2009-10-31

O que será?

O povo chama-lhe “cunhas” e diz que é assim mesmo.
Para a Ciência é “Capital Social” e pensa-o como algo fundamental.
No “Management o nome é “networking” e é muito moderno.
A justiça dá-lhe o nome de “tráfego de influências” e trata-o como mais um crime.
O que será?

2009-10-30

Aprendizes de feiticeiros

Hoje vivemos um momento idêntico ao que eu vivi ao ler o livro “Silent Spring” de Rachel Carson alertando para algumas consequências até então ignoradas sobre o uso desse maravilhoso produto milagroso que, entre outros feitos, como no combate da malária, eliminou os piolhos a toda uma geração, a minha, como aqui escrevi.

Se forem ao “you tube” e fizerem uma pequena pesquisa sobre vacinação em inglês mas mesmo em português e, suponho em qualquer língua do mundo, logo verão inúmeras mensagens sobre possíveis perigos das vacinações em massa.
Pasteur nunca imaginou como a sua descoberta que abriu portas para grandes conquistas da humanidade, para a forte redução da mortalidade infantil e para o aumento da esperança de vida pudesse ser criticada assim pelos males que também produz, no acréscimo de doenças que estavam circunscritas ou obscuras e são problemas sociais agora, como as asmas, as doenças de Khron e tantas outras.

Esta mensagem progride. Há já muita gente esclarecida que recusa a vacina contra a gripe A.

A chave da natureza é a diversificação, por isso há a reprodução sexuada, as combinações de ADN e os milhões de pequeníssimas diferenças que fazem cada um de nós um ser único, tornando-nos fortes como um conjunto feito de diferenças.
A sociedade global luta contra a natureza e procura por todos os meios a homogeneização. Todos iguais e belos.
Continuar nesta via vai transformar a sociedade num conjunto de super homens e super mulheres que serão todos perfeitos até que um sopro de qualquer brisa os derrube a todos como num jogo de dominós.

2009-10-27

O caso Alexandra e o superior interesse da criança

O caso Alexandra voltou à ribalta porque as autoridades russas descobriram o que a opinião pública portuguesa já sabia há muito tempo: A mãe é alcoólica e incapaz de educar uma criança.
A solução é simples, para os portugueses: a criança tem de voltar para Portugal; e tentam já comprar o pai, que parece estar profundamente desinteressado.
Para os russos também é simples, a criança tem de ficar na Rússia.
E discute-se o assunto como se discute o futebol.
Em toda a argumentação vem sempre à baila aquele princípio orientador: o importante é salvaguardar o superior interesse da criança.
A grande questão aqui, como noutros casos, é que ninguém sabe qual é o superior interesse da criança, cada um só sabe o que entende ser o superior interesse da criança.
A minha questão é o apego inútil essas fórmulas ridículas que suscitam a unanimidade mas não têm qualquer valor operacional. Quem saberá qual é o superior interesse da criança? Desta e de todas as crianças.
O interesse imediato ainda se poderá saber mas o superior interesse, quem o adivinhará.
Entretanto Alexandra parece que vai continuar aos tombos como até aqui ao sabor das arbitrariedades.
Ainda assim eu, pelo menos, não sou capaz de dizer se esse não será talvez o seu superior interesse.

2009-10-22

De regresso ao admirável mundo velho

Cheguei e estou pousando ainda.
Vejo a controvérsia gerada pelas palavras de Saramago no lançamento do seu novo livro “Caim”, que eu não li nem tenciono ler.
O que disse Saramago já eu o digo há muito tempo, até neste blogue mas foi há tanto tempo que nem me dou ao trabalho de procurar o “link”, depois é uma mera evidência para quem lê a bíblia.
Interessante sim foi ver as posições contra que se ouviram, como se destrui uma evidência: minimizando o arauto, não sabe ler ou leu ingenuamente, não percebeu as épocas e as características de cada tempo, que a bíblia também tem o cântico dos cânticos, enfim desviando-se do essencial: O Deus judaico é um Ser vingativo mesquinho e cruel.
E a questão está aí, não são as histórias de homens de crueldade que a bíblia conta que incomodam, nem é mesmo o enxertado Novo Testamento que não tem nada a ver, são as posições Divinas, arbitrárias, caprichosas maliciosas, que a bíblia relata e que nos são apresentadas como modelo a utilizar.
Os exemplos estão lá por todo o lado a começar, de facto, nesse insólito episódio de Caim e a arbitrária rejeição da sua oferta de frutos da terra.
Que pai, bem formado, rejeitaria assim um presente de um seu filho elogiando o presente de um cordeiro de seu irmão Abel?
Que lição de vida se extrai disto que não seja a da injustiça e da iniquidade?
Mas chega de Saramago.
Hoje, finalmente conhecemos o novo governo.
Para mim só uma notícia me satisfez, finalmente vimo-nos livres de Jaime Silva o Ministro “tsunami”, o Ministro calamidade.
Basta que o novo seja um Ministro normal para que tudo melhore.

2009-10-16

Carta de Belgrado 20

De abalada

Chegaram ao fim os meus 40 dias de deserto, deserto da minha família e dos meus amigos porque, de resto, aqui não é deserto como tenho contado, aqui há vida.
Vou jantar fora pela última vez nesta estada no melhor restaurante de Belgrado (o que tem o melhor cozinheiro), deixo aqui a nota para quando cá vierem: é o Café Ipanema mas só no nome há esta alusão ao Brasil.

Enquanto no Kosovo vivi uma viagem ao passado aqui foi a um presente paralelo.
Da gripe aqui não se fala, não sei se é o vírus que não quer nada com a Sérvia ou se é a Sérvia que não quer nada com o vírus apenas não se ouve falar e, sobre o assunto, só vi uma reportagem onde aparecia precisamente Portugal e com entrevistas ao nosso pessoal.
Eu amanhã regresso ao mundo da gripe e do Sócrates e das tricas das comadres, as cartas de Belgrado, pelo menos por agora, acabaram.

2009-10-13

Carta de Belgrado 19

Belgrado, hoje está triste.
O Outono chegou em força agora: vento, chuva e algum frio.
As alegres esplanadas, mostram cadeiras e mesas empilhadas, tentando poupar-se para a próxima oportunidade.
Não ouço os gritos das crianças que todos os dias ao fim da tarde brincavam no espaço em frente da minha casa.
E depois é a noite que cai cedo, às seis locais já é noite cerrada. É assim também nos dia de sol, mas agora, o céu coberto acelera tudo.
No entanto dizem-me que o Inverno é bonito, cai a neve, muito mais suportável e alegre do que chuva e os recantos interiores, adquirem um novo encanto e aconchego.
Mas agora não é carne nem peixe, é apenas mau e chato.

2009-10-11

Carta de Belgrado 18

Hoje Portugal ganhou à Hungria e alimenta mais esperanças de chegar aos “play off”.
A buzinas dos carros apitaram em Belgrado, na minha cabeça parecia um gesto de solidariedade, os Sérvios em geral torcem por nós para estarmos na fase final.
Mas não foi solidariedade, foi pela Sérvia mesmo, que hoje se apurou para essa prova onde nós ainda queremos chegar.

2009-10-10

Carta de Belgrado 17

Uma lição de vida

Hoje fui almoçar ao “Trag”. A minha mesa habitual, que já era minha por usucapião, estava ocupada por um sujeito mal encarado de óculos escuros.
Segui em frente, pela primeira vez, para a sala que ali via.
Pedja, já me tinha dito que a minha mesa não estava no melhor sítio mas todas as salas me pareciam iguais.
Ao entrar nessa segunda sala vi que à esquerda tinha umas escadinhas para o “paraíso”, ali ao lado.
Subi e entro numa mezanine, com um pequeno lago ao centro e recantos com mesas ao redor, algumas das mesas estavam ocupadas por jovens famílias sérvias, crianças entre os 5 e os 7 anos corriam como é habitual, nos restaurantes, fartas de tanta formalidade e procurando explorar esse pequeno mundo novo.
A minha atenção focou-se numa pequena criança muito activa e faladora que explorava, um buraco na parede que comunicava com a cozinha e estava feliz com a descoberta daquele segredo, felicidade que demonstrava em frases de espanto ditas em sérvio mas que eu compreendia perfeitamente (as crianças quando ainda não dominam a linguagem têm consigo o segredo da eloquência).
Olhando essa criança eu divaguei, simpatizei com a criança e o seu fascínio pelas coisas simples, vou chamar-lhe Artur como o rei que ele era. .
Depois surgiu uma outra criança, da mesma idade mas mais carrancuda e temerosa, andava a um metro de distância, doido por se aproximar, invejoso daquela felicidade.
A esta vou chamar-lhe Narciso, porque apenas se fascinava comsigo próprio e com o que era seu.
Narciso, por fim, descobre a solução, volta à mesa e traz um “transformer”, aqueles bonecos ridículo que se compram e mudam de forma toscamente.
A novidade cativou Artur, o outro tinha aquilo que ele via na tv, a princípio tentou desvalorizar, é um boneco de plástico, tá bem, mostra-me.
Narciso não mostrava, só queria exibir mas os seus dedos infantis não conseguiam transformar o “transformer” e Artur desinteressou-se.
Narciso correu para o pai, Deus pai, para transformar o “transformer”.
O pai que estava a leste de tudo, entra na peça nesse instante, pega no boneco e com mãos hábeis muda a sua forma rapidamente, mas aqueles momentos de atenção a um brinquedo de criança, estimulam a sua própria curiosidade, fazem-no querer ser perfeito ser um perito “transformer” fazer algo diferente e interessante.
Narciso fica ansioso, ele tem que exibir a sua glória já, o boneco transformado, arranca-o das mão do pai e corre para o exibir a Artur.
Mas Artur já estava noutra e Narciso desenvolve um bailado para chamar a atenção do outro. O “transformer” que agora era um carro, começa a ser passeado lentamente sobre o corrimão que rodeava o lago, enquanto Narciso querendo parecer displicente ia olhando ansiosamente para o outro tentando captar-lhe a atenção.
Artur não ligou nenhuma mas surge uma terceira criança que sim e que trás consigo um outro “transformer”.
A empatia estabelece-se, Narciso, de carrancudo e distante, pela primeira vez sorri
Os dois deambulam e falam dos seus bonecos e das suas habilidades.
É então que Artur repara, queria associar-se aos outros mas como? Eu não tenho “transformer”? Os outros fogem de Artur a cada tentativa de intromissão, até que Artur se retira envergonhado, escondendo-se por traz de uma coluna.
Estava à beira das lágrimas. Porque não tinha ele o seu “transformer”?
Da minha mesa compreendi o seu drama e tentei sorrir-lhe de simpatia mas correndo o risco de agravar o seu sofrimento se interpretasse o meu sorriso como de troça.
A minha refeição tinha chegado ao fim e saí pensando comigo:
Como eu gostava de falar sérvio para encorajar aquele miúdo.
Mas feliz mesmo ficaria se eu lhe fizesse um gesto de carinho e ele me respondesse com uma chapada, ao velho chato paternalista que não entrava na história.
O que, aliás, era muito provável que acontecesse.
Nunca saberei qual seria a sua reacção mas assim, sim, assim seria verdadeiramente o meu Rei Artur.

2009-10-08

Carta de Belgrado 16

O tamaanho é importante.

O subtítulo escolhido poderá fazer os leitores e sobretudo as leitoras imaginarem que eu vou dissertar sobre o tamanho de qualquer coisa concreta, mas não, falo apenas da importância geral desse atributo, o tamanho.

Aqui tenho-me confrontado com questões de tamanho
Primeiro é o do recipiente de vinho.
Já em Portugal não me conformo com a escassez de tamanhos de garrafas: há o clássico 7,5 dcl que é muito só para mim e o 3,8 dcl, que é pouco para mim só, e apenaas há isto em restaurantes, excepto quando têm vinho a jarro, aliás tal como aqui. Em Portugal eu como geralmente com a minha mulher, o 7,5 é bom, eu bebo 5dcl e ela 2,5 dcl o que dá tudo certo.
Mas aqui é pior, existe o 7,5dcl e depois o 2,1 ou o copo, e como estou só, não tenho outro remédio senão ir bebendo 2 garrafas pequenas com os problemas de falta de continuidade e do preço que especulativamente aumenta.
Mas existe um outro problema de tamanho, é o das sobremesas.
Eu gosto à sobremesa de uma garfada ou duas de algo doce para “tirar a boca de pedreiro”, como dizia a minha avó mas as sobremesas são sempre enormes e caras, por isso, quando estou acompanhado, roubo uma colherada à sobremesa do parceiro(a), mas estando só, passo sem ela.
Aqui, é o mesmo, geralmente não como, embora me apeteça, mas hoje apetecia-me tanto que pedi “quero uma sobremesa muito pequena, “small” em Inglês “mali” em sérvio. O Empregado lá me trousse caminhando para mim e abanando a cabeça. Era de facto pequena mas ainda grande.
Comi metade.
Peço aos senhores da globalização que, tal como vão fazendo na roupa, vão diversificando no tamanho de tudo, porque nisto dos tamanhos há gostos para tudo.

2009-10-07

Carta de Belgrado 15

Nestes dias enfrento a hora da verdade.
Eu estou aqui com um objectivo, escrever 3 relatórios, que tenho já escritos na minha cabeça e passá-los-ia facilmente ao papel se eu soubesse ainda escrever como escrevia na minha 2ª classe, quando escrever era uma novidade.
Agora quando escrevo com caneta em papel ninguém entende, até eu tenho dificuldades e, pior que isso, ninguém leria mesmo que entendessem.
Por isso só me resta o “word”, mas o “word” à medida que tem crescido e se convence que é gente está cada vez pior.
Então com tabelas torna-se infernal, tem ideias próprias que me quer impor.
Para o dominar teria que voltar à segunda classe revisitada, à segunda classe “word” e já não tenho pachorra.
Por isso a minha revolta hoje e a necessidade de mandar uma mensagem para o Sr. Bill Gates.
Sr. Bill Gates
V.exa tem me feito perder muito tempo e tempo é dinheiro, como V. Exa bem sabe.
Só lhe peço uma coisa, discipline o seu exército, ensine-lhes a linha de comando, ponha cada um dos seu botões a fazer aquilo que diz que faz e nem mais nem menos.
Quando eu me dou ao trabalho de seleccionar uma parte de texto, quero dizer que tudo o que mandar fazer naquele contexto se aplica apenas à parte seleccionada, percebeu? Não me faça ver, como vejo tantas vezes que tudo o que já estava feito de uma maneira, se refez de outra. Ora a Porra!
E não mude as configurações que eu já fiz, só porque não gosta delas ou acha que assim é melhor para mim, não é.
Com os melhores cumprimentos
E aqui assino

2009-10-03

Carta de Belgrado 14

Já imaginaram estarem perdidos, por exemplo, no Alentejo profundo, acompanhados de um técnico internacional que só fala Inglês, e ao pararem junto de uma, duas três, quatro pessoas locais para pedir informações sobre o caminho, não conseguirem essas informações porque esses locais alentejanos só falam húngaro?
Mutatis mutandi, foi isso que me aconteceu ontem na região Voivodina da Sérvia.
Eu estava tão perdido na comunicação como o condutor do carro que é nacional Sérvio.
Isto é que são os Balcãs e a baralhada que o Império Austro-Húngaro e a História em geral aqui criou.
Lembrei-me das palavras de Agostinho da Silva dizendo que o grande feito de Afonso Henrique, o nosso rei fundador, foi o de ter descoberto onde era Portugal.
Húngaros, Sérvios, Romenos e por aí fora ainda estão hoje à procura da sua Hungria, da sua Sérvia e da sua Roménia, e ainda não têm senão uma pálida ideia.

2009-10-01

Carta de Belgrado 13

Duas músicas

Quando almoço no “Trag”, não é só a comida que me atrai lá, é também a música de fundo que não sei bem se será de uma gravação ou de uma rádio.
Eu bem ouço, de vez em quando, eles catarem um genérico que me parece dizer “Radio RFM” mas, por outro lado a música é demasiado constante para ser rádio.
Dá Leonard Cohen, Tom Waits, Llasa de Sela, enfim música predominantemente boa.
Mas hoje queria apenas falar de duas.
A primeira é um clássico de Bob Dylan que eu ouço, para aí, desde os meus 16 anos, cuja letra é um poema que eu sei praticamente de cor, é o “A Hard rain is gonna fall”.
Dizem alguns analistas que Dylan se referia à ameaça nuclear que estava no subconsciente de todos, naquele período da “Guerra Fria”.
Quando o ouço agora, mesmo na versão de Edie Brickell, que é a que eles dão no “Trag” e que sem me controlar eu tenho que cantarolar por cima, o que me vem à consciência é como esta chuvada nos ameaça agora, mais do que nunca.
Aqui fica para o vosso deleite e reflexão.



A Segunda música é um caso mais estranho, é de Tina Turner que eu detesto, mas a situação de estar só e ter que a ouvir faz-me elaborar sobre o tema.
A música é o “Private dancer” e, quando ouço o refrão, repetido n vezes “I am a private dancer, dancing for money”, o que me vem à consciência é responder-lhe: “Ar´nt we all?”., e aquela canção simples sobre o mundo da prostituição, que procura como que justificar-se, ganha, para mim um estatuto de hino revolucionário:
Dançarinos por dinheiro é essa a vida de todos nós.

Aqui fica


2009-09-28

Carta de Belgrado 12

Reflexões avulsas

Ontem houve eleições aí, parece, porque aqui não dizem nada.
Na TV5, durante uma entrevista à nova Directora Geral da Unesco, uma Búlgara bem mais simpática do que o carrancudo egípcio em que o nosso governo queria votar, comentaram que hoje, isto foi ontem, 2 países europeus têm eleições nacionais, a Alemanha e Portugal mas na CNN e na BBC World, só na Alemanha se votou.
Valeu-me a antena 1 on line, e alguns sms que recebi para saber os resultados do jogo.

Entretanto aqui, o ambiente geral de uma língua estranha faz-me divagar sobre algumas particularidades da nossa língua.
Fico orgulhoso da complexidade dos nossos verbos, os dissesse, dissera, disse, direi, diria, cada um com a sua nuança própria são formas raras de expressão, se bem se mantenham, noutras línguas novilatinas como o espanhol, e o francês mas não muito mais.
Mas o mais curioso é nosso ão exclusivo, só no Polaco existe algo parecido, mais um õo e sei disto porque um dos meus intérpretes na Polónia era Prof de linguística e sabia que só as líguas portuguesa e polaca tinham estas nasalações.
Quando aqui algum sérvio adquire alguma intimidade comigo, gosta de perceber o meu nome, estranha o Nuno, que pronuncia sem dificuldade, mas que me pergunta sempre porque não se escreve com 2 uu, dado que o som é o mesmo. Eu já não entro nas explicações difíceis da sílaba tónica e que se escrevesse com dois uu seria outra coisa e respondo simplesmente como se responde a crianças, é assim porque sim.
Mas no Jordão a coisa pia mais fino, esse ão custa a sair.
E é assim, nós simplificámos todas as terminações latinas one, ano e ane para o mais simples ão e só gaguejamos nos plurais, será ãos, ões ou âes?
A regra é ir ao latim mas como este já vai longe, vamos tentando mudar e simplificar como soa melhor no nosso ouvido é assim que os corrimãos já são corrimões e muito bem.
Se todos fossemos puristas ainda hoje estávamos a falar latim em vês de inventar uma língua nova que é o nosso orgulho..

2009-09-26

Carta de Belgrado 11

A solidão de estar aqui, a língua estranha que me dificulta qualquer comunicação, o “broken English” que nos permite comunicar apenas na margem, a imunidade transitória à constante lavagem de cérebro a que estão sujeitos os meus compatriotas e, é claro, eu próprio, quando aí estou (embora esteja aqui sujeito a outra lavagem cerebral mas mais inofensiva, porque a deficiência na comunicação me defende muito), tudo isto faz-me ver melhor o mundo.

Hoje fui a Vinca.
Por vezes eu próprio me questiono porque queria visitar Vinca.
Pedja, o meu fiel motorista, estava atónito (ele sabe de Vinca há muito tempo mas nunca se deu ao trabalho de lá ir) e preocupado com esta visita, tinha passado o dia de ontem a contactar o telefone que o turismo fornecia sem nunca conseguir que ninguém o atendesse. Mandou-me um SMS alarmado.
“Vamos a Vinca, Pedja, e logo vemos, relax”. Respondi eu.
E fomos.
Quando chegámos próximo, pedimos informações ( a toponímia e as placas indicadoras na Sérvia são como em Portugal, uma seta, depois silêncio e mais adiante talvez outra seta que nos dá esperança se não falhámos já) o informador explicou tudo e ficou feliz de haver um visitante, sorriu para mim e esticou os polegares.
Finalmente chegámos, recebeu-nos um velho que só sabia um discurso decorado em Sérvio mas que depois chamou um jovem que falava inglês e nos acompanhou.
Vimos umas escavações cobertas de plásticos negros que ele levantou um pouco e um suposto museu que era uma sala com coisas recolhidas.
Com a intimidade que fomos adquirindo ainda nos mostrou um sala onde se amontoavam caixotes e caixotes de peças recolhidas: potes, estatuetas, instrumentos de trabalho, aguardando a devida exposição.
“Não há dinheiro para pôr isto decente” disse o rapaz.
Poderia, sem qualquer problema, ter trazido comigo um pote de barro com 10 000 anos ou uma estatueta de pedra.
Não o fiz e ainda não sei se bem ou mal.
Vinca está quase abandonada e como com as nossas gravuras de Foz Coa, o importante, para quem tem o poder, não é o testemunho que está ali, o importante é o dinheiro que gera ou que não gera.
Pedja, trouxe-me de volta intrigado com esta minha mania.
Disse-lhe: “Vinca é muito mais importante do que eles nos disseram, Pedja, por exemplo, reparou que não vimos uma única arma?”.
Os olhos dele iluminaram-se e respondeu-me: “De facto é verdade!”.
Nem ele nem eu, vimos que ao contrário do que é vulgar em ruínas neolíticas não havia ali casas apalaçadas na colina, mas apenas uma povoação equalitária onde as pessoas se diferenciavam apenas pela decoração e a arte.

2009-09-25

Carta de Belgrado 10

Como como em Belgrado

Ficou engraçado o subtítulo, mostrando estas particularidades da língua portuguesa e de todas as línguas, suponho.
O “word” dizia-me que era erro, “palavra repetida”, mas o que é que o “word” sabe?

Tenho comido por aqui e por ali e tenho já a minha ideia.
Claro que como vivo no coração de Belgrado, na zona mais turística, não tenho a percepção do que será a autêntica comida Sérvia.
Nos primeiros dias, para me ambientar perguntei ao meu motorista (de táxi) onde me aconselhava a comer e ele retorquiu-me: “mas quer Italiano ou Sérvio?”. “Sérvio, é claro” disse-lhe eu.
Ele indicou-me o “Trag”, um bom restaurante, sem dúvida, mas a carta está cheia de pastas, lasanhas, nhoques, e pizas e depois uma secção de cozinha internacional, que está ali mas podia encontrá-la igual em Paris, Roma ou Lisboa. Por onde andará a cozinha Sérvia?
Ao fim de uns dias percebi o que ele queria dizer, trata-se de uma sopa de carne, com uma espécie de iogurte, pouco doce, que é boa, de facto, mas para mim, não excepcional.
No resto dos restaurantes o panorama é o mesmo mas sem a tal sopa.
Como é cozinha internacional não me pronuncio, tudo com muitos molhos, à base de queijos e ou cogumelos, também internacionais, vaca, porco e frango e muito raramente encontra-se peixe, Douradas e Linguado, para alem de Trutas e Carpas, sempre grelhados, com ou sem molhos e lulas que há sempre.
Os restaurantes são daquele tipo europeu, à luz de velas, onde não vemos bem o que comemos e para ler o menu e a conta nos vemos à rasca.
Viva Portugal que tem restaurantes bem iluminados, não será tão romântico mas como se diz no “Samba do Bexiga” "eu só vou lá para comer" e gosto de ver o que como.
Deixando a restauração, não posso deixar de referir que a Sérvia tem a melhor carne de porco do mundo.
Já o tinha reparado no Kosovo, porque aí para comer porco só comprando em talhos sérvios, e aqui confirmei, nas febras que comprei para fazer em casa, que maravilha de carne, que sabor perdido no tempo.
O facto é reconhecido aqui, quando aponto este facto, todos me vão dizendo que também notam quando vão ao estrangeiro que o porco não lhes sabe a porco.
O que é certo é que, ao que eles sabem, não têm nenhuma raça autóctone e atribuem o facto a não terem indústria de carne de porco, é tudo porcos rafeiros e de chiqueiro.
Fica o mistério, que a carne é a melhor do mundo, assino em baixo.
O vinho local e da Macedónia bebe-se bem e há em jarros e a preços acessíveis.
Depois há a bebida nacional, a “palinca” daqui, que aqui se chama “Rákia”, nem melhor nem pior do que a palinca, o medronho e outros destilados.
E é assim que vou comendo pelos restaurante da Sérvia.

2009-09-23

Carta de Belgrado 9

Vinca

Quem seguiu o meu conselho e já leu “O Cálice e a Espada” de Rian Eisler, sabe do que estou a falar.
Vinca que aqui se pronuncia Vintcha, são umas ruínas do neolítico bem perto de Belgrado, e que contam a história do povo que aqui vivia feliz e em paz, há uns milhares de anos, antes da chegada dos homens dos cavalos e dos carros de guerra, chamados Arianos ou Indo-Europeus, que falavam sânscrito, escreveram os Veda, instituíram o iníquo sistema de castas indiano, espalharam o terror por onde passaram e impuseram o seu sistema que vigora no mundo até hoje.
Na Europa há apenas 3 ou 4 lugares como este, vestígios visíveis do paraíso perdido.
Quando tomei conhecimento de Vinca, estava eu de férias mas soube, no meu coração, que viria a Belgrado.
Hoje estou aqui, em Belgrado, no mapa que me deram estão lá previstas excursões a Vinca, é só uma pessoa inscrever-se.
Hoje fui a um posto de turismo para me inscrever numa visita a Vinca e tive a triste notícia que este programa terminou por falta de aderência do público, ninguém quer ir a Vinca!?
Eu hei-de ir, se não for acompanhado vou só mas eu vou.

2009-09-22

Carta de Belgrado 8

E aqui está a qualquer coisa que eu dizia que iria dizer.
Domingo fui jantar com os meus amigos, pacificamente e ouvi dizer que a tal manifestação “gay” tinha sido cancelada pelo Governo Sérvio.
E os “gays”? Que iam sair de qualquer maneira?
Parece que na hora da verdade, faltou-lhes qualquer coisa no devido sítio.
A verdade é que foi tudo pacífico.

2009-09-20

Carta de Belgrado 7

Hoje é um dia importante em Belgrado.
Chegou-me a notícia por um motorista de táxi que me tem apoiado nas deslocações:
“Domingo não saia à rua, vai haver uma manifestação de “gays”, disse-me.
Depois vi as notícia na BBC world. Em Belgrado vai-se repetir a manifestação “gay” do ano passado, quando morreram 3 pessoas. O Governo está preocupado com medo que tudo se repita e proibiu a manifestação no centro de Belgrado. Os “gays” organizadores dizem que vão sair de qualquer maneira.
Logo vou jantar com um amigo no centro. Isto se me deixarem, é claro.
Depois direi qualquer coisa.

2009-09-18

Carta de Belgrado 6

A internet que eu tenho não se paga ao mês, nem ao dia, nem à hora, nem ao minuto, é paga ao Gigabits de “downloads”.
A solução parece boa, para a generalidade das utilizações, ver os e-mails, passar em revista os jornais, uma ou outra consulta ao google, dá para um mês, como me dizem outros utilizadores.
O que me tem lixado a mim são os Gatos Fedorentos, estão a levar-me à ruína, para ver tudo são cerca de 300 Megabits cada dia e de 3 em 3 dias lá vou eu à compra de gigas.
Assim não dá e ainda dizem que vão ser mais 27 programas.
Mas também como é que eu passo aqui, neste país estranho, sem aquelas palermisses saudáveis a lembrarem-me a minha terra.

2009-09-16

Carta de Belgrado 5

A alienação total

Isto vem de Belgrado mas podia vir de casa.
Na minha revista aos jornais portugueses “on line”, deparo no Público com a seguinte notícia que transcrevo sic (com “copy” e “paste”)

A taxa de inflação na zona euro fixou-se, em Agosto, em -0,2 por cento, acima dos 0,7 por cento que tinham sido registados no mês de Julho, revelou o Eurostat. Portugal (-1,2 por cento) apresenta a segunda taxa mais baixa entre os parceiros europeus.

Será que alguém percebe esta notícia?

Usei todos os meus parcos recursos de português e dividi as orações.

“A taxa de inflação na zona euro fixou-se, em Agosto, em -0,2 por cento” (parei aqui porque vi uma virgula a seguir e concluí que a inflação em Portugal e em Agosto foi negativa de –0,2%)

Depois da vírgula segue uma frase espantosa: “acima dos 0,7 por cento que tinham sido registados no mês de Julho, revelou o Eurostat”

Como? Pergunto eu, como é que uma inflação negativa está acima de uma positiva?
Pensei, será talvez a virgula que foi posta a mais (eu próprio tenho muita dificuldade em dominar as vírgulas e, por isso mesmo, tenho muita tolerância para as falhas dos outros)
Mas assim significaria que a inflação em Agosto terá sido de 0,5% (0,7-0,2)

Finalmente para coroar vem a conclusão:

“Portugal (-1,2 por cento) apresenta a segunda taxa mais baixa entre os parceiros europeus”.

E donde terão vindo estes -1,2%?

Toda a tentativa de compreensão morreu aqui.

Mas reparei que havia 15 comentários que fui consultar curioso de ver a fúria insultuosa que costuma habitar estes comentários “on line” e pensei que ela era dirigida ao jornalista José Manuel Rosa, identificado como autor da notícia.

Tive um espanto maior, toda a gente parecia ter compreendido tudo muito bem e em vez de discutirem o português, discutiam economia e insultavam-se uns aos outros.

“É deflacção”
“não é nada sua besta ignorante”
“Bestas são vocês todos porque nem sabem o que é inflação negativa”

Isto não é textual, é um exagero meu sobre aquilo que li.

A minha conclusão foi apenas perguntar-me “mas o que é isto e onde é que eu estou.?

2009-09-14

Carta de Belgrado 4

O Mundo visto daqui

O subtítulo que pus em cima é só válido para mim, deveria ser mais: “O Mundo como eu o vejo aqui” ou, talvez ainda melhor: “O Mundo como eu o posso ver daqui”
Os pesos e as prioridades mudam, “Sócrates vs Manuela F. Leite ou Louçã” chegam-me via SMS, e pela revista aos jornais “on line” e se tentar ir mais longe e ver mesmo os debates na internet tenho que pagar significativamente pela esquisitice, isso, no mundo não tem a mínima importância.
Dos jornais e canais daqui, não percebo nada, embora esses assuntos que não percebo, animem debates e conversas aqui e sejam os mais importantes para alguma da gente com que me cruzo na rua.
Para mim, as notícias vêm das omnipresentes CNN e BBC world e aí Sócrates e Portugal, praticamente não existem.
Nesse mundo, misteriosamente, os assuntos importantes são a desqualificação de Serena Williams, notícia constante desde ontem mas ainda no campo dos desportos houve um golo do Benfica aos Belenenses que mereceu imagens e referências elogiosas. Portugal ainda existe aqui. Força Benfica.
Na Política os assuntos são o Obama na sua cruzada heróica pelo serviço de saúde público onde iremos ver se “yes we can” ou “ No we can`nt” e a pobres que estão vestindo gravata, refiro-me à China, e ao Brazil.
Alguma coisa parece mudar, a China, bate o pé aos EUA, porque estão a pôr entraves à importação dos seus pneus (e a notícia é essa: agora a china também bate o pé). Força China.
Tive também o prazer de ouvir o Lula a falar orgulhosamente em português 5 segundos antes de lhe calarem a voz com um inglês em off, pelo menos o mundo viu que ele fala e na tradução ouviu o que ele disse, resumidamente a velha frase “os ricos que paguem a crise”. Força Brasil.
Também apanhei no zapping um episódio da novela “Clone”. Força Brasil outra vez.
E assim vai o mundo como eu o espreito daqui.

2009-09-12

Carta de Begrado 3

Belgrado é bonito, tem um ar de velha capital europeia, que é, e aquele toque de Europa central.
Eu vivo no centro, sem dúvida, no “Cais do Sodré” como disse, mas a animação maior fica entre o “Terreiro do Paço” e o “Rossio”, daqui a dois passos.
A animação é dada pelas ruas exclusivas para pedestres, as esplanadas, umas atrás das outras e o canto permanente de grupos informais ao estilo Kusturica.
A baixa de Lisboa devia ser assim e ouvir-se fado pelas ruas.
Não sei o que tem Lisboa que expulsou os seus habitantes e odeia esplanadas, não obstante ter um excelente clima para isso.
Eu já me vou entendendo por aqui mas tive um inimigo, o alfabeto cirílico.
Na Sérvia há dois alfabetos oficiais o latino que é usado pelo comércio moderno e na generalidade das legendas dos canais de tv cabo, e o cirílico que é obrigatório em documentos oficiais e permanece na toponímia da cidade, pelo menos da cidade velha e que eu tenho vindo a estudar para sobreviver.
O mapa de turista que tenho está em latino, as placas na rua estão em cirílico, e esse simples facto tem-me feito derivar pela cidade e percorrer quilómetros para avançar 100 metros.
Felizmente isso está a acabar.
Cada dia domino mais esses sinais que têm a vantagem de tirar às línguas eslavas, aquela sequência de consoantes, que as torna ilegíveis para nós.
Com as luzes de polaco que tenho, muito do sérvio torna-se minimamente compreensível para mim.
Dominando o cirílico avanço uns paços para o domínio deste ambiente estranho.


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2009-09-09

Carta de Belgrado 2

Isto não é o Kosovo. Embora os Sérvios não reconheçam a independência da sua antiga província e tenham um enorme desprezo pelos albaneses (ou talvez por isso), há enormes diferenças.
Aqui vê-se a miséria, que não se via lá, pedintes aos montes, gente esgravatando os lixos para sobreviver, contudo é um mundo mais familiar para mim, os mesmos problemas os mesmos hábitos de vida.
Sinto um mundo Kusturicaneano.
O salário médio, dizem-me, ronda os 200€, a vida é mais barata do que em Portugal, muito mais barata nos géneros alimentícios em natureza mas ronda os mesmos preços na restauração e nos bares.
O que não têm aqui e existe entre os albaneses são os laços de solidariedade entre família alargada.
A moeda aqui é o Dinar, 98 Dinares, mais ou menos, fazem 1 €, As notas de 1000 Dinares, que são as que mais trago na carteira, são, grosso modo, notas de 10€.
A confusão vem daí para baixo, porque há notas de 500, de 100, de 50, de 20 e de 10, ou seja de um cêntimo, e ainda há moedas inferiores.
Eu costumo dar gorjetas generosas, que eles agradecem muito, ou seja, arredondo as contas, nos bares e restauração, aos 500 ou 100 Dinars (entre 5 e 1Euro).uma pequena despesa que me vai fazendo popular no bairro.
Quanto ao trabalho vai progredindo lentamente, por enquanto ainda estou a pousar.
É-me interessante ver a diferença de atitudes e comportamentos entre a gente da Delegação da UE e a do ministério, dois mundos que eu conheço e onde me movo com relativo à-vontade, mas fazem-me reflectir.

2009-09-07

Carta de Belgrado 1

Da viagem atribulada até à reconstituição do meu universo

O “check in” em Lisboa detectou 10kg de peso a mais na bagagem de porão, pudera são 41 dias no desconhecido, roupa quanto baste para o máximo de uma lavagem intermédia quando dominar o ambiente e vários livros para os tempos de solidão, tudo pesado davam 31Kg.
A graça custou 150€.
Depois o avião para Munique saiu com 45 minutos de atraso, o suficiente para após uma correria no aeroporto de Munique e mais controlo de passaportes fazer-me chegar, mesmo assim, com o “gate” para Belgrado já fechado.
No apoio a clientes do aeroporto disseram-me que tudo já estava previsto e que partiria 4h depois, e deram-me um “vaucher” para comer e/ou beber, no valor de 10€.
Cheguei a Belgrado perto das 21h e para cúmulo a minha mala não vinha, “veio mais cedo?” perguntei eu, “não, não chegou a sair de Lisboa” responderam-me, “agora só amanhã à tarde, levamo-la ao seu apartamento”.
Entretanto, quando liam a morada, esboçavam um sorriso, para mim preocupante, mas quando tentava indagar razão, respondiam-me sempre, “tudo bem, é no centro”.
Receoso, telefonei ao meu senhorio que me disse que me esperava à porta.
Cheguei de táxi e senhorio, nada, mais na porta estavam os nomes dos moradores de todos os andares.
Eu já tinha pago o aluguer adiantado, o ambiente, neste Domingo à noite era estranho, edifícios degradados, alguns bêbedos, mas também jovens de ambos os sexos passando.
Telefonei de novo ao senhorio que me disse que chegava em 3 m.
Chegou ao fim de 15m, com eu já desesperado, a ver-me a ter de ir para um hotel.
Mas tudo mudou, o apartamento não era aquele mas um outro ao lado, mostrou-mo, deu-me a chave e prometeu-me que no dia seguinte tinha internet.
À primeira vista, era minimamente aceitável.
Na manhã seguinte tinha prevista uma reunião na delegação da UE, o meu senhorio fez-me um contacto para um seu amigo taxista que ficou de me apanhar no dia seguinte e o dia terminou.
Só que, no quarto, apesar das cortinas havia muita luz e tive mais dificuldade em adormecer.
Hoje de manhã, vesti exactamente a mesma roupa, única que tinha, lá estava o amigo taxista à hora marcada, a reunião correu bem, e foram muito compreensivos para o meu problema da falta de bagagem e a minha relativa má apresentação, já é habitual perderem-se as malas, disseram-nos.
Passei a tarde a explorar o local e a ler alguns documentos.
Estou a viver no centro velho de Belgrado, assim como talvez no Cais do Sodré em Lisboa, mas à volta há tudo, pequenos supermercados, bares, restaurantes etc.
Abasteci-me do que precisava e finalmente chegou a minha mala e o meu senhorio cumpriu a palavra e apareceu para montar a internet.
Com a mala veio tudo o que me faltava e mais esperança para o resto da missão.

2009-09-03

O clima

Não, não vou falar do clima de Belgrado, até porque ainda não parti mas também não é do sol e do calor que cá faz que quero falar agora. É do clima geral, do clima político-social, do ambiente que se instala nos países e ditam a forma de se viver em sociedade.
Nos tempos de Salazar, por exemplo, o clima era pesado, havia muitas coisas que ninguém se atrevia a fazer e que todavia nenhuma lei proibia, era o medo que impunha auto-censura, o medo de represálias, por mais absurdas que fossem, de não progredir no emprego ou ser despedido, de chumbar no exame arbitrariamente, de ser mal classificado num concurso, de atrasar a vida em suma, o que geralmente nunca acontecia mas todos sabiam que podia sempre acontecer e, para alguns, acontecia mesmo.
No Governo de Sócrates vamos lentamente sentindo esse ar pesado.
Os primeiros sinais foram dados pela anedota do Prof Charrua e a reacção da Direcção Regional de Educação do Norte, depois vieram vários outros episódios, de que já me esqueci, e é assim, o clima gera-se com muitas pequenas coisas, coisas pequenas mas muitas, a generalidade nem chega à comunicação social, são vivências individuais e mesmo quando chegam á notoriedade, “os cães ladram mas a caravana passa.” e, a partir daí apenas o ar começa a ficar mais pesado e o céu escurece.
Ultimamente vamos vendo coisas estranhas:
A ex-famosa música dos Chutos que fazia perguntas ao Sr. Engenheiro nunca se ouve na rádio embora pareça que ninguém proibiu, ouvi mesmo dizer que foi a própria editora que não lhe deu a devida prioridade, não temos, de facto, ouvido a música, e o ar tem ficado mais pesado; depois já transpira que no caso “Freeport” Sócrates não tem nem sombra de pecadilho, o que se calhar até é verdade, mas foi tratado como sendo invisível, nem teve nada a ver com o caso e isso não é natural.
Mas gora veio esta suspensão insólita do telejornal das sextas da TVI, segundo dizem a pedido da Prisa (empresa espanhola) do capital portanto e isto é estranho, tanto mais que o tal telejornal era líder de audiências, dava dinheiro, faz pensar que a Prisa pensa que o que perde ao proibir o “telejornal travestido” será compensado pelo que poderá ganhar assim ou pelo menos evitar perdas maiores.
Neste caso os cães vão ladrar, até porque a Manuela Moura Guedes tem boca para isso, mas suspeito que a caravana vai passar na mesma.
O clima é que começa a ficar irrespirável.