2007-08-14

Fiz um poema

Chamei-lhe “esquizofrenia”
É assim:

Esquizofrenia

Meu nome é pseudónimo embora tenha vida,
Tem passado, presente e futuro provável.
O sobrenome é de rio da terra prometida,
O nome é de luso herói, de condestável.

Como Nuno Jordão assino as minhas obras,
Nome de guerra para enfrentar manobras.

É nome armadura e traje de passeio,
Com ele represento o dia a dia,
Com ele exprimo a verdade e com ele falseio,
Até que um dia desça à terra fria.

Mas outro é o meu nome verdadeiro,
Outro é o cerne do meu ser primeiro,

Chamo-me Pentalomino de Arifante,
Trago nobreza no meu sangue ardente,
Tenho braços de leão e coração de amante,
Senhor de mim, maior que toda a gente.

Já enfrentei D. Quixote, perdido no tempo,
Com o meu exército de moinhos de vento.


Li o poema mas não gostei, via-o recitado num salão dos Gouvarinhos, ou algo assim, recitado por um jovem bacharel bexigoso, com ênfase discursiva e provocando tremuras de emoção em muitas belas damas, escondendo o seu rubor por trás de um leque.
Sublime, diriam !
Mas eu estou no século XXI, o poema é anacrónico, tenho que ser um homem do meu tempo, vou voltar a escrevê-lo.
Saíu isto:

Esquizofrenia

O meu nome não é nome,
Apenas pseudónimo utilitário,
Como Pessoa dei-lhe vida e horóscopo,
Tem ressonâncias de herói,
Desfaz-se em água por fim.

Nuno Jordão, nome banal para assinar papéis
E assim desafiar os infiéis.

É nome de combate e de recreio,
Anda sempre comigo,
Serve-me para a verdade e para a mentira,
Assim será para sempre certamente.

Mas eu não sou apenas Eu,
Sou mais o outro que também sou eu.

Sou Pentalomino de Arifante,
Herói de fábula e pleno de nobreza,
Tenho comigo a força do sonho,
E sou gigante, olho de cima a natureza.

Já combati D. Quixote numa Mancha imaginária,
Levando comigo os meus moinhos guerreiros

Meu Deus, ainda não é isto, parece-me que não envergonha mas não tem génio !

Tentei então uma versão tipo Abrunhosa, sempre é mais fácil e alguns visitantes deste blogue parecem gostar do estilo.
Aqui está ela:

Esquizofrenia

O meu nome é uma quimera que percorre a cidade,
Sou um fantasma da noite que afronta a liberdade,
Não sou o meu nome, apenas a saudade.

Vivo no punho da minha espada alada
Enfrento exércitos de luz e nada
Eu sou só a realidade !


Não, não sou capaz, vou limitar-me à essência e disfarço a minha incapacidade de dizer o indizível, com esta expressão maliciosa: “se não compreenderem que se lixem !”

Esquizofrenia

Não sei quem sou.
A realidade é um sonho !
O sonho é a realidade !
O meu nome é apenas um instrumento do espectáculo.
O meu nome é um pseudónimo.
Talvez eu seja de facto, e só, o meu pseudónimo.

Desculpem-me, não tento mais, desisto !
Ou talvez o meu poema seja todo este poste !

2007-08-12

Ainda Miguel Torga

Coimbra, 29 de Junho de 1990

Já não tem remédio. As minhas relações com os governantes hão-de ser sempre uma confrontação crispada. Mesmo quando uma real simpatia nos aproxima, o diálogo nunca é naturalmente cordial. Há nele, subjacente, não sei que mútua reticência. O mais vulgar cidadão e ocasional interlocutor mantêm-se nossos semelhantes para além da condição social. Mas o político, só pelo facto de o ser, é sempre um estranho ao pé de nós. Tem qualquer coisa de um predador humano, que ameaça dia e noite a paz dos demais viventes da selva. É pelo menos o que sinto. Quero abrir-lhes o coração, e não consigo. Não sei que instinto de conservação tolhe-me o impulso de sinceridade e acirra-me a vontade de o defrontar. Sei que só um objectivo o move na vida: o poder. Que por ele de tudo é capaz, diga o que disser, pareça o que pareça. Ora nesse desejo obstinado de mando, de domínio, vejo, não sei porquê, potencialmente comprometida a minha liberdade. E retraio-me. É como se o soubesse caladamente armado contra mim.


Miguel Torga, in “Diário XVI”

O poeta telúrico

Faria hoje, faz ?, 100 anos Miguel Torga.
Certo dia escreveu o seguinte:

Montalegre, 1 de Setembro de 1990

Eram jovens, abordaram-me, gostavam do que escrevi, e queriam saber coisas de mim. Qual era o meu segredo ?
- Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar comum.


in “diário XVI

2007-08-07

A infantilização global

Eu já sabia isto, muitos pensadores o têm referido de diversas formas, mas permanecia discretamente oculto no meu cérebro.
Só na conjugação de circunstâncias específicas, certas parcelas difusas do conhecimento podem surgir à luz do dia com uma enorme clareza.
Piaget chamava a este fenómeno a equilibração do conhecimento acumulado, o momento em que aprendemos de facto uma coisa.
Eu vou contar-lhes o que se passou comigo:
Nestes dias de férias na praia, levámos connosco o nosso neto Pedro de 2 anos e meio e encetámos a delicada tarefa de lhe retirar o uso das fraldas.
Pedro, não obstante a sua tenra idade, como todas as crianças começa a desenvolver um sentido moral, tem já uma noção difusa mas efectiva do bem e do mal, há palavras chave que lhe impõem respeito: a palavra “perigoso”, por exemplo. Ele evita o perigoso, e para ele é perigoso tudo o que nós, pais e avós lhe dizemos que é perigoso de uma forma insistente e coerente. Também não gosta de ser apelidado de “porcalhão” é, para ele, claramente uma palavra insultuosa.
Foi manipulando este sentido moral que lhe fomos inculcando o comportamento que entendemos correcto:
- Não toques na tomada Pedro, é perigoso e podes morrer !
A ameaça da morte não parece convencê-lo mas o perigoso sim, e para nós tanto nos faz, a realidade é que ele evita mexer nos artigos eléctricos.
Mais tarde Pedro irá crescer, saber que nós não somos deuses e não temos o monopólio da sabedoria, que há coisas perigosas que se podem mexer, sim, em determinadas circunstâncias. Enfim, vai-se tornar adulto e fazer as suas próprias escolhas de acordo com a sua própria análise, conhecimentos, sentido do risco etc.

Ontem, na SIC, ouço qualquer coisa como isto: nenhuma praia fluvial do Douro está reconhecida por, não sei quem que deve fazer esse reconhecimento, não estão vigiadas e já morreram este ano 2 banhistas.
Eu, que sei o que é um rio, que já tomei banho em muitos e nunca senti falta da vigilância, que até já apanhei ultravioletas em períodos de enorme irradiação sem sequer saber quanto era, que já saí à rua em dias verdes laranjas e encarnados de calor, porque eles ainda não me diziam de que cor eram e consegui sobreviver a isso tudo, senti claramente que falavam comigo como eu falo com o Pedro, como se eu fosse uma criança sem o mínimo discernimento.
- Não vás a uma praia fluvial no Douro, Nuno, olha que é "perigoso" !
Depois entrevistaram veraneantes nessas praias e, felizmente, estavam todos felizes da vida e nada preocupados.
Preocupada só a “avózinha” jornalista.
É isto que os média procuram fazer: infantilizar-nos.
Assim poderemos ser todos manipulados tal como eu manipulo o meu neto.

2007-08-03

Desbastes pelo alto

Em gestão florestal, quando se pretende reduzir a densidade de uma floresta superlotada existem, entre outras, duas estratégias possíveis:
Retirar as árvores mais débeis e defeituosas, criando espaço para que as melhores se desenvolvam mais – desbaste pelo baixo.
Ou, pelo contrário, retirar as mais desenvolvidas e vigorosas, realizando algum proveito imediato e na esperança que as condições mais desafogadas permitam a recuperação das mais frágeis – desbaste pelo alto.
Transpondo esta imagem para a administração verificamos que, há anos, se vem seguindo um intenso desbaste pelo alto.
Quem está por dentro poderá referir muitíssimos exemplos dessa estratégia mas agora até já surgem alguns casos nos media:
A Senhora directora da DREN que tem apresentado enormes fragilidades fica, a Senhora Directora do Museu de Arte Antiga que todos dizem tem feito um excelente trabalho, sai.
A estratégia está lá bem nítida, é o desbaste pelo alto, só resta esperar que a mediocridade medre.
E tem medrado, de facto, muitíssimo !

2007-07-23

Durante as minhas férias 2

Ouvi Sócrates dizer que não aceita lições de democracia.
Com esta atitude penso que nunca aprenderá nada !

Durante as minhas férias 1

O Quarteto

Reuniu em Lisboa o quarteto para a paz no Médio Oriente.
Vi-os jantando e também falando numa conferência de imprensa.
Irradiavam paz, sem dúvida, querem que Israel e a Palestina vivam em paz, lado a lado, cada um com o seu Estado, feliz e viável.
Lá estavam a Condoleesa, o Blair, o Sócrates, anfitrião, e outros notáveis. Blair, aliás, é a nova estrela do quarteto.
Com esta gente a paz vai chegar rápidamente à Palestina.
A um quarteto tão feliz e pacífico, quem poderá ficar indiferente ?

2007-07-15

Quem ganhou as eleições ?

Vi em todas os canais:
Foi o Dra. Maria José Abstenção e com maioria absoluta.
Confesso que não prestei atenção a todos os candidatos, eles eram tantos, mas ouvi logo a novidade, desde as sondagens à boca da urna, foi a Abstenção, foi a Abstenção!
Quem será a Abstenção ? perguntei-me eu.
Fui investigar.
É Dra, porque este é um país de Doutores mas parece que também tem umas cadeiras de engenharia e, como se adivinha, chama-se Maria José, para ser chamada Zé como é devido, deve ser a tal Zé que faz falta.
Eu que trabalho diariamente em Lisboa, uso as suas infra-estruturas de transporte e piso as suas ruas mas que não posso votar em Lisboa, desejo à Dra. Zé Abstenção as maiores felicidades e sigo para férias na praia mais animado.

2007-07-13

A festa dos tabuleiros em Tomar

A SIC, em boa hora, tem dedicado, em horário nobre, uma série de reportagens a essa festa que se repete de 4 em 4 anos em Tomar e onde eu infelizmente nunca estive.
Hoje, o centro da preocupação e do espanto da “reporter” era o facto dos pesados tabuleiros serem, tradicionalmente, carregados por mulheres.
De facto hoje há um quase total desconhecimento de muita sabedoria ancestral de base rural, naturalmente.
Muitos transmontanos idosos, ainda conhecem a antiga expressão “peso de mulher”.
Não julguem os meus visitantes que “peso de mulher” se referia a um peso leve, mais apropriado para o sexo fraco, nada disso, a expressão “peso de mulher” era dedicado precisamente a peças, transportáveis mas muito pesadas, peças que só se podiam transportar à cabeça e só as mulheres sabem transportar à cabeça.
Porquê ? não sei, só sei que nunca se vê um homem levar coisas à cabeça (aliás hoje quase já se não vê ninguém) mas mulheres sim, haverá quem se lembre das varinas e das suas canastras ?
A física explica o facto de um grande peso se suportar melhor sobre a cabeça desde que se tenha uma postura recta, de cabeça levantada, olhando para diante.
Porque só as mulheres conseguem essa postura é que não sei se será por razões anatómicas ou culturais, mas é assim, sempre foi assim.
Via-se aliás na reportagem, nas entrevistas feitas, o orgulho daquelas jovens por estarem à altura daquela missão, por ainda hoje serem capazes de transportar dignamente um “peso de mulher”.

2007-07-11

A Natalidade em Portugal está a cair vertiginosamente

É a própria estratégia civilizacional que conduz à alienação do ser humano da sua condição natural.
A mulher moderna, dinâmica, executiva, civilizada que nos apresentam como modelo, é obrigada a adiar, cada vez mais, o seu papel de mãe, para que se aliste no exército da produção.
É o que as estatísticas dizem e o simples bom senso permitiria ver.
Para algumas mulheres, ser mãe ou sobreviver, é o dilema que enfrentam diariamente.
A comunicação social alarma-se, nasceram menos 4000 portugueses este ano !
Alguns néscios culpam a lei do aborto: “queremos bebés ou o “stock” de bebés/mercadoria vai extinguir-se em breve, que se lixem as mulheres”
Outros dizem não, “salvem-se os direitos da mulher/mercadoria, que já está formada e a produzir além disso o próprio aborto ainda nos vai dar chorudos lucros, que se lixem os bebés.”
A civilização vê entretida este debate, preocupa-se antes com o CO2 que vai emitindo para a atmosfera para que a desgraça não nos caia do céu, olha para as nuvens, e dá calmamente mais uns passos para o abismo !
È evidente que isto são só devaneios meus, “no passa nada”, está tudo bem !

2007-07-04

O dilema humano

Para ler, pesando cada palavra e cada acento gráfico.

Toda a gente vivia entediada, metida à força no próprio tédio. Graças a Camus, aprendêramos que o homem é um estranho sobre a terra, ficou “entulhado” no seu monte de “sucata” e forçado a viver num mundo de que nunca será parte. Se tenta participar, vê-se perdido, “objectiva-se” e desintegra-se. E se o não fizer, permanece errado, porque desse modo negligenciará as responsabilidades que tem em relação a tudo quanto existe.

Extraído de Greil Marcus: “Marcas de baton - uma história secreta do século XX”
O texto é atribuído ao movimento “Letrista” e concretamente a Isidore Isou.

O que quererá isto dizer ?

“O Sr. Ministro da Saúde executa uma política correcta mas não tem sensibilidade social !”
Para quê a sensibilidade social numa política correcta ?
Como pode haver uma política correcta sem sensibilidade social ?
O que será uma política correcta ? a que serve quem ?
O que esta frase quer de facto dizer é que o Sr. Ministro foi inábil a enganar o povo !

2007-07-01

A forma e o conteúdo

“O que me chateia é a gente que está no “street racing” mas que não é do “street racing” dizia-se num “sketch” dos Gatos Fedorentos.
Curiosamente, o humor transmitido nesta frase simples exigiria uma maior elaboração se posta em francês ou em inglês ou em tantas outras línguas que não diferenciam “ser” de “estar”.
Todavia esta dicotomia é para nós fundamental, o “ser” como uma essência, como uma natureza perene, como um conteúdo ontológico em oposição ao “estar”, transitório, aparente que se modifica e se adapta como uma forma do ser.
Em todas as questões podemos descortinar o ser e o estar, a forma e o conteúdo, a aparência e a realidade.
Na sociedade espectacular em que nos movemos é a forma que prevalece; o conteúdo desvaloriza-se, por vezes nem existe de todo, mesmo nas formas mais brilhantes e atraentes.
O Governo e o aparelho do estado são um exemplo:
Vestem-se, comportam-se, vivem e falam como um governo mas não pensam nada, não querem nada para além da sua simples sobrevivência a não pensar nada e a não querer nada e a defender-se de outros que querem tomar a sua “forma” para serem nada também.

All the world`s a stage, and all the men and women merely players; they have there exits and their entrances; and one man in is time plays many parts, ... ”.

Nem mais, velho Shakespeare, tu já sabias !

2007-06-29

2007-06-26

Assim vai o Prace

Da forma como segue a reestruturação do Ministério da Agricultura, parece que o Governo está a ponderar a mudança da sua designação para:
Comissão Liquidatária da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas.

2007-06-25

A boçalidade

Llasa de Sela, filha de pai mexicano e mãe americana, salvo erro, dizia que não suportava a estupidez da classe média americana que considerava os mexicanos como gente burra rude e boçal apenas porque não sabiam falar inglês (a língua natural, no imaginário dessa gente).
Todavia essa estupidez não é exclusiva dos EUA, por cá também vou ouvindo classificar Joe Berardo como burro rude e boçal apenas porque não domina minimamente o português e por não ter tido uma educação formal.
Naturalmente, ele deve rir-se com os dentes de trás repetindo o dito popular “faz-te tolo mais “có qués” que um só tolo engana dez”.

2007-06-22

Eu escrevo para alguém

Referiu hoje Mia Couto na sua entrevista na RTP.
António Tabucchi também contou que um dia, quando ainda era estudante comprou um pequeno livro, em francês, com uma poesia com um nome estranho de um poeta que desconhecia completamente. Todavia, a leitura desse poema, durante uma breve viagem de comboio, mudou completamente a sua vida.
Chamava-se o poema “Bureau de Tabac” e o poeta era um tal Fernando Pessoa.

Ainda George Steinner diz ter descoberto assim, por acaso ?, Walter Benjamin.

Agostinho da Silva referia que não cobrava direitos de autor por razões metafísicas:
Não estava certo de ser ele próprio a escrever o que escrevia, talvez fosse alguém ou algo transcendente que lhe ditava essas linhas.

Também eu, por vezes sonho que daqui a vários anos, talvez alguém que vasculhe bits e bytes num velho “server” informático, venha a encontrar, com espanto, algumas linhas deste blogue e que essas linhas se transformem para ele numa revelação !

2007-06-20

Rollerball

Falo do filme, meio esquecido, de 1975, realizado por Norman Jewison e não do de 2002 que não vi nem me interessa ver.
Passa-se em 2018 num mundo onde já não há Estados e o controlo é exercido por Corporações, da energia, dos transportes, da alimentação etc.
O tema do filme passa-se em torno de um desporto de massas de então, o rollerball, onde as regras iam mudando de jogo para jogo segundo os interesses dessas Corporações, independentemente disso prejudicar e confundir os jogadores ou mesmo de pôr a sua vida em risco.
Lembrei-me do filme quando li o comunicado sobre o caso da professora com leucemia obrigada a dar aulas até quase ao dia da sua morte.
Diz o Governo que foi tudo legal, tudo de acordo com as regras.
Pudera, como no rollerball, também são eles que fazem as regras a seu bel-prazer !

2007-06-17

Ota ou Alcochete ?

Ao contrário da maior parte dos analistas que tenho ouvido, para mim, o novo aeroporto vai ser em Alcochete, o tempo se encarregará de me confirmar ou de me desmentir.
As minhas razões são estas:
A situação:
Há muitos anos que surgiram duas localizações sobre a mesa, Rio Frio e Ota, para saber as razões destas opções teríamos que recuar até ao antigo regime, as duas são péssimas aliás, mas como ninguém pensava a sério em fazer o aeroporto, os estudos sucederam-se até à exaustão mas as opções foram ficando as mesmas até ser escolhida a menos má das duas, a Ota.
Agora pretende-se fazer o aeroporto a sério e a inconveniência da Ota vem ao de cima. Todos dizem mal, mas o Governo não pode fazer mais nada, ou se agarra à posição tomada ou entra por um caminho infindável de estudos e mais estudos, e não faz aeroporto nenhum.
Para o Ministro Mário Lino o caso torna-se num ponto de honra e para Sócrates numa embrulhada.
A CIP, financiada por alguns empresários assustados com a forte possibilidade de ter que engolir o aeroporto na Ota, fazem um estudo sobre uma primeira hipótese minimamente aceitável, Alcochete.
Sócrates agradece com alívio a tábua de salvação e Mãrio Lino engole o sapo e vai tentando, como pode não deixar morrer a Ota.

Critérios técnicos:
Alcochete ganha aos pontos à Ota.

Critérios Económicos:
Alcochete ganha aos pontos à Ota.

Interesses obscuros:
Muitos analistas focalizam a sua atenção nos proprietários de terreno na Ota e agora também de Alcochete, mas uma coisa me parece certa aí não há interesses, há apenas interessezinhos.
Alguma valorização dos terrenos, expropriações super pagas a alguns, talvez haja tudo isso mas não deixam de ser pequenos ganhos.
Onde verdadeiramente está o Big Money é, como sempre, na apropriação privada de bens públicos, é na Portela, obviamente.
Quem vai ficar com a Portela, e em que condições é a isto que deveremos estar atentos.
Curiosamente o fim da Portela que é o mais difícil de sustentar, por todas as razões, é precisamente a questão que já não se discute.
Nem Portela mais um, nem Um mais Portela, a Portela nunca, a Portela vai acabar em prédios.
É isto que interessa ao Governo que terá algum encaixe financeiro e a alguém que terá um enormíssimo encaixe financeiro.
Para estes tanto faz Ota ou Alcochete ou outra coisa qualquer, só é preciso que acabe a Portela.

Conclusão:
Para o poder político aceitar Alcochete é pacífico, só Mário Lino perderá a face, mas aí Sócrates e Cavaco terão mais força.
Para o poder económico interessa Alcochete porque faz um mínimo de senso.
Para algum poder económico interessa-lhe apenas desviar as atenções para as disputas entre a Ota, Alcochete, Poceirão ou qualquer outra localização desde que se cale apenas qualquer hipótese que inclua a Portela.

Juntando assim o poder económico ao poder político quem vai ganhar é Alcochete.
A ver vamos.

2007-06-16

Qualquer criança sabe

Mas com o tempo vamo-nos esquecendo:
Uma ferida, uma dor, alivia-se com um beijinho !

2007-06-14

Hoje é o dia mundial do dador de sangue

Na tv perguntavam a uma especialista:
- Quem pode dar sangue ?
- Toda a gente que tenha saúde e leve uma vida saudável.
Respondeu prontamente a especialista.

Eu, que não levo uma vida saudável percebi logo que infelizmente não podia dar sangue mas qual não foi o meu espanto quando à pergunta directa:
- Os fumadores podem dar sangue ?
Ouvi esta resposta:
- Porque não ?

A especialista e a entrevistadora que certamente não são fumadoras, não sabem ainda mas eu já sei porque me estão a dizer constantemente nos maços de tabaco que compro.
Porque:
Fumar mata !
Fumar prejudica gravemente a minha saúde e a dos que me rodeiam !
Fumar bloqueia as artérias e provoca ataques cardíacos e enfartes !
Fumar pode prejudicar o esperma e reduz a fertilidade !
Fumar provoca o cancro pulmonar mortal !
Quem fuma tem que proteger as crianças e não as obrigar a respirar o seu fumo !
E muitas mais razões que dificilmente habilitam os fumadores a se enquadrarem num estilo de vida saudável! Isso já eu percebi muito bem.
Ainda bem que o Governo me avisa.

2007-06-13

Um novo problema

Se o aeroporto for para o campo de tiro de Alcochete para onde iremos nós atirar balas e mísseis ?
Para a Ota ?
Para a Portela ?
Aceitam-se sugestões.

2007-06-11

Um argumento simples mas eloquente

Quando, há vários anos, passei cerca de um mês num Kibutz, tinha, na minha juventude de então, um imenso fascínio e curiosidade por essa utopia afinal realizada.
E o que lá vi foi um sistema aparentemente perfeito e feliz: não obstante não existir propriedade privada, toda a gente usufruía de mais bens materiais, de viagens, de lazer, do que no resto do mundo em volta, não era quando cada um queria, é certo, mas quando a comunidade democraticamente entendesse que havia condições para tal, mas essas condições surgiam facilmente num Kibutz rico e bem gerido.
Apenas uma questão me intrigava:
Estatisticamente a maioria dos jovens nados e criados num kibutz, que ao atingir a maioridade usufruíam de uma extensa viagem pelo mundo, precisamente para fazer uma opção em consciência, ao regressar decidiam precisamente não ficar !
Falo no pretérito porque desconheço totalmente se a realidade continua a ser a mesma hoje, mas naquela altura os kibutzim eram mantidos por um fluxo constante de aderentes de fora para dentro e constantemente “sangrados” de dentro para fora.
Foi conversando com um jovem dissidente que havia abandonado um kibutz que compreendi perfeitamente a questão:
Embora reconhecesse que agora a vida era mais difícil e que vivia materialmente pior justificou-se assim:
- Se você aguenta passar um dia e outro dia e um mês e um ano e vários anos, enfim toda a vida, a comer numa mesa e a conversar com a mesma cara à frente e a mesma cara no seu lado direito e a mesma cara no seu lado esquerdo, pode gostar dos kibutzim, eu não suportei isso.
Este simples argumento fez-me mudar totalmente toda a minha filosofia social.
Foi mais eficaz do que os milhares de páginas que tenho lido sobre o tema !

2007-06-09

Diferenças culturais

Para os ingleses parece muito estranho que os inspectores que investigam o desaparecimento de Madeleine tenham almoços de 2 horas.
Para mim, com a mesma irracionalidade, é estranho ver os pais de Madeleine correrem o mundo em jacto particular emprestado e gastando o dinheiro da enorme onda de solidariedade, penso que com efeitos contraproducentes para a investigação e para o presumível sofrimento a que estarão sujeitando a menina.

2007-06-06

De regresso às lides

Depois de umas curtas férias sem “net”, sem notícias, deixo-vos um pouco do que ficou desses momentos: o belo poema, mataram a tuna, de Manuel da Fonseca que ainda há poucos dias ouvi recitar num momento mágico.

Mataram a Tuna

Nos domingos antigos do bibe e pião

saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.

Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.

Moços da rua tinham pé leve
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!

Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.

Quem não sabia aquilo de cor?

A gente cantava assobiava aquilo de cor...
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar)
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!

Entretanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
que era indecente aquela marcha
parecia até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.

Mas José Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!

Meus companheiros antigos de bibe e pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretárias do comércio
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem vida
sem nada
mais que o sossego das falas brandas...
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim!

Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita
despertemos e vamos
eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!

Manuel da Fonseca

Este poema, eu diria a marcha Almadanim, deu-me a coragem necessária para as guerras que se avizinham.

Muitos especulam sobre esta marcha Almadanim, como seria esta marcha ? porquê Almadanim ?

O que mais me cativa a mim, todavia, são “os tempos antigos do bibe e pião”.
Que mundos de significação estão encerrados nesta imagem de Manuel da Fonseca !