o crescimento desta nossa nação.
O crescimento homólogo não é de 1,4% como atrás parecem ter dito, mas antes
1, 5% .
Ficámos todos muito felizes.

O trágico acidente de viação entre Ceuta e Tetuão.

Hoje, nas notícias, ouvi um, parece que Secretário de Estado, que tem alguma coisa a ver com este tipo de acidentes, que o acidente ocorreu entre Ceuta e uma cidade que se designa “Tetouan” ou talvez “Tetuan”.
Na altura chamou-me a atenção uso desse termo: “que se designa por …”.
Será que se fosse Paris ele diria: “uma cidade que se designa por Paris”?
Mas Tetuão, como praticamente todas as cidades marroquinas, são-nos familiares, há séculos.
Eu, em miúdo, fui obrigado a decorar a cantilena das praças portuguesas em Marrocos das quais só permaneceram no meu consciente “Arzila” e “Marzagão”, mas que em Marrocos os próprios marroquinos me fizeram recordar com orgulho e escrevem nas suas ruas a toponímia portuguesa.
Algumas até têm, mesmo hoje designações portuguesas que os marroquinos conservam com orgulho e respeito como “Mogador” que é afinal, em Árabe, Essaouíra, na transliteração francesa ou Essauíra, na transliteração portuguesa e que os portugueses, infelizmente, vão esquecendo.

O caso Carlos Queirós

Só tenho duas palavras: “Uma vergonha!”.

2010-09-04

A sentença do Processo Casa Pia

Ludwig Vittgenstein, terá dito que “não há verdade nem mentira, apenas certeza e dúvida”.
A sensação que tenho relativa à sentença sobre o Processo Casa Pia é que ela traduz a certeza de muitos, a dúvida de muitos outros mas a verdade de ninguém.

2010-08-25

David e Golias

Os únicos combates que me interessam hoje são os combates entre David e Golias onde Golias ganha quase sempre.
Mas há vezes raras em que os deuses no Olimpo se conjugam para que David ganhe e são esses os momentos raros e únicos que valem e fazem suportar a permanente desilusão.
Ontem foi assim com o Braga: David bateu Golias.
Foi um momento raríssimo e, como tal, todos os adeptos exultaram, “fizemos o quase impossível!”.
Quem não gosta destes momentos raros é o sistema, a polícia, a ordem, que não suporta a felicidade dos outros.
Por um acaso, assisti em directo à chegada ao Porto da equipa do Braga, perto das 2 horas da matina. Foi um momento em que a felicidade de todos transbordava.
Só a polícia destoava, batia e punia o mínimo “excesso”, estragava a festa.
Hoje, nas notícias punha a capa de santa e dizia, “ninguém ficou detido”.
Eu digo “è mentira, ficou detido e maltratado um adepto do Braga, que eu vi, detido no pior momento, num momento em que estava eufórico de alegria, detido por quase toda a vida, portanto”.

2010-08-10

Ser único

Um dos valores que a sociedade global valoriza e procura é precisamente aquela que parece tornar-se escassa: a qualidade da diferença, da unicidade.
Por isso se festejam os campeões, os primeiros a fazer algo, os que se inscrevem no “Guiness Book of Records”.
Todavia e felizmente ainda é essa unicidade que caracteriza cada um de nós.
Todos os dias somos únicos e primeiros a fazer alguma coisa.
Cada dia vejo e oiço coisas que só eu vejo e oiço, e que mais ninguém vê e ouve. Cada dia tenho pensamentos únicos, só meus, e que a mais ninguém são sugeridos. Cada dia sou um campeão de mim mesmo.
Só me falta o espectáculo global e o reconhecimento público, é verdade.
Mas. para mim, é precisamente isso que me torna mais único e diferente.
Esta reflexão foi-me sugerida pela notícia de alguém do mundo global (não retive o nome, no mundo global todas as proezas também são efémeras) que desceu a pé o rio amazonas da Venezuela até à foz, no Brasil. Na notícia diziam que foi sempre acompanhado e muito ajudado por um guia local e que sem ele, o tal guia, a proeza não seria conseguida.
Todavia, esse guia que possivelmente já fez essa proeza várias vezes e que provavelmente ganha a vida acompanhando cidadãos do mundo global nessas viagens, não teve o nome inscrito nesta história e apenas se viu o seu rosto, por detrás da imagem do “herói” global na entrevista final da sua apoteose.

2010-08-09

Afinal não são só os “bárbaros”

Há dias ouvi a notícia de que a Arábia Saudita tinha proibido os telemóveis “Blackberry” no país.
Hoje, de manhã, ouvi a notícia de que a Alemanha tinha proibido os telemóveis “Blackberry” na administração pública alemã.
Que raio terão aqueles telefones que começam a assustar governos ?

2010-08-08

Não há Rosa como ela

Há dias acordei ouvindo esta canção de João Gil na telefonia e passei todo o dia bem-disposto.
Tem toda a simplicidade profunda da poesia popular.

2010-07-29

A importância estratégica

Agora já sabemos qual era a importância estratégica fundamental para o país, que Sócrates referiu para usar a sua polémica “golden share” na PT.
Valia precisamente 350 000 Euros!

2010-07-25

O mercado divino

Harvey Cox é um professor de religião, de Harvard, agora aposentado.
Como ele próprio refere, foi com surpresa que ao se dedicar a analisar o mundo da finança e da economia “the real world”, o mundo real, como lhe diziam, não encontrou mais do que uma variante do seu mundo habitual de especialidade, as religiões.
E aí detectou o “deus mercado”, com todos os atributos dos outros deuses: a omnipresença, a omnisciência e a omnipotência, os seus sacerdotes, os seus locais de culto, os seus milagres e as suas punições.
Está tudo neste artigo, em Inglês, que não tive pachorra para traduzir, embora valha a pena ler.
É uma artigo pleno de sabedoria e de clarividência.
A quem domine minimamente o inglês, recomendo a sua leitura vivamente

2010-07-14

O que é que o episódio de Alexandre Magno e do nó Górdio, poderá ter a ver com Sócrates e a golden share na PT (explicado às crianças).

PARTE IV e última
Pois é não foi amanhã como prometi no último episódio mas foi depois de amanhã.
Mas vamos ao que interessa:
Como vimos o Estado tem a seu cargo os chamados serviços essenciais, aqueles que não podem falhar sem grande dano para os cidadãos, como a recolha do lixo, de que já falei, mas também a distribuição de energia e de água, por exemplo, e isto para que se não caia no risco de em mãos privadas eles falharem em qualquer ponto simplesmente porque não dão lucro.
Estes serviços ,contudo, são provisionados pelo mercado, eu pago a electricidade e a água que consumo e como são produtos essenciais têm venda praticamente garantida e todos os privados querem negócios destes.
O Estado, por outro lado, dá-lhe jeito vender estes serviços, porque arrecada mais algum dinheiro e não tem o trabalho nem os custos para os manter.
Assim tudo se conjuga para que o Estado venda essas empresas aos privados, só que há um problema, é que quando vende já não é dele e assim não pode mandar.
Mas como o Estado é engenhoso inventou um processo.
Perguntou, não posso mandar porquê? Se eu não mandar os malandros dos privados ainda lhes vão faltar posso criar uma figura chamada “golden share” “acções douradas”.
A Opinião pública, os cidadãos, percebem isto, faltar a luz e a água é que não, pois que seja que o Estado a continuar a mandar.
Com a opinião pública favorável, os privados pensam assim: “que seja, já que os lucros continuam nossos”, se houver algum problema logo vemos.
E a tal “Golden Share” é criada e diz mais ou menos isto, o Estado não põe dinheiro nesta empresa mas pode mandar nela sempre que seja preciso.
O que é normal é que sejam os donos a mandar, mas o Estado entende que isso não está escrito em lado nenhum e manda a espadeirada como Alexandre Magno madou no nó górdio.
E tal como para o Alexandre resultou, foi assim que o Estado português mandou na PT mesmo que da PT só tenha um bocadinho equivalente às torneiras do lavatório.
Como já disse, na história do Alexandre Magno não apareceu nenhum juiz a acusá-lo de batota, mas no caso português já apareceu um Juiz da União Europeia a dizer isso mesmo.
Mas como diz o povo: “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas” e estas pauladas vão ser a rítmo de caracol e no fim, mesmo que tudo corra mal, logo se inventa outra solução.
Para inventar os seres humanos são especialistas, essa é que é essa.

2010-07-12

O que é que o episódio de Alexandre Magno e do nó Górdio, poderá ter a ver com Sócrates e a golden share na PT (explicado às crianças).

PARTE III
Meus amigos, deixemos a Frígia, há muito, muito tempo.
Abram as vossas asas, liguem os vossos reactores de imaginação e voem pelo espaço e pelo tempo até um cantinho no Ocidente da Europa, chamado Portugal, e posem no ano de 2010.
O que se vê e se vive é a chamada civilização.
Como sempre, nos locais civilizados, existe um Estado, com o seu governo e com todo um aparelho de administração, de serviços públicos e de polícia e existe um mundo, dito privado, de lojas, de fábricas, de escritórios, que também nos prestam serviços e nos vendem coisas.
Como sempre, é o dinheiro que domina tudo e que tudo permite mas também que tudo nos impede, o dinheiro é como se fosse o sangue da sociedade.
E isto é válido tanto para o Estado como para o mundo privado, mas há uma súbtil diferença, o mundo privado pretende sempre ganhar mais e mais dinheiro é só para isso que trabalha. O Estado é mais movido pelo poder, pela possibilidade de mandar, embora que sem dinheiro também não mande nada.
Outra diferença é como o mundo privado e o Estado ganham o seu dinheiro.
O mundo privado recebe-o de nós directamente sempre que nos vende alguma coisa ou no faz qualquer serviço. É provisionado pelo mercado, como dizem os especialistas que sabem destas coisas de dinheiro.
O Estado vai-nos fornecendo serviços e coisas gratuitas, como as ruas e os jardins e os parques infantis que faz, a escola e os hospitais para quando estamos doentes , e cobra tudo por junto através dos chamados impostos que, como o nome já diz, são mesmo impostos, à força, vêm do seu poder, do tal poder do Estado. Os especialistas chamam a esta maneira de cobrar dinheiro, provisão pública.
Isto foi assim pensado no princípio da civilização e tinha uma razão de ser, como os privados só pensam em ganhar dinheiro, por exemplo, podiam não estar para vir buscar o meu lixo, por ser muito longe para eles e eu não ter dinheiro para pagar todos os custos que teriam para o fazer, esse tipo de serviços essenciais, como a recolha do lixo, é, então, geralmente feito pelo Estado, que apenas cobra por grosso e de forma proporcional ao rendimento dos cidadãos (pelo menos teoricamente) permite fazer tudo por todos independentemente das condições de cada um.
Estas eram contudo regras não escritas e, como Alexadre Magno ao partir a corda do nó górdio, com a sua espada,porque ninguém lhe disse que assim era batota (lembram-se dele), muitos começaram a usar as falhas das regras para seu proveito, como se vai ver.
Hoje, à medida que a civilização evoluiu as coisa começaram a ser mais complicadas e misturadas, muitos privados começaram a usar provisão pública para ganharem o seu dinheiro, é o caso, por exemplo, da internet e da TV por cabo que eu pago todos os meses independentemente de usar a internet ou ver a TV muito pouco ou nada. Por outro lado o Estado começou a usar a provisão pelo mercado para ganhar o seu dinheiro, como, por exemplo nas portagens da auto-estrada e nas chamadas taxas moderadoras dos hospitais.
Hoje já é normal para o estado usar expressões tipo “utilizador pagador” e coisas semelhantes que lhe permite arrecadar dinheiro de forma mais expedita e isto para além dos impostos, é claro, porque esses nunca acabam, o nó górdio foi quebrado à espadeirada.
Por agora fico por aqui, amanhã lá chegarei à “golden share”, espero.

2010-07-11

O que é que o episódio de Alexandre Magno e do nó Górdio, poderá ter a ver com Sócrates e a golden share na PT (explicado às crianças).

PARTE II
Ainda se lembram da história que eu contei ontem?
Essa história, como todas as outras histórias antigas e que persistem até hoje na memória de muita gente, assim como muitas histórias infantis, como a do capuchinho vermelho e a da branca de neve, procuram dar-nos ensinamentos, têm geralmente aquilo a que se chama uma mensagem semi-oculta que temos de descobrir e que cada um vai descobrindo à sua maneira, têm aquilo a que se costuma chamar uma moral.
Vejamos a moral desta história.
Toda a gente pensava, naturalmente, que o difícil seria desatar aquele nó, com as mãos, com muita habilidade, compreendendo como a corda se entrelaçava e desfazendo esse entrelace.
Mas isso não estava explícito em regra nenhuma, porque não precisava estar, toda a gente entendia que teria que ser assim.
Mas para isso já havia 500 anos de pessoas a tentar e o certo é que ninguém tinha ainda conseguido.
Aliás é por essa razão que se dá hoje o nome de” nó górdio” a qualquer problema que ninguém consegue resolver.
Alexandre Magno, que já sabia isso tudo e sabia também que certamente, como todos os outros, também não conseguiria desatar o nó, mas que sentia também que era muito importante para ele porque lhe daria muito poder e que ninguém lhe tinha imposto regras e que a sua espada cortaria toda a corda com facilidade, escolheu esse caminho mais fácil, o único ao seu alcance.
Hoje, nessa história, admiramos Alexandre Magno que assim conseguiu o que queria e que aproveitou uma falha do sistema, tirando partido dela.
Na história, poderia ter aparecido um qualquer mago ou juiz que dissesse a Alexandre que o que ele fez foi batota e lhe tirasse o reino, mas de facto não apareceu e a moral da história ficou, mais ou menos, assim: que é justo usarmos toda a nossa habilidade e também a esperteza para conseguirmos vencer os obstáculos que nos são colocados.
Essa moral tem orientado, até hoje, muita gente no mundo em situaçõe reais.
Poderia talvez formular-se assim: se o objectivo é muito importante todos os meios, que ninguém ponha em causa com sussesso,poderão e deverão ser usados.
Os exemplos são muitíssimos no desporto, na guerra, na economia e nas finanças mas perderia muito tempo a apresentá-los aqui, neste momento.
Continuarei então amanhã.