2009-12-07

Reflexão sobre o estado do mundo

A propósito da cimeira de Copenhaga

O mundo está em mau estado, é público e notório.
Ontem, a propósito desta cimeira de Copenhaga, assim como noutros dias, vi e ouvi coisas aterradoras.
Na RTP2 vi excertos de um programa com depoimentos de gente ilustre da ciência e da política e que nos dizia como estamos a perturbar o nosso Planeta Terra ao ponto de comprometermos a nossa sobrevivência como espécie.
Lembravam-nos de como é a nossa vida: logo de manhã, em bichas no carro, deitando toneladas de CO2 para a atmosfera, comendo e consumido plástico, muitos trabalhando para produzir ainda mais CO2, enfim as rotinas modernas numa sociedade mercantilista como é a nossa.
Aí questionei-me.
É bem verdade, seria bem melhor para o mundo que estivéssemos todos na praia ou no campo, jogando à bola, brincando com as crianças, respirando ar puro e não poluindo a atmosfera e creio até que a larga maioria dos meus companheiros de espécie, aceitaria fazê-lo de boa vontade.
Porque o não faz? Porque insiste em sobreviver nas bichas de trânsito, nos horários, no trabalho na fábrica poluidora?
A resposta parece-me ser: Para sobreviver, porque é a única alternativa que lhe é dada.
Será que Copenhaga irá decretar uma nova estratégia salvadora?
Infelizmente, tenho a certeza, que não.
Porque nós vamos nos nossos automóveis em bichas e penosamente, em enormes passadas ecológicas, não porque queremos mas apenas porque nos obrigam a isso, a lógica da vida obriga-nos a isso, não há Governo nem cimeira de Governos que possa alterar essa vivência e esse é o drama que enfrenta o mundo, é escusado deitarem-nos a culpas que, de facto não temos, nós somos vítimas mesmo quando poluímos à força, somos mesmo as grandes vítimas.
Aliás, Copenhaga não consegue ver mais longe do que esta lógica única, a receita que procura é ela mesmo mercantilista é preciso ganhar dinheiro estragando o mundo, para poder pagar o direito de o estragar ainda mais.
Alguém entende esta lógica?
O que é estranho é que muita gente a entende.
Mesmo quando alguns falam numa nova economia, não sabem exactamente do que estão a falar, imaginam apenas uma economia ideal onde há emprego para todos, e dinheiro para o trabalho e o lazer, e o acesso ao espectáculo e à tecnologia, a tal nova economia!
Pensam que o caminho para ela é o reformista, de melhoria em melhoria, não se dando conta que a experiência e a história não nos indica isto.
Não somos homens e mulheres mais felizes do que os nossos antepassados de há 10 000 anos, temos apenas mais tecnologia e, provavelmente não a tecnologia que nos faz mais falta, até porque a deitamos fora a uma velocidade vertiginosa e, em contrapartida muito mais marginalidade, muito mais gente fora do sistema, muito Maios gente sem voz nem saída.

A título anedótico refiro apenas que depois destas reportagens vi Pacheco Pereira queixar-se de que duas publicações de referência traziam exactanente as mesmas capas.
Porquê? Porque eram capas de publicidade paga.
Pacheco Pereira deitava as culpas para esses jornais vendidos ao capital, só não explicava como é que eles se podiam livrar dessa publicidade paga e ainda assim sobreviver e pagar as suas crónicas, entre outras despesas.
Que se arranjem, ora essa!

2009-12-06

Num mundo louco não serão os loucos os mais sãos?

Este título, que apanhei já não sei onde, dava para dissertar por mais de mil páginas.
Começando pelo próprio significado da palavra louco, como um valor relativo, apenas definível face a uma norma comportamental corrente, por isso mesmo chamada normal.
Mas não me vou alongar sobre o assunto. Queria apenas deixar aqui duas obras notáveis sobre o tema, dentro das muitíssimas que já foram feitas.

A primeira até é nossa, da “Mensagem” de Fernando Pessoa e escrita a propósito de El-Rei D. Sebastião.

QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

A segunda, é um tango de Astor Piazzola, com letra de Horácio Ferrer, que já tem 40 anos mas que ainda está vivo e de boa saúde.
Chama-se “Balada para um louco”.
Parece que quando foi escrito suscitou uma enorme polémica, houve muitos que não o aceitaram bem e consideraram mesmo como uma espécie de “ofensa” ao tango.
Mas o tempo tudo cura e hoje o reconhecimento é generalizado e as interpretações são imensas e muitas excelentes, de artistas de todo o mundo, muitas das quais se podem ouvir e ver no “youtube”, suscitando calorosos debates sobre o valor de cada uma..
Eu também tenho as minhas predilecções neste domínio mas como há muitas maneiras diferentes de sentir, escolhi para publicar aqui a versão original de Amelita Bertal, que segue:


2009-12-01

Nem Ionesco faria melhor

Na Cimeira Ibero-Americana.

Jornalista: Qual é a posição dos Governos de Portugal e de Espanha sobre a soberania da ilhas Malvinas?
Sócrates (respondendo): Logo vamos assinar o novo tratado de Lisboa!

2009-11-25

Carta a meus filhos

Subscrevo inteiramente a “carta a meus filhos, sobre os fuzilamentos de Goya” que Jorge de Sena escreveu há anos.
Como eu não saberia dizê-lo melhor, deixo aqui o texto original que dedico aos meus filhos e aos meus netos.



Goya: Los fusilamientos de la montaña del Príncipe Pío

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente â secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido.
Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor.
Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero.
Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão.
Confesso que multas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão?
Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».
E por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

2009-11-24

Desentendimento

Ontem assisti, no programa “Prós e Contras”na RTP1 ao “debate” sobre a justiça.
Aspei (neologismo) o debate porque na realidade não vi nenhum debate.
Não vi o confronto de ideias, não vi o desacordo que esperava ver num debate, apenas vi desentendimento, foi como todos dissessem uma só coisa em línguas diferentes.
Tornou-se mais claro para mim o pensamento de Jacques Ranciere: “Desentendimento: Política e Filosofia”.
Nessa linha do desentendimento, procurei as minhas reflexões, já de 2006, sobre a corrupção e observei, com gosto, que ainda estavam actuais, tinham ficado também bem naquele debate.
Aqui fica a primeira.
A segunda
A terceira.
Também uma conclusão, a propósito do livro de “Paulo Morgado”

2009-11-18

Portugal

Conseguiu hoje o apuramento para a fase final do Campeonato do Mundo de futebol de 2010.
Agora, só falta fazer o resto.

2009-11-12

Como é difícil gerir um mundo destes

Geisy Arruda, foi expulsa da Universidade Bandeirantes em S. Paulo por usar uma mini-saia mais pequena do que qualquer norma obscura permite.
A perturbação que causou na Universidade foi classificada pela RTP1 como fruto da barbárie, ignorante.
As minhas perguntas?
Se a jovem Geisy se tivesse apresentado nua, será que a reacção, que certamente haveria, seria ainda assim considerada de barbárie, ignorante?
Uma comunicação social que acha inadmissível que um Ministro faça “corninhos” com os dedos e ainda inadmissível e ridículo quando alguma instituição determina regras de conduta e vestuário, tolerará o quê? Mini-saia sim, corninhos não, nudez, não sei.
É difícil viver num mundo destes.

2009-11-10

A questão dos crucifixos nas escolas

Ou o poder dos símbolos

Como já saberão, um casal ou talvez a mulher desse casal italiano, de nome Soile Lautsi e de origem finlandesa, numa, epopeia notável de combatividade, conseguiu uma decisão da Corte Europeia dos Direitos Humanos para a retirada de um crucifixo de uma escola em Padova (Itália) onde estuda uma filha desse casal.
O crucifixo incomodava-a.

Este episódio mediático traz-nos muitos pontos de reflexão.
Em primeiro lugar admiro o esforço e a luta daquela mulher para fazer vergar a autoridade da escola, que perante o seu manifesto incómodo, a tratou com sobranceria e desprezo e se recusou a conformar com o seu pedido. A força de um indivíduo contra um mundo hostil.
Em segundo lugar admiro a escola que não cedeu a uma, para ela esquisitice, de uma mãe que se incomodava com algo que não incomodava mais ninguém. A coerência de quem acredita no sistema.
Em terceiro lugar irrita-me aquela mãe tão insegura das suas convicções e da sua capacidade de educadora que pensa que um simples crucifixo afixado na parede irá corromper e estragar toda a educação que pretende para a sua filha, atribuindo assim uma capacidade sagrada ao crucifixo ainda mais forte do que a atribuída pela própria Igreja Católica. Contradizendo-se e mostrando-se assim tão frágil no seu ateísmo militante.
Em quarto lugar irrita-me aquela escola que não teve capacidade de gerir uma questão bem simples e de tratar assim à bruta a sensibilidade de uma mulher. A prepotência da autoridade surda cega e cobarde.

A realidade é que tratamos com símbolos e ninguém domina a força psíquica que os símbolos trazem e que magicamente afectam alguns ao ponto de serem capazes de morrer por eles e deixam completamente indiferentes outros.

Este episódio faz-me estabelecer uma relação com um outro, passado com o meu neto Luís e relatado no “blog” da minha filha Joana e que reproduzo parcialmente aqui:

”Ao comer sopa de letras começa a gritar "Xis não, xis não". E eu, porque só quero paz e sossego, trato de tirar xizes para a borda do prato. No fim enche a colher: "Agora todos!" Engole uma colherada de Xxxxx e a cozinha fica finalmente em silêncio.”

Para o Luís, aos 3 anos, os xis já parecem ter uma força simbólica.
E até é uma letra curiosa é também uma cruz, a cruz de Sto. André.

A minha conclusão, vou buscá-la a Shakespear.

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a tua vã filosofia”

Citando de cor o que me lembro de ter lido no Hamlet de Shakespear.

2009-11-09

A Ciência espectáculo

Há pouco, no telejornal da RTP1, reportaram um estudo, Norte-americano, que demonstrava que as filhas envelhecem como as mães!?
A utilização da notação: !?, usada no jogo do xadrez para notar uma jogada simultaneamente admirável e insólita ou estranha foi a que encontrei para caracterizar este facto.
Altos investigadores de uma universidade americana descobrem algo que toda a gente já sabia, há milhares de anos, consagrado na expressão “Tal pai tal filho”.
De facto o mecanismo genético já era pressentido pelos humanos, ainda que não fizessem ideia de como funcionava, muito antes do abade Mendel começar com as suas experiências, controladas, com as ervilhas de cheiro.
O meu espanto (!) veio daí e a minha estranheza (?) veio de antever que algo mais importante estaria por trás.
E de facto parece que estava mas só me chegou implícito.
Segundo o investigador que tentou explicar o estudo, a questão em causa foi analisar a importância relativa dos factores genéticos face aos factores adquiridos e, entre eles, foi focado o uso de barbitúricos, de fumar, dos maus hábitos, em suma.
Para espanto dos investigadores que, certamente entre outros casos, analisaram Judy Garland, que parece ter sido um poço de vícios, com a sua filha Lisa Minelli, que também parece não estar isenta de pecados embora diferentes, o resultado não apresentou diferenças significativas, Judy e Lisa ganharam as mesmas rugas nos mesmos sítios e nas mesmas idades.
Depois, aperceberam-se de quão politicamente incorrecto era dizer isto:
Faça a vida que fizer, beba drogue-se, deboche que o resultado vai ser, mais ou menos, o mesmo, vai envelhecer tal qual como a sua mãe.
Não podendo dizer isto, o que dizem então? o que todos já sabíamos: tal mãe, tal filha.

2009-11-06

Factos na ordem do dia

Como espectador medianamente interessado no espectáculo político nacional, fui olhando o debate sobre o programa do novo e, no entanto, velho Governo.
Hoje constatei, com espanto, o resultado:
O Programa passou embora sem votação.
Pergunto eu: Se não se votou como é que se sabe que foi aprovado?
Mas o facto não parece ter incomodado ninguém, pelo menos ninguém se deu ao trabalho de me explicar. Deve ser óbvio.
Passou sorrateiro perante as críticas da oposição que, todavia, não lhe fizeram mossa nenhuma, foi uma brincadeira.
Eu passei a conhecer essa, para mim, nova figura parlamentar: não se vota e aprova-se por omissão.
Por vezes é cómodo, sem dúvida.

Paulo Bento lá se decidiu a sair do Sporting, e assim não foi preciso meter na rua todos os jogadores.
Até reconheceu que já devia ter saído há 4 meses.Também me parece.

2009-11-02

O Sporting

Só tem duas hipóteses:
Ou substitui o treinador Paulo Bento
Ou deixa ficar o Paulo Bento e substitui todos os jogadores.
Assim está mais que provado que não dá.

2009-11-01

A noção de crime

Hoje, quase por acaso tropecei neste texto de Daniel Quinn, que traduzi para aqui e que acrescenta alguma luz à reflexão que procurei estimular no poste anterior:

Se alguém te irrita, por exemplo por te interromper constantemente quando falas – isto não é crime. Não podes chamar a polícia e fazer com que essa pessoa seja detida, julgada e presa, porque interromper pessoas não é crime. Quer isto dizer que tens de resolver a situação sozinho, como puderes. Mas se essa mesma pessoa entrar na tua propriedade e se recusar a sair, isto é “invasão de propriedade”, um crime, e podes, sem dúvida chamar a polícia e fazer com que essa pessoa seja presa. Por outras palavras, o crime mobiliza a máquina do Estado, enquanto outros comportamentos indesejáveis não. Crime é o que o Estado define como crime. Invadir a propriedade é crime, interromper não é crime e, portanto, temos duas opções inteiramente diferentes de lidar com a situação – que as pessoas nas sociedades tribais não têm. Seja qual for o problema, seja má educação ou assassínio, eles lidam com o problema da mesma maneira que tu lidas com o interruptor de conversas. Invocar o poder do Estado não é uma alternativa para eles, Porque não têm Estado. Nas sociedades tribais o crime, simplesmente não existe como uma categoria específica de comportamentos humanos.

2009-10-31

O que será?

O povo chama-lhe “cunhas” e diz que é assim mesmo.
Para a Ciência é “Capital Social” e pensa-o como algo fundamental.
No “Management o nome é “networking” e é muito moderno.
A justiça dá-lhe o nome de “tráfego de influências” e trata-o como mais um crime.
O que será?

2009-10-30

Aprendizes de feiticeiros

Hoje vivemos um momento idêntico ao que eu vivi ao ler o livro “Silent Spring” de Rachel Carson alertando para algumas consequências até então ignoradas sobre o uso desse maravilhoso produto milagroso que, entre outros feitos, como no combate da malária, eliminou os piolhos a toda uma geração, a minha, como aqui escrevi.

Se forem ao “you tube” e fizerem uma pequena pesquisa sobre vacinação em inglês mas mesmo em português e, suponho em qualquer língua do mundo, logo verão inúmeras mensagens sobre possíveis perigos das vacinações em massa.
Pasteur nunca imaginou como a sua descoberta que abriu portas para grandes conquistas da humanidade, para a forte redução da mortalidade infantil e para o aumento da esperança de vida pudesse ser criticada assim pelos males que também produz, no acréscimo de doenças que estavam circunscritas ou obscuras e são problemas sociais agora, como as asmas, as doenças de Khron e tantas outras.

Esta mensagem progride. Há já muita gente esclarecida que recusa a vacina contra a gripe A.

A chave da natureza é a diversificação, por isso há a reprodução sexuada, as combinações de ADN e os milhões de pequeníssimas diferenças que fazem cada um de nós um ser único, tornando-nos fortes como um conjunto feito de diferenças.
A sociedade global luta contra a natureza e procura por todos os meios a homogeneização. Todos iguais e belos.
Continuar nesta via vai transformar a sociedade num conjunto de super homens e super mulheres que serão todos perfeitos até que um sopro de qualquer brisa os derrube a todos como num jogo de dominós.

2009-10-27

O caso Alexandra e o superior interesse da criança

O caso Alexandra voltou à ribalta porque as autoridades russas descobriram o que a opinião pública portuguesa já sabia há muito tempo: A mãe é alcoólica e incapaz de educar uma criança.
A solução é simples, para os portugueses: a criança tem de voltar para Portugal; e tentam já comprar o pai, que parece estar profundamente desinteressado.
Para os russos também é simples, a criança tem de ficar na Rússia.
E discute-se o assunto como se discute o futebol.
Em toda a argumentação vem sempre à baila aquele princípio orientador: o importante é salvaguardar o superior interesse da criança.
A grande questão aqui, como noutros casos, é que ninguém sabe qual é o superior interesse da criança, cada um só sabe o que entende ser o superior interesse da criança.
A minha questão é o apego inútil essas fórmulas ridículas que suscitam a unanimidade mas não têm qualquer valor operacional. Quem saberá qual é o superior interesse da criança? Desta e de todas as crianças.
O interesse imediato ainda se poderá saber mas o superior interesse, quem o adivinhará.
Entretanto Alexandra parece que vai continuar aos tombos como até aqui ao sabor das arbitrariedades.
Ainda assim eu, pelo menos, não sou capaz de dizer se esse não será talvez o seu superior interesse.

2009-10-22

De regresso ao admirável mundo velho

Cheguei e estou pousando ainda.
Vejo a controvérsia gerada pelas palavras de Saramago no lançamento do seu novo livro “Caim”, que eu não li nem tenciono ler.
O que disse Saramago já eu o digo há muito tempo, até neste blogue mas foi há tanto tempo que nem me dou ao trabalho de procurar o “link”, depois é uma mera evidência para quem lê a bíblia.
Interessante sim foi ver as posições contra que se ouviram, como se destrui uma evidência: minimizando o arauto, não sabe ler ou leu ingenuamente, não percebeu as épocas e as características de cada tempo, que a bíblia também tem o cântico dos cânticos, enfim desviando-se do essencial: O Deus judaico é um Ser vingativo mesquinho e cruel.
E a questão está aí, não são as histórias de homens de crueldade que a bíblia conta que incomodam, nem é mesmo o enxertado Novo Testamento que não tem nada a ver, são as posições Divinas, arbitrárias, caprichosas maliciosas, que a bíblia relata e que nos são apresentadas como modelo a utilizar.
Os exemplos estão lá por todo o lado a começar, de facto, nesse insólito episódio de Caim e a arbitrária rejeição da sua oferta de frutos da terra.
Que pai, bem formado, rejeitaria assim um presente de um seu filho elogiando o presente de um cordeiro de seu irmão Abel?
Que lição de vida se extrai disto que não seja a da injustiça e da iniquidade?
Mas chega de Saramago.
Hoje, finalmente conhecemos o novo governo.
Para mim só uma notícia me satisfez, finalmente vimo-nos livres de Jaime Silva o Ministro “tsunami”, o Ministro calamidade.
Basta que o novo seja um Ministro normal para que tudo melhore.

2009-10-16

Carta de Belgrado 20

De abalada

Chegaram ao fim os meus 40 dias de deserto, deserto da minha família e dos meus amigos porque, de resto, aqui não é deserto como tenho contado, aqui há vida.
Vou jantar fora pela última vez nesta estada no melhor restaurante de Belgrado (o que tem o melhor cozinheiro), deixo aqui a nota para quando cá vierem: é o Café Ipanema mas só no nome há esta alusão ao Brasil.

Enquanto no Kosovo vivi uma viagem ao passado aqui foi a um presente paralelo.
Da gripe aqui não se fala, não sei se é o vírus que não quer nada com a Sérvia ou se é a Sérvia que não quer nada com o vírus apenas não se ouve falar e, sobre o assunto, só vi uma reportagem onde aparecia precisamente Portugal e com entrevistas ao nosso pessoal.
Eu amanhã regresso ao mundo da gripe e do Sócrates e das tricas das comadres, as cartas de Belgrado, pelo menos por agora, acabaram.

2009-10-13

Carta de Belgrado 19

Belgrado, hoje está triste.
O Outono chegou em força agora: vento, chuva e algum frio.
As alegres esplanadas, mostram cadeiras e mesas empilhadas, tentando poupar-se para a próxima oportunidade.
Não ouço os gritos das crianças que todos os dias ao fim da tarde brincavam no espaço em frente da minha casa.
E depois é a noite que cai cedo, às seis locais já é noite cerrada. É assim também nos dia de sol, mas agora, o céu coberto acelera tudo.
No entanto dizem-me que o Inverno é bonito, cai a neve, muito mais suportável e alegre do que chuva e os recantos interiores, adquirem um novo encanto e aconchego.
Mas agora não é carne nem peixe, é apenas mau e chato.

2009-10-11

Carta de Belgrado 18

Hoje Portugal ganhou à Hungria e alimenta mais esperanças de chegar aos “play off”.
A buzinas dos carros apitaram em Belgrado, na minha cabeça parecia um gesto de solidariedade, os Sérvios em geral torcem por nós para estarmos na fase final.
Mas não foi solidariedade, foi pela Sérvia mesmo, que hoje se apurou para essa prova onde nós ainda queremos chegar.

2009-10-10

Carta de Belgrado 17

Uma lição de vida

Hoje fui almoçar ao “Trag”. A minha mesa habitual, que já era minha por usucapião, estava ocupada por um sujeito mal encarado de óculos escuros.
Segui em frente, pela primeira vez, para a sala que ali via.
Pedja, já me tinha dito que a minha mesa não estava no melhor sítio mas todas as salas me pareciam iguais.
Ao entrar nessa segunda sala vi que à esquerda tinha umas escadinhas para o “paraíso”, ali ao lado.
Subi e entro numa mezanine, com um pequeno lago ao centro e recantos com mesas ao redor, algumas das mesas estavam ocupadas por jovens famílias sérvias, crianças entre os 5 e os 7 anos corriam como é habitual, nos restaurantes, fartas de tanta formalidade e procurando explorar esse pequeno mundo novo.
A minha atenção focou-se numa pequena criança muito activa e faladora que explorava, um buraco na parede que comunicava com a cozinha e estava feliz com a descoberta daquele segredo, felicidade que demonstrava em frases de espanto ditas em sérvio mas que eu compreendia perfeitamente (as crianças quando ainda não dominam a linguagem têm consigo o segredo da eloquência).
Olhando essa criança eu divaguei, simpatizei com a criança e o seu fascínio pelas coisas simples, vou chamar-lhe Artur como o rei que ele era. .
Depois surgiu uma outra criança, da mesma idade mas mais carrancuda e temerosa, andava a um metro de distância, doido por se aproximar, invejoso daquela felicidade.
A esta vou chamar-lhe Narciso, porque apenas se fascinava comsigo próprio e com o que era seu.
Narciso, por fim, descobre a solução, volta à mesa e traz um “transformer”, aqueles bonecos ridículo que se compram e mudam de forma toscamente.
A novidade cativou Artur, o outro tinha aquilo que ele via na tv, a princípio tentou desvalorizar, é um boneco de plástico, tá bem, mostra-me.
Narciso não mostrava, só queria exibir mas os seus dedos infantis não conseguiam transformar o “transformer” e Artur desinteressou-se.
Narciso correu para o pai, Deus pai, para transformar o “transformer”.
O pai que estava a leste de tudo, entra na peça nesse instante, pega no boneco e com mãos hábeis muda a sua forma rapidamente, mas aqueles momentos de atenção a um brinquedo de criança, estimulam a sua própria curiosidade, fazem-no querer ser perfeito ser um perito “transformer” fazer algo diferente e interessante.
Narciso fica ansioso, ele tem que exibir a sua glória já, o boneco transformado, arranca-o das mão do pai e corre para o exibir a Artur.
Mas Artur já estava noutra e Narciso desenvolve um bailado para chamar a atenção do outro. O “transformer” que agora era um carro, começa a ser passeado lentamente sobre o corrimão que rodeava o lago, enquanto Narciso querendo parecer displicente ia olhando ansiosamente para o outro tentando captar-lhe a atenção.
Artur não ligou nenhuma mas surge uma terceira criança que sim e que trás consigo um outro “transformer”.
A empatia estabelece-se, Narciso, de carrancudo e distante, pela primeira vez sorri
Os dois deambulam e falam dos seus bonecos e das suas habilidades.
É então que Artur repara, queria associar-se aos outros mas como? Eu não tenho “transformer”? Os outros fogem de Artur a cada tentativa de intromissão, até que Artur se retira envergonhado, escondendo-se por traz de uma coluna.
Estava à beira das lágrimas. Porque não tinha ele o seu “transformer”?
Da minha mesa compreendi o seu drama e tentei sorrir-lhe de simpatia mas correndo o risco de agravar o seu sofrimento se interpretasse o meu sorriso como de troça.
A minha refeição tinha chegado ao fim e saí pensando comigo:
Como eu gostava de falar sérvio para encorajar aquele miúdo.
Mas feliz mesmo ficaria se eu lhe fizesse um gesto de carinho e ele me respondesse com uma chapada, ao velho chato paternalista que não entrava na história.
O que, aliás, era muito provável que acontecesse.
Nunca saberei qual seria a sua reacção mas assim, sim, assim seria verdadeiramente o meu Rei Artur.

2009-10-08

Carta de Belgrado 16

O tamaanho é importante.

O subtítulo escolhido poderá fazer os leitores e sobretudo as leitoras imaginarem que eu vou dissertar sobre o tamanho de qualquer coisa concreta, mas não, falo apenas da importância geral desse atributo, o tamanho.

Aqui tenho-me confrontado com questões de tamanho
Primeiro é o do recipiente de vinho.
Já em Portugal não me conformo com a escassez de tamanhos de garrafas: há o clássico 7,5 dcl que é muito só para mim e o 3,8 dcl, que é pouco para mim só, e apenaas há isto em restaurantes, excepto quando têm vinho a jarro, aliás tal como aqui. Em Portugal eu como geralmente com a minha mulher, o 7,5 é bom, eu bebo 5dcl e ela 2,5 dcl o que dá tudo certo.
Mas aqui é pior, existe o 7,5dcl e depois o 2,1 ou o copo, e como estou só, não tenho outro remédio senão ir bebendo 2 garrafas pequenas com os problemas de falta de continuidade e do preço que especulativamente aumenta.
Mas existe um outro problema de tamanho, é o das sobremesas.
Eu gosto à sobremesa de uma garfada ou duas de algo doce para “tirar a boca de pedreiro”, como dizia a minha avó mas as sobremesas são sempre enormes e caras, por isso, quando estou acompanhado, roubo uma colherada à sobremesa do parceiro(a), mas estando só, passo sem ela.
Aqui, é o mesmo, geralmente não como, embora me apeteça, mas hoje apetecia-me tanto que pedi “quero uma sobremesa muito pequena, “small” em Inglês “mali” em sérvio. O Empregado lá me trousse caminhando para mim e abanando a cabeça. Era de facto pequena mas ainda grande.
Comi metade.
Peço aos senhores da globalização que, tal como vão fazendo na roupa, vão diversificando no tamanho de tudo, porque nisto dos tamanhos há gostos para tudo.

2009-10-07

Carta de Belgrado 15

Nestes dias enfrento a hora da verdade.
Eu estou aqui com um objectivo, escrever 3 relatórios, que tenho já escritos na minha cabeça e passá-los-ia facilmente ao papel se eu soubesse ainda escrever como escrevia na minha 2ª classe, quando escrever era uma novidade.
Agora quando escrevo com caneta em papel ninguém entende, até eu tenho dificuldades e, pior que isso, ninguém leria mesmo que entendessem.
Por isso só me resta o “word”, mas o “word” à medida que tem crescido e se convence que é gente está cada vez pior.
Então com tabelas torna-se infernal, tem ideias próprias que me quer impor.
Para o dominar teria que voltar à segunda classe revisitada, à segunda classe “word” e já não tenho pachorra.
Por isso a minha revolta hoje e a necessidade de mandar uma mensagem para o Sr. Bill Gates.
Sr. Bill Gates
V.exa tem me feito perder muito tempo e tempo é dinheiro, como V. Exa bem sabe.
Só lhe peço uma coisa, discipline o seu exército, ensine-lhes a linha de comando, ponha cada um dos seu botões a fazer aquilo que diz que faz e nem mais nem menos.
Quando eu me dou ao trabalho de seleccionar uma parte de texto, quero dizer que tudo o que mandar fazer naquele contexto se aplica apenas à parte seleccionada, percebeu? Não me faça ver, como vejo tantas vezes que tudo o que já estava feito de uma maneira, se refez de outra. Ora a Porra!
E não mude as configurações que eu já fiz, só porque não gosta delas ou acha que assim é melhor para mim, não é.
Com os melhores cumprimentos
E aqui assino

2009-10-03

Carta de Belgrado 14

Já imaginaram estarem perdidos, por exemplo, no Alentejo profundo, acompanhados de um técnico internacional que só fala Inglês, e ao pararem junto de uma, duas três, quatro pessoas locais para pedir informações sobre o caminho, não conseguirem essas informações porque esses locais alentejanos só falam húngaro?
Mutatis mutandi, foi isso que me aconteceu ontem na região Voivodina da Sérvia.
Eu estava tão perdido na comunicação como o condutor do carro que é nacional Sérvio.
Isto é que são os Balcãs e a baralhada que o Império Austro-Húngaro e a História em geral aqui criou.
Lembrei-me das palavras de Agostinho da Silva dizendo que o grande feito de Afonso Henrique, o nosso rei fundador, foi o de ter descoberto onde era Portugal.
Húngaros, Sérvios, Romenos e por aí fora ainda estão hoje à procura da sua Hungria, da sua Sérvia e da sua Roménia, e ainda não têm senão uma pálida ideia.

2009-10-01

Carta de Belgrado 13

Duas músicas

Quando almoço no “Trag”, não é só a comida que me atrai lá, é também a música de fundo que não sei bem se será de uma gravação ou de uma rádio.
Eu bem ouço, de vez em quando, eles catarem um genérico que me parece dizer “Radio RFM” mas, por outro lado a música é demasiado constante para ser rádio.
Dá Leonard Cohen, Tom Waits, Llasa de Sela, enfim música predominantemente boa.
Mas hoje queria apenas falar de duas.
A primeira é um clássico de Bob Dylan que eu ouço, para aí, desde os meus 16 anos, cuja letra é um poema que eu sei praticamente de cor, é o “A Hard rain is gonna fall”.
Dizem alguns analistas que Dylan se referia à ameaça nuclear que estava no subconsciente de todos, naquele período da “Guerra Fria”.
Quando o ouço agora, mesmo na versão de Edie Brickell, que é a que eles dão no “Trag” e que sem me controlar eu tenho que cantarolar por cima, o que me vem à consciência é como esta chuvada nos ameaça agora, mais do que nunca.
Aqui fica para o vosso deleite e reflexão.



A Segunda música é um caso mais estranho, é de Tina Turner que eu detesto, mas a situação de estar só e ter que a ouvir faz-me elaborar sobre o tema.
A música é o “Private dancer” e, quando ouço o refrão, repetido n vezes “I am a private dancer, dancing for money”, o que me vem à consciência é responder-lhe: “Ar´nt we all?”., e aquela canção simples sobre o mundo da prostituição, que procura como que justificar-se, ganha, para mim um estatuto de hino revolucionário:
Dançarinos por dinheiro é essa a vida de todos nós.

Aqui fica


2009-09-28

Carta de Belgrado 12

Reflexões avulsas

Ontem houve eleições aí, parece, porque aqui não dizem nada.
Na TV5, durante uma entrevista à nova Directora Geral da Unesco, uma Búlgara bem mais simpática do que o carrancudo egípcio em que o nosso governo queria votar, comentaram que hoje, isto foi ontem, 2 países europeus têm eleições nacionais, a Alemanha e Portugal mas na CNN e na BBC World, só na Alemanha se votou.
Valeu-me a antena 1 on line, e alguns sms que recebi para saber os resultados do jogo.

Entretanto aqui, o ambiente geral de uma língua estranha faz-me divagar sobre algumas particularidades da nossa língua.
Fico orgulhoso da complexidade dos nossos verbos, os dissesse, dissera, disse, direi, diria, cada um com a sua nuança própria são formas raras de expressão, se bem se mantenham, noutras línguas novilatinas como o espanhol, e o francês mas não muito mais.
Mas o mais curioso é nosso ão exclusivo, só no Polaco existe algo parecido, mais um õo e sei disto porque um dos meus intérpretes na Polónia era Prof de linguística e sabia que só as líguas portuguesa e polaca tinham estas nasalações.
Quando aqui algum sérvio adquire alguma intimidade comigo, gosta de perceber o meu nome, estranha o Nuno, que pronuncia sem dificuldade, mas que me pergunta sempre porque não se escreve com 2 uu, dado que o som é o mesmo. Eu já não entro nas explicações difíceis da sílaba tónica e que se escrevesse com dois uu seria outra coisa e respondo simplesmente como se responde a crianças, é assim porque sim.
Mas no Jordão a coisa pia mais fino, esse ão custa a sair.
E é assim, nós simplificámos todas as terminações latinas one, ano e ane para o mais simples ão e só gaguejamos nos plurais, será ãos, ões ou âes?
A regra é ir ao latim mas como este já vai longe, vamos tentando mudar e simplificar como soa melhor no nosso ouvido é assim que os corrimãos já são corrimões e muito bem.
Se todos fossemos puristas ainda hoje estávamos a falar latim em vês de inventar uma língua nova que é o nosso orgulho..