2010-02-25

A arte de copiar

No pensamento único, como generalização homogeneizada do pensamento anglo-saxónico, o acto de copiar é encarado como praticamente um crime, um roubo, a obtenção desonesta de uma vantagem, à custa do esforço de um terceiro.
Até certo ponto, pode ser visto assim, de facto.
Todavia sem a cópia nunca haveria nenhum progresso na espécie humana:
As crianças, desde a mais tenra idade, aprendem precisamente copiando, imitando e a ciência só progride aos ombros uns dos outros, como dizia, salvo erro, Newton.
Nos meus tempos de jovem estudante copiar nos testes e exames era perseguido mas não moralmente reprovado.
Havia muita arte e engenho nas formas de copiar, de criar cábulas à prova de detecção e ao criá-las acabávamos por estudar um pouco, não sei se do mais importante mas, pelo menos, daquilo que pensávamos que iria sair e, como Deus é grande, geralmente saía.
Para os professores era também um estímulo e uma dificuldade, a missão ingrata de procurar detectar quem é que deveras sabia e quem é que trouxera o conhecimento consigo, no bolso das calças ou na aba do casaco.
E este processo vinha já de longe, lembro-me de o meu pai contar um episódio, certamente imaginado, da sua juventude onde perante duas provas exactamente iguais na justeza das respostas, o professor classificou uma delas altamente e anulou a outra.
Revoltado, o autor da prova anulada foi pedir explicações,
- Porque o senhor copiou tudo.
Justificou-se o professor.
- Copiei? Eu? Como é que o senhor sabe isso? Tanto quanto sei as provas estão quase iguais, quem lhe disse que não foi o meu colega que copiou por mim?
- É muito simples, na questão 3 o seu colega respondeu, “não sei” e na sua prova, na mesma questão, o que consta é “Também não”!
Passado anos fui eu próprio professor na Universidade de Évora e recordo-me do mal-estar que senti quando, em lugar da minha argúcia, foi um dos meus alunos que me denunciou um seu colega pelo crime de ter copiado.
A vontade que me deu foi a de louvar o infractor e punir o denunciante. Nos meus tempos de estudante, essa denúncia era impensável, só o mais reles e miserável dos alunos poderia ter o desplante de denunciar um colega.
Foi um dos momentos em que me apercebi como o mundo estava mudado.

2010-02-17

O traseiro do Governo

Há dias, num dos debates da TVI24, ouvi a um analista político, cujo nome, infelizmente, não retive, a explicação mais lúcida que alguma vez foi dita ou escrita sobre esta crise das escutas.
Citando Eça sobre a metáfora do manto diáfano da fantasia que cobre a nudez crua da verdade disse: o manto foi rasgado, agora todos podem ver o traseiro do governo.
É bem verdade, não há diferença entre Sócrates e todos os anteriores governos, neste domínio, o uso dos circuitos informais, do dito tráfego de influência, sempre foi uma medida utilizada por todos os governos para defenderem os seus pequenos e grandes interesses, só que tudo isto era feito debaixo do manto diáfano da fantasia que agora se rasgou.
As novas tecnologias de informação, as chamadas NTI, os telemóveis, os FAX, a Internet, tudo isso, é um mundo novíssimo que coloca problemas também novos.
Eu, no meu escasso tempo de vida, testemunhei essa mudança, lembro-me de assistir a acções de divulgação que nos falavam desse mundo novo da Internet mas que exigia ter um computador, caríssimo, que talvez algum dia pudesse vir a comprar e de ter, de serviço, um dos primitivos telemóveis, que exigiam uma enorme caixa na mala do carro mas que me permitiram, algures, no anos 80 do século passado, telefonar de uma zona perdida de França para a família e, imaginem, sem pagar um tostão. O próprio capital ainda não se tinha apropriado do meio, só a investigação funcionava e queria mostrar as suas conquistas.
Lentamente ou melhor rapidissimamente, tudo entrou no nosso quotidiano e tudo mudou.
Depois vimos já Aznar, em Espanha ser “distituído”, por manifestações convocadas por SMS, podemos saber das coisas mais recônditas, em blogs, nos twitter e nos face book. Vemos a China e outros países, apanhados de surpresa, a tentar lutar contra o google e a internet para que o seus cidadãos não espreitem debaixo do manto diáfano.
Meditei também sobre como e se Salazar conseguiria hoje manter o seu lápis azul da censura prévia, bastando para isso, ver este episódio Mário Crespo, que, à antiga, viu recusadad a publicação da sua crónica mas, à moderna, a publicou com mais alarido por outra via digital agora à sua disposição.
É verdadeiramente um mundo novo, os governos ainda não sabem viver nele.
Até que uma nova ordem se estabilize (se é que alguma vez vai estabilizar) nós passaremos sempre a ver o traseiro do governo, a ver o rei nu, como na história.
Sócrates e os outros todos que se aguentem.

2010-02-12

Citizen Kane

Hoje, enquanto almoçava, ouvia o som da televisão nas minhas costas, o som de vozes zangadas com esta suposta cabala do governo e de quem lhe está próximo para controlar os media.
São vários poderes em luta, a justiça, a política, a polícia os media, regidos por um único árbitro, o poder económico.
Veio-me à memória o excelente filme de Orson Wells “Citizen Kane”, para muitos o melhor filme alguma vez feito.
Como me lembro de cor (ou como o meu coração se lembra) em Citizen Kane todos se intrigavam com as últimas palavras, no leito de morte, do magnata da informação, Kane: “Rosebud”.
Que mistério encobriria? Que segredo tão zelosamente guardado e certamente tão valioso e potente?
Perto do final, Orson Wells mostra-nos a criança Kane, deslizando na neve de trenó, e mais tarde vê-se esse trenó ardendo.
A câmara aproxima-se e podemos ainda ler as letras nele gravadas: “ROSEBUD”.
Levantei-me da mesa e saí pensando que se alguém me pedisse, naquele momento, uma opinião sobre a crise das escutas, responderia apenas: “Rosebud”.
Infelizmente receio que ninguém me entendesse.

2010-02-08

O caso Sócrates

Ouvindo os fora de debate sobre este caso, que Sócrates apelidou de “Jornalismo de buraco de fechadura” a opinião dominante dos analistas profissionais, não tanto do público anónimo, é que Sócrates se deveria explicar.
Santa ingenuidade!
Explicar o quê? Que não tem nada a ver com o assunto e que é apenas imaginação delirante dos media e de alguma justiça que lhe quer ver máculas? Como tem dito sempre e ninguém ouve nem acredita.
Não, o que os analistas querem é que ele confesse que organizou uma cabala para controlar toda a comunicação social.
Está-se a ver que é o que ele vai fazer, não está? Com uma corda ao pescoço como Egas Moniz.

2010-01-31

Caladunum, um Post do coração

Caladunum era o nome romano da actual cidade de Mirandela, nome que atesta a sua existência milenar.
Obteve foral por D. Afonso III a 25 de Maio de 1250.
Foi elevada a cidade apenas a 28 de Julho de 1984.
Em 1919, por Publicação de um Decreto governamental, foi conferida à Vila de Mirandela o oficialato da Ordem da Torre e espada, do Valor, Lealdade e Mérito.
Tudo isto, são dados que recolhi hoje, numa breve pesquisa no Google.
Porquê esta pesquisa? Eu conto:

Acto I

Na minha infância, pelos anos 50 do passado século, nas histórias que ouvia contar a meu pai sobre os seus tempos de estudante, havia um nome de um colega, companheiro de pândegas, que na minha memória ficou assim: “Alberrto Maurrício Carrvalho Neto”.
Os duplos rr são propositados. Na minha memória o nome era esse, porque era assim que o meu pai o pronunciava, talvez recordando interiormente qualquer história privada da sua vida.

Acto II

Em 1986 fui viver para Mirandela e conheci a personagem: Alberto Maurício Carvalho Neto.
Era um homem já idoso, da idade que o meu pai teria se ainda fosse vivo, agricultor abastado de Valbom dos Figos, com muita descendência, entre a qual, alguns meus colegas de trabalho, e mesmo netos que se cruzaram com os meus filhos na vida de estudante.
Significava isto que, por um mero acaso da sorte, 3 gerações de Jordões e de Carvalhos Neto se cruzaram na vida.
Para meu espanto Alberto Maurício, não carregava nos rr, embora reconhecesse razão de ser e não estranhasse essa pronúncia que o meu pai usava. Eles lá sabiam porquê.
Enquanto lá estive, em Mirandela, visitou-me muitas vezes, trazendo-me fruta, couves e outros produtos da terra.
Embora fosse um homem abastado, trajava simplesmente e usava um carro bastante velho, com a chapa corrompida e já furado no chão (para travar com o pé, como me dizia com humor).
A minha empregada dizia-me, muitas vezes quando chegava a casa: “Esteve cá o Sr. da fruta”, O Sr. da fruta, para ela, era Alberto Maurício.
Alberto Maurício foi o meu primeiro professor de Mirandela, cidade notável, um enclave burguês, de comerciantes, numa vastidão de território dominado por uma aristocracia rural.
Essa característica curiosa burguesa da identidade Mirandelense, tem vindo a ser a ser confirmada na minha própria reflexão.
Explica, por exemplo a fama das alheiras ditas de Mirandela, como pólo comercial de belíssimas alheiras de uma região muito mais vasta, tal como o vinho dito do Porto ganha o seu nome pelo centro que o comerciava para o mundo.
Para provar esta característica burguesa de Mirandela, Albeto Maurício contou-me a história heróica do papel de Mirandela ao suster a contra-revolução monárquica (apoiada pela aristocracia rural), junto à estação de comboios, com meia dúzia de GNR e muitos, muitíssimos populares, que acorreram a suster, à pedrada, à gadanhada, à machadada, como puderam, a chamada Monarquia do Norte.
Essa vitória de Mirandela, em 1919, foi decisiva e reconhecida, foi o que deu origem à condecoração da então Vila com o Oficialato da Torre e Espada, Valor, Lealdade e Mérito, que referi acima.

Acto III

Hoje, no ano da graça de 2010, comemoramos os 100 anos de república, comemorou-se hoje mesmo o 31 de Janeiro no Porto como acontecimento precursor de 1891.
Eu creio que seria de toda a justiça que Mirandela comemorasse e mostrasse ao país e ao mundo o seu papel heróico na defesa dessa mesma república em 1919.
Infelizmente, mesmo muitíssimos mirandelenses não sabem disto ainda.
Fica aqui o meu apelo a Mirandela “Conta esta história!” e à sua Câmara Municipal “Exibe com orgulho esta medalha!”, que deve estar esquecida nalgum caixote ou no fundo de algum baú.

2010-01-26

A teoria da conspiração

Quando alguém não se sente satisfeito com o pensamento único e o questiona, é vulgarmente rebatido com este argumento simplista e, injustamente, demolidor: “isso é teoria da conspiração” e assim se pensa reduzir as fundamentadas dúvidas e questões à categoria de mero pensamento delirante e fora da realidade.
Já assim foi com Copérnico e Galileu, quando questionaram o pensamento único de então.
Hoje, já não há a santa Inquisição e o poder da Igreja mas existe outro poder não menos poderoso e eficaz que elimina toda a contestação com esta frase que nada rebate e nada significa, tudo o que o questione é chamado de teoria da conspiração.
Mas há momentos em que as incoerências do pensamento único falam tão alto que se torna difícil não lhes dar atenção.
È o que se tem passado com esta famosa gripe A.
Hoje uma importante figura do Parlamento Europeu levantou a questão ao mundo, pediu explicações e limitou-se a expor factos indiscutíveis: Alarmismo excessivo da OMS e um ganho desproporcionado de alguma indústria farmacêutica.
Os filmes que seguem estão há meses no you tube, e explicam factos preocupantes desta realidade numa voz calma e supostamente sabedora.
A quem quiser conhecer a outra face da gripe aconselho a que veja este 6 filmes, se é que os não viu já.
Para quem quiser ir mais longe ainda, na tal teoria da conspiração, pode procurar no mesmo you tube algumas entrevistas a Jane Burgemeister.
E julgue, neste caso e noutros, pela sua própria cabeça.












2010-01-22

Uma lufada de ar fresco

No “fórum” de hoje da RDP e da RTPN discutiu-se a situação do PSD e a candidatura à liderança de Pedro Passos Coelho.
Como era de se esperar havia vozes contra e a favor.
A generalidade das opiniões a favor valorizava o aspecto inovador, novo, talvez diferente que seria a gestão de Pedro Passos Coelho, “é uma lufada de ar fresco” disseram alguns.
Eu também acho que sim, Passos Coelho seria uma lufada de ar fresco, sem dúvida, e daí o meu receio:
Será que essa lufada não nos irá constipar, ou pior ainda, dar uma pneumonia a nós todos?
Safa!

2010-01-16

O terrível sismo no Haiti

1. A potestade que lá no Olimpo está encarregada de, de quando em vez, soltar a fúria dos elementos, não tem demonstrado nenhum bom senso ou sentido de justiça.
Bem podia arrasar wall street ou coisa que o valha, punindo aqueles financeiros todos que andaram a gozar connosco, mas não, logo vai escolher um dos povos mais pobres e martirizados do mundo, vai bater no ceguinho.
Razão tem a canção: “Deus é um cara gozador, adora a brincadeira…”

2. Os media surpreendem-se sempre muito com aquilo que acontece sempre, a onda maciça de solidariedade que calamidades destas geram sempre a todos os níveis.
Os seres humanos, na generalidade, são assim mesmo, independentemente de nacionalidade, raça ou cultura, comovem-se com a desgraça alheia e injusta quando a vêm. O que é triste, mas não incómoda os media, é a insensibilidade geral perante as pequenas calamidades do dia a dia que vão destruindo vidas igualmente, como o desemprego e a miséria crescente.

3. A ajuda humanitária tem demonstrado uma total insensibilidade e inépcia, com algumas poucas excepções.
Num país arrasado, população sem teto, com fome sede e mortos pela rua aguardam dias e dias para que a água e alimentos amontoados no aeroporto, sejam canalizados para quem deles precisa de forma bem planeada e bem gerida.
Depois estranham que pessoas desesperadas lutem pela sobrevivência a todo o custo gerando o que chamam de saques e desacatos.
Há situações em que a assistência tem de ser já. Esta é uma delas.

2010-01-10

Pano para mangas

O matrimónio Gay, já aprovado, na generalidade, na Assembleia da República, ainda nos trás alguns pontos de reflexão para além do que já escrevi no poste abaixo.
Em primeiro lugar a ideia da adopção, que até ao momento está excluída da proposta aprovada, estúpida e inexplicavelmente.
Qualquer cidadão homossexual, pode se candidatar a adoptar uma criança, porque será que dois cidadãos homossexuais unidos em matrimónio não o poderão fazer?
Isto apenas demonstra com o PS avançou para esta proposta sem qualquer convicção ou reflexão, sem saber o que fazia, em suma.
Casamento sim, porque é moderno e bonito mas adopção não porque não nos parece bem, nem ás pessoas, sei lá, é melhor deixar assim, depois se verá.
O que O PS não considerou, nem lhe passou pela cabeça, é que com esta alteração semântica do significado de casamento não consegue, mesmo assim ultrapassar a diferença biológica que faz com que só as mulheres tenham o dom de gerar uma nova vida. Assim um casal gay feminino pode sempre recorrer à reprodução assistida e gerar uma criança, o que os casais gays masculinos estão impossibilitados de fazer, pelas leis da natureza que o PS, para seu desgosto, ainda não conseguiu alterar e assim, como estes casais não podem também adoptar uma criança, estarão legalmente e inelutavelmente excluídos da função de criar um novo ser humano.
Espero que não se lembrem de proibir que as mulheres gay gerem filhos. Seria uma medida contra a corrente, contra o espírito do tempo, contra o “Zeitgeist”, não o farão, certamente.
Um outro aspecto paralelo e marginal é a aberração da disciplina de voto que foi exigida nesta votação como tem sida noutras.
Que sentido fará nós votarmos e elegermos centenas de deputados se depois eles podem ser proibidos de utilizar a sua própria cabeça e o seu próprio juízo nas tomadas de decisões.
A disciplina de voto é um insulto a quem colabora neste sistema de representação.
Contudo, estranhamente, mesmo quando sopra um vento de liberdade e de tolerância, a disciplina de voto, a proibição de pensar diferente, é combatida e punida ao modo Talibã e os media e a opinião publicada em geral apoiam isto como se fosse uma coisa natural.
Aqui tenho que perguntar como o Rui Santos: Mas afinal que raio de democracia é esta?

2010-01-07

Divagações sobre o “casamento” homossexual

A quem se interesse por analisar a política como desentendimento, esta polémica proporciona-nos um verdadeiro estudo de caso.
A questão essencial parece ser a do reconhecimento social de outros tipos de uniões de afecto, que permitam a cada membro de uma parelha homossexual ser reconhecido como tal, tendo todos os direitos inerentes, direito de visita em caso de doença ou prisão de um do membros, direito de partilha de bens, de herança, enfim de todos os direitos que estão, até agora, salvaguardados para os membros de um casal.
E esta reivindicação é justíssima, ninguém, com sentido de justiça, poderá discordar dela.
Como sempre o problema surge apenas com as palavras e o seu significado.
Daí que se discuta:
Dizem uns que se os direitos perseguidos são idênticos aos dos casais, basta alargar o conceito de casal e de casamento, a pares do mesmo sexo.
Parece simples e dá uma resposta de facto ao problema inicial, acontece porém que isso que fere a sensibilidade de muitos de nós, casamento e casal têm um valor semântico preciso e envolve um par constituído por 2 indivíduos de sexo diferente, quando o sexo é irrelevante falamos de pares e parelhas não de casais e de casamento.
A este propósito conto uma história real: Tenho um amigo que em certo momento se dedicou à criação de perdizes para repovoamento e, para iniciar a actividade, encomendou x casais de perdizes. De início teve algum prejuízo porque o fornecedor não lhe vendeu casais, devidamente compostos de uma perdiz e um perdigão, mas apenas pares do mesmo sexo, o certo é que a produção não arrancou ali, não nasceram os esperados perdigotos.
O caso foi comentado entre os amigos como quase anedótico, hoje porém se o caso fosse à justiça uma atenta defesa do fornecedor pudesse invocar essa alteração semântica da palavra casal e justificar assim o seu erro clamoroso.
Mas quem defende o casamento homossexual rebate este problema semântico aumentando a confusão semântica e referindo que ao que nós chamamos casamento deveríamos apenas chamar matrimónio. Uma consulta ao dicionário aponta todavia matrimónio e casamento como palavras sinónimas, defender o casamento homossexual é exactamente o mesmo do que defender o matrimónio homossexual.
A questão complica-se com a discussão do referendo. Como é mais do que expectável que um referendo chumbaria a questão, o debate sobre o casamento homossexual transfere-se para o debate sobre o referendo, os que são contra apoiam o referendo e os que são a favor combatem o referendo e ninguém discute seriamente se se justifica ou não o refendo.
Eu, por exemplo, que sou favorável ao reconhecimento de um qualquer instituto que legitime a união homossexual embora seja contra o casamento homossexual, pelas razões que referi, sou igualmente contra o referendo mas por razões específicas desta figura constitucional.
Há tempos quando se discutiu o eventual reconhecimento do direito à eutanásia, ouvi uma declaração de uma tetraplégica que defendia a eutanásia comentar assim os debates que se desenvolviam sobre o assunto: “o que é que eles sabem disto? Como vão decidir algo sobre o qual não têm a mínima ideia?”. Estas palavras sábias inspiraram-me a que eu fosse contra o presente referendo também, de facto o que é que eu ou qualquer dos votantes heterossexuais sabe do assunto sobre o que vai decidir?
Não me parece justo referendar o que deverão ser os direitos de um grupo particular.
Por último acho interessante como se invoca o direito constitucional à não descriminação para defender este alargamento semântico da palavra casamento e pergunto a mim mesmo se não se terá de aceitar, pelas mesma razões constitucionais, um cego que queira ser árbitro de futebol?
Afinal de contas a questão parece descabida pois essa profissão já tem muitos ceguinhos ou pelo menos é o que parece às vezes.

2010-01-05

Morreu Llasa de Sela

Foi no passado dia 1, no primeiro dia do ano, mas a notícia só me chegou hoje pela TSF.
Llasa tinha 37 anos de idade e não resistiu a um cancro da mama.
Que dizer de Llasa ?
Era uma excelente e versátil compositora e interprete mas mais do que isso era um ser humano notável.
Lhasa era filha de um pai mexicano e de uma mãe americana, ambos hipies, não por moda mas por convicção, como ela afirmou numa notável entrevista de Carlos Vaz Marques no Programa Pessoal e Transmissível donde aliás retirei muito do que vou escrever aqui.
Teve uma educação informal, nunca andou numa escola, como nós, foi ensinada pelos seus pais e sobretudo pelos livros. Canta em Espanhol, Inglês, Francês, Português, e em línguas mais exóticas e a sua voz muda consoante a língua que usa. O seu sonho era cantar em árabe para um público americano, como um “statement”, “por razões políticas?”, perguntou-lhe Carlos,”não, o que me trava é precisamente o aproveitamento político que decerto farão, era apenas por razões humanitárias”, respondeu.
Não compreende o termo inimigo, “como é que um ser humano pode chamar inimigo a outro ser humano?”, perguntou.
Mas o melhor é ouvi-la.
Aqui fica graças ao youtube.


2010-01-03

Que ótimo

Parece que já entrou em vigor o novo acordo ortográfico.
Eu vou tentar adotar.
Albarde-se o burro à vontade do dono e espero que a média de erros cometidos se mantenha no nível, já elevado, habitual.

2009-12-30

Questão de lógica número 1

Ouvi algures Sócrates dizer que não haveria aumento de impostos em 2010.
Ouvi algures a oposição dizer que o novo código retributivo representava um brutal aumento de impostos.
Ouvi algures o PS dizer que o novo código retributivo visava apenas a justiça fiscal, nada de aumento de impostos e blá, blá blá.
Vi que Cavaco promulgou o adiamento da entrada em vigor do novo código retributivo como propunha a oposição.
Ouvi o Governo dizer que esse adiamento iria fazer diminuir as receitas do Estado de uma forma brutal.
Mesmo sem ler o texto do novo código retributivo, e tendo como base as premissas acima referidas, responda por favor:
O novo código retributivo iria ou não aumentar os impostos?
A mim, por acaso, parece-me que sim, que Sócrates terá mentido. Quem diria?

Terrorismo Poético

Este filme que me chegou por via de um meu amigo, autor deste magnífico blog agora renascido, ilustra um acontecimento magnífico que classifico de terrorismo poético.
Trata-se da interpretação insólita de algumas áreas de Verdi, inesperadamente, em pleno mercado de Valência.
Terrorismo, porque a deslocação do tempo e do espaço, e a reacção de intensa surpresa e prazer que gerou, foi mais eloquente do que um magnífico discurso sobre a insanidade monótona do quotidiano que nos fazem viver.
É um verdadeiro murro no estômago.
Poético porque o belo aconteceu ali.
Espero que tenham tanto prazer ao ver este pequeno filme quanto eu tive.

2009-12-27

Notícia do dia

Hoje, um avião, rumo aos EUA, teve de aterrar de emergência porque um passageiro era nigeriano e esteve demasiado tempo na casa de banho.
Quando será que estes nigerianos, aprenderão a não ter distúrbios alimentares quando viajam?
É a paz do mundo civilizado que o exige!

2009-12-23

Para todos os meus leitores e outros amigos não leitores

Desejo:

Um Feliz Natal
Um Feliz Solstício
Um Bom ano novo.
E que o "Pai Natal" derrape na neve ou tropece numa nuvem e desapareça para sempre.

2009-12-20

Por favor, não contem a ninguém

Tenho andado angustiado, há dias que não escrevo nem leio blogs.
Mas hoje decidi confessar:
Eu sou um emissor de CO2 para a atmosfera.
Em cada expiração minha sai CO2 para a atmosfera, com várias expirações por minuto ao longo de 60 anos de vida já deve estar na escala dos milhões o CO2 que eu tenho mandado para a atmosfera.
O pior é que não sou capaz de mudar e com este falhanço de Copenhaga perdi a esperança de receber alguns Euros para me motivar a parar de respirar.
A minha única solução é permanecer despercebido, conto com os meus leitores para manterem o segredo.
E as minhas desculpas pelo frio que anda por cá.
Enfim, desabafei!

2009-12-09

O clima económico

- Eh pá! Tem estado cá um défice.
- Pois tem, mas o que mais me chateia é esta dívida pública persistente e não para a gaja!
- E o desemprego, pá, tem sido fortíssimo, em certas zonas até caíram firmas.
- É uma porra pá. Quem me dera uns belos dias de crescimento. Já não se aguentam estas mudanças climáticas.
- E nem Copenhaga salva isto!
- Pois não.

2009-12-07

Reflexão sobre o estado do mundo

A propósito da cimeira de Copenhaga

O mundo está em mau estado, é público e notório.
Ontem, a propósito desta cimeira de Copenhaga, assim como noutros dias, vi e ouvi coisas aterradoras.
Na RTP2 vi excertos de um programa com depoimentos de gente ilustre da ciência e da política e que nos dizia como estamos a perturbar o nosso Planeta Terra ao ponto de comprometermos a nossa sobrevivência como espécie.
Lembravam-nos de como é a nossa vida: logo de manhã, em bichas no carro, deitando toneladas de CO2 para a atmosfera, comendo e consumido plástico, muitos trabalhando para produzir ainda mais CO2, enfim as rotinas modernas numa sociedade mercantilista como é a nossa.
Aí questionei-me.
É bem verdade, seria bem melhor para o mundo que estivéssemos todos na praia ou no campo, jogando à bola, brincando com as crianças, respirando ar puro e não poluindo a atmosfera e creio até que a larga maioria dos meus companheiros de espécie, aceitaria fazê-lo de boa vontade.
Porque o não faz? Porque insiste em sobreviver nas bichas de trânsito, nos horários, no trabalho na fábrica poluidora?
A resposta parece-me ser: Para sobreviver, porque é a única alternativa que lhe é dada.
Será que Copenhaga irá decretar uma nova estratégia salvadora?
Infelizmente, tenho a certeza, que não.
Porque nós vamos nos nossos automóveis em bichas e penosamente, em enormes passadas ecológicas, não porque queremos mas apenas porque nos obrigam a isso, a lógica da vida obriga-nos a isso, não há Governo nem cimeira de Governos que possa alterar essa vivência e esse é o drama que enfrenta o mundo, é escusado deitarem-nos a culpas que, de facto não temos, nós somos vítimas mesmo quando poluímos à força, somos mesmo as grandes vítimas.
Aliás, Copenhaga não consegue ver mais longe do que esta lógica única, a receita que procura é ela mesmo mercantilista é preciso ganhar dinheiro estragando o mundo, para poder pagar o direito de o estragar ainda mais.
Alguém entende esta lógica?
O que é estranho é que muita gente a entende.
Mesmo quando alguns falam numa nova economia, não sabem exactamente do que estão a falar, imaginam apenas uma economia ideal onde há emprego para todos, e dinheiro para o trabalho e o lazer, e o acesso ao espectáculo e à tecnologia, a tal nova economia!
Pensam que o caminho para ela é o reformista, de melhoria em melhoria, não se dando conta que a experiência e a história não nos indica isto.
Não somos homens e mulheres mais felizes do que os nossos antepassados de há 10 000 anos, temos apenas mais tecnologia e, provavelmente não a tecnologia que nos faz mais falta, até porque a deitamos fora a uma velocidade vertiginosa e, em contrapartida muito mais marginalidade, muito mais gente fora do sistema, muito Maios gente sem voz nem saída.

A título anedótico refiro apenas que depois destas reportagens vi Pacheco Pereira queixar-se de que duas publicações de referência traziam exactanente as mesmas capas.
Porquê? Porque eram capas de publicidade paga.
Pacheco Pereira deitava as culpas para esses jornais vendidos ao capital, só não explicava como é que eles se podiam livrar dessa publicidade paga e ainda assim sobreviver e pagar as suas crónicas, entre outras despesas.
Que se arranjem, ora essa!

2009-12-06

Num mundo louco não serão os loucos os mais sãos?

Este título, que apanhei já não sei onde, dava para dissertar por mais de mil páginas.
Começando pelo próprio significado da palavra louco, como um valor relativo, apenas definível face a uma norma comportamental corrente, por isso mesmo chamada normal.
Mas não me vou alongar sobre o assunto. Queria apenas deixar aqui duas obras notáveis sobre o tema, dentro das muitíssimas que já foram feitas.

A primeira até é nossa, da “Mensagem” de Fernando Pessoa e escrita a propósito de El-Rei D. Sebastião.

QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

A segunda, é um tango de Astor Piazzola, com letra de Horácio Ferrer, que já tem 40 anos mas que ainda está vivo e de boa saúde.
Chama-se “Balada para um louco”.
Parece que quando foi escrito suscitou uma enorme polémica, houve muitos que não o aceitaram bem e consideraram mesmo como uma espécie de “ofensa” ao tango.
Mas o tempo tudo cura e hoje o reconhecimento é generalizado e as interpretações são imensas e muitas excelentes, de artistas de todo o mundo, muitas das quais se podem ouvir e ver no “youtube”, suscitando calorosos debates sobre o valor de cada uma..
Eu também tenho as minhas predilecções neste domínio mas como há muitas maneiras diferentes de sentir, escolhi para publicar aqui a versão original de Amelita Bertal, que segue:


2009-12-01

Nem Ionesco faria melhor

Na Cimeira Ibero-Americana.

Jornalista: Qual é a posição dos Governos de Portugal e de Espanha sobre a soberania da ilhas Malvinas?
Sócrates (respondendo): Logo vamos assinar o novo tratado de Lisboa!

2009-11-25

Carta a meus filhos

Subscrevo inteiramente a “carta a meus filhos, sobre os fuzilamentos de Goya” que Jorge de Sena escreveu há anos.
Como eu não saberia dizê-lo melhor, deixo aqui o texto original que dedico aos meus filhos e aos meus netos.



Goya: Los fusilamientos de la montaña del Príncipe Pío

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente â secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido.
Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor.
Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero.
Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão.
Confesso que multas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão?
Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».
E por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

2009-11-24

Desentendimento

Ontem assisti, no programa “Prós e Contras”na RTP1 ao “debate” sobre a justiça.
Aspei (neologismo) o debate porque na realidade não vi nenhum debate.
Não vi o confronto de ideias, não vi o desacordo que esperava ver num debate, apenas vi desentendimento, foi como todos dissessem uma só coisa em línguas diferentes.
Tornou-se mais claro para mim o pensamento de Jacques Ranciere: “Desentendimento: Política e Filosofia”.
Nessa linha do desentendimento, procurei as minhas reflexões, já de 2006, sobre a corrupção e observei, com gosto, que ainda estavam actuais, tinham ficado também bem naquele debate.
Aqui fica a primeira.
A segunda
A terceira.
Também uma conclusão, a propósito do livro de “Paulo Morgado”

2009-11-18

Portugal

Conseguiu hoje o apuramento para a fase final do Campeonato do Mundo de futebol de 2010.
Agora, só falta fazer o resto.

2009-11-12

Como é difícil gerir um mundo destes

Geisy Arruda, foi expulsa da Universidade Bandeirantes em S. Paulo por usar uma mini-saia mais pequena do que qualquer norma obscura permite.
A perturbação que causou na Universidade foi classificada pela RTP1 como fruto da barbárie, ignorante.
As minhas perguntas?
Se a jovem Geisy se tivesse apresentado nua, será que a reacção, que certamente haveria, seria ainda assim considerada de barbárie, ignorante?
Uma comunicação social que acha inadmissível que um Ministro faça “corninhos” com os dedos e ainda inadmissível e ridículo quando alguma instituição determina regras de conduta e vestuário, tolerará o quê? Mini-saia sim, corninhos não, nudez, não sei.
É difícil viver num mundo destes.