2009-02-09

Tempo a mais e espaço a menos

O meu escritório está atulhado, um pequeno livro tem que lutar com outros para se conseguir aconchegar e, para mais, várias prateleiras estão a abarrotar de vestígios de uma tecnologia moribunda, cassetes de vídeo.
Ainda me lembro bem quando essa tecnologia apareceu com toda a força revolucionária, lembro-me do combate entre os sistemas Beta e VHS, que este último venceu, foi tudo ainda ontem, hoje, porem, parece que foi há séculos de tão velha que ela está.
Entretanto, enquanto deu, fui acumulando filmes e outras gravações que me enchem prateleiras de cassetes, que já nem sei bem o que contêm, mas que me custa destruir assim, sem mais nem menos.
Como o que falta em espaço me sobra em tempo, comecei a dedicar-me a ver uma por uma e passar para DVD tudo o que quiser conservar.
É uma tarefa, apenas começada e quase infindável mas também tem as suas compensações.
Logo na primeira que vi encontro uma espantosa versão do Hamlet, gravada não sei quando da BBC prime, é o melhor Hamlet que alguma vez vi e já o passei a DVD. Logo a seguir encontro, após um excelente filme que, todavia já tenho em DVD, o velho Rollerball de que já falei aqui, encontro duas das velhinhas pequenas histórias televisivas produzidas por Alfred Hitchcock, lembram-se?
Enfim, o que antevia ser uma estucha de tarefa está-me afinal a proporcionar horas de prazer.
Vamos ver o que o futuro revelará.

2009-02-08

Segredo de justiça

Começo a aperceber-me que o tão falado segredo de justiça não visa proteger as investigações que se vão fazendo.
A verdadeira razão parece ser a de esconder as investigações que se não fazem.

2009-02-06

O Outlet da discórdia - Acto V

ACTO V

Numa praça pública em Portugal. De início está presente o coro e vão entrando Smitendpedro, tio, josesito, Inglês, procurador, D. Massmedia, e um mendigo que é Franco Carlutchi.

O Coro começa a cantar ao som da conhecida música infantil.

Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.

No seu canto remoendo as palavras.

Franco Carlutchi
Que me vou embora? Não, Que te vais embora.
Josesito
Mas que coro é este? Que mal fiz eu? Porque me tratam assim?
Inglês
Pois não é óbvio? Será que o senhor não recebeu milhões ou permitiu que alguém recebesse para aprovar o Outlet em tempo record, como foi feito?
Josesito
Eu não, isso são os meus inimigos ocultos que querem fazer crer
Procurador
De facto, nada está provado. Vamos continuar a averiguar
Josesito
Estão a ver, que isto é tudo inventado, não ouviram o Sr. Procurador
D. Massmedia
O que se sabe é que isto cheira muito mal. Há os milhões que o Smitendpedro pediu, há os despachos feitos a correr e em gestão, há o Inglês que sabe tudo.
Procurador
O Inglês sabe tudo, o tanas, nós é que estamos a investigar.
Tio
Tanto barulho para quê? Afinal eu é que facilitei tudo e nem obrigado me disseram.
Smitendpedro
Não facilitou nada, nós é que fomos os agentes

Depois, baixo para o Inglês.

Smitendpedro
Como sabem Portugal é um PIGS, o dinheiro foi para o Ministro e para muito mais gente.
Inglês
A gente bem sabe. Estes merdas nem a pequena Madie conseguiram encontrar.
D. Massmedia
O Sr. Inglês também tem a mania que é esperto mas também se espalha muito.
Inglês
Eu sou Inglês, ouviu?

O Coro recomeça a sua cantiga mas em tom mais baixo:

Coro
Josesito já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar
Chora agora Josesito chora, que me vou embora para não mais voltar.
Josesito
Deixem, mas é, a justiça trabalhar
Procurador
Nós vamos continuar a trabalhar
Smitendpedro
Eu, por mim não tenho mais nada a dizer
D.Massmedia
Eu estou em cima, não deixo passar nada mas que isto cheira mal, cheira.

Todos se começam a afastar, excepto o mendigo Franco Carlutchi que a tudo assistiu com um sorriso irónico, se volta para a plateia e diz o seguinte solilóquio.

Franco Carlutchi
Portugal, Portugal, tu nem sabes quem te governa.
Se não fosse eu, quem, há 35 anos, te livrava das garras do monstro comunista?
E agora, quem, se não eu, te pode livrar do ambicioso, independente Josesito?
A Ferreira Leite? Ah Ah Ah.
Portugal, não saias da linha, deixa o meu veneno prosperar.
Para ti fica o espectáculo.
Para mim, a vitória.

O pano desce

FIM

2009-02-05

O Outelet da discórdia - Acto IV

ACTO IV

Cena I

No Escritório de Smitendpedro, este conversa com a Secretária

Smitendpedro
D. Secretária, Já há novidades do outlet?
Secretária
Telefonaram hoje a dizer que a licença está quase no papo, só falta uma porcaria qualquer que se vai ultrapassar rápido
Smitendpedro
A Senhora, já sabe, quando chegar o Sr. Friporte tem que estar caladinha
Nada de lhe dizer que o assunto já está quase resolvido, ouviu?
Secretária
Eu sei Sr. Smitendpedro.
Eu não sei nada de nada e também não quero perder o meu emprego
Smitendpedro
È que se ele pressentir que já está tudo resolvido, é bem capaz de me roer a corda.
Sabe como são estes capitalistas.
Secretária
Comigo pode estar descansado, sou surda e muda.

Cena II

Tocam à porta, a Secretária abre e entra Friporte

Smitendpedro
Ora seja bem-vindo a este pobre escritório Sr. Friporte.
Friporte
Bom dia meus senhores, vamos ao que interessa.
Como é que vai o licenciamento do “outlet”?
Smitendpedro
Mal, Sr. Friporte, este país é terrível, é um “PIGS”, só anda à custa de dinheiro. Ele é papelada, ele é motivar funcionários, ele é uma carga de trabalhos e fora as minhas despesas que são imensas.
Friporte
Adiante, adiante, o Senhor prometeu-me rapidez.
Afinal quanto é que precisa?
Smitendpedro
Uns 6 milhões, talvez já dê.
Friporte
6 milhões? Você está maluco? Para quê tanto dinheiro?
Smitendpedro
Sr. Friporte, isto tem Ministros e altos funcionários envolvidos, não julgue que eles vão lá por pouco.
O país é do terceiro mundo, mas as elites também gostam de viver bem.
Friporte
Bem? É mas é muito bem. Assim se calhar nem o investimento vale a pena.
Smitendpedro
Ora, ora Sr. Friporte aquilo vai ser um maná, em Alcochete, zona lindíssima e ainda por cima já se fala num novo aeroporto para lá.
Friporte
Bom, você leva-me à ruína mas está bem, para que não hajam desculpas.

Afasta-se e preenche um cheque

Friporte
Tome lá, e ande com isso depressa e não há mais, ouviu.
Smitendpedro
Muito obrigado Sr. Friporte, agora há condições para ficar tudo resolvido.

Cumprimentam-se e Friporte sai.

Cena III

Ficam Smitendpedro e a Secretária

Smitendpedro
D. Secretária, parece que nos safámos. O cheque já está aqui na mão.
Secretária
Eu guardo-o no cofre, é muito dinheiro.
Smitendpedro
É melhor, para já, mas comece já a tratar para o depositar nas Ilhas Caimão, na minha conta, ouviu?
Sabe como fazê-lo?
Secretária
Oh Sr. Smitendpedro, então não havia de saber?
Não tenho feito outra coisa desde que trabalho consigo.
Smitendpedro
Está bem mas agora é muito dinheiro, tem que fazê-lo rápido e nem uma palavra a ninguém.
Secretária
Não se preocupe Sr. Smitendpedro, amanhã já lá vai estar e, como sabe, eu aqui sou sempre surda e muda.

Cena IV

Passados uns meses na casa de Tio que voltando-se para a plateia, profere o seguinte solilóquio.

Tio
Como no teatro, o actor só brilha porque outros, no escuro e no silêncio manipulam milhares de cabos que comandam cenários e cortinas, orientam os holofotes para o centro da acção, que sem esses holofotes não seriam mais do que mais um recanto escuro.
Mas é assim o mundo injusto, onde uns se esforçam e permitem tudo, outros por engenho ou um acaso da sorte tomam para si esse sucesso e é sobre esses que recaiem as benesses.
Quem, se não eu, abriu as portas do poder a Smitenpedro?
Quem, se não eu, permitiu que o capital se implantasse em Alcochete?
Todavia dos 4 milhões que diziam que tinham, nem um tostão me chegou!
Já é ter azar!

Senta-se pesaroso e o pano desce

2009-02-04

O Outlet da discórdia - Acto III

ActoIII

Cena I

No seu gabinete, Josesito conversa com o Operativo

Josesito
Já viste isto, diz-me o meu tio que estão a pedir imenso dinheiro para licenciar o Outlet do Friporte.
Operativo
É natural, há sempre gente a aproveitar-se.
Josesito
É estes ingleses que acham que nós somos todos corruptos, puta que os pariu.
Operativo
Todos, não seremos mas há bastantes.
Josesito
Para lhes calar a boca o melhor é despachar isso depressa.
Operativo
Agora não dá estamos só em gestão.
Josesito
Não dá o quê? O Ministro sou eu carago, trata-me disso rapidamente ouviste.
Operativo
Ok chefe, vou já falar com o Secretário de Estado e os outros.

Cena II

Na rua, junto ao ministério um mendigo que é de facto Franco Carlutchi, rumina para a plateia

Franco Carlutchi
Chegou a minha vez, a teia está urdida.
Primeiro apodero-me de Friporte, Eu ?, claro que não, sou apenas um mendigo (ri: ih, ih) mas o Carlaile que não é outro senão eu.
É só comprar o outlet e soltar o meu veneno, mordendo um e outro, suave nuns casos violento noutros até que a infecção alastre.
Ah Iago, aprende comigo!

O pano desce.

(continua)

2009-02-03

O Outlet da discórdia - Acto II

Acto II

Cena I

Num bar na Quinta do Lago no Algarve, a uma mesa bebem e conversam Smitendpedro e Tio

Smitendpedro
Pois é caro Tio, que país este! Imagine que me andam a pedir 4 milhões para conseguir o licenciamento de um “outlet” em Alcochete.
Tio
4 milhões? Mas isso é uma barbaridade, Quem é que pede isso?
Smitendpedro
Um escritório de advogados, imagine.
Tio
Que pouca-vergonha, ainda que fosse para alguém que os mereça, mesmo assim é muito, deixe estar que eu já falo ao Josesito.
Smitendpedro
O Josesito, Ministro?
Tio
Sim, o filho da minha irmã, sou tu cá tu lá, com ele.
Smitendpedro
Isso é que é ouro sobre azul, quando é que pode falar?
Tio
Já agora, espere um momento.

Cena II

Tio afasta-se um pouco e liga o telemóvel para Josesito

Tio
Está, és tu Josesito? Eu estou aqui com o amigo Smitendpedro que me está a dizer que há um gabinete de advogados ou lá o qu é que está a pedir 4 milhões para licenciar um “outlet” em Alcochete, será possível?
Josesito
Não pode ser, que história mal contada, mas que Outlet é esse?
Tio
Não sei bem parece que é de um tal Friporte.
Josesito
Ah, ele que fale comigo para me explicar isso, que marque com a Secretária.
Tio
Vou-lhe dizer, porque de facto assim não pode ser, obrigado.

Cena III

Deligando o telemóvel e voltando à mesa com Smitendpedro

Tio
Ele também acha que não pode ser, 4 milhões é muito, o melhor é falares com ele, pede uma audiência à Secretária.
Smitendpedro
Está bem pá, vou tratar já disso, obrigadíssimo.

Continuam a conversar em voz mais baixa e o pano desc

(continua)

2009-02-02

O Outlet da discórdia- Acto I

O Outlet da discórdia

Tragicomédia em 5 actos
Obra de imaginação de
Pentalomino de Arifante.

Dramatis Personae

Friporte, senhor do capital.
Longavista, assessor de Friporte
Smitendpedro, aventureiro de origem inglesa mas radicado há muitos anos em Portugal, de facto meio português
Tio, aventureiro português, bem relacionado, amigo de Smitendpedro e de Josesito
Josesito, nobre da corte portuguesa, ambicioso e talentoso, Ministro do governo no início da peça e Presidente do Governo no seu final.
Operativo, assessor de Josesito
Secretária, funcionária operativa de Smitendpedro
Inglês, figura sinistra embuçada, é uma autoridade britânica, nebulosa e poderosa.
Procurador, autoridade portuguesa.
D. Massmedia, Senhora da imprensa, amiga de todos e inimiga dos mesmos todos.
Coro, encarnação fantástica do pensamento comum do povo português.
Franco Carlutchi, figura sinistra, eminência parda, aparece apenas sob a forma de mendigo.

Acto I
Cena I

Sala de um “business center” em Londres

Entram Friporte e Longavista

Friporte
Estou farto desta apatia, tenho que ampliar os meus negócios.
Longavista
Sr. Friporte, como eu já lhe tenho dito, o senhor devia investir em Portugal, tem aí imensas oportunidades.
Friporte
Num “PIGS”, tenha juízo, ia-me meter em muitos sarilhos, nem pensar nisso.
Longavista
Sr. Friporte, em Portugal é trigo limpo, eu conheço quem o pode ajudar, fazia-se lá um “outlet” em Alcochete que é uma zona muito bonita, junto ao Tejo e tem um grande potencial de crescimento.
Friporte
Junto ao Tejo? Deve ser área protegida, não é para lá que voam os alfaiates do Wash”?
Longavista
É, e tem lá outras aves protegidas, mas eles não ligam nenhuma, é muito fácil.
Friporte
Mas têm muita burocracia, para arranjar uma licença é o cabo dos trabalhos.
Longavista
Aí é que entra o meu amigo Smitendpedro, ele conhece aquilo muito bem, sabe mexer todos os cordelinhos.
Friporte
Se assim é, vamos falar com esse homem o Smitendpedro e logo se vê.

Cena II
Na mesma sala, entram Longavista e Smitendpedro.

Longavista
Caro amigo, o Sr.Friporte já aí vem e tudo se vai arranjar.
Smitendpedro
Mas o homem tem mesmo dinheiro? É que isto não vai ser barato.
Longavista
É riquíssimo e quer investir, só o que não domina é Portugal e é mesmo para isso que o meu amigo está aqui.
Smitendpedro
Vamos a ver, é que isto não vai sair nada barato.

Entra Friporte

Friporte
Bom dia meus senhores.
Longavista
Bom dia, este é o meu amigo Smitendpedro de que lhe falei e já está a par da situação, é só preciso ver os detalhes.
Friporte
Muito prazer, Sr. Smitendpedro, o Longavista tem me falado de si e diz-me que o Senhor, em Portugal, se mexe muito bem.
Smitendpedro
Muito prazer Sr. Friporte, Longavista não o enganou, eu já sou meio português e trato por tu aquela gente toda, só que vai ser preciso muito dinheiro, sabe, como é num “PIGS”.
Friporte
Dinheiro não há-de ser problema, tem é que me garantir que sai tudo certinho, a papelada toda correcta, tudo na lei, não quero problemas
Smitendpedro
Oh Sr. Friporte, dessa parte sei eu bem, é só uma questão de dinheiro. Haja dinheiro que todas as portas se abrem.
Friporte
Assim seja, pode começar a tratar de tudo mas seja rápido que eu não tenho
tempo a perder.
Smitendpedro
Rapidíssimo, vai ver.

Enquanto os outros se afastam, Friporte volta-se para a plateia profere o seguinte solilóquio.

Friporte
Voa, voa Capital que o teu lugar é o mundo.
Tu és como o Sol que dá calor e brilho a todos que o merecem e seca as ervas daninhas e destruí os párias e os inúteis que nem deveriam ter nascido.
Eu te adoro Capital, e apoio a tua luta.
Contra o teu poder não há canto de ave que se ouça, não há pantanal pútrido que ouse desafiar-te.
Tu és a ordem e o progresso, nem imperadores têm poder sobre ti, porque o teu braço é mais forte e a todos derruba.
Com o teu sucesso eu alcançarei a minha felicidade

Saem todos conversando alegremente e o pano desce

Notas do autor:
1. Alfaiates são espécies avícolas que partilham o seu habitat entre o rio Wash, no Reino Unido, e o rio Tejo, em Portugal.
2. PIGS é um acrónimo que designa, para alguns meios da finança, política e comunicação do Reino Unido, os 4 países do Sul da Europa, com pior fama: Portugal, Itália, Grécia e Espanha .
(continua)

2009-01-29

Annus Horribilis

2009 já foi decretado há tempos como “annus horribilis”.
Estamos todos a ver e à espera do fim, se é que há fim.
O desemprego cresce aos milhões pelo mundo, as fontes de receita desaparecem para muitos.
O aquecimento global, aqui está, em conjunto com o resto, para provar que a civilização não se sustenta assim.
Os media vão-nos dando receitas de sobrevivência: poupe, não fume, não coma fora de casa, sempre que o poder fazer, não gaste, desligue os “stand byes” que ganha 40 € no fim do ano, não compre o que quer, ande a pé ou de transportes públicos, meta-se num buraco, estude finanças, esteja atento a tudo, às letras pequeninas dos contratos, analise, à lupa os recibos, lute pelos seus direitos, que são muitos.
Dizem-nos que os cartões de crédito, não são nada concebidos para a nossa felicidade mas para a nossa perdição, não os queira, (quem diria?).
Enfim, dá imenso trabalho viver.
Em nenhum momento se questiona, que talvez não sejamos nós a estar mal, que talvez a “civilização” tenha os seus erros. Talvez haja coisas que sejam os outros que as deveriam fazer.
Mas não vou por aí agora, na mesma linha dos media, deixo aqui um conselho para a estabilidade financeira:
Esta regra já tem mais de 100 anos, chama-se “O princípio da prudência contabilistica”.
Deve-se usar nas empresas com “boas práticas” contabilisticas mas também serve para os cidadãos no seu dia a dia:

1. Assuma as suas despesas logo que são assumidas. ( mesmo que só tenha a pagar mais tarde, assuma já a perda, ainda que fique negativo)
2. Reconheça as suas receitas, só quando se concretizarem ( Se tem dinheiro a receber, considere que só o tem quando, de facto o receber. É o que a sabedoria popular diz ”não conte com o ovo no cu da galinha”)

Vai ver que cumprir este este princípio é saudável para as suas finanças.
Mas como todos os princípios, também não é universal, nem sempre certo.

2009-01-26

Nós e a Lei

Na Estrada Nacional 10 a que vai de Almada até Setúbal e que já existia antes de haver auto-estrada, a meio deste percurso, passa ao lado da nova cidade, feita pelo povo, a Quinta do Conde; por si só um caso notável para a reflexão entre o “urbanismo planeado”, agora corrente, e “Urbanismo espontâneo”, há séculos corrente.
Na entrada da Quinta do Conde havia um cruzamento com semáforos, depois uma rotunda mas com a pujança do crescimento espontâneo transformou-se num ponto de entrave à progressão. Há muita confluência de trânsito ali.
Tanta, que as autoridades resolveram fazer qualquer coisa, não sei bem o quê, mas até saber lá estão as obras e a sua respectiva confusão.
Agora não se pode entrar nesse ponto para ir para a Quinta do Conde, a entrada está vedada com blocos mas, no sentido oposto, para aceder à Macro a diversos outros centros de comércio e à auto-estrada e diversas vias rápidas sim, pode-se mas só a quem vem do Sul, para os outros que vêm do Norte têm que passar adiante e voltar atrás mais à frente para virem de Sul.
Entretanto ontem ao vir de Sul para Norte, confronto-me com os velhos traços pintados no chão no tempo da rotunda, quando activa. Por momentos hesitei mas logo percebi que tinha que pisar os velhos traços contínuos ou não poderia prosseguir na minha rota para a frente, como aliás toda a gente fazia.
Hoje vou em sentido contrário e querendo então virar para a esquerda, vejo, de facto um traço contínuo a impedir-me mas face à situação das obras pensei que seriam também restos do antigamente, se não, como fazer? Virei e com tanta confiança o fiz, que o próximo carro que vinha em sentido contrário era um da brigada de trânsito, bem identificado e que não me atemorizou, tão certo estava da minha razão.
Pois esse mesmo carro veio atrás de mim, mandou-me parar e questionou-me pelo meu acto.
“Se sabia para que eram os traços contínuos”, perguntou-me e disse-lhe que sim. “Se tinha a carta”, também lhe disse que sim. “ Porque virei então?”, só lhe disse que para mim aquelas obras estavam muito confusas. Como é que se conta ao polícia todos os meandros do processamento do meu cérebro? E como é que se explicam as contradições da lei?
Felizmente o polícia deixou-me ir em paz.

2009-01-23

O que o Sr. Ministro não sabia

Falo do Sr. Ministro da Saúde, cujo nome não me ocorre e que, em boa hora, foi corrido sem que porém se tivessem evitado danos profundos que ele provocou no Serviço Nacional de Saúde.
Este Sr. Ministro como reputado técnico formado nos EUA, tinha as soluções para o Sistema nacional de Saúde, só que, como reputado técnico formado nos EUA, via o Serviço Nacional de Saúde como criado para tratar da saúde de estatísticas e não sabia que deveria ser de pessoas.
Por isso fechou as urgências em vários sítios até porque algumas só recebiam 4 “supostos doentes” 4 o que é uma estatística que não permite a manutenção do serviço aberto.
Criou então o paraíso, de muitas ambulâncias e helicópteros para levar as estatísticas para grandes e bem apetrechados hospitais, ficando esses sim com estatísticas decentes, com 3 dígitos e que justificavam estar abertos, não os míseros 4 “Supostos doentes” 4.
O pior é que esses 4 “supostos doentes” 4 ficaram sem sítio para ir e adaptando-se ao novo sistema, chamam agora as tais ambulâncias e helicópteros, empatando o paraíso do Sr. Ministro.
Queixa-se agora o sistema que assim não dá, só deviam chamar as ambulâncias os casos urgentes, e aqueles casos não são urgentes.
A questão é que esses 4 “supostos doentes” 4 são de facto pessoas concretas e que sentindo-se mal não sabem se o seu mal as vai matar em pouco tempo, como imaginam, ou se é uma indisposição passageira.
Aquilo que eles precisam é precisamente que alguém os veja e lhes diga se é urgente ou não e esse alguém agora, só se encontra via ambulância, porque fecharam a urgência de proximidade.
Sendo assim, só posso dizer: “O sistema que aguente, ora agora!”

2009-01-21

Quartas-Feiras

Nestas minhas novas rotinas, as quartas-feiras são um dia especial.
Dia de contactar o mundo.
A razão é simples, com a nova tecnologia, grande parte da minha vida passa por casa.
Mesmo o trabalho que ainda vou fazendo pode ser feito em casa, é um trabalho de pensamento e de escrita e de comunicação por e-mail.
Às quartas, porém, a minha casa fica inutilizada para qualquer função.
É o dia da D. Maria, que me faz a limpeza semanal e fá-la bem, vira-me tudo do avesso e desarruma-me tudo ao mesmo tempo, até que no fim tudo se repõe com alguns erros sistemáticos, que já interiorizei:
São os erros da D. Maria, legítimos, ganhou este estatuto.
Nas quartas-feiras, então, procuro sair durante o dia, vou almoçar com os meus velhos amigos e colegas de emprego e invento qualquer coisa para fazer a seguir.
Hoje, fui revisitar a Faculdade de Letras e a minha antiga professora de polaco.
Na Cidade Universitária, estacionar é difícil.
Há uns parques exclusivos para certas personalidades, uns parques públicos e pagos, um espaço livre apropriado (também pago mas com os parquímetros avariados, segundo aprendi) e um espaço selvagem onde se amanha quem pode.
Os tais espaços apropriados mas com parquímetros avariados são agora geridos pelos chamados arrumadores. Identificam vagas e prestam os seus serviços, em troca de uma gorjeta.
Geralmente é gente sem grandes recursos, desadaptados da sociedade, que assim tenta assegurar a sua sobrevivência diária.
Eu gosto dos arrumadores, é gente que faz um trabalho tão digno como outro qualquer.
Hoje, ao sair, falei com o que me tinha arranjado o lugar e que sorria já à minha hipótese de sair, libertando espaço para um novo carro.
E Perguntei-lhe por alternativas, pelo acesso a todos aqueles parques com cancelas.
“Caríssimos e à hora” disse-me ele, e apontando para os vários carros “mal” estacionados nos locais selvagens referiu-me: “ e estes só cá falta a GNR para os multar a todos”.
Naquele momento aquele “marginal” transformou-se num “banqueiro capitalista”, reenvindicando o Estado para defender o seu interessezinho pelas suas gorjetas.
Aprendi, de novo, uma lição que já sabia:

É a condição humana, tudo e todos, tão bem na grandeza como na sarjeta, são exactamente os mesmos!

2009-01-19

Diário

Hoje levantei-me tarde, demasiado tarde para o meu gosto. Após uma pausa, no computador, ver os e-mails, fazer duas paciências, decido que é hora de preparar o meu almoço.
E aí vou para a cozinha, o menu já estava pensado: feijão-frade com atum de conserva, é só abrir duas latas, picar um pouco de cebola e alho, aquecer o feijão e já está.
O estatuto de prato “gourmet” é-lhe conferido pelos excelentes azeite e vinagre e o vinho que tenho.
No meio da preparação sou interrompido por um telefonema.
Era do Banco Barklays, mais uma vez oferecendo-me um crédito de 100 000 euros, para o que eu quisesse
Não quero o crédito para nada, agradeço à menina a atenção e desligo o telefone.
Este crédito que o Barclays, á força me quer conceder não é para a minha felicidade é apenas para me extrair, em forma de juros, os poucos euros que tenho para o meu dia a dia. Sei até explicar as razões:
A minha casa nova, que comprei ainda na planta do arquitecto a um preço relativamente baixo mas que me obrigou a recorrer ao crédito e que após várias vicissitudes com a CGD e o Santander, veio a cair no Barklays já meia paga por algumas poupanças, foi avaliada na altura, por este banco, antes da crise é claro, por um valor muito superior ao inicial.
Para mim foi um acaso da sorte, na prática sem grande significado (se num aperto a quiser vender não creio que me paguem esse dinheiro), mas como está hipotecada ao Barklays e eles, como qualquer banco só vêem Euros acham que eu estou a pagar pouco, a hipoteca cobre muito mais, têm forçosamente que me sacar mais euros.
Daí a tentativa para me emprestarem mais. Para eles ainda estou meio cheio, o capital só descansa quando me vir na miséria.
Durante o almoço, assisto como habitualmente à “Sociedade Civil”, de que lhes falei no último poste.
Hoje falaram, quase a propósito, da pobreza e da poupança.
E aí vi as receitas que o “Capital” me oferece para a condição em que me quer pôr:
Tenho que poupar, apagar as luzinhas de todo o equipamento, recorrer aos programas gratuitos que algumas Câmaras Municipais oferecem.
Havia vozes que refilavam, “como se pode poupar se não se tem o mínimo para viver?”, mas outras vozes rebatiam, “é sempre possível”, apague as luzes apague o aquecimento, coma pão sem manteiga, vegete”
Só não falaram na receita, que naquele contexto me parecia óbvia:
“Assalte um Banco!”

2009-01-17

A “Sociedade Civil”

A “Sociedade Civil” é, para mim, um dos melhores programas de TV que é transmitido diariamente na RTP2, por volta das 14h e que agora, devido à minha nova situação de aposentado, posso ver, quase diariamente.
Aí se discutem todos os assuntos verdadeiramente importantes.
Não se fala de défice nem de recessão, nem de que 2009 vai ser um ano lixado, nem nenhuma dessas questões que nos distraem da atenção à vida e que fazem o gáudio dos comentadores.
Ali fala-se de tudo o que importa: de queijos e chouriços, da educação das crianças, dos abusos sobre a população prisional, da saúde das pessoas, enfim, dos temas mais diversos mas sempre interessantes.
Para comentar não se chamam os comentadores oficiais, ali procura-se chamar as pessoas que sabem dos assuntos a tratar.
É um programa exemplar.
Ontem o tema debatido foi o envelhecimento e ali entre várias questões que o tema sugere e que foram tratadas, falou-se da “idade cronológica” (a que consta dos nossos papéis de identificação) na idade biológica (a que consta das nossas células e do seu estado) e na “idade psicológica” (a idade que sentimos ter).
Esta diferenciação fez-me meditar em mim próprio:
Durante a infância e até para aí aos meus 18 anos cronológicos, senti-me psicologicamente criança, daí até aos quarenta e tal cronológicos, senti-me sempre um jovem e agora que tenho 59 anos cronológicos, sinto-me psicologicamente com 327 anos, embora, curiosamente, não me sinta muito velho sinto é que todos à minha volta são mais novos do que eu, até alguns cronologicamente mais idosos.
É bem verdadeira esta diferenciação da idade.

2009-01-12

O tempo frio em Portugal

O frio extraordinário que se fez sentir nestes dias, também em Portugal, com os seus consequentes meteoros, de neve, gelo, geada e sincelo, puseram o país em polvorosa.
O insólito de alguns dias e de alguns locais que apareciam anualmente como “faits divers” interessantes, caíram brutalmente no quotidiano, bloqueando veículos, provocando despistes, fechando escolas, quebrando rotinas, empatando a vida a muita gente.
Começa a ouvir-se já um couro anti protecção civil que não terá funcionado como devia.
E nuns aspectos não deixa de ter razão, naqueles que se referem ao apoio logístico utilizável em qualquer situação de catástrofe, refiro-me a tendas de abrigo com alimentos e instalações sanitárias e sistemas de alerta eficazes, comunicações e coordenação e outros que os especialistas saberão.
Agora o facto de não termos limpa-neves e sal disponível para tantas zonas em perigo, para acorrer a um fenómeno que ocorrerá uma vez de 25 em 25 anos, já é exigir de mais.
Eu vou contar-lhes o que vivi na Polónia no Inverno de 2003.
Nesse Inverno desloquei-me por toda a Polónia, em carro alugado, com temperaturas muito abaixo do zero e sem ter nenhum problema.
Por todo o lado, na mais pequena aldeia eu via grandes contentores (como os que usamos para o lixo) cheios de sal para que a própria população fosse actuando em cada local e nunca vivi o mais pequeno sobressalto.
Eu só pensava, “que país civilizado, este tempo, em Portugal originaria de certo um enorme pandemónio”.
Entretanto o Inverno acabou, a temperatura subiu, o gelo derreteu e da locadora vinham-me constantes telefonemas para trocar os pneus do carro para pneus de Verão.
Como a minha mulher me ia visitar nessa Primavera eu adiei a tal troca de pneus e, por um acaso do tempo, fora de época, precisamente quando a minha mulher me visitou, voltou a nevar em plena Primavera, eu dizia sempre a toda a gente que tinha sido a minha mulher a encomendar a neve porque gostava do espectáculo.
O que é certo é que, então, o pandemónio começou, tal como seria em Portugal.
Carros a bater e a ficarem bloqueados, caminhos intransitáveis e porquê ?
Porque a generalidade dos pneus dos carros já tinham sido trocados e as máquinas de apoio já estavam recolhidas para a revisão e manutenção anual e foi por um acaso, foi precisamente o meu desleixo em trocar os pneus prontamente que me evitou maiores problemas mais directos.
Então percebi claramente que a Polónia não era muito diferente de Portugal em termos de organização e de prevenção.
Tal como nós joga com as probabilidades como todas as protecções civis devem fazer.

2009-01-09

Clamando no deserto

A medida do Governo de aumentar brutalmente o limite de dispensa de concursos públicos dos cento e cinquenta mil euros para os cinco milhões de euros, alinhando aliás com a média europeia, teve, por parte de todos os analistas uma oposição praticamente unânime, ouve mesmo alguém que disse que não se ouvia uma voz favorável.
Ora a minha voz, de facto, não se ouve mas é favorável.
As críticas baseiam-se essencialmente de que vão ser beneficiados nas adjudicações os primos e amigos e que a transparência desaparece.
Eu, que conheço muito bem a administração pública e que já fui júri de muitos concursos públicos e já lancei bastantes, digo que não, ou melhor, no caso dos primos e amigos fica tudo na mesma e a transparência, pelo contrário, vai aumentar.
Na realidade os concursos são geralmente uma fantochada onde dá imenso trabalho conseguir o que se pretende: adjudicar aos primos e amigos, mas onde tudo se consegue por fim e com a vantagem de que o concurso esconde as verdadeiras intenções e desculpabiliza a decisão enviesada, permite dizer sempre: “não fui eu que escolhi, foi um concurso isento”.
Agora as decisões vão ser as mesmas mas toda a gente vai saber para quem e por quem.
Em resumo é tudo muito mais transparente.

2009-01-06

A vaga de frio

Quando alguém me comenta o frio que faz e que fará, a minha resposta é sempre a mesma:

- Pois é, é o aquecimento global.

2009-01-01

Reflexão sobre o fogo de artifício

Neste primeiro dia do novo ano os media enchem-nos com os festejos feitos em muitos cantos do mundo que nos mostram à exaustão o fogo de artifício, o espectáculo milenar de luz e som que nos é proporcionado pela pirotecnia.

Tudo começou no oriente, talvez na China, primeiro incipiente, com a queima de pedaços de canas de bambu com determinadas características mas logo melhorados com a incorporação da pólvora, também descoberta na China.

Claude Lévi-Strauss, no seu livro “Raça e História”, defende uma teoria interessante e coerente sobre o desenvolvimento da civilização.

Ele vê as várias culturas como tendo, à partida, ou porque os seus interesses a conduziram nesse sentido, como que uma mão de cartas com que jogam neste jogo global. Por vezes a carta de que precisam para fazer uma boa “mão”, com as que já têm, está na posse dum seu parceiro embora, para esse parceiro, essa mesma carta possa ser, eventualmente, descartável.

Esta imagem é poderosíssima em termos didácticos e ajuda-nos a perceber muitas coisas, como a destruição de qualquer ideia de superioridade ou de inferioridade entre as diferentes culturas, daí que eu nunca mais a esqueci desde que a li há mais de 30 anos.

Um exemplo que Lévi-Strauss utiliza para ilustrar a sua tese é precisamente o da pólvora, descoberta na China, vários séculos antes do que a Europa a conheceu, e utilizada essencialmente para esse fim lúdico, o fogo de artifício.

Essa mesma pólvora era a carta que a Europa precisava para o seu jogo bélico e de dominação e rapidamente a foi buscar à China para a incorporar na sua máquina de guerra e com um enorme “sucesso”, ficou com uma excelente “mão” ganhadora.

Hoje, uma pesquisa na “net” sugere que a China já usava a pólvora também em instrumentos de morte e destruição, de qualquer forma nunca à escala do que veio a fazer a Europa quando na posse desse segredo.

De qualquer modo a mim conforta-me pensar que o primeiro uso que ocorreu ao homem quando descobriu a pólvora, foi o da beleza e da animação da pirotecnia e só depois veio esse péssimo instinto da destruição para estragar tudo.

2008-12-31

Mais um dos grandes poemas do século XX

Trecho do “Llanto por Ignacio Sánchez Mejias” de Frederico Garcia Lorca, grande poeta Andaluz, dos anos de oiro do século XX, que uma vez disse com muita razão:

“A tourada é o espectáculo mais culto do mundo”

Sobre a tradução de um outro trecho deste mesmo poema, ouvi certa vez Vasco Graça Moura ilustrar as dificuldades da tradução com o simples facto de, em castelhano, a palavra “sangre” ser do género feminino enquanto que em português “sangue” tão semelhante, porém é do género masculino.

Deixo assim o poema na língua original, o castelhano, dado que é, mais ou menos, compreensível para nós, de língua portuguesa, além disso quaisquer dúvidas em determinadas palavras poderão ser facilmente esclarecidas, por quem esteja mais interessado em o fazer.

La cogida y la muerte

A las cinco de la tarde.

Eran las cinco en punto de la tarde.

Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.

Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.

Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.

El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.

Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.

Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.

Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.

Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.

Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.

En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.

¡Y el toro, solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.

Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,

cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,

la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.

A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.

Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.

Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.

El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.

El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.

A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.

Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.

Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,

y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.

A las cinco de la tarde.

¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

2008-12-30

O ataque a Gaza

O conflito Israelo-palestiniano é demasiado complexo para que eu tente aqui uma análise.
Contudo há uma expressão que traduz exactamente este comportamento de Israel, independentemente de todas as razões que se possam evocar para um ou outro lado do conflito. Essa expressão é:

Desproporcionado

Assim não se chega a lado nenhum.

A esperança estará apenas na tomada de consciência, como a que estes jovens Israelitas parecem apresentar.

2008-12-29

Eu gosto de touradas

O Sr. Presidente da Câmara de Viana do Castelo, proibiu a realização de touradas no seu Concelho, terminando assim a realização da, praticamente, única tourada anual que se fazia em Viana no final das festas da Sra. da Agonia.
Por este facto o Sr. Presidente da Câmara recebeu elogios de todo o mundo sendo a decisão, como diz, mais apoiada que tomou.
Eu fiquei triste com este conformismo do Sr. Presidente ao pensamento único e à análise daqueles activistas que não têm ideia ou têm uma ideia errada do que é uma tourada.
Nas touradas respeita-se a natureza do touro, ninguém o prende e o tortura, ninguém o agride sem que ele próprio invista para agredir o homem, luta-se com ele num bailado belo e telúrico que inspirou homens de todo o mundo e gerou a produção de obras artísticas de enorme beleza e significado.
Argumenta-se contra dizendo que é uma luta desigual, dado que em 99% dos casos é o homem que ganha. Nada mais falso, a esses digo eu, “vão então tourear para ver se sobrevivem com essas vantagens todas que o homem tem”.
Numa luta daquela natureza e com qualquer homem o touro mataria o homem 90% das vezes, só não o faz por que a luta é com toureiros, que se treinam e preparam uma vida para esse combate.
Quanto à crueldade essa vejo-a eu quando se actua contra a natureza do animal apenas para que o homem desfrute, como se faz quando se prende um pássaro numa gaiola, quando se capam os gatos, para que não nos incomodem, quando se mantém um cão fechado num apartamento, quando se manipula geneticamente um cão de raça, fomentando o “inbreeding”, o incesto, anti natural, até à deformação e disfunção da espécie causando ao animal um insuportável sofrimento em nome da beleza e dos prémios em concursos.
Vivam as touradas todas, a tradicional, a à capea, como se faz na Beira Baixa, a à corda como se faz na ilha terceira e morra a crueldade gratuita contra os animais.

2008-12-27

Um grito desesperado

Agnus Dei
Qui tollis peccata mundi
Dona nobis pacem


Está em latim mas não traduzo, porque creio que todos compreenderão.
É um grito desesperado pela paz que todas as gerações têm proferido mas que ainda não foi ouvido.
Talvez porque não seja o Cordeiro de Deus que tenha de nos salvar.

Apenas nós mesmos.

Das inúmeras versões que existem deste grito, deixo aqui 3 das mais belas ou das que eu gosto mais.

Rufus Wainright



Vivaldi



Bach

2008-12-24

A qualidade dos especialistas

Há tempos li uma referência a um estudo que teria descoberto que a qualidade das previsões políticas e económicas tinha igual fiabilidade quer estas fossem feitas por um painel de especialistas ou por um outro painel de cidadãos comuns.
Um outro estudo, esse que eu pude ler, analisou as grandes inovações tecnológicas na agricultura e verificou que as mais significativas não foram concebidas pelos grandes centros de investigação nem pelas melhores universidades mas sim por agricultores para resolverem problemas que sentiam, ainda que muitos deles fossem quase analfabetos.
É evidente que tudo isto pode ser contestado.
No primeiro caso, talvez o cidadão comum se limite a replicar aquilo que ouve dos especialistas e no segundo, uma mera questão estatística esperará que havendo tantos agricultores no mundo a fazerem as coisas à sua maneira e não se reportando os múltiplos casos de insucesso, talvez por mero acaso, os “brake troughs” surjam e vinguem.
Seria interessante fazer mais estudos deste tipo onde se controle outro tipo de variáveis mas questão da credibilidade dos especialistas parece-me que pode ser legitimamente posta em causa,

O que é certo é que todos vimos, há alguns meses, as maiores sumidades no ofício previrem um preço do petróleo, neste virar de 2008 para 2009, para cima dos 300 dólares, quando na realidade ele está de facto abaixo dos 40 dólares.
Essa é que é essa.
É como uma bola saltitante, é fácil prever que vai cair quando está a cair e é fácil prever que vai subir quando está a subir, e a física permite até saber os momentos exactos da viragem mas a economia está longe de ser uma ciência exacta como a física.

2008-12-23

De novo em casa

A cirurgia foi consumada.
Foram dias passados num ambiente estranho e pouco humanizado: um hospital.
Houve uma enfermeira de voz doce, outras de voz amarga.
Já na marquesa da operação, por baixo do projector, ouvindo a “máquina que faz plim” ouço uma pergunta estranha: “coagulante?”, depois uma ordem: “tem que ser geral” e uma máscara que me apertava as narinas.
Conclusão “não respira bem, não pode ser anestesiado, fica para amanhã”.
E assim foi, regresso à enfermaria para mais um dia morno e ansioso.
Depois tudo se repetiu mas agora sem mais questões. Uma injecção na espinha e, da cintura para baixo, desapareço, embora pudesse ver os meus dedos do pé mexerem, dando-me esperança.
A cirurgia, em si, foi agradável, como uma massagem por dentro.
Porém, horas depois, ainda apalpava o meu corpo sentindo um naco de carne, como a do talho.
Mas por fim veio o recobro, já fora do hospital, frente a uma lareira acesa, ora sentado, ora recostado, ora deitado sobre um escano, acolchoado por um fino colchão e uma manta.
O fogo da lareira é assim, desperta-nos todos os sentidos, emite luz e calor, crepita, cheira a aconchego e permite assar carne ou umas alheiras, como eu fiz.
Os restos, o lixo, as pontas de cigarro, são atirados displicentemente para serem também consumidos, tornando-se úteis.
Olhando o fogo, pensei como ele me parecia uma alegoria da vida: cheio de brilho e de calor, consumindo tudo, sempre tudo, tal como o ventre de Mollock, até se extinguir irremediavelmente, logo que se acabe a lenha e o lixo que o alimenta.
Só restaram as cinzas e eu, voltei.

2008-12-10

A dimensão humana

Um dos efeitos nefastos da chamada globalização é o da humanidade que nos é roubada.
Na sociedade global somos apenas números, estatísticas, vivemos, trabalhamos, comemos, adoecemos em percentagens. Pertencemos ao n porcento que mora em tal parte, ao m porcento dos que vêm tal programa de TV, l porcento dos que têm determinada doença crónica, e assim por aí fora.
O nosso contacto com os senhores do castelo ou com os seus agentes (os senhores do castelo são invisíveis e surdos e mudos) estabelece-se a partir de um número, de cliente, de beneficiário, de contribuinte, de identificação, de código ou outro, mas sempre um número, os nomes são praticamente irrelevantes nas relações com o “sistema”.
Mas o “sistema” é fantástico: ao ter um problema com o meu GPS, contacto um número telefónico que me liga à Holanda e onde me atende uma simpática menina brasileira, trocamos e-mails, o problema persiste, mas já tenho uma pista sobre o passo a dar a seguir, embora saiba que isso me irá fazer perder mais tempo e dinheiro.
É o admirável mundo novo!
Depois há o outro lado, o dos meus próximos e aí felizmente permaneço eu.
Ontem fui levar uma familiar à estação do comboio do Pragal e do alto da plataforma vi instalada uma daquelas “feiras do livro” que em boa hora decidiram ocupar temporariamente estações de comboio e de metropolitano. Desenhei os meus passos seguintes: após a saída do comboio que levou o meu familiar, decidi ir perder-me entre aqueles livros de venda difícil, onde tenho encontrado pérolas por pouco dinheiro.
Desci então para a “feira” coberta de paredes de plástico transparente e onde podia ver vários montes de livros. Lá estavam “O Processo” de Kafka, “O Livro do Desassossego” de Pessoa, e milhares de outros, só que não podia entrar, as portas estavam fechadas, e onde há poucos minutos tinha visto alguma agitação agora só via os livros, inacessíveis para mim.
Comecei a ficar irritado, li um letreiro com um horário e não havia dúvidas, àquele horário, cerca das 3h da tarde deveria estar aberto, fico mesmo irado procurando em volta um responsável, até que distingo, junto à porta, uma pequena cartolina manuscrita com os seguintes dizeres:
“Volto Já – Almoço”.
A humanidade daquela simples mensagem, venceu completamente a minha ira..
Que diabo, todos devemos almoçar, de facto!
Saí já bem disposto pensando simplesmente: “não tem importância, fica para outra vez!”

2008-12-08

A relevância da relevância

No tempo histórico actual, complexo, denso de informação que jorra a rodos, de todo o lugar, onde tudo é medido com o mesmo peso, a mesma importância, o mesmo estatuto espectacular, seja a notícia de uma nova cria de golfinho nascida no zoomarine, a neve que cai no Marão, o assalto “terrorista” em Bombaim, o frio que faz, o aquecimento global que fará, a eleição nos EUA, os acidentes que se verificaram hoje na A24, o debate no parlamento, a nova “gaffe”, ou talvez não, de Manuela Ferreira Leite, tudo debatido e escalpelizado por especialistas reputados, coloca na ordem do dia a questão da relevância.
Uma magna questão.
O que é de facto relevante?
Um grande professor que tive, chamado John O´Shaugnessy, dizia que o sentido da relevância não se ensina, adquire-se com a experiência, é o que faz um médico experiente distinguir entre uma miríade de sintomas que lhe possamos descrever o que é que realmente conta e indicia uma doença ou um velho mecânico de automóveis (raça em extinção) distingue entre um chiado irritante do carro que nos assusta mas que não tem importância, um suave, grunhido que, esse sim, impõe uma cirurgia urgente no carburador do carro.
E é assim que não conseguimos ver claro no complexo de informação que nos chega.

Entre os muitos exemplos que poderia dar, falo agora dos 10 anos da célebre decisão de Guterres de não construir uma barragem em Foz Côa para salvar as gravuras milenares, consideradas pela Unesco como de grande importância mundial.
Todavia, gravuras que avós nossos terão desenhado nas rochas há 10 000 anos, são para o mundo de hoje, para os media, apenas fontes possíveis de dinheiro.
Ele é o museu, os espectáculos de luz e som, os imaginários milhões de visitantes a pagar bilhetes e a comprar lembranças, é para isso que, para os media, servem as gravuras, foi para isso que visionários nossos antepassados capitalistas as desenharam há 10 000 anos.
Mas como, passados 10 anos esse novo quadro ainda não existe, e os sonhados euros ainda não correm, já questionam a decisão de Guterres:
Assim, mais valia construir a barragem, as gravuras que se lixem, dizem.

Eu, já visitei algumas dessas gravuras, deslocando-me num jipe desconfortável e suportando um calor de 50 graus. A impressão que me causaram, jamais a esquecerei, senti-me ligado a esses meus antepassados de há 10 000 anos, que buscavam a caça, para sobreviverem, com o mesmo afinco que os de agora buscam os Euros e terão desenhado essa caça para mobilizar forças ocultas que os ajudassem a encontrá-la ou talvez simplesmente para as contemplar e sentir o poder da criação artística.
Sinto-me feliz por saber que essa marca ainda ali permanece após tantos milénios.
Para mim é óbvio que o museu, os turistas, o dinheiro que não se gerou em 10 anos é completamente irrelevante no contexto dos 10 000 anos destas gravuras.