2009-01-17

A “Sociedade Civil”

A “Sociedade Civil” é, para mim, um dos melhores programas de TV que é transmitido diariamente na RTP2, por volta das 14h e que agora, devido à minha nova situação de aposentado, posso ver, quase diariamente.
Aí se discutem todos os assuntos verdadeiramente importantes.
Não se fala de défice nem de recessão, nem de que 2009 vai ser um ano lixado, nem nenhuma dessas questões que nos distraem da atenção à vida e que fazem o gáudio dos comentadores.
Ali fala-se de tudo o que importa: de queijos e chouriços, da educação das crianças, dos abusos sobre a população prisional, da saúde das pessoas, enfim, dos temas mais diversos mas sempre interessantes.
Para comentar não se chamam os comentadores oficiais, ali procura-se chamar as pessoas que sabem dos assuntos a tratar.
É um programa exemplar.
Ontem o tema debatido foi o envelhecimento e ali entre várias questões que o tema sugere e que foram tratadas, falou-se da “idade cronológica” (a que consta dos nossos papéis de identificação) na idade biológica (a que consta das nossas células e do seu estado) e na “idade psicológica” (a idade que sentimos ter).
Esta diferenciação fez-me meditar em mim próprio:
Durante a infância e até para aí aos meus 18 anos cronológicos, senti-me psicologicamente criança, daí até aos quarenta e tal cronológicos, senti-me sempre um jovem e agora que tenho 59 anos cronológicos, sinto-me psicologicamente com 327 anos, embora, curiosamente, não me sinta muito velho sinto é que todos à minha volta são mais novos do que eu, até alguns cronologicamente mais idosos.
É bem verdadeira esta diferenciação da idade.

2009-01-12

O tempo frio em Portugal

O frio extraordinário que se fez sentir nestes dias, também em Portugal, com os seus consequentes meteoros, de neve, gelo, geada e sincelo, puseram o país em polvorosa.
O insólito de alguns dias e de alguns locais que apareciam anualmente como “faits divers” interessantes, caíram brutalmente no quotidiano, bloqueando veículos, provocando despistes, fechando escolas, quebrando rotinas, empatando a vida a muita gente.
Começa a ouvir-se já um couro anti protecção civil que não terá funcionado como devia.
E nuns aspectos não deixa de ter razão, naqueles que se referem ao apoio logístico utilizável em qualquer situação de catástrofe, refiro-me a tendas de abrigo com alimentos e instalações sanitárias e sistemas de alerta eficazes, comunicações e coordenação e outros que os especialistas saberão.
Agora o facto de não termos limpa-neves e sal disponível para tantas zonas em perigo, para acorrer a um fenómeno que ocorrerá uma vez de 25 em 25 anos, já é exigir de mais.
Eu vou contar-lhes o que vivi na Polónia no Inverno de 2003.
Nesse Inverno desloquei-me por toda a Polónia, em carro alugado, com temperaturas muito abaixo do zero e sem ter nenhum problema.
Por todo o lado, na mais pequena aldeia eu via grandes contentores (como os que usamos para o lixo) cheios de sal para que a própria população fosse actuando em cada local e nunca vivi o mais pequeno sobressalto.
Eu só pensava, “que país civilizado, este tempo, em Portugal originaria de certo um enorme pandemónio”.
Entretanto o Inverno acabou, a temperatura subiu, o gelo derreteu e da locadora vinham-me constantes telefonemas para trocar os pneus do carro para pneus de Verão.
Como a minha mulher me ia visitar nessa Primavera eu adiei a tal troca de pneus e, por um acaso do tempo, fora de época, precisamente quando a minha mulher me visitou, voltou a nevar em plena Primavera, eu dizia sempre a toda a gente que tinha sido a minha mulher a encomendar a neve porque gostava do espectáculo.
O que é certo é que, então, o pandemónio começou, tal como seria em Portugal.
Carros a bater e a ficarem bloqueados, caminhos intransitáveis e porquê ?
Porque a generalidade dos pneus dos carros já tinham sido trocados e as máquinas de apoio já estavam recolhidas para a revisão e manutenção anual e foi por um acaso, foi precisamente o meu desleixo em trocar os pneus prontamente que me evitou maiores problemas mais directos.
Então percebi claramente que a Polónia não era muito diferente de Portugal em termos de organização e de prevenção.
Tal como nós joga com as probabilidades como todas as protecções civis devem fazer.

2009-01-09

Clamando no deserto

A medida do Governo de aumentar brutalmente o limite de dispensa de concursos públicos dos cento e cinquenta mil euros para os cinco milhões de euros, alinhando aliás com a média europeia, teve, por parte de todos os analistas uma oposição praticamente unânime, ouve mesmo alguém que disse que não se ouvia uma voz favorável.
Ora a minha voz, de facto, não se ouve mas é favorável.
As críticas baseiam-se essencialmente de que vão ser beneficiados nas adjudicações os primos e amigos e que a transparência desaparece.
Eu, que conheço muito bem a administração pública e que já fui júri de muitos concursos públicos e já lancei bastantes, digo que não, ou melhor, no caso dos primos e amigos fica tudo na mesma e a transparência, pelo contrário, vai aumentar.
Na realidade os concursos são geralmente uma fantochada onde dá imenso trabalho conseguir o que se pretende: adjudicar aos primos e amigos, mas onde tudo se consegue por fim e com a vantagem de que o concurso esconde as verdadeiras intenções e desculpabiliza a decisão enviesada, permite dizer sempre: “não fui eu que escolhi, foi um concurso isento”.
Agora as decisões vão ser as mesmas mas toda a gente vai saber para quem e por quem.
Em resumo é tudo muito mais transparente.

2009-01-06

A vaga de frio

Quando alguém me comenta o frio que faz e que fará, a minha resposta é sempre a mesma:

- Pois é, é o aquecimento global.

2009-01-01

Reflexão sobre o fogo de artifício

Neste primeiro dia do novo ano os media enchem-nos com os festejos feitos em muitos cantos do mundo que nos mostram à exaustão o fogo de artifício, o espectáculo milenar de luz e som que nos é proporcionado pela pirotecnia.

Tudo começou no oriente, talvez na China, primeiro incipiente, com a queima de pedaços de canas de bambu com determinadas características mas logo melhorados com a incorporação da pólvora, também descoberta na China.

Claude Lévi-Strauss, no seu livro “Raça e História”, defende uma teoria interessante e coerente sobre o desenvolvimento da civilização.

Ele vê as várias culturas como tendo, à partida, ou porque os seus interesses a conduziram nesse sentido, como que uma mão de cartas com que jogam neste jogo global. Por vezes a carta de que precisam para fazer uma boa “mão”, com as que já têm, está na posse dum seu parceiro embora, para esse parceiro, essa mesma carta possa ser, eventualmente, descartável.

Esta imagem é poderosíssima em termos didácticos e ajuda-nos a perceber muitas coisas, como a destruição de qualquer ideia de superioridade ou de inferioridade entre as diferentes culturas, daí que eu nunca mais a esqueci desde que a li há mais de 30 anos.

Um exemplo que Lévi-Strauss utiliza para ilustrar a sua tese é precisamente o da pólvora, descoberta na China, vários séculos antes do que a Europa a conheceu, e utilizada essencialmente para esse fim lúdico, o fogo de artifício.

Essa mesma pólvora era a carta que a Europa precisava para o seu jogo bélico e de dominação e rapidamente a foi buscar à China para a incorporar na sua máquina de guerra e com um enorme “sucesso”, ficou com uma excelente “mão” ganhadora.

Hoje, uma pesquisa na “net” sugere que a China já usava a pólvora também em instrumentos de morte e destruição, de qualquer forma nunca à escala do que veio a fazer a Europa quando na posse desse segredo.

De qualquer modo a mim conforta-me pensar que o primeiro uso que ocorreu ao homem quando descobriu a pólvora, foi o da beleza e da animação da pirotecnia e só depois veio esse péssimo instinto da destruição para estragar tudo.

2008-12-31

Mais um dos grandes poemas do século XX

Trecho do “Llanto por Ignacio Sánchez Mejias” de Frederico Garcia Lorca, grande poeta Andaluz, dos anos de oiro do século XX, que uma vez disse com muita razão:

“A tourada é o espectáculo mais culto do mundo”

Sobre a tradução de um outro trecho deste mesmo poema, ouvi certa vez Vasco Graça Moura ilustrar as dificuldades da tradução com o simples facto de, em castelhano, a palavra “sangre” ser do género feminino enquanto que em português “sangue” tão semelhante, porém é do género masculino.

Deixo assim o poema na língua original, o castelhano, dado que é, mais ou menos, compreensível para nós, de língua portuguesa, além disso quaisquer dúvidas em determinadas palavras poderão ser facilmente esclarecidas, por quem esteja mais interessado em o fazer.

La cogida y la muerte

A las cinco de la tarde.

Eran las cinco en punto de la tarde.

Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.

Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.

Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.

El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.

Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.

Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.

Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.

Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.

Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.

En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.

¡Y el toro, solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.

Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,

cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,

la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.

A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.

Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.

Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.

El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.

El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.

A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.

Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.

Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,

y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.

A las cinco de la tarde.

¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

2008-12-30

O ataque a Gaza

O conflito Israelo-palestiniano é demasiado complexo para que eu tente aqui uma análise.
Contudo há uma expressão que traduz exactamente este comportamento de Israel, independentemente de todas as razões que se possam evocar para um ou outro lado do conflito. Essa expressão é:

Desproporcionado

Assim não se chega a lado nenhum.

A esperança estará apenas na tomada de consciência, como a que estes jovens Israelitas parecem apresentar.

2008-12-29

Eu gosto de touradas

O Sr. Presidente da Câmara de Viana do Castelo, proibiu a realização de touradas no seu Concelho, terminando assim a realização da, praticamente, única tourada anual que se fazia em Viana no final das festas da Sra. da Agonia.
Por este facto o Sr. Presidente da Câmara recebeu elogios de todo o mundo sendo a decisão, como diz, mais apoiada que tomou.
Eu fiquei triste com este conformismo do Sr. Presidente ao pensamento único e à análise daqueles activistas que não têm ideia ou têm uma ideia errada do que é uma tourada.
Nas touradas respeita-se a natureza do touro, ninguém o prende e o tortura, ninguém o agride sem que ele próprio invista para agredir o homem, luta-se com ele num bailado belo e telúrico que inspirou homens de todo o mundo e gerou a produção de obras artísticas de enorme beleza e significado.
Argumenta-se contra dizendo que é uma luta desigual, dado que em 99% dos casos é o homem que ganha. Nada mais falso, a esses digo eu, “vão então tourear para ver se sobrevivem com essas vantagens todas que o homem tem”.
Numa luta daquela natureza e com qualquer homem o touro mataria o homem 90% das vezes, só não o faz por que a luta é com toureiros, que se treinam e preparam uma vida para esse combate.
Quanto à crueldade essa vejo-a eu quando se actua contra a natureza do animal apenas para que o homem desfrute, como se faz quando se prende um pássaro numa gaiola, quando se capam os gatos, para que não nos incomodem, quando se mantém um cão fechado num apartamento, quando se manipula geneticamente um cão de raça, fomentando o “inbreeding”, o incesto, anti natural, até à deformação e disfunção da espécie causando ao animal um insuportável sofrimento em nome da beleza e dos prémios em concursos.
Vivam as touradas todas, a tradicional, a à capea, como se faz na Beira Baixa, a à corda como se faz na ilha terceira e morra a crueldade gratuita contra os animais.

2008-12-27

Um grito desesperado

Agnus Dei
Qui tollis peccata mundi
Dona nobis pacem


Está em latim mas não traduzo, porque creio que todos compreenderão.
É um grito desesperado pela paz que todas as gerações têm proferido mas que ainda não foi ouvido.
Talvez porque não seja o Cordeiro de Deus que tenha de nos salvar.

Apenas nós mesmos.

Das inúmeras versões que existem deste grito, deixo aqui 3 das mais belas ou das que eu gosto mais.

Rufus Wainright



Vivaldi



Bach

2008-12-24

A qualidade dos especialistas

Há tempos li uma referência a um estudo que teria descoberto que a qualidade das previsões políticas e económicas tinha igual fiabilidade quer estas fossem feitas por um painel de especialistas ou por um outro painel de cidadãos comuns.
Um outro estudo, esse que eu pude ler, analisou as grandes inovações tecnológicas na agricultura e verificou que as mais significativas não foram concebidas pelos grandes centros de investigação nem pelas melhores universidades mas sim por agricultores para resolverem problemas que sentiam, ainda que muitos deles fossem quase analfabetos.
É evidente que tudo isto pode ser contestado.
No primeiro caso, talvez o cidadão comum se limite a replicar aquilo que ouve dos especialistas e no segundo, uma mera questão estatística esperará que havendo tantos agricultores no mundo a fazerem as coisas à sua maneira e não se reportando os múltiplos casos de insucesso, talvez por mero acaso, os “brake troughs” surjam e vinguem.
Seria interessante fazer mais estudos deste tipo onde se controle outro tipo de variáveis mas questão da credibilidade dos especialistas parece-me que pode ser legitimamente posta em causa,

O que é certo é que todos vimos, há alguns meses, as maiores sumidades no ofício previrem um preço do petróleo, neste virar de 2008 para 2009, para cima dos 300 dólares, quando na realidade ele está de facto abaixo dos 40 dólares.
Essa é que é essa.
É como uma bola saltitante, é fácil prever que vai cair quando está a cair e é fácil prever que vai subir quando está a subir, e a física permite até saber os momentos exactos da viragem mas a economia está longe de ser uma ciência exacta como a física.

2008-12-23

De novo em casa

A cirurgia foi consumada.
Foram dias passados num ambiente estranho e pouco humanizado: um hospital.
Houve uma enfermeira de voz doce, outras de voz amarga.
Já na marquesa da operação, por baixo do projector, ouvindo a “máquina que faz plim” ouço uma pergunta estranha: “coagulante?”, depois uma ordem: “tem que ser geral” e uma máscara que me apertava as narinas.
Conclusão “não respira bem, não pode ser anestesiado, fica para amanhã”.
E assim foi, regresso à enfermaria para mais um dia morno e ansioso.
Depois tudo se repetiu mas agora sem mais questões. Uma injecção na espinha e, da cintura para baixo, desapareço, embora pudesse ver os meus dedos do pé mexerem, dando-me esperança.
A cirurgia, em si, foi agradável, como uma massagem por dentro.
Porém, horas depois, ainda apalpava o meu corpo sentindo um naco de carne, como a do talho.
Mas por fim veio o recobro, já fora do hospital, frente a uma lareira acesa, ora sentado, ora recostado, ora deitado sobre um escano, acolchoado por um fino colchão e uma manta.
O fogo da lareira é assim, desperta-nos todos os sentidos, emite luz e calor, crepita, cheira a aconchego e permite assar carne ou umas alheiras, como eu fiz.
Os restos, o lixo, as pontas de cigarro, são atirados displicentemente para serem também consumidos, tornando-se úteis.
Olhando o fogo, pensei como ele me parecia uma alegoria da vida: cheio de brilho e de calor, consumindo tudo, sempre tudo, tal como o ventre de Mollock, até se extinguir irremediavelmente, logo que se acabe a lenha e o lixo que o alimenta.
Só restaram as cinzas e eu, voltei.

2008-12-10

A dimensão humana

Um dos efeitos nefastos da chamada globalização é o da humanidade que nos é roubada.
Na sociedade global somos apenas números, estatísticas, vivemos, trabalhamos, comemos, adoecemos em percentagens. Pertencemos ao n porcento que mora em tal parte, ao m porcento dos que vêm tal programa de TV, l porcento dos que têm determinada doença crónica, e assim por aí fora.
O nosso contacto com os senhores do castelo ou com os seus agentes (os senhores do castelo são invisíveis e surdos e mudos) estabelece-se a partir de um número, de cliente, de beneficiário, de contribuinte, de identificação, de código ou outro, mas sempre um número, os nomes são praticamente irrelevantes nas relações com o “sistema”.
Mas o “sistema” é fantástico: ao ter um problema com o meu GPS, contacto um número telefónico que me liga à Holanda e onde me atende uma simpática menina brasileira, trocamos e-mails, o problema persiste, mas já tenho uma pista sobre o passo a dar a seguir, embora saiba que isso me irá fazer perder mais tempo e dinheiro.
É o admirável mundo novo!
Depois há o outro lado, o dos meus próximos e aí felizmente permaneço eu.
Ontem fui levar uma familiar à estação do comboio do Pragal e do alto da plataforma vi instalada uma daquelas “feiras do livro” que em boa hora decidiram ocupar temporariamente estações de comboio e de metropolitano. Desenhei os meus passos seguintes: após a saída do comboio que levou o meu familiar, decidi ir perder-me entre aqueles livros de venda difícil, onde tenho encontrado pérolas por pouco dinheiro.
Desci então para a “feira” coberta de paredes de plástico transparente e onde podia ver vários montes de livros. Lá estavam “O Processo” de Kafka, “O Livro do Desassossego” de Pessoa, e milhares de outros, só que não podia entrar, as portas estavam fechadas, e onde há poucos minutos tinha visto alguma agitação agora só via os livros, inacessíveis para mim.
Comecei a ficar irritado, li um letreiro com um horário e não havia dúvidas, àquele horário, cerca das 3h da tarde deveria estar aberto, fico mesmo irado procurando em volta um responsável, até que distingo, junto à porta, uma pequena cartolina manuscrita com os seguintes dizeres:
“Volto Já – Almoço”.
A humanidade daquela simples mensagem, venceu completamente a minha ira..
Que diabo, todos devemos almoçar, de facto!
Saí já bem disposto pensando simplesmente: “não tem importância, fica para outra vez!”

2008-12-08

A relevância da relevância

No tempo histórico actual, complexo, denso de informação que jorra a rodos, de todo o lugar, onde tudo é medido com o mesmo peso, a mesma importância, o mesmo estatuto espectacular, seja a notícia de uma nova cria de golfinho nascida no zoomarine, a neve que cai no Marão, o assalto “terrorista” em Bombaim, o frio que faz, o aquecimento global que fará, a eleição nos EUA, os acidentes que se verificaram hoje na A24, o debate no parlamento, a nova “gaffe”, ou talvez não, de Manuela Ferreira Leite, tudo debatido e escalpelizado por especialistas reputados, coloca na ordem do dia a questão da relevância.
Uma magna questão.
O que é de facto relevante?
Um grande professor que tive, chamado John O´Shaugnessy, dizia que o sentido da relevância não se ensina, adquire-se com a experiência, é o que faz um médico experiente distinguir entre uma miríade de sintomas que lhe possamos descrever o que é que realmente conta e indicia uma doença ou um velho mecânico de automóveis (raça em extinção) distingue entre um chiado irritante do carro que nos assusta mas que não tem importância, um suave, grunhido que, esse sim, impõe uma cirurgia urgente no carburador do carro.
E é assim que não conseguimos ver claro no complexo de informação que nos chega.

Entre os muitos exemplos que poderia dar, falo agora dos 10 anos da célebre decisão de Guterres de não construir uma barragem em Foz Côa para salvar as gravuras milenares, consideradas pela Unesco como de grande importância mundial.
Todavia, gravuras que avós nossos terão desenhado nas rochas há 10 000 anos, são para o mundo de hoje, para os media, apenas fontes possíveis de dinheiro.
Ele é o museu, os espectáculos de luz e som, os imaginários milhões de visitantes a pagar bilhetes e a comprar lembranças, é para isso que, para os media, servem as gravuras, foi para isso que visionários nossos antepassados capitalistas as desenharam há 10 000 anos.
Mas como, passados 10 anos esse novo quadro ainda não existe, e os sonhados euros ainda não correm, já questionam a decisão de Guterres:
Assim, mais valia construir a barragem, as gravuras que se lixem, dizem.

Eu, já visitei algumas dessas gravuras, deslocando-me num jipe desconfortável e suportando um calor de 50 graus. A impressão que me causaram, jamais a esquecerei, senti-me ligado a esses meus antepassados de há 10 000 anos, que buscavam a caça, para sobreviverem, com o mesmo afinco que os de agora buscam os Euros e terão desenhado essa caça para mobilizar forças ocultas que os ajudassem a encontrá-la ou talvez simplesmente para as contemplar e sentir o poder da criação artística.
Sinto-me feliz por saber que essa marca ainda ali permanece após tantos milénios.
Para mim é óbvio que o museu, os turistas, o dinheiro que não se gerou em 10 anos é completamente irrelevante no contexto dos 10 000 anos destas gravuras.

2008-12-06

Efeitos da LIBERDADE

Este novo estado de liberdade que a aposentação me concedeu está a transformar-me deveras.
Nunca estive tão activo, posso dizer, fazer, o que verdadeiramente me apetece ou quase.
Das máscaras sociais que temos de usar diariamente, várias nas diferentes rotinas pessoais, três no trabalho, uma para os chefes, esta com diferentes adereços conforme o grau de poder do interlocutor, outra para os colegas, outra ainda neutra para estranhos, pude livrar-me de quase todas, só me resta aquela que me está colada à cara.
E, mais estranho do que tudo, estão-me a crescer asas e sinto mesmo no meio das costas uma pequena bossa, que se desenvolve, e que me parece vir a ser um potente reactor que me projectará no espaço.
Estou atento, como sempre e, nos intervalos das minhas viagens espaciais vou voltando aqui, para vos contar o que vir do mundo deste ponto de vista sideral.
Nunca estive tão lúcido.

2008-11-28

A esperança do Governo

Já que, há anos que Portugal não consegue agarrar a Europa, crescendo mais do que a média dos seus membros, Sócrates tem agora esperança que vindo mais depressa do que nós, a Europa nos agarre de marcha-atrás.
É uma boa maneira de olhar para a depressão.

2008-11-25

Noções essenciais

O sentimento do ciúme, ao contrário do que muitas vezes se pensa erroniamente, não deriva do amor.
O sentimento do ciúme fundamenta-se, exclusivamente, no sentido da posse.

2008-11-24

Elogio à preguiça

aqui, falei de Juvenal Antunes e deixei a hipótese de publicar um dia o, talvez, seu mais famoso poema “Elogio da preguiça”
Aqui fica, hoje, dia em que este poema se identifica mais com o meu estado de espírito.

ELOGIO DA PREGUIÇA
(A mim mesmo)

Bendita sejas tu, Preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada!

Mas, queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
Não te importes com o dia de amanhã.

Para mim, já é um grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.

Ó sábios, dai à luz um novo invento:
Para mim, já é um grande sacrifício

Todo trabalho humano em que se encerra?
Em, na paz, preparar a luta, a guerra!

Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!

Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas...

Cresce teu filho? É belo? É forte?
É louro?Mais uma rês votada ao matadouro!...

Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz,

Que arda, depressa, a colossal fogueira
E morra, assada, a humanidade inteira!

Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?

Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?

Queres riquezas, glórias e poder?...
Para quê, se, amanhã, tem de morrer?

Qual o mais feliz? – o mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro,

Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?

Do trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!

Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras!

Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,

E que, ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor – por outro amor...

Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.

Que me não faças mais essa injustiça!...
Se ontem, não fui te ver – foi por preguiça.

Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir... sonhar...

Juvenal Antunes
(Poeta do Acre)

2008-11-22

Análise política

1 Manuela Ferreira Leite
Depois do silêncio a verborreia.
Manuela teve nas suas recentes alocuções um rácio de (falta-me o termo) talvez asneiras que entretiveram os comentadores do espectáculo.
Todas elas diferentes mas todas elas demonstrativas de que a sua melhor “performance” é o silêncio. Vejamos:
A generalidade são simples expressões mal fundamentadas, facilmente retiráveis do contexto e que fazem o gáudio dos jornalistas.
È neste rol que eu coloco a sua referência à suspensão, de 6 meses, da democracia, a declaração de que o aumento do salário mínimo roça a irresponsabilidade, de que as obras públicas só promovem o emprego de Cabo Verde e da Ucrânia e de que não deviam ser os jornalistas a definir as opções editoriais (com esta até concordo, na realidade deveria ser Eu).
Mas a mais grave, porque não traduz uma simples inabilidade para lidar com os media, foi a de que tinha propostas de medidas boas para o país mas que não as dizia para que o Primeiro-ministro as não copiasse e pusesse em prática!
Ou seja, ela até tem uma solução para os problemas que nos afectam mas receia que essas soluções sejam postas em prática, tirando-lhe o brilho.
Está certo, Manuela Ferreira Leite, primeiro e depois o país, se não for ela a fazê-las, o país que se lixe.
Não há dúvidas que temos uma oposição ao nível.

2. Dias Loureiro
Quem fala verdade?
Não sei mas em termos de verosimilhança as coisas parecem-me claras.
Dias Loureiro diz que pediu uma audiência com António Marta, do Banco de Portugal, para lhe dizer qualquer coisa (não ponho as palavras exactas porque elas evoluíram ao longo do dia) como o seguinte:
- Eu não tenho nenhuma prova nem sequer nenhuma suspeita mas parecia-me bem que o Banco de Portugal investigasse, um pouco mais o que se passa com o BPN.
António Marta é mais claro e diz:
- Dias Loureiro ou está confuso ou mente, o que ele me falou foi a questionar o banco de Portugal porque estava demasiado atento ao BPN.
Ouvindo os dois, sem mais informações, para mim, António Marta parece-me bem mais verosímil.

2008-11-18

A Sociedade Global

Se repararem na minha crónica sobre os Nirvana que está aqui em baixo e se clicarem no filme do You tube, vão ler “We’re sorry this vídeo is no longer available”, em português qualquer coisa como isto “Lamentamos mas este vídeo já não está disponível”.

Este facto, por si só, é um motivo de reflexão.

Eu: Porra! Eu não pedi nada ao “You Tube”, foi ele que se ofereceu e que me diz “podes pôr isto no teu blogue ou onde quiseres” e depois, dá o dito por não dito e tiram-me o tapete, quero dizer o vídeo. È uma grande sacanice seus “talibans” iconoclastas.

You tube: O estimado utilizador não me pagou nada, prestei-lhe um serviço momentâneo e ainda se põe com exigências?

Eu: Mas você estragou-me o post e nem me avisou. Se queria dinheiro tivesse me dito.
Para a próxima roubo-lhe o vídeo, o que posso fazer facilmente com um programa que comprei, penso que legal porque o paguei. Só fico é com o problema de um servidor que o arquive depois, mas talvez o “blogspot” me conceda isso.
Estou tentado a pedir uma indemnização, de milhões, mas arranjar um advogado que pegue nisto sai tão caro!

2008-11-17

Reflexões sobre a avaliação dos professores

Agora que está na opinião pública o problema da avaliação dos professores, sugiro a quem me lê que reflicta neste tema.
Qual será o bom professor?
Quem já sabe daquela minha dificuldade em discernir o bom do mau, excepto naquilo que é bom ou mau para mim, porque isso, eu sei ou vou sabendo, compreenderá que avaliar, professores ou o que seja, não será nunca uma tarefa fácil.
Por exemplo, eu como funcionário, já tenho sido excelente, muito bom e bom, e note-se que na função pública o bom está próximo do medíocre, mas quando olho para mim, vejo-me sempre igual, sou apenas eu, sempre eu.
O que muda então? A resposta é simples: a situação e o avaliador.
Com o mesmo direito com que eles me avaliam posso eu dizer que tenho tido avaliadores excelentes, muito bons ou bons e, esses bons, como aqui não preciso de ter pruridos, direi mesmo medíocres, maus e péssimos.
Em princípio, cada um de nós é a medida de todas as coisas.
Para sairmos deste ciclo sem virtude, só vejo uma saída, só poderemos avaliar alguém face a um objectivo concreto, por exemplo, em termos de física das partículas, dou-me uma nota de medíocre menos e, apenas não de mau porque sei existem muitos piores do que eu mas, em termos de desenvolvimento rural e até de avaliação de programas e projectos, avalio-me como, muito bom.

Voltando aos professores e aplicando este princípio, concluiremos que qualquer avaliação só permite avaliar os professore face à sua função de ensinar os jovens.
Mas aqui se levanta outra questão que não está também bem resolvida.
Em que consiste ensinar bem os jovens?
Criar autómatos bons repetidores de ciência?
Criar bons cidadãos, responsáveis?
Criar homens e mulheres bem socializados, bem inseridos na sociedade?
Criar especialistas competentes?

Talvez seja mais simples e útil avaliar quem faz passar melhor a mensagem do programa curricular de cada dia, transmitindo igualmente a noção de que tudo não é mais do que a simples passagem curricular de cada dia.

2008-11-15

Um indicador de civilização

Definir a civilização não é tarefa fácil.
Há muitos cérebros a queimar neurónios para encontrar um número que permita traduzir esse conceito.
Já tenho lido que um bom indicador poderá ser o da “energia consumida per capita” e a correlação parece boa: quanto mais modernos e civilizados mais energia consumimos. Mas levantam-se problemas operacionais, como se mede essa energia? A electricidade mais a gasolina e o gás consumidos? Darão talvez uma boa aproximação mas não sei se é perfeito, ultimamente a civilização tem evoluído para sistemas de poupança de energia e, nesse caso a curva tem um pico e decrescerá depois, quando nos civilizarmos ainda mais.
Face a esta dificuldade deixo aqui uma nova linha de investigação à comunidade científica:
Lixo produzido per capita.
Numa primeira aproximação parece-me um excelente indicador, quanto mais civilizados mais “merda”, produzimos.
E esta lei afigura-se-me inexorável.

2008-11-13

O que o Ministério da Educação pensa

1. É preciso facilitar a vida aos alunos para que todos, por igual, possam progredir.
2. É preciso dificultar a vida aos professores e avaliar para que os maus sejam expurgados do sistema e apenas fiquem os bons.

O que o Ministério esquece é que está assim a formar, nos alunos, apenas aqueles futuros professores que abomina!

80% de professores na rua, não chega.
Ovos partidos nos carros do Secretário de Estado, não chegam.
Que mais será preciso fazer para que o Ministério veja a evidência?

2008-11-09

Bem prega Frei Tomás …

Em resposta à impressionante manifestação dos professores, Sócrates apela à honra dos sindicatos.
Ouviram bem? À honra dos sindicatos!
Eh Eh Eh !

2008-11-04

Eleições nos EUA

Pela primeira vez, posso dizer, que simpatizo com os dois candidatos elegíveis.
Com Obama, pelo seu sonho, pela sua determinação, pela sua combatividade e pela sua inexperiência, que pode conduzi-lo à inovação criadora.
Com McCain pelo seu bom senso, pela sua coragem pela sua combatividade e pela sua experiência que pode conduzi-lo à lucidez.
De uma maneira ou de outra tenho a convicção que os EUA ficarão melhor liderados e o mundo mais seguro.

2008-11-03

O BPN faz evoluir o português

Antigamente, as transacções económicas chamavam-se tratos, daí o ainda usado termo contrato, e quem as praticava era chamado tratante.
Com o tempo os tratantes deram mau nome à sua profissão ao ponto de transformarem o seu nome num insulto: Dizer “você é um tratante!” já não é nada simpático para ninguém.
Para fugir a isto passamos a chamar negócios aos tratos, e a quem os pratica demos o nome de negociante.
Mas o problema persiste, há qualquer coisa na actividade económica que o português comum despreza e a palavra negociante começou também a desvalorizar-se.
Há as negociatas, nada transparentes, e chamar a alguém negociante já sugere algumas reservas.
O Banco Português de Negócios (BPN) acaba de dar mais uma machadada na credibilidade da palavra negócio, são uns verdadeiros tratantes estes negociantes.
Já vamos ficando sem palavras para designar as transacções honestas, se é que existem.
Creio que é por isso que temos que ir, nesta área, pedindo palavras emprestadas ao Inglês.
Enfim é tudo “Business, as usual”