2007-09-28

Birmânia - Um povo em armas

Apesar de lutar sem armas e contra armas !
O povo birmanês está a dar uma lição de coragem a um mundo adormecido e embriagado por um quotidiano tonto.
Visitar este blogue é já uma pequena ajuda.

2007-09-25

Como este mundo encara a vida

Não se conseguiu unanimidade para criar o dia europeu contra a pena de morte mas já existe o dia mundial da contracepção !
Parece até que é hoje.

2007-09-24

Birmânia

Hoje, na Birmânia, estou a ver nitidamente esta pequenina luz.
Brilha.

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante

não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidãoa
ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena - uma pequena luz

2007-09-20

Palinca

O álcool é uma presença habitual e estruturante, em quase todas as sociedades humanas. Mesmo no Islão, onde foi banido pelo Profeta, ele permanece presente ainda que apenas como fantasma
Sela contratos, assinala datas importantes, estimula o convívio social, inspira poetas, escritores e outros artistas.
As formas em que surge são as mais diversas:
Nos países mediterrânicos abençoados pela natureza, o álcool afirma-se no vinho e na bebida suprema, a aguardente vínica, saboreia-se lenta e pausadamente. O álcool em si é aqui um acompanhante, aparentemente secundário, entre uma miríade de sabores e aromas sublimes embora, no fundo, se venha sempre a revelar como o verdadeiro espírito da festa.
Noutros recantos do mundo, menos afortunados, o álcool procura-se em fermentados e destilados diversos, por vezes agradáveis como a cerveja, o whisky e tantos outros, por vezes quase intragáveis tendo que ser bebidos num trago (num “shot” como agora se diz) para que se chegue, mais depressa e sem distracções, ao seu espírito que é a sua única razão de existir.
Em todo o lado, mal ou bem, ganha o estatuto de bebida nacional e lá temos os vodkas, na fria Europa, as cachaças e os outros destilados de cana, nos países tropicais, o sake no imperial Japão e não sei que mais por esse mundo fora.
Na Hungria esse estatuto é desempenhado pela Palinca. Destilado de diferentes frutos e ervas que imprimem sabores e colorações diversas e permitem sempre a afirmação de que a minha Palinca é melhor do que a tua.
No fundo são todas mais ou menos iguais, valem pelo espírito que contêm.
Na Hungria bebi, em média, 9 Palincas diárias, de manhã até à noite, recusar podia ser considerado como má educação ou sinal de desprezo, até que ao 4º dia comecei a sentir que me começava a faltar sangue vital na minha corrente de Palinca.
Tive que dizer basta, invocando razões de saúde e religiosas para não ferir susceptibilidades e não cair no descrédito social e lá consegui baixar a dose para apenas 1 ou 2 por dia.
De qualquer forma, e estranhamente, o meu organismo suportou bem este excesso.
Não será impunemente que durante centenas ou milhares de anos os Húngaros aprenderam a dominar a sua técnica de fabrico e de consumo de forma a que ela cumpra a sua função social sem maiores danos para os utentes.

2007-09-17

Vingança

Eu confesso meio envergonhado que sou desse portugueses que, diariamente, vai assistindo na SIC, ao arrastar penoso da novela Vingança.
Ninguém me obriga, é certo, mas que querem ? a explicação tem que ser encontrada no fundo do meu cérebro, sinto talvez aquele prazer mórbido de quem vasculha o lixo.
E faço-o estoicamente embora ultimamente já comece ceder na luta contra o sono e a adormecer no sofá do meio da novela para a frente, mas vai ficando o essencial que é isto:
As histórias de vinganças têm tipicamente uma estrutura narrativa: o “heroi” fica “mad” com as maldades que lhe fazem, depois de mais maldades fica “real mad” e como estas continuam fica “real, real mad” e aí, quando diz chega !, já basta!, acabou! começa o processo de vingança.
O que se segue depois depende: se for num filme de Hollywood começa a partir tudo, à bomba e à metralhadora, se for num filme ou romance um pouco mais elaborado e interessante, concebe uma estratégia fina e inteligente que executa calmamente, com requinte, até recuperar a sua paz e punir os responsáveis.
“A vingança é um prato que se serve frio” disse alguém que sabia da coisa.
A solução que a SIC encontrou é porém inovadora, nem uma coisa nem outra, na verdade nem existe sequer vingança nenhuma.
O “herói” e os diferentes personagens vão-se mexendo ao sabor do vento, distraem-se com questões menores, arrastam-se tristemente com constantes mudanças de humor e tricas de namoricos de adolescente mas estão sempre a afirmar com um orgulho pateta que seguem um plano (que ninguém vê, nem eles) o famoso plano de Santiago Medina.
A juíza então é uma figura patética, actriz que estamos habituados a ver vender “Pop Limão” ou algo assim, continua a vender “Pop Limão” mas na solenidade do sistema judiciário, uma tristeza.
Os actores oscilam entre o médio e o medíocre, com duas excepções:
Uma muito positiva, é a representada por Nuno Melo, que faz com imenso talento um papel muito difícil e consegue-nos dar a única imagem coerente, verosímil e interessante naquele amontoado de nulidades.
A outra excepção, esta muito negativa, é a que nos é dada por Diogo Morgado, chegamos a ter pena dos seus algozes por não terem tido a felicidade de o encerrar num cárcere em Marrocos até à sua destruição total.
Mostra-se psicologicamente instável, com birras de menino, com a arrogância dos fracos e ignorantes. Estraga tudo em que mexe e nem sequer tem capacidade para reflectir um mínimo nos seus fracassos, só tem “certezas”.
E depois é aquela forma ridícula de se vestir sempre com um enorme sobretudo negro e cintado mesmo quando toda agente à sua volta está de manga curta e ar desportivo.
Só há pouco tempo me apercebi onde se queria chegar com o sobretudo: à imagem do “Corvo”, meus amigos, como o cordeiro que veste a pele do lobo.
O segredo é este, referências fora de contexto, ao Conde Montecristo, para dar um ar sério, a Hollyood, às fúrias dos filmes de Steven Segal e ao “Corvo”, para atrair a juventude, e ás telenovelas para tentar dar um ar ecléctico, generalista.
Mas falta muito o talento e, a imagem final que fica é a de um deprimente ridículo.
Poderão dizer que a culpa não é dos actores mas do guionista que desenhou os personagens mas não é verdade, neste medium actores e personagens confundem-se e a prova é que Nuno Melo sendo bom e estando, com os outros, na mesma merda consegue produzir algo de bom enquanto Diogo Morgado que não serve para esta vida de actor torna tudo ainda mais penoso.

2007-09-14

O desbaste pelo alto continua

Abel Mateus, Presidente da autoridade da concorrência, que visa defender a concorrência e combater os poderes dominantes do mercado, tem saída anunciada.
Porquê?
Porque tem, defendido a concorrência e combatido os poderes dominantes do mercado de forma demasiado eficiente.
O homem devia aprender com Scolari: pode dar murros mas não pode aleijar.

2007-09-13

Como eu queria ver a nossa selecção de futebol

Com a atitude da nossa selecção de rugby.
Com a qualidade técnica da nossa Vanessa Fernandes.

2007-09-11

Rapidinhas

Grande clarividência
Cristiano Ronaldo e Maniche dizem que Portugal não pode perder mais pontos no apuramento para o mundial.
Por acaso também acho!

A “silly season”
Nunca percebi porque se chama “silly season” (estação pateta) ao Verão, onde os políticos andam quase todos de férias, quando na verdade tempos mesmo “silly” só surgem quando eles estão ao serviço!

João de Deus Pinheiro
Definiu hoje o perfil que deverá ter o responsável europeu pela luta anti-terrorista.
Disse praticamente tudo, só lhe faltou dizer que também é importante saber jogar golf !

Porque será ?
Que fiquei mais feliz com a derrota portuguesa no mundial de rugby por 56-10 contra a Escócia do que com o empate a 2-2 contra a Polónia no apuramento para o mundial de futebol.

Eu vi e ouvi com os meus olhos e os meus ouvidos
A Sky News disse que, segundo informação da polícia local, os novos resultados das análises ao fluido encontrado na bagageira do carro alugado pelos MacCann 25 dias depois do desaparecimento de Maddie mostravam um “perfect match” com o ADN da criança.
Até acrescentaram que a coincidência de cerca de 80% anteriormente obtida poderia já ser considerada como um forte indício embora os novos resultados excluissem todas as dúvidas.
Entretanto os media portugueses entretêm-se a discutir que 100% não existe (como se alguém tivesse falado de 100%) e que a nossa Polícia desmentia que tivessem chegado novos resultados (como se a nossa polícia fosse a polícia local da Sky News).

2007-09-10

O que me surpreendeu na Hungria

Dentro da minha classificação simplista dos povos da Europa, a Hungria estava lá para cima, não sendo eslava, andava por lá próximo dos grupos de Rus e Czech, porque também há eslavos no Sul, nos Balcãs (um dia ainda contarei esta interessante lenda eslava de Lech Czech e Rus).
Mas adiante. De facto a Hungria é já um país de transição entre o Norte e o Sul da Europa, da trilogia mediterrânica do pão, vinho e azeite a Hungria não tem azeite mas tem bom pão e bom vinho, muito para além do lendário Tocai.
Na gastronomia há já um toque do Sul: os refugados, as tomatadas, os enchidos de porco temperados com pimentão, a tão húngara paprica. O leczo, prato tão típico como os famosos golaches, lembra muito uma tomatada alentejana.
A maneira de ser do povo magiar está mais próxima de nós, nos seus valores e estilos de vida.
Foi uma alegre surpresa este sentir-me tão em casa na Hungria.

2007-09-08

Será que alguém se lembra ?

Eu ainda sou do tempo em que FNAC era igual a “ar condicionado”.

2007-09-06

Pavarotti

Pavarotti era para mim o melhor tenor da actualidade.
Para mim, porque entre os seus pares havia aquele misto de respeito e de desprezo, talvez pela sua postura menos convencional, a sua cedência ao êxito fácil, aos media e ao dinheiro, sacrificando a arte pela arte.
Para mim, também não sei bem porquê, embora suspeite que as vibrações do seu timbre e a sua interpretação em articulação com um qualquer gene que eu tenha, e que será muito comum porque a admiração é quase universal, provocam uma descarga de qualquer caldo químico que envolve o meu corpo de prazer e de emoção e chega a trazer-me lágrimas aos olhos.
Das reportagens que vi sobre ele, a última das quais hoje na RTP 1, retenho, entre outras duas passagens:
Uma foi vê-lo a mostrar aquela música popular italiana, do tipo da que ouvimos em filmes sobre a mafia, cantar também mas dizendo com naturalidade “eu não sei cantar isto” e não sabia, assim como não saberia cantar fado, cantaria bem mas não era aquilo.
Outra foi hoje quando referiu que sabia o que eram bombas explicando “o que são bombas só se sabe sentindo-as cair sobre a nossa cidade, não atirando-as nas cidades dos outros”.
Era também porque dizia estas coisas que eu gostava de Pavarotti.

Para além do médico de família

Deveríamos ter também, pelo menos, um advogado de família, e um técnico informático de família.
Mas como nem o consagrado médico o Estado me consegue atribuir, apesar dos longos anos de esforço, bem posso esperar sentado.

2007-09-02

Rákóczifalva

Sabe o que é ? É uma pequena vila Húngara, junto à cidade de Solnok, onde passei esta última semana.
Foi a minha primeira visita de trabalho à Hungria, as impressões colhidas foram muitas e muito ricas, penso que alguns futuros postes serão, de algum modo, ligados à Hungria.
Por agora deixo apenas a minha impressão geral:
Os magiares partilham connosco, portugueses, uma profunda nostalgia por um passado glorioso!

2007-08-24

O crédito aos estudantes

Sócrates anunciou ontem, com pompa, a nova linha de crédito bonificado para os estudantes universitários.
Funciona assim: o estudante sustenta-se com o crédito enquanto estiver a estudar, uma vez licenciado e após um ano de carência começa a amortizar o empréstimo.
Do jeito que as coisas estão, essa amortização será muito provavelmente feita com o subsídio de desemprego, se o arranjar é claro.

2007-08-22

Reflexão sobre alguns comentários

Certamente já têm reparado que os postes deste blogue têm suscitado poucos comentários.
Sendo um blogue, modesto, de certo modo, intimista, que reflecte mais as questões que me ocupam o espírito e que naturalmente não despertam paixões nem porventura suscitaram ainda grande reflexão por parte da generalidade dos visitantes, considero o facto como normal.
Imaginem então o meu espanto quando vejo que os meus 2 postes sobre Pedro Abrunhosa, aqui e também aqui, onde simplesmente digo e procuro explicar porque não gosto do “artista” em questão, tem atraído progressivamente a atenção de alguns visitantes inconformados e ávidos de demonstrar que é a minha tacanhez de espírito, pobreza intelectual, frustrações e grande atrevimento que me permitem exprimir tal opinião iconoclasta.
E é esse facto em si que se torna interessante para mim:
Primeiro, porque se um dia me passar pela cabeça querer aumentar a audiência deste blogue, já tenho uma pista válida (confesso que já me tinha lembrado, para o efeito, de colocar estrategicamente “tags” do tipo “sexo anal”, “gajas boas” ou então falar mais de futebol e da perseguição do famigerado “sistema” ao meu impoluto Sporting, mas dizer mal do Abrunhosa, não, nunca me tinha ocorrido).
Depois, porque desmente cabalmente a sabedoria popular quando diz “gostos não se discutem”, é mentira, é precisamente o que mais se discute.
Por último, dou graças a Deus por não ter dito ali toda a verdade em relação ao Pedro Abrunhosa ou o meu amor próprio já teria sido completamente arrasado, é que o homem, além do mais, não sabe cantar !

2007-08-20

A Guarda vermelha e a Guarda verde

A revolução cultural chinesa teve a sua Guarda vermelha impondo a sua verdade a bem ou a mal.
Agora, à escala global mas também já neste cantinho, começa a aparecer a Guarda verde impondo a sua verdade a bem ou a mal.
Só a cor mudou, os homens e as mulheres são os mesmos.

2007-08-16

Maddie

Se o sangue encontrado no quarto que foi dos Mc Cann, não for de Madie como diz o “The Times”, a PJ não fica num beco sem saída, fica é num beco com demasiadas saídas.

2007-08-14

Fiz um poema

Chamei-lhe “esquizofrenia”
É assim:

Esquizofrenia

Meu nome é pseudónimo embora tenha vida,
Tem passado, presente e futuro provável.
O sobrenome é de rio da terra prometida,
O nome é de luso herói, de condestável.

Como Nuno Jordão assino as minhas obras,
Nome de guerra para enfrentar manobras.

É nome armadura e traje de passeio,
Com ele represento o dia a dia,
Com ele exprimo a verdade e com ele falseio,
Até que um dia desça à terra fria.

Mas outro é o meu nome verdadeiro,
Outro é o cerne do meu ser primeiro,

Chamo-me Pentalomino de Arifante,
Trago nobreza no meu sangue ardente,
Tenho braços de leão e coração de amante,
Senhor de mim, maior que toda a gente.

Já enfrentei D. Quixote, perdido no tempo,
Com o meu exército de moinhos de vento.


Li o poema mas não gostei, via-o recitado num salão dos Gouvarinhos, ou algo assim, recitado por um jovem bacharel bexigoso, com ênfase discursiva e provocando tremuras de emoção em muitas belas damas, escondendo o seu rubor por trás de um leque.
Sublime, diriam !
Mas eu estou no século XXI, o poema é anacrónico, tenho que ser um homem do meu tempo, vou voltar a escrevê-lo.
Saíu isto:

Esquizofrenia

O meu nome não é nome,
Apenas pseudónimo utilitário,
Como Pessoa dei-lhe vida e horóscopo,
Tem ressonâncias de herói,
Desfaz-se em água por fim.

Nuno Jordão, nome banal para assinar papéis
E assim desafiar os infiéis.

É nome de combate e de recreio,
Anda sempre comigo,
Serve-me para a verdade e para a mentira,
Assim será para sempre certamente.

Mas eu não sou apenas Eu,
Sou mais o outro que também sou eu.

Sou Pentalomino de Arifante,
Herói de fábula e pleno de nobreza,
Tenho comigo a força do sonho,
E sou gigante, olho de cima a natureza.

Já combati D. Quixote numa Mancha imaginária,
Levando comigo os meus moinhos guerreiros

Meu Deus, ainda não é isto, parece-me que não envergonha mas não tem génio !

Tentei então uma versão tipo Abrunhosa, sempre é mais fácil e alguns visitantes deste blogue parecem gostar do estilo.
Aqui está ela:

Esquizofrenia

O meu nome é uma quimera que percorre a cidade,
Sou um fantasma da noite que afronta a liberdade,
Não sou o meu nome, apenas a saudade.

Vivo no punho da minha espada alada
Enfrento exércitos de luz e nada
Eu sou só a realidade !


Não, não sou capaz, vou limitar-me à essência e disfarço a minha incapacidade de dizer o indizível, com esta expressão maliciosa: “se não compreenderem que se lixem !”

Esquizofrenia

Não sei quem sou.
A realidade é um sonho !
O sonho é a realidade !
O meu nome é apenas um instrumento do espectáculo.
O meu nome é um pseudónimo.
Talvez eu seja de facto, e só, o meu pseudónimo.

Desculpem-me, não tento mais, desisto !
Ou talvez o meu poema seja todo este poste !

2007-08-12

Ainda Miguel Torga

Coimbra, 29 de Junho de 1990

Já não tem remédio. As minhas relações com os governantes hão-de ser sempre uma confrontação crispada. Mesmo quando uma real simpatia nos aproxima, o diálogo nunca é naturalmente cordial. Há nele, subjacente, não sei que mútua reticência. O mais vulgar cidadão e ocasional interlocutor mantêm-se nossos semelhantes para além da condição social. Mas o político, só pelo facto de o ser, é sempre um estranho ao pé de nós. Tem qualquer coisa de um predador humano, que ameaça dia e noite a paz dos demais viventes da selva. É pelo menos o que sinto. Quero abrir-lhes o coração, e não consigo. Não sei que instinto de conservação tolhe-me o impulso de sinceridade e acirra-me a vontade de o defrontar. Sei que só um objectivo o move na vida: o poder. Que por ele de tudo é capaz, diga o que disser, pareça o que pareça. Ora nesse desejo obstinado de mando, de domínio, vejo, não sei porquê, potencialmente comprometida a minha liberdade. E retraio-me. É como se o soubesse caladamente armado contra mim.


Miguel Torga, in “Diário XVI”

O poeta telúrico

Faria hoje, faz ?, 100 anos Miguel Torga.
Certo dia escreveu o seguinte:

Montalegre, 1 de Setembro de 1990

Eram jovens, abordaram-me, gostavam do que escrevi, e queriam saber coisas de mim. Qual era o meu segredo ?
- Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar comum.


in “diário XVI

2007-08-07

A infantilização global

Eu já sabia isto, muitos pensadores o têm referido de diversas formas, mas permanecia discretamente oculto no meu cérebro.
Só na conjugação de circunstâncias específicas, certas parcelas difusas do conhecimento podem surgir à luz do dia com uma enorme clareza.
Piaget chamava a este fenómeno a equilibração do conhecimento acumulado, o momento em que aprendemos de facto uma coisa.
Eu vou contar-lhes o que se passou comigo:
Nestes dias de férias na praia, levámos connosco o nosso neto Pedro de 2 anos e meio e encetámos a delicada tarefa de lhe retirar o uso das fraldas.
Pedro, não obstante a sua tenra idade, como todas as crianças começa a desenvolver um sentido moral, tem já uma noção difusa mas efectiva do bem e do mal, há palavras chave que lhe impõem respeito: a palavra “perigoso”, por exemplo. Ele evita o perigoso, e para ele é perigoso tudo o que nós, pais e avós lhe dizemos que é perigoso de uma forma insistente e coerente. Também não gosta de ser apelidado de “porcalhão” é, para ele, claramente uma palavra insultuosa.
Foi manipulando este sentido moral que lhe fomos inculcando o comportamento que entendemos correcto:
- Não toques na tomada Pedro, é perigoso e podes morrer !
A ameaça da morte não parece convencê-lo mas o perigoso sim, e para nós tanto nos faz, a realidade é que ele evita mexer nos artigos eléctricos.
Mais tarde Pedro irá crescer, saber que nós não somos deuses e não temos o monopólio da sabedoria, que há coisas perigosas que se podem mexer, sim, em determinadas circunstâncias. Enfim, vai-se tornar adulto e fazer as suas próprias escolhas de acordo com a sua própria análise, conhecimentos, sentido do risco etc.

Ontem, na SIC, ouço qualquer coisa como isto: nenhuma praia fluvial do Douro está reconhecida por, não sei quem que deve fazer esse reconhecimento, não estão vigiadas e já morreram este ano 2 banhistas.
Eu, que sei o que é um rio, que já tomei banho em muitos e nunca senti falta da vigilância, que até já apanhei ultravioletas em períodos de enorme irradiação sem sequer saber quanto era, que já saí à rua em dias verdes laranjas e encarnados de calor, porque eles ainda não me diziam de que cor eram e consegui sobreviver a isso tudo, senti claramente que falavam comigo como eu falo com o Pedro, como se eu fosse uma criança sem o mínimo discernimento.
- Não vás a uma praia fluvial no Douro, Nuno, olha que é "perigoso" !
Depois entrevistaram veraneantes nessas praias e, felizmente, estavam todos felizes da vida e nada preocupados.
Preocupada só a “avózinha” jornalista.
É isto que os média procuram fazer: infantilizar-nos.
Assim poderemos ser todos manipulados tal como eu manipulo o meu neto.

2007-08-03

Desbastes pelo alto

Em gestão florestal, quando se pretende reduzir a densidade de uma floresta superlotada existem, entre outras, duas estratégias possíveis:
Retirar as árvores mais débeis e defeituosas, criando espaço para que as melhores se desenvolvam mais – desbaste pelo baixo.
Ou, pelo contrário, retirar as mais desenvolvidas e vigorosas, realizando algum proveito imediato e na esperança que as condições mais desafogadas permitam a recuperação das mais frágeis – desbaste pelo alto.
Transpondo esta imagem para a administração verificamos que, há anos, se vem seguindo um intenso desbaste pelo alto.
Quem está por dentro poderá referir muitíssimos exemplos dessa estratégia mas agora até já surgem alguns casos nos media:
A Senhora directora da DREN que tem apresentado enormes fragilidades fica, a Senhora Directora do Museu de Arte Antiga que todos dizem tem feito um excelente trabalho, sai.
A estratégia está lá bem nítida, é o desbaste pelo alto, só resta esperar que a mediocridade medre.
E tem medrado, de facto, muitíssimo !

2007-07-23

Durante as minhas férias 2

Ouvi Sócrates dizer que não aceita lições de democracia.
Com esta atitude penso que nunca aprenderá nada !

Durante as minhas férias 1

O Quarteto

Reuniu em Lisboa o quarteto para a paz no Médio Oriente.
Vi-os jantando e também falando numa conferência de imprensa.
Irradiavam paz, sem dúvida, querem que Israel e a Palestina vivam em paz, lado a lado, cada um com o seu Estado, feliz e viável.
Lá estavam a Condoleesa, o Blair, o Sócrates, anfitrião, e outros notáveis. Blair, aliás, é a nova estrela do quarteto.
Com esta gente a paz vai chegar rápidamente à Palestina.
A um quarteto tão feliz e pacífico, quem poderá ficar indiferente ?

2007-07-15

Quem ganhou as eleições ?

Vi em todas os canais:
Foi o Dra. Maria José Abstenção e com maioria absoluta.
Confesso que não prestei atenção a todos os candidatos, eles eram tantos, mas ouvi logo a novidade, desde as sondagens à boca da urna, foi a Abstenção, foi a Abstenção!
Quem será a Abstenção ? perguntei-me eu.
Fui investigar.
É Dra, porque este é um país de Doutores mas parece que também tem umas cadeiras de engenharia e, como se adivinha, chama-se Maria José, para ser chamada Zé como é devido, deve ser a tal Zé que faz falta.
Eu que trabalho diariamente em Lisboa, uso as suas infra-estruturas de transporte e piso as suas ruas mas que não posso votar em Lisboa, desejo à Dra. Zé Abstenção as maiores felicidades e sigo para férias na praia mais animado.