2009-05-29

Campanha

Este blogue apoia o Partido humanista.

Não os conheço de lado nenhum, nunca os tinha visto antes mas das 2 vezes que os ouvi nesta campanha concordei com tudo o que diziam da primeira à última palavra.
Facto notável!
Quanto aos outros, já sei tudo.
O PS tem Vital Moreira, pessoa muito responsável e educada, que respondeu sempre por e-mail aos comentários críticos que eu deixei no seu blogue, mas está indissoluvelmente colado a Sócrates, partilha com este uma imagem de um Portugal “moderno”, cheio de arranha-céus do Minho ao Algarve, com muita banda larga, e gente muito activa e inconstante, saltando do jogo do Benfica, para os prós e contras da TV e da visita ao museu Berardo, par o concerto da Rita Redshoes, passando pela FNAC, porque é tudo muito bonito e muito bom. Enfim, um modelo de país com o qual antipatizo.
O PSD, nem isso quer, não sabe o que quer, quer tudo e nada, desde que esteja no poder
O PC que quer um país certinho em que todos tenham pequeno-almoço e sopas, e tempo para discutir o “penalties” da vida, na tasca, frente a umas imperiais e tremoços. País com que também antipatizo.
O BE que ainda anda a ver o que é que é, porque ainda não sabe bem.
Os partido obscuros ditos de esquerda, que periodicamente saem dos seus túmulos, e tentam assustar-nos dizendo UUUUH….!
O PNR, dito de direita mas que não é mais do que um engano. È verdade, estás enganado pá, o mundo não está aí!
O da Laurinda, que ainda não sei o nome, e quer apenas um país muito bonzinho e ecológico, e tudo o mais que é preciso. Com o qual também não simpatizo.
Não sei se há mais, imagino que sim, como as bruxas, mas nunca os vi.

2009-05-26

Os meus comentários no blogues do programa Sociedade Civil

Já aqui tenho dito que A Sociedade Civil é, para mim, o programa mais intelectualmente estimulante da nossa TV.
Aqui deixo os comentários que deixei no blogue do programa:

Ontem, sobre “Os Provedores” que agora são moda e ficam bem, nos vários media:

"Os diversos Provedores, figura que a pós-modernidade criou para minorar a angústia de viver, desempenham o papel que era desempenhado, há pouco tempo, pelos Padres.
Os Padres tinham, pelo menos, o Divino sobre eles que lhes conferia poder.
Os Provedores de hoje, só têm o recurso de imitar aqueles.
Como eu ouvi um dia a um deles, o seu único poder é o de dizer:
“Vai em paz e que o Senhor te acompanhe”
Felizmente, por vezes, resulta."

Hoje, sobre disfunções sexuais, quando um ilustre médico falava de afrodisíacos e referia o “pau de Cabinda” como parecendo ter apenas efeito placebo:

“O efeito placebo
Todos o reconhecem (a comunidade científica), existe, não há dúvidas e resulta mas todos o desvalorizam (a comunidade cientifica) e varrem para um canto do sótão.
Como não o sei explicar, não se enquadra no paradigma, infere-se que portanto não existe também.
Não será o “efeito placebo”, que sugere a uma visão holística do homem, uma importantíssima área de investigação?”

Eleições Europeias

Aproxima-se a data das eleições para o Parlamento Europeu e a luta é enorme para que a abstenção não seja ainda maior do que tem sido, em toda a Europa e cá.
Mas a verdade é que as pessoas em geral vêm a função como uma mera concessão de “tachos” a alguns felizardos das listas e, na verdade, os partidos não desfazem bem essa ideia, como com o estranho caso de Elisa Ferreira que só lá vai para assinar o ponto e depois volta para se candidatar à Câmara do Porto.
Se isto não é brincar com coisas sérias, é porque a coisa não deve ser séria e será apenas brincar.
Na realidade, eu também não gosto deste sistema de partidos como única via para a democracia e o poder. O nome já diz tudo: “partidos”, “quebrados”, feitos de cacos mal colados.
São uma tosca representação dos eleitores dos quais só se lembram para lhes sacar o voto que os legitima.
Como insinua José Régio no seu Cântico Negro, não sei como poderia ser mas sei que assim não dá.
No debate diz-se que não se fala da Europa, porque para eles a Europa é Bruxelas e Estrasburgo enquanto que para nós a Europa é a nossa rua, é aqui que vivemos a Europa e na Europa, cada um nas suas ruas.
Depois vem aquele argumento, curioso e falacioso de que se não votarmos não podemos criticar.
Essa é boa!
Parece-me bem mais lógico dizer que quem vota é que não poderá criticar, pois colaborou no sistema e ao criticar critica-se.
Mas enfim, cada um faça como entenda que é assim que fará bem.

2009-05-22

Multiracialidade

O meu neto Pedro e seus amigos, mostrando como é simples.
“Yes we can”

Declara-se para que se saiba

1º que não apoiamos qualquer partido, grupo, directriz política ou ideologia e que na sua frente apenas nos resta tomar conhecimento: algumas vezes achar bom outras achar mau. Quanto à nossa própria doutrina, os outros hão-de falar.

2º que não simpatizando com qualquer organização policial ou militar achamo-las no entanto fruto e elemento exacto e necessário da sociedade – com quem não simpatizamos igualmente.

3º que sendo nós indivíduos livres de compromissos políticos permaneceremos em qualquer local com o mesmo à-vontade. Seremos nós os melhores cofres –fortes dos segredos do estado: ignoramo-los.

4º que sendo individualmente e portanto abjeccionalmente desligados das normas convencionais, temos o máximo regozijo em ver essas mesmas normas nos componentes da sociedade. Assim delas daremos por vezes testemunho e mesmo ensino.

5º que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.

6º que a crítica é a forma da nossa permanência.

Acreditamos que nestes seis pontos fundamentais vão os elementos necessários para que o Estado, os Governos, a Polícia e a Sociedade nos respeitem; nós há muito que nos limitamos neles e neles temos conhecido a maior liberdade. Não se tem do mesmo modo limitado o Estado, a Polícia e a Sociedade e muito menos o seu último reduto: a família. A eles permaneceremos fiéis pois todo o nosso próprio destino e não só parte dele a estes seis pontos andam ligados como homens, como artistas, como poetas e por paradoxo como membros desta sociedade.

António Maria Lisboa

Segundo Mário Cesariny, ele é o mais importante poeta surrealista português.

2009-05-19

Notícia de hoje na TV 1

“Com a crise, a taxa de natalidade nos EUA está a aumentar!”

Nas reportagens viam-se as respostas banais e esperadas nesta situação:
Nós, desempregados, não temos que fazer …, já não vamos ao cinema …, já não vamos jantar fora …, deixando nas reticências aquilo que todo o ouvinte compreendia:
“Fodemos mais!”.
Tudo isto como se fosse uma consequência plausível, como se não dominassem os métodos anticoncepcionais, como se a vida corrente limitasse as possibilidades de sexo.

Eu, ao ouvir o título da notícia, lembrei-me de um velho estudo sobre insectos de produtos armazenados que fiz no último ano da minha formação em Fitiatria.

Basicamente o estudo consistiu em vários frascos de insectos, em situações de fartura alimentar ou de stress variável, uns com mais e outros com menos comida ou nenhuma (comida, que é tudo o que os insectos precisam para sobreviver, tal como nós).
Os resultados foram expresssivos:
Nos frascos da fartura os insectos engordavam e reproduziam-se pouco.
Nos frascos intermédios de escassez, a reprodução aumentava imenso (era a resposta da espécie às condições: se temos menos probabilidade de sobrevivermos individualmente, multipliquemo-nos para que a espécie sobreviva).
Nos frascos de penúria, a resposta foi de intensa reprodução e simultaneamente de canibalismo (isto, em insectos, onde em situação normal nunca se observava esse fenómeno).

Este estudo, cujos resultados me surpreenderam na altura, veio agora à memória, com essa simples notícia.

Extraí uma conclusão:
Talvez a crise venha a contribuir para a resolução de um outro problema talvez mais grave:
A baixíssima e preocupante taxa de natalidade do mundo, dito, Ocidental.

2009-05-17

A caça ao tesouro

Já não tinha alheiras.
Retido em Lisboa, essa falta era difícil de colmatar.
Sim, eu poderia comprar em qualquer supermercado, alguns rolos de enchidos que respondem por esse nome, mas eu queria alheiras, as autênticas, as genuínas, que eu sabia que existiam.
O acaso proporcionou-me a ocasião.
Estava previsto, para ontem um encontro da Confraria de Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-montes, em Lisboa.
Mobilizei todos os recursos, pedi a uma confrade, que mas comprasse e trouxesse.
E assim foi.
No almoço da confraria, no restaurante Bica-do-Sapato, para vosso conhecimento, pertencente aos sócios: John Malchovit e a Catherine Deneuve, certamente entre outros, chegou-me a notícia: as alheiras pedidas lá estavam, na caixa de um carro a centenas de metros de distância.
O almoço em si foi banal, não mereceu os 60 €/pessoa que paguei mas lá estavam as alheiras, na caixa de um carro.
Fui buscá-las escoltado por um oficial da Força Aérea, transladei-as para a caixa do meu carro e aí permaneceram esquecidas de ontem para hoje, tantas foram as cargas que tivemos para subir, a pé, os 3 andares da minha casa.
Hoje, levantei-me tarde e as alheiras, vieram-me logo à memória.
Passaram a noite desacompanhadas mas confortavelmente com o fresco da noite mas agora de dia, já o sol raiava alto e batia na caixa do carro, as alheiras sofriam.
Depois do almoço montámos a operação:
Havia 3 missões a cumprir: despejar o lixo no contentor, beber uma bica e comprar cigarros, resgatar as alheiras do seu cativeiro.
Um problema porém:
Não me estava a apetecer, e beber outra bica logo a seguir ao almoço era demais, pensei, "vou esperar pela fresquinha".
Mas a segurança das alheiras com o sol a aquecer a caixa, davam-me um sentimento de mal-estar: coitadinhas das alheiras, não tinham culpa de nada.
Enchi-me de coragem e planeei a operação: levo o lixo, compro os cigarros sem tomar bica e resgato as alheiras, o tesouro.
E assim fiz, com alguns contratempos.
Com o lixo foi tudo bem mas não tomar bica no café do Sr. Martinho é quase impossível, ainda vou a metros de distância já o Sr. Martinho se chega à máquina para me dar o café.
É impossível recusar diante de tanta amabilidade e consideração.
Bebi pois mais uma bica e trouxe as alheiras.
Ao abrir o saco a minha mulher, referiu:
- Não são de Rebordelo, como eu tinha pedido, são da Topiteu!
O significado disto, só os iniciados em alheiras compreendem, significa:
“Podem ser jóias falsas!”.
Eu continuo a confiar na minha confrade (ou será comadre?).
No prato haveremos de ver se o tesouro é falso ou verdadeiro.

2009-05-14

Ctrl-Alt-Delete


Li ou ouvi algures que no muro da vergonha que Israel construiu e que, ainda ontem, o Papa condenou está escrita, como se vê na imagem, esta pequena frase: “Cntrl-Alt-Delete”
È uma poderosa forma de repúdio!
Quem lida com estas coisas dos computadores sabe bem o que aquilo significa e, sobretudo aqueles que têm idade para se lembrarem dos tempos pre-windows, dos tempos do DOS.
Era o último e desesperado recurso que o homem dispunha contra as irracionalidades da máquina, Cntrl-Alt-Delete e tudo ia abaixo para começar, de novo, com uma nova esperança.
Foi esse “statement” poético que o, talvez palestiniano, anónimo, quis imprimir no muro:
“É necessário deitar isto abaixo e começar de novo em novos moldes” Exactamente o que aquele muro precisa.

2009-05-09

O telejornal travestido

Hoje, por ser sexta-feira assisti ao “telejornal travestido” da TVI.
Afazeres diversos fizeram com que apenas visse o fim, não sei portanto se, como vem sendo habitual, falaram do Freeport mas vi que falaram de médicos.
A TVI descobriu uma coisa que já toda a gente sabe, que os laboratórios farmacêuticos oferecem viagens a médicos sob a fachada de participação em congressos.
Isto aliás é uma prática corrente no chamado “marketing industrial” e há histórias bem mais escabrosas do que a apresentada pela TVI, em todas as indústrias, até nas industrias noticiosas.
A Indústria farmacêutica então toca as raias das organizações mafiosas, basta ver ou ler “O fiel jardineiro”, para se perceber do que é capaz ou, mais evidente ainda, sabendo que foi capaz de esconder do mundo, durante dez anos, a simples cura das úlceras de estômago, para poder continuar a vender lucrativamente os seus remédios paliativos.
Mas confrangedor mesmo foi a falta de memória que os médicos visados apresentavam e, no fim, por nenhuma razão.
É apenas um conflito moral que se coloca, todos ou muitos de nós vivemos situações em que recebemos alguma benesse interesseira, talvez não tão agradável como uma viagem a Kuala Lumpur, mas ainda assim desejável e podemos perceber claramente as intenções por de trás.
Aceitar ou não é uma mera questão moral, e, como dizia Séneca, cada um é artesão da sua própria moral.
Não sou eu quem então atirará pedras.
Mas, curiosamente, as paixões de revolta que esta revelação despertará, só em muito poucos casos será guiada por considerações de ordem moral, o que irá alimentar as críticas será dominantemente e apenas a inveja.

2009-05-05

Portugal é um corredor de fundo

Esta “merda de país” tem essa grande glória, adapta-se, persiste, há quase 900 anos.
Hoje, neste momento, o mundo está para corredores de 100 m, todos são melhores do que nós. E nós aplaudimos da bancada, sabendo que eles vão passar mas também definhar, cair, enquanto nós continuaremos na bancada vendo-os passar.
Nesta corrida vamos mal, nem reparamos que outros, mais jovens, que ainda há pouco se ufanavam, de serem ágeis e irem “sempre” à frente, estão agora derreados e cedem ainda mais do que nós. Nós decrescemos 4, a Alemanha decresce 6, avaliado pelas mesmas fontes insuspeitas, mas para nós, tanto faz, não importa esta corrida, a nossa corrida é outra.
O nosso campeonato é outro, de facto, na Europa não temos par, apenas na Ásia, na China e na Índia, encontramos corredores ao nosso nível, de fundo.
È por isso que eu me rio quando ouço notícias como “Portugal está à beira da falência!” pois não tem sido este o estado permanente deste país.
No entanto cá continuamos, mal, como sempre.

2009-05-03

Afinal quando é que Portugal se incorporou na CEE?

Na minha memória o que consta é 1986, recordo na minha vida profissional no Ministério da Agricultura esse ano histórico de intensa adaptação à PAC que passaria a fundamentar toda a actuação do Ministério.
É esse ano fatídico que eu sempre refiro em todo o lado.
Qual não é o meu espanto quando vejo criticar um cartaz do PS, entretanto já corrigido, porque referia 1986 quando, segundo os media, toda a gente deveria saber que o ano correcto teria sido 1985.
Estaria eu assim errado numa coisa que afinal toda a gente sabia?
Fui pesquisar no google e não obstante algumas contradições que demonstram como deve ser difícil a investigação histórica, dado que tudo se passou há relativamente pouco tempo, a conclusão parece-me dificilmente discutível:
A cerimónia dos Jerónimos foi, ao que parece, a 12 de Junho de 1985 (há quem refira 11 de Junho) e a adesão formal foi a 1 de Janeiro de 1986.
1986 é pois o ano correcto, tal como eu pensava.
O cartaz do PS tinha pois razão no ano, o que errava era o mês mas não foi o mês que corrigiram, foi o ano, ficando agora duplamente errado, embora os media achem que agora é que está bem.
E esta hem?

2009-05-02

Still crazy after all this years

Refiro-me ao mundo, a avaliar por notícias de hoje da TVI.
Os piratas ontem presos por forças portuguesas da NATO, foram libertados, porque não temos legislação para os manter presos.
Esta notícia é recorrente de outras prisões feitas por outras forças, a minha pergunta é: “Se não os podem prender o que estão lá a fazer? deixem, ao menos os homens piratear em paz, por mais que roubem nem sequer chega a uma pequena percentagem do que têm roubado outros ladrões mais circunspectos.
2. O comércio justo e solidário, desde que anda dominado por algumas multinacionais ONG que descobriram este filão para se financiarem, está-me a parecer que é apenas mais do mesmo. O exemplo dado pela TVI mostrava um cesto supostamente trabalhado por umas velhas senhoras do Bangladesh, vendido aqui a 6 ou 7 euros (nem isso sabiam bem) e podíamos estar certos de que talvez uns 3 euros (também não sabiam bem) fossem chegar à senhora que o fez.
Eu não fiquei nada seguro e questiono-me mais uma vez: É a isto que chamam comércio justo e solidário? Peço mais explicações.
Havia outras notícias, eu, é que não tenho mais pachorra para as referir.
Para exemplo penso que serve.

2009-05-01

A importância da semântica

Ou a dificuldade de se lidar com o mundo global.

Esta gripe que nos está ameaçando, começou a ser chamada por “gripe suína” e ainda o vai sendo em muitos lugares.
Era suína porque teve origem em porcos e a lógica era indiscutível.
Mas coitados dos porcos e do negócio que está por trás deles, o perigo é que se deixasse de comer porco e até no Egipto, país maioritariamente islâmico, alguém se lembrou dos conselhos do profeta: Ele bem dizia que o porco era nocivo e agora a própria ciência o confirmava, pelo sim pelo não, matem-se todos os porcos que ainda se vão criando para os hereges.
Não podia então ser suína esta gripe.
Alguns, seguindo a velha tradição das gripes inflectem então para “gripe mexicana”, dada a sua origem, já não tinha havido a Espanhola, a Asiática, a de Hong Kong ?
Mas o México coitado, já não basta ter o azar de ser o foco inicial, perde o turismo, as pessoas ficam em casa sem produzirem, as crianças não vão à escola, já há quem preveja um significativo rombo no PIB. Será preciso o nome estar-nos a lembrar sempre que esta gripe é de lá?
A OMS ponderou tudo e decidiu: tem que ser um nome neutro, digamos “gripe A”.
E assim ficou decretado mas, primeiro, duvido que pegue um nome tão chalado, “gripe A” não tem jeito nenhum.
Depois A é a primeira letra do alfabeto latino, “gripe A” dá a ideia de primeira, de mais importante, aumentando o alarme. Não foi um nome feliz.
Eu, por mim, neutro por neutro, escolhia outro nome, talvez “gripe apito” “gripe XPTO”, “gripe Z”, ou porque não “gripe OMS”.
Enfim, isto da semântica tem muito que se lhe diga.

2009-04-29

Bom-nome na praça

Naquele tempo, o bom-nome na praça era uma virtude a prosseguir a todo o custo.
Qualquer comerciante, artesão, industrial, agente económico, tinha que conseguir ter bom-nome na praça ou a sua vida económica enveredava por caminhos ínvios de grande dificuldade e, mesmo assim só se mantivesse o bom-nome, não na praça, mas nesses caminhos ínvios.
Por terem perdido o bom-nome na praça, muitos agentes económicos preferiram acabar com a sua própria vida a assumir a sua desonra. Era uma questão de honra.
Naquele tempo, o bom-nome na praça era conseguido com uma vida de esforço e de coerência.
É claro que o nome de família ajudava ou complicava, filho de peixe sabe, ou deve saber nadar, o bom-nome tinha que ser cultivado mas podia também ser conquistado, contra as correntes hereditárias, era um esforço de uma vida.
Naquele tempo, vivia-se em circuitos curtos, a praça era um local.
Hoje, com a sociedade global o bom-nome é independente da vida. Como é que um desconhecido tem ou adquire bom-nome?
Como em tudo na modernidade vem de uma abstracção progressiva, procura-se o Deus-justiça, o Deus-media para atestar o que a nossa vida não produz, prejudicam-se ou eliminam-se os que vêm mácula em nós. Velamos pelo nosso bom-nome eliminando as críticas e os dissidentes.
O esforço já não é interior, é exterior. Reconheçam o meu bom-nome que eu continuo na mesma.
È daqui que nasce a febre persecutória de, por exemplo, o Sr. Engenheiro Sócrates.
Como sempre agora a solução é: eu não mudo, mude o mundo por mim.
Aparentemente é uma via mais difícil mas praticamente não é, basta chegar a quem fala mais alto.
É também por isso que vemos hoje apoucar o bom–nome dessa figura notável, da nossa história, a quem tanto devemos, que foi D. Nuno Álvares Pereira agora S. Nuno de Santa Maria.

2009-04-27

A guerra

Se há um aspecto que eu admire nesta civilização global é a eficácia demonstrada nesta guerra entre a humanidade e os vírus.
Desde a gripe asiática que vivi na minha infância, nunca mais o inimigo conseguiu uma operação de tal envergadura.
Ainda tentou com a gripe aviaria mas a humanidade reagiu como uma orquestra, até na minha rua houve operações de defesa.
Agora, o vírus aparece mais hábil com esta gripe suína.
Mas contra a enorme versatilidade e adaptabilidade do inimigo a humanidade já se mobilizou concertadamente, com máscaras, com tamiflu, com intensa investigação em milhares de laboratórios, com controlo aduaneiro, com a eficácia possível que, se não contiver o invasor, pelo menos lhe tirará muita força.
É pena que a mesma clarividência não seja utilizada no que pareceria mais simples:
Conter os inimigos internos. Vivermos melhor.

2009-04-25

25 de Abril

Na aproximação desta data os media têm, mais do que noutros anos, procurado estimular a reflexão sobre o significado desse dia de 1974.
Promoveram fora, debates, depoimentos e várias efemérides sobre o assunto.
Tudo isso fez-me pensar sobre o que significará, para mim, o 25 de Abril.
Uma coisa apenas me parece indiscutível: a liberdade.
É incomparavelmente maior agora e não é, de todo, uma questão de somenos importância, só por si justifica a revolução.
Mas algo me parece que se perdeu também, talvez algum bom-senso!

2009-04-17

O que é que Alberto Martins tem a ver com o homem do leme

Foi há 40 anos que Alberto Martins, como Presidente da Associação Académica de Coimbra, se ergueu do lugar passivo que lhe cabia numa visita do Estado fascista à Universidade de Coimbra e pediu a palavra, em nome dos estudantes que representava, ao Presidente da República Américo Tomás.
Um acto simples, insignificante, dirão agora os leitores mais jovens, mas não foi, foi um acto de enorme coragem em que Alberto Martins jogou para o ar todo o seu futuro, tendo consciência plena de que o fazia.
Naquele tempo era impensável.
Tentei encontrar um equivalente que pudesse ocorrer hoje mas não encontro, só quem viveu esse tempo sabe o que estou a dizer.
A palavra não foi dada a Alberto Martins, nem na sala se gerou mais nada para além da ruidosa reacção de solidariedade dos estudantes, feita sob a cobertura do anonimato e da multidão mas Alberto Martins ficou marcado ali e, nessa mesma noite, era preso e o seu futuro ficou condicionado.

Eu admiro mais estes actos de coragem serena do que muitos outros mais espectaculares e violentos e creio que é disto mesmo que fala Fernando Pessoa no seu famosíssimo poema “O Mostrengo”, é a coragem serena do homem do leme, tremendo de medo, consciente da sua debilidade mas que persiste cumprindo o seu dever, que mais nos emociona nesse poema.

Mas Fernando Pessoa fala melhor do que eu:

Mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou trez vezes,
Trez vezes rodou immundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-rei D. João Segundo!»

Trez vezes do leme as mãos ergueu,
Trez vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer trez vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quere o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D' El-rei D. João Segundo!»


Naquele dia de há 40 anos, quando Alberto Martins se levantou da cadeira, estou certo de que tremia também, tal como a sua voz traía.

2009-04-16

O regresso a casa

Já instalado e de regresso às velhas rotinas, recordo o único episódio notável dessa sequência de aviões e aeroportos.
Feito o “check in” em Pristina, enquanto aguardava calmamente o momento do embarque para Viena, ouço no altifalante qualquer coisa imperceptível que se referia ao passageiro, para Viena Mr. Iordao Nuno.
Era eu! Devia ser eu mas porquê?
Fui indagar junto de um funcionário da alfândega, que depois de ele próprio indagar, me veio esclarecer que a minha mala de porão teria que ser inspeccionada.
Que raios, é roupa suja, essencialmente, uns DVD pirata (mas isso só deveria preocupar a alfândega de Lisboa) e umas lembranças como um pequeno alaúde típico Albanês, cujo nome não sei, e um chapéu, também típico da Turquia e da Albânia e do Kosovo que muitos velhos trazem na cabeça e cujo o nome também não sei dizer.
Que suspeita teriam os homens?
Aguardei calmamente até que vejo chegar um funcionário com a minha mala que me pediu para o acompanhar a uma cabine.
Enquanto eu abria a mala o funcionário foi-me questionando: “O Sr. traz isqueiros?”.
Trazia, de facto trazia 25 isqueiros, tipo BIC, para dar aos amigos em Portugal.
Estes isqueiros que se vendem no Kosovo, além de bons, têm uma pequena lanterna, por vezes utilíssima e, o melhor de tudo, é que custam 20 cêntimos, cada um. Eu tinha comprado 5 Euros deles.
Roubaram-mos todos, disseram que era muito perigoso por causa do gás.
Tretas, só naquele avião deveriam seguir mais de 150 isqueiros em bolsos diversos.
Por fim, comiserados deram-me 5, dizendo: “pode levar estes”.
E assim foi.
Os meus amigos é que ficaram a “arder”, curiosamente por falta de isqueiros.

2009-04-13

Carta de Pristina – 9

Muito provavelmente também a última.
Pois é, regresso amanhã com o dever cumprido.
Como apreciação geral diria que foi assim como uma viagem ao passado, ver coisas que já vi mas que já não via à muito tempo.
Surpreendente mesmo, é a paz e o sossego que se vive neste que tem sido um palco de guerra.
O crime é raro e quase sempre não violento, o que há as vezes, ouve-se dizer, são furtos em residências.
O trânsito é caótico mas não assisti a uma única batida de carros, os acidentes são pouquíssimos.
E para mais parece que as cartas de condução são na esmagadora maioria administrativas. Como em tempo de guerra o pessoal foi aprendendo a guiar sozinho, como pôde, com a independência foram dadas licenças de condução a quem solicitou, para introduzir a legalidade, talvez por isso não há bem a noção de prioridade, é quem está mais a jeito é que passa primeiro, venha de onde vier ou mesmo a entrar numa rotunda.
Toda a gente espera tudo, talvez por isso não haja tantos acidentes.
Outro dia vi uma cena que horrorizaria alguém de um país mais “civilizado”: Três miúdos de uns 7 ou 8 anos brincavam na terra e um deles com uma enorme enxada com que cavava a terra, estavam felizes como as crianças a brincar costumam estar.
Tantas crianças que há, andam no carro aos pulos no banco de trás ou da frente.
Todavia, Pristina é uma Lisboa dos anos 50 e 60, mas com internet e TV do século XXI e com Euro sem se preocupar com o défice nem coisa nenhuma.
Creio que tudo vai mudar e mudar rápido, é para isso que a UE, sobretudo, está a investir muito. Foi para isso, aliás, que eu vim cá dar o meu minúsculo contributo.
Essa é que é essa, também vim cá modernizar o Kosovo ou, como dizia um velho Professor de Reading: “ajudar os ricos a ficarem mais ricos e os pobres a ficarem mais pobres!”

2009-04-09

Carta de Pristina –8

Hoje, talvez este título não esteja verdadeiramente apropriado, não foi em Pristina que passei o dia mas numa pequena aldeia rural, na área de Gilane, cujo o nome não retive com rigor.
Sendo um dia feriado no kosovo, dia da constituição, fui convidado para um almoço numa família rural.
Digo família mas deveria talvez dizer tribo ou grande família, de facto são unidades complexas de tios e primos, que vivem em casas individuais, por família, mas próximas uma das outras e onde há uma grande interacção e exploração agrícola, se não em comum, muito articulada.
O almoço foi numa casa de um deles, não na de quem me convidou, mas estavam todos os homens.
Como é preceito por ali, deixamos os sapatos à porta e entramos em meias, sobre tapetes e alcatifas que vêm já de fora. Felizmente tinha as meias apresentáveis.
A sala era simples, com um banco estufado ao longo de duas paredes à maneira árabe, para se comer recostado, embora hoje fossemos tantos que nem deu para todos nos sentarmos aí, alguns ficaram em almofadas no chão, o dono da casa, por exemplo.
A tradição árabe ou muçulmana impõe que seja um ou mais rapazes jovens que fazem todo os serviço, comandados no interior da sala pelos mais idosos com simples olhares e sinais e no exterior certamente pelas mulheres que permanecem escondidas para nós mas comandando tudo por trás dos bastidores.
Foi assim ali mas como os tempos estão mudando, também apareceu no fim uma jovem a ajudar.
Abriu com um aperitivo, não alcoólico, naturalmente, mas composto de um sumo de qualquer coisa e depois um café turco com um doce que serve para adoçar o café e comer-se impregnado do dito. Era bastante bom.
Depois levantámo-nos para lavar as mãos, e regressámos ao lugar onde já estava uma toalha sobre a mesa.
O almoço, comido à mão, como é costume, consistiu em flija (uma espécie de crepe ou empadão folhado, em folhas grossas, entremeando um recheio que me pareceu de carne).
A acompanhar um queijo tipo atabafado, e um prato de, o que me pareceu kefir ou quando muito um iogurte pouco doce e esse sim, era comido com colher.
Estava bom, bastante melhor do que piza, como tive a oportunidade de dizer.
A terminar outro café turco e, a prolongar-se pela tarde, alimentando a conversa, chá.
São momentos destes, que por vezes a minha área de actividade proporciona, que eu valorizo muito, não há dinheiro que compre uma oportunidade como esta, vedada aos turistas, ou se feita para estes, sem a mesma naturalidade e pureza.

2009-04-07

Carta de Pristina – 7

Curiosidades

Se o Kosovo fosse uma província portuguesa, chamar-se-ia provavelmente “Melraria”.
De facto o seu nome deriva de Kos, que significa melro em varias línguas eslavas como, por exemplo, no polaco, seguido do sufixo (ovo, owo, owa, owe) também muito eslavo que transmite uma noção de conjunto ou de atributo dominante.
Todavia o que eu vejo aqui como fortemente dominante não são os melros mas sim esse tipo mais pequeno de corvo que são as gralhas. Estão por todo o lado, parecem uma praga.
Para um leigo, todavia, uma gralha e um melro, sendo de géneros completamente diferentes, tem alguma semelhança fenologica, sao ambos negros e de estatura semelhante, seja como for, o nome da terra é “terra dos melros”.
Por outro lado, aqui, em albanes, amarelo diz-se “verdhe” (com um tremazinho no e) e o que se ouve é: verde.
Imaginem o meu espanto quando comecei a ver num jogo de futebol uma intensa distribuição de “carte verdhe”, cartões verdes, par os meus ouvidos mas que afinal eram amarelos.

2009-04-05

Carta de Pristina – 6

Segundo fim de semana.

Durante a passada semana de actividade, cá em casa, a televisão apagou-se, foi-se embora tudo, inclusive a BBC world e a CNN que eram as minhas companhias diárias.
Refilei com o senhorio que me disse que era geral e precisava de uma peça.
Não sei, mas suspeito que ele teria uma tomada pirata, que terá sido neutralizada.
O meu amigo Bernard continuava na mesma em sua casa, com todos os canais.
Passados 3 dias a tv reapareceu mas apenas com canais locais que desde aí têm sido a minha companhia.
Não percebo nada do que dizem, excepto quando dão telenovelas brasileiras e mexicanas, que dão muito, para alem dos filmes americanos e outras séries em inglês.
Em tudo, felizmente, só colocam legendas.
Quanto aos outros programas já os vi todos ou parecidos, são as mesmas merdas do “Big Broader” albanês o “Ponto de Encontro”, “ A miss Kosovo” e o “Festival da Canção” tudo igual, tudo bem homogeneizado, tudo comandadas pelas mesmas multinacionais. Ah, e também futebol, é claro, montes de futebol e de Cristiano Ronaldo.
Quanto às notícias , agora só há uma, a entrada da Albânia na Nato, não imaginam a festa que houve em Tirana, que eu vi e revi na tv..
Não tenho dúvidas que para a Albânia, para os albaneses, o estar na Nato, não tem nada a ver com o Portugal, os portugueses, estarem na Nato mas mesmo assim achei graça a este entusiasmo por nada.
Também fui a Mitrovica, à famosa ponte que divide albaneses e sérvios.
São 2 mundos, duas moedas, até os sérvios usam aí o alfabeto cirílico para chatear, dado que eles normalmente usam o alfabeto latino como nós.
Teve uma compensação, permitiu-me comprar umas febras de porco.

2009-04-03

Carta de Pristina – 5

A parte essencial da minha missão terminou hoje, resta ver, reflectir e escrever.
O projecto de desenvolvimento rural em que estou envolvido, teve ontem uma vitória notável, juntar á mesma mesa sérvios e albaneses, procurando um futuro melhor.
E não é nada fácil, as sementes do ódio, não foram estripadas, as feridas abertas ainda gotejam sangue.
A realidade parece ser a que a Sérvia perdeu a guerra, de facto. Não se pode procurar razão ou justiça num território desde sempre partilhado por vários povos, durante séculos ocupado e explorado pelo Império Otomano de que restam ainda minorias de origem turca para aumentar a confusão, e a subdivisão de uma minoria sérvia islâmica, os Gorani.
Os Balcãs sempre foram um caldeirão, de gente que vivia em paz, cada qual no seu canto, até que a modernidade, as comunicações, a noção moderna de nação, o pôs a ferver, em lutas pela hegemonia, onde a Sérvia levou a melhor até perder.
A desagregação, que até gerou uma palavra, a balcanização, parece-me a única resposta lógica e viável para o problema, mas como não se pode chegar a um país para cada tribo, haverá sempre gente incomodada.
A estabilidade, a chegar, só quando as novas gerações se homogeneizarem e esquecerem o seu passado.

2009-04-01

Carta de Pristina – 4

Hoje foi uma primeira prova de fogo, enfrentar um auditório de kozovares.
Felizmente correu tudo bastante bem mas fui muito ajudado por um reforço inesperado, a simpatia que a generalidade dos kosovares parecem ter pela tropa portuguesa:
“Os portugueses são como nós” disseram-me, “simpáticos, prestáveis e teimosos que nem burros”.
Será?
Deixou muita saudade um tal Capitão Sousa. Só lamentavam porque já não eram portugueses os que estavam agora na zona deles.
Por mim procurei não envergonhar o Capitão Sousa e estar altura.
Parece que consegui.
A tropa aqui vive na sombra, raramente saem das casernas e assim não incomodam ninguém, vão fazendo umas compras e são, para alem disso, um seguro de vida para aquela gente traumatizada e assustada.
Por eles, a tropa podia e devia lá ficar toda a vida