2009-10-10
Carta de Belgrado 17
Hoje fui almoçar ao “Trag”. A minha mesa habitual, que já era minha por usucapião, estava ocupada por um sujeito mal encarado de óculos escuros.
Segui em frente, pela primeira vez, para a sala que ali via.
Pedja, já me tinha dito que a minha mesa não estava no melhor sítio mas todas as salas me pareciam iguais.
Ao entrar nessa segunda sala vi que à esquerda tinha umas escadinhas para o “paraíso”, ali ao lado.
Subi e entro numa mezanine, com um pequeno lago ao centro e recantos com mesas ao redor, algumas das mesas estavam ocupadas por jovens famílias sérvias, crianças entre os 5 e os 7 anos corriam como é habitual, nos restaurantes, fartas de tanta formalidade e procurando explorar esse pequeno mundo novo.
A minha atenção focou-se numa pequena criança muito activa e faladora que explorava, um buraco na parede que comunicava com a cozinha e estava feliz com a descoberta daquele segredo, felicidade que demonstrava em frases de espanto ditas em sérvio mas que eu compreendia perfeitamente (as crianças quando ainda não dominam a linguagem têm consigo o segredo da eloquência).
Olhando essa criança eu divaguei, simpatizei com a criança e o seu fascínio pelas coisas simples, vou chamar-lhe Artur como o rei que ele era. .
Depois surgiu uma outra criança, da mesma idade mas mais carrancuda e temerosa, andava a um metro de distância, doido por se aproximar, invejoso daquela felicidade.
A esta vou chamar-lhe Narciso, porque apenas se fascinava comsigo próprio e com o que era seu.
Narciso, por fim, descobre a solução, volta à mesa e traz um “transformer”, aqueles bonecos ridículo que se compram e mudam de forma toscamente.
A novidade cativou Artur, o outro tinha aquilo que ele via na tv, a princípio tentou desvalorizar, é um boneco de plástico, tá bem, mostra-me.
Narciso não mostrava, só queria exibir mas os seus dedos infantis não conseguiam transformar o “transformer” e Artur desinteressou-se.
Narciso correu para o pai, Deus pai, para transformar o “transformer”.
O pai que estava a leste de tudo, entra na peça nesse instante, pega no boneco e com mãos hábeis muda a sua forma rapidamente, mas aqueles momentos de atenção a um brinquedo de criança, estimulam a sua própria curiosidade, fazem-no querer ser perfeito ser um perito “transformer” fazer algo diferente e interessante.
Narciso fica ansioso, ele tem que exibir a sua glória já, o boneco transformado, arranca-o das mão do pai e corre para o exibir a Artur.
Mas Artur já estava noutra e Narciso desenvolve um bailado para chamar a atenção do outro. O “transformer” que agora era um carro, começa a ser passeado lentamente sobre o corrimão que rodeava o lago, enquanto Narciso querendo parecer displicente ia olhando ansiosamente para o outro tentando captar-lhe a atenção.
Artur não ligou nenhuma mas surge uma terceira criança que sim e que trás consigo um outro “transformer”.
A empatia estabelece-se, Narciso, de carrancudo e distante, pela primeira vez sorri
Os dois deambulam e falam dos seus bonecos e das suas habilidades.
É então que Artur repara, queria associar-se aos outros mas como? Eu não tenho “transformer”? Os outros fogem de Artur a cada tentativa de intromissão, até que Artur se retira envergonhado, escondendo-se por traz de uma coluna.
Estava à beira das lágrimas. Porque não tinha ele o seu “transformer”?
Da minha mesa compreendi o seu drama e tentei sorrir-lhe de simpatia mas correndo o risco de agravar o seu sofrimento se interpretasse o meu sorriso como de troça.
A minha refeição tinha chegado ao fim e saí pensando comigo:
Como eu gostava de falar sérvio para encorajar aquele miúdo.
Mas feliz mesmo ficaria se eu lhe fizesse um gesto de carinho e ele me respondesse com uma chapada, ao velho chato paternalista que não entrava na história.
O que, aliás, era muito provável que acontecesse.
Nunca saberei qual seria a sua reacção mas assim, sim, assim seria verdadeiramente o meu Rei Artur.
2009-10-08
Carta de Belgrado 16
O tamaanho é importante.
O subtítulo escolhido poderá fazer os leitores e sobretudo as leitoras imaginarem que eu vou dissertar sobre o tamanho de qualquer coisa concreta, mas não, falo apenas da importância geral desse atributo, o tamanho.
Aqui tenho-me confrontado com questões de tamanho
Primeiro é o do recipiente de vinho.
Já em Portugal não me conformo com a escassez de tamanhos de garrafas: há o clássico 7,5 dcl que é muito só para mim e o 3,8 dcl, que é pouco para mim só, e apenaas há isto em restaurantes, excepto quando têm vinho a jarro, aliás tal como aqui. Em Portugal eu como geralmente com a minha mulher, o 7,5 é bom, eu bebo 5dcl e ela 2,5 dcl o que dá tudo certo.
Mas aqui é pior, existe o 7,5dcl e depois o 2,1 ou o copo, e como estou só, não tenho outro remédio senão ir bebendo 2 garrafas pequenas com os problemas de falta de continuidade e do preço que especulativamente aumenta.
Mas existe um outro problema de tamanho, é o das sobremesas.
Eu gosto à sobremesa de uma garfada ou duas de algo doce para “tirar a boca de pedreiro”, como dizia a minha avó mas as sobremesas são sempre enormes e caras, por isso, quando estou acompanhado, roubo uma colherada à sobremesa do parceiro(a), mas estando só, passo sem ela.
Aqui, é o mesmo, geralmente não como, embora me apeteça, mas hoje apetecia-me tanto que pedi “quero uma sobremesa muito pequena, “small” em Inglês “mali” em sérvio. O Empregado lá me trousse caminhando para mim e abanando a cabeça. Era de facto pequena mas ainda grande.
Comi metade.
Peço aos senhores da globalização que, tal como vão fazendo na roupa, vão diversificando no tamanho de tudo, porque nisto dos tamanhos há gostos para tudo.
2009-10-07
Carta de Belgrado 15
Eu estou aqui com um objectivo, escrever 3 relatórios, que tenho já escritos na minha cabeça e passá-los-ia facilmente ao papel se eu soubesse ainda escrever como escrevia na minha 2ª classe, quando escrever era uma novidade.
Agora quando escrevo com caneta em papel ninguém entende, até eu tenho dificuldades e, pior que isso, ninguém leria mesmo que entendessem.
Por isso só me resta o “word”, mas o “word” à medida que tem crescido e se convence que é gente está cada vez pior.
Então com tabelas torna-se infernal, tem ideias próprias que me quer impor.
Para o dominar teria que voltar à segunda classe revisitada, à segunda classe “word” e já não tenho pachorra.
Por isso a minha revolta hoje e a necessidade de mandar uma mensagem para o Sr. Bill Gates.
Sr. Bill Gates
V.exa tem me feito perder muito tempo e tempo é dinheiro, como V. Exa bem sabe.
Só lhe peço uma coisa, discipline o seu exército, ensine-lhes a linha de comando, ponha cada um dos seu botões a fazer aquilo que diz que faz e nem mais nem menos.
Quando eu me dou ao trabalho de seleccionar uma parte de texto, quero dizer que tudo o que mandar fazer naquele contexto se aplica apenas à parte seleccionada, percebeu? Não me faça ver, como vejo tantas vezes que tudo o que já estava feito de uma maneira, se refez de outra. Ora a Porra!
E não mude as configurações que eu já fiz, só porque não gosta delas ou acha que assim é melhor para mim, não é.
Com os melhores cumprimentos
E aqui assino
2009-10-03
Carta de Belgrado 14
Mutatis mutandi, foi isso que me aconteceu ontem na região Voivodina da Sérvia.
Eu estava tão perdido na comunicação como o condutor do carro que é nacional Sérvio.
Isto é que são os Balcãs e a baralhada que o Império Austro-Húngaro e a História em geral aqui criou.
Lembrei-me das palavras de Agostinho da Silva dizendo que o grande feito de Afonso Henrique, o nosso rei fundador, foi o de ter descoberto onde era Portugal.
Húngaros, Sérvios, Romenos e por aí fora ainda estão hoje à procura da sua Hungria, da sua Sérvia e da sua Roménia, e ainda não têm senão uma pálida ideia.
2009-10-01
Carta de Belgrado 13
Quando almoço no “Trag”, não é só a comida que me atrai lá, é também a música de fundo que não sei bem se será de uma gravação ou de uma rádio.
Eu bem ouço, de vez em quando, eles catarem um genérico que me parece dizer “Radio RFM” mas, por outro lado a música é demasiado constante para ser rádio.
Dá Leonard Cohen, Tom Waits, Llasa de Sela, enfim música predominantemente boa.
Mas hoje queria apenas falar de duas.
A primeira é um clássico de Bob Dylan que eu ouço, para aí, desde os meus 16 anos, cuja letra é um poema que eu sei praticamente de cor, é o “A Hard rain is gonna fall”.
Dizem alguns analistas que Dylan se referia à ameaça nuclear que estava no subconsciente de todos, naquele período da “Guerra Fria”.
Quando o ouço agora, mesmo na versão de Edie Brickell, que é a que eles dão no “Trag” e que sem me controlar eu tenho que cantarolar por cima, o que me vem à consciência é como esta chuvada nos ameaça agora, mais do que nunca.
Aqui fica para o vosso deleite e reflexão.
A Segunda música é um caso mais estranho, é de Tina Turner que eu detesto, mas a situação de estar só e ter que a ouvir faz-me elaborar sobre o tema.
A música é o “Private dancer” e, quando ouço o refrão, repetido n vezes “I am a private dancer, dancing for money”, o que me vem à consciência é responder-lhe: “Ar´nt we all?”., e aquela canção simples sobre o mundo da prostituição, que procura como que justificar-se, ganha, para mim um estatuto de hino revolucionário:
Dançarinos por dinheiro é essa a vida de todos nós.
Aqui fica
2009-09-28
Carta de Belgrado 12
Ontem houve eleições aí, parece, porque aqui não dizem nada.
Na TV5, durante uma entrevista à nova Directora Geral da Unesco, uma Búlgara bem mais simpática do que o carrancudo egípcio em que o nosso governo queria votar, comentaram que hoje, isto foi ontem, 2 países europeus têm eleições nacionais, a Alemanha e Portugal mas na CNN e na BBC World, só na Alemanha se votou.
Valeu-me a antena 1 on line, e alguns sms que recebi para saber os resultados do jogo.
Entretanto aqui, o ambiente geral de uma língua estranha faz-me divagar sobre algumas particularidades da nossa língua.
Fico orgulhoso da complexidade dos nossos verbos, os dissesse, dissera, disse, direi, diria, cada um com a sua nuança própria são formas raras de expressão, se bem se mantenham, noutras línguas novilatinas como o espanhol, e o francês mas não muito mais.
Mas o mais curioso é nosso ão exclusivo, só no Polaco existe algo parecido, mais um õo e sei disto porque um dos meus intérpretes na Polónia era Prof de linguística e sabia que só as líguas portuguesa e polaca tinham estas nasalações.
Quando aqui algum sérvio adquire alguma intimidade comigo, gosta de perceber o meu nome, estranha o Nuno, que pronuncia sem dificuldade, mas que me pergunta sempre porque não se escreve com 2 uu, dado que o som é o mesmo. Eu já não entro nas explicações difíceis da sílaba tónica e que se escrevesse com dois uu seria outra coisa e respondo simplesmente como se responde a crianças, é assim porque sim.
Mas no Jordão a coisa pia mais fino, esse ão custa a sair.
E é assim, nós simplificámos todas as terminações latinas one, ano e ane para o mais simples ão e só gaguejamos nos plurais, será ãos, ões ou âes?
A regra é ir ao latim mas como este já vai longe, vamos tentando mudar e simplificar como soa melhor no nosso ouvido é assim que os corrimãos já são corrimões e muito bem.
Se todos fossemos puristas ainda hoje estávamos a falar latim em vês de inventar uma língua nova que é o nosso orgulho..
2009-09-26
Carta de Belgrado 11
Hoje fui a Vinca.
Por vezes eu próprio me questiono porque queria visitar Vinca.
Pedja, o meu fiel motorista, estava atónito (ele sabe de Vinca há muito tempo mas nunca se deu ao trabalho de lá ir) e preocupado com esta visita, tinha passado o dia de ontem a contactar o telefone que o turismo fornecia sem nunca conseguir que ninguém o atendesse. Mandou-me um SMS alarmado.
“Vamos a Vinca, Pedja, e logo vemos, relax”. Respondi eu.
E fomos.
Quando chegámos próximo, pedimos informações ( a toponímia e as placas indicadoras na Sérvia são como em Portugal, uma seta, depois silêncio e mais adiante talvez outra seta que nos dá esperança se não falhámos já) o informador explicou tudo e ficou feliz de haver um visitante, sorriu para mim e esticou os polegares.
Finalmente chegámos, recebeu-nos um velho que só sabia um discurso decorado em Sérvio mas que depois chamou um jovem que falava inglês e nos acompanhou.
Vimos umas escavações cobertas de plásticos negros que ele levantou um pouco e um suposto museu que era uma sala com coisas recolhidas.
Com a intimidade que fomos adquirindo ainda nos mostrou um sala onde se amontoavam caixotes e caixotes de peças recolhidas: potes, estatuetas, instrumentos de trabalho, aguardando a devida exposição.
“Não há dinheiro para pôr isto decente” disse o rapaz.
Poderia, sem qualquer problema, ter trazido comigo um pote de barro com 10 000 anos ou uma estatueta de pedra.
Não o fiz e ainda não sei se bem ou mal.
Vinca está quase abandonada e como com as nossas gravuras de Foz Coa, o importante, para quem tem o poder, não é o testemunho que está ali, o importante é o dinheiro que gera ou que não gera.
Pedja, trouxe-me de volta intrigado com esta minha mania.
Disse-lhe: “Vinca é muito mais importante do que eles nos disseram, Pedja, por exemplo, reparou que não vimos uma única arma?”.
Os olhos dele iluminaram-se e respondeu-me: “De facto é verdade!”.
Nem ele nem eu, vimos que ao contrário do que é vulgar em ruínas neolíticas não havia ali casas apalaçadas na colina, mas apenas uma povoação equalitária onde as pessoas se diferenciavam apenas pela decoração e a arte.
2009-09-25
Carta de Belgrado 10
Ficou engraçado o subtítulo, mostrando estas particularidades da língua portuguesa e de todas as línguas, suponho.
O “word” dizia-me que era erro, “palavra repetida”, mas o que é que o “word” sabe?
Tenho comido por aqui e por ali e tenho já a minha ideia.
Claro que como vivo no coração de Belgrado, na zona mais turística, não tenho a percepção do que será a autêntica comida Sérvia.
Nos primeiros dias, para me ambientar perguntei ao meu motorista (de táxi) onde me aconselhava a comer e ele retorquiu-me: “mas quer Italiano ou Sérvio?”. “Sérvio, é claro” disse-lhe eu.
Ele indicou-me o “Trag”, um bom restaurante, sem dúvida, mas a carta está cheia de pastas, lasanhas, nhoques, e pizas e depois uma secção de cozinha internacional, que está ali mas podia encontrá-la igual em Paris, Roma ou Lisboa. Por onde andará a cozinha Sérvia?
Ao fim de uns dias percebi o que ele queria dizer, trata-se de uma sopa de carne, com uma espécie de iogurte, pouco doce, que é boa, de facto, mas para mim, não excepcional.
No resto dos restaurantes o panorama é o mesmo mas sem a tal sopa.
Como é cozinha internacional não me pronuncio, tudo com muitos molhos, à base de queijos e ou cogumelos, também internacionais, vaca, porco e frango e muito raramente encontra-se peixe, Douradas e Linguado, para alem de Trutas e Carpas, sempre grelhados, com ou sem molhos e lulas que há sempre.
Os restaurantes são daquele tipo europeu, à luz de velas, onde não vemos bem o que comemos e para ler o menu e a conta nos vemos à rasca.
Viva Portugal que tem restaurantes bem iluminados, não será tão romântico mas como se diz no “Samba do Bexiga” "eu só vou lá para comer" e gosto de ver o que como.
Deixando a restauração, não posso deixar de referir que a Sérvia tem a melhor carne de porco do mundo.
Já o tinha reparado no Kosovo, porque aí para comer porco só comprando em talhos sérvios, e aqui confirmei, nas febras que comprei para fazer em casa, que maravilha de carne, que sabor perdido no tempo.
O facto é reconhecido aqui, quando aponto este facto, todos me vão dizendo que também notam quando vão ao estrangeiro que o porco não lhes sabe a porco.
O que é certo é que, ao que eles sabem, não têm nenhuma raça autóctone e atribuem o facto a não terem indústria de carne de porco, é tudo porcos rafeiros e de chiqueiro.
Fica o mistério, que a carne é a melhor do mundo, assino em baixo.
O vinho local e da Macedónia bebe-se bem e há em jarros e a preços acessíveis.
Depois há a bebida nacional, a “palinca” daqui, que aqui se chama “Rákia”, nem melhor nem pior do que a palinca, o medronho e outros destilados.
E é assim que vou comendo pelos restaurante da Sérvia.
2009-09-23
Carta de Belgrado 9
Quem seguiu o meu conselho e já leu “O Cálice e a Espada” de Rian Eisler, sabe do que estou a falar.
Vinca que aqui se pronuncia Vintcha, são umas ruínas do neolítico bem perto de Belgrado, e que contam a história do povo que aqui vivia feliz e em paz, há uns milhares de anos, antes da chegada dos homens dos cavalos e dos carros de guerra, chamados Arianos ou Indo-Europeus, que falavam sânscrito, escreveram os Veda, instituíram o iníquo sistema de castas indiano, espalharam o terror por onde passaram e impuseram o seu sistema que vigora no mundo até hoje.
Na Europa há apenas 3 ou 4 lugares como este, vestígios visíveis do paraíso perdido.
Quando tomei conhecimento de Vinca, estava eu de férias mas soube, no meu coração, que viria a Belgrado.
Hoje estou aqui, em Belgrado, no mapa que me deram estão lá previstas excursões a Vinca, é só uma pessoa inscrever-se.
Hoje fui a um posto de turismo para me inscrever numa visita a Vinca e tive a triste notícia que este programa terminou por falta de aderência do público, ninguém quer ir a Vinca!?
Eu hei-de ir, se não for acompanhado vou só mas eu vou.
2009-09-22
Carta de Belgrado 8
Domingo fui jantar com os meus amigos, pacificamente e ouvi dizer que a tal manifestação “gay” tinha sido cancelada pelo Governo Sérvio.
E os “gays”? Que iam sair de qualquer maneira?
Parece que na hora da verdade, faltou-lhes qualquer coisa no devido sítio.
A verdade é que foi tudo pacífico.
2009-09-20
Carta de Belgrado 7
Chegou-me a notícia por um motorista de táxi que me tem apoiado nas deslocações:
“Domingo não saia à rua, vai haver uma manifestação de “gays”, disse-me.
Depois vi as notícia na BBC world. Em Belgrado vai-se repetir a manifestação “gay” do ano passado, quando morreram 3 pessoas. O Governo está preocupado com medo que tudo se repita e proibiu a manifestação no centro de Belgrado. Os “gays” organizadores dizem que vão sair de qualquer maneira.
Logo vou jantar com um amigo no centro. Isto se me deixarem, é claro.
Depois direi qualquer coisa.
2009-09-18
Carta de Belgrado 6
A solução parece boa, para a generalidade das utilizações, ver os e-mails, passar em revista os jornais, uma ou outra consulta ao google, dá para um mês, como me dizem outros utilizadores.
O que me tem lixado a mim são os Gatos Fedorentos, estão a levar-me à ruína, para ver tudo são cerca de 300 Megabits cada dia e de 3 em 3 dias lá vou eu à compra de gigas.
Assim não dá e ainda dizem que vão ser mais 27 programas.
Mas também como é que eu passo aqui, neste país estranho, sem aquelas palermisses saudáveis a lembrarem-me a minha terra.
2009-09-16
Carta de Belgrado 5
Isto vem de Belgrado mas podia vir de casa.
Na minha revista aos jornais portugueses “on line”, deparo no Público com a seguinte notícia que transcrevo sic (com “copy” e “paste”)
A taxa de inflação na zona euro fixou-se, em Agosto, em -0,2 por cento, acima dos 0,7 por cento que tinham sido registados no mês de Julho, revelou o Eurostat. Portugal (-1,2 por cento) apresenta a segunda taxa mais baixa entre os parceiros europeus.
Será que alguém percebe esta notícia?
Usei todos os meus parcos recursos de português e dividi as orações.
“A taxa de inflação na zona euro fixou-se, em Agosto, em -0,2 por cento” (parei aqui porque vi uma virgula a seguir e concluí que a inflação em Portugal e em Agosto foi negativa de –0,2%)
Depois da vírgula segue uma frase espantosa: “acima dos 0,7 por cento que tinham sido registados no mês de Julho, revelou o Eurostat”
Como? Pergunto eu, como é que uma inflação negativa está acima de uma positiva?
Pensei, será talvez a virgula que foi posta a mais (eu próprio tenho muita dificuldade em dominar as vírgulas e, por isso mesmo, tenho muita tolerância para as falhas dos outros)
Mas assim significaria que a inflação em Agosto terá sido de 0,5% (0,7-0,2)
Finalmente para coroar vem a conclusão:
“Portugal (-1,2 por cento) apresenta a segunda taxa mais baixa entre os parceiros europeus”.
E donde terão vindo estes -1,2%?
Toda a tentativa de compreensão morreu aqui.
Mas reparei que havia 15 comentários que fui consultar curioso de ver a fúria insultuosa que costuma habitar estes comentários “on line” e pensei que ela era dirigida ao jornalista José Manuel Rosa, identificado como autor da notícia.
Tive um espanto maior, toda a gente parecia ter compreendido tudo muito bem e em vez de discutirem o português, discutiam economia e insultavam-se uns aos outros.
“É deflacção”
“não é nada sua besta ignorante”
“Bestas são vocês todos porque nem sabem o que é inflação negativa”
Isto não é textual, é um exagero meu sobre aquilo que li.
A minha conclusão foi apenas perguntar-me “mas o que é isto e onde é que eu estou.?
2009-09-14
Carta de Belgrado 4
O subtítulo que pus em cima é só válido para mim, deveria ser mais: “O Mundo como eu o vejo aqui” ou, talvez ainda melhor: “O Mundo como eu o posso ver daqui”
Os pesos e as prioridades mudam, “Sócrates vs Manuela F. Leite ou Louçã” chegam-me via SMS, e pela revista aos jornais “on line” e se tentar ir mais longe e ver mesmo os debates na internet tenho que pagar significativamente pela esquisitice, isso, no mundo não tem a mínima importância.
Dos jornais e canais daqui, não percebo nada, embora esses assuntos que não percebo, animem debates e conversas aqui e sejam os mais importantes para alguma da gente com que me cruzo na rua.
Para mim, as notícias vêm das omnipresentes CNN e BBC world e aí Sócrates e Portugal, praticamente não existem.
Nesse mundo, misteriosamente, os assuntos importantes são a desqualificação de Serena Williams, notícia constante desde ontem mas ainda no campo dos desportos houve um golo do Benfica aos Belenenses que mereceu imagens e referências elogiosas. Portugal ainda existe aqui. Força Benfica.
Na Política os assuntos são o Obama na sua cruzada heróica pelo serviço de saúde público onde iremos ver se “yes we can” ou “ No we can`nt” e a pobres que estão vestindo gravata, refiro-me à China, e ao Brazil.
Alguma coisa parece mudar, a China, bate o pé aos EUA, porque estão a pôr entraves à importação dos seus pneus (e a notícia é essa: agora a china também bate o pé). Força China.
Tive também o prazer de ouvir o Lula a falar orgulhosamente em português 5 segundos antes de lhe calarem a voz com um inglês em off, pelo menos o mundo viu que ele fala e na tradução ouviu o que ele disse, resumidamente a velha frase “os ricos que paguem a crise”. Força Brasil.
Também apanhei no zapping um episódio da novela “Clone”. Força Brasil outra vez.
E assim vai o mundo como eu o espreito daqui.
2009-09-12
Carta de Begrado 3
Eu vivo no centro, sem dúvida, no “Cais do Sodré” como disse, mas a animação maior fica entre o “Terreiro do Paço” e o “Rossio”, daqui a dois passos.
A animação é dada pelas ruas exclusivas para pedestres, as esplanadas, umas atrás das outras e o canto permanente de grupos informais ao estilo Kusturica.
A baixa de Lisboa devia ser assim e ouvir-se fado pelas ruas.
Não sei o que tem Lisboa que expulsou os seus habitantes e odeia esplanadas, não obstante ter um excelente clima para isso.
Eu já me vou entendendo por aqui mas tive um inimigo, o alfabeto cirílico.
Na Sérvia há dois alfabetos oficiais o latino que é usado pelo comércio moderno e na generalidade das legendas dos canais de tv cabo, e o cirílico que é obrigatório em documentos oficiais e permanece na toponímia da cidade, pelo menos da cidade velha e que eu tenho vindo a estudar para sobreviver.
O mapa de turista que tenho está em latino, as placas na rua estão em cirílico, e esse simples facto tem-me feito derivar pela cidade e percorrer quilómetros para avançar 100 metros.
Felizmente isso está a acabar.
Cada dia domino mais esses sinais que têm a vantagem de tirar às línguas eslavas, aquela sequência de consoantes, que as torna ilegíveis para nós.
Com as luzes de polaco que tenho, muito do sérvio torna-se minimamente compreensível para mim.
Dominando o cirílico avanço uns paços para o domínio deste ambiente estranho.
.
2009-09-09
Carta de Belgrado 2
Aqui vê-se a miséria, que não se via lá, pedintes aos montes, gente esgravatando os lixos para sobreviver, contudo é um mundo mais familiar para mim, os mesmos problemas os mesmos hábitos de vida.
Sinto um mundo Kusturicaneano.
O salário médio, dizem-me, ronda os 200€, a vida é mais barata do que em Portugal, muito mais barata nos géneros alimentícios em natureza mas ronda os mesmos preços na restauração e nos bares.
O que não têm aqui e existe entre os albaneses são os laços de solidariedade entre família alargada.
A moeda aqui é o Dinar, 98 Dinares, mais ou menos, fazem 1 €, As notas de 1000 Dinares, que são as que mais trago na carteira, são, grosso modo, notas de 10€.
A confusão vem daí para baixo, porque há notas de 500, de 100, de 50, de 20 e de 10, ou seja de um cêntimo, e ainda há moedas inferiores.
Eu costumo dar gorjetas generosas, que eles agradecem muito, ou seja, arredondo as contas, nos bares e restauração, aos 500 ou 100 Dinars (entre 5 e 1Euro).uma pequena despesa que me vai fazendo popular no bairro.
Quanto ao trabalho vai progredindo lentamente, por enquanto ainda estou a pousar.
É-me interessante ver a diferença de atitudes e comportamentos entre a gente da Delegação da UE e a do ministério, dois mundos que eu conheço e onde me movo com relativo à-vontade, mas fazem-me reflectir.
2009-09-07
Carta de Belgrado 1
O “check in” em Lisboa detectou 10kg de peso a mais na bagagem de porão, pudera são 41 dias no desconhecido, roupa quanto baste para o máximo de uma lavagem intermédia quando dominar o ambiente e vários livros para os tempos de solidão, tudo pesado davam 31Kg.
A graça custou 150€.
Depois o avião para Munique saiu com 45 minutos de atraso, o suficiente para após uma correria no aeroporto de Munique e mais controlo de passaportes fazer-me chegar, mesmo assim, com o “gate” para Belgrado já fechado.
No apoio a clientes do aeroporto disseram-me que tudo já estava previsto e que partiria 4h depois, e deram-me um “vaucher” para comer e/ou beber, no valor de 10€.
Cheguei a Belgrado perto das 21h e para cúmulo a minha mala não vinha, “veio mais cedo?” perguntei eu, “não, não chegou a sair de Lisboa” responderam-me, “agora só amanhã à tarde, levamo-la ao seu apartamento”.
Entretanto, quando liam a morada, esboçavam um sorriso, para mim preocupante, mas quando tentava indagar razão, respondiam-me sempre, “tudo bem, é no centro”.
Receoso, telefonei ao meu senhorio que me disse que me esperava à porta.
Cheguei de táxi e senhorio, nada, mais na porta estavam os nomes dos moradores de todos os andares.
Eu já tinha pago o aluguer adiantado, o ambiente, neste Domingo à noite era estranho, edifícios degradados, alguns bêbedos, mas também jovens de ambos os sexos passando.
Telefonei de novo ao senhorio que me disse que chegava em 3 m.
Chegou ao fim de 15m, com eu já desesperado, a ver-me a ter de ir para um hotel.
Mas tudo mudou, o apartamento não era aquele mas um outro ao lado, mostrou-mo, deu-me a chave e prometeu-me que no dia seguinte tinha internet.
À primeira vista, era minimamente aceitável.
Na manhã seguinte tinha prevista uma reunião na delegação da UE, o meu senhorio fez-me um contacto para um seu amigo taxista que ficou de me apanhar no dia seguinte e o dia terminou.
Só que, no quarto, apesar das cortinas havia muita luz e tive mais dificuldade em adormecer.
Hoje de manhã, vesti exactamente a mesma roupa, única que tinha, lá estava o amigo taxista à hora marcada, a reunião correu bem, e foram muito compreensivos para o meu problema da falta de bagagem e a minha relativa má apresentação, já é habitual perderem-se as malas, disseram-nos.
Passei a tarde a explorar o local e a ler alguns documentos.
Estou a viver no centro velho de Belgrado, assim como talvez no Cais do Sodré em Lisboa, mas à volta há tudo, pequenos supermercados, bares, restaurantes etc.
Abasteci-me do que precisava e finalmente chegou a minha mala e o meu senhorio cumpriu a palavra e apareceu para montar a internet.
Com a mala veio tudo o que me faltava e mais esperança para o resto da missão.
2009-09-03
O clima
Nos tempos de Salazar, por exemplo, o clima era pesado, havia muitas coisas que ninguém se atrevia a fazer e que todavia nenhuma lei proibia, era o medo que impunha auto-censura, o medo de represálias, por mais absurdas que fossem, de não progredir no emprego ou ser despedido, de chumbar no exame arbitrariamente, de ser mal classificado num concurso, de atrasar a vida em suma, o que geralmente nunca acontecia mas todos sabiam que podia sempre acontecer e, para alguns, acontecia mesmo.
No Governo de Sócrates vamos lentamente sentindo esse ar pesado.
Os primeiros sinais foram dados pela anedota do Prof Charrua e a reacção da Direcção Regional de Educação do Norte, depois vieram vários outros episódios, de que já me esqueci, e é assim, o clima gera-se com muitas pequenas coisas, coisas pequenas mas muitas, a generalidade nem chega à comunicação social, são vivências individuais e mesmo quando chegam á notoriedade, “os cães ladram mas a caravana passa.” e, a partir daí apenas o ar começa a ficar mais pesado e o céu escurece.
Ultimamente vamos vendo coisas estranhas:
A ex-famosa música dos Chutos que fazia perguntas ao Sr. Engenheiro nunca se ouve na rádio embora pareça que ninguém proibiu, ouvi mesmo dizer que foi a própria editora que não lhe deu a devida prioridade, não temos, de facto, ouvido a música, e o ar tem ficado mais pesado; depois já transpira que no caso “Freeport” Sócrates não tem nem sombra de pecadilho, o que se calhar até é verdade, mas foi tratado como sendo invisível, nem teve nada a ver com o caso e isso não é natural.
Mas gora veio esta suspensão insólita do telejornal das sextas da TVI, segundo dizem a pedido da Prisa (empresa espanhola) do capital portanto e isto é estranho, tanto mais que o tal telejornal era líder de audiências, dava dinheiro, faz pensar que a Prisa pensa que o que perde ao proibir o “telejornal travestido” será compensado pelo que poderá ganhar assim ou pelo menos evitar perdas maiores.
Neste caso os cães vão ladrar, até porque a Manuela Moura Guedes tem boca para isso, mas suspeito que a caravana vai passar na mesma.
O clima é que começa a ficar irrespirável.
2009-09-02
Logística
Tudo tem que ser previsto em detalhe, para imprevistos já bastam todos aquele que irei encontrar inevitavelmente.
Desde o alojamento até, sobretudo, às comunicações, tem que ser considerado.
Para me alojar aluguei já um apartamento. Sempre é mais privado e permite-me fumar, o que agora na generalidade dos hotéis é proibido ou é muito limitado e incomodativo. Para além disso, um apartamento é mais barato do que um hotel e vai-me fazer poupar algumas refeições que eu cozinhe.
Para comunicar, desta vez, tratei já de pedir o roaming mas os preços são incomportáveis, só permitem alguns SMS e comunicação por voz em situações de emergência.
Pelo que lia, pensava que isso já estava ultrapassado pelos deputados europeus, dado que é um problema que eles sentem e talvez esteja, de facto, para os países da UE mas a Sérvia ainda não é desses e os preços são insuportáveis.
Tenho que me basear na comunicação via Internet: Messenger, Skype e quejandos, mas a experiência também não foi fácil. Comprei câmara e microfone para o portátil, tenho feito ensaios, e até agora o único que se mostrou minimamente fácil e fiável parece ser o Skype.
E é com tudo isto, para além dos aspectos mais ligados à missão em si, que tenho ocupado os meus dias.
Parto no próximo Domingo, provavelmente só voltarei a este blogue já de lá.
2009-08-30
Rita sorriu-me
Vi-a pela primeira vez perto das suas primeiras 24h, e vi-a sorrir quando me viu.
O meu genro dizia-me: são esgares, trejeitos do rosto.
Uma pesquisa no google reforça a sua opinião, diz-me que, de facto, só ao fim de umas semanas é que o bebé sorri pela primeira vez.
Dois dias depois, quando dormia, aproximei dela o meu rosto e disse-lhe: “Rita, tu é que estás bem, que boa vida, nesse berço com todos a servirem-te”.
Rita abriu os olhos, olhou para mim e rasgou um sorriso de prazer.
Pode toda a sabedoria dizer-me o que quiser, são trejeitos involuntários, esgares, o que quiserem que seja.
Eu e a Rita sabemos: foi um sorriso.
Rita sorriu-me!
2009-08-29
O Google
Mas mesmo nesta luta pelo controlo, hás uns e outros.
O Google, para mim, é um dos outros.
É um agente do capital, por isso quer ter tudo, controlar tudo, mas tem ainda a sensibilidade humana, veste honestamente a capa do serviço público, conserva ainda a ideia do “déspota iluminado”.
Canta também o hino que diz: “Eu presto enormes serviços a milhões”, “Eu cá sou bom, sou muito bom”.
E no panorama actual, é mesmo.
Em termos de motores de busca, como o Google começou, foi uma pedrada no charco. Percebeu que o mundo era muito vasto, que havia muitas culturas e línguas, que os humanos não são máquinas e cometem erros.
Como motor de busca, desenvolveu um algoritmo, que batia todos os outros pela sua qualidade e eficácia.
Como a Internet, para quem vence aí, é um negócio de biliões, cresceu e é o google quem está hoje mais perto desse ideal, que é o “ser dono da Internet”.
Hoje tem a base de e-mails, mais acessível e funcional da net, continua com o motor de busca mais eficiente e mais utilizado, desenvolveu o google earth, com os seus vários apêndices, percebendo que debaixo de água também há a Terra, que as estrelas são nossos vizinhos e que no mundo há vários níveis, desde os continentes e oceanos até à minha casa e às pessoas que estão na minha rua.
É um trabalho notável e útil.
Nas coisas mais comezinhas também actua, também já é o dono deste espaço cibernético que abriga este meu blog.
A luta contra esta competência é enorme e chega-se ao ridículo, como este casal português que ficou muitíssimo incomodado por o google o ter mostrado na rua no “street view”. Levando-o ao ponto de ter pedido 200 000 Euros de indemnização para restabelecer a sua paz, embora, aparentemente, não tenha nenhum incómodo em pôr a sua imagem (extraída do google) na TVI, em hora de ponta.
Com a notícia falava-se de processos deste tipo que em todo o mundo correm e que envolvem milhões de indemnizações.
Como o Google já tem esses milhões até é capaz de pagar alguma coisa.
Para os felizardos contemplados gostaria mais que dirigissem a sua raiva contra as colheitas da sua imagem feitas por câmaras de vigilância que pululam e crescem por todo o lado.
Mas isto é apenas uma derivação sobre o Google.
Para mim o Google continua a ser um exemplo de “serviço público” na Internet.
Agora na sua barra a “google bar” que tenho no meu “browser” apareceu-me uma nova função, a de tradução e, quando pedi a tradução do meu blog para inglês, tive uma surpresa agradável: Estava longe da perfeição mas não me envergonhava, dava para um anglófono poder ter uma ideia razoável daquilo que escrevo.
Depois tentei ler blogs em línguas estranhas e lá me apareceu a tradução em várias línguas que eu pedisse, mesmo em português.
A minha admiração pelo Google cresceu, é um feito notabilíssimo e que abre muitas portas no mundo.
Asssim, sim.
2009-08-25
Como o Mundo pode ser simples
Nem poderia ser de outra maneira, porque é a complexidade que reina, complexidade que transcende todas as capacidades humanas.
Como alguém já disse, ainda que tivéssemos um cérebro 100 vezes mais potente do que o nosso, ainda assim não o compreenderíamos totalmente, porque não disporíamos de outro instrumento para além desse mesmo cérebro e só poderíamos compreender o mundo através dele.
Como Auguste Comte referia a propósito da introspecção nunca poderemos observar-nos a nós próprios a passear na rua espreitando de uma janela.
E assim não temos outro remédio senão reduzir o mundo à nossa dimensão, o mundo é sempre como o vemos.
O que podemos discutir são as simplificações que uns e outros fazem, algumas bem primárias e simplificadoras
Por hoje, porque o ouvi há momentos, gostaria de comentar a visão de Paulo Portas, no que respeita à sociedade.
Paulo Portas vê no mundo uma ordem ideal, que consiste em trabalhar, assim ganhar o seu sustento honesta, digna e alegremente, constituir família e criar filhos que reproduzam este mesmo modelo de vida.
Depois reconhece que nem todos respeitam este modelo e define a sua ideologia deste modo:
Para o bom cidadão (o do modelo) todas as ajudas e consideração, para os malandros (que não querem trabalhar, como refere) nenhuma ajuda nem compreensão e toda a repressão para os obrigar a conformar.
Para Paulo Portas só não trabalha quem não quer, o desemprego é uma mera falta de empenho e de esforço.
Quem não tem meios para sobreviver, não merece sobreviver. Vá trabalhar malandro!
Paulo Portas considera que o mundo dá as mesmas possibilidades a todos, só que uns as agarram e outros não, e para esses é bem feita que sofram para aprenderem.
Se repararem bem vêm que todas as suas propostas são inspiradas e perfeitamente coerentes com esta visão do mundo.
Era, de facto tão fácil se o mundo fosse assim.
Só se deveria questionar ao analisar, por exemplo porque Camões morreu de fome.
Não trabalhava de certo, era um malandro, genial mas malandro.
Ou talvez ache que foi apenas porque ele, Paulo Portas e a sua ideologia não estava no poder.
2009-08-22
Fiquei angustiado
Foi tão brilhante que se começa a duvidar do seu sexo. Deve ser homem pois claro.
Os pais estavam naturalmente escandalizados com a acusação, a mãe dizia mesmo “a minha filha sempre correu muito mas agora, como é preta, não querem admitir”.
Simulações de que se é doutro sexo, sempre se fizeram, para permitir qualquer objectivo, a história e os romances estão cheios de casos desses.
Já terá havido um Papa mulher, os travestis estão por aí todos os dias, hoje no Afeganistão é comum alguns homens trajarem Burka para não serem detectados pelos controlos mas são tudo casos que se esclarecem facilmente, desde que haja a suspeita ou a denúncia.
Isto pensava eu, quando o jornalista que comentava a reportagem sobre Smenya, nos explicou que a definição era complicadíssima e necessitava de um corpo de psicólogos, ginecólogos, biológos e outros ólogos.
Pensei, talvez, parece de facto que o que faz ser-se mulher ou homem, é um conjunto de anatomia, biologia e cultura.
Não sei se algum dia chegaremos a saber se Caster Smenya é mulher ou homem e a mesma questão se pode colocar a qualquer um de nós.
Daí a minha angústia.
Deixo pois um conselho aos meus leitores jovens que se apaixonem por alguém do outro sexo, não se esqueçam de exigir um certificado assinado por psicólogos, médicos, biólogos, atestando o sexo do parceiro e tenham sempre o vosso convosco pronto a apresentar, antes de embarcarem numa aventura.
E esta hem! como será que a sociedade tem sobrevivido a esta incerteza até aqui?
2009-08-21
Reflexão sobre a notícia do dia
A sombra na praia hoje custa muito dinheiro, é um bem escasso, o aluguer de toldos, os chapéus-de-sol privados que temos de carregar, as esplanadas cobertas, onde as há, tudo se paga, mas ali havia a falésia à borla, a civilização ainda não tinha encontrado uma forma de cobrar por estarmos ali.
Naturalmente estava muita gente estendida à sombra da falésia.
As falésias, como toda a natureza, estão em permanente transformação, em ciclos variáveis, alguns ultra rápidos, como os vírus, alguns rápidos como as estações do ano, outros ainda lentos e outros mais lentos ainda, de milénios ou mesmo de milhões de anos.
As falésias estão numa escala longa, nascem, vivem e morrem em períodos, de milénios.
Mas, um dia qualquer podem desmoronar-se, se a erosão natural as moldar contra as leis da física.
Na nossa vida curta, de alguns anos, nunca esperamos que esse dia surja num momento que nos afecta. Tal como não esperamos que nos saia o totoloto embora ele vá saindo para alguns.
Hoje caiu a falésia de Albufeira, com todo o ritual de feridos e mortos.
A minha reflexão deriva para imaginar uma situação em que em vez de humanos civilizados, se encontrava ali um bando de chimpanzés.
Não conheço nenhum estudo sobre o assunto mas pressinto que todos teriam fugido antes do grande evento, leriam na poeira, nas pequenas pedras caindo, nos ruídos singulares, que qualquer coisa de anormal se passava e o seu instinto diria para saírem dali.
Da minha varanda, no Inverno, noto os dias em que muitas pombas e rolas que vivem à volta da minha casa se abrigam, amontoadas, por baixo dum pequeno alpendre de um prédio vizinho, quando isso acontece é certo que vem borrasca, ainda que olhando para o céu me pareça, no momento, que não.
Mas o homem civilizado esqueceu e despreza esses sentidos que também tem, crê que a civilização vela por ele, a falésia torta vai continuar assim e alguma entidade competente já tomou certamente as devidas providências.
Neste contexto, parece que de facto já tinha tomado, já havia um letreiro a avisar o perigo de derrocada.
O homem civilizado não vê o letreiro porque há demasiados letreiros ou se vê pensa que é o negócio das sombras que pôs o letreiro para tirar o acesso a essa sombra que a natureza proporciona gratuitamente. Quando a derrocada começa, estranha, mas não reage, não vão chamá-lo maluco.
A atenção civilizada passa apenas para a “máquina civilizacional” que não funcionou, porque não funciona nunca quando estas coisas acontecem.
A pedra que caiu em cima da minha perna e a partiu só foi retirada 2 horas depois, falhou, foi tarde. O letreiro era talvez pequeno e desbotado, falhou, ninguém reparou nele. Os mortos ficam soterrados horas sem fim, falha também.
Vendo isto, eu, um dia em que me encontrar nesta situação, gostava de ser como os chimpanzés porque há momentos em que as qualidades de macaco superam as dos deuses.
Como exemplo vemos que naquele enorme tsunami que há anos assolou alguns países da Ásia, numa ilha de população indígena pouco civilizada onde todos os “média” previam que tivesse havido grandes tragédias, isso não aconteceu e todos sobreviveram.
Porquê?
Porque conheciam os sinais dos tsunamis e fugiram a tempo para as zonas altas.
Ali não havia televisão nem rádio para avisar, tinham apenas ouvido os avisos da natureza e esses não falham nunca.
2009-08-20
Episódios de férias
Enquanto descansava fui abordado por um velho estranho de aspecto humilde e negligente, fazendo-me esperar sempre o momento em que me pediria alguma coisa.
Não me pediu nada, apenas queria conversar.
Recitou-me alguns troços de poemas de Florbela Espanca, falou-me sobre o absurdo da vida, disse-me que era Judeu, como o seu nome sugeria embora nascido em Mértola.
Chamava-se Elias, apresentou-se-me como escritor bêbado e louco.
Ainda não o esqueci e no regresso voltei a parar no mesmo café com a esperança de o reencontrar.
Em vão.
Durante as férias na praia o que mais fiz foi ler:
Li, um clássico de muitos estudantes de ciências humanas “A apresentação do EU na vida de todos os dias” de Erving Goffman.
È um belo livro que não me ensinou nada de novo, mas deu-me aquele prazer de constatar que há autores conceituados que descobriram e sistematizaram noções e conceitos que eu fui descobrindo ao longo da vida.
Dizia-me como Shakespear que “The world is a stage”, Falava-me daquilo a que eu chamo máscaras e que todos temos de envergar.
E são tantas e tão diversas como Erving Goffman refere e tipifica.
Li também um interessantíssimo ensaio sobre “Geraldo sem Pavor” de Armando de Sousa Pereira.
Onde aprendi sobre essa espécie de “Rambo” do século XII.
Começou cativo e por mérito ou astúcia adquiriu a liberdade, sabendo tudo sobre a língua e cultura do inimigo.
Conquistou Évora aos Mouros para chegar às graças do Rei.
Por duas vezes conquistou e arrasou Beja mas a sua obceção era Badajoz, dedicou grande parte da sua vida a flagelar e a tentar conquistar Badajoz, insistentemente, persistentemente, obcecadamente.
Mas esse sonho nunca o alcançou.
Badajoz não podia ser da coroa portuguesa.
A memória turva e difusa dos seus feitos persiste ainda hoje após IX séculos.
Por último li um livro fundamental e estruturante: “O Cálice e a Espada” de Riane Eisler.
Tinha há muito referências sobre ele e indicações de que era um livro a ler, tenho em MP3 algumas conferências de Riane Eisler, que sempre me revelaram interesse.
Todavia o livro superou todas as expectativas, penso que é um livro fundamental para compreender a história e mesmo o mundo de hoje.
Mas não me atrevo a falar sobre ele, para não sugerir ideias retorcidas, apenas recomendo que o leiam.
De regresso a casa tive a, para mim, alegre notícia.
Em Belgrado, finalmente, decidiram que era eu o escolhido (ler o poste a baixo “Estou de Férias”).
Parto dentro de alguns dias e este Blogue irá ter assim algumas cartas de Belgrado.