2009-06-21

Esquerda e Direita

Como se sabe, em termos políticos, esta dicotomia nasceu com a revolução francesa, pela posição física que ocupavam nas assembleias daí nascidas, com os mais próximos do “ ancien régime”, à direita e os mais próximos da revolução, à esquerda.
Isto dá-nos uma ideia de direita conservadora e de esquerda revolucionária.
Com o sucesso das revoluções, sobretudo nos regimes inspirados no marxismo-leninismo, depois de instalados, esta dicotomia é abalada, aí eram os ditos de esquerda que eram os conservadores e os que queriam a mudança, a revolução, eram considerados de direita.
Hoje em dia a baralhação é tanta que os termos de esquerda e direita perderam quase totalmente o seu significado, ou pior têm muitos significados.
A política social europeia, tão apoiada pela esquerda, foi implementada, sobretudo por governos chamados de direita, o liberalismo que já foi uma bandeira da esquerda é hoje conotada à direita, sobretudo os neo-liberais que nos têm lixado a vida.
E assim quem é que sabe se será de esquerda ou de direita?
Poderemos ainda talvez dizer que a direita é pelo capital e a esquerda anti capitalista mas como Mário Tronti intuiu os partidos comunistas actuais, assim como os sindicatos (estruturas ditas de esquerda) são hoje meros instrumentos do capital, necessários à sua preservação moderna.
E aqui se toca na essência da dicotomia prevalente hoje em dia, e para a qual não temos ainda um nome incontroverso.
Por um lado há quem defenda as pessoas, na sua individualidade nas suas iniciativas, nas suas “mono manias”, e, por outro lado, há quem defenda uma sociedade moderna, eficiente, sem desemprego nem dor mas apenas com homens-máquina, cada um no seu papel, feliz e bem comportado, comendo apenas o que estiver escrito na lei no “codex alimentarius”, em construção, e vidrando os olhos na televisão que temos.
Uma sociedade tipo “admirável mundo novo” embora sem Bokanowskisação e sem “soma”.
Nesta dicotomia eu considero-me indiscutivelmente “selvagem”.

2009-06-16

Culturas

Enquanto os franceses não conseguem encontrar uma caixa que grita debaixo do oceano, desenhada para ser encontrada, apesar de usarem meios ditos capazes de ouvir sussurros a mais de 6000 metros de profundidade, os brasileiros, apenas com esforço e dedicação e tecnologia quanto baste, vão achando o que verdadeiramente interessa, corpos e destroços do avião.

2009-06-13

Homenagem ao DDT

O meu neto Pedro, como imensas crianças da sua geração, ultrapassou há dias um ataque de piolhos na cabeça.
Antes dele, noutra geração, a sua mãe e minha filha tinha vivido, em criança, como muitas crianças do seu tempo, o mesmo problema.
Todavia, ainda mais atrás, na minha infância, nunca contactei nem vi, nem ouvi falar de nenhuma criança com piolhos na cabeça,
Sabia que existia essa praga, ouvia histórias aos meus pais e avós sobre piolhos, que se combatiam então essencialmente com meios físicos e mezinhas caseiras, com lavagens e com o “pente fino” ou “pente dos piolhos” mas isso era passado, as crianças da minha geração, em Portugal, não tiveram piolhos, foram, como se diria agora mais ou menos “piolhos free”.
Hoje a minha filha Joana referiu-me que alguém sabedor explicava o facto chamando à minha geração a geração DDT.
É bem verdade, eu vivi a epopeia gloriosa do DDT.
O DDT foi um verdadeiro milagre da civilização, que sobretudo nos anos da II Guerra Mundial e seguintes, colocou a favor da humanidade, na sua eterna luta contra diversos insectos, uma arma de respeito.
O DDT permitiu eliminar a malária de vários países do mundo inclusive Portugal, onde antes era endémica.
Durante a guerra as cabeças dos soldados eram frequentemente polvilhadas com DDT para combater precisamente os piolhos e combateu-os deveras, na minha infância, como referi, os piolhos eram apenas uma história passada e triste.
Foi já como estudante da universidade que contactei com vozes anti-DDT, anti a droga milagreira.
Foi então que li o famosíssimo livro “Silent Spring” que a bióloga Rachel Carson publicou em 1962, lançando a primeira pedra do movimento “verde” mundial e onde se apontavam os danos do DDT e se referia que até no corpo de pinguins inóspitos se tinham encontrado vestígios de DDT.
Os problemas eram de duas ordens:
A acumulação permanente de um veneno.
A perturbação ecológica que causava esta alteração tão drástica de relação de forças.
O DDT matava insectos em pequenas doses mas não era bio-degradável e a tendência era para a sua acumulação permanente e, em doses maiores, os danos eram maiores e estaria a causar um desequilíbrio biológico perigosíssimo.
Na realidade o mundo ouviu Rachel Carson e o DDT foi proibido em todo o mundo, e a comunidade científica e de investigação percebeu a importância da lei de Lavoisier, que ao referir que na natureza tudo se transforma, não fazia apenas uma constatação de um facto mas estabelecia um dos princípios básicos da natureza, chave da sua sustentabilidade.
Teve assim, felizmente, uma vida curta o DDT, mas a humanidade pagou o preço de ter de sofrer outra vez a praga de piolhos e quejandos.
O saldo todavia, porque essa vida foi curta, está ainda a crédito dessa substância: o DDT salvou muito mais vidas humanas do que as que prejudicou.
Permitiu à humanidade aprender uma grande lição que todavia vai sendo, de novo, progressivamente esquecida.

2009-06-10

10 de Junho

10 de Junho

Dia da raça
Que não existe
Dia da traça
Que persiste
Dia de Camões
Que vendeu o olho por dois tostões
Mas que vale milhões
Dia das comunidades
De todas as idades
Dia de Portugal
O tal …

2009-06-08

Rescaldo das eleições europeias

O que tenho ouvido nos fora e na generalidade dos comentadores foi:

1. “A vitória do PSD deveu-se sobretudo a Manuela Ferreira Leite”

ERRADO: “…deveu-se sobretudo a Rangel”

2. “A derrota do PS deveu-se sobretudo a Vital Moreira”

ERRADO: “… deveu-se sobretudo a Sócrates”

Pelo menos é assim que eu vejo.

2009-06-06

Telma Monteiro

Mais uma vez a glória, agora uma medalha de ouro na Taça do Mundo de Judo a decorrer em Almada.
Eu, orgulho-me de, há cinco anos como escrevi aqui, ter detectado o seu valor, olhando para além das medalhas, vendo apenas a “fibra” daquela miúda que já então era visível para olhos que vêm, mesmo sem medalhas.

Parabéns Telma.

2009-06-05

Mistérios da língua

A designação desta nova área de actividade, que consiste em incorporar nos bens utilitários não só a funcionalidade mas também a estética, até tinha uma palavra em português, bem antiga e bonita, que é a palavra “risco”, no sentido em que se pode dizer que isto ou aquilo tem bom ou mau risco.
Mas a palavra está um pouco esquecida e em desuso e por isso temos recorrido, como em muitos outros casos, ao termo inglês “design”.
O problema surge quando adaptamos esta palavra para o português em Portugal, onde quase toda a gente a pronuncia, como se fosse “desaine” com “e” aberto, enquanto em inglês se pronuncia como se fosse “disaine”, com “i” inicial, portanto, aportuguesámos a palavra mas de maneira estranha.
Poderíamos dizer como se leria à portuguesa “designe” mas poderia confundir-se com o presente do conjuntivo do verbo designar.
Resultado, lê-se metade à portuguesa “de” e outra metade à inglesa, o “sign”.
Como o povo é que é dono da língua não tenho outro remédio senão aceitar mas intriga-me como na palavra “media” se dá exactamente o fenómeno oposto.
Sendo uma palavra não inglesa mas latina: media, plural de medium, deveria ser pronunciada como é lida com o e aberto mas aí imitam-se os de língua inglesa e o i que falta no “design”, coloca-se no “media” dizendo “mídia”.
As ilhas Malucas, que são assim chamadas em árabe, que as nomearam e em indonésio, onde se situam e em português também, são escritas Molucas, em Inglês para que um Inglês aproxime a leitura do termo original Malucas mas os portugueses preferem rejeitar o seu próprio nome e ler o inglês como “Mulucas”.
Eu acho bem que se vão buscar termos ao inglês quando a nossa língua não os tem mas haja um critério minimamente coerente na sua conversão ou então deixem-nas como são ditas no original.

2009-06-01

O avião da Air-France desaparecido sobre o Atlântico

O que me trás da memória.

Teorias baseadas num realismo mágico, muito em voga no final do século XX.

Triângulo das Bermudas, alterações no “campo temporal”, talvez promovidas por “Seres Superiores” alienígenas que são os verdadeiros pais do Universo.
O avião e seus passageiros, estão agora num qualquer “nirvana” que nós apenas podemos sonhar.

Ponto fraco: parece que o desaparecimento não foi no triângulo das Bermudas.

Teorias da conspiração, muito em voga agora.

Foi o grande capital que tinha um grande interesse num “passageiro oculto” que estava a estragar um enorme negócio de biliões, pulverizou o avião com um ou vários engenhos explosivos especiais e accionou o controlo dos media para desviar as atenções.

Ponto fraco: não temos qualquer sinal ou informação ou suspeita, ainda, sobre esses interesses ocultos.

Teoria “pseudo científica”, muito em voga sempre.

Foi o avião que passou uma área de grande turbulência e de tempestade, e se despenhou do céu, atingido por um raio que estragou o seu sistema eléctrico e de comunicações, em fragmentos indetectáveis ou tão pesados que mergulharam todos para as profundezas do oceano.

Ponto fraco: como é que num voo de rotina em que tudo e todos são diversamente identificados e verificados e pagaram bilhetes, não se sabe ou não se diz ainda quem é que ia nesse avião, nem se sabe se havia algum português embora alguns nomes o sugerissem mas que também poderiam ser brasileiros. E com tanta tecnologia de informação, não se sabe nada.

Na verdade o facto é que até agora, o avião desapareceu sem deixar rasto, e se deixou rasto, nós não sabemos.

Não sei qual será a teoria mais fantástica e, sobretudo, a mais verdadeira.

Em termos de crededibilidade e verosimilhança está tudo ao mesmo nível.

2009-05-31

Macacos deuses

Quando, há quase 6 anos iniciei este blogue, com este nome, não sabia ainda que era no quadro desta dicotomia que se desenvolve e se explica toda a humanidade.
Hoje, sei mais uma coisa, porém:
Não somos verdadeiros macacos deuses, somos apenas macacos que procuram essa divindade prometida e que pressentimos estar em nós, e que antevemos na nossa dimensão imaginária.
Curiosamente é na infância que estamos mais próximos dessa divindade, daí para diante vamo-nos tornado macacos, sempre mais macacos.

2009-05-29

Campanha

Este blogue apoia o Partido humanista.

Não os conheço de lado nenhum, nunca os tinha visto antes mas das 2 vezes que os ouvi nesta campanha concordei com tudo o que diziam da primeira à última palavra.
Facto notável!
Quanto aos outros, já sei tudo.
O PS tem Vital Moreira, pessoa muito responsável e educada, que respondeu sempre por e-mail aos comentários críticos que eu deixei no seu blogue, mas está indissoluvelmente colado a Sócrates, partilha com este uma imagem de um Portugal “moderno”, cheio de arranha-céus do Minho ao Algarve, com muita banda larga, e gente muito activa e inconstante, saltando do jogo do Benfica, para os prós e contras da TV e da visita ao museu Berardo, par o concerto da Rita Redshoes, passando pela FNAC, porque é tudo muito bonito e muito bom. Enfim, um modelo de país com o qual antipatizo.
O PSD, nem isso quer, não sabe o que quer, quer tudo e nada, desde que esteja no poder
O PC que quer um país certinho em que todos tenham pequeno-almoço e sopas, e tempo para discutir o “penalties” da vida, na tasca, frente a umas imperiais e tremoços. País com que também antipatizo.
O BE que ainda anda a ver o que é que é, porque ainda não sabe bem.
Os partido obscuros ditos de esquerda, que periodicamente saem dos seus túmulos, e tentam assustar-nos dizendo UUUUH….!
O PNR, dito de direita mas que não é mais do que um engano. È verdade, estás enganado pá, o mundo não está aí!
O da Laurinda, que ainda não sei o nome, e quer apenas um país muito bonzinho e ecológico, e tudo o mais que é preciso. Com o qual também não simpatizo.
Não sei se há mais, imagino que sim, como as bruxas, mas nunca os vi.

2009-05-26

Os meus comentários no blogues do programa Sociedade Civil

Já aqui tenho dito que A Sociedade Civil é, para mim, o programa mais intelectualmente estimulante da nossa TV.
Aqui deixo os comentários que deixei no blogue do programa:

Ontem, sobre “Os Provedores” que agora são moda e ficam bem, nos vários media:

"Os diversos Provedores, figura que a pós-modernidade criou para minorar a angústia de viver, desempenham o papel que era desempenhado, há pouco tempo, pelos Padres.
Os Padres tinham, pelo menos, o Divino sobre eles que lhes conferia poder.
Os Provedores de hoje, só têm o recurso de imitar aqueles.
Como eu ouvi um dia a um deles, o seu único poder é o de dizer:
“Vai em paz e que o Senhor te acompanhe”
Felizmente, por vezes, resulta."

Hoje, sobre disfunções sexuais, quando um ilustre médico falava de afrodisíacos e referia o “pau de Cabinda” como parecendo ter apenas efeito placebo:

“O efeito placebo
Todos o reconhecem (a comunidade científica), existe, não há dúvidas e resulta mas todos o desvalorizam (a comunidade cientifica) e varrem para um canto do sótão.
Como não o sei explicar, não se enquadra no paradigma, infere-se que portanto não existe também.
Não será o “efeito placebo”, que sugere a uma visão holística do homem, uma importantíssima área de investigação?”

Eleições Europeias

Aproxima-se a data das eleições para o Parlamento Europeu e a luta é enorme para que a abstenção não seja ainda maior do que tem sido, em toda a Europa e cá.
Mas a verdade é que as pessoas em geral vêm a função como uma mera concessão de “tachos” a alguns felizardos das listas e, na verdade, os partidos não desfazem bem essa ideia, como com o estranho caso de Elisa Ferreira que só lá vai para assinar o ponto e depois volta para se candidatar à Câmara do Porto.
Se isto não é brincar com coisas sérias, é porque a coisa não deve ser séria e será apenas brincar.
Na realidade, eu também não gosto deste sistema de partidos como única via para a democracia e o poder. O nome já diz tudo: “partidos”, “quebrados”, feitos de cacos mal colados.
São uma tosca representação dos eleitores dos quais só se lembram para lhes sacar o voto que os legitima.
Como insinua José Régio no seu Cântico Negro, não sei como poderia ser mas sei que assim não dá.
No debate diz-se que não se fala da Europa, porque para eles a Europa é Bruxelas e Estrasburgo enquanto que para nós a Europa é a nossa rua, é aqui que vivemos a Europa e na Europa, cada um nas suas ruas.
Depois vem aquele argumento, curioso e falacioso de que se não votarmos não podemos criticar.
Essa é boa!
Parece-me bem mais lógico dizer que quem vota é que não poderá criticar, pois colaborou no sistema e ao criticar critica-se.
Mas enfim, cada um faça como entenda que é assim que fará bem.

2009-05-22

Multiracialidade

O meu neto Pedro e seus amigos, mostrando como é simples.
“Yes we can”

Declara-se para que se saiba

1º que não apoiamos qualquer partido, grupo, directriz política ou ideologia e que na sua frente apenas nos resta tomar conhecimento: algumas vezes achar bom outras achar mau. Quanto à nossa própria doutrina, os outros hão-de falar.

2º que não simpatizando com qualquer organização policial ou militar achamo-las no entanto fruto e elemento exacto e necessário da sociedade – com quem não simpatizamos igualmente.

3º que sendo nós indivíduos livres de compromissos políticos permaneceremos em qualquer local com o mesmo à-vontade. Seremos nós os melhores cofres –fortes dos segredos do estado: ignoramo-los.

4º que sendo individualmente e portanto abjeccionalmente desligados das normas convencionais, temos o máximo regozijo em ver essas mesmas normas nos componentes da sociedade. Assim delas daremos por vezes testemunho e mesmo ensino.

5º que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.

6º que a crítica é a forma da nossa permanência.

Acreditamos que nestes seis pontos fundamentais vão os elementos necessários para que o Estado, os Governos, a Polícia e a Sociedade nos respeitem; nós há muito que nos limitamos neles e neles temos conhecido a maior liberdade. Não se tem do mesmo modo limitado o Estado, a Polícia e a Sociedade e muito menos o seu último reduto: a família. A eles permaneceremos fiéis pois todo o nosso próprio destino e não só parte dele a estes seis pontos andam ligados como homens, como artistas, como poetas e por paradoxo como membros desta sociedade.

António Maria Lisboa

Segundo Mário Cesariny, ele é o mais importante poeta surrealista português.

2009-05-19

Notícia de hoje na TV 1

“Com a crise, a taxa de natalidade nos EUA está a aumentar!”

Nas reportagens viam-se as respostas banais e esperadas nesta situação:
Nós, desempregados, não temos que fazer …, já não vamos ao cinema …, já não vamos jantar fora …, deixando nas reticências aquilo que todo o ouvinte compreendia:
“Fodemos mais!”.
Tudo isto como se fosse uma consequência plausível, como se não dominassem os métodos anticoncepcionais, como se a vida corrente limitasse as possibilidades de sexo.

Eu, ao ouvir o título da notícia, lembrei-me de um velho estudo sobre insectos de produtos armazenados que fiz no último ano da minha formação em Fitiatria.

Basicamente o estudo consistiu em vários frascos de insectos, em situações de fartura alimentar ou de stress variável, uns com mais e outros com menos comida ou nenhuma (comida, que é tudo o que os insectos precisam para sobreviver, tal como nós).
Os resultados foram expresssivos:
Nos frascos da fartura os insectos engordavam e reproduziam-se pouco.
Nos frascos intermédios de escassez, a reprodução aumentava imenso (era a resposta da espécie às condições: se temos menos probabilidade de sobrevivermos individualmente, multipliquemo-nos para que a espécie sobreviva).
Nos frascos de penúria, a resposta foi de intensa reprodução e simultaneamente de canibalismo (isto, em insectos, onde em situação normal nunca se observava esse fenómeno).

Este estudo, cujos resultados me surpreenderam na altura, veio agora à memória, com essa simples notícia.

Extraí uma conclusão:
Talvez a crise venha a contribuir para a resolução de um outro problema talvez mais grave:
A baixíssima e preocupante taxa de natalidade do mundo, dito, Ocidental.

2009-05-17

A caça ao tesouro

Já não tinha alheiras.
Retido em Lisboa, essa falta era difícil de colmatar.
Sim, eu poderia comprar em qualquer supermercado, alguns rolos de enchidos que respondem por esse nome, mas eu queria alheiras, as autênticas, as genuínas, que eu sabia que existiam.
O acaso proporcionou-me a ocasião.
Estava previsto, para ontem um encontro da Confraria de Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-montes, em Lisboa.
Mobilizei todos os recursos, pedi a uma confrade, que mas comprasse e trouxesse.
E assim foi.
No almoço da confraria, no restaurante Bica-do-Sapato, para vosso conhecimento, pertencente aos sócios: John Malchovit e a Catherine Deneuve, certamente entre outros, chegou-me a notícia: as alheiras pedidas lá estavam, na caixa de um carro a centenas de metros de distância.
O almoço em si foi banal, não mereceu os 60 €/pessoa que paguei mas lá estavam as alheiras, na caixa de um carro.
Fui buscá-las escoltado por um oficial da Força Aérea, transladei-as para a caixa do meu carro e aí permaneceram esquecidas de ontem para hoje, tantas foram as cargas que tivemos para subir, a pé, os 3 andares da minha casa.
Hoje, levantei-me tarde e as alheiras, vieram-me logo à memória.
Passaram a noite desacompanhadas mas confortavelmente com o fresco da noite mas agora de dia, já o sol raiava alto e batia na caixa do carro, as alheiras sofriam.
Depois do almoço montámos a operação:
Havia 3 missões a cumprir: despejar o lixo no contentor, beber uma bica e comprar cigarros, resgatar as alheiras do seu cativeiro.
Um problema porém:
Não me estava a apetecer, e beber outra bica logo a seguir ao almoço era demais, pensei, "vou esperar pela fresquinha".
Mas a segurança das alheiras com o sol a aquecer a caixa, davam-me um sentimento de mal-estar: coitadinhas das alheiras, não tinham culpa de nada.
Enchi-me de coragem e planeei a operação: levo o lixo, compro os cigarros sem tomar bica e resgato as alheiras, o tesouro.
E assim fiz, com alguns contratempos.
Com o lixo foi tudo bem mas não tomar bica no café do Sr. Martinho é quase impossível, ainda vou a metros de distância já o Sr. Martinho se chega à máquina para me dar o café.
É impossível recusar diante de tanta amabilidade e consideração.
Bebi pois mais uma bica e trouxe as alheiras.
Ao abrir o saco a minha mulher, referiu:
- Não são de Rebordelo, como eu tinha pedido, são da Topiteu!
O significado disto, só os iniciados em alheiras compreendem, significa:
“Podem ser jóias falsas!”.
Eu continuo a confiar na minha confrade (ou será comadre?).
No prato haveremos de ver se o tesouro é falso ou verdadeiro.

2009-05-14

Ctrl-Alt-Delete


Li ou ouvi algures que no muro da vergonha que Israel construiu e que, ainda ontem, o Papa condenou está escrita, como se vê na imagem, esta pequena frase: “Cntrl-Alt-Delete”
È uma poderosa forma de repúdio!
Quem lida com estas coisas dos computadores sabe bem o que aquilo significa e, sobretudo aqueles que têm idade para se lembrarem dos tempos pre-windows, dos tempos do DOS.
Era o último e desesperado recurso que o homem dispunha contra as irracionalidades da máquina, Cntrl-Alt-Delete e tudo ia abaixo para começar, de novo, com uma nova esperança.
Foi esse “statement” poético que o, talvez palestiniano, anónimo, quis imprimir no muro:
“É necessário deitar isto abaixo e começar de novo em novos moldes” Exactamente o que aquele muro precisa.

2009-05-09

O telejornal travestido

Hoje, por ser sexta-feira assisti ao “telejornal travestido” da TVI.
Afazeres diversos fizeram com que apenas visse o fim, não sei portanto se, como vem sendo habitual, falaram do Freeport mas vi que falaram de médicos.
A TVI descobriu uma coisa que já toda a gente sabe, que os laboratórios farmacêuticos oferecem viagens a médicos sob a fachada de participação em congressos.
Isto aliás é uma prática corrente no chamado “marketing industrial” e há histórias bem mais escabrosas do que a apresentada pela TVI, em todas as indústrias, até nas industrias noticiosas.
A Indústria farmacêutica então toca as raias das organizações mafiosas, basta ver ou ler “O fiel jardineiro”, para se perceber do que é capaz ou, mais evidente ainda, sabendo que foi capaz de esconder do mundo, durante dez anos, a simples cura das úlceras de estômago, para poder continuar a vender lucrativamente os seus remédios paliativos.
Mas confrangedor mesmo foi a falta de memória que os médicos visados apresentavam e, no fim, por nenhuma razão.
É apenas um conflito moral que se coloca, todos ou muitos de nós vivemos situações em que recebemos alguma benesse interesseira, talvez não tão agradável como uma viagem a Kuala Lumpur, mas ainda assim desejável e podemos perceber claramente as intenções por de trás.
Aceitar ou não é uma mera questão moral, e, como dizia Séneca, cada um é artesão da sua própria moral.
Não sou eu quem então atirará pedras.
Mas, curiosamente, as paixões de revolta que esta revelação despertará, só em muito poucos casos será guiada por considerações de ordem moral, o que irá alimentar as críticas será dominantemente e apenas a inveja.

2009-05-05

Portugal é um corredor de fundo

Esta “merda de país” tem essa grande glória, adapta-se, persiste, há quase 900 anos.
Hoje, neste momento, o mundo está para corredores de 100 m, todos são melhores do que nós. E nós aplaudimos da bancada, sabendo que eles vão passar mas também definhar, cair, enquanto nós continuaremos na bancada vendo-os passar.
Nesta corrida vamos mal, nem reparamos que outros, mais jovens, que ainda há pouco se ufanavam, de serem ágeis e irem “sempre” à frente, estão agora derreados e cedem ainda mais do que nós. Nós decrescemos 4, a Alemanha decresce 6, avaliado pelas mesmas fontes insuspeitas, mas para nós, tanto faz, não importa esta corrida, a nossa corrida é outra.
O nosso campeonato é outro, de facto, na Europa não temos par, apenas na Ásia, na China e na Índia, encontramos corredores ao nosso nível, de fundo.
È por isso que eu me rio quando ouço notícias como “Portugal está à beira da falência!” pois não tem sido este o estado permanente deste país.
No entanto cá continuamos, mal, como sempre.

2009-05-03

Afinal quando é que Portugal se incorporou na CEE?

Na minha memória o que consta é 1986, recordo na minha vida profissional no Ministério da Agricultura esse ano histórico de intensa adaptação à PAC que passaria a fundamentar toda a actuação do Ministério.
É esse ano fatídico que eu sempre refiro em todo o lado.
Qual não é o meu espanto quando vejo criticar um cartaz do PS, entretanto já corrigido, porque referia 1986 quando, segundo os media, toda a gente deveria saber que o ano correcto teria sido 1985.
Estaria eu assim errado numa coisa que afinal toda a gente sabia?
Fui pesquisar no google e não obstante algumas contradições que demonstram como deve ser difícil a investigação histórica, dado que tudo se passou há relativamente pouco tempo, a conclusão parece-me dificilmente discutível:
A cerimónia dos Jerónimos foi, ao que parece, a 12 de Junho de 1985 (há quem refira 11 de Junho) e a adesão formal foi a 1 de Janeiro de 1986.
1986 é pois o ano correcto, tal como eu pensava.
O cartaz do PS tinha pois razão no ano, o que errava era o mês mas não foi o mês que corrigiram, foi o ano, ficando agora duplamente errado, embora os media achem que agora é que está bem.
E esta hem?

2009-05-02

Still crazy after all this years

Refiro-me ao mundo, a avaliar por notícias de hoje da TVI.
Os piratas ontem presos por forças portuguesas da NATO, foram libertados, porque não temos legislação para os manter presos.
Esta notícia é recorrente de outras prisões feitas por outras forças, a minha pergunta é: “Se não os podem prender o que estão lá a fazer? deixem, ao menos os homens piratear em paz, por mais que roubem nem sequer chega a uma pequena percentagem do que têm roubado outros ladrões mais circunspectos.
2. O comércio justo e solidário, desde que anda dominado por algumas multinacionais ONG que descobriram este filão para se financiarem, está-me a parecer que é apenas mais do mesmo. O exemplo dado pela TVI mostrava um cesto supostamente trabalhado por umas velhas senhoras do Bangladesh, vendido aqui a 6 ou 7 euros (nem isso sabiam bem) e podíamos estar certos de que talvez uns 3 euros (também não sabiam bem) fossem chegar à senhora que o fez.
Eu não fiquei nada seguro e questiono-me mais uma vez: É a isto que chamam comércio justo e solidário? Peço mais explicações.
Havia outras notícias, eu, é que não tenho mais pachorra para as referir.
Para exemplo penso que serve.

2009-05-01

A importância da semântica

Ou a dificuldade de se lidar com o mundo global.

Esta gripe que nos está ameaçando, começou a ser chamada por “gripe suína” e ainda o vai sendo em muitos lugares.
Era suína porque teve origem em porcos e a lógica era indiscutível.
Mas coitados dos porcos e do negócio que está por trás deles, o perigo é que se deixasse de comer porco e até no Egipto, país maioritariamente islâmico, alguém se lembrou dos conselhos do profeta: Ele bem dizia que o porco era nocivo e agora a própria ciência o confirmava, pelo sim pelo não, matem-se todos os porcos que ainda se vão criando para os hereges.
Não podia então ser suína esta gripe.
Alguns, seguindo a velha tradição das gripes inflectem então para “gripe mexicana”, dada a sua origem, já não tinha havido a Espanhola, a Asiática, a de Hong Kong ?
Mas o México coitado, já não basta ter o azar de ser o foco inicial, perde o turismo, as pessoas ficam em casa sem produzirem, as crianças não vão à escola, já há quem preveja um significativo rombo no PIB. Será preciso o nome estar-nos a lembrar sempre que esta gripe é de lá?
A OMS ponderou tudo e decidiu: tem que ser um nome neutro, digamos “gripe A”.
E assim ficou decretado mas, primeiro, duvido que pegue um nome tão chalado, “gripe A” não tem jeito nenhum.
Depois A é a primeira letra do alfabeto latino, “gripe A” dá a ideia de primeira, de mais importante, aumentando o alarme. Não foi um nome feliz.
Eu, por mim, neutro por neutro, escolhia outro nome, talvez “gripe apito” “gripe XPTO”, “gripe Z”, ou porque não “gripe OMS”.
Enfim, isto da semântica tem muito que se lhe diga.

2009-04-29

Bom-nome na praça

Naquele tempo, o bom-nome na praça era uma virtude a prosseguir a todo o custo.
Qualquer comerciante, artesão, industrial, agente económico, tinha que conseguir ter bom-nome na praça ou a sua vida económica enveredava por caminhos ínvios de grande dificuldade e, mesmo assim só se mantivesse o bom-nome, não na praça, mas nesses caminhos ínvios.
Por terem perdido o bom-nome na praça, muitos agentes económicos preferiram acabar com a sua própria vida a assumir a sua desonra. Era uma questão de honra.
Naquele tempo, o bom-nome na praça era conseguido com uma vida de esforço e de coerência.
É claro que o nome de família ajudava ou complicava, filho de peixe sabe, ou deve saber nadar, o bom-nome tinha que ser cultivado mas podia também ser conquistado, contra as correntes hereditárias, era um esforço de uma vida.
Naquele tempo, vivia-se em circuitos curtos, a praça era um local.
Hoje, com a sociedade global o bom-nome é independente da vida. Como é que um desconhecido tem ou adquire bom-nome?
Como em tudo na modernidade vem de uma abstracção progressiva, procura-se o Deus-justiça, o Deus-media para atestar o que a nossa vida não produz, prejudicam-se ou eliminam-se os que vêm mácula em nós. Velamos pelo nosso bom-nome eliminando as críticas e os dissidentes.
O esforço já não é interior, é exterior. Reconheçam o meu bom-nome que eu continuo na mesma.
È daqui que nasce a febre persecutória de, por exemplo, o Sr. Engenheiro Sócrates.
Como sempre agora a solução é: eu não mudo, mude o mundo por mim.
Aparentemente é uma via mais difícil mas praticamente não é, basta chegar a quem fala mais alto.
É também por isso que vemos hoje apoucar o bom–nome dessa figura notável, da nossa história, a quem tanto devemos, que foi D. Nuno Álvares Pereira agora S. Nuno de Santa Maria.

2009-04-27

A guerra

Se há um aspecto que eu admire nesta civilização global é a eficácia demonstrada nesta guerra entre a humanidade e os vírus.
Desde a gripe asiática que vivi na minha infância, nunca mais o inimigo conseguiu uma operação de tal envergadura.
Ainda tentou com a gripe aviaria mas a humanidade reagiu como uma orquestra, até na minha rua houve operações de defesa.
Agora, o vírus aparece mais hábil com esta gripe suína.
Mas contra a enorme versatilidade e adaptabilidade do inimigo a humanidade já se mobilizou concertadamente, com máscaras, com tamiflu, com intensa investigação em milhares de laboratórios, com controlo aduaneiro, com a eficácia possível que, se não contiver o invasor, pelo menos lhe tirará muita força.
É pena que a mesma clarividência não seja utilizada no que pareceria mais simples:
Conter os inimigos internos. Vivermos melhor.

2009-04-25

25 de Abril

Na aproximação desta data os media têm, mais do que noutros anos, procurado estimular a reflexão sobre o significado desse dia de 1974.
Promoveram fora, debates, depoimentos e várias efemérides sobre o assunto.
Tudo isso fez-me pensar sobre o que significará, para mim, o 25 de Abril.
Uma coisa apenas me parece indiscutível: a liberdade.
É incomparavelmente maior agora e não é, de todo, uma questão de somenos importância, só por si justifica a revolução.
Mas algo me parece que se perdeu também, talvez algum bom-senso!