Passado o período de preparação técnica, vivo agora o da preparação logística.
Dentro de muito poucos dias, parto para essa nação que não é bem nação para esse país que não é bem país, onde o lixo enche as ruas, e a água e a luz avariam constantemente.
O Kosovo, um país com um ano de idade e que ainda gatinha.
Vou, contratado por um consórcio internacional, como “Senior Lag manager expert”, não queiram saber o que é isso porque nem eu sei bem.
As perspectivas são animadoras, estarei lá 20 dias, num apartamento que aluguei, com todo o conforto e acesso à Internet, isto é o esperado, a realidade logo verei e darei conta, se puder, aqui mesmo neste blogue.
Um dos aspectos que me parece mais interessante nesse país é o facto, único na Europa, de ter dois terços da população com menos de 30 anos e, por outro lado, ter uma enorme multiplicidade étnica, cultural e linguística.
Penso que vai ser interessante, logo direi o que vir e achar.
2009-03-24
2009-03-21
Hoje é claramente um dia especial
Fundamentalmente comemora-se hoje o equinócio de Março, um dos dois dias do ano em que as noites duram tanto como os dias.
Embora, este ano, com rigor científico esse dia tenha sido ontem.
Depois marca o início da Primavera, Estação do ano com algum significado nos ciclos biológicos de muitas espécies nas zonas mediterrânicas, e um grande significado cultural em todo o mundo que bebeu da nossa matriz cultural comum Greco-latina.
È também o dia mundial da árvore e da floresta, por decisão de homens apoiados nessa matriz cultural.
Mais recentemente foi declarado dia mundial da poesia, traduzindo a sua dimensão telúrica.
Como a matemática é a linguagem divina, a poesia é a linguagem da dimensão imaginária do homem, e ambas falam sobre as mesmas coisa o Cosmos, a Terra, a Vida e o Homem.
Para comemorar este dia notável deixo aqui um poema igualmente notável de Almada Negreiros
A FLOR
Pede-se a uma criança.
Desenhe uma flor!
Dá-se-lhe papel e lápis.
A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas.
Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas.
A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas.
Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
Almada Negreiros (1873-1970)
Embora, este ano, com rigor científico esse dia tenha sido ontem.
Depois marca o início da Primavera, Estação do ano com algum significado nos ciclos biológicos de muitas espécies nas zonas mediterrânicas, e um grande significado cultural em todo o mundo que bebeu da nossa matriz cultural comum Greco-latina.
È também o dia mundial da árvore e da floresta, por decisão de homens apoiados nessa matriz cultural.
Mais recentemente foi declarado dia mundial da poesia, traduzindo a sua dimensão telúrica.
Como a matemática é a linguagem divina, a poesia é a linguagem da dimensão imaginária do homem, e ambas falam sobre as mesmas coisa o Cosmos, a Terra, a Vida e o Homem.
Para comemorar este dia notável deixo aqui um poema igualmente notável de Almada Negreiros
A FLOR
Pede-se a uma criança.
Desenhe uma flor!
Dá-se-lhe papel e lápis.
A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas.
Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas.
A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas.
Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
Almada Negreiros (1873-1970)
2009-03-17
2009-03-16
O valor do dinheiro
Hoje, no programa “sociedade Civil”, de que eu já falei aqui bastas vezes, mostraram um projecto de formação de crianças de 4 e 5 anos, que alguma instituição está a implementar, procurando educar essas crianças sobre a gestão do dinheiro.
E lá estavam as crianças jogando uma espécie de monopólio, com euros falsos, para aprenderem o valor do dinheiro.
Eu considero este programa obsceno, não são coisas que se ensinem às crianças, tal como o sexo, elas irão aprender tudo isso, mal ou bem, ainda que não se faça nada, o valor do dinheiro entra-lhes pela cabeça até pelos desenhos animados do Panda, deixem as crianças viver esses primeiros anos de vida sem ter que enfrentar esse problema de adultos, nessa doce ilusão de que o dinheiro é algo que terão quando crescerem para satisfazer as suas vontades.
Fiz “zapping” nessa altura para não ver essa obscenidade, que todavia todos apoiavam, até porque ensinava matemática às criancinhas.
Enquanto estou em “zapping” vou-lhes contar uma história que se passou comigo e com o meu neto Pedro.
Vindo nós dois da praia para o carro, vimos uma bonita auto-caravana estacionada ao lado do meu carro, não resisti e disse ao meu neto.
- Sabes Pedro, isto é que eu gostava de ter mas é muito caro!
Ao que ele, nos seus 4 anos, logo retorquiu para me animar
- Deixa lá avô, quando eu ganhar dinheiro dou-te uma.
- Obrigado Pedro cá fico à espera.
Desde aí, de tempos a tempos eu ia questionando-o sobre essa promessa
- Então Pedro a minha auto-caravana, quando vem?
Pedro, que nunca se esqueceu do prometido, desculpava-se sempre, ainda não era o tempo.
Certo dia, como a minha insistência era muita, acabou por me dizer:
- Pois é avô, eu prometi, deixa lá que vou falar com o meu pai.
Aí assustei-me, não cria conflitos com o meu genro que não me prometeu nada e encerrei a questão dizendo:
- Não precisas Pedro, eu espero que tu ganhes o teu dinheiro.
E nunca mais lhe toquei no assunto.
Acabado este “zapping” voltei ao programa, estava já na fase, de explicarem que era preciso ensinar as crianças desde pequeninas porque nem a maioria dos adultos sabe gerir o seu dinheiro, e deram-nos conselhos úteis:
1. Quando se pede um empréstimo tem que se ter em conta, não só a nossa situação financeira no momento mas também a futura situação ao longo do período de pagamento, e diziam que os portugueses não têm isto em atenção.
Fiquei curioso, mas nunca chegaram a explicar, o que para mim, era o mais importante, como é que vamos saber essa situação financeira futura. Indo à bruxa? Consultando um analista financeiro reputado tipo Madock? Fazendo algumas rezas? Consultando uma bola de cristal? Enfim era o que eu mais queria saber e não me disseram.
2. Quando se faz um investimento tem que se ter em conta se ele é bom ou mau, isto é fundamental, porque os bons investimento até podem render muito mas os maus podem levar-nos à ruína, é verdade pensei eu, até conheço vários exemplos, mas nunca chegaram a dizer como é que à partida se distinguem os bons dos maus e isto é que eu queria aprender, será pelo cheiro? Pela cor?
Fiquei na mesma.
E lá estavam as crianças jogando uma espécie de monopólio, com euros falsos, para aprenderem o valor do dinheiro.
Eu considero este programa obsceno, não são coisas que se ensinem às crianças, tal como o sexo, elas irão aprender tudo isso, mal ou bem, ainda que não se faça nada, o valor do dinheiro entra-lhes pela cabeça até pelos desenhos animados do Panda, deixem as crianças viver esses primeiros anos de vida sem ter que enfrentar esse problema de adultos, nessa doce ilusão de que o dinheiro é algo que terão quando crescerem para satisfazer as suas vontades.
Fiz “zapping” nessa altura para não ver essa obscenidade, que todavia todos apoiavam, até porque ensinava matemática às criancinhas.
Enquanto estou em “zapping” vou-lhes contar uma história que se passou comigo e com o meu neto Pedro.
Vindo nós dois da praia para o carro, vimos uma bonita auto-caravana estacionada ao lado do meu carro, não resisti e disse ao meu neto.
- Sabes Pedro, isto é que eu gostava de ter mas é muito caro!
Ao que ele, nos seus 4 anos, logo retorquiu para me animar
- Deixa lá avô, quando eu ganhar dinheiro dou-te uma.
- Obrigado Pedro cá fico à espera.
Desde aí, de tempos a tempos eu ia questionando-o sobre essa promessa
- Então Pedro a minha auto-caravana, quando vem?
Pedro, que nunca se esqueceu do prometido, desculpava-se sempre, ainda não era o tempo.
Certo dia, como a minha insistência era muita, acabou por me dizer:
- Pois é avô, eu prometi, deixa lá que vou falar com o meu pai.
Aí assustei-me, não cria conflitos com o meu genro que não me prometeu nada e encerrei a questão dizendo:
- Não precisas Pedro, eu espero que tu ganhes o teu dinheiro.
E nunca mais lhe toquei no assunto.
Acabado este “zapping” voltei ao programa, estava já na fase, de explicarem que era preciso ensinar as crianças desde pequeninas porque nem a maioria dos adultos sabe gerir o seu dinheiro, e deram-nos conselhos úteis:
1. Quando se pede um empréstimo tem que se ter em conta, não só a nossa situação financeira no momento mas também a futura situação ao longo do período de pagamento, e diziam que os portugueses não têm isto em atenção.
Fiquei curioso, mas nunca chegaram a explicar, o que para mim, era o mais importante, como é que vamos saber essa situação financeira futura. Indo à bruxa? Consultando um analista financeiro reputado tipo Madock? Fazendo algumas rezas? Consultando uma bola de cristal? Enfim era o que eu mais queria saber e não me disseram.
2. Quando se faz um investimento tem que se ter em conta se ele é bom ou mau, isto é fundamental, porque os bons investimento até podem render muito mas os maus podem levar-nos à ruína, é verdade pensei eu, até conheço vários exemplos, mas nunca chegaram a dizer como é que à partida se distinguem os bons dos maus e isto é que eu queria aprender, será pelo cheiro? Pela cor?
Fiquei na mesma.
2009-03-15
O segredo dos poetas
Ou da poesia que consegue, em poucas palavras, dizer tudo. Mais do que a linguagem comum permite, porque o que dizem é não só com as palavras mas com toda a imaginação que elas despertam.
Há dois magníficos poemas que me dizem o que eu vou tentando dizer neste blogue, já ao longo de 851 mensagens e procurarei continuar a dizê-lo naquelas que hão de vir.
São eles:
De Miguel Torga
Depoimento
De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
e que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não, nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.
A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
e lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava, mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder…
Miguel Torga
Para mim, toda a força do poema está nos primeiros 4 versos que eu tomei a liberdade de realçar.
O outro é de Carlos Drumond de Andrade, também brilhante e que me diz quase o mesmo:
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drumond de Andrade
E é sobre estes gigantes que eu fiz o meu poema simples
O Muro
O muro de Torga é feito com a pedra de Drumond
Há dois magníficos poemas que me dizem o que eu vou tentando dizer neste blogue, já ao longo de 851 mensagens e procurarei continuar a dizê-lo naquelas que hão de vir.
São eles:
De Miguel Torga
Depoimento
De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
e que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não, nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.
A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
e lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava, mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder…
Miguel Torga
Para mim, toda a força do poema está nos primeiros 4 versos que eu tomei a liberdade de realçar.
O outro é de Carlos Drumond de Andrade, também brilhante e que me diz quase o mesmo:
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drumond de Andrade
E é sobre estes gigantes que eu fiz o meu poema simples
O Muro
O muro de Torga é feito com a pedra de Drumond
2009-03-14
Incoerências
Vasco Pulido Valente na sua análise política semanal na TVI, começou ontem a criticar o governo, pela “faustosa” recepção a José Eduardo dos Santos atendendo a que este senhor não lhe parece uma pessoa digna e recomendável mas logo a seguir critica as críticas de José Lelo a Manuel Alegre, porquê?
Porque José Lelo terá feito exactamente o que Vasco acabava de fazer, confundir os planos, pessoal e político e ter classificado Manuel alegre como pessoa sem caracter.
A regra é então obrigatória para José Lelo mas não válida para Vasco.
Eu partilho com Vasco Pulido Valente a péssima impressão sobre a honestidade e o carácter de Sr. José Eduardo dos Santos mas Portugal não recebeu com pompa o Sr. José Eduardo dos Santos, o que Portugal recebeu foi Angola na pessoa do seu Presidente.
Porque José Lelo terá feito exactamente o que Vasco acabava de fazer, confundir os planos, pessoal e político e ter classificado Manuel alegre como pessoa sem caracter.
A regra é então obrigatória para José Lelo mas não válida para Vasco.
Eu partilho com Vasco Pulido Valente a péssima impressão sobre a honestidade e o carácter de Sr. José Eduardo dos Santos mas Portugal não recebeu com pompa o Sr. José Eduardo dos Santos, o que Portugal recebeu foi Angola na pessoa do seu Presidente.
2009-03-13
Breve reflexão sobre o futebol
Não, não vou falar do descalabro do Sporting.
O que me move é o actual debate sobre as novas tecnologias aplicadas ao futebol.
O futebol é um jogo, um desporto e um espectáculo e este debate refere-se ao futebol espectáculo, neste contexto a utilização das novas tecnologias não adianta nem atrasa nada nesse espectáculo.
O vídeo pode passar a ser rei, a mediação deste espectáculo quase o exige mas o vídeo também não é Deus:
Lembro-me de um recente mundial de futebol, na Coreia, salvo erro, onde um árbitro foi mandado para casa mais cedo por uma decisão “errada” que um vídeo tinha demonstrado e quando o homem já estava em casa, outro vídeo, de outro ângulo, veio “demonstrar” que afinal a sua decisão tinha sido correcta.
Isto passou na altura como um “fait divers” mas eu retive na memória o facto, porque desde logo me colocou certas dúvidas sobre a validade e a superioridade do meio vídeo, sobre a capacidade humana que raramente é colocada.
Mas há outros meios tecnológicos à disposição, para além do vídeo, podem-se usar “chips” na bola e nos jogadores e sensores ao longo de todo o terreno para registar os fora de jogo para além de toda a dúvida.
Mas aqui, perde o espectáculo:
Como se vendem jornais quando deixa de haver dúvidas?
Como se despertam as paixões clubísticas, quando um fora de jogo não puder ser discutido?
Pressinto que se esse momento chegar as discussões e os ódios apenas mudarão dos árbitros para o pessoal que controlar esses meios tecnológicos, dado que aí também se podem fazer batotas.
E fazem-se.
É por estas e por outras que como futebol prefiro o futebol desporto, do tipo liga dos últimos, aí, pelo menos, temos a escala humana.
O que me move é o actual debate sobre as novas tecnologias aplicadas ao futebol.
O futebol é um jogo, um desporto e um espectáculo e este debate refere-se ao futebol espectáculo, neste contexto a utilização das novas tecnologias não adianta nem atrasa nada nesse espectáculo.
O vídeo pode passar a ser rei, a mediação deste espectáculo quase o exige mas o vídeo também não é Deus:
Lembro-me de um recente mundial de futebol, na Coreia, salvo erro, onde um árbitro foi mandado para casa mais cedo por uma decisão “errada” que um vídeo tinha demonstrado e quando o homem já estava em casa, outro vídeo, de outro ângulo, veio “demonstrar” que afinal a sua decisão tinha sido correcta.
Isto passou na altura como um “fait divers” mas eu retive na memória o facto, porque desde logo me colocou certas dúvidas sobre a validade e a superioridade do meio vídeo, sobre a capacidade humana que raramente é colocada.
Mas há outros meios tecnológicos à disposição, para além do vídeo, podem-se usar “chips” na bola e nos jogadores e sensores ao longo de todo o terreno para registar os fora de jogo para além de toda a dúvida.
Mas aqui, perde o espectáculo:
Como se vendem jornais quando deixa de haver dúvidas?
Como se despertam as paixões clubísticas, quando um fora de jogo não puder ser discutido?
Pressinto que se esse momento chegar as discussões e os ódios apenas mudarão dos árbitros para o pessoal que controlar esses meios tecnológicos, dado que aí também se podem fazer batotas.
E fazem-se.
É por estas e por outras que como futebol prefiro o futebol desporto, do tipo liga dos últimos, aí, pelo menos, temos a escala humana.
2009-03-11
O testamento de Kafka
Agora que o nosso parlamento parece considerar a hipótese de colocar no “main stream” a questão do “testamento vital”, para procurar evitar os embaraços que enfrentam os profissionais que têm que lidar com doentes terminais, ou talvez não, mas que absolutamente perderam a capacidade de exprimir a sua vontade, lembrei-me da grande questão ética colocada a Max Brod quando herdou os manuscritos de Kafka com expressas instruções para os destruir. Questão amplamente analisada e debatida por grandes vultos da alta cultura, como Witgenstein.
Max Brod, grande amigo e conhecedor de Kafka, sabia que esses manuscritos eram obras geniais, o que Kafka também sabia embora fosse muito descrente de que o mundo o reconhecesse.
Simplificando, porque esta questão suscita amplos debates, Max Brod, aparentemente, raciocinou assim:
Se ele queria destruir as suas obras, como aliás destruiu algumas, devia tê-lo feito ele mesmo. Quando mas deixou para eu as destruir, foi porque quis entregar a sua decisão final ao meu discernimento e, no fundo, sabia que eu não cumpriria essa promessa. Ao dar-mas, entregou-me o destino dessas obras.
Hoje, o mundo agradece a Max Brod essa “traição”. Sem essa “traição” não teríamos “O Processo”, a “Metamorfose”, “O Castelo” ou a “América” nem mesmo saberíamos, como ainda não sabemos de facto, como se chamaria esse romance, essa obra prima incompleta de Kafka.
Voltando ao testamento vital a minha questão coloca-se nesse nível.
O que me apetece escrever é “que se encarníssem nos tratamentos para me prolongar a vida”, mas isto apenas para chatear o sistema, como forma de terrorismo poético, porque no fundo o que quero nessa situação terminal, é que encontre decisores de bom senso e, sobretudo que ninguém seja punido pela lei, pela decisão que honestamente tomar, seja ela qual for.
Max Brod, grande amigo e conhecedor de Kafka, sabia que esses manuscritos eram obras geniais, o que Kafka também sabia embora fosse muito descrente de que o mundo o reconhecesse.
Simplificando, porque esta questão suscita amplos debates, Max Brod, aparentemente, raciocinou assim:
Se ele queria destruir as suas obras, como aliás destruiu algumas, devia tê-lo feito ele mesmo. Quando mas deixou para eu as destruir, foi porque quis entregar a sua decisão final ao meu discernimento e, no fundo, sabia que eu não cumpriria essa promessa. Ao dar-mas, entregou-me o destino dessas obras.
Hoje, o mundo agradece a Max Brod essa “traição”. Sem essa “traição” não teríamos “O Processo”, a “Metamorfose”, “O Castelo” ou a “América” nem mesmo saberíamos, como ainda não sabemos de facto, como se chamaria esse romance, essa obra prima incompleta de Kafka.
Voltando ao testamento vital a minha questão coloca-se nesse nível.
O que me apetece escrever é “que se encarníssem nos tratamentos para me prolongar a vida”, mas isto apenas para chatear o sistema, como forma de terrorismo poético, porque no fundo o que quero nessa situação terminal, é que encontre decisores de bom senso e, sobretudo que ninguém seja punido pela lei, pela decisão que honestamente tomar, seja ela qual for.
2009-03-10
O discurso delirante
Enquanto preparo uma minha deslocação ao Kosovo, de que em breve darei conta aqui, vou assistindo ao debate que se vai fazendo em Portugal.
A crise que tinha sido prevista por muitos teóricos da margem, com base numa análise simplíssima que apenas constatava o óbvio: “Não pode ser sustentável um modelo económico que se baseie num crescimento constante, num mundo finito e limitado”, não foi ainda compreendido pelos analistas e decisores do “main stream” e eles lá persistem a construir diques, a abrir buracos, como baratas tontas, procurando que tudo volte ao normal ao tolerável, embora já reconheçam que no fundo, no fundo, ninguém sabe o que faz ou o que fazer.
Por outro lado os “media” regozijam com as “ignorantes cidadãs” que chamaram badalhoca a Carolina Salgado mas não disseram uma palavra quando, no âmbito do mesmo processo ou afim, um Senhor ou Senhora Juiz referiu que o livro de Carolina não tinha credibilidade porque vinha de quem vinha, uma ex-prostituta, subentenda-se, criando uma nova jurisprudência: “Uma prostituta ou ex prostituta é incapaz de falar verdade” dizendo a mesma coisa do que a simplicidade das “ignorantes cidadãs”: é uma badalhoca, fascista, nem me interessa o que ela diz.
Seja no mundo da política, da economia, da justiça da educação ou do que seja, vê-se a mesma alienação, apenas um discurso delirante.
A crise que tinha sido prevista por muitos teóricos da margem, com base numa análise simplíssima que apenas constatava o óbvio: “Não pode ser sustentável um modelo económico que se baseie num crescimento constante, num mundo finito e limitado”, não foi ainda compreendido pelos analistas e decisores do “main stream” e eles lá persistem a construir diques, a abrir buracos, como baratas tontas, procurando que tudo volte ao normal ao tolerável, embora já reconheçam que no fundo, no fundo, ninguém sabe o que faz ou o que fazer.
Por outro lado os “media” regozijam com as “ignorantes cidadãs” que chamaram badalhoca a Carolina Salgado mas não disseram uma palavra quando, no âmbito do mesmo processo ou afim, um Senhor ou Senhora Juiz referiu que o livro de Carolina não tinha credibilidade porque vinha de quem vinha, uma ex-prostituta, subentenda-se, criando uma nova jurisprudência: “Uma prostituta ou ex prostituta é incapaz de falar verdade” dizendo a mesma coisa do que a simplicidade das “ignorantes cidadãs”: é uma badalhoca, fascista, nem me interessa o que ela diz.
Seja no mundo da política, da economia, da justiça da educação ou do que seja, vê-se a mesma alienação, apenas um discurso delirante.
2009-03-07
Os lucros da Galp e da EDP
Ambas estas empresas, apesar da grave crise internacional apresentaram enormes lucros.
A questão é a seguinte:
Devemos ficar contentes?
OuDevemos ficar tristes?
A questão é a seguinte:
Devemos ficar contentes?
OuDevemos ficar tristes?
2009-03-04
Reflexão filosófica a propósito das correntes comemorações de Darwin
Para mim, assim como o pensamento dominante do Ocidente esteve, nos últimos 2 milénios, condicionado por duas grandes figuras: Sócrates e Jesus Cristo, desde o fim do século IXX emergiu um novo paradigma que se incorporou, como pôde, ao anterior, apoiado em Copérnico e Galileu, mas que é dominado por 4 novas grandes figuras: Marx, Freud, e Darwin e Einstein.
Simplifico assim para maior clareza, de facto, disse Ocidente, porque numa remota aldeia da China, por exemplo, Sócrates ou Jesus Cristo foram nomes provavelmente nunca ouvidos, mas numa remota aldeia de Portugal, se falarmos de Marx, Freud, Darwin ou Einstein, as pessoas não fazem ideia de quem foram, podem até pensar que são actores de cinema ou jogadores de futebol mas os nomes não lhes serão totalmente estranhos.
Por outro lado, quando falo de grandes figuras, não me esqueço de tantas outras, do mesmo ou de ainda maior calibre, como de Platão, de Copérnico e de Galileu, que já citei, de Newton e de Espinosa… enfim dum vastíssimo role mas que de facto não teve o mesmo efeito global, que transcenda um restrito, ainda que muito grande, grupo de estudiosos
Falemos todavia de Darwin, da origem das espécies, da evolução, da sobrevivência dos mais aptos.
Darwin, ele próprio, pressentiu a revolução que ia causar, os danos que poderia sofrer e atrasou bastante a publicação da sua obra.
Mas a clarividência impôs-se e a própria Igreja católica, com um golpe de rins, nos quais é hábil, conseguiu tudo incorporar, ainda que o criacionismo “stricto sensu” comece a ter hoje novos adeptos em novas Igrejas Cristãs, aparentemente menos aptas, sobretudo nos EUA.
Ficou todavia uma dúvida persistente, mesmo para os que não são católicos: a ética.
Darwin parece que descobriu que a natureza não tem ética, é o mais apto que vence, não o melhor ou o mais bom e, se a natureza é Deus, como para alguns filósofos, ou a Sua obra para os cristãos, Deus não terá então ética o que será também a sua negação.
E é aqui que nasce um mundo de reflexão, o que é a ética? O que é o bom? O que é o melhor?
Darwin coloca-nos assim uma nova questão: Será que a natureza não tem uma ética ou será que é na natureza que deveremos encontrar a ética?
Eu julgo que a Resposta que procuramos hoje será a resposta a esta questão.
Simplifico assim para maior clareza, de facto, disse Ocidente, porque numa remota aldeia da China, por exemplo, Sócrates ou Jesus Cristo foram nomes provavelmente nunca ouvidos, mas numa remota aldeia de Portugal, se falarmos de Marx, Freud, Darwin ou Einstein, as pessoas não fazem ideia de quem foram, podem até pensar que são actores de cinema ou jogadores de futebol mas os nomes não lhes serão totalmente estranhos.
Por outro lado, quando falo de grandes figuras, não me esqueço de tantas outras, do mesmo ou de ainda maior calibre, como de Platão, de Copérnico e de Galileu, que já citei, de Newton e de Espinosa… enfim dum vastíssimo role mas que de facto não teve o mesmo efeito global, que transcenda um restrito, ainda que muito grande, grupo de estudiosos
Falemos todavia de Darwin, da origem das espécies, da evolução, da sobrevivência dos mais aptos.
Darwin, ele próprio, pressentiu a revolução que ia causar, os danos que poderia sofrer e atrasou bastante a publicação da sua obra.
Mas a clarividência impôs-se e a própria Igreja católica, com um golpe de rins, nos quais é hábil, conseguiu tudo incorporar, ainda que o criacionismo “stricto sensu” comece a ter hoje novos adeptos em novas Igrejas Cristãs, aparentemente menos aptas, sobretudo nos EUA.
Ficou todavia uma dúvida persistente, mesmo para os que não são católicos: a ética.
Darwin parece que descobriu que a natureza não tem ética, é o mais apto que vence, não o melhor ou o mais bom e, se a natureza é Deus, como para alguns filósofos, ou a Sua obra para os cristãos, Deus não terá então ética o que será também a sua negação.
E é aqui que nasce um mundo de reflexão, o que é a ética? O que é o bom? O que é o melhor?
Darwin coloca-nos assim uma nova questão: Será que a natureza não tem uma ética ou será que é na natureza que deveremos encontrar a ética?
Eu julgo que a Resposta que procuramos hoje será a resposta a esta questão.
2009-03-02
Os pobres ácaros dos colchões
Como fitiatra conheço ácaros há muito tempo.
São pequeníssimas criaturas, aracnídeos, que atormentam a vida a muitas plantas.
Temos já diversos acaricidas para os matar quando eles impedem o normal desenvolvimento das plantas que nos servem.
Segundo me demonstraram agentes de vendas de potentes aspiradores, os colchões das nossas camas são um óptimo habitat. Há centenas de anos que eles lá vivem, felizes da vida sem que eu me tenha nunca apercebido disso.
Dizem-me todavia que há gente que sofre e, de facto, é rara a criança que não demonstra alergia aos ácaros do pó, o meu filho foi um caso, analisado e comprovado pela ciência e muito provavelmente eu fui, sem saber, também uma dessas criança.
Provavelmente, dado que quase todo o ser humano, eu incluído, é alérgico à vida ou a alguns aspectos dela.
Mas, a verdade é esta, lá vamos vivendo e a presença de ácaros no meu colchão nunca foi para mim um real problema.
Hoje, ao ver um anúncio desses aspiradores, observei-o segundo o ponto de vista desses pobres ácaros.
E ouvi-os dizer:
“Há centenas de anos que convivemos com os humanos em pás.
Eles rebolam-se como querem sobre os colchões e vão deixando, células velhas escamadas da sua pele que são um maná para mim, De vez em quanto lá batem os colchões, matando-nos aos milhares mas são calamidades inevitáveis e logo a vida continua em paz.
Para quê eliminar-nos definitivamente? Para quê a “bomba atómica” desses terríveis aspiradores dizimadores.Porque será que os homens se preocupam tanto com a defesa dos animais grandes, que eles vêm à vista desarmada e, embora inteligentes, não têm nenhum respeito por nós pequeninos ácaros, ainda que sejamos visíveis com uma simples lupa?
São pequeníssimas criaturas, aracnídeos, que atormentam a vida a muitas plantas.
Temos já diversos acaricidas para os matar quando eles impedem o normal desenvolvimento das plantas que nos servem.
Segundo me demonstraram agentes de vendas de potentes aspiradores, os colchões das nossas camas são um óptimo habitat. Há centenas de anos que eles lá vivem, felizes da vida sem que eu me tenha nunca apercebido disso.
Dizem-me todavia que há gente que sofre e, de facto, é rara a criança que não demonstra alergia aos ácaros do pó, o meu filho foi um caso, analisado e comprovado pela ciência e muito provavelmente eu fui, sem saber, também uma dessas criança.
Provavelmente, dado que quase todo o ser humano, eu incluído, é alérgico à vida ou a alguns aspectos dela.
Mas, a verdade é esta, lá vamos vivendo e a presença de ácaros no meu colchão nunca foi para mim um real problema.
Hoje, ao ver um anúncio desses aspiradores, observei-o segundo o ponto de vista desses pobres ácaros.
E ouvi-os dizer:
“Há centenas de anos que convivemos com os humanos em pás.
Eles rebolam-se como querem sobre os colchões e vão deixando, células velhas escamadas da sua pele que são um maná para mim, De vez em quanto lá batem os colchões, matando-nos aos milhares mas são calamidades inevitáveis e logo a vida continua em paz.
Para quê eliminar-nos definitivamente? Para quê a “bomba atómica” desses terríveis aspiradores dizimadores.Porque será que os homens se preocupam tanto com a defesa dos animais grandes, que eles vêm à vista desarmada e, embora inteligentes, não têm nenhum respeito por nós pequeninos ácaros, ainda que sejamos visíveis com uma simples lupa?
2009-02-25
A importância de um Hã
Ainda me doem as mãos de algumas palmatoadas que apanhei há cerca de 51 anos por ter questionado a minha professora primária, sobre algo que não tinha compreendido bem com um “hâ?”, em vez de uns civilizados “o quê?” ou “como?”.
Desta história retira-se que naquele tempo era legítimo aos professores primários aplicar castigos corporais aos seus alunos, bem longe deste tempo em que são mais os alunos a usar estes métodos com os professores.
Mas isto é irrelevante para o que pretendo dizer.
O que me magoou, até agora, nessas palmatoadas é que logo as avaliei como muito injustas.
O meu “hã” foi espontâneo, sem qualquer maldade e nos meus 8 anos eu ainda não dominava perfeitamente estes cambiantes da língua.
Mas ao ler o texto que se segue pude aperceber-me claramente como um “hã?” pode ferir como um punhal.
É um texto brilhante de Raul Brandão, um mestre da língua portuguesa, e que demonstra claramente como algumas poucas palavras podem dizer muito mais do que 1000 imagens:
“Tinha morrido na véspera. Nas últimas horas do dia nublado, ao sentir-se trespassada pelo frio, o da morte, chamara para junto de si a irmã, a Candidinha, uma mulher insignificante, envolta num xale gasto. Pelos vidros côa-se a luz baça do crepúsculo. Fora choram. A velha traça o xale, e a boca aumenta-lhe, avivam-se-lhe as rugas.
- A minha filha, peço-te… - diz-lhe a outra.
E entrega-lhe um maço de cartas.
A velha não responde. Um silêncio glacial. Na luz, que atravessa, antes de entrar no quarto, a espessura da água esverdeada, a Candidinha esboça um gesto de garra que se contrai. E a moribunda repete:
- Olha por ela… Tu sabes tudo.
A velha hesita; depois vai de súbito à porta e fecha-a de repelão. Transfigura-se: dum jacto sai daquela mulher amachucada e insignificante, uma figura de aço e ódio. Curva-se sobre a irmã e fala-lhe baixinho ao ouvido.
- Hã? …”
Raul Brandão in “A Farça”
Desta história retira-se que naquele tempo era legítimo aos professores primários aplicar castigos corporais aos seus alunos, bem longe deste tempo em que são mais os alunos a usar estes métodos com os professores.
Mas isto é irrelevante para o que pretendo dizer.
O que me magoou, até agora, nessas palmatoadas é que logo as avaliei como muito injustas.
O meu “hã” foi espontâneo, sem qualquer maldade e nos meus 8 anos eu ainda não dominava perfeitamente estes cambiantes da língua.
Mas ao ler o texto que se segue pude aperceber-me claramente como um “hã?” pode ferir como um punhal.
É um texto brilhante de Raul Brandão, um mestre da língua portuguesa, e que demonstra claramente como algumas poucas palavras podem dizer muito mais do que 1000 imagens:
“Tinha morrido na véspera. Nas últimas horas do dia nublado, ao sentir-se trespassada pelo frio, o da morte, chamara para junto de si a irmã, a Candidinha, uma mulher insignificante, envolta num xale gasto. Pelos vidros côa-se a luz baça do crepúsculo. Fora choram. A velha traça o xale, e a boca aumenta-lhe, avivam-se-lhe as rugas.
- A minha filha, peço-te… - diz-lhe a outra.
E entrega-lhe um maço de cartas.
A velha não responde. Um silêncio glacial. Na luz, que atravessa, antes de entrar no quarto, a espessura da água esverdeada, a Candidinha esboça um gesto de garra que se contrai. E a moribunda repete:
- Olha por ela… Tu sabes tudo.
A velha hesita; depois vai de súbito à porta e fecha-a de repelão. Transfigura-se: dum jacto sai daquela mulher amachucada e insignificante, uma figura de aço e ódio. Curva-se sobre a irmã e fala-lhe baixinho ao ouvido.
- Hã? …”
Raul Brandão in “A Farça”
2009-02-20
Falemos de café
Como português o café é fundamental para mim.
Como Agrónomo, fitiatra, o meu primeiro emprego foi no Instituto do Café de Angola (então ainda colónia), estudando métodos de combate a uma praga do cafeeiro: a broca do fruto.
Aprendi aí alguma coisa sobre esta bebida: história, lendas, mitos, verdades científicas, e, fundamentalmente, aprendi várias formas de a consumir.
Aprendi as diferenças entre as duas espécies dominantes, o café “arábica” e o “robusta”, desde a planta até à chávena, as diferenças entre elas e algumas implicações dos loteamentos e da forma das múltiplas transformações até ao produto final, o café bebível.
Como português, porém, a minha predilecção recai na “bica”, o café dominante em Portugal e quase único no mundo, embora comecem a aparecer vagamente aproximações com o nome genérico de “expresso”.
Mas a bica, a verdadeira bica é uma ciência e, como questionava um atónito estrangeiro “como é que numa chávena tão pequena os portugueses ainda estabelecem diferenças quanto à forma de a encher?” De facto há quem a queira pouco cheia, a “italiana”, a meio, “o curto”, a dois terços, “o normal” ou totalmente cheia, “a bica cheia”, e há ainda uma bica normal em chávena maior, “o abatanado” e refilam e trocam o pedido se este não respeitar estes detalhes. Depois há ainda outras variantes, como a bica com um pingo de leite, “o pingado”, com mais leite, “o garoto” ou com um pouco de água, “o carioca”.
Quanto ao café em si, uma boa bica tem que ter uma cobertura de creme espesso, castanha e sem bolhas, a bica ideal tem que passar o que eu chamo “o teste do açúcar” ou seja o açúcar adicionado deve permanecer cerca de um segundo incólume sobre a cobertura antes de mergulhar na chávena mas, ao mexê-lo, deve-se ver a cor preta do café começando a dominar a espuma superior e, depois de um primeiro gole, a espuma só é tolerada como uma leve coroa junto à borda da chávena.
É neste comportamento que se diferencia a bica de um vulgar expresso.
O “nespresso”, por exemplo, que tenho andado a estudar, passa sempre o teste do açúcar, mas não se liberta da espuma. Em grande parte dos 16 tipos de café da “nespesso” a cor preta do café nem se chega a ver. Assim não vale, assim não é uma bica.
Um Professor americano com quem convivi uns dias em Portugal, ficou impressionadíssimo com a nossa bica e fez uma análise apressada, interpretou que isso se devia ao café ser muito forte. Quando por sua vez recebeu um grupo de portugueses, entre os quais eu, nos EUA, deu instruções na Universidade para que o café que nos servissem fosse incrivelmente forte, quase intragável, e confidenciou-me “Eu mandei fazer assim forte para imitar o vosso café, mas na verdade não me diga que assim é melhor” “não é melhor não” respondi-lhe eu, “é que a diferença não está na quantidade de café”, mas depressa desisti de lhe tentar explicar o que era uma bica.
Mas o café não é apenas a bica, nem só nesta forma nos pode dar um prazer intenso.
Na Polónia, nas áreas de apoio das auto-estradas, em 2003, pelo menos, só serviam o café turco, em copo grande.
Com um frio de rachar lá fora, era para mim um intenso prazer segurar no copo durante vários minutos, esperando que o pó sedimentasse, aquecendo confortavelmente as mãos e divagando sobre o meu quotidiano, depois ingeria o café bem quente e saboroso. Era uma maravilha reconfortante.
O café turco, naquele contexto, quase conseguia superar a “bica”.
Como Agrónomo, fitiatra, o meu primeiro emprego foi no Instituto do Café de Angola (então ainda colónia), estudando métodos de combate a uma praga do cafeeiro: a broca do fruto.
Aprendi aí alguma coisa sobre esta bebida: história, lendas, mitos, verdades científicas, e, fundamentalmente, aprendi várias formas de a consumir.
Aprendi as diferenças entre as duas espécies dominantes, o café “arábica” e o “robusta”, desde a planta até à chávena, as diferenças entre elas e algumas implicações dos loteamentos e da forma das múltiplas transformações até ao produto final, o café bebível.
Como português, porém, a minha predilecção recai na “bica”, o café dominante em Portugal e quase único no mundo, embora comecem a aparecer vagamente aproximações com o nome genérico de “expresso”.
Mas a bica, a verdadeira bica é uma ciência e, como questionava um atónito estrangeiro “como é que numa chávena tão pequena os portugueses ainda estabelecem diferenças quanto à forma de a encher?” De facto há quem a queira pouco cheia, a “italiana”, a meio, “o curto”, a dois terços, “o normal” ou totalmente cheia, “a bica cheia”, e há ainda uma bica normal em chávena maior, “o abatanado” e refilam e trocam o pedido se este não respeitar estes detalhes. Depois há ainda outras variantes, como a bica com um pingo de leite, “o pingado”, com mais leite, “o garoto” ou com um pouco de água, “o carioca”.
Quanto ao café em si, uma boa bica tem que ter uma cobertura de creme espesso, castanha e sem bolhas, a bica ideal tem que passar o que eu chamo “o teste do açúcar” ou seja o açúcar adicionado deve permanecer cerca de um segundo incólume sobre a cobertura antes de mergulhar na chávena mas, ao mexê-lo, deve-se ver a cor preta do café começando a dominar a espuma superior e, depois de um primeiro gole, a espuma só é tolerada como uma leve coroa junto à borda da chávena.
É neste comportamento que se diferencia a bica de um vulgar expresso.
O “nespresso”, por exemplo, que tenho andado a estudar, passa sempre o teste do açúcar, mas não se liberta da espuma. Em grande parte dos 16 tipos de café da “nespesso” a cor preta do café nem se chega a ver. Assim não vale, assim não é uma bica.
Um Professor americano com quem convivi uns dias em Portugal, ficou impressionadíssimo com a nossa bica e fez uma análise apressada, interpretou que isso se devia ao café ser muito forte. Quando por sua vez recebeu um grupo de portugueses, entre os quais eu, nos EUA, deu instruções na Universidade para que o café que nos servissem fosse incrivelmente forte, quase intragável, e confidenciou-me “Eu mandei fazer assim forte para imitar o vosso café, mas na verdade não me diga que assim é melhor” “não é melhor não” respondi-lhe eu, “é que a diferença não está na quantidade de café”, mas depressa desisti de lhe tentar explicar o que era uma bica.
Mas o café não é apenas a bica, nem só nesta forma nos pode dar um prazer intenso.
Na Polónia, nas áreas de apoio das auto-estradas, em 2003, pelo menos, só serviam o café turco, em copo grande.
Com um frio de rachar lá fora, era para mim um intenso prazer segurar no copo durante vários minutos, esperando que o pó sedimentasse, aquecendo confortavelmente as mãos e divagando sobre o meu quotidiano, depois ingeria o café bem quente e saboroso. Era uma maravilha reconfortante.
O café turco, naquele contexto, quase conseguia superar a “bica”.
2009-02-17
Bom vinho
A propósito da demissão do Ministro das Finanças japonês, por ter participado “bêbado”, alegadamente devido ao álcool mas segundo o Ex-Ministro, devido a medicamentos que tomava associados a um pouco de álcool, de qualquer modo inegavelemente “bêbado”, numa conferência de imprensa; a TVI decidiu recordar-nos cenas públicas de grandes estadistas, onde estes apareceram igualmente “Bêbados”.
Citaram Churcill, que tem essa fama mas para o qual não há registos e mostraram Bill Clinton, Boris Ieltsen, George Bush e Sarcosi.
Uma coisa é certa, todos mostraram ter “bom vinho”, o que é uma grande virtude num ser humano.
Este é um excelente termo da sabedoria popular portuguesa que classifica uma boa reacção que muitos humanos têm ao álcool, alegria, boa disposição, humanidade e solidariedade, em oposição ao “mau vinho” que alguns demonstram também e que se caracteriza por agressividade, insolência, tristeza e má disposição.
Ao ver estas cenas, e vendo o “bom vinho” daqueles estadistas questionei-me se o mundo não poderia ser bem melhor se aquele fosse o seu estado permanente!
Eu penso sinceramente que sim.
Citaram Churcill, que tem essa fama mas para o qual não há registos e mostraram Bill Clinton, Boris Ieltsen, George Bush e Sarcosi.
Uma coisa é certa, todos mostraram ter “bom vinho”, o que é uma grande virtude num ser humano.
Este é um excelente termo da sabedoria popular portuguesa que classifica uma boa reacção que muitos humanos têm ao álcool, alegria, boa disposição, humanidade e solidariedade, em oposição ao “mau vinho” que alguns demonstram também e que se caracteriza por agressividade, insolência, tristeza e má disposição.
Ao ver estas cenas, e vendo o “bom vinho” daqueles estadistas questionei-me se o mundo não poderia ser bem melhor se aquele fosse o seu estado permanente!
Eu penso sinceramente que sim.
2009-02-16
Nação, Povo e Pátria
Há poucos meses assisti a uma conferência na livraria Bulhosa de Campo de Ourique onde se abordava o tema “nação”.
Foi bem interessante e intelectualmente estimulante, como sempre que procuramos dominar a imensa complexidade de todas as coisas simples.
A noção de nação, por exemplo, não nos trás geralmente muitas dificuldades, identifica-se com um estado, organizado num determinado território, e não teremos dúvida em considerar a Suiça ou a Espanha como nações embora, mesmo assim, já me pareça duvidoso que o Estado Palestiniano ou mesmo o Kosovo possam ser classificados como tal.
Depois há as noções afins de povo e pátria, bem mais complexas ainda.
Povo, poderemos tentar defini-lo como uma comunidade linguística e cultural geralmente também ligado a um território, todavia, se bem que eu reconheça o povo português, o povo brasileiro, o povo francês, inglês, alemão e japonês como povos que se encaixam naquela definição, já não reconheço um povo suíço, um povo espanhol, identificado com o seu território, e, por outro lado reconheço os povos cigano e judeu como povos independentes de nações.
A noção de Pátria então é ainda mais complexo e indefinível, como Pessoa disse “a minha pátria é a língua portuguesa”, para mim a minha pátria transcende Portugal, inclui o Brasil, Angola, Moçambique e todos os países da CPLP.
Nação, povo e pátria parecem-me questões bem polémicas e complexas mas muito interessantes também, penso eu.
Foi bem interessante e intelectualmente estimulante, como sempre que procuramos dominar a imensa complexidade de todas as coisas simples.
A noção de nação, por exemplo, não nos trás geralmente muitas dificuldades, identifica-se com um estado, organizado num determinado território, e não teremos dúvida em considerar a Suiça ou a Espanha como nações embora, mesmo assim, já me pareça duvidoso que o Estado Palestiniano ou mesmo o Kosovo possam ser classificados como tal.
Depois há as noções afins de povo e pátria, bem mais complexas ainda.
Povo, poderemos tentar defini-lo como uma comunidade linguística e cultural geralmente também ligado a um território, todavia, se bem que eu reconheça o povo português, o povo brasileiro, o povo francês, inglês, alemão e japonês como povos que se encaixam naquela definição, já não reconheço um povo suíço, um povo espanhol, identificado com o seu território, e, por outro lado reconheço os povos cigano e judeu como povos independentes de nações.
A noção de Pátria então é ainda mais complexo e indefinível, como Pessoa disse “a minha pátria é a língua portuguesa”, para mim a minha pátria transcende Portugal, inclui o Brasil, Angola, Moçambique e todos os países da CPLP.
Nação, povo e pátria parecem-me questões bem polémicas e complexas mas muito interessantes também, penso eu.
2009-02-12
A Eutanásia
No que se tem debatido, nestes dias sobre este tema, que me parece simplicíssimo, não consigo perceber a posição da Igreja Católica.
Então não é central à sua doutrina que Jesus Cristo cometeu uma eutanásia par nos salvar?
Custa ver tanto apego à vida terrena a quem promete a vida eterna depois da morte.
Então não é central à sua doutrina que Jesus Cristo cometeu uma eutanásia par nos salvar?
Custa ver tanto apego à vida terrena a quem promete a vida eterna depois da morte.
2009-02-10
Matt Harding
Este famoso vídeo tem corrido o mundo via e-mail e já o vi mesmo na tv.
É geralmente encarado como um vídeo curioso, insólito, engraçado e meio maluco.
Para mim é algo muito mais sério.
É um “statement”, uma espantosa obra de arte performativa, sempre que o vejo fico comovido e desperta-me o sentimento de como tudo, de facto poderia ser bem mais simples.
Dançar em vez de sofrer, usufruir em vez de destruir, sentir como em qualquer ponto do mundo, em todas as culturas, por mais exóticas que nos pareçam, sob todas as diferenças podemos ver sempre a mesma humanidade.
Tenho uma grande admiração pelos talentos que o conceberam.
É geralmente encarado como um vídeo curioso, insólito, engraçado e meio maluco.
Para mim é algo muito mais sério.
É um “statement”, uma espantosa obra de arte performativa, sempre que o vejo fico comovido e desperta-me o sentimento de como tudo, de facto poderia ser bem mais simples.
Dançar em vez de sofrer, usufruir em vez de destruir, sentir como em qualquer ponto do mundo, em todas as culturas, por mais exóticas que nos pareçam, sob todas as diferenças podemos ver sempre a mesma humanidade.
Tenho uma grande admiração pelos talentos que o conceberam.
2009-02-09
Tempo a mais e espaço a menos
O meu escritório está atulhado, um pequeno livro tem que lutar com outros para se conseguir aconchegar e, para mais, várias prateleiras estão a abarrotar de vestígios de uma tecnologia moribunda, cassetes de vídeo.
Ainda me lembro bem quando essa tecnologia apareceu com toda a força revolucionária, lembro-me do combate entre os sistemas Beta e VHS, que este último venceu, foi tudo ainda ontem, hoje, porem, parece que foi há séculos de tão velha que ela está.
Entretanto, enquanto deu, fui acumulando filmes e outras gravações que me enchem prateleiras de cassetes, que já nem sei bem o que contêm, mas que me custa destruir assim, sem mais nem menos.
Como o que falta em espaço me sobra em tempo, comecei a dedicar-me a ver uma por uma e passar para DVD tudo o que quiser conservar.
É uma tarefa, apenas começada e quase infindável mas também tem as suas compensações.
Logo na primeira que vi encontro uma espantosa versão do Hamlet, gravada não sei quando da BBC prime, é o melhor Hamlet que alguma vez vi e já o passei a DVD. Logo a seguir encontro, após um excelente filme que, todavia já tenho em DVD, o velho Rollerball de que já falei aqui, encontro duas das velhinhas pequenas histórias televisivas produzidas por Alfred Hitchcock, lembram-se?
Enfim, o que antevia ser uma estucha de tarefa está-me afinal a proporcionar horas de prazer.
Vamos ver o que o futuro revelará.
Ainda me lembro bem quando essa tecnologia apareceu com toda a força revolucionária, lembro-me do combate entre os sistemas Beta e VHS, que este último venceu, foi tudo ainda ontem, hoje, porem, parece que foi há séculos de tão velha que ela está.
Entretanto, enquanto deu, fui acumulando filmes e outras gravações que me enchem prateleiras de cassetes, que já nem sei bem o que contêm, mas que me custa destruir assim, sem mais nem menos.
Como o que falta em espaço me sobra em tempo, comecei a dedicar-me a ver uma por uma e passar para DVD tudo o que quiser conservar.
É uma tarefa, apenas começada e quase infindável mas também tem as suas compensações.
Logo na primeira que vi encontro uma espantosa versão do Hamlet, gravada não sei quando da BBC prime, é o melhor Hamlet que alguma vez vi e já o passei a DVD. Logo a seguir encontro, após um excelente filme que, todavia já tenho em DVD, o velho Rollerball de que já falei aqui, encontro duas das velhinhas pequenas histórias televisivas produzidas por Alfred Hitchcock, lembram-se?
Enfim, o que antevia ser uma estucha de tarefa está-me afinal a proporcionar horas de prazer.
Vamos ver o que o futuro revelará.
2009-02-08
Segredo de justiça
Começo a aperceber-me que o tão falado segredo de justiça não visa proteger as investigações que se vão fazendo.
A verdadeira razão parece ser a de esconder as investigações que se não fazem.
A verdadeira razão parece ser a de esconder as investigações que se não fazem.
2009-02-06
O Outlet da discórdia - Acto V
ACTO V
Numa praça pública em Portugal. De início está presente o coro e vão entrando Smitendpedro, tio, josesito, Inglês, procurador, D. Massmedia, e um mendigo que é Franco Carlutchi.
O Coro começa a cantar ao som da conhecida música infantil.
Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.
No seu canto remoendo as palavras.
Franco Carlutchi
Que me vou embora? Não, Que te vais embora.
Josesito
Mas que coro é este? Que mal fiz eu? Porque me tratam assim?
Inglês
Pois não é óbvio? Será que o senhor não recebeu milhões ou permitiu que alguém recebesse para aprovar o Outlet em tempo record, como foi feito?
Josesito
Eu não, isso são os meus inimigos ocultos que querem fazer crer
Procurador
De facto, nada está provado. Vamos continuar a averiguar
Josesito
Estão a ver, que isto é tudo inventado, não ouviram o Sr. Procurador
D. Massmedia
O que se sabe é que isto cheira muito mal. Há os milhões que o Smitendpedro pediu, há os despachos feitos a correr e em gestão, há o Inglês que sabe tudo.
Procurador
O Inglês sabe tudo, o tanas, nós é que estamos a investigar.
Tio
Tanto barulho para quê? Afinal eu é que facilitei tudo e nem obrigado me disseram.
Smitendpedro
Não facilitou nada, nós é que fomos os agentes
Depois, baixo para o Inglês.
Smitendpedro
Como sabem Portugal é um PIGS, o dinheiro foi para o Ministro e para muito mais gente.
Inglês
A gente bem sabe. Estes merdas nem a pequena Madie conseguiram encontrar.
D. Massmedia
O Sr. Inglês também tem a mania que é esperto mas também se espalha muito.
Inglês
Eu sou Inglês, ouviu?
O Coro recomeça a sua cantiga mas em tom mais baixo:
Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.
Josesito
Deixem, mas é, a justiça trabalhar
Procurador
Nós vamos continuar a trabalhar
Smitendpedro
Eu, por mim não tenho mais nada a dizer
D.Massmedia
Eu estou em cima, não deixo passar nada mas que isto cheira mal, cheira.
Todos se começam a afastar, excepto o mendigo Franco Carlutchi que a tudo assistiu com um sorriso irónico, se volta para a plateia e diz o seguinte solilóquio.
Franco Carlutchi
Portugal, Portugal, tu nem sabes quem te governa.
Se não fosse eu, quem, há 35 anos, te livrava das garras do monstro comunista?
E agora, quem, se não eu, te pode livrar do ambicioso, independente Josesito?
A Ferreira Leite? Ah Ah Ah.
Portugal, não saias da linha, deixa o meu veneno prosperar.
Para ti fica o espectáculo.
Para mim, a vitória.
O pano desce
FIM
Numa praça pública em Portugal. De início está presente o coro e vão entrando Smitendpedro, tio, josesito, Inglês, procurador, D. Massmedia, e um mendigo que é Franco Carlutchi.
O Coro começa a cantar ao som da conhecida música infantil.
Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.
No seu canto remoendo as palavras.
Franco Carlutchi
Que me vou embora? Não, Que te vais embora.
Josesito
Mas que coro é este? Que mal fiz eu? Porque me tratam assim?
Inglês
Pois não é óbvio? Será que o senhor não recebeu milhões ou permitiu que alguém recebesse para aprovar o Outlet em tempo record, como foi feito?
Josesito
Eu não, isso são os meus inimigos ocultos que querem fazer crer
Procurador
De facto, nada está provado. Vamos continuar a averiguar
Josesito
Estão a ver, que isto é tudo inventado, não ouviram o Sr. Procurador
D. Massmedia
O que se sabe é que isto cheira muito mal. Há os milhões que o Smitendpedro pediu, há os despachos feitos a correr e em gestão, há o Inglês que sabe tudo.
Procurador
O Inglês sabe tudo, o tanas, nós é que estamos a investigar.
Tio
Tanto barulho para quê? Afinal eu é que facilitei tudo e nem obrigado me disseram.
Smitendpedro
Não facilitou nada, nós é que fomos os agentes
Depois, baixo para o Inglês.
Smitendpedro
Como sabem Portugal é um PIGS, o dinheiro foi para o Ministro e para muito mais gente.
Inglês
A gente bem sabe. Estes merdas nem a pequena Madie conseguiram encontrar.
D. Massmedia
O Sr. Inglês também tem a mania que é esperto mas também se espalha muito.
Inglês
Eu sou Inglês, ouviu?
O Coro recomeça a sua cantiga mas em tom mais baixo:
Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.
Josesito
Deixem, mas é, a justiça trabalhar
Procurador
Nós vamos continuar a trabalhar
Smitendpedro
Eu, por mim não tenho mais nada a dizer
D.Massmedia
Eu estou em cima, não deixo passar nada mas que isto cheira mal, cheira.
Todos se começam a afastar, excepto o mendigo Franco Carlutchi que a tudo assistiu com um sorriso irónico, se volta para a plateia e diz o seguinte solilóquio.
Franco Carlutchi
Portugal, Portugal, tu nem sabes quem te governa.
Se não fosse eu, quem, há 35 anos, te livrava das garras do monstro comunista?
E agora, quem, se não eu, te pode livrar do ambicioso, independente Josesito?
A Ferreira Leite? Ah Ah Ah.
Portugal, não saias da linha, deixa o meu veneno prosperar.
Para ti fica o espectáculo.
Para mim, a vitória.
O pano desce
FIM
2009-02-05
O Outelet da discórdia - Acto IV
ACTO IV
Cena I
No Escritório de Smitendpedro, este conversa com a Secretária
Smitendpedro
D. Secretária, Já há novidades do outlet?
Secretária
Telefonaram hoje a dizer que a licença está quase no papo, só falta uma porcaria qualquer que se vai ultrapassar rápido
Smitendpedro
A Senhora, já sabe, quando chegar o Sr. Friporte tem que estar caladinha
Nada de lhe dizer que o assunto já está quase resolvido, ouviu?
Secretária
Eu sei Sr. Smitendpedro.
Eu não sei nada de nada e também não quero perder o meu emprego
Smitendpedro
È que se ele pressentir que já está tudo resolvido, é bem capaz de me roer a corda.
Sabe como são estes capitalistas.
Secretária
Comigo pode estar descansado, sou surda e muda.
Cena II
Tocam à porta, a Secretária abre e entra Friporte
Smitendpedro
Ora seja bem-vindo a este pobre escritório Sr. Friporte.
Friporte
Bom dia meus senhores, vamos ao que interessa.
Como é que vai o licenciamento do “outlet”?
Smitendpedro
Mal, Sr. Friporte, este país é terrível, é um “PIGS”, só anda à custa de dinheiro. Ele é papelada, ele é motivar funcionários, ele é uma carga de trabalhos e fora as minhas despesas que são imensas.
Friporte
Adiante, adiante, o Senhor prometeu-me rapidez.
Afinal quanto é que precisa?
Smitendpedro
Uns 6 milhões, talvez já dê.
Friporte
6 milhões? Você está maluco? Para quê tanto dinheiro?
Smitendpedro
Sr. Friporte, isto tem Ministros e altos funcionários envolvidos, não julgue que eles vão lá por pouco.
O país é do terceiro mundo, mas as elites também gostam de viver bem.
Friporte
Bem? É mas é muito bem. Assim se calhar nem o investimento vale a pena.
Smitendpedro
Ora, ora Sr. Friporte aquilo vai ser um maná, em Alcochete, zona lindíssima e ainda por cima já se fala num novo aeroporto para lá.
Friporte
Bom, você leva-me à ruína mas está bem, para que não hajam desculpas.
Afasta-se e preenche um cheque
Friporte
Tome lá, e ande com isso depressa e não há mais, ouviu.
Smitendpedro
Muito obrigado Sr. Friporte, agora há condições para ficar tudo resolvido.
Cumprimentam-se e Friporte sai.
Cena III
Ficam Smitendpedro e a Secretária
Smitendpedro
D. Secretária, parece que nos safámos. O cheque já está aqui na mão.
Secretária
Eu guardo-o no cofre, é muito dinheiro.
Smitendpedro
É melhor, para já, mas comece já a tratar para o depositar nas Ilhas Caimão, na minha conta, ouviu?
Sabe como fazê-lo?
Secretária
Oh Sr. Smitendpedro, então não havia de saber?
Não tenho feito outra coisa desde que trabalho consigo.
Smitendpedro
Está bem mas agora é muito dinheiro, tem que fazê-lo rápido e nem uma palavra a ninguém.
Secretária
Não se preocupe Sr. Smitendpedro, amanhã já lá vai estar e, como sabe, eu aqui sou sempre surda e muda.
Cena IV
Passados uns meses na casa de Tio que voltando-se para a plateia, profere o seguinte solilóquio.
Tio
Como no teatro, o actor só brilha porque outros, no escuro e no silêncio manipulam milhares de cabos que comandam cenários e cortinas, orientam os holofotes para o centro da acção, que sem esses holofotes não seriam mais do que mais um recanto escuro.
Mas é assim o mundo injusto, onde uns se esforçam e permitem tudo, outros por engenho ou um acaso da sorte tomam para si esse sucesso e é sobre esses que recaiem as benesses.
Quem, se não eu, abriu as portas do poder a Smitenpedro?
Quem, se não eu, permitiu que o capital se implantasse em Alcochete?
Todavia dos 4 milhões que diziam que tinham, nem um tostão me chegou!
Já é ter azar!
Senta-se pesaroso e o pano desce
Cena I
No Escritório de Smitendpedro, este conversa com a Secretária
Smitendpedro
D. Secretária, Já há novidades do outlet?
Secretária
Telefonaram hoje a dizer que a licença está quase no papo, só falta uma porcaria qualquer que se vai ultrapassar rápido
Smitendpedro
A Senhora, já sabe, quando chegar o Sr. Friporte tem que estar caladinha
Nada de lhe dizer que o assunto já está quase resolvido, ouviu?
Secretária
Eu sei Sr. Smitendpedro.
Eu não sei nada de nada e também não quero perder o meu emprego
Smitendpedro
È que se ele pressentir que já está tudo resolvido, é bem capaz de me roer a corda.
Sabe como são estes capitalistas.
Secretária
Comigo pode estar descansado, sou surda e muda.
Cena II
Tocam à porta, a Secretária abre e entra Friporte
Smitendpedro
Ora seja bem-vindo a este pobre escritório Sr. Friporte.
Friporte
Bom dia meus senhores, vamos ao que interessa.
Como é que vai o licenciamento do “outlet”?
Smitendpedro
Mal, Sr. Friporte, este país é terrível, é um “PIGS”, só anda à custa de dinheiro. Ele é papelada, ele é motivar funcionários, ele é uma carga de trabalhos e fora as minhas despesas que são imensas.
Friporte
Adiante, adiante, o Senhor prometeu-me rapidez.
Afinal quanto é que precisa?
Smitendpedro
Uns 6 milhões, talvez já dê.
Friporte
6 milhões? Você está maluco? Para quê tanto dinheiro?
Smitendpedro
Sr. Friporte, isto tem Ministros e altos funcionários envolvidos, não julgue que eles vão lá por pouco.
O país é do terceiro mundo, mas as elites também gostam de viver bem.
Friporte
Bem? É mas é muito bem. Assim se calhar nem o investimento vale a pena.
Smitendpedro
Ora, ora Sr. Friporte aquilo vai ser um maná, em Alcochete, zona lindíssima e ainda por cima já se fala num novo aeroporto para lá.
Friporte
Bom, você leva-me à ruína mas está bem, para que não hajam desculpas.
Afasta-se e preenche um cheque
Friporte
Tome lá, e ande com isso depressa e não há mais, ouviu.
Smitendpedro
Muito obrigado Sr. Friporte, agora há condições para ficar tudo resolvido.
Cumprimentam-se e Friporte sai.
Cena III
Ficam Smitendpedro e a Secretária
Smitendpedro
D. Secretária, parece que nos safámos. O cheque já está aqui na mão.
Secretária
Eu guardo-o no cofre, é muito dinheiro.
Smitendpedro
É melhor, para já, mas comece já a tratar para o depositar nas Ilhas Caimão, na minha conta, ouviu?
Sabe como fazê-lo?
Secretária
Oh Sr. Smitendpedro, então não havia de saber?
Não tenho feito outra coisa desde que trabalho consigo.
Smitendpedro
Está bem mas agora é muito dinheiro, tem que fazê-lo rápido e nem uma palavra a ninguém.
Secretária
Não se preocupe Sr. Smitendpedro, amanhã já lá vai estar e, como sabe, eu aqui sou sempre surda e muda.
Cena IV
Passados uns meses na casa de Tio que voltando-se para a plateia, profere o seguinte solilóquio.
Tio
Como no teatro, o actor só brilha porque outros, no escuro e no silêncio manipulam milhares de cabos que comandam cenários e cortinas, orientam os holofotes para o centro da acção, que sem esses holofotes não seriam mais do que mais um recanto escuro.
Mas é assim o mundo injusto, onde uns se esforçam e permitem tudo, outros por engenho ou um acaso da sorte tomam para si esse sucesso e é sobre esses que recaiem as benesses.
Quem, se não eu, abriu as portas do poder a Smitenpedro?
Quem, se não eu, permitiu que o capital se implantasse em Alcochete?
Todavia dos 4 milhões que diziam que tinham, nem um tostão me chegou!
Já é ter azar!
Senta-se pesaroso e o pano desce
2009-02-04
O Outlet da discórdia - Acto III
ActoIII
Cena I
No seu gabinete, Josesito conversa com o Operativo
Josesito
Já viste isto, diz-me o meu tio que estão a pedir imenso dinheiro para licenciar o Outlet do Friporte.
Operativo
É natural, há sempre gente a aproveitar-se.
Josesito
É estes ingleses que acham que nós somos todos corruptos, puta que os pariu.
Operativo
Todos, não seremos mas há bastantes.
Josesito
Para lhes calar a boca o melhor é despachar isso depressa.
Operativo
Agora não dá estamos só em gestão.
Josesito
Não dá o quê? O Ministro sou eu carago, trata-me disso rapidamente ouviste.
Operativo
Ok chefe, vou já falar com o Secretário de Estado e os outros.
Cena II
Na rua, junto ao ministério um mendigo que é de facto Franco Carlutchi, rumina para a plateia
Franco Carlutchi
Chegou a minha vez, a teia está urdida.
Primeiro apodero-me de Friporte, Eu ?, claro que não, sou apenas um mendigo (ri: ih, ih) mas o Carlaile que não é outro senão eu.
É só comprar o outlet e soltar o meu veneno, mordendo um e outro, suave nuns casos violento noutros até que a infecção alastre.
Ah Iago, aprende comigo!
O pano desce.
(continua)
Cena I
No seu gabinete, Josesito conversa com o Operativo
Josesito
Já viste isto, diz-me o meu tio que estão a pedir imenso dinheiro para licenciar o Outlet do Friporte.
Operativo
É natural, há sempre gente a aproveitar-se.
Josesito
É estes ingleses que acham que nós somos todos corruptos, puta que os pariu.
Operativo
Todos, não seremos mas há bastantes.
Josesito
Para lhes calar a boca o melhor é despachar isso depressa.
Operativo
Agora não dá estamos só em gestão.
Josesito
Não dá o quê? O Ministro sou eu carago, trata-me disso rapidamente ouviste.
Operativo
Ok chefe, vou já falar com o Secretário de Estado e os outros.
Cena II
Na rua, junto ao ministério um mendigo que é de facto Franco Carlutchi, rumina para a plateia
Franco Carlutchi
Chegou a minha vez, a teia está urdida.
Primeiro apodero-me de Friporte, Eu ?, claro que não, sou apenas um mendigo (ri: ih, ih) mas o Carlaile que não é outro senão eu.
É só comprar o outlet e soltar o meu veneno, mordendo um e outro, suave nuns casos violento noutros até que a infecção alastre.
Ah Iago, aprende comigo!
O pano desce.
(continua)
2009-02-03
O Outlet da discórdia - Acto II
Acto II
Cena I
Num bar na Quinta do Lago no Algarve, a uma mesa bebem e conversam Smitendpedro e Tio
Smitendpedro
Pois é caro Tio, que país este! Imagine que me andam a pedir 4 milhões para conseguir o licenciamento de um “outlet” em Alcochete.
Tio
4 milhões? Mas isso é uma barbaridade, Quem é que pede isso?
Smitendpedro
Um escritório de advogados, imagine.
Tio
Que pouca-vergonha, ainda que fosse para alguém que os mereça, mesmo assim é muito, deixe estar que eu já falo ao Josesito.
Smitendpedro
O Josesito, Ministro?
Tio
Sim, o filho da minha irmã, sou tu cá tu lá, com ele.
Smitendpedro
Isso é que é ouro sobre azul, quando é que pode falar?
Tio
Já agora, espere um momento.
Cena II
Tio afasta-se um pouco e liga o telemóvel para Josesito
Tio
Está, és tu Josesito? Eu estou aqui com o amigo Smitendpedro que me está a dizer que há um gabinete de advogados ou lá o qu é que está a pedir 4 milhões para licenciar um “outlet” em Alcochete, será possível?
Josesito
Não pode ser, que história mal contada, mas que Outlet é esse?
Tio
Não sei bem parece que é de um tal Friporte.
Josesito
Ah, ele que fale comigo para me explicar isso, que marque com a Secretária.
Tio
Vou-lhe dizer, porque de facto assim não pode ser, obrigado.
Cena III
Deligando o telemóvel e voltando à mesa com Smitendpedro
Tio
Ele também acha que não pode ser, 4 milhões é muito, o melhor é falares com ele, pede uma audiência à Secretária.
Smitendpedro
Está bem pá, vou tratar já disso, obrigadíssimo.
Continuam a conversar em voz mais baixa e o pano desc
(continua)
Cena I
Num bar na Quinta do Lago no Algarve, a uma mesa bebem e conversam Smitendpedro e Tio
Smitendpedro
Pois é caro Tio, que país este! Imagine que me andam a pedir 4 milhões para conseguir o licenciamento de um “outlet” em Alcochete.
Tio
4 milhões? Mas isso é uma barbaridade, Quem é que pede isso?
Smitendpedro
Um escritório de advogados, imagine.
Tio
Que pouca-vergonha, ainda que fosse para alguém que os mereça, mesmo assim é muito, deixe estar que eu já falo ao Josesito.
Smitendpedro
O Josesito, Ministro?
Tio
Sim, o filho da minha irmã, sou tu cá tu lá, com ele.
Smitendpedro
Isso é que é ouro sobre azul, quando é que pode falar?
Tio
Já agora, espere um momento.
Cena II
Tio afasta-se um pouco e liga o telemóvel para Josesito
Tio
Está, és tu Josesito? Eu estou aqui com o amigo Smitendpedro que me está a dizer que há um gabinete de advogados ou lá o qu é que está a pedir 4 milhões para licenciar um “outlet” em Alcochete, será possível?
Josesito
Não pode ser, que história mal contada, mas que Outlet é esse?
Tio
Não sei bem parece que é de um tal Friporte.
Josesito
Ah, ele que fale comigo para me explicar isso, que marque com a Secretária.
Tio
Vou-lhe dizer, porque de facto assim não pode ser, obrigado.
Cena III
Deligando o telemóvel e voltando à mesa com Smitendpedro
Tio
Ele também acha que não pode ser, 4 milhões é muito, o melhor é falares com ele, pede uma audiência à Secretária.
Smitendpedro
Está bem pá, vou tratar já disso, obrigadíssimo.
Continuam a conversar em voz mais baixa e o pano desc
(continua)
2009-02-02
O Outlet da discórdia- Acto I
O Outlet da discórdia
Longavista
Caro amigo, o Sr.Friporte já aí vem e tudo se vai arranjar.
Smitendpedro
Mas o homem tem mesmo dinheiro? É que isto não vai ser barato.
Longavista
É riquíssimo e quer investir, só o que não domina é Portugal e é mesmo para isso que o meu amigo está aqui.
Smitendpedro
Vamos a ver, é que isto não vai sair nada barato.
Entra Friporte
Friporte
Bom dia meus senhores.
Longavista
Bom dia, este é o meu amigo Smitendpedro de que lhe falei e já está a par da situação, é só preciso ver os detalhes.
Friporte
Muito prazer, Sr. Smitendpedro, o Longavista tem me falado de si e diz-me que o Senhor, em Portugal, se mexe muito bem.
Smitendpedro
Muito prazer Sr. Friporte, Longavista não o enganou, eu já sou meio português e trato por tu aquela gente toda, só que vai ser preciso muito dinheiro, sabe, como é num “PIGS”.
Friporte
Dinheiro não há-de ser problema, tem é que me garantir que sai tudo certinho, a papelada toda correcta, tudo na lei, não quero problemas
Smitendpedro
Oh Sr. Friporte, dessa parte sei eu bem, é só uma questão de dinheiro. Haja dinheiro que todas as portas se abrem.
Friporte
Assim seja, pode começar a tratar de tudo mas seja rápido que eu não tenho
tempo a perder.
Smitendpedro
Rapidíssimo, vai ver.
Enquanto os outros se afastam, Friporte volta-se para a plateia profere o seguinte solilóquio.
Friporte
Voa, voa Capital que o teu lugar é o mundo.
Tu és como o Sol que dá calor e brilho a todos que o merecem e seca as ervas daninhas e destruí os párias e os inúteis que nem deveriam ter nascido.
Eu te adoro Capital, e apoio a tua luta.
Tragicomédia em 5 actos
Obra de imaginação de
Pentalomino de Arifante.
Dramatis Personae
Friporte, senhor do capital.
Longavista, assessor de Friporte
Smitendpedro, aventureiro de origem inglesa mas radicado há muitos anos em Portugal, de facto meio português
Tio, aventureiro português, bem relacionado, amigo de Smitendpedro e de Josesito
Josesito, nobre da corte portuguesa, ambicioso e talentoso, Ministro do governo no início da peça e Presidente do Governo no seu final.
Operativo, assessor de Josesito
Secretária, funcionária operativa de Smitendpedro
Inglês, figura sinistra embuçada, é uma autoridade britânica, nebulosa e poderosa.
Procurador, autoridade portuguesa.
D. Massmedia, Senhora da imprensa, amiga de todos e inimiga dos mesmos todos.
Coro, encarnação fantástica do pensamento comum do povo português.
Franco Carlutchi, figura sinistra, eminência parda, aparece apenas sob a forma de mendigo.
Acto I
Cena I
Sala de um “business center” em Londres
Entram Friporte e Longavista
Friporte
Estou farto desta apatia, tenho que ampliar os meus negócios.
Longavista
Sr. Friporte, como eu já lhe tenho dito, o senhor devia investir em Portugal, tem aí imensas oportunidades.
Friporte
Num “PIGS”, tenha juízo, ia-me meter em muitos sarilhos, nem pensar nisso.
Longavista
Sr. Friporte, em Portugal é trigo limpo, eu conheço quem o pode ajudar, fazia-se lá um “outlet” em Alcochete que é uma zona muito bonita, junto ao Tejo e tem um grande potencial de crescimento.
Friporte
Junto ao Tejo? Deve ser área protegida, não é para lá que voam os alfaiates do Wash”?
Longavista
É, e tem lá outras aves protegidas, mas eles não ligam nenhuma, é muito fácil.
Friporte
Mas têm muita burocracia, para arranjar uma licença é o cabo dos trabalhos.
Longavista
Aí é que entra o meu amigo Smitendpedro, ele conhece aquilo muito bem, sabe mexer todos os cordelinhos.
Friporte
Se assim é, vamos falar com esse homem o Smitendpedro e logo se vê.
Cena II
Na mesma sala, entram Longavista e Smitendpedro.
Obra de imaginação de
Pentalomino de Arifante.
Dramatis Personae
Friporte, senhor do capital.
Longavista, assessor de Friporte
Smitendpedro, aventureiro de origem inglesa mas radicado há muitos anos em Portugal, de facto meio português
Tio, aventureiro português, bem relacionado, amigo de Smitendpedro e de Josesito
Josesito, nobre da corte portuguesa, ambicioso e talentoso, Ministro do governo no início da peça e Presidente do Governo no seu final.
Operativo, assessor de Josesito
Secretária, funcionária operativa de Smitendpedro
Inglês, figura sinistra embuçada, é uma autoridade britânica, nebulosa e poderosa.
Procurador, autoridade portuguesa.
D. Massmedia, Senhora da imprensa, amiga de todos e inimiga dos mesmos todos.
Coro, encarnação fantástica do pensamento comum do povo português.
Franco Carlutchi, figura sinistra, eminência parda, aparece apenas sob a forma de mendigo.
Acto I
Cena I
Sala de um “business center” em Londres
Entram Friporte e Longavista
Friporte
Estou farto desta apatia, tenho que ampliar os meus negócios.
Longavista
Sr. Friporte, como eu já lhe tenho dito, o senhor devia investir em Portugal, tem aí imensas oportunidades.
Friporte
Num “PIGS”, tenha juízo, ia-me meter em muitos sarilhos, nem pensar nisso.
Longavista
Sr. Friporte, em Portugal é trigo limpo, eu conheço quem o pode ajudar, fazia-se lá um “outlet” em Alcochete que é uma zona muito bonita, junto ao Tejo e tem um grande potencial de crescimento.
Friporte
Junto ao Tejo? Deve ser área protegida, não é para lá que voam os alfaiates do Wash”?
Longavista
É, e tem lá outras aves protegidas, mas eles não ligam nenhuma, é muito fácil.
Friporte
Mas têm muita burocracia, para arranjar uma licença é o cabo dos trabalhos.
Longavista
Aí é que entra o meu amigo Smitendpedro, ele conhece aquilo muito bem, sabe mexer todos os cordelinhos.
Friporte
Se assim é, vamos falar com esse homem o Smitendpedro e logo se vê.
Cena II
Na mesma sala, entram Longavista e Smitendpedro.
Longavista
Caro amigo, o Sr.Friporte já aí vem e tudo se vai arranjar.
Smitendpedro
Mas o homem tem mesmo dinheiro? É que isto não vai ser barato.
Longavista
É riquíssimo e quer investir, só o que não domina é Portugal e é mesmo para isso que o meu amigo está aqui.
Smitendpedro
Vamos a ver, é que isto não vai sair nada barato.
Entra Friporte
Friporte
Bom dia meus senhores.
Longavista
Bom dia, este é o meu amigo Smitendpedro de que lhe falei e já está a par da situação, é só preciso ver os detalhes.
Friporte
Muito prazer, Sr. Smitendpedro, o Longavista tem me falado de si e diz-me que o Senhor, em Portugal, se mexe muito bem.
Smitendpedro
Muito prazer Sr. Friporte, Longavista não o enganou, eu já sou meio português e trato por tu aquela gente toda, só que vai ser preciso muito dinheiro, sabe, como é num “PIGS”.
Friporte
Dinheiro não há-de ser problema, tem é que me garantir que sai tudo certinho, a papelada toda correcta, tudo na lei, não quero problemas
Smitendpedro
Oh Sr. Friporte, dessa parte sei eu bem, é só uma questão de dinheiro. Haja dinheiro que todas as portas se abrem.
Friporte
Assim seja, pode começar a tratar de tudo mas seja rápido que eu não tenho
tempo a perder.
Smitendpedro
Rapidíssimo, vai ver.
Enquanto os outros se afastam, Friporte volta-se para a plateia profere o seguinte solilóquio.
Friporte
Voa, voa Capital que o teu lugar é o mundo.
Tu és como o Sol que dá calor e brilho a todos que o merecem e seca as ervas daninhas e destruí os párias e os inúteis que nem deveriam ter nascido.
Eu te adoro Capital, e apoio a tua luta.
Contra o teu poder não há canto de ave que se ouça, não há pantanal pútrido que ouse desafiar-te.
Tu és a ordem e o progresso, nem imperadores têm poder sobre ti, porque o teu braço é mais forte e a todos derruba.
Com o teu sucesso eu alcançarei a minha felicidade
Saem todos conversando alegremente e o pano desce
Notas do autor:
1. Alfaiates são espécies avícolas que partilham o seu habitat entre o rio Wash, no Reino Unido, e o rio Tejo, em Portugal.
Tu és a ordem e o progresso, nem imperadores têm poder sobre ti, porque o teu braço é mais forte e a todos derruba.
Com o teu sucesso eu alcançarei a minha felicidade
Saem todos conversando alegremente e o pano desce
Notas do autor:
1. Alfaiates são espécies avícolas que partilham o seu habitat entre o rio Wash, no Reino Unido, e o rio Tejo, em Portugal.
2. PIGS é um acrónimo que designa, para alguns meios da finança, política e comunicação do Reino Unido, os 4 países do Sul da Europa, com pior fama: Portugal, Itália, Grécia e Espanha .
(continua)
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