Agora que o nosso parlamento parece considerar a hipótese de colocar no “main stream” a questão do “testamento vital”, para procurar evitar os embaraços que enfrentam os profissionais que têm que lidar com doentes terminais, ou talvez não, mas que absolutamente perderam a capacidade de exprimir a sua vontade, lembrei-me da grande questão ética colocada a Max Brod quando herdou os manuscritos de Kafka com expressas instruções para os destruir. Questão amplamente analisada e debatida por grandes vultos da alta cultura, como Witgenstein.
Max Brod, grande amigo e conhecedor de Kafka, sabia que esses manuscritos eram obras geniais, o que Kafka também sabia embora fosse muito descrente de que o mundo o reconhecesse.
Simplificando, porque esta questão suscita amplos debates, Max Brod, aparentemente, raciocinou assim:
Se ele queria destruir as suas obras, como aliás destruiu algumas, devia tê-lo feito ele mesmo. Quando mas deixou para eu as destruir, foi porque quis entregar a sua decisão final ao meu discernimento e, no fundo, sabia que eu não cumpriria essa promessa. Ao dar-mas, entregou-me o destino dessas obras.
Hoje, o mundo agradece a Max Brod essa “traição”. Sem essa “traição” não teríamos “O Processo”, a “Metamorfose”, “O Castelo” ou a “América” nem mesmo saberíamos, como ainda não sabemos de facto, como se chamaria esse romance, essa obra prima incompleta de Kafka.
Voltando ao testamento vital a minha questão coloca-se nesse nível.
O que me apetece escrever é “que se encarníssem nos tratamentos para me prolongar a vida”, mas isto apenas para chatear o sistema, como forma de terrorismo poético, porque no fundo o que quero nessa situação terminal, é que encontre decisores de bom senso e, sobretudo que ninguém seja punido pela lei, pela decisão que honestamente tomar, seja ela qual for.
2009-03-11
2009-03-10
O discurso delirante
Enquanto preparo uma minha deslocação ao Kosovo, de que em breve darei conta aqui, vou assistindo ao debate que se vai fazendo em Portugal.
A crise que tinha sido prevista por muitos teóricos da margem, com base numa análise simplíssima que apenas constatava o óbvio: “Não pode ser sustentável um modelo económico que se baseie num crescimento constante, num mundo finito e limitado”, não foi ainda compreendido pelos analistas e decisores do “main stream” e eles lá persistem a construir diques, a abrir buracos, como baratas tontas, procurando que tudo volte ao normal ao tolerável, embora já reconheçam que no fundo, no fundo, ninguém sabe o que faz ou o que fazer.
Por outro lado os “media” regozijam com as “ignorantes cidadãs” que chamaram badalhoca a Carolina Salgado mas não disseram uma palavra quando, no âmbito do mesmo processo ou afim, um Senhor ou Senhora Juiz referiu que o livro de Carolina não tinha credibilidade porque vinha de quem vinha, uma ex-prostituta, subentenda-se, criando uma nova jurisprudência: “Uma prostituta ou ex prostituta é incapaz de falar verdade” dizendo a mesma coisa do que a simplicidade das “ignorantes cidadãs”: é uma badalhoca, fascista, nem me interessa o que ela diz.
Seja no mundo da política, da economia, da justiça da educação ou do que seja, vê-se a mesma alienação, apenas um discurso delirante.
A crise que tinha sido prevista por muitos teóricos da margem, com base numa análise simplíssima que apenas constatava o óbvio: “Não pode ser sustentável um modelo económico que se baseie num crescimento constante, num mundo finito e limitado”, não foi ainda compreendido pelos analistas e decisores do “main stream” e eles lá persistem a construir diques, a abrir buracos, como baratas tontas, procurando que tudo volte ao normal ao tolerável, embora já reconheçam que no fundo, no fundo, ninguém sabe o que faz ou o que fazer.
Por outro lado os “media” regozijam com as “ignorantes cidadãs” que chamaram badalhoca a Carolina Salgado mas não disseram uma palavra quando, no âmbito do mesmo processo ou afim, um Senhor ou Senhora Juiz referiu que o livro de Carolina não tinha credibilidade porque vinha de quem vinha, uma ex-prostituta, subentenda-se, criando uma nova jurisprudência: “Uma prostituta ou ex prostituta é incapaz de falar verdade” dizendo a mesma coisa do que a simplicidade das “ignorantes cidadãs”: é uma badalhoca, fascista, nem me interessa o que ela diz.
Seja no mundo da política, da economia, da justiça da educação ou do que seja, vê-se a mesma alienação, apenas um discurso delirante.
2009-03-07
Os lucros da Galp e da EDP
Ambas estas empresas, apesar da grave crise internacional apresentaram enormes lucros.
A questão é a seguinte:
Devemos ficar contentes?
OuDevemos ficar tristes?
A questão é a seguinte:
Devemos ficar contentes?
OuDevemos ficar tristes?
2009-03-04
Reflexão filosófica a propósito das correntes comemorações de Darwin
Para mim, assim como o pensamento dominante do Ocidente esteve, nos últimos 2 milénios, condicionado por duas grandes figuras: Sócrates e Jesus Cristo, desde o fim do século IXX emergiu um novo paradigma que se incorporou, como pôde, ao anterior, apoiado em Copérnico e Galileu, mas que é dominado por 4 novas grandes figuras: Marx, Freud, e Darwin e Einstein.
Simplifico assim para maior clareza, de facto, disse Ocidente, porque numa remota aldeia da China, por exemplo, Sócrates ou Jesus Cristo foram nomes provavelmente nunca ouvidos, mas numa remota aldeia de Portugal, se falarmos de Marx, Freud, Darwin ou Einstein, as pessoas não fazem ideia de quem foram, podem até pensar que são actores de cinema ou jogadores de futebol mas os nomes não lhes serão totalmente estranhos.
Por outro lado, quando falo de grandes figuras, não me esqueço de tantas outras, do mesmo ou de ainda maior calibre, como de Platão, de Copérnico e de Galileu, que já citei, de Newton e de Espinosa… enfim dum vastíssimo role mas que de facto não teve o mesmo efeito global, que transcenda um restrito, ainda que muito grande, grupo de estudiosos
Falemos todavia de Darwin, da origem das espécies, da evolução, da sobrevivência dos mais aptos.
Darwin, ele próprio, pressentiu a revolução que ia causar, os danos que poderia sofrer e atrasou bastante a publicação da sua obra.
Mas a clarividência impôs-se e a própria Igreja católica, com um golpe de rins, nos quais é hábil, conseguiu tudo incorporar, ainda que o criacionismo “stricto sensu” comece a ter hoje novos adeptos em novas Igrejas Cristãs, aparentemente menos aptas, sobretudo nos EUA.
Ficou todavia uma dúvida persistente, mesmo para os que não são católicos: a ética.
Darwin parece que descobriu que a natureza não tem ética, é o mais apto que vence, não o melhor ou o mais bom e, se a natureza é Deus, como para alguns filósofos, ou a Sua obra para os cristãos, Deus não terá então ética o que será também a sua negação.
E é aqui que nasce um mundo de reflexão, o que é a ética? O que é o bom? O que é o melhor?
Darwin coloca-nos assim uma nova questão: Será que a natureza não tem uma ética ou será que é na natureza que deveremos encontrar a ética?
Eu julgo que a Resposta que procuramos hoje será a resposta a esta questão.
Simplifico assim para maior clareza, de facto, disse Ocidente, porque numa remota aldeia da China, por exemplo, Sócrates ou Jesus Cristo foram nomes provavelmente nunca ouvidos, mas numa remota aldeia de Portugal, se falarmos de Marx, Freud, Darwin ou Einstein, as pessoas não fazem ideia de quem foram, podem até pensar que são actores de cinema ou jogadores de futebol mas os nomes não lhes serão totalmente estranhos.
Por outro lado, quando falo de grandes figuras, não me esqueço de tantas outras, do mesmo ou de ainda maior calibre, como de Platão, de Copérnico e de Galileu, que já citei, de Newton e de Espinosa… enfim dum vastíssimo role mas que de facto não teve o mesmo efeito global, que transcenda um restrito, ainda que muito grande, grupo de estudiosos
Falemos todavia de Darwin, da origem das espécies, da evolução, da sobrevivência dos mais aptos.
Darwin, ele próprio, pressentiu a revolução que ia causar, os danos que poderia sofrer e atrasou bastante a publicação da sua obra.
Mas a clarividência impôs-se e a própria Igreja católica, com um golpe de rins, nos quais é hábil, conseguiu tudo incorporar, ainda que o criacionismo “stricto sensu” comece a ter hoje novos adeptos em novas Igrejas Cristãs, aparentemente menos aptas, sobretudo nos EUA.
Ficou todavia uma dúvida persistente, mesmo para os que não são católicos: a ética.
Darwin parece que descobriu que a natureza não tem ética, é o mais apto que vence, não o melhor ou o mais bom e, se a natureza é Deus, como para alguns filósofos, ou a Sua obra para os cristãos, Deus não terá então ética o que será também a sua negação.
E é aqui que nasce um mundo de reflexão, o que é a ética? O que é o bom? O que é o melhor?
Darwin coloca-nos assim uma nova questão: Será que a natureza não tem uma ética ou será que é na natureza que deveremos encontrar a ética?
Eu julgo que a Resposta que procuramos hoje será a resposta a esta questão.
2009-03-02
Os pobres ácaros dos colchões
Como fitiatra conheço ácaros há muito tempo.
São pequeníssimas criaturas, aracnídeos, que atormentam a vida a muitas plantas.
Temos já diversos acaricidas para os matar quando eles impedem o normal desenvolvimento das plantas que nos servem.
Segundo me demonstraram agentes de vendas de potentes aspiradores, os colchões das nossas camas são um óptimo habitat. Há centenas de anos que eles lá vivem, felizes da vida sem que eu me tenha nunca apercebido disso.
Dizem-me todavia que há gente que sofre e, de facto, é rara a criança que não demonstra alergia aos ácaros do pó, o meu filho foi um caso, analisado e comprovado pela ciência e muito provavelmente eu fui, sem saber, também uma dessas criança.
Provavelmente, dado que quase todo o ser humano, eu incluído, é alérgico à vida ou a alguns aspectos dela.
Mas, a verdade é esta, lá vamos vivendo e a presença de ácaros no meu colchão nunca foi para mim um real problema.
Hoje, ao ver um anúncio desses aspiradores, observei-o segundo o ponto de vista desses pobres ácaros.
E ouvi-os dizer:
“Há centenas de anos que convivemos com os humanos em pás.
Eles rebolam-se como querem sobre os colchões e vão deixando, células velhas escamadas da sua pele que são um maná para mim, De vez em quanto lá batem os colchões, matando-nos aos milhares mas são calamidades inevitáveis e logo a vida continua em paz.
Para quê eliminar-nos definitivamente? Para quê a “bomba atómica” desses terríveis aspiradores dizimadores.Porque será que os homens se preocupam tanto com a defesa dos animais grandes, que eles vêm à vista desarmada e, embora inteligentes, não têm nenhum respeito por nós pequeninos ácaros, ainda que sejamos visíveis com uma simples lupa?
São pequeníssimas criaturas, aracnídeos, que atormentam a vida a muitas plantas.
Temos já diversos acaricidas para os matar quando eles impedem o normal desenvolvimento das plantas que nos servem.
Segundo me demonstraram agentes de vendas de potentes aspiradores, os colchões das nossas camas são um óptimo habitat. Há centenas de anos que eles lá vivem, felizes da vida sem que eu me tenha nunca apercebido disso.
Dizem-me todavia que há gente que sofre e, de facto, é rara a criança que não demonstra alergia aos ácaros do pó, o meu filho foi um caso, analisado e comprovado pela ciência e muito provavelmente eu fui, sem saber, também uma dessas criança.
Provavelmente, dado que quase todo o ser humano, eu incluído, é alérgico à vida ou a alguns aspectos dela.
Mas, a verdade é esta, lá vamos vivendo e a presença de ácaros no meu colchão nunca foi para mim um real problema.
Hoje, ao ver um anúncio desses aspiradores, observei-o segundo o ponto de vista desses pobres ácaros.
E ouvi-os dizer:
“Há centenas de anos que convivemos com os humanos em pás.
Eles rebolam-se como querem sobre os colchões e vão deixando, células velhas escamadas da sua pele que são um maná para mim, De vez em quanto lá batem os colchões, matando-nos aos milhares mas são calamidades inevitáveis e logo a vida continua em paz.
Para quê eliminar-nos definitivamente? Para quê a “bomba atómica” desses terríveis aspiradores dizimadores.Porque será que os homens se preocupam tanto com a defesa dos animais grandes, que eles vêm à vista desarmada e, embora inteligentes, não têm nenhum respeito por nós pequeninos ácaros, ainda que sejamos visíveis com uma simples lupa?
2009-02-25
A importância de um Hã
Ainda me doem as mãos de algumas palmatoadas que apanhei há cerca de 51 anos por ter questionado a minha professora primária, sobre algo que não tinha compreendido bem com um “hâ?”, em vez de uns civilizados “o quê?” ou “como?”.
Desta história retira-se que naquele tempo era legítimo aos professores primários aplicar castigos corporais aos seus alunos, bem longe deste tempo em que são mais os alunos a usar estes métodos com os professores.
Mas isto é irrelevante para o que pretendo dizer.
O que me magoou, até agora, nessas palmatoadas é que logo as avaliei como muito injustas.
O meu “hã” foi espontâneo, sem qualquer maldade e nos meus 8 anos eu ainda não dominava perfeitamente estes cambiantes da língua.
Mas ao ler o texto que se segue pude aperceber-me claramente como um “hã?” pode ferir como um punhal.
É um texto brilhante de Raul Brandão, um mestre da língua portuguesa, e que demonstra claramente como algumas poucas palavras podem dizer muito mais do que 1000 imagens:
“Tinha morrido na véspera. Nas últimas horas do dia nublado, ao sentir-se trespassada pelo frio, o da morte, chamara para junto de si a irmã, a Candidinha, uma mulher insignificante, envolta num xale gasto. Pelos vidros côa-se a luz baça do crepúsculo. Fora choram. A velha traça o xale, e a boca aumenta-lhe, avivam-se-lhe as rugas.
- A minha filha, peço-te… - diz-lhe a outra.
E entrega-lhe um maço de cartas.
A velha não responde. Um silêncio glacial. Na luz, que atravessa, antes de entrar no quarto, a espessura da água esverdeada, a Candidinha esboça um gesto de garra que se contrai. E a moribunda repete:
- Olha por ela… Tu sabes tudo.
A velha hesita; depois vai de súbito à porta e fecha-a de repelão. Transfigura-se: dum jacto sai daquela mulher amachucada e insignificante, uma figura de aço e ódio. Curva-se sobre a irmã e fala-lhe baixinho ao ouvido.
- Hã? …”
Raul Brandão in “A Farça”
Desta história retira-se que naquele tempo era legítimo aos professores primários aplicar castigos corporais aos seus alunos, bem longe deste tempo em que são mais os alunos a usar estes métodos com os professores.
Mas isto é irrelevante para o que pretendo dizer.
O que me magoou, até agora, nessas palmatoadas é que logo as avaliei como muito injustas.
O meu “hã” foi espontâneo, sem qualquer maldade e nos meus 8 anos eu ainda não dominava perfeitamente estes cambiantes da língua.
Mas ao ler o texto que se segue pude aperceber-me claramente como um “hã?” pode ferir como um punhal.
É um texto brilhante de Raul Brandão, um mestre da língua portuguesa, e que demonstra claramente como algumas poucas palavras podem dizer muito mais do que 1000 imagens:
“Tinha morrido na véspera. Nas últimas horas do dia nublado, ao sentir-se trespassada pelo frio, o da morte, chamara para junto de si a irmã, a Candidinha, uma mulher insignificante, envolta num xale gasto. Pelos vidros côa-se a luz baça do crepúsculo. Fora choram. A velha traça o xale, e a boca aumenta-lhe, avivam-se-lhe as rugas.
- A minha filha, peço-te… - diz-lhe a outra.
E entrega-lhe um maço de cartas.
A velha não responde. Um silêncio glacial. Na luz, que atravessa, antes de entrar no quarto, a espessura da água esverdeada, a Candidinha esboça um gesto de garra que se contrai. E a moribunda repete:
- Olha por ela… Tu sabes tudo.
A velha hesita; depois vai de súbito à porta e fecha-a de repelão. Transfigura-se: dum jacto sai daquela mulher amachucada e insignificante, uma figura de aço e ódio. Curva-se sobre a irmã e fala-lhe baixinho ao ouvido.
- Hã? …”
Raul Brandão in “A Farça”
2009-02-20
Falemos de café
Como português o café é fundamental para mim.
Como Agrónomo, fitiatra, o meu primeiro emprego foi no Instituto do Café de Angola (então ainda colónia), estudando métodos de combate a uma praga do cafeeiro: a broca do fruto.
Aprendi aí alguma coisa sobre esta bebida: história, lendas, mitos, verdades científicas, e, fundamentalmente, aprendi várias formas de a consumir.
Aprendi as diferenças entre as duas espécies dominantes, o café “arábica” e o “robusta”, desde a planta até à chávena, as diferenças entre elas e algumas implicações dos loteamentos e da forma das múltiplas transformações até ao produto final, o café bebível.
Como português, porém, a minha predilecção recai na “bica”, o café dominante em Portugal e quase único no mundo, embora comecem a aparecer vagamente aproximações com o nome genérico de “expresso”.
Mas a bica, a verdadeira bica é uma ciência e, como questionava um atónito estrangeiro “como é que numa chávena tão pequena os portugueses ainda estabelecem diferenças quanto à forma de a encher?” De facto há quem a queira pouco cheia, a “italiana”, a meio, “o curto”, a dois terços, “o normal” ou totalmente cheia, “a bica cheia”, e há ainda uma bica normal em chávena maior, “o abatanado” e refilam e trocam o pedido se este não respeitar estes detalhes. Depois há ainda outras variantes, como a bica com um pingo de leite, “o pingado”, com mais leite, “o garoto” ou com um pouco de água, “o carioca”.
Quanto ao café em si, uma boa bica tem que ter uma cobertura de creme espesso, castanha e sem bolhas, a bica ideal tem que passar o que eu chamo “o teste do açúcar” ou seja o açúcar adicionado deve permanecer cerca de um segundo incólume sobre a cobertura antes de mergulhar na chávena mas, ao mexê-lo, deve-se ver a cor preta do café começando a dominar a espuma superior e, depois de um primeiro gole, a espuma só é tolerada como uma leve coroa junto à borda da chávena.
É neste comportamento que se diferencia a bica de um vulgar expresso.
O “nespresso”, por exemplo, que tenho andado a estudar, passa sempre o teste do açúcar, mas não se liberta da espuma. Em grande parte dos 16 tipos de café da “nespesso” a cor preta do café nem se chega a ver. Assim não vale, assim não é uma bica.
Um Professor americano com quem convivi uns dias em Portugal, ficou impressionadíssimo com a nossa bica e fez uma análise apressada, interpretou que isso se devia ao café ser muito forte. Quando por sua vez recebeu um grupo de portugueses, entre os quais eu, nos EUA, deu instruções na Universidade para que o café que nos servissem fosse incrivelmente forte, quase intragável, e confidenciou-me “Eu mandei fazer assim forte para imitar o vosso café, mas na verdade não me diga que assim é melhor” “não é melhor não” respondi-lhe eu, “é que a diferença não está na quantidade de café”, mas depressa desisti de lhe tentar explicar o que era uma bica.
Mas o café não é apenas a bica, nem só nesta forma nos pode dar um prazer intenso.
Na Polónia, nas áreas de apoio das auto-estradas, em 2003, pelo menos, só serviam o café turco, em copo grande.
Com um frio de rachar lá fora, era para mim um intenso prazer segurar no copo durante vários minutos, esperando que o pó sedimentasse, aquecendo confortavelmente as mãos e divagando sobre o meu quotidiano, depois ingeria o café bem quente e saboroso. Era uma maravilha reconfortante.
O café turco, naquele contexto, quase conseguia superar a “bica”.
Como Agrónomo, fitiatra, o meu primeiro emprego foi no Instituto do Café de Angola (então ainda colónia), estudando métodos de combate a uma praga do cafeeiro: a broca do fruto.
Aprendi aí alguma coisa sobre esta bebida: história, lendas, mitos, verdades científicas, e, fundamentalmente, aprendi várias formas de a consumir.
Aprendi as diferenças entre as duas espécies dominantes, o café “arábica” e o “robusta”, desde a planta até à chávena, as diferenças entre elas e algumas implicações dos loteamentos e da forma das múltiplas transformações até ao produto final, o café bebível.
Como português, porém, a minha predilecção recai na “bica”, o café dominante em Portugal e quase único no mundo, embora comecem a aparecer vagamente aproximações com o nome genérico de “expresso”.
Mas a bica, a verdadeira bica é uma ciência e, como questionava um atónito estrangeiro “como é que numa chávena tão pequena os portugueses ainda estabelecem diferenças quanto à forma de a encher?” De facto há quem a queira pouco cheia, a “italiana”, a meio, “o curto”, a dois terços, “o normal” ou totalmente cheia, “a bica cheia”, e há ainda uma bica normal em chávena maior, “o abatanado” e refilam e trocam o pedido se este não respeitar estes detalhes. Depois há ainda outras variantes, como a bica com um pingo de leite, “o pingado”, com mais leite, “o garoto” ou com um pouco de água, “o carioca”.
Quanto ao café em si, uma boa bica tem que ter uma cobertura de creme espesso, castanha e sem bolhas, a bica ideal tem que passar o que eu chamo “o teste do açúcar” ou seja o açúcar adicionado deve permanecer cerca de um segundo incólume sobre a cobertura antes de mergulhar na chávena mas, ao mexê-lo, deve-se ver a cor preta do café começando a dominar a espuma superior e, depois de um primeiro gole, a espuma só é tolerada como uma leve coroa junto à borda da chávena.
É neste comportamento que se diferencia a bica de um vulgar expresso.
O “nespresso”, por exemplo, que tenho andado a estudar, passa sempre o teste do açúcar, mas não se liberta da espuma. Em grande parte dos 16 tipos de café da “nespesso” a cor preta do café nem se chega a ver. Assim não vale, assim não é uma bica.
Um Professor americano com quem convivi uns dias em Portugal, ficou impressionadíssimo com a nossa bica e fez uma análise apressada, interpretou que isso se devia ao café ser muito forte. Quando por sua vez recebeu um grupo de portugueses, entre os quais eu, nos EUA, deu instruções na Universidade para que o café que nos servissem fosse incrivelmente forte, quase intragável, e confidenciou-me “Eu mandei fazer assim forte para imitar o vosso café, mas na verdade não me diga que assim é melhor” “não é melhor não” respondi-lhe eu, “é que a diferença não está na quantidade de café”, mas depressa desisti de lhe tentar explicar o que era uma bica.
Mas o café não é apenas a bica, nem só nesta forma nos pode dar um prazer intenso.
Na Polónia, nas áreas de apoio das auto-estradas, em 2003, pelo menos, só serviam o café turco, em copo grande.
Com um frio de rachar lá fora, era para mim um intenso prazer segurar no copo durante vários minutos, esperando que o pó sedimentasse, aquecendo confortavelmente as mãos e divagando sobre o meu quotidiano, depois ingeria o café bem quente e saboroso. Era uma maravilha reconfortante.
O café turco, naquele contexto, quase conseguia superar a “bica”.
2009-02-17
Bom vinho
A propósito da demissão do Ministro das Finanças japonês, por ter participado “bêbado”, alegadamente devido ao álcool mas segundo o Ex-Ministro, devido a medicamentos que tomava associados a um pouco de álcool, de qualquer modo inegavelemente “bêbado”, numa conferência de imprensa; a TVI decidiu recordar-nos cenas públicas de grandes estadistas, onde estes apareceram igualmente “Bêbados”.
Citaram Churcill, que tem essa fama mas para o qual não há registos e mostraram Bill Clinton, Boris Ieltsen, George Bush e Sarcosi.
Uma coisa é certa, todos mostraram ter “bom vinho”, o que é uma grande virtude num ser humano.
Este é um excelente termo da sabedoria popular portuguesa que classifica uma boa reacção que muitos humanos têm ao álcool, alegria, boa disposição, humanidade e solidariedade, em oposição ao “mau vinho” que alguns demonstram também e que se caracteriza por agressividade, insolência, tristeza e má disposição.
Ao ver estas cenas, e vendo o “bom vinho” daqueles estadistas questionei-me se o mundo não poderia ser bem melhor se aquele fosse o seu estado permanente!
Eu penso sinceramente que sim.
Citaram Churcill, que tem essa fama mas para o qual não há registos e mostraram Bill Clinton, Boris Ieltsen, George Bush e Sarcosi.
Uma coisa é certa, todos mostraram ter “bom vinho”, o que é uma grande virtude num ser humano.
Este é um excelente termo da sabedoria popular portuguesa que classifica uma boa reacção que muitos humanos têm ao álcool, alegria, boa disposição, humanidade e solidariedade, em oposição ao “mau vinho” que alguns demonstram também e que se caracteriza por agressividade, insolência, tristeza e má disposição.
Ao ver estas cenas, e vendo o “bom vinho” daqueles estadistas questionei-me se o mundo não poderia ser bem melhor se aquele fosse o seu estado permanente!
Eu penso sinceramente que sim.
2009-02-16
Nação, Povo e Pátria
Há poucos meses assisti a uma conferência na livraria Bulhosa de Campo de Ourique onde se abordava o tema “nação”.
Foi bem interessante e intelectualmente estimulante, como sempre que procuramos dominar a imensa complexidade de todas as coisas simples.
A noção de nação, por exemplo, não nos trás geralmente muitas dificuldades, identifica-se com um estado, organizado num determinado território, e não teremos dúvida em considerar a Suiça ou a Espanha como nações embora, mesmo assim, já me pareça duvidoso que o Estado Palestiniano ou mesmo o Kosovo possam ser classificados como tal.
Depois há as noções afins de povo e pátria, bem mais complexas ainda.
Povo, poderemos tentar defini-lo como uma comunidade linguística e cultural geralmente também ligado a um território, todavia, se bem que eu reconheça o povo português, o povo brasileiro, o povo francês, inglês, alemão e japonês como povos que se encaixam naquela definição, já não reconheço um povo suíço, um povo espanhol, identificado com o seu território, e, por outro lado reconheço os povos cigano e judeu como povos independentes de nações.
A noção de Pátria então é ainda mais complexo e indefinível, como Pessoa disse “a minha pátria é a língua portuguesa”, para mim a minha pátria transcende Portugal, inclui o Brasil, Angola, Moçambique e todos os países da CPLP.
Nação, povo e pátria parecem-me questões bem polémicas e complexas mas muito interessantes também, penso eu.
Foi bem interessante e intelectualmente estimulante, como sempre que procuramos dominar a imensa complexidade de todas as coisas simples.
A noção de nação, por exemplo, não nos trás geralmente muitas dificuldades, identifica-se com um estado, organizado num determinado território, e não teremos dúvida em considerar a Suiça ou a Espanha como nações embora, mesmo assim, já me pareça duvidoso que o Estado Palestiniano ou mesmo o Kosovo possam ser classificados como tal.
Depois há as noções afins de povo e pátria, bem mais complexas ainda.
Povo, poderemos tentar defini-lo como uma comunidade linguística e cultural geralmente também ligado a um território, todavia, se bem que eu reconheça o povo português, o povo brasileiro, o povo francês, inglês, alemão e japonês como povos que se encaixam naquela definição, já não reconheço um povo suíço, um povo espanhol, identificado com o seu território, e, por outro lado reconheço os povos cigano e judeu como povos independentes de nações.
A noção de Pátria então é ainda mais complexo e indefinível, como Pessoa disse “a minha pátria é a língua portuguesa”, para mim a minha pátria transcende Portugal, inclui o Brasil, Angola, Moçambique e todos os países da CPLP.
Nação, povo e pátria parecem-me questões bem polémicas e complexas mas muito interessantes também, penso eu.
2009-02-12
A Eutanásia
No que se tem debatido, nestes dias sobre este tema, que me parece simplicíssimo, não consigo perceber a posição da Igreja Católica.
Então não é central à sua doutrina que Jesus Cristo cometeu uma eutanásia par nos salvar?
Custa ver tanto apego à vida terrena a quem promete a vida eterna depois da morte.
Então não é central à sua doutrina que Jesus Cristo cometeu uma eutanásia par nos salvar?
Custa ver tanto apego à vida terrena a quem promete a vida eterna depois da morte.
2009-02-10
Matt Harding
Este famoso vídeo tem corrido o mundo via e-mail e já o vi mesmo na tv.
É geralmente encarado como um vídeo curioso, insólito, engraçado e meio maluco.
Para mim é algo muito mais sério.
É um “statement”, uma espantosa obra de arte performativa, sempre que o vejo fico comovido e desperta-me o sentimento de como tudo, de facto poderia ser bem mais simples.
Dançar em vez de sofrer, usufruir em vez de destruir, sentir como em qualquer ponto do mundo, em todas as culturas, por mais exóticas que nos pareçam, sob todas as diferenças podemos ver sempre a mesma humanidade.
Tenho uma grande admiração pelos talentos que o conceberam.
É geralmente encarado como um vídeo curioso, insólito, engraçado e meio maluco.
Para mim é algo muito mais sério.
É um “statement”, uma espantosa obra de arte performativa, sempre que o vejo fico comovido e desperta-me o sentimento de como tudo, de facto poderia ser bem mais simples.
Dançar em vez de sofrer, usufruir em vez de destruir, sentir como em qualquer ponto do mundo, em todas as culturas, por mais exóticas que nos pareçam, sob todas as diferenças podemos ver sempre a mesma humanidade.
Tenho uma grande admiração pelos talentos que o conceberam.
2009-02-09
Tempo a mais e espaço a menos
O meu escritório está atulhado, um pequeno livro tem que lutar com outros para se conseguir aconchegar e, para mais, várias prateleiras estão a abarrotar de vestígios de uma tecnologia moribunda, cassetes de vídeo.
Ainda me lembro bem quando essa tecnologia apareceu com toda a força revolucionária, lembro-me do combate entre os sistemas Beta e VHS, que este último venceu, foi tudo ainda ontem, hoje, porem, parece que foi há séculos de tão velha que ela está.
Entretanto, enquanto deu, fui acumulando filmes e outras gravações que me enchem prateleiras de cassetes, que já nem sei bem o que contêm, mas que me custa destruir assim, sem mais nem menos.
Como o que falta em espaço me sobra em tempo, comecei a dedicar-me a ver uma por uma e passar para DVD tudo o que quiser conservar.
É uma tarefa, apenas começada e quase infindável mas também tem as suas compensações.
Logo na primeira que vi encontro uma espantosa versão do Hamlet, gravada não sei quando da BBC prime, é o melhor Hamlet que alguma vez vi e já o passei a DVD. Logo a seguir encontro, após um excelente filme que, todavia já tenho em DVD, o velho Rollerball de que já falei aqui, encontro duas das velhinhas pequenas histórias televisivas produzidas por Alfred Hitchcock, lembram-se?
Enfim, o que antevia ser uma estucha de tarefa está-me afinal a proporcionar horas de prazer.
Vamos ver o que o futuro revelará.
Ainda me lembro bem quando essa tecnologia apareceu com toda a força revolucionária, lembro-me do combate entre os sistemas Beta e VHS, que este último venceu, foi tudo ainda ontem, hoje, porem, parece que foi há séculos de tão velha que ela está.
Entretanto, enquanto deu, fui acumulando filmes e outras gravações que me enchem prateleiras de cassetes, que já nem sei bem o que contêm, mas que me custa destruir assim, sem mais nem menos.
Como o que falta em espaço me sobra em tempo, comecei a dedicar-me a ver uma por uma e passar para DVD tudo o que quiser conservar.
É uma tarefa, apenas começada e quase infindável mas também tem as suas compensações.
Logo na primeira que vi encontro uma espantosa versão do Hamlet, gravada não sei quando da BBC prime, é o melhor Hamlet que alguma vez vi e já o passei a DVD. Logo a seguir encontro, após um excelente filme que, todavia já tenho em DVD, o velho Rollerball de que já falei aqui, encontro duas das velhinhas pequenas histórias televisivas produzidas por Alfred Hitchcock, lembram-se?
Enfim, o que antevia ser uma estucha de tarefa está-me afinal a proporcionar horas de prazer.
Vamos ver o que o futuro revelará.
2009-02-08
Segredo de justiça
Começo a aperceber-me que o tão falado segredo de justiça não visa proteger as investigações que se vão fazendo.
A verdadeira razão parece ser a de esconder as investigações que se não fazem.
A verdadeira razão parece ser a de esconder as investigações que se não fazem.
2009-02-06
O Outlet da discórdia - Acto V
ACTO V
Numa praça pública em Portugal. De início está presente o coro e vão entrando Smitendpedro, tio, josesito, Inglês, procurador, D. Massmedia, e um mendigo que é Franco Carlutchi.
O Coro começa a cantar ao som da conhecida música infantil.
Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.
No seu canto remoendo as palavras.
Franco Carlutchi
Que me vou embora? Não, Que te vais embora.
Josesito
Mas que coro é este? Que mal fiz eu? Porque me tratam assim?
Inglês
Pois não é óbvio? Será que o senhor não recebeu milhões ou permitiu que alguém recebesse para aprovar o Outlet em tempo record, como foi feito?
Josesito
Eu não, isso são os meus inimigos ocultos que querem fazer crer
Procurador
De facto, nada está provado. Vamos continuar a averiguar
Josesito
Estão a ver, que isto é tudo inventado, não ouviram o Sr. Procurador
D. Massmedia
O que se sabe é que isto cheira muito mal. Há os milhões que o Smitendpedro pediu, há os despachos feitos a correr e em gestão, há o Inglês que sabe tudo.
Procurador
O Inglês sabe tudo, o tanas, nós é que estamos a investigar.
Tio
Tanto barulho para quê? Afinal eu é que facilitei tudo e nem obrigado me disseram.
Smitendpedro
Não facilitou nada, nós é que fomos os agentes
Depois, baixo para o Inglês.
Smitendpedro
Como sabem Portugal é um PIGS, o dinheiro foi para o Ministro e para muito mais gente.
Inglês
A gente bem sabe. Estes merdas nem a pequena Madie conseguiram encontrar.
D. Massmedia
O Sr. Inglês também tem a mania que é esperto mas também se espalha muito.
Inglês
Eu sou Inglês, ouviu?
O Coro recomeça a sua cantiga mas em tom mais baixo:
Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.
Josesito
Deixem, mas é, a justiça trabalhar
Procurador
Nós vamos continuar a trabalhar
Smitendpedro
Eu, por mim não tenho mais nada a dizer
D.Massmedia
Eu estou em cima, não deixo passar nada mas que isto cheira mal, cheira.
Todos se começam a afastar, excepto o mendigo Franco Carlutchi que a tudo assistiu com um sorriso irónico, se volta para a plateia e diz o seguinte solilóquio.
Franco Carlutchi
Portugal, Portugal, tu nem sabes quem te governa.
Se não fosse eu, quem, há 35 anos, te livrava das garras do monstro comunista?
E agora, quem, se não eu, te pode livrar do ambicioso, independente Josesito?
A Ferreira Leite? Ah Ah Ah.
Portugal, não saias da linha, deixa o meu veneno prosperar.
Para ti fica o espectáculo.
Para mim, a vitória.
O pano desce
FIM
Numa praça pública em Portugal. De início está presente o coro e vão entrando Smitendpedro, tio, josesito, Inglês, procurador, D. Massmedia, e um mendigo que é Franco Carlutchi.
O Coro começa a cantar ao som da conhecida música infantil.
Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.
No seu canto remoendo as palavras.
Franco Carlutchi
Que me vou embora? Não, Que te vais embora.
Josesito
Mas que coro é este? Que mal fiz eu? Porque me tratam assim?
Inglês
Pois não é óbvio? Será que o senhor não recebeu milhões ou permitiu que alguém recebesse para aprovar o Outlet em tempo record, como foi feito?
Josesito
Eu não, isso são os meus inimigos ocultos que querem fazer crer
Procurador
De facto, nada está provado. Vamos continuar a averiguar
Josesito
Estão a ver, que isto é tudo inventado, não ouviram o Sr. Procurador
D. Massmedia
O que se sabe é que isto cheira muito mal. Há os milhões que o Smitendpedro pediu, há os despachos feitos a correr e em gestão, há o Inglês que sabe tudo.
Procurador
O Inglês sabe tudo, o tanas, nós é que estamos a investigar.
Tio
Tanto barulho para quê? Afinal eu é que facilitei tudo e nem obrigado me disseram.
Smitendpedro
Não facilitou nada, nós é que fomos os agentes
Depois, baixo para o Inglês.
Smitendpedro
Como sabem Portugal é um PIGS, o dinheiro foi para o Ministro e para muito mais gente.
Inglês
A gente bem sabe. Estes merdas nem a pequena Madie conseguiram encontrar.
D. Massmedia
O Sr. Inglês também tem a mania que é esperto mas também se espalha muito.
Inglês
Eu sou Inglês, ouviu?
O Coro recomeça a sua cantiga mas em tom mais baixo:
Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.
Josesito
Deixem, mas é, a justiça trabalhar
Procurador
Nós vamos continuar a trabalhar
Smitendpedro
Eu, por mim não tenho mais nada a dizer
D.Massmedia
Eu estou em cima, não deixo passar nada mas que isto cheira mal, cheira.
Todos se começam a afastar, excepto o mendigo Franco Carlutchi que a tudo assistiu com um sorriso irónico, se volta para a plateia e diz o seguinte solilóquio.
Franco Carlutchi
Portugal, Portugal, tu nem sabes quem te governa.
Se não fosse eu, quem, há 35 anos, te livrava das garras do monstro comunista?
E agora, quem, se não eu, te pode livrar do ambicioso, independente Josesito?
A Ferreira Leite? Ah Ah Ah.
Portugal, não saias da linha, deixa o meu veneno prosperar.
Para ti fica o espectáculo.
Para mim, a vitória.
O pano desce
FIM
2009-02-05
O Outelet da discórdia - Acto IV
ACTO IV
Cena I
No Escritório de Smitendpedro, este conversa com a Secretária
Smitendpedro
D. Secretária, Já há novidades do outlet?
Secretária
Telefonaram hoje a dizer que a licença está quase no papo, só falta uma porcaria qualquer que se vai ultrapassar rápido
Smitendpedro
A Senhora, já sabe, quando chegar o Sr. Friporte tem que estar caladinha
Nada de lhe dizer que o assunto já está quase resolvido, ouviu?
Secretária
Eu sei Sr. Smitendpedro.
Eu não sei nada de nada e também não quero perder o meu emprego
Smitendpedro
È que se ele pressentir que já está tudo resolvido, é bem capaz de me roer a corda.
Sabe como são estes capitalistas.
Secretária
Comigo pode estar descansado, sou surda e muda.
Cena II
Tocam à porta, a Secretária abre e entra Friporte
Smitendpedro
Ora seja bem-vindo a este pobre escritório Sr. Friporte.
Friporte
Bom dia meus senhores, vamos ao que interessa.
Como é que vai o licenciamento do “outlet”?
Smitendpedro
Mal, Sr. Friporte, este país é terrível, é um “PIGS”, só anda à custa de dinheiro. Ele é papelada, ele é motivar funcionários, ele é uma carga de trabalhos e fora as minhas despesas que são imensas.
Friporte
Adiante, adiante, o Senhor prometeu-me rapidez.
Afinal quanto é que precisa?
Smitendpedro
Uns 6 milhões, talvez já dê.
Friporte
6 milhões? Você está maluco? Para quê tanto dinheiro?
Smitendpedro
Sr. Friporte, isto tem Ministros e altos funcionários envolvidos, não julgue que eles vão lá por pouco.
O país é do terceiro mundo, mas as elites também gostam de viver bem.
Friporte
Bem? É mas é muito bem. Assim se calhar nem o investimento vale a pena.
Smitendpedro
Ora, ora Sr. Friporte aquilo vai ser um maná, em Alcochete, zona lindíssima e ainda por cima já se fala num novo aeroporto para lá.
Friporte
Bom, você leva-me à ruína mas está bem, para que não hajam desculpas.
Afasta-se e preenche um cheque
Friporte
Tome lá, e ande com isso depressa e não há mais, ouviu.
Smitendpedro
Muito obrigado Sr. Friporte, agora há condições para ficar tudo resolvido.
Cumprimentam-se e Friporte sai.
Cena III
Ficam Smitendpedro e a Secretária
Smitendpedro
D. Secretária, parece que nos safámos. O cheque já está aqui na mão.
Secretária
Eu guardo-o no cofre, é muito dinheiro.
Smitendpedro
É melhor, para já, mas comece já a tratar para o depositar nas Ilhas Caimão, na minha conta, ouviu?
Sabe como fazê-lo?
Secretária
Oh Sr. Smitendpedro, então não havia de saber?
Não tenho feito outra coisa desde que trabalho consigo.
Smitendpedro
Está bem mas agora é muito dinheiro, tem que fazê-lo rápido e nem uma palavra a ninguém.
Secretária
Não se preocupe Sr. Smitendpedro, amanhã já lá vai estar e, como sabe, eu aqui sou sempre surda e muda.
Cena IV
Passados uns meses na casa de Tio que voltando-se para a plateia, profere o seguinte solilóquio.
Tio
Como no teatro, o actor só brilha porque outros, no escuro e no silêncio manipulam milhares de cabos que comandam cenários e cortinas, orientam os holofotes para o centro da acção, que sem esses holofotes não seriam mais do que mais um recanto escuro.
Mas é assim o mundo injusto, onde uns se esforçam e permitem tudo, outros por engenho ou um acaso da sorte tomam para si esse sucesso e é sobre esses que recaiem as benesses.
Quem, se não eu, abriu as portas do poder a Smitenpedro?
Quem, se não eu, permitiu que o capital se implantasse em Alcochete?
Todavia dos 4 milhões que diziam que tinham, nem um tostão me chegou!
Já é ter azar!
Senta-se pesaroso e o pano desce
Cena I
No Escritório de Smitendpedro, este conversa com a Secretária
Smitendpedro
D. Secretária, Já há novidades do outlet?
Secretária
Telefonaram hoje a dizer que a licença está quase no papo, só falta uma porcaria qualquer que se vai ultrapassar rápido
Smitendpedro
A Senhora, já sabe, quando chegar o Sr. Friporte tem que estar caladinha
Nada de lhe dizer que o assunto já está quase resolvido, ouviu?
Secretária
Eu sei Sr. Smitendpedro.
Eu não sei nada de nada e também não quero perder o meu emprego
Smitendpedro
È que se ele pressentir que já está tudo resolvido, é bem capaz de me roer a corda.
Sabe como são estes capitalistas.
Secretária
Comigo pode estar descansado, sou surda e muda.
Cena II
Tocam à porta, a Secretária abre e entra Friporte
Smitendpedro
Ora seja bem-vindo a este pobre escritório Sr. Friporte.
Friporte
Bom dia meus senhores, vamos ao que interessa.
Como é que vai o licenciamento do “outlet”?
Smitendpedro
Mal, Sr. Friporte, este país é terrível, é um “PIGS”, só anda à custa de dinheiro. Ele é papelada, ele é motivar funcionários, ele é uma carga de trabalhos e fora as minhas despesas que são imensas.
Friporte
Adiante, adiante, o Senhor prometeu-me rapidez.
Afinal quanto é que precisa?
Smitendpedro
Uns 6 milhões, talvez já dê.
Friporte
6 milhões? Você está maluco? Para quê tanto dinheiro?
Smitendpedro
Sr. Friporte, isto tem Ministros e altos funcionários envolvidos, não julgue que eles vão lá por pouco.
O país é do terceiro mundo, mas as elites também gostam de viver bem.
Friporte
Bem? É mas é muito bem. Assim se calhar nem o investimento vale a pena.
Smitendpedro
Ora, ora Sr. Friporte aquilo vai ser um maná, em Alcochete, zona lindíssima e ainda por cima já se fala num novo aeroporto para lá.
Friporte
Bom, você leva-me à ruína mas está bem, para que não hajam desculpas.
Afasta-se e preenche um cheque
Friporte
Tome lá, e ande com isso depressa e não há mais, ouviu.
Smitendpedro
Muito obrigado Sr. Friporte, agora há condições para ficar tudo resolvido.
Cumprimentam-se e Friporte sai.
Cena III
Ficam Smitendpedro e a Secretária
Smitendpedro
D. Secretária, parece que nos safámos. O cheque já está aqui na mão.
Secretária
Eu guardo-o no cofre, é muito dinheiro.
Smitendpedro
É melhor, para já, mas comece já a tratar para o depositar nas Ilhas Caimão, na minha conta, ouviu?
Sabe como fazê-lo?
Secretária
Oh Sr. Smitendpedro, então não havia de saber?
Não tenho feito outra coisa desde que trabalho consigo.
Smitendpedro
Está bem mas agora é muito dinheiro, tem que fazê-lo rápido e nem uma palavra a ninguém.
Secretária
Não se preocupe Sr. Smitendpedro, amanhã já lá vai estar e, como sabe, eu aqui sou sempre surda e muda.
Cena IV
Passados uns meses na casa de Tio que voltando-se para a plateia, profere o seguinte solilóquio.
Tio
Como no teatro, o actor só brilha porque outros, no escuro e no silêncio manipulam milhares de cabos que comandam cenários e cortinas, orientam os holofotes para o centro da acção, que sem esses holofotes não seriam mais do que mais um recanto escuro.
Mas é assim o mundo injusto, onde uns se esforçam e permitem tudo, outros por engenho ou um acaso da sorte tomam para si esse sucesso e é sobre esses que recaiem as benesses.
Quem, se não eu, abriu as portas do poder a Smitenpedro?
Quem, se não eu, permitiu que o capital se implantasse em Alcochete?
Todavia dos 4 milhões que diziam que tinham, nem um tostão me chegou!
Já é ter azar!
Senta-se pesaroso e o pano desce
2009-02-04
O Outlet da discórdia - Acto III
ActoIII
Cena I
No seu gabinete, Josesito conversa com o Operativo
Josesito
Já viste isto, diz-me o meu tio que estão a pedir imenso dinheiro para licenciar o Outlet do Friporte.
Operativo
É natural, há sempre gente a aproveitar-se.
Josesito
É estes ingleses que acham que nós somos todos corruptos, puta que os pariu.
Operativo
Todos, não seremos mas há bastantes.
Josesito
Para lhes calar a boca o melhor é despachar isso depressa.
Operativo
Agora não dá estamos só em gestão.
Josesito
Não dá o quê? O Ministro sou eu carago, trata-me disso rapidamente ouviste.
Operativo
Ok chefe, vou já falar com o Secretário de Estado e os outros.
Cena II
Na rua, junto ao ministério um mendigo que é de facto Franco Carlutchi, rumina para a plateia
Franco Carlutchi
Chegou a minha vez, a teia está urdida.
Primeiro apodero-me de Friporte, Eu ?, claro que não, sou apenas um mendigo (ri: ih, ih) mas o Carlaile que não é outro senão eu.
É só comprar o outlet e soltar o meu veneno, mordendo um e outro, suave nuns casos violento noutros até que a infecção alastre.
Ah Iago, aprende comigo!
O pano desce.
(continua)
Cena I
No seu gabinete, Josesito conversa com o Operativo
Josesito
Já viste isto, diz-me o meu tio que estão a pedir imenso dinheiro para licenciar o Outlet do Friporte.
Operativo
É natural, há sempre gente a aproveitar-se.
Josesito
É estes ingleses que acham que nós somos todos corruptos, puta que os pariu.
Operativo
Todos, não seremos mas há bastantes.
Josesito
Para lhes calar a boca o melhor é despachar isso depressa.
Operativo
Agora não dá estamos só em gestão.
Josesito
Não dá o quê? O Ministro sou eu carago, trata-me disso rapidamente ouviste.
Operativo
Ok chefe, vou já falar com o Secretário de Estado e os outros.
Cena II
Na rua, junto ao ministério um mendigo que é de facto Franco Carlutchi, rumina para a plateia
Franco Carlutchi
Chegou a minha vez, a teia está urdida.
Primeiro apodero-me de Friporte, Eu ?, claro que não, sou apenas um mendigo (ri: ih, ih) mas o Carlaile que não é outro senão eu.
É só comprar o outlet e soltar o meu veneno, mordendo um e outro, suave nuns casos violento noutros até que a infecção alastre.
Ah Iago, aprende comigo!
O pano desce.
(continua)
2009-02-03
O Outlet da discórdia - Acto II
Acto II
Cena I
Num bar na Quinta do Lago no Algarve, a uma mesa bebem e conversam Smitendpedro e Tio
Smitendpedro
Pois é caro Tio, que país este! Imagine que me andam a pedir 4 milhões para conseguir o licenciamento de um “outlet” em Alcochete.
Tio
4 milhões? Mas isso é uma barbaridade, Quem é que pede isso?
Smitendpedro
Um escritório de advogados, imagine.
Tio
Que pouca-vergonha, ainda que fosse para alguém que os mereça, mesmo assim é muito, deixe estar que eu já falo ao Josesito.
Smitendpedro
O Josesito, Ministro?
Tio
Sim, o filho da minha irmã, sou tu cá tu lá, com ele.
Smitendpedro
Isso é que é ouro sobre azul, quando é que pode falar?
Tio
Já agora, espere um momento.
Cena II
Tio afasta-se um pouco e liga o telemóvel para Josesito
Tio
Está, és tu Josesito? Eu estou aqui com o amigo Smitendpedro que me está a dizer que há um gabinete de advogados ou lá o qu é que está a pedir 4 milhões para licenciar um “outlet” em Alcochete, será possível?
Josesito
Não pode ser, que história mal contada, mas que Outlet é esse?
Tio
Não sei bem parece que é de um tal Friporte.
Josesito
Ah, ele que fale comigo para me explicar isso, que marque com a Secretária.
Tio
Vou-lhe dizer, porque de facto assim não pode ser, obrigado.
Cena III
Deligando o telemóvel e voltando à mesa com Smitendpedro
Tio
Ele também acha que não pode ser, 4 milhões é muito, o melhor é falares com ele, pede uma audiência à Secretária.
Smitendpedro
Está bem pá, vou tratar já disso, obrigadíssimo.
Continuam a conversar em voz mais baixa e o pano desc
(continua)
Cena I
Num bar na Quinta do Lago no Algarve, a uma mesa bebem e conversam Smitendpedro e Tio
Smitendpedro
Pois é caro Tio, que país este! Imagine que me andam a pedir 4 milhões para conseguir o licenciamento de um “outlet” em Alcochete.
Tio
4 milhões? Mas isso é uma barbaridade, Quem é que pede isso?
Smitendpedro
Um escritório de advogados, imagine.
Tio
Que pouca-vergonha, ainda que fosse para alguém que os mereça, mesmo assim é muito, deixe estar que eu já falo ao Josesito.
Smitendpedro
O Josesito, Ministro?
Tio
Sim, o filho da minha irmã, sou tu cá tu lá, com ele.
Smitendpedro
Isso é que é ouro sobre azul, quando é que pode falar?
Tio
Já agora, espere um momento.
Cena II
Tio afasta-se um pouco e liga o telemóvel para Josesito
Tio
Está, és tu Josesito? Eu estou aqui com o amigo Smitendpedro que me está a dizer que há um gabinete de advogados ou lá o qu é que está a pedir 4 milhões para licenciar um “outlet” em Alcochete, será possível?
Josesito
Não pode ser, que história mal contada, mas que Outlet é esse?
Tio
Não sei bem parece que é de um tal Friporte.
Josesito
Ah, ele que fale comigo para me explicar isso, que marque com a Secretária.
Tio
Vou-lhe dizer, porque de facto assim não pode ser, obrigado.
Cena III
Deligando o telemóvel e voltando à mesa com Smitendpedro
Tio
Ele também acha que não pode ser, 4 milhões é muito, o melhor é falares com ele, pede uma audiência à Secretária.
Smitendpedro
Está bem pá, vou tratar já disso, obrigadíssimo.
Continuam a conversar em voz mais baixa e o pano desc
(continua)
2009-02-02
O Outlet da discórdia- Acto I
O Outlet da discórdia
Longavista
Caro amigo, o Sr.Friporte já aí vem e tudo se vai arranjar.
Smitendpedro
Mas o homem tem mesmo dinheiro? É que isto não vai ser barato.
Longavista
É riquíssimo e quer investir, só o que não domina é Portugal e é mesmo para isso que o meu amigo está aqui.
Smitendpedro
Vamos a ver, é que isto não vai sair nada barato.
Entra Friporte
Friporte
Bom dia meus senhores.
Longavista
Bom dia, este é o meu amigo Smitendpedro de que lhe falei e já está a par da situação, é só preciso ver os detalhes.
Friporte
Muito prazer, Sr. Smitendpedro, o Longavista tem me falado de si e diz-me que o Senhor, em Portugal, se mexe muito bem.
Smitendpedro
Muito prazer Sr. Friporte, Longavista não o enganou, eu já sou meio português e trato por tu aquela gente toda, só que vai ser preciso muito dinheiro, sabe, como é num “PIGS”.
Friporte
Dinheiro não há-de ser problema, tem é que me garantir que sai tudo certinho, a papelada toda correcta, tudo na lei, não quero problemas
Smitendpedro
Oh Sr. Friporte, dessa parte sei eu bem, é só uma questão de dinheiro. Haja dinheiro que todas as portas se abrem.
Friporte
Assim seja, pode começar a tratar de tudo mas seja rápido que eu não tenho
tempo a perder.
Smitendpedro
Rapidíssimo, vai ver.
Enquanto os outros se afastam, Friporte volta-se para a plateia profere o seguinte solilóquio.
Friporte
Voa, voa Capital que o teu lugar é o mundo.
Tu és como o Sol que dá calor e brilho a todos que o merecem e seca as ervas daninhas e destruí os párias e os inúteis que nem deveriam ter nascido.
Eu te adoro Capital, e apoio a tua luta.
Tragicomédia em 5 actos
Obra de imaginação de
Pentalomino de Arifante.
Dramatis Personae
Friporte, senhor do capital.
Longavista, assessor de Friporte
Smitendpedro, aventureiro de origem inglesa mas radicado há muitos anos em Portugal, de facto meio português
Tio, aventureiro português, bem relacionado, amigo de Smitendpedro e de Josesito
Josesito, nobre da corte portuguesa, ambicioso e talentoso, Ministro do governo no início da peça e Presidente do Governo no seu final.
Operativo, assessor de Josesito
Secretária, funcionária operativa de Smitendpedro
Inglês, figura sinistra embuçada, é uma autoridade britânica, nebulosa e poderosa.
Procurador, autoridade portuguesa.
D. Massmedia, Senhora da imprensa, amiga de todos e inimiga dos mesmos todos.
Coro, encarnação fantástica do pensamento comum do povo português.
Franco Carlutchi, figura sinistra, eminência parda, aparece apenas sob a forma de mendigo.
Acto I
Cena I
Sala de um “business center” em Londres
Entram Friporte e Longavista
Friporte
Estou farto desta apatia, tenho que ampliar os meus negócios.
Longavista
Sr. Friporte, como eu já lhe tenho dito, o senhor devia investir em Portugal, tem aí imensas oportunidades.
Friporte
Num “PIGS”, tenha juízo, ia-me meter em muitos sarilhos, nem pensar nisso.
Longavista
Sr. Friporte, em Portugal é trigo limpo, eu conheço quem o pode ajudar, fazia-se lá um “outlet” em Alcochete que é uma zona muito bonita, junto ao Tejo e tem um grande potencial de crescimento.
Friporte
Junto ao Tejo? Deve ser área protegida, não é para lá que voam os alfaiates do Wash”?
Longavista
É, e tem lá outras aves protegidas, mas eles não ligam nenhuma, é muito fácil.
Friporte
Mas têm muita burocracia, para arranjar uma licença é o cabo dos trabalhos.
Longavista
Aí é que entra o meu amigo Smitendpedro, ele conhece aquilo muito bem, sabe mexer todos os cordelinhos.
Friporte
Se assim é, vamos falar com esse homem o Smitendpedro e logo se vê.
Cena II
Na mesma sala, entram Longavista e Smitendpedro.
Obra de imaginação de
Pentalomino de Arifante.
Dramatis Personae
Friporte, senhor do capital.
Longavista, assessor de Friporte
Smitendpedro, aventureiro de origem inglesa mas radicado há muitos anos em Portugal, de facto meio português
Tio, aventureiro português, bem relacionado, amigo de Smitendpedro e de Josesito
Josesito, nobre da corte portuguesa, ambicioso e talentoso, Ministro do governo no início da peça e Presidente do Governo no seu final.
Operativo, assessor de Josesito
Secretária, funcionária operativa de Smitendpedro
Inglês, figura sinistra embuçada, é uma autoridade britânica, nebulosa e poderosa.
Procurador, autoridade portuguesa.
D. Massmedia, Senhora da imprensa, amiga de todos e inimiga dos mesmos todos.
Coro, encarnação fantástica do pensamento comum do povo português.
Franco Carlutchi, figura sinistra, eminência parda, aparece apenas sob a forma de mendigo.
Acto I
Cena I
Sala de um “business center” em Londres
Entram Friporte e Longavista
Friporte
Estou farto desta apatia, tenho que ampliar os meus negócios.
Longavista
Sr. Friporte, como eu já lhe tenho dito, o senhor devia investir em Portugal, tem aí imensas oportunidades.
Friporte
Num “PIGS”, tenha juízo, ia-me meter em muitos sarilhos, nem pensar nisso.
Longavista
Sr. Friporte, em Portugal é trigo limpo, eu conheço quem o pode ajudar, fazia-se lá um “outlet” em Alcochete que é uma zona muito bonita, junto ao Tejo e tem um grande potencial de crescimento.
Friporte
Junto ao Tejo? Deve ser área protegida, não é para lá que voam os alfaiates do Wash”?
Longavista
É, e tem lá outras aves protegidas, mas eles não ligam nenhuma, é muito fácil.
Friporte
Mas têm muita burocracia, para arranjar uma licença é o cabo dos trabalhos.
Longavista
Aí é que entra o meu amigo Smitendpedro, ele conhece aquilo muito bem, sabe mexer todos os cordelinhos.
Friporte
Se assim é, vamos falar com esse homem o Smitendpedro e logo se vê.
Cena II
Na mesma sala, entram Longavista e Smitendpedro.
Longavista
Caro amigo, o Sr.Friporte já aí vem e tudo se vai arranjar.
Smitendpedro
Mas o homem tem mesmo dinheiro? É que isto não vai ser barato.
Longavista
É riquíssimo e quer investir, só o que não domina é Portugal e é mesmo para isso que o meu amigo está aqui.
Smitendpedro
Vamos a ver, é que isto não vai sair nada barato.
Entra Friporte
Friporte
Bom dia meus senhores.
Longavista
Bom dia, este é o meu amigo Smitendpedro de que lhe falei e já está a par da situação, é só preciso ver os detalhes.
Friporte
Muito prazer, Sr. Smitendpedro, o Longavista tem me falado de si e diz-me que o Senhor, em Portugal, se mexe muito bem.
Smitendpedro
Muito prazer Sr. Friporte, Longavista não o enganou, eu já sou meio português e trato por tu aquela gente toda, só que vai ser preciso muito dinheiro, sabe, como é num “PIGS”.
Friporte
Dinheiro não há-de ser problema, tem é que me garantir que sai tudo certinho, a papelada toda correcta, tudo na lei, não quero problemas
Smitendpedro
Oh Sr. Friporte, dessa parte sei eu bem, é só uma questão de dinheiro. Haja dinheiro que todas as portas se abrem.
Friporte
Assim seja, pode começar a tratar de tudo mas seja rápido que eu não tenho
tempo a perder.
Smitendpedro
Rapidíssimo, vai ver.
Enquanto os outros se afastam, Friporte volta-se para a plateia profere o seguinte solilóquio.
Friporte
Voa, voa Capital que o teu lugar é o mundo.
Tu és como o Sol que dá calor e brilho a todos que o merecem e seca as ervas daninhas e destruí os párias e os inúteis que nem deveriam ter nascido.
Eu te adoro Capital, e apoio a tua luta.
Contra o teu poder não há canto de ave que se ouça, não há pantanal pútrido que ouse desafiar-te.
Tu és a ordem e o progresso, nem imperadores têm poder sobre ti, porque o teu braço é mais forte e a todos derruba.
Com o teu sucesso eu alcançarei a minha felicidade
Saem todos conversando alegremente e o pano desce
Notas do autor:
1. Alfaiates são espécies avícolas que partilham o seu habitat entre o rio Wash, no Reino Unido, e o rio Tejo, em Portugal.
Tu és a ordem e o progresso, nem imperadores têm poder sobre ti, porque o teu braço é mais forte e a todos derruba.
Com o teu sucesso eu alcançarei a minha felicidade
Saem todos conversando alegremente e o pano desce
Notas do autor:
1. Alfaiates são espécies avícolas que partilham o seu habitat entre o rio Wash, no Reino Unido, e o rio Tejo, em Portugal.
2. PIGS é um acrónimo que designa, para alguns meios da finança, política e comunicação do Reino Unido, os 4 países do Sul da Europa, com pior fama: Portugal, Itália, Grécia e Espanha .
(continua)
2009-01-29
Annus Horribilis
2009 já foi decretado há tempos como “annus horribilis”.
Estamos todos a ver e à espera do fim, se é que há fim.
O desemprego cresce aos milhões pelo mundo, as fontes de receita desaparecem para muitos.
O aquecimento global, aqui está, em conjunto com o resto, para provar que a civilização não se sustenta assim.
Os media vão-nos dando receitas de sobrevivência: poupe, não fume, não coma fora de casa, sempre que o poder fazer, não gaste, desligue os “stand byes” que ganha 40 € no fim do ano, não compre o que quer, ande a pé ou de transportes públicos, meta-se num buraco, estude finanças, esteja atento a tudo, às letras pequeninas dos contratos, analise, à lupa os recibos, lute pelos seus direitos, que são muitos.
Dizem-nos que os cartões de crédito, não são nada concebidos para a nossa felicidade mas para a nossa perdição, não os queira, (quem diria?).
Enfim, dá imenso trabalho viver.
Em nenhum momento se questiona, que talvez não sejamos nós a estar mal, que talvez a “civilização” tenha os seus erros. Talvez haja coisas que sejam os outros que as deveriam fazer.
Mas não vou por aí agora, na mesma linha dos media, deixo aqui um conselho para a estabilidade financeira:
Esta regra já tem mais de 100 anos, chama-se “O princípio da prudência contabilistica”.
Deve-se usar nas empresas com “boas práticas” contabilisticas mas também serve para os cidadãos no seu dia a dia:
1. Assuma as suas despesas logo que são assumidas. ( mesmo que só tenha a pagar mais tarde, assuma já a perda, ainda que fique negativo)
2. Reconheça as suas receitas, só quando se concretizarem ( Se tem dinheiro a receber, considere que só o tem quando, de facto o receber. É o que a sabedoria popular diz ”não conte com o ovo no cu da galinha”)
Vai ver que cumprir este este princípio é saudável para as suas finanças.
Mas como todos os princípios, também não é universal, nem sempre certo.
Estamos todos a ver e à espera do fim, se é que há fim.
O desemprego cresce aos milhões pelo mundo, as fontes de receita desaparecem para muitos.
O aquecimento global, aqui está, em conjunto com o resto, para provar que a civilização não se sustenta assim.
Os media vão-nos dando receitas de sobrevivência: poupe, não fume, não coma fora de casa, sempre que o poder fazer, não gaste, desligue os “stand byes” que ganha 40 € no fim do ano, não compre o que quer, ande a pé ou de transportes públicos, meta-se num buraco, estude finanças, esteja atento a tudo, às letras pequeninas dos contratos, analise, à lupa os recibos, lute pelos seus direitos, que são muitos.
Dizem-nos que os cartões de crédito, não são nada concebidos para a nossa felicidade mas para a nossa perdição, não os queira, (quem diria?).
Enfim, dá imenso trabalho viver.
Em nenhum momento se questiona, que talvez não sejamos nós a estar mal, que talvez a “civilização” tenha os seus erros. Talvez haja coisas que sejam os outros que as deveriam fazer.
Mas não vou por aí agora, na mesma linha dos media, deixo aqui um conselho para a estabilidade financeira:
Esta regra já tem mais de 100 anos, chama-se “O princípio da prudência contabilistica”.
Deve-se usar nas empresas com “boas práticas” contabilisticas mas também serve para os cidadãos no seu dia a dia:
1. Assuma as suas despesas logo que são assumidas. ( mesmo que só tenha a pagar mais tarde, assuma já a perda, ainda que fique negativo)
2. Reconheça as suas receitas, só quando se concretizarem ( Se tem dinheiro a receber, considere que só o tem quando, de facto o receber. É o que a sabedoria popular diz ”não conte com o ovo no cu da galinha”)
Vai ver que cumprir este este princípio é saudável para as suas finanças.
Mas como todos os princípios, também não é universal, nem sempre certo.
2009-01-26
Nós e a Lei
Na Estrada Nacional 10 a que vai de Almada até Setúbal e que já existia antes de haver auto-estrada, a meio deste percurso, passa ao lado da nova cidade, feita pelo povo, a Quinta do Conde; por si só um caso notável para a reflexão entre o “urbanismo planeado”, agora corrente, e “Urbanismo espontâneo”, há séculos corrente.
Na entrada da Quinta do Conde havia um cruzamento com semáforos, depois uma rotunda mas com a pujança do crescimento espontâneo transformou-se num ponto de entrave à progressão. Há muita confluência de trânsito ali.
Tanta, que as autoridades resolveram fazer qualquer coisa, não sei bem o quê, mas até saber lá estão as obras e a sua respectiva confusão.
Agora não se pode entrar nesse ponto para ir para a Quinta do Conde, a entrada está vedada com blocos mas, no sentido oposto, para aceder à Macro a diversos outros centros de comércio e à auto-estrada e diversas vias rápidas sim, pode-se mas só a quem vem do Sul, para os outros que vêm do Norte têm que passar adiante e voltar atrás mais à frente para virem de Sul.
Entretanto ontem ao vir de Sul para Norte, confronto-me com os velhos traços pintados no chão no tempo da rotunda, quando activa. Por momentos hesitei mas logo percebi que tinha que pisar os velhos traços contínuos ou não poderia prosseguir na minha rota para a frente, como aliás toda a gente fazia.
Hoje vou em sentido contrário e querendo então virar para a esquerda, vejo, de facto um traço contínuo a impedir-me mas face à situação das obras pensei que seriam também restos do antigamente, se não, como fazer? Virei e com tanta confiança o fiz, que o próximo carro que vinha em sentido contrário era um da brigada de trânsito, bem identificado e que não me atemorizou, tão certo estava da minha razão.
Pois esse mesmo carro veio atrás de mim, mandou-me parar e questionou-me pelo meu acto.
“Se sabia para que eram os traços contínuos”, perguntou-me e disse-lhe que sim. “Se tinha a carta”, também lhe disse que sim. “ Porque virei então?”, só lhe disse que para mim aquelas obras estavam muito confusas. Como é que se conta ao polícia todos os meandros do processamento do meu cérebro? E como é que se explicam as contradições da lei?
Felizmente o polícia deixou-me ir em paz.
Na entrada da Quinta do Conde havia um cruzamento com semáforos, depois uma rotunda mas com a pujança do crescimento espontâneo transformou-se num ponto de entrave à progressão. Há muita confluência de trânsito ali.
Tanta, que as autoridades resolveram fazer qualquer coisa, não sei bem o quê, mas até saber lá estão as obras e a sua respectiva confusão.
Agora não se pode entrar nesse ponto para ir para a Quinta do Conde, a entrada está vedada com blocos mas, no sentido oposto, para aceder à Macro a diversos outros centros de comércio e à auto-estrada e diversas vias rápidas sim, pode-se mas só a quem vem do Sul, para os outros que vêm do Norte têm que passar adiante e voltar atrás mais à frente para virem de Sul.
Entretanto ontem ao vir de Sul para Norte, confronto-me com os velhos traços pintados no chão no tempo da rotunda, quando activa. Por momentos hesitei mas logo percebi que tinha que pisar os velhos traços contínuos ou não poderia prosseguir na minha rota para a frente, como aliás toda a gente fazia.
Hoje vou em sentido contrário e querendo então virar para a esquerda, vejo, de facto um traço contínuo a impedir-me mas face à situação das obras pensei que seriam também restos do antigamente, se não, como fazer? Virei e com tanta confiança o fiz, que o próximo carro que vinha em sentido contrário era um da brigada de trânsito, bem identificado e que não me atemorizou, tão certo estava da minha razão.
Pois esse mesmo carro veio atrás de mim, mandou-me parar e questionou-me pelo meu acto.
“Se sabia para que eram os traços contínuos”, perguntou-me e disse-lhe que sim. “Se tinha a carta”, também lhe disse que sim. “ Porque virei então?”, só lhe disse que para mim aquelas obras estavam muito confusas. Como é que se conta ao polícia todos os meandros do processamento do meu cérebro? E como é que se explicam as contradições da lei?
Felizmente o polícia deixou-me ir em paz.
2009-01-23
O que o Sr. Ministro não sabia
Falo do Sr. Ministro da Saúde, cujo nome não me ocorre e que, em boa hora, foi corrido sem que porém se tivessem evitado danos profundos que ele provocou no Serviço Nacional de Saúde.
Este Sr. Ministro como reputado técnico formado nos EUA, tinha as soluções para o Sistema nacional de Saúde, só que, como reputado técnico formado nos EUA, via o Serviço Nacional de Saúde como criado para tratar da saúde de estatísticas e não sabia que deveria ser de pessoas.
Por isso fechou as urgências em vários sítios até porque algumas só recebiam 4 “supostos doentes” 4 o que é uma estatística que não permite a manutenção do serviço aberto.
Criou então o paraíso, de muitas ambulâncias e helicópteros para levar as estatísticas para grandes e bem apetrechados hospitais, ficando esses sim com estatísticas decentes, com 3 dígitos e que justificavam estar abertos, não os míseros 4 “Supostos doentes” 4.
O pior é que esses 4 “supostos doentes” 4 ficaram sem sítio para ir e adaptando-se ao novo sistema, chamam agora as tais ambulâncias e helicópteros, empatando o paraíso do Sr. Ministro.
Queixa-se agora o sistema que assim não dá, só deviam chamar as ambulâncias os casos urgentes, e aqueles casos não são urgentes.
A questão é que esses 4 “supostos doentes” 4 são de facto pessoas concretas e que sentindo-se mal não sabem se o seu mal as vai matar em pouco tempo, como imaginam, ou se é uma indisposição passageira.
Aquilo que eles precisam é precisamente que alguém os veja e lhes diga se é urgente ou não e esse alguém agora, só se encontra via ambulância, porque fecharam a urgência de proximidade.
Sendo assim, só posso dizer: “O sistema que aguente, ora agora!”
Este Sr. Ministro como reputado técnico formado nos EUA, tinha as soluções para o Sistema nacional de Saúde, só que, como reputado técnico formado nos EUA, via o Serviço Nacional de Saúde como criado para tratar da saúde de estatísticas e não sabia que deveria ser de pessoas.
Por isso fechou as urgências em vários sítios até porque algumas só recebiam 4 “supostos doentes” 4 o que é uma estatística que não permite a manutenção do serviço aberto.
Criou então o paraíso, de muitas ambulâncias e helicópteros para levar as estatísticas para grandes e bem apetrechados hospitais, ficando esses sim com estatísticas decentes, com 3 dígitos e que justificavam estar abertos, não os míseros 4 “Supostos doentes” 4.
O pior é que esses 4 “supostos doentes” 4 ficaram sem sítio para ir e adaptando-se ao novo sistema, chamam agora as tais ambulâncias e helicópteros, empatando o paraíso do Sr. Ministro.
Queixa-se agora o sistema que assim não dá, só deviam chamar as ambulâncias os casos urgentes, e aqueles casos não são urgentes.
A questão é que esses 4 “supostos doentes” 4 são de facto pessoas concretas e que sentindo-se mal não sabem se o seu mal as vai matar em pouco tempo, como imaginam, ou se é uma indisposição passageira.
Aquilo que eles precisam é precisamente que alguém os veja e lhes diga se é urgente ou não e esse alguém agora, só se encontra via ambulância, porque fecharam a urgência de proximidade.
Sendo assim, só posso dizer: “O sistema que aguente, ora agora!”
2009-01-21
Quartas-Feiras
Nestas minhas novas rotinas, as quartas-feiras são um dia especial.
Dia de contactar o mundo.
A razão é simples, com a nova tecnologia, grande parte da minha vida passa por casa.
Mesmo o trabalho que ainda vou fazendo pode ser feito em casa, é um trabalho de pensamento e de escrita e de comunicação por e-mail.
Às quartas, porém, a minha casa fica inutilizada para qualquer função.
É o dia da D. Maria, que me faz a limpeza semanal e fá-la bem, vira-me tudo do avesso e desarruma-me tudo ao mesmo tempo, até que no fim tudo se repõe com alguns erros sistemáticos, que já interiorizei:
São os erros da D. Maria, legítimos, ganhou este estatuto.
Nas quartas-feiras, então, procuro sair durante o dia, vou almoçar com os meus velhos amigos e colegas de emprego e invento qualquer coisa para fazer a seguir.
Hoje, fui revisitar a Faculdade de Letras e a minha antiga professora de polaco.
Na Cidade Universitária, estacionar é difícil.
Há uns parques exclusivos para certas personalidades, uns parques públicos e pagos, um espaço livre apropriado (também pago mas com os parquímetros avariados, segundo aprendi) e um espaço selvagem onde se amanha quem pode.
Os tais espaços apropriados mas com parquímetros avariados são agora geridos pelos chamados arrumadores. Identificam vagas e prestam os seus serviços, em troca de uma gorjeta.
Geralmente é gente sem grandes recursos, desadaptados da sociedade, que assim tenta assegurar a sua sobrevivência diária.
Eu gosto dos arrumadores, é gente que faz um trabalho tão digno como outro qualquer.
Hoje, ao sair, falei com o que me tinha arranjado o lugar e que sorria já à minha hipótese de sair, libertando espaço para um novo carro.
E Perguntei-lhe por alternativas, pelo acesso a todos aqueles parques com cancelas.
“Caríssimos e à hora” disse-me ele, e apontando para os vários carros “mal” estacionados nos locais selvagens referiu-me: “ e estes só cá falta a GNR para os multar a todos”.
Naquele momento aquele “marginal” transformou-se num “banqueiro capitalista”, reenvindicando o Estado para defender o seu interessezinho pelas suas gorjetas.
Aprendi, de novo, uma lição que já sabia:
É a condição humana, tudo e todos, tão bem na grandeza como na sarjeta, são exactamente os mesmos!
Dia de contactar o mundo.
A razão é simples, com a nova tecnologia, grande parte da minha vida passa por casa.
Mesmo o trabalho que ainda vou fazendo pode ser feito em casa, é um trabalho de pensamento e de escrita e de comunicação por e-mail.
Às quartas, porém, a minha casa fica inutilizada para qualquer função.
É o dia da D. Maria, que me faz a limpeza semanal e fá-la bem, vira-me tudo do avesso e desarruma-me tudo ao mesmo tempo, até que no fim tudo se repõe com alguns erros sistemáticos, que já interiorizei:
São os erros da D. Maria, legítimos, ganhou este estatuto.
Nas quartas-feiras, então, procuro sair durante o dia, vou almoçar com os meus velhos amigos e colegas de emprego e invento qualquer coisa para fazer a seguir.
Hoje, fui revisitar a Faculdade de Letras e a minha antiga professora de polaco.
Na Cidade Universitária, estacionar é difícil.
Há uns parques exclusivos para certas personalidades, uns parques públicos e pagos, um espaço livre apropriado (também pago mas com os parquímetros avariados, segundo aprendi) e um espaço selvagem onde se amanha quem pode.
Os tais espaços apropriados mas com parquímetros avariados são agora geridos pelos chamados arrumadores. Identificam vagas e prestam os seus serviços, em troca de uma gorjeta.
Geralmente é gente sem grandes recursos, desadaptados da sociedade, que assim tenta assegurar a sua sobrevivência diária.
Eu gosto dos arrumadores, é gente que faz um trabalho tão digno como outro qualquer.
Hoje, ao sair, falei com o que me tinha arranjado o lugar e que sorria já à minha hipótese de sair, libertando espaço para um novo carro.
E Perguntei-lhe por alternativas, pelo acesso a todos aqueles parques com cancelas.
“Caríssimos e à hora” disse-me ele, e apontando para os vários carros “mal” estacionados nos locais selvagens referiu-me: “ e estes só cá falta a GNR para os multar a todos”.
Naquele momento aquele “marginal” transformou-se num “banqueiro capitalista”, reenvindicando o Estado para defender o seu interessezinho pelas suas gorjetas.
Aprendi, de novo, uma lição que já sabia:
É a condição humana, tudo e todos, tão bem na grandeza como na sarjeta, são exactamente os mesmos!
2009-01-19
Diário
Hoje levantei-me tarde, demasiado tarde para o meu gosto. Após uma pausa, no computador, ver os e-mails, fazer duas paciências, decido que é hora de preparar o meu almoço.
E aí vou para a cozinha, o menu já estava pensado: feijão-frade com atum de conserva, é só abrir duas latas, picar um pouco de cebola e alho, aquecer o feijão e já está.
O estatuto de prato “gourmet” é-lhe conferido pelos excelentes azeite e vinagre e o vinho que tenho.
No meio da preparação sou interrompido por um telefonema.
Era do Banco Barklays, mais uma vez oferecendo-me um crédito de 100 000 euros, para o que eu quisesse
Não quero o crédito para nada, agradeço à menina a atenção e desligo o telefone.
Este crédito que o Barclays, á força me quer conceder não é para a minha felicidade é apenas para me extrair, em forma de juros, os poucos euros que tenho para o meu dia a dia. Sei até explicar as razões:
A minha casa nova, que comprei ainda na planta do arquitecto a um preço relativamente baixo mas que me obrigou a recorrer ao crédito e que após várias vicissitudes com a CGD e o Santander, veio a cair no Barklays já meia paga por algumas poupanças, foi avaliada na altura, por este banco, antes da crise é claro, por um valor muito superior ao inicial.
Para mim foi um acaso da sorte, na prática sem grande significado (se num aperto a quiser vender não creio que me paguem esse dinheiro), mas como está hipotecada ao Barklays e eles, como qualquer banco só vêem Euros acham que eu estou a pagar pouco, a hipoteca cobre muito mais, têm forçosamente que me sacar mais euros.
Daí a tentativa para me emprestarem mais. Para eles ainda estou meio cheio, o capital só descansa quando me vir na miséria.
Durante o almoço, assisto como habitualmente à “Sociedade Civil”, de que lhes falei no último poste.
Hoje falaram, quase a propósito, da pobreza e da poupança.
E aí vi as receitas que o “Capital” me oferece para a condição em que me quer pôr:
Tenho que poupar, apagar as luzinhas de todo o equipamento, recorrer aos programas gratuitos que algumas Câmaras Municipais oferecem.
Havia vozes que refilavam, “como se pode poupar se não se tem o mínimo para viver?”, mas outras vozes rebatiam, “é sempre possível”, apague as luzes apague o aquecimento, coma pão sem manteiga, vegete”
Só não falaram na receita, que naquele contexto me parecia óbvia:
“Assalte um Banco!”
E aí vou para a cozinha, o menu já estava pensado: feijão-frade com atum de conserva, é só abrir duas latas, picar um pouco de cebola e alho, aquecer o feijão e já está.
O estatuto de prato “gourmet” é-lhe conferido pelos excelentes azeite e vinagre e o vinho que tenho.
No meio da preparação sou interrompido por um telefonema.
Era do Banco Barklays, mais uma vez oferecendo-me um crédito de 100 000 euros, para o que eu quisesse
Não quero o crédito para nada, agradeço à menina a atenção e desligo o telefone.
Este crédito que o Barclays, á força me quer conceder não é para a minha felicidade é apenas para me extrair, em forma de juros, os poucos euros que tenho para o meu dia a dia. Sei até explicar as razões:
A minha casa nova, que comprei ainda na planta do arquitecto a um preço relativamente baixo mas que me obrigou a recorrer ao crédito e que após várias vicissitudes com a CGD e o Santander, veio a cair no Barklays já meia paga por algumas poupanças, foi avaliada na altura, por este banco, antes da crise é claro, por um valor muito superior ao inicial.
Para mim foi um acaso da sorte, na prática sem grande significado (se num aperto a quiser vender não creio que me paguem esse dinheiro), mas como está hipotecada ao Barklays e eles, como qualquer banco só vêem Euros acham que eu estou a pagar pouco, a hipoteca cobre muito mais, têm forçosamente que me sacar mais euros.
Daí a tentativa para me emprestarem mais. Para eles ainda estou meio cheio, o capital só descansa quando me vir na miséria.
Durante o almoço, assisto como habitualmente à “Sociedade Civil”, de que lhes falei no último poste.
Hoje falaram, quase a propósito, da pobreza e da poupança.
E aí vi as receitas que o “Capital” me oferece para a condição em que me quer pôr:
Tenho que poupar, apagar as luzinhas de todo o equipamento, recorrer aos programas gratuitos que algumas Câmaras Municipais oferecem.
Havia vozes que refilavam, “como se pode poupar se não se tem o mínimo para viver?”, mas outras vozes rebatiam, “é sempre possível”, apague as luzes apague o aquecimento, coma pão sem manteiga, vegete”
Só não falaram na receita, que naquele contexto me parecia óbvia:
“Assalte um Banco!”
2009-01-17
A “Sociedade Civil”
A “Sociedade Civil” é, para mim, um dos melhores programas de TV que é transmitido diariamente na RTP2, por volta das 14h e que agora, devido à minha nova situação de aposentado, posso ver, quase diariamente.
Aí se discutem todos os assuntos verdadeiramente importantes.
Não se fala de défice nem de recessão, nem de que 2009 vai ser um ano lixado, nem nenhuma dessas questões que nos distraem da atenção à vida e que fazem o gáudio dos comentadores.
Ali fala-se de tudo o que importa: de queijos e chouriços, da educação das crianças, dos abusos sobre a população prisional, da saúde das pessoas, enfim, dos temas mais diversos mas sempre interessantes.
Para comentar não se chamam os comentadores oficiais, ali procura-se chamar as pessoas que sabem dos assuntos a tratar.
É um programa exemplar.
Ontem o tema debatido foi o envelhecimento e ali entre várias questões que o tema sugere e que foram tratadas, falou-se da “idade cronológica” (a que consta dos nossos papéis de identificação) na idade biológica (a que consta das nossas células e do seu estado) e na “idade psicológica” (a idade que sentimos ter).
Esta diferenciação fez-me meditar em mim próprio:
Durante a infância e até para aí aos meus 18 anos cronológicos, senti-me psicologicamente criança, daí até aos quarenta e tal cronológicos, senti-me sempre um jovem e agora que tenho 59 anos cronológicos, sinto-me psicologicamente com 327 anos, embora, curiosamente, não me sinta muito velho sinto é que todos à minha volta são mais novos do que eu, até alguns cronologicamente mais idosos.
É bem verdadeira esta diferenciação da idade.
Aí se discutem todos os assuntos verdadeiramente importantes.
Não se fala de défice nem de recessão, nem de que 2009 vai ser um ano lixado, nem nenhuma dessas questões que nos distraem da atenção à vida e que fazem o gáudio dos comentadores.
Ali fala-se de tudo o que importa: de queijos e chouriços, da educação das crianças, dos abusos sobre a população prisional, da saúde das pessoas, enfim, dos temas mais diversos mas sempre interessantes.
Para comentar não se chamam os comentadores oficiais, ali procura-se chamar as pessoas que sabem dos assuntos a tratar.
É um programa exemplar.
Ontem o tema debatido foi o envelhecimento e ali entre várias questões que o tema sugere e que foram tratadas, falou-se da “idade cronológica” (a que consta dos nossos papéis de identificação) na idade biológica (a que consta das nossas células e do seu estado) e na “idade psicológica” (a idade que sentimos ter).
Esta diferenciação fez-me meditar em mim próprio:
Durante a infância e até para aí aos meus 18 anos cronológicos, senti-me psicologicamente criança, daí até aos quarenta e tal cronológicos, senti-me sempre um jovem e agora que tenho 59 anos cronológicos, sinto-me psicologicamente com 327 anos, embora, curiosamente, não me sinta muito velho sinto é que todos à minha volta são mais novos do que eu, até alguns cronologicamente mais idosos.
É bem verdadeira esta diferenciação da idade.
2009-01-12
O tempo frio em Portugal
O frio extraordinário que se fez sentir nestes dias, também em Portugal, com os seus consequentes meteoros, de neve, gelo, geada e sincelo, puseram o país em polvorosa.
O insólito de alguns dias e de alguns locais que apareciam anualmente como “faits divers” interessantes, caíram brutalmente no quotidiano, bloqueando veículos, provocando despistes, fechando escolas, quebrando rotinas, empatando a vida a muita gente.
Começa a ouvir-se já um couro anti protecção civil que não terá funcionado como devia.
E nuns aspectos não deixa de ter razão, naqueles que se referem ao apoio logístico utilizável em qualquer situação de catástrofe, refiro-me a tendas de abrigo com alimentos e instalações sanitárias e sistemas de alerta eficazes, comunicações e coordenação e outros que os especialistas saberão.
Agora o facto de não termos limpa-neves e sal disponível para tantas zonas em perigo, para acorrer a um fenómeno que ocorrerá uma vez de 25 em 25 anos, já é exigir de mais.
Eu vou contar-lhes o que vivi na Polónia no Inverno de 2003.
Nesse Inverno desloquei-me por toda a Polónia, em carro alugado, com temperaturas muito abaixo do zero e sem ter nenhum problema.
Por todo o lado, na mais pequena aldeia eu via grandes contentores (como os que usamos para o lixo) cheios de sal para que a própria população fosse actuando em cada local e nunca vivi o mais pequeno sobressalto.
Eu só pensava, “que país civilizado, este tempo, em Portugal originaria de certo um enorme pandemónio”.
Entretanto o Inverno acabou, a temperatura subiu, o gelo derreteu e da locadora vinham-me constantes telefonemas para trocar os pneus do carro para pneus de Verão.
Como a minha mulher me ia visitar nessa Primavera eu adiei a tal troca de pneus e, por um acaso do tempo, fora de época, precisamente quando a minha mulher me visitou, voltou a nevar em plena Primavera, eu dizia sempre a toda a gente que tinha sido a minha mulher a encomendar a neve porque gostava do espectáculo.
O que é certo é que, então, o pandemónio começou, tal como seria em Portugal.
Carros a bater e a ficarem bloqueados, caminhos intransitáveis e porquê ?
Porque a generalidade dos pneus dos carros já tinham sido trocados e as máquinas de apoio já estavam recolhidas para a revisão e manutenção anual e foi por um acaso, foi precisamente o meu desleixo em trocar os pneus prontamente que me evitou maiores problemas mais directos.
Então percebi claramente que a Polónia não era muito diferente de Portugal em termos de organização e de prevenção.
Tal como nós joga com as probabilidades como todas as protecções civis devem fazer.
O insólito de alguns dias e de alguns locais que apareciam anualmente como “faits divers” interessantes, caíram brutalmente no quotidiano, bloqueando veículos, provocando despistes, fechando escolas, quebrando rotinas, empatando a vida a muita gente.
Começa a ouvir-se já um couro anti protecção civil que não terá funcionado como devia.
E nuns aspectos não deixa de ter razão, naqueles que se referem ao apoio logístico utilizável em qualquer situação de catástrofe, refiro-me a tendas de abrigo com alimentos e instalações sanitárias e sistemas de alerta eficazes, comunicações e coordenação e outros que os especialistas saberão.
Agora o facto de não termos limpa-neves e sal disponível para tantas zonas em perigo, para acorrer a um fenómeno que ocorrerá uma vez de 25 em 25 anos, já é exigir de mais.
Eu vou contar-lhes o que vivi na Polónia no Inverno de 2003.
Nesse Inverno desloquei-me por toda a Polónia, em carro alugado, com temperaturas muito abaixo do zero e sem ter nenhum problema.
Por todo o lado, na mais pequena aldeia eu via grandes contentores (como os que usamos para o lixo) cheios de sal para que a própria população fosse actuando em cada local e nunca vivi o mais pequeno sobressalto.
Eu só pensava, “que país civilizado, este tempo, em Portugal originaria de certo um enorme pandemónio”.
Entretanto o Inverno acabou, a temperatura subiu, o gelo derreteu e da locadora vinham-me constantes telefonemas para trocar os pneus do carro para pneus de Verão.
Como a minha mulher me ia visitar nessa Primavera eu adiei a tal troca de pneus e, por um acaso do tempo, fora de época, precisamente quando a minha mulher me visitou, voltou a nevar em plena Primavera, eu dizia sempre a toda a gente que tinha sido a minha mulher a encomendar a neve porque gostava do espectáculo.
O que é certo é que, então, o pandemónio começou, tal como seria em Portugal.
Carros a bater e a ficarem bloqueados, caminhos intransitáveis e porquê ?
Porque a generalidade dos pneus dos carros já tinham sido trocados e as máquinas de apoio já estavam recolhidas para a revisão e manutenção anual e foi por um acaso, foi precisamente o meu desleixo em trocar os pneus prontamente que me evitou maiores problemas mais directos.
Então percebi claramente que a Polónia não era muito diferente de Portugal em termos de organização e de prevenção.
Tal como nós joga com as probabilidades como todas as protecções civis devem fazer.
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