2009-09-03

O clima

Não, não vou falar do clima de Belgrado, até porque ainda não parti mas também não é do sol e do calor que cá faz que quero falar agora. É do clima geral, do clima político-social, do ambiente que se instala nos países e ditam a forma de se viver em sociedade.
Nos tempos de Salazar, por exemplo, o clima era pesado, havia muitas coisas que ninguém se atrevia a fazer e que todavia nenhuma lei proibia, era o medo que impunha auto-censura, o medo de represálias, por mais absurdas que fossem, de não progredir no emprego ou ser despedido, de chumbar no exame arbitrariamente, de ser mal classificado num concurso, de atrasar a vida em suma, o que geralmente nunca acontecia mas todos sabiam que podia sempre acontecer e, para alguns, acontecia mesmo.
No Governo de Sócrates vamos lentamente sentindo esse ar pesado.
Os primeiros sinais foram dados pela anedota do Prof Charrua e a reacção da Direcção Regional de Educação do Norte, depois vieram vários outros episódios, de que já me esqueci, e é assim, o clima gera-se com muitas pequenas coisas, coisas pequenas mas muitas, a generalidade nem chega à comunicação social, são vivências individuais e mesmo quando chegam á notoriedade, “os cães ladram mas a caravana passa.” e, a partir daí apenas o ar começa a ficar mais pesado e o céu escurece.
Ultimamente vamos vendo coisas estranhas:
A ex-famosa música dos Chutos que fazia perguntas ao Sr. Engenheiro nunca se ouve na rádio embora pareça que ninguém proibiu, ouvi mesmo dizer que foi a própria editora que não lhe deu a devida prioridade, não temos, de facto, ouvido a música, e o ar tem ficado mais pesado; depois já transpira que no caso “Freeport” Sócrates não tem nem sombra de pecadilho, o que se calhar até é verdade, mas foi tratado como sendo invisível, nem teve nada a ver com o caso e isso não é natural.
Mas gora veio esta suspensão insólita do telejornal das sextas da TVI, segundo dizem a pedido da Prisa (empresa espanhola) do capital portanto e isto é estranho, tanto mais que o tal telejornal era líder de audiências, dava dinheiro, faz pensar que a Prisa pensa que o que perde ao proibir o “telejornal travestido” será compensado pelo que poderá ganhar assim ou pelo menos evitar perdas maiores.
Neste caso os cães vão ladrar, até porque a Manuela Moura Guedes tem boca para isso, mas suspeito que a caravana vai passar na mesma.
O clima é que começa a ficar irrespirável.

2009-09-02

Logística

Em Belgrado estarei a viver só durante 41 dias.
Tudo tem que ser previsto em detalhe, para imprevistos já bastam todos aquele que irei encontrar inevitavelmente.
Desde o alojamento até, sobretudo, às comunicações, tem que ser considerado.
Para me alojar aluguei já um apartamento. Sempre é mais privado e permite-me fumar, o que agora na generalidade dos hotéis é proibido ou é muito limitado e incomodativo. Para além disso, um apartamento é mais barato do que um hotel e vai-me fazer poupar algumas refeições que eu cozinhe.
Para comunicar, desta vez, tratei já de pedir o roaming mas os preços são incomportáveis, só permitem alguns SMS e comunicação por voz em situações de emergência.
Pelo que lia, pensava que isso já estava ultrapassado pelos deputados europeus, dado que é um problema que eles sentem e talvez esteja, de facto, para os países da UE mas a Sérvia ainda não é desses e os preços são insuportáveis.
Tenho que me basear na comunicação via Internet: Messenger, Skype e quejandos, mas a experiência também não foi fácil. Comprei câmara e microfone para o portátil, tenho feito ensaios, e até agora o único que se mostrou minimamente fácil e fiável parece ser o Skype.
E é com tudo isto, para além dos aspectos mais ligados à missão em si, que tenho ocupado os meus dias.
Parto no próximo Domingo, provavelmente só voltarei a este blogue já de lá.

2009-08-30

Rita sorriu-me

Rita é a minha nova neta nasceu há poucos dias, dizem-me que foi no passado dia 24.
Vi-a pela primeira vez perto das suas primeiras 24h, e vi-a sorrir quando me viu.
O meu genro dizia-me: são esgares, trejeitos do rosto.
Uma pesquisa no google reforça a sua opinião, diz-me que, de facto, só ao fim de umas semanas é que o bebé sorri pela primeira vez.
Dois dias depois, quando dormia, aproximei dela o meu rosto e disse-lhe: “Rita, tu é que estás bem, que boa vida, nesse berço com todos a servirem-te”.
Rita abriu os olhos, olhou para mim e rasgou um sorriso de prazer.
Pode toda a sabedoria dizer-me o que quiser, são trejeitos involuntários, esgares, o que quiserem que seja.
Eu e a Rita sabemos: foi um sorriso.
Rita sorriu-me!

2009-08-29

O Google

A Internet é, para mim, um espaço de liberdade único, que o Capital e o poder dos Estados toleram mal, dá-lhes muito jeito para algumas coisas, para saber dos outros, o que os outros pensam, dá-lhes ainda jeito para massificarem a sua mensagem e a sua moral, mas não a controlam totalmente ainda, é perigosa pelos bons “maus usos” que proporciona.
Mas mesmo nesta luta pelo controlo, hás uns e outros.
O Google, para mim, é um dos outros.
É um agente do capital, por isso quer ter tudo, controlar tudo, mas tem ainda a sensibilidade humana, veste honestamente a capa do serviço público, conserva ainda a ideia do “déspota iluminado”.
Canta também o hino que diz: “Eu presto enormes serviços a milhões”, “Eu cá sou bom, sou muito bom”.
E no panorama actual, é mesmo.
Em termos de motores de busca, como o Google começou, foi uma pedrada no charco. Percebeu que o mundo era muito vasto, que havia muitas culturas e línguas, que os humanos não são máquinas e cometem erros.
Como motor de busca, desenvolveu um algoritmo, que batia todos os outros pela sua qualidade e eficácia.
Como a Internet, para quem vence aí, é um negócio de biliões, cresceu e é o google quem está hoje mais perto desse ideal, que é o “ser dono da Internet”.
Hoje tem a base de e-mails, mais acessível e funcional da net, continua com o motor de busca mais eficiente e mais utilizado, desenvolveu o google earth, com os seus vários apêndices, percebendo que debaixo de água também há a Terra, que as estrelas são nossos vizinhos e que no mundo há vários níveis, desde os continentes e oceanos até à minha casa e às pessoas que estão na minha rua.
É um trabalho notável e útil.
Nas coisas mais comezinhas também actua, também já é o dono deste espaço cibernético que abriga este meu blog.
A luta contra esta competência é enorme e chega-se ao ridículo, como este casal português que ficou muitíssimo incomodado por o google o ter mostrado na rua no “street view”. Levando-o ao ponto de ter pedido 200 000 Euros de indemnização para restabelecer a sua paz, embora, aparentemente, não tenha nenhum incómodo em pôr a sua imagem (extraída do google) na TVI, em hora de ponta.
Com a notícia falava-se de processos deste tipo que em todo o mundo correm e que envolvem milhões de indemnizações.
Como o Google já tem esses milhões até é capaz de pagar alguma coisa.
Para os felizardos contemplados gostaria mais que dirigissem a sua raiva contra as colheitas da sua imagem feitas por câmaras de vigilância que pululam e crescem por todo o lado.
Mas isto é apenas uma derivação sobre o Google.
Para mim o Google continua a ser um exemplo de “serviço público” na Internet.
Agora na sua barra a “google bar” que tenho no meu “browser” apareceu-me uma nova função, a de tradução e, quando pedi a tradução do meu blog para inglês, tive uma surpresa agradável: Estava longe da perfeição mas não me envergonhava, dava para um anglófono poder ter uma ideia razoável daquilo que escrevo.
Depois tentei ler blogs em línguas estranhas e lá me apareceu a tradução em várias línguas que eu pedisse, mesmo em português.
A minha admiração pelo Google cresceu, é um feito notabilíssimo e que abre muitas portas no mundo.
Asssim, sim.

2009-08-25

Como o Mundo pode ser simples

Todas as ideologias se baseiam em simplificações do mundo.
Nem poderia ser de outra maneira, porque é a complexidade que reina, complexidade que transcende todas as capacidades humanas.
Como alguém já disse, ainda que tivéssemos um cérebro 100 vezes mais potente do que o nosso, ainda assim não o compreenderíamos totalmente, porque não disporíamos de outro instrumento para além desse mesmo cérebro e só poderíamos compreender o mundo através dele.
Como Auguste Comte referia a propósito da introspecção nunca poderemos observar-nos a nós próprios a passear na rua espreitando de uma janela.
E assim não temos outro remédio senão reduzir o mundo à nossa dimensão, o mundo é sempre como o vemos.
O que podemos discutir são as simplificações que uns e outros fazem, algumas bem primárias e simplificadoras
Por hoje, porque o ouvi há momentos, gostaria de comentar a visão de Paulo Portas, no que respeita à sociedade.
Paulo Portas vê no mundo uma ordem ideal, que consiste em trabalhar, assim ganhar o seu sustento honesta, digna e alegremente, constituir família e criar filhos que reproduzam este mesmo modelo de vida.
Depois reconhece que nem todos respeitam este modelo e define a sua ideologia deste modo:
Para o bom cidadão (o do modelo) todas as ajudas e consideração, para os malandros (que não querem trabalhar, como refere) nenhuma ajuda nem compreensão e toda a repressão para os obrigar a conformar.
Para Paulo Portas só não trabalha quem não quer, o desemprego é uma mera falta de empenho e de esforço.
Quem não tem meios para sobreviver, não merece sobreviver. Vá trabalhar malandro!
Paulo Portas considera que o mundo dá as mesmas possibilidades a todos, só que uns as agarram e outros não, e para esses é bem feita que sofram para aprenderem.
Se repararem bem vêm que todas as suas propostas são inspiradas e perfeitamente coerentes com esta visão do mundo.
Era, de facto tão fácil se o mundo fosse assim.
Só se deveria questionar ao analisar, por exemplo porque Camões morreu de fome.
Não trabalhava de certo, era um malandro, genial mas malandro.
Ou talvez ache que foi apenas porque ele, Paulo Portas e a sua ideologia não estava no poder.

2009-08-22

Fiquei angustiado

Hoje nas notícias entrevistaram os pais de Caster Smenya, de 18 anos que ganhou brilhantemente a prova de 800m senhoras no Campeonato do Mundo a decorrer em Berlim.
Foi tão brilhante que se começa a duvidar do seu sexo. Deve ser homem pois claro.
Os pais estavam naturalmente escandalizados com a acusação, a mãe dizia mesmo “a minha filha sempre correu muito mas agora, como é preta, não querem admitir”.
Simulações de que se é doutro sexo, sempre se fizeram, para permitir qualquer objectivo, a história e os romances estão cheios de casos desses.
Já terá havido um Papa mulher, os travestis estão por aí todos os dias, hoje no Afeganistão é comum alguns homens trajarem Burka para não serem detectados pelos controlos mas são tudo casos que se esclarecem facilmente, desde que haja a suspeita ou a denúncia.
Isto pensava eu, quando o jornalista que comentava a reportagem sobre Smenya, nos explicou que a definição era complicadíssima e necessitava de um corpo de psicólogos, ginecólogos, biológos e outros ólogos.
Pensei, talvez, parece de facto que o que faz ser-se mulher ou homem, é um conjunto de anatomia, biologia e cultura.
Não sei se algum dia chegaremos a saber se Caster Smenya é mulher ou homem e a mesma questão se pode colocar a qualquer um de nós.
Daí a minha angústia.
Deixo pois um conselho aos meus leitores jovens que se apaixonem por alguém do outro sexo, não se esqueçam de exigir um certificado assinado por psicólogos, médicos, biólogos, atestando o sexo do parceiro e tenham sempre o vosso convosco pronto a apresentar, antes de embarcarem numa aventura.
E esta hem! como será que a sociedade tem sobrevivido a esta incerteza até aqui?

2009-08-21

Reflexão sobre a notícia do dia

Na praia de Albufeira existia, talvez há milénios, uma falésia avançada sobre a praia, tipo torre de Pizza, que prestava um enorme serviço aos banhistas, proporcionava sombra. Bem de grande valor para quem está à torreira do sol.
A sombra na praia hoje custa muito dinheiro, é um bem escasso, o aluguer de toldos, os chapéus-de-sol privados que temos de carregar, as esplanadas cobertas, onde as há, tudo se paga, mas ali havia a falésia à borla, a civilização ainda não tinha encontrado uma forma de cobrar por estarmos ali.
Naturalmente estava muita gente estendida à sombra da falésia.
As falésias, como toda a natureza, estão em permanente transformação, em ciclos variáveis, alguns ultra rápidos, como os vírus, alguns rápidos como as estações do ano, outros ainda lentos e outros mais lentos ainda, de milénios ou mesmo de milhões de anos.
As falésias estão numa escala longa, nascem, vivem e morrem em períodos, de milénios.
Mas, um dia qualquer podem desmoronar-se, se a erosão natural as moldar contra as leis da física.
Na nossa vida curta, de alguns anos, nunca esperamos que esse dia surja num momento que nos afecta. Tal como não esperamos que nos saia o totoloto embora ele vá saindo para alguns.
Hoje caiu a falésia de Albufeira, com todo o ritual de feridos e mortos.
A minha reflexão deriva para imaginar uma situação em que em vez de humanos civilizados, se encontrava ali um bando de chimpanzés.
Não conheço nenhum estudo sobre o assunto mas pressinto que todos teriam fugido antes do grande evento, leriam na poeira, nas pequenas pedras caindo, nos ruídos singulares, que qualquer coisa de anormal se passava e o seu instinto diria para saírem dali.
Da minha varanda, no Inverno, noto os dias em que muitas pombas e rolas que vivem à volta da minha casa se abrigam, amontoadas, por baixo dum pequeno alpendre de um prédio vizinho, quando isso acontece é certo que vem borrasca, ainda que olhando para o céu me pareça, no momento, que não.
Mas o homem civilizado esqueceu e despreza esses sentidos que também tem, crê que a civilização vela por ele, a falésia torta vai continuar assim e alguma entidade competente já tomou certamente as devidas providências.
Neste contexto, parece que de facto já tinha tomado, já havia um letreiro a avisar o perigo de derrocada.
O homem civilizado não vê o letreiro porque há demasiados letreiros ou se vê pensa que é o negócio das sombras que pôs o letreiro para tirar o acesso a essa sombra que a natureza proporciona gratuitamente. Quando a derrocada começa, estranha, mas não reage, não vão chamá-lo maluco.
A atenção civilizada passa apenas para a “máquina civilizacional” que não funcionou, porque não funciona nunca quando estas coisas acontecem.
A pedra que caiu em cima da minha perna e a partiu só foi retirada 2 horas depois, falhou, foi tarde. O letreiro era talvez pequeno e desbotado, falhou, ninguém reparou nele. Os mortos ficam soterrados horas sem fim, falha também.
Vendo isto, eu, um dia em que me encontrar nesta situação, gostava de ser como os chimpanzés porque há momentos em que as qualidades de macaco superam as dos deuses.
Como exemplo vemos que naquele enorme tsunami que há anos assolou alguns países da Ásia, numa ilha de população indígena pouco civilizada onde todos os “média” previam que tivesse havido grandes tragédias, isso não aconteceu e todos sobreviveram.
Porquê?
Porque conheciam os sinais dos tsunamis e fugiram a tempo para as zonas altas.
Ali não havia televisão nem rádio para avisar, tinham apenas ouvido os avisos da natureza e esses não falham nunca.

2009-08-20

Episódios de férias

A caminho do Algarve parei em Mértola para uma pausa de café.
Enquanto descansava fui abordado por um velho estranho de aspecto humilde e negligente, fazendo-me esperar sempre o momento em que me pediria alguma coisa.
Não me pediu nada, apenas queria conversar.
Recitou-me alguns troços de poemas de Florbela Espanca, falou-me sobre o absurdo da vida, disse-me que era Judeu, como o seu nome sugeria embora nascido em Mértola.
Chamava-se Elias, apresentou-se-me como escritor bêbado e louco.
Ainda não o esqueci e no regresso voltei a parar no mesmo café com a esperança de o reencontrar.
Em vão.

Durante as férias na praia o que mais fiz foi ler:
Li, um clássico de muitos estudantes de ciências humanas “A apresentação do EU na vida de todos os dias” de Erving Goffman.
È um belo livro que não me ensinou nada de novo, mas deu-me aquele prazer de constatar que há autores conceituados que descobriram e sistematizaram noções e conceitos que eu fui descobrindo ao longo da vida.
Dizia-me como Shakespear que “The world is a stage”, Falava-me daquilo a que eu chamo máscaras e que todos temos de envergar.
E são tantas e tão diversas como Erving Goffman refere e tipifica.

Li também um interessantíssimo ensaio sobre “Geraldo sem Pavor” de Armando de Sousa Pereira.
Onde aprendi sobre essa espécie de “Rambo” do século XII.
Começou cativo e por mérito ou astúcia adquiriu a liberdade, sabendo tudo sobre a língua e cultura do inimigo.
Conquistou Évora aos Mouros para chegar às graças do Rei.
Por duas vezes conquistou e arrasou Beja mas a sua obceção era Badajoz, dedicou grande parte da sua vida a flagelar e a tentar conquistar Badajoz, insistentemente, persistentemente, obcecadamente.
Mas esse sonho nunca o alcançou.
Badajoz não podia ser da coroa portuguesa.
A memória turva e difusa dos seus feitos persiste ainda hoje após IX séculos.

Por último li um livro fundamental e estruturante: “O Cálice e a Espada” de Riane Eisler.
Tinha há muito referências sobre ele e indicações de que era um livro a ler, tenho em MP3 algumas conferências de Riane Eisler, que sempre me revelaram interesse.
Todavia o livro superou todas as expectativas, penso que é um livro fundamental para compreender a história e mesmo o mundo de hoje.
Mas não me atrevo a falar sobre ele, para não sugerir ideias retorcidas, apenas recomendo que o leiam.

De regresso a casa tive a, para mim, alegre notícia.
Em Belgrado, finalmente, decidiram que era eu o escolhido (ler o poste a baixo “Estou de Férias”).
Parto dentro de alguns dias e este Blogue irá ter assim algumas cartas de Belgrado.

2009-08-16

Woodstock

No debate que ouvi, ver post abaixo, António Macedo falava que aquele concerto era irrepetível pela qualidade dos músicos que intervieram.
Perguntava mesmo, “Como poderíamos organizar hoje um concerto de tal nível ?”.
Não é verdade, os grandes nomes do momento não estiveram lá. Os Beatles, os Doors, e mesmo Bob Dylan, que até vivia em Woodstock, não estiveram lá.
Como também alguém disse, nesse debate, qualquer dos muitos festivais de verão que hoje se fazem em Portugal, têm um nível idêntico, alguns nomes famosos e uma quantidade de outros que tentam se mostrar.
Nomes sonantes na altura estiveram Janis Jopling, Jimi Hendrix, Joan Baez , the Band e Ravi Shankar, depois estrelas ascendentes e ilustres desconhecidos como Joe Cocker, Crosby Still and Nash, Santana, Reachie Heavens, que são hoje famosos precisamente por terem lá estado.
E ainda outros, que mesmo tendo lá estado, pouca gente se lembra deles, não obstante a sua enorme qualidade, como Swami Satchidananda.
Isto tudo entre outros nas diversas categorias.
Seria talvez por ter sido um concerto ao ar livre?
Também não, naquele tempo havia outros festivais assim, com êxito moderado, como o de Monterrey em 1967 entre vários outros.
Não, não foi nenhum pormenor de organização que tornou aquele concerto memorável, pelo contrário, foi precisamente a desorganização o caos que transformaram aquele evento num ícon.
Parece que foram vendidos cerca de 184 000 bilhetes mas estiveram lá para cima de meio milhãode pessoas, à borla, entraram e pronto.
Cada um se safou como quis e pôde.
O mundo organizado, perdeu o controlo, não houve polícia a regular, a chatear e a fazer rusgas, todo o mundo esteve temporariamente livre.
Woodstock foi um TAZ (Temporary Autonomous Zone) Zona Autónoma Temporária, um ZAT em português.
Este conceito, que eu já tenho referido neste blogue, foi tipificado por Akim bay que o considera como a única via verdadeiramente revolucionária para nos libertarmos das amarras e do sufoco da civilização.
Infelizmente são sempre momentos efémeros vividos em maior ou menor escala.
Evidentemente o mundo não suporta os TAZ, tenta sempre incorporá-los, quando não os pode vencer, como está tentando fazer com Woodstock ou então destruí-los para fazer renascer a velha ordem.
Viva Woodstock livre!
O TAZ contaminou tudo e os próprios músicos se transcenderam e tiveram “performances” únicas.
O que se lá passou está, felizmente, documentado em filme, em registos sonoros e em muitos escritos, mas julgo que nada poderá transmitir exactamente o que terá sido aquela vivência ou as múltiplas vivências de cada um que lá esteve.
Podemos apenas imaginar.
Eu imagino a força daquela primeira actuação, na abertura no dia 15, onde o jovem Reachie Heavens, tremendo de nervos, como nos confessa hoje, entrando naquele palco e cantando uma adaptação de um velho Gospel, gritando na sua voz rouca: “freedom”, “liberdade”.
Imaginem-se então neste momento, entre aquele meio milhão de homens e mulheres belos e jovens e temporariamente livres, exorcizando, naquele momento o fantasma de então, que os esperava, a estúpida guerra do Vietname.
E isto foi apenas o começo de um paraíso que durou 3 dias.

2009-08-15

Cheguei!

Agora já me é mais fácil postar.
Tinha já planeado falar aqui dalguns factos significativos das minhas férias na praia, no Algarve, mas a minha viagem de regresso ocorreu hoje, acompanhando na rádio a efeméride desse festival memorável que decorreu em Woodstock, entre 15 e 17 de Agosto de 1969, tinha eu 20 anos.
Pelo que ouvi, a grande questão será: O que terá feito de Woodstock um acontecimento memorável, ainda hoje? E aventaram respostas erradas.
Na verdade eu, que não estive lá, sei muito bem a resposta mas só falarei disso amanhã ou depois.
Aguardem pois.

2009-08-07

Estou de férias

Que tal as férias?
É a expressão que os meus colegas ainda no activo costumam usar quando me vêem, no dia a dia sem as obrigações comuns que a vida activa exige.
No seu imaginário a reforma que ambicionam é, sobretudo, férias, não fazer nada, de “papo para o ar”, como se isso, por si só, fosse a felicidade.
Não é!
As minhas férias, como a de muitas pessoas em muitas situações, são apenas uma alteração da rotina, a adaptação a um espaço estranho, que se vai descobrindo e tentando moldar à nossa imagem.
A presença constante dos meus netos, ora gratificante e cheia de surpresas, ora perturbante e quase insuportável.
O uso do computador portátil, o toque das teclas, a mania irritante de me dobrar os aa que escrevo, a Internet intermitente e lenta, tudo isso são pequenas dificuldades que contrariam a minha escrita.
Entretanto, em Belgrado, alguma equipa de jovens muito activos debruçam-se sobre vários currículos, entre os quais o meu, para escolher a pessoa ideal para ajudar o Governo Sérvio a definir a estratégia para a implementação da abordagem LEADER para o desenvolvimento rural, naquele país.
É-me evidente que sou eu a pessoa indicada, só que eles não sabem disso, ainda.
Aguardo ansiosamente a decisão.
A pressa com que me pedem, como pediram alguns esclarecimentos adicionais, é só necessária para mim, eles ,como sempre, são lentos, lentíssimos nas suas decisões.
Iremos ver o resultado.
Iremos ver se este blogue irá ter ou não algumas cartas de Belgrado.
Entretanto vou continuando a viver e tentando gozar o melhor possível as minhas férias.

2009-07-28

A pena de morte é o que os espera

Na Sic, hoje deram a notícia de alguém, que tinha sido preso nos EUA.
Era um americano loirinho, mas muçulmano, e que tinha amigos tenebrosos, nada loirinhos, também presos.
Parece que o homem até tinha ido ao Kosovo com o intuito de colocar uma bomba (embora não o tivesse feito), que outra razão haverá para se ir dos EUA ao Kosovo?
E não ficou por aí, também já tinha ido à Jordânia.
Certamente pertencia à Alcaeda.
A notícia acabava dizendo que vai enfrentar a possibilidade de uma pena de morte.

Esta notícia só me fez lembrar esta velha canção de Tom Waits:

2009-07-26

Reflexão sobre a volta à França

Para o ciclismo a Volta a França é hoje a “grande prova”, a prova das provas, capaz de fabricar “heróis”.
Hoje acompanhei, pela TV, um pouco dessa prova.
Os comentadores, como a transmissão, não é nada mais do que ver bastantes homens sobre bicicletas, têm a missão de nos dar conteúdo, dar-nos contexto, explicar quem é este ou aquele corredor e o drama que vive e também transmitir dados constantes sobre a importância e a seriedade da prova, valorizando aquilo que vemos.
Hoje a conversa incidiu sobre as medidas anti “doping”.
A organização é quase perfeita na detecção do “doping”, ao contrário, claro, de Portugal, embora às vezes também não seja assim: Marco Chagas (antigo ciclista e actual comentador) referiu-nos que em Portugal foi controlado em qualquer evento de veteranos, apesar de já ter 52 anos. As coisas estão a melhorar.
Depois falaram de qualquer peça da bicicleta a que chamaram extensores e que Marco Chagas lamentava não ter tido no seu tempo, embora alguns já a tivessem.

Eu, imaginando-me técnico de ciclismo e querendo que a minha equipa ganhe.
Só pensaria em duas coisas:
Ou o ciclista tem de correr mais, ter mais força muscular e cansar-se menos e isso consegue-se com os chamados bons ciclistas mas também com treino e com produtos químicos que ajudam a isso, alguns chamados “doping”, ou também, a bicicleta tem que andar mais por cada pedalada e também há produtos que ajudam a isso, talvez chamados extensores e quejandos.
São estas descobertas tecnológicas ou biológicas que fazem a humanidade avançar e dominar os problemas que se lhe colocam.

Os problemas que surgem é que a prova deixa de ter a ver com o ciclismo mas com o desenvolvimento tecnológico e com a eficácia de controlo.

Alguns ganharam provas apenas porque o seu método de “doping” ainda não era conhecido pelo controlo ou, de qualquer forma, conseguiram ultrapassar esse controlo.

Por isso eu penso que se queremos avaliar capacidade de homens, através do desporto, devemos seguir o exemplo da Grécia antiga e afastar toda a tecnologia.
Todos deveriam concorrer nus e descalços e mesmo assim não conseguiríam eliminar o “doping” de uma alimentação mais correcta para aquele fim.

Se queremos verificar o melhor em termos espectaculares, como é o caso de hoje, onde em causa estão homens mas também clubes e países e culturas, melhor seria deixar os homens e a sua cultura desenvolverem os “dopings” e a tecnologia que acham mais influente para a vitória.

O controlo “anti-doping” que quase todos acham fundamental, para mim, está a matar o desporto espectacular e a impedir o desenvolvimento científico.

2009-07-23

Você sabe o que é caviar?

É assim que começa uma interessante canção brasileira.
Sem entrar em mais detalhes, podemos dizer, com verdade, que são simplesmente ovas de esturjão.
O problema transfere-se para o de saber o que será um esturjão.
E a resposta que se ouve é que é um peixe nativo do mar Cáspio e rios que aí desaguam e que está em risco de extinção porque é demasiado pescado porque as suas ovas, o tal caviar, são apreciadíssimas e caríssimas.
É este o conhecimento que eu tinha até ontem quando vi uma reportagem na SIC sobre a pesca no Tejo, pesca essa também em extinção, e vi relatos de pessoas idosas e fotografias de um esturjão pescado no Tejo, em meados do século XX.
Pareceu-me que esse facto, por si mereceria uma reportagem bem elaborada.
Como será que um esturjão terá vindo do mar Cáspio até ao Tejo passear?
A minha imaginação criativa começou logo a conceber uma história:
Talvez um refugiado da segunda grande guerra, talvez judeu, tenha trazido daquelas bandas um ou uns quantos esturjões, lançando-os no Tejo para posterior exploração comercial.
Mas como se trariam assim esturjões?
Uma consulta ao google mostrou uma história bem mais simples e triste.
Desde a mais remota antiguidade até ao Século XIX sempre houve esturjões no Tejo, Douro, Mondego, Sado e Guadiana (onde ainda parece que ocasionalmente aparecem) e por todos os rios da Europa.
As barragens expulsaram-nos de todo o lado e, agora, só resistem no Mar Cáspio os últimos esturjões.
Esta história que mostra como com as barragens perdemos o que poderia ser um negócio de milhões, ou, mais do que isso, uma iguaria a que a nossa bolsa dificilmente permite chegar, recorda-me a polémica actual sobre a barragem do Sabor:
Esta prevista barragem, vai destruir o talvez único rio selvagem que corre na Europa, e, como alguém dizia, ganhamos alguns kilowats, mas nem sonhamos o que podemos perder.
Eu já chorava pelas ostras do Tejo (consideradas as melhores ostras do mundo) passo agora a chorar também pelos esturjões do Tejo.

2009-07-17

O que eu hoje mais queria era apanhar a gripe A, já

Nesta guerra, até agora, o vírus da gripe A está a levar a melhor.
Estamos num ponto em que, apesar do clima aqui estar muito desfavorável ao vírus, ele progride, em passos lentos, como os mais terríveis monstros do cinema.
102 casos em Portugal, para os 10 milhões que dizem que habitam aqui, é ainda muito pouco, mas sobe todos os dias uns pontos e “devagar se vai ao longe”.
A OMS, já disse que vai parar os seus relatórios sobre o número de novos contágios (perdeu já o controlo).
Portugal comprou já 3 000 000 de vacinas que ainda não existem, (talvez para Novembro ou Dezembro).
Com esta força, no tempo das vacas magras (para o vírus), quando o frio vier vai ser o caos.
Há quem preveja um terço da população portuguesa com gripe, talvez lá para Novembro.
Eu, não duvido, já vi este filme com a asiática, quando não tive nenhum amigo ou conhecido que não a tivesse apanhado embora agora os humanos tenham outros recursos.
O que penso é o seguinte, quando chegar a minha vez, se chegar, vai estar tudo à rasca, vacinas ainda não haverão ou se houverem não vão chegar para mim ou quando chegarem já é tarde porque eu já tenho a gripe.
Tendo a gripe vou querer “tamiflu” mas aí vai ser difícil porque toda a gente vai querer; ainda acabo por não o ter e ter de contar exclusivamente com o meu sistema imunológico para curar a gripe em 6 dias.
Se apanhasse a gripe HOJE já tudo seria diferente:
Aos primeiros sintomas, telefonava para o 808242424, seria bem atendido, faziam-me análise à borla e davam-me “tamiflu” a mim e a toda a família.
Ao fim de uma semana, estaria são como um pêro e, sobretudo, IMUNIZADO e protegido para o período da confusão, isto mesmo sem vacina nenhuma, “porque a natureza está muito bem feita”.
O problema é que não conheço ninguém com gripe para me chegar perto.

2009-07-15

Curiosidades

A fábrica de sapatos Investvar ou o maior grupo português de calçado, decidiu acabar ou foi corrida, para o caso é irrelevante, da ligação que detinha com a multinacional americana que gere a marca “aerosoles”.
Agora é exclusivamente portuguesa e para o provar vai lançar a nova marca muitíssimo portuguesa que é a “MoovON”.
Pelo nome vemos logo que agora vai ser tudo muito mais português.

2009-07-14

Parece que a ASAE é inconstitucional

Oxalá!

A ASAE é a Santa inquisição do século XXI.
Enquanto a Inquisição, espalhava o terror e cometia crimes contra a humanidade para salvar as nossas almas, a ASAE faz o mesmo para salvar os nossos corpos.
Uma e outra não salvam nada, só destroem e têm a tendência para eliminar o talento e o que de melhor há no nosso país.
O mundo globalizado, evidentemente tem os seus perigos e necessita controlo. Em cada frasquinho ou latinha que compro muitas podem e, algumas vezes têm, adjuvantes químicos e toda a espécie de venenos que matam aos milhares. Mas quando isso acontece a indústria diz “woops”, finge que chora pelos mortos que causou, dá-nos a suposta paz retirando todo o lote do mercado e continua o “business as usual” como se nada se tivesse passado.
A ASAE não quer saber disto o seu inimigo é o Sr. Zé e a D. Maria que usam os tomates da sua horta: vê, cheira, pede os papéis e arruína-lhes a vida, a deles e a nossa que gostamos dos tomates.
Morra a ASAE morra, Pim.
A Santa Inquisição tirou-nos Espinosa, Joseph de La Vega e tantos outros espíritos brilhantes que tiveram que ir brilhar para Amsterdão.
A Santa ASAE tira-nos a bola de Berlim nas praias e a ginginha que não têm para onde ir brilhar.
Morra a ASAE morra Pim.

2009-07-12

Chegou-me em e-mail por duas vias

È uma bela peça de humor.
Infelizmente ainda não sei a origem.

2009-07-10

A comunicação social não tem a noção de dose.

A noção de dose é fundamental, eu já tentei explicar isto aqui.
Reportagens que envolvam: “Cristiano Ronaldo”, Michael Jackson” ou o “pequeno Martim”, que continuam a servir-nos diariamente, são já insuportáveis.
São “overdose”.

2009-07-08

Uma aventura na estrada

Ou
“Como o capital encarnou e habita entre nós”

O meu carro, agora, é um Megane cheio de mariquices que eu gosto.
Acende os faróis sozinho quando ele acha que não se vê, fecha os vidros abertos, quando o abandonamos, como que dizendo “Estás a ver, que serias tu sem mim? Deixavas-me a saque!”.
Apesar de ter já uns anos e quase 100 000 Km de rodagem, é um carro já do “admirável mundo novo”.
Tem um computador de bordo que me avisa em português correcto, quanto gasóleo ainda tenho, quantos quilómetros posso ainda andar, que está na hora da revisão ou de mudar o óleo e também quando não se sente bem, embora aí seja parco em palavras.
Há poucos dias, quando entrava na ponte Vasco da Gama, vindo do Sul, o carro dá dois soluços súbitos e grita-me no computador: “STOP”.
Eu, encostei-me na margem e parei logo.
Pensei falar com ele, deixá-lo descansar um pouco e continuar para casa.
Mas ele, amuou, não me respondia, não me dizia nada, para alem de uma breve mensagem “problemas na injecção”.
O motor nunca mais trabalhou mas ele mantinha-se vivo, de luzes acesas que não se desligavam e surdo a todas as minhas ordens.
O que se seguiu foi a sociedade moderna, no seu melhor.
Ainda eu tentava chamá-lo à razão, já um reboque ao serviço da ponte (que certamente me tinha visto encostar, pelas múltiplas televisões que nos observam) se aproximava para me ajudar ou para desembaraçar o trânsito, talvez mais isto.
Sem gastar nada, logo deixei tudo arrumado, o carro a caminho da oficina e eu, de táxi, a caminho de casa.
A sociedade cumpriu o seu papel comigo, embora eu soubesse que o meu calvário individual estava apenas a começar.
E assim foi, no dia seguinte telefona-me o mecânico dizendo:
“Tem que cá vir rápido, o motor está todo partido, isto vai ser um bocado caro”.
Na minha cabeça, essas palavras: “partido” e "dinheirão”, associadas a "problema na injecção" ficaram a ressoar na minha cabeça, lembraram-me logo da praga dos gasolineiros, contra os combustíveis brancos: “Poupas na gasolina vais pagar muito mais no mecânico!”.
De facto, eu tenho alimentado o meu carro sempre a gasóleo de saldo. E sei que as ameaças que se ouvem não são mais que o jogo de diferentes tentáculos do polvo capitalista, tentando extorquir-me sempre mais: “Ou enches o meu ventre voraz, na bomba de gasolina ou no mecânico, mas vais enchê-lo sempre.
Mas é nesta luta entre os tentáculos do polvo que nós vamos sobrevivendo,
A verdade é que o gasóleo ou a gasolina “branca”, é legal, não pode estragar carros assim. E a experiência dos milhares que fazem como eu e estão pacientemente na “fila” (para os meus leitores do Brasil) ou na “bicha” (para os de Portugal) para poupar na gasolina não consta que estejam a “partir” motores com essa facilidade.
Foi então que me lembrei de uma vivência recente no campo do vídeo, os velhos aparelhos, pirateavam tudo mas os modernos já não porque os “tentáculos do polvo capitalista” se harmonizaram e têm “ordens de “software” para não permitir a cópia, nem ver os vídeos de outra região e todas essas invenções do capital para nos roubar.
Será que as “mariquices” do meu carro já teriam inclusas instruções para detectar a gasolina branca e “partir” o motor em conformidade?
Era muito verosímil.
Fiquei apreensivo e a delinear estratégia para não baixar os braços nesta luta.
Felizmente a minha ida ao mecânico sossegou-me neste domínio.
O mal foi de uma correia que, supostamente, tem que ser mudada de 90 000 em 90 000Km e que não tendo sido trocada, se partiu e, a partir daí, rapidamente seguiram-se os “pistons” e não sei que mais.
Porque não mudei então essa correia no devido tempo? Perguntará o leitor.
A resposta é simples: porque a porra do computador de bordo que é tão esperto para as coisas simples, nunca me avisou disto que era uma questão vital.
O capital ganha sempre mas, pelo menos vou continuar a usar gasóleo branco, que se lixa!.

2009-07-04

Análise semiológica do gesto do Ex. Ministro Pinho

O contexto é mais ou menos conhecido.
O resultado (demissão do Ministro) é sabido.
O gesto foi este:

Há 3 questões que me parecem fundamentais.
1. O que quereria o Sr. Ministro dizer?
2. Porque é que aquela forma de expressão se mostrou intolerável?
3. Porque escolheu Manuel Pinho aquele gesto?
Quanto à primeira questão poderemos aceitar as explicações do próprio ex-Ministro, (ninguém mente naquela situação, após um acto suicida) ele quis retaliar no mesmo grau, a ofensa e a humilhação que sentiu. Algo de que ele se orgulhava muito estava ali a ser desvalorizado e distorcido, qualquer argumentação era mal compreendida ou negada, portanto inútil.
Como expressar então esse facto? Manuel Pinho escolheu uma forma de acção: o gesto acima.
Quanto à segunda questão a resposta parece também clara, o gesto foi insólito, único, nunca utilizado naquele ambiente nem de forma mitigada.
Foi estranho, inopinado, portanto inaceitável.
A terceira questão porém é a que me parece mais difícil.
Manuel Pinho simbolizou cornos, que nos remetem para duas referência fundamentais:
A força, a tenacidade, a bravura de um touro ou a conotação moral da vítima de infidelidade sexual, o “corno” ou o “encornado”.
Há gestos de mãos que nos remetem para estes campos de significado.
Encolher todos os dedos com excepção do mínimo e do indicador remetendo o gesto para o terceiro tem um significado duplo e inequívoco.
Quere-se dizer: “com a bravura e a tenacidade de um touro eu digo-te, tu és um “corno” (fraco, humilhado, enganado, pouco viril), os dedos mostram os cornos, a mão investe para o adversário, dizendo-lhe “tu és isto”.
O singular, neste caso é que Manuel Pinho colocou os cornos simbólicos na sua própria cabeça, dizendo mais “cuidado que eu sou um touro” mas o contexto não permite esta interpretação, Pinho não queria dar notícia da sua força, queria ofender com a mesma ou maior profundidade do que a com que se sentia ofendido.
Entre o povo ouvi que todos perceberam que a mensagem era importante, embora o significado real tivesse várias interpretações, algumas negativas (Manuel pinho estava a ser toureado e a entregar-se ao deboche).
Este tipo de “linguagem” com múltiplas referências e múltiplas interpretações que gera nos observadores impressões as mais diversas, é típica da linguagem poética.
Manuel pinho, com aquele gesto fez um poema.
Segundo as últimas notícias Joe Berardo (amante das artes) gostou do poema e já convidou Pinho para Administrador da sua fundação.

2009-06-30

A voz do povo

Numa excelente reportagem sonora, que a TSF apresentou esta manhã, sobre pastores de cabras comunitários, pastoriadas em parceiradas, como explicavam, da zona de S. Pedro do Sul, dizia um velho pastor que não tinha televisão nem rádio “para quê?” perguntava.
“Então não sabe o que vai pelo mundo e quem nos governa” respondia o jornalista, “vou sabendo pelo que ouço os outros falar”, respondia o pastor, “mas os nomes ouço-os e logo esqueço”.
O jornalista, preocupado com tanto desinteresse procurou ensiná-lo: “Então, o Cavaco é o nosso Presidente e o Primeiro-Ministro é Sócrates”.
“Sócras? Já ouvi falar muito, dizem que governa muito mal!”
Foi esta a voz do povo. Há quem diga que é também a voz de Deus.

2009-06-28

Reflexões sobre uma elaboração caseira de croquetes.

Enquanto eu terminava a minha refeição, com o meu “cocktail” favorito de nicotina, cafeína e álcool, em metade da mesa (a outra metade era minha) a minha mulher e a minha sogra preparavam croquetes.
Croquetes, palavra estranha, que nos remete para o francês, indiciando que não será uma velha tradição gastronómica portuguesa, contudo, à pequena dimensão da minha vida de 60 anos, é uma palavra comum, bem conhecida, que ouço já desde a minha infância.
A minha mulher começou, inovando, fazendo pequenas bolas de carne, porque lhe dava mais jeito. Protestei: “isso não são croquetes, serão “uma espécie de almôndegas”, disse eu, pensando se almôndega seria o termo correcto, (almôndega, palavra, começada com “al” supostamente importada do árabe, há muitos mais anos do que o croquete).
E há tantas maneiras variadas e excelentes de fazer almôndegas, “meat balls” como lhe chamam os ingleses, mais “terra à terra”, que me questionei sobre a importância da forma sobre o valor do produto.
Será que uns croquetes esféricos me saberão diferente dos tradicionais rolinhos “toros”?
A especulação entrou por aí, a minha sogra, mais tradicionalista, apoiou-me, “croquetes são rolinhos!”.
E eu pensei “será?”.
Fiz um propósito: quando a função terminar vou fazer uma prova “cega” (o croquete é um produto muito civilizado, recorre à reciclagem de uma matéria prima, elaborada, mudada de forma, passada em farinha (e que farinha?), ovo e pão ralado e finalmente frita e em cada uma destas passagens quantas questões se colocam, quantos recipientes se utilizam, quantas manipulações intermédias, quantos factores determinam o que será um bom ou mau croquete).
Depois lembrei-me ainda: talvez que os sensores tácteis da minha boca, consigam distinguir a forma original e associar essa informação às minhas papilas gustativas que eu queria aí como únicos juízes.
Desisti da ideia e conclui com o que já sabia:
O mundo é muitíssimo complexo! Vou limitar-me a dizer, quando os comer: “ estavam bons! ou, estavam assim-assim ou uma “merda”! mas disto que Deus me livre.

2009-06-27

Uma questão de bom-senso

Hoje a final do campeonato nacional de futebol de juniores, final entre o Sporting e o Benfica realizava-se, onde?
No centro de formação do Sporting em Alcochete.
Eu que até sou sportinguista, hoje apetecia-me ser do Benfica e atirar pedras contra tamanha falta de bom-senso.
Pode ser um excelente campo, mas fazer aí uma final de campeonato entre os eternos rivais, mesmo no coração do leão, parece-me uma decisão disparatada e impensável.
Claro que o jogo nem chegou ao fim.

2009-06-26

A minha homenagem a Michael Jakson

Na verdade eu nunca gostei de Michael Jackson, ou melhor da sua música, mas quando o mundo se curva, temos que nos questionar se será que o mundo está errado e nós não?
De facto tenho de reconhecer que alguma qualidade, para mim oculta, deverá estar lá.
Temos paródias de qualidade e só as obras notáveis sugerem paródias, no sentido original da palavra: obras construídas sobre outras obras.
Deixo pois aqui uma paródia sobre a canção Billie Jean de Michael Jacson, paródia essa, para mim, bem mais interessante do que o original:

Trata-se da versão dos Lost Fingers, grupo canadiano do Quebec que um dia há-de morrer sem que ninguém se lembre deles.