2007-04-30

Impressões de viagem 7

O Rio de Janeiro continua lindo

E assim continuará enquanto a cidade não destruir completamente a portentosa natureza.
Foi assim que vi o Rio: um centro histórico interessante mas menos interessante do que os de outras cidades do Brasil como Salvador ou Manaus, para falar apenas de cidades visitadas por mim, uma praia, um mar, o calçadão, com a beleza das marginais sumptuosas acrescida da tal natureza que irrompe da cidade mas sempre atormentada pelo fantasma do crime potencial.
Depois, há as favelas, que não visitei.
Sugeriram-me a “Academia da Cachaça” onde me disseram que poderia comer a melhor feijoada da minha vida. Segui o conselho e comi, de facto, a melhor feijoada da minha vida, não é um restaurante turístico mas recomendo-o sem reservas.
As vistas do Cristo redentor, do Corcovado, e do Pão de Açúcar são esplendorosas, “breath taking” como dizem os anglo-saxónicos:
Uma paisagem descomunal de serra e mar, manchada por “um cancro branco” que vai alastrando e que é a cidade.
Não ilustro com fotos porque não é necessário, o Rio todos os dias entra pelas nossas casas.

2007-04-23

O metro ao Sul do Tejo

Ou, com mais propriedade, o eléctrico ao Sul do Tejo, vai tornar-se em mais um caso de estudo dos erros clamorosos do desenvolvimento planeado.
Não serve objectivo nenhum.
Não aumenta nenhuma acessibilidade.
Tem custado uma fortuna.
Empata todo o trânsito
É uma fonte permanente de muitos previsíveis acidentes.
E tudo isto era já claríssimo no papel.
Tem decisor que é cego !

2007-04-20

O massacre de Virgínia

Cresço num mundo de profetas que constantemente me mostram o caminho do sucesso, logo ali à frente, estende-se numa passadeira rolante !
Vejo as pessoas percorre-lo facilmente, felizes e contentes.
Sigo-lhe os passos mas só encontro subidas penosas, curvas e pedras, mas logo me dizem: “não é bem por aí, é um pouco mais ao lado”.
Corrijo a trajectória mas tudo me parece igual.
Estou exausto, faltam-me as forças, e vejo os outros que lá vão, ali tão perto, de tapete rolante.
Procuro debalde a passagem para esse tapete que nunca está ali, ou já passou ou ainda há-de vir.
Estou como K no caminho do Castelo.
Os profetas bem me dizem “olha, estuda que com os estudos encontras logo o caminho” e mostram-me como estariam outros que seguem no tapete, se não tivessem estudos.
Vêm-me à memória, muitos outros que também lá estão embora não tenham estudos nenhuns, tiveram talvez sorte !
Vou então estudar, até ao último grau, mas a passagem continua sem aparecer, para mim só há subidas, curvas e pedras e só para mim.
A raiva e a inveja invadem os meus nervos, Tem de haver um segredo, uma passagem secreta, que não me ensinaram mas que todos os outros parecem conhecer.
Foram os profetas malditos que me esconderam o segredo e só a mim, sacanas !
Estou quase morto de cansaço, a música e a alegria que vejo no tapete, aumenta o meu ódio.
“Se não é para mim também não há-de ser para mais ninguém, já que não me querem dizer o segredo que todos sabem !”
Pego numa bomba (encontram-se muitas bombas no caminho dos escolhos) e atiro-me para cima do tapete.
Morro na explusão com mais 3o e poucos do tapete.
Durante 5 minutos o tapete tem uma pequena avaria que logo é corrigida.
Nos media, desconhecem a minha lucidez: comenta-se o meu acto e chamam-me doido. “ainda por cima estava tão perto do tapete, mesmo ao lado da passagem, como é isto possível ?”.
Só na hora da morte me apercebo da verdade:
Não há tapete nenhum, era tudo uma ilusão !

2007-04-19

Lá saíram as listas

Há dias saíram as esperadas listas do Ministério da Agricultura e com elas milhares de funcionários passaram para o “limbo” da mobilidade.
Os piores ? perguntar-me-ão. Nada disso, saíram maus, é certo, mas também bons e excelentes.
Ficaram os melhores ? Também não. Ficaram bons e excelentes e também muitos maus, a qualidade não foi, senão na forma, o critério utilizado.
Saíram sim os mais fracos, os mais frágeis, aqueles a quem a saída mais custa, mas também aqueles que têm menos possibilidades de lutar e de se defender.
Todavia, como muitos fracos fazem uma força, suspeito que as coisas, mesmo assim, não fiquem por aqui.
Quanto a mim, fiquei. Apenas porque sou um barão, em termos maquiavélicos, o meu poder não vem do príncipe e os barões têm que ser tratados com cuidado ou, preferencialmente, exterminados.
Felizmente eles não leram, com certeza, “o Príncipe” !

Para se compreender a Administração Pública, há 3 leituras que recomendo:
O excelente poste do Jumento chamado “Os boys, as Pandilhas e os Gangs na Administração Pública” onde se desnudam as estruturas do poder aí constituídas
“O Príncipe” de Maquiavel e, sobretudo, Kafka, especialmente “O Castelo”, está lá tudo.

2007-04-18

Ser Português, nós

Ser português não é como ser de outra nação qualquer.
Ser português é falar e amar uma língua que sem qualquer plano ou esforço se fortalece e ninguém a consegue abater e que é a nossa surpresa e o nosso orgulho.
Ser português é estar em qualquer lugar do mundo bem e melhor que em Portugal.
Ser português é odiar Portugal por nunca conseguir estar ao nosso nível.
Mas ser português é amar Portugal, acima de qualquer outro país, por aquilo que Portugal há-de ser um dia, ainda que esse dia nunca venha .
E só nós sabemos que aquilo que Portugal pode ser, por o poder ser, o torna grande já.
Para um português, ser nacionalista é ser para o mundo.

2007-04-10

O triste espectáculo dos marinheiros ingleses

Foi triste ver os marinheiros ingleses, prisioneiros do Irão embaraçarem publicamente o seu governo desmentindo-o em público, servindo os interesses do seu inimigo.
Mas só poucos têm a heroicidade para resistir num ambiente hostil, prisioneiros de homens com uma língua estranha e de quem se pode esperar tudo, até a tortura e a morte.
Foi triste mas compreendi-os, certamente eu faria o mesmo, pensei, só que, passado o perigo, seria ruído pelo remorso e pela vergonha. Não seria, decididamente, uma página da vida que gostasse de recordar.
Foi triste vê-los justificar a sua fraqueza, com a pressão psicológica que dizem ter sofrido.
Foi tristíssimo vê-los negociar com os média o relato da sua desonra, tristíssimo ver as autoridades inglesas incentivarem esse espectáculo, tristíssimo ver as imagens do seu cativeiro em alegre convívio, aparentemente, bem longe da falada pressão psicológica.
Que tristes valores tem esta gente !
Felizmente prevaleceu o bom senso no final e foi proibido aquilo que nem deveria sequer ter sido imaginado.

2007-04-07

Caro visitante ocasional

Muito obrigado pelo seu comentário ao poste sobe Abrunhosa..
É um comentário simples, inteligente, que se limita à questão mais simples mas também a mais pertinente e, talvez a de mais difícil resposta: porquê ?
A verdade é que não gosto da “poesia” de Pedro Abrunhosa, soa-me a falso e foi só isso que eu quis dizer, resumindo o porquê nos adjectivos que utilizei, mal ou bem mas de forma criteriosa, sem dúvida.
Ódio não tenho nenhum, embora me irrite, de facto, a aceitação generalizada do que, para mim, é uma jóia falsa, como se fosse feita de diamantes e de ouro genuíno.
Cingindo-me ao meio da musica que toca nas rádios, julgo que prejudica muito talento poético real, em lingua portuguesa, como o que encontramos, por exemplo, em Jorge Palma, Sérgio Godinho, José Afonso, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, ou mesmo nos Toranja, e em tantos outros.
Abrunhosa não é, para mim, farinha deste saco.
Por isso utilizei o adjectivo “irritante”.
A classificação de “pseudo-poesia” tentarei resumi-la assim:
A poesia é uma forma de arte e sendo a própria noção de arte uma das questões mais complexas e eternamente não resolvidas que tem preocupado o espírito humano, limito-me a considerar a minha posição pessoal sobre esta questão: Para mim, “arte” será o meio de transmitir a outros o conjunto de emoções que determinada vivência nos provocou, “fingir a dor que deveras sentimos” como dizia Pessoa.
Ora Abrunhosa não me consegue transmitir nenhum tipo de emoção coerente, embora utilize meios poéticos: palavras combinadas de tal forma que suscitam referências, duplos sentidos, associações , valorização deste ou daquele aspecto da vivência que pode suscitar, seja por semelhança ou por contraste, determinada emoção.
Mas isto será “a forma” da poesia que para ser, de facto, poesia, deverá também ter “conteúdo”, propósito, coerência que deverá suscitar a tal emoção e é isso que eu não descortino nas letras de Abrunhosa.
Por isso as classifiquei de “pseudo-poesia”.
As letras de Abrunhosa soam-me como um ruído estéril “Full of sound and fury, signifying nothing” como referia Shakespear.
Por isso “insignificante”.
Por outro lado eu não exijo que para se ter sucesso se tenha de ser poeta.
A música “pimba” não tem poesia nem a pretende ter, é directa, objectiva transmite factos. É “pequenina” porque vale pouco mas não é “pretensiosa” porque não pretende parecer lebre sendo gato, é o que é.
A música de Abrunhosa por se revestir de uma forma poética sem conseguir alcançar o seu conteúdo pretende parecer ser o que não é.
Por isso lhe chamei “pretensiosa“.
É evidente que os mecanismos da arte necessitam de um artista e de quem sinta a sua obra.
Há emoções que determinadas obras me despertam porque sugerem referências com muito significado, para mim, experiências do meu passado e que poderão não tocar outras pessoas e vice-versa.
Admito mesmo que as letras de Abrunhosa provoquem algumas pessoas verdadeiramente mas penso que andará longe de ser amplo nesse objectivo.
Por isso utilizei o termo “pequenino”.
Poderia fundamentar tudo o que disse analisando em detalhe uma ou duas letras de Abrunhosa mas exigiria muito tempo e longos textos que penso nem o Abrunhosa nem muitos dos meus visitantes merecem.
Fico pois por aqui.

2007-04-06

Será que ninguém leva os fantasmas de Pedro Abrunhosa ?

E, já agora, leve também o Pedro Abrunhosa mais a sua pseudopoesia, pretensiosa, insignificantee, pequenina e irritante ?

2007-04-02

Impressões de viagem 6


A Selva


O meu contacto foi apenas com a selva turística mas não obstante o “boom” que os hotéis da selva estão a ter no Brasil, a minha escolha recaiu no, talvez mais famoso e mais antigo hotel da selva totalmente construído em palafita, as “Ariau towers”.
É, de facto uma experiência única, depois de uma viagem de barco, de cerca de 2 horas, desde Manaus, subindo o Rio Negro, chegamos ao hotel: quilómetros de passadeiras construídas ao nível das copas das árvores sobre uma estrutura triangulada de madeira.
Um grande torreão, também em madeira, como toda a construção do hotel, alberga a recepção e os restaurantes e várias outras torres contêm os quartos com o mínimo de conforto moderno, ar condicionado, wc e telefone.
Perto da recepção Um espaço amplo de bar com acesso a internet wifi, televisão e, junto, algumas lojas de artesanato, jóias, utilidades de conveniência e um ginásio onde podemos ser massajados.
Ao longo de toda a estrutura, que se pode percorrer a pé, de bicicleta ou de carrinhos de golfe, que se podem alugar tal como as bicicletas, podemos encontrar várias estruturas, como piscinas, uma capela pagã de meditação, e vários miradouros, tudo isto a uns 15 metros de altura sobre a selva. Mais elevado ainda, aqui e ali, encontramos o que eles chamam casas do Tarzã, suites com cozinha, sala e quarto com internet. Estas casas de Tarzã também se podem alugar.
Junto ao bar saltitam permanentemente vários macacos, a quem nos avisam para não darmos álcool, e lindíssimas araras.
Um só senão, quando lá estive, o cheiro do hall onde se inserem os quartos era quase insuportável embora dentro do quarto não se fizesse sentir. Suponho que se devia ao tratamento que constantemente têm que dar à madeira para que a estrutura não colapse ruída pelo cupim.
Por pequenos grupos de hóspedes com afinidades linguísticas é-nos afecto um guia e há vários programas interessantes como a pesca de piranhas, observação de caimões ou botos, passeios pela selva e visitas a aldeias.
É evidente que tudo tem aquele ar certinho, para turista ver, e durante o passeio na selva nunca perdemos o sinal de telemóvel, mas a responsabilidade civil do hotel é grande e qualquer pequeno ou grande acidente é rapidamente socorrido com helicóptero.
Não obstante ser apenas uma selva turística, o exotismo da experiência e sobretudo a imponência daquela estrutura tornam a estadia muito agradável.
Estive lá em Novembro e o chão estava seco mas uma parte do ano, a selva alaga-se naquele local, por isso a construção em palafita. A experiência nessa época de chuva deverá ser ainda mais interessante, suponho eu.
Como uma última vantagem, o preço que é razoavelmente acessível.

2007-04-01

Erros certeiros

Num desses e-mails que diariamente entram pelas nossas casas contando piadas e mostrando curiosidades, recebi uma série de supostas asneiras escritas por alunos brasileiros em testes de exame.
A generalidade demonstra aquele tipo de ignorância que também é comum nas nossas escolas mas algumas, poucas, escondem por trás do erro uma sabedoria oculta que suscita uma mais profunda meditação.
Passo a transcrevê-las sem mais comentários:

“O que é de interesse colectivo de todos nem sempre interessa a ninguém individualmente."

"Imaginem a bandeira do Brasil. O azul representa o céu , o verde representa as matas, e o amarelo o ouro.
O ouro já foi roubado e as matas estão quase se indo.
No dia em que roubarem nosso céu, ficaremos sem bandeira.."

A mais profunda de todas é porém a seguinte:

"Vamos deixar de sermos egoístas e pensarmos um pouco mais em nós mesmos."

2007-03-30

Em que mundo estamos nós ?

O “aquecimento global” todos sabíamos o que era até ver o “The Greate Global Warming Swindle”. É longo mas vale a pena ver no “link anterior.
Agora, na RTP 2 acabo de ver “A corrente do Golfo e a Nova Glaciação”, retomando a abandonada teoria do arrefecimento global.
Afinal o nosso mundo está a aquecer, a arrefecer, permanecendo todavia na mesma !
Tudo isto profusamente documentado com depoimentos científicos para todos os gostos.

2007-03-26

O Salazar ganhou

Mas foi num concurso de brincadeira.
Ao mesmo tempo, no Ministério da Agricultura decorre um processo idêntico que todavia deveria ser a sério, vai afectar gravemente a vida de muita gente, mas que de facto tem sido de anedota.
Eu vou-lhes contar o que se passou num "cinema" perto de mim:
Primeiro partiu-se tudo, todos os serviços e departamentos, depois construiu-se tudo de novo com os bocados que ficaram.
Como era tudo novo, toca de prover as chefias, mas não só as de topo, foram todas, mesmo aquelas que a lei diz que devem ser providas por concurso, isto atendendo á situação excepcional, que a lei contempla sempre para casos como estes.
Desta forma ficaram salvaguardados a maior parte dos “boys” principais e dos seus amigalhaços, ufa !
Restava agora correr com o pessoal que não se queria mas a chata da lei punha problemas, dizia que não que não podia ser de qualquer maneira e grosso modo previa dois processos de selecção (por acaso contraditórios um com o outro, mas adiante):
Primeiro - uma ordenação baseada nas notas de classificação do último ano para o qual estejam todos notados.
Se isto não ocorrer - a classificação far-se-á pela apreciação profissional.
Ou seja ou pelo “desempenho” pontual de uma ano ou então por toda uma carreira como se fossem coisas parecidas.
Mas as tais notas, em 2005, foram dadas assim, eu conto a minha experiência: telefonaram-me do topo dizendo o seguinte:
“Olha pá tu és um gajo muita bom, eu sei, mas como já não precisas das benesses que uma boa nota proporciona, e há quotas, gostávamos de guardar as boas notas para quem precisa mais, pode ser ?”
Eu respondi: “pode pá, dá-me a nota que quiseres.”.
Agora é o diabo, 2005 não serve. Os critérios foram os das potenciais promoções, e não o das passagem à mobilidade, com estas notas ainda vai sair e ficar quem não queremos, temos que dar novas notas para 2006 ou vamos para a análise curricular e ficam cá os velhos todos e é o diabo, pensaram eles.
E assim foi, um corrupio de notas de 2006 dadas à pressa de modo a justificar as listas aparentemente já feitas.
Infelizmente para o processo as notas pressupunham o estabelecimento prévio de objectivos que na generalidade dos casos não foram estabelecidos mas quem é que se importa com tais minudências.
Agora é só esperar pelas listas que o Ministro disse que saíam na 6ª feira, mas nem isso conseguiu fazer ainda.
Eu imagino os enganos as correcções de última hora, o gajo que vai sair e devia ficar e o outro que fica e devia sair, enganámo-nos nas contas, e agora como é ?, não faz mal, troca-se a nota e depois ele assina !
Vamos a ver o que isto dá, se calhar também ganha o Salazar !

2007-03-23

Os pobres são como “bonsais”

A semente do bonsai é a mesma da da árvore da floresta, se não o confinassem a um vazo e não procedessem a intensas podas radiculares o “bonsai” cresceria como qualquer árvore.
Assim é a pobreza: dêem “espaço” aos pobres e eles crescerão como os mais afortunados.
Esta alegoria certeira foi utilizada por Mohammad Yunus (prémio Nobel da paz de 2006) na conferência que ontem proferiu no auditório principal da Gulbenkian,

2007-03-21

O défice

Quando uma conhecida empresa portuguesa, no sector do vinho, foi adquirida por uma multinacional do sector, onde ainda está hoje, logo no primeiro ano, segundo as práticas da empresa mãe, foi obrigada a estabelecer objectivos quantitativos para o ano seguinte.
Passado esse ano a empresa constatou que tinha superado muito os objectivos previstos, as vendas terão quase duplicado relativamente às expectativas.
Muito à portuguesa, embandeirou em arco, ficou felicíssima e foi com enorme espanto que recebeu um “puxão de orelhas” da empresa mãe. Os objectivos são para serem cumpridos disseram-lhes, um aumento desse calibre só pode significar um péssimo planeamento ou o uso indevido de recursos desnecessários. Em resumo: má gestão.
Ocorreu-me esta história, que foi estudada como um estudo de caso durante o meu mestrado, ao ver a espantosa queda do défice registada em 2006 em Portugal.
Passar num ano dos mais de 6% para os 4,6% era já um esforço colossal, baixar ainda mais do que isto para os 3,9% é apenas um indicador da brutalidade da política de desmantelamento das estruturas do Estado e de desinvestimento deste Governo.
Ainda ficaria contente se sentíssemos que o esforço iria desanuviar mas o PRACE ainda nem começou e por este andar vamos chegar para o ano ao 1%, embora a esperteza saloia do Governo ainda pretenda fixar as suas previsões acima dos 3%.
O Governo vai ficar feliz e nós depauperados desprotegidos e meios mortos.

2007-03-20

Agora é que eu percebi

Por que é que também chamam PP ao CDS: é o Partido partido, de tão esfrangalhado que está.

2007-03-19

Concorrência desleal

O Sr. Presidente da ASAE, referiu ontem na RTP 2 que as suas acções em feiras e mercados tinha em vista combater a concorrência desleal.
Tem toda a razão, porque eu bem vi o Sr. José da Mula, no mercado da Xepa a dar murros por baixo da cintura na Srª NIKE, Inc., coitada, e isto é muito desleal.
O Sr. José da Mula tentou justificar-se dizendo que era baixinho e não chegava ao peito e muito menos à cabeça da Srª NIKE, Inc, e o mais que lhe podia fazer era dar-lhe uns murritos e uns beliscões na coxa.
Obviamente que isto não pode ser consentido, se o Sr José da Mula é baixo que tome vitaminas ou qualquer coisa mas concorrência desleal deste calibre é que não se pode tolerar.
Era só o que faltava !

2007-03-18

Por uma última vez

Desculpem-me a insistência em Dylan Thomas, tão breve não falarei mais dele, prometo, mas o meu fascínio pelo poema transcrito abaixo fez-me procurar pelas suas traduções para a nossa língua.
Na verdade, encontrei apenas 2 e nenhuma delas me agradou.
Entre outras razões, vi que nenhuma utilizava o termo “boa noite”: uma dizia “noite serena” e outra “noite acolhedora”.
Ora, para mim, uma das riquezas desse primeiro verso “Do not go gentle into that good night” provêm precisamente desse duplo sentido entre “noite boa” (que poderia ser acolhedora ou serena) e “boa noite” (como despedida de quem se vai deitar) e esse duplo sentido de “good night” resulta tal qual em português se utilizar “boa noite” e apenas se o utilizar.
Pus mãos à obra, fiz a minha própria tradução.
Uma dificuldade que não consegui ainda ultrapassar (aceito sugestões dos meus leitores amantes da língua) é a de que Dylan Thomas não disse “Do not go gently into that good night”, usou “gentle” preferindo o adjectivo ao advérbio, preferindo caracterizar a atitude de quem entra nessa boa noite e não o modo como se deve entrar e isto parece-me importante no poema (embora mesmo em inglês tenha encontrado citações que referiam “gently” significando que também algumas pessoas de língua inglesa consideram este aspecto como uma minudência), o problema com que me defrontei então foi o das rimas, embora para muitos tradutores consagrados (até por o serem) as rimas devam ser secundarizadas, para mim, também são importantes.
Acontece que “gentle” tem um campo semântico vasto.
Intuitivamente, para mim, neste contexto, era “suave” a melhor tradução mas as 2 traduções que vi foram “com doçura” e “docilmente”, mas poderiam também ser, talvez, “com cuidado” “gentil” e ainda algumas outras.
O problema é que o final desta frase forte deverá rimar com o final da outra “dying of the light”, como “night” rima com “light” e aí é que está o busílis, noite tem poucas rimas em portugês e invertendo a frase para “Na boa noite não entres suave” (para usar suave) não encontrei rimas que não afastassem demasiado o texto do seu sentido original, optei então por “Não entres nessa boa noite suavemente” (com o advérbio maldito mas garantindo uma maior facilidade de rimas).
Quanto ao resto da poesia não tive grandes dificuldades (possivelmente por inconsciência) tirando o “last wave” que pode ser “última onda” ou "último aceno” (opções de cada uma das traduções que vi). Para mim “last wave” foi claramente “último aceno".
O “rage” de “Rage, rage against the dying of the light” também não é uma questão simples.
Nas duas traduções vistas, os autores optaram por “ódio”, mais natural em português, mas julgo que longe do “rage” inglês para o qual não teremos uma tradução perfeita .
O ódio parece-me construído, fundamentado, justificado interiormente, o “rage” é selvagem, irracional, sai das entranhas de um homem ou de um animal.
Visto isto optei por “raiva” que tem mais essas características irracionais, embora com a consciência de que também não é a palavra perfeita.

Posto isto a minha tradução é a seguinte:
(PS entrando em conta com a sugestão da Joana alterei a raiva para um verbo "reage"

Não entre nessa boa noite suavemente

Não entres nessa boa noite suavemente
A velhice deve arder em festa ao encerrar do dia
Reage, reage contra a luz evanescente.

Embora os sábios conheçam no seu fim a escuridão presente
Porque suas palavras não penetraram a luz que ardia
Não entram nessa boa noite suavemente.

Bons homens ao último aceno, clamam o brilho ardente
Dos seus frágeis feitos que quase dançaram na verde baía
Reagem, reagem contra a luz evanescente.

Homens audazes que apanharam cantando o sol movente
E viram, já tarde, como o perturbaram na sua via
Não entram nessa boa noite suavemente.

Homens graves, próximo da morte, que vêm turvamente
Que olhos cegos podem resplandecer tal meteoros na alegria
Reagem, reagem contra a luz evanescente.

A ti, meu pai, lá nessa triste altania,
Amaldiçoa-me, abençoa-me com as tuas lágrimas cruéis, pedia,
Não entres nessa boa noite suavemente
Reage, reage contra a luz evanescente


Dylan Thomas

Tradução de Nuno Jordão

2007-03-17

As trevas

Dylan Thomas escreveu para o seu pai o seu poema “Do not go gentle into that good nigt”,
Para o seu pai que tendo sido outrora homem activo e combativo, enfrentava na sua velhice, uma cegueira progressiva e uma profunda depressão.
“Do not go gentle into that good night” era um apelo desesperada do poeta para que o seu pai lutasse até ao fim, até à morte que se aproximava.
Talvez sem querer, escreveu assim um dos maiores poemas do século XX .
Como em todos os grandes poemas a sua mensagem transcende muito o seu discurso directo.
No meu subconsciente, embora sem que nunca me fosse sugerido meditar sobre ele, sem mesmo o compreender bem, este fortíssimo comando: “Do not go gentle into that good night” esteve sempre presente.
Foi ontem, que ao meditar sobre o processo de destruição, em curso, no Ministério da Agricultura, feito de modo ridiculamente incompetente, atabalhoado, precipitado, concebido pelas mentes medíocres que hoje assumem o poder, que lentamente vão introduzindo as trevas, e que nem se apercebem de que nem eles próprios conseguirão ver no futuro. Processo em que eu sou um observador passivo activo e inactivo, feliz como o louco na colina que divertidamente antevia o choque dos comboios que avançavam em baixo em sentidos contrários, foi ontem, que este verso de Dylan Thomas me acorreu à cabeça com uma enorme insistência: “Do not go gentle into that good night” , ouvia, “Luta Nuno, não deixes as trevas avançarem”, “rage, rage against the dying of the light”.
Como num impulso, talvez para o esconjurar, transcrevi o poema neste blog.
Está aqui em baixo.

2007-03-16

Sublime

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,

Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright

Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,

And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight

Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,

Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas

2007-03-13

Impressões de viagem 5



A Cidade da borracha



O que me fascinou em Manaus foram os seus contrastes.
Portal da Amazónia, posto avançado da “civilização”, lugar onde o “mundo” acaba e se dissolve na selva, seria de esperar uma cidade agreste, sempre carente, semi-decadente e triste que Manaus não é.

A sua Ópera, o Teatro Amazonas, gerada pelas fortunas da borracha é o exemplo magnífico da opulência e ostentação, que se pode detectar em toda a cidade.
Como Salvador, Manaus tem também a sua patine respeitosa.
O porto de Manaus, no Rio Negro, é surpreendente pela sua agitação de porto marítimo tão longe do mar.
De qualquer forma, sente-se também que não estamos no centro da “civilização”, o peso da selva está igualmente presente, e creio que é essa dualidade que mais fascina em Manaus.


Manaus é a cidade que a sublime grandeza da Amazónia merece.


2007-03-06

Este admirável mundo novo

As novas tecnologias, a Internet, o “You tube” que o “Times” tanto elogiou, o “Google”, abrem-nos um novo mundo de possibilidades.
Está acessível a todos, quero dizer a muitíssimos, todos podem expor e publicar o seu talento.
Abre o meio para que tudo apareça e, na verdade, tudo aparece.
Contém diamantes preciosos é certo, mas como na realidade, estão sempre enterrados num monte de merda.
Para os descobrirmos no virtual temos exactamente os mesmos problemas que temos no real.
Procuro no “Google” ou no “Youtube”: génio, talento, o melhor, em todas as línguas, e obtenho geralmente merda.
Procuro merda e volto a obter a dita.
Não há nada a fazer !
Ou são as informações que já temos, que lemos e ouvimos, as referencias que vamos construindo, ou não saímos do mesmo pantanal.
A única diferença é que é tudo mais rápido.
Podem fazer a experiência e ver se eu não tenho razão.

2007-03-04

É assim

A heróica intervenção de hoje, da nossa polícia, no mercado da xepa em Setúbal exige uma clarificação para que se perceba bem o seu real alcance:

A verdade é que existem uns pobres empresários, laboriosos, empreendedores e criativos que têm dedicado todo o seu esforço para desenvolver e proporcionar ao mundo confecções elegantes, inovadoras, bonitas, que todos gostamos de vestir e que nos são postas á disposição por várias cadeias de distribuição mundial.
Para mais, esses verdadeiros exemplos da nossa sociedade têm grandes preocupações sociais e com frequência instalam as suas fábricas nos países mais miseráveis, proporcionando a muitas crianças, desde a mais tenra idade e a vários jovens uma nova esperança de vida, retirando-os da sua rotina miserável, ensinando-lhes um ofício e abrindo-lhes a senda do trabalho, da responsabilidade, da disciplina e do sacrifício, forjando os seus caracteres e mantendo até o cuidado de lhes pagar pouco, impedindo-lhes uma vida dissoluta de vício, consciencializando-os do valor à vida e preparando os seus espíritos e corpos para um futuro mais digno e com novos horizontes, nessas e noutras fábricas que abrirão no futuro.
Benditos os lucros que auferem e os novos investimentos que sempre vão fazendo e adoçam as nossas vidas !
Por outro lado existem uns opolentos comerciantes sem escrúpulos, preguiçosos e mandriões, geralmente da etnia cigana, que imitam as suas criações magníficas, falsificam as suas marcas e oferecem por tuta e meia produtos semelhantes a uma escumalha miserável que não quer trabalhar, só pensa em diversão em vez de ganhar dinheiro para comprar esses produtos nos centros comerciais, como toda a gente.
Obtém com isto um sórdido lucro que logo dissipam em bebida e confusões.
A nossa polícia está porem atenta e actuante, e salta em cima deles sempre que pode, na Xepa em Carcavelos, no Relógio e por todos os antros em que eles se movem. apreende, destrui, prende de forma incansável, defendendo assim os justos interesses das nossa queridas multinacionais.
Naturalmente que assim não poderemos exigir á polícia que se preocupe com os nossos problemas comezinhos de cidadão pacato que temos que ir resolvendo sozinhos mas não devemos ser tão egoístas, não se pode ter tudo, protejam-se antes os “Bill Gates do mundo” coitadinhos que lutam incansavelmente pela nossa felicidade.

2007-03-02

Com este Governo é que não nos governamos

O Sr. Primeiro Ministro:
Tem alguns aspectos demasiado de segunda
O Sr. Ministro da Presidência:
Preside de tal forma que nem se dá por ele
O Sr. Ministro dos assuntos parlamentares:
Parlamenta muito pouco
O Sr. Ministro de Estado e da Administração Interna:
Está num estado muito voltado para dentro
O Sr. Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros:
Pelo contrário orienta os seus negócios muito para o estrangeiro
O Sr. Ministro das Finanças e da Administração pública:
Tem um modo de administrar as finanças que coloca graves problemas financeiros à administração pública
O Sr. Ministro da Defesa Nacional:
Limita-se a lá se ir defendendo nacionalmente como pode
O Sr Ministro da Justiça:
Por vezes é injusto
O Sr. Ministro . do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional:
Vai desenvolvendo um ambiente regional com alguma desordem
O Sr Ministro da Economia e da Inovação:
Inova pouco na economia e economiza muito na inovação
O Sr. Ministro da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas:
Parece pescar pouco de Agricultura e quase nada de Desenvolvimento Rural
O Sr. Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações:
Comunica muitas obras públicas mas transporta pouco ou nada
O Sr. Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social:
Vai trabalhando socialmente mas com grandes carências de solidariedade
O Sr. Ministro da Saúde:
Por vezes toca as raias do patológico
A Sra. Ministra da Educação:
Tem os seus momentos em que é mal educada
O Sr. Ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior:
É, de facto um Ministro superior na ciência mas falha um pouco na tecnologia do ensino
A Sra. Ministra da Cultura:
Tem algumas limitações culturais.

Não me restam dúvidas que há mudanças a fazer.

2007-02-27

O “Vermelho e o Preto” ou “A Luz e a Sombra”

O excelente romance de Stendhal “Le Rouge et le Noir” traduz, logo no seu título, as duas vias abertas no início do século XIX para uma rápida escalada para o sucesso e para o poder do jovem, modesto e ambicioso, Julião Sorel:
O vermelho da carreira militar, contido na cor das fardas militares da época e o preto da carreira eclesiástica descrito pelas batinas do clero.
Se Stendhal escrevesse hoje o seu romance, julgo que lhe chamaria a “A Luz e a Sombra”:
A luz dos palcos, dos media, dos etádios, do espectáculo em geral e a sombra dos corredores políticos, dos “lobbings”, dos gabinetes onde se tece o presente que nos afecta.

2007-02-23

O elogio de Alberto João

Alberto João Jardim, Presidente do Governo Regional da Madeira há cerca de 25 anos, é das figuras mais odiadas pelo cidadão comum de Portugal.
Quanto a mim, tenho que confessar previamente que o homem também me irrita bastas vezes.
Penso porém que para mim, como, julgo, para a generalidade das pessoas, essa irritação tem a atenuante de despertar aquele prazer maldizente, tão português, que torna este ódio num ódio prazeroso, como tantos.
Todavia não posso deixar de reconhecer que não é pelo “circo” mediático que se pode julgar uma pessoa, revela-nos algo da sua personalidade, é certo, mas nada mais.
Há palhaços geniais mas também outros banais, tantos outros.
É pelos frutos que se conhece a árvore, dizia um velho mestre, e é pelos frutos que eu o vou julgar agora, pela sua obra, na sua forma e no seu conteúdo.
O seu estilo desbocado, desabrido e prepotente, cheio de humor corrosivo, ao gosto popular, que reproduz, em voz alta, por vezes muito alta, aquele tipo de análise superficial e venenosa que qualquer português pode fazer e aprecia ouvir quando é feito numa mesa social, entre um grupo de amigos, embalado pela conversa e por várias cervejas, é uma fonte inesgotável de risota e de galhofa.
No seu “reino” comete, com toque de trombetas, os mesmos abusos e arbitrariedades, que os outros fazem às escondidas e depois dizem que não fizeram, mas fá-lo porque se pode escudar na segurança do seu “quero, posso e mando” e na sua certeza de que “daqui ninguém me tira”.
E tem razão, dali ninguém o tira, ainda que a vontade não falte a muitos.
Para os madeirenses mais esclarecidos Alberto João é como uma tia velha e senil que podemos ter lá em casa, que nos embaraça e envergonha quando temos visitas, que para o outros apresentamos como um “fardo” que temos de suportar, mas que só nós sabemos o jeito que nos dá e os serviços que nos presta, a fazer camas, lavar loiça e na limpeza doméstica.
Para os madeirenses menos esclarecidos Alberto João é um compincha que partilha connosco as noites de farra e de alegria simples e que está sempre pronto a ouvir-nos e que para quem o sim é sim e o não é não.
Para uns e para outros, na solidão escondida da urna, não há qualquer hesitação, o voto vai para ele.
De facto, dali ninguém o tira !
E é isso que faz confusão a muita gente, será que os madeirenses são todos tontos ?
A verdade é que Alberto João tem uma filosofia de governo, que mais ninguém tem e que faz muita falta, a de usar o governo para resolver os problemas reais das pessoas.
E ataca todos os problemas, dos mais simples aos mais complexos, das vias rápidas que furam as montanhas, à luz eléctrica no alto do Serra, que custou milhões, e serve apenas um casal de velhos que aí vive isolado mas que são também cidadãos e pagam os mesmos impostos que nós.
Se é necessário e útil, o seu princípio é: faça-se, ainda que para isso tenha que atropelar a lógica económica, os pareceres técnicos ou tecnocráticos e os interessezinhos instalados e abalados.
Também comete erros e faz disparates, como toda a gente, mas segue em frente e o saldo é largamente positivo para quem vive na Madeira.
Alberto João é sem dúvida populista, apela aos instintos primários do povo, só que não o é só em palavras, apelos e festas, é em actos também, Alberto João não só fala como também faz.
E nós precisamos tanto de quem faça o necessário.
Como de pão para boca !