2006-09-29

As teorias da conspiração

Pacheco Pereira no “Prós e Contras” onde se debateu com Mário Soares, ridicularizou as chamadas “teorias da conspiração” que, para mostrar a sua independência, considerou serem uma invenção americana que recairia agora sobre os seus criadores.
Vindo esta observação de um reconhecido historiador, fiquei atónito com a falta de perspectiva e de rigor histórico demonstrado.
Desde os tempos mais remotos, muito antes dos EUA nascerem, que poderemos encontrar centenas de exemplos de manipulação e contra manipulação da opinião pública para a defesa de determinados interesses como, por exemplo no caso que vou recordar e que todos, certamente, conhecem bem.
Em 64 DC a cidade de Roma ardeu violentamente durante uma série de dias.
Oficialmente Bush, perdão, Nero atribuiu o acto a fundamentalistas islâmicos, perdão, a fundamentalistas cristãos e desencadeou uma terrível perseguição aos ditos Cristãos com manifesta crueldade e requintes de malvadez.
Logo depois, do incêndio, alguns observadores independentes começaram a formular a sua “teoria da conspiração”, observaram que vários lacaios de Nero tinham andado pela cidade com tochas acesas, certamente ateando o incêndio que se deveria assim a ordens directas do próprio Nero e que mesmo este teria, de certo modo, confirmado a autoria por frases proferidas enquanto contemplava o espectáculo na torre de Mecenas.
Como entretanto os tais Cristãos chegaram ao poder, esta teoria da conspiração ganhou força e foi já assim, esta versão, que me ensinaram na escola. A culpa foi mesmo do cabrão do Nero e não dos pacíficos Cristãos, coitadinhos. Esta passou a ser a versão oficial.
Entretanto a realidade ninguém a sabe ainda.
Alguns historiadores modernos começam hoje a concluir que terão sido mesmo os Cristãos a atear o fogo, outros atribuem-no a interesses imobiliários (já naquela época!) e outros ainda dizem que não foi Nero nem Cristãos mas antes uma mero facto acidental.
Vamos lá a saber a verdade ! mas uma coisa é certa o assunto ainda é estudado com seriedade, como deve ser
Quanto ao World Trade Center e ao Pentágono conhecemos a história oficial e as perseguições que se seguiram, ouvem-se também já vozes e factos que apontam para a conspiração.
Para já eu ainda simpatizo mais com a versão agora oficial:
A vergonhosa fuga e o desaparecimento de Bush logo após o evento, parece-me mais compatível com a versão oficial, o homem parecia estar mesmo genuinamente à rasca e não foi para nenhuma a torre de Mecenas contemplar o espectáculo nem o vejo com capacidade maquiavélica para tão brilhante encenação.
Infelizmente receio que, também aqui, a verdade verdadeira nunca chegaremos a saber ao certo.

2006-09-25

Carta aberta ao Sr. Ministro da Saúde

Excelência

Tenho notado que o alto critério de V. Exa tem seguido, passo a passo, a política por mim, modestamente, recomendada no meu poste de 11 de Maio passado, intitulado “Medidas Urgente para Resolver os Grandes Problemas do País!
Fico lisonjeado por contar com V. Exa entre os meus poucos mas fiéis leitores e por verificar que as minhas recomendações são tidas em tão alta conta ao ponto de serem consideradas na elaboração da estratégia do Ministério que V. Exa tão dignamente dirige.
Vendo todavia os resultados a que essa estratégia está a conduzir o país sinto que é meu dever de cidadão clarificar V. Exa que nesse específico poste utilizei, talvez impensadamente, a figura de estilo denominada “ironia” que consiste em veicular um significado contrário daquele que deriva da interpretação literal do enunciado.
De facto não era minha intenção recomendar ou mesmo fazer a apologia do fecho progressivo de todos os hospitais públicos do país; antes pelo contrário.
Resta-me penitenciar agora por não ter sido suficientemente explicito e claro e ter assim, involuntariamente, conduzido V. Exa numa política que de facto considero erronia.
Consola-me apenas o facto de não estar só neste tipo lamentável de equívocos, estando até muito bem acompanhado por Sua Santidade o Papa Bento XVI.
As minhas desculpas formais a V. Exa. e uma palavra de incentivo e esperança:
Sr. Ministro, creio que ainda há tempo para se corrigir um erro !

De V. Exa atenciosamente

Nuno Jordão

2006-09-20

Necrofilia

Não sei o que me move, mas com uma disciplina espartana, diariamente ou quase diariamente, continuo a picar, a escarafunchar, nos meus “favoritos” uma série de blogues mortos, que algum dia me deram prazer e que agora permanecem mortos, inertes, há longo tempo, trazendo-me sempre a mesma monótona imagem gráfica, imóvel no tempo, que já está copiada no meu cérebro e que afasto logo com um novo “clique rápido”, para afastar o mau cheiro,
No fundo, bem lá no fundo, tenho sempre comigo uma secreta esperança no milagre.
Quem sabe? Pode ser que renasçam ainda um dia,. Quem dominará o espírito destes fantasmas criadores ?
Será que o blogueador viajou ? entrou numa crise existencial ? simplesmente está sem pachorra ? ou talvez esteja ansioso mas sem tempo ou ainda nos confins do mundo sem acesso à net. Quem sabe o que se passa? quem conhecerá estes meandros misteriosos?
E isto é válido mesmo para os de morte anunciada.
Blogue que se suicida é sempre um caso patológico para mim, tenho sempre esperança que com o tempo talvez passe essa doença.
E depois há todos aqueles casos de personalidade dividida, que morrem e renascem, sempre com outros nomes e com outra identidade.
É com imenso trabalho e imensas penas que os encontramos de novo. São uns brincalhões !
Mas talvez, se calhar, pura e simplesmente, a verdade seja só e apenas que já não quer mais, chateou-se descobriu que há mais mundo para além da blogosfera!.
Infelizmente a experiência tem me mostrado que isto são só devaneios meus.
A realidade é a de esperar em vão, até me cansar. Parece que alguns morrem mesmo de doença súbita.
Mas hoje, nessa minha peregrinação habitual, a minha persistência foi recompensada: não é que “Um americano em Lisboa” o excelente blogue do Professor Amaral Dias, saiu de um coma de cerca de 9 meses.
Sem alardes, sem dar nas vistas, como quem diz “fui ali comprar cigarros e atrasei-me um pouco, mas já cá estou de volta” e, como sempre, com um poste de grande lucidez sobre a bronca papal.
Espero que não seja apenas um sinal das chamadas “melhoras da morte”.Seja bem retornado ao mundo blogosférico, senhor Professor e venha para ficar.

2006-09-18

O Abrupto irritou-me

Pacheco Pereira é uma pessoa que costumo considerar, ainda que discorde dele com alguma frequência. Vejo-o normalmente como pessoa culta, racional e objectiva, com quem dá gosto dialogar mesmo discordando.
O meu filho que também é uma pessoa lúcida e reflectida disse-me um dia:
“O Pacheco Pereira é comunista !” ao que eu lhe retorqui, “não, filho, foi comunista, agora é do PSD” mas ele insistiu “pode ser do PSD, mas é comunista!”
Como eu conheço o meu filho e sei que não é adepto de cabalas, percebi que não queria dizer que era um comunista infiltrado, nada disso, a sua afirmação colocava-se noutro nível, naquele mesmo plano em que encontramos por exemplo ex-padres ainda que agora anti-clericais ou ex-militares, agora profundamente civis, ou gente humilde que subiu na vida, ou gente rica que desceu na vida mas que continuam, todos eles, trazendo colado à pele como uma marca indelével um sistema de crenças, valores e atitudes construídos durante todo um percurso e que facilmente traem o seu passado.
O “poste do Abrupto – Problema de saúde pública” traz ao de cima o Pacheco Pereira de um “Comité Central” qualquer: o dogmatismo, o paternalismo, aquele sentido da “superioridade moral dos comunistas” a perda da objectividade, a cegueira a uma parte da realidade que não lhe interessa e não se encaixa no seu mundo.
Eu vi ontem na RTP 2 o filme “da conspiração”, dou o benefício da dúvida a Pacheco Pereira de não ser o mesmo filme a que ele se refere, mas no que eu vi estavam todas as respostas, que o Pacheco Pereira diz não existirem, estavam lá, preto no branco, e não era negado nada do que foi constactado à evidência, poderão ser tudo falsificações ou especulações, eventualmente, nada do que se vê nos media pode ser assumido imediatamente como a verdade, é tudo susceptível de ser contra-argumentado, criticado e discutido civilizadamente mas que não pode é ser negado que é só o que Pacheco Pereira faz.
Ao lê-lo gostaria de ter colocado no Abrupto este meu comentário mas Pacheco Pereira, como muitos bloggers, não aceita comentários, estão todos no seu legítimo direito, mas que indicia uma atitude censória um pouco incompatível com um espírito verdadeiramente aberto, lá isso evidencia.
Podia, é certo, mandar-lhe um e-mail, mas Pacheco Pereira não me responderia, como já aconteceu antes, é que eu e a minha opinião, não temos qualquer importância para ele. o que também é legítimo.
Resta-me fazê-lo aqui na minha tribunazinha, esse direito, pelo menos, penso que não me pode tirar.
Nuno Jordão

O nosso mundo

O nosso mundo não é real: vivemos num mundo como eu o compreendo e o explico. Não temos outro.

Raul Brandão in “Húmus”

O que me cativou nesta observação é que ela é válida para qualquer eu

2006-09-16

O Papa ensandeceu

Mas como não terá ensandecido o caso parece-me muito mais grave.
Diz a Igreja que o Papa falava para os católicos, pois é, mas só falou dos muçulmanos, como quem diz: “Vocês católicos têm que ser bonzinhos e não como aqueles cabrões, filhos da puta dos muçulmanos!” com um tacto e uma diplomacia digna da Santa Sé.
O Padre Milicias diz que o Papa tem o direito de manifestar as suas opiniões, pois tem, até tem o direito de fazer o pino nu na varanda do Vaticano só que se o fizer muita gente irá dizer que ensandeceu.
Não é de direitos que se trata, é de bom senso, elementar bom senso, e o Papa não teve nenhum.
Mas como isto não foi por acaso, foi pensado e premeditado o caso torna-se preocupante:
Ouço dizer a muitos comentadores que vivemos uma guerra religiosa, que o Islão quer converter e dominar o mundo. Eu nunca vi o problema do terrorismo assim, vejo antes como o confronto entre duas concepções do mundo e da vida.
Quando se passou o 11 de Novembro há 5 anos, não sei se lembram, eu lembro-me bem, falaram que uns dos terroristas passaram a noite da véspera num bar americano bebendo e divertindo-se bem.
Tudo isso me cheirou logo a esturro, parecia-me uma história muito mal contada porque se é verdade que eu tenho alguns amigos muçulmanos e já bebi com eles descontraidamente, também estou certo que nenhum deles se sacrificaria a morrer pelo Islão para ganhar um palácio com 40 virgens, depois da morte, não é gente desse tipo. Por outro lado os fundamentalistas islâmicos, os tais que são capazes de se matar pelo Islão, esses não bebem uma gota de álcool, não é compatível, o Profeta não quere.
Das duas uma ou eram fundamentalistas religiosos e a notícia era falsa ou era gente pouco religiosa mas com outras motivações (foder os EUA e o seu way of life) e a notícia já seria verdadeira.
Para mim, esta segunda hipótese foi sempre a mais provável.
Agora com as declarações papais, começa-se a fazer luz, quem quer mesmo essa guerra religiosa é mesmo o Ocidente e se existe um plano será da cristandade para converter o Islão e dominar o mundo.
Se não é, parece e as declarações do Papa tornam-se assim bem mais transparentes.

2006-09-15

Os “Free Muslims Against Terror”

Nuno Rogeiro dá-nos hoje conta da criação, por Kamal Nawazh, de uma frente muçulmana contra o terrorismo que ele diz chamar-se “Free Muslims Aginst Terror”.
Com este nome, tão inserido na história e na cultura árabe, não deixará de calar fundo nos corações islâmicos.
Agora falando sério: “Caro Nuno Rogeiro ou põe o nome original, certamente em árabe ou traduz para português, a língua em que escreve, assim é que não faz sentido nenhum ou será que se trata de mais uma organização da CIA ?”

Entretanto, hoje que estou com esta veia irónica, tinha já preparado um trocadilho, em que chamava ao pacto da justiça pacto com Laranja, já tinha o post escritinho e tudo, mas Ricardo Costa chegou primeiro e já intitulou assim, a sua crónica no Diário Económico tirando-me todo o brilho da piada. Que azar !

2006-09-14

Associação de ideias

Ou:
Como a partir do filme “O Fiel Jardineiro” se pode derivar até uma interessante concepção ontológica.

Primeiro tempo
Num pequeno trecho desse excelente filme de Fernando Meireles, “O Fiel Jardineiro”, há um momento em que numa situação de grande de stress e perigo, Tessa, propõe dar a mão e ajudar na fuga uma miúda sua conhecida que passava por eles, ao que ,Justin, reage afirmando qualquer coisa como isto:
“Por quê perder tempo e arriscarmo-nos ajudando esta criança que até podemos não conseguir salvar ? Ainda se pudéssemos, salvar todas os milhares de crianças que estão a sofrer tanto ao mais do que esta !”
Tessa responde simples e lucidamente: “porque esta está aqui !”
E ajudaram a criança.
(vi o filme há já algum tempo, relatei esta cena de cor ou seja, como o coração se lembra, como dizia Almada Negreiros)

Segundo tempo
Este conflito, retractado no filme, está presente no nosso dia a dia “ajudar este homem para quê ?” a pobreza no mundo e no país vai continuar tal qual”, “para quê proceder deste modo correcto, quando mais ninguém o faz ?, serve para quê ?” ,“para que servirá mais uma gota de água no oceano ?”. Esta reflexão conduziu-me à história referida, no novo testamento, em Lucas 10,25-37.
Um Doutor da Lei judaica, para experimentar Jesus, segundo S. Lucas, pergunta a propósito do preceito bíblico “ama o teu próximo como a ti mesmo” a pergunta fundamental: “E quem é o meu próximo ?” Jesus responde, como era seu hábito, com uma parábola, levando o Doutor da Lei a perceber que o seu próximo significa exactamente isso mesmo, o que está próximo, perto, aqui ao lado, a mesma conclusão de Tessa no filme.

Terceiro tempo
Esta meditação produziu em mim o efeito de uma verdadeira revelação:
O preceito bíblico e os versículos de Lucas 10,25-37 já eu os conhecia desde a minha infância mas a ideia que me era transmitida, e que estava no meu subconsciente, era a de que o “próximo” se referia a toda a humanidade, “somos todos irmãos” dizem.
É esta, aliás a interpretação mais comum, como se pode verificar numa pesquisa no Google sobre o tema. Mas esta interpretação ou antes esta generalização, em lugar de engrandecer, apenas empobrece o preceito, tornando-o inútil.
Agora, abria-se-me uma nova luz, um mundo novo: o meu próximo não pode ser toda a gente ou será apenas toda a gente na medida em que toda a gente me poderá eventualmente estar ou vir a estar próxima.
O que nos é sugerido na realidade, é que não nos preocupemos em mudar o mundo mas antes nos limitemos a amar o “próximo”, actuar no nosso nível de abrangência.
Naturalmente, se todos seguirem este preceito, e apenas desta forma, o mundo poderá alterar-se no melhor sentido.
Parece ser um verdadeiro manifesto anti-globalização!

Quarto tempo
Tendo sido um Doutor da Lei a enunciar o referido preceito Divino, não Jesus (Lucas 10,25-37) significaria que não se tratava de facto de um preceito cristão, mas antes um muito mais antigo, vindo mesmo directamente de Javé, o Deus judaico-cristão.
Parti então em busca do tal preceito sábio inscrito talvez nas tábuas da Lei, nos famosos Dez Mandamentos, de que esta determinação de amar o próximo seria parte do primeiro e mais importante mandamento, segundo o tal Doutor.
A minha busca foi infrutífera, aprendi mesmo que ninguém sabe bem quais são os tais Dez Mandamentos Divinos.
O que há são inúmeros preceitos de Javé, que vários estudiosos Judeus e Cristãos têm associado de diversas formas para formar diferentes versões do tal Decálogo.

Quinto tempo
Uma das normas Divinas que encontrei (Êxodo 21) é a seguinte:
“Quando comprares um servo hebreu, ele servirá durante seis anos: no sétimo readquirirá a liberdade sem nada pagar. Se entrou só, sairá só; se tinha mulher a mulher sairá com ele. Mas se for o senhor que lhe deu mulher, e se tiver filhos e filhas dele, a mulher e os filhos são propriedade do senhor e ele sairá sozinho.”
Afinal, mais uma vez verifiquei que a “infinita bondade” do Deus judaico-cristão, aproxima o seu pensamento ao do execrável senhor de escravos, Senhor Barão de Araruna!.

Sexto tempo
Não parece haver dúvidas a ideia genial da acção voltada para o “próximo” não pode vir daqui, directamente do Deus de Israel, só poderá vir mesmo da cabeça desse sábio homem chamado Jesus Cristo, que aliás a enuncia explicitamente no mesmo ou episódio semelhante ao relatado por S. Lucas, passado agora com um Escriba e referido em Marcos 12,28-34.
A noção do “próximo” foi de facto uma mensagem nova e revolucionária mas, ainda hoje, não bem compreendida.

Sétimo tempo
È por estas e por outras que eu não posso ser cristão, pelo menos da maneira que as pessoas normalmente dizem “sou cristão”, não obstante considerar Jesus Cristo, como um homem justo, muito lúcido e com uma enorme riqueza de pensamento que todos aproveitaríamos em conhecer melhor de todas as formas possíveis, já que ele próprio não escreveu nada que nos chegasse à mão.

2006-09-11

Será que o mundo está diferente ?

Passaram 5 anos sobre aquele acontecimento que diziam iria mudar o mundo.
E então ?
A prepotência, a mediocridade instalada e dominante, as guerras descabidas e selvagens, parecem continuar tal qual.
O que se vê que mudou muito foram os pretextos utilizados.

2006-09-08

Os EUA não torturam

Garantiu-nos Bush, o tal que nunca mente, como se sabe.
Vendo o que se viu passar em prisões mantidas pelos EUA no Iraque e em Guantánamo, é caso para perguntar “o que seria se torturassem ?, safa!”

2006-09-06

Mirandela

Talvez muitos não saibam que sendo Mirandela uma pequena cidade do interior profundo de Portugal, não é porém, como as suas vizinhas Macedo de Cavaleiros e mesmo Bragança ou Vila Real, uma cidade de interior típica, historicamente dominada por uma aristocracia rural.
Mirandela tem sido sempre uma cidade pequeno burguesa, de comerciantes
Historicamente tem-se mantido como uma pequena ilha progressista, encravada num mar profundamente conservador.
Não terá sido por acaso, aliás, que Mirandela, com exíguas forças militares e da GNR e o forte contributo da população civil, tenha tido um papel determinante e heróico no esmagamento das incursões monárquicas que se preparavam para reimplantar a Monarquia em Portugal nos tempos que se seguiram ao 5 de Outubro de 1910.
A República agradecida concedeu-lhe o grau de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, Lealdade e Mérito em 1919, e parece que se ficou por aí, ficou exausta !
Até aos nossos dias, Mirandela não tem merecido muito mais consideração da República que tão significativamente e com o seu sangue ajudou a defender, pelo contrário, agora nem o direito elementar de aí ter os seus filhos lhe querem conceder.
Mas Mirandela, não cruzou os braços e está a lutar.
Eu, que sendo lisboeta, me considero com orgulho também mirandelense, quero manifestar-lhe toda a minha solidariedade.

2006-09-02

Ultimato

Eu estou com o Gil Vicente
Não sei se tem razão mas tem o seu ponto de vista que pode ser discutido civilizadamente.
Se enfrenta uns grunhos que não ouvem a sua razão, recorre a outros e a outros e a outros, até que reconheçam a sua razão ou até perder de vez a esperança e começar de novo com uma ferida que há-de sarar um dia e há-de se abrir de novo outro dia, talvez.
Estes conflitos estão à dimensão do homem.
Mas no mundo global a situação é diferente. não se suportam as “formigas” que desafiam o sistema. Cala-se um grito com uma metralhadora.
É como Bush no Iraque, no Afeganistão e como gostaria no Irão, (embora aqui tenha medo de se arranhar), é como Israel no Líbano.
A Fifa não está por meias medidas: “matem-se essas formigas todas com o nosso pé grande e poderoso, esmague-se o Gil Vicente, o Porto, o Sporting, o Benfica, Portugal e mais o que for preciso, acabe-se já com aquele cancro que desafia o meu sistema”.
Cá, em Portugal, toda gente responsabiliza o Gil Vicente “está a ver a responsabilidade que tem ? acabar com a participação portuguesa na FIFA ?”
Para mim a decisão é simples: à força não !
É preciso que se compreendam os mecanismos de culpabilização.
Cada coisa no seu nível.
Se algum dia Portugal for banido do futebol mundial a culpa não é, não pode ser nunca do Gil Vicente, faça o que fizer, é e será sempre apenas da FIFA que a decretou.
Nem mais nem menos.

2006-08-31

Natasha e os Media

Impressiono-me sempre quando dramas profundamente individuais como, salvo as devidas proporções, os que todos vivemos e ultrapassamos sós, são apropriadas pelos media e se tornam públicos, devassados, infligindo maior dor a quem já a tem insuportável.
Foi assim com Gisberta, é assim com Natasha.
Para os media é tudo um circo de horrores, de “freaks” tratado com uma curiosidade mórbida aqui no nosso quentinho “ e ainda gostava do seu agressor a miúda !”, dizem.
Para se perceber Natasha não é lendo os media que se consegue é lendo Kafka, Dickens, Victor Hugo, Freud, tantos outros.
Que ideia têm os media da condição humana, para sugerir que não compreendem Natasha ? (é o sídroma de Estocolmo, dizem sossegando, está doente e até tem nome essa doença !) no entanto, a reacção de Natasha não é mais que o mais comuns dos comportamentos humanos que nos permite, aliás, sobreviver nesta selva em que nos encontramos, mas eles nunca perceberão isto.
Natasha já pediu, sem sucesso, “deixem-me em paz”, o que os media estão a fazer é satisfazer os seus interesses privados à custa de uma adolescente indefesa é exactamente o mesmo que fez o agressor de Natasha.

2006-08-28

Excelência 2

Um outro problema que uma meditação sobre a excelência poderá sugerir, poderá resumir-se nestas duas questões:
Haverá uma excelência absoluta, universal, reconhecida por todos, uma excelência para o mundo ? ou apenas uma excelência para cada um de nós ?
Haverá uma excelência permanente, impregnada em certas pessoas que determina todos os seus comportamentos, ainda que no exercício de uma actividade específica ? ou apenas comportamentos excelentes ?
Homens como Shakespear, Camões, Bach, Fernando Pessoa, Galileu, Sócrates, pertencem a uma lista interminável de personalidades excelentes para o mundo e excelentes em toda a sua obra, Shakespear, por exemplo, não escreveu uma única linha que não fosse excelente, que digo eu ? nem uma única palavra sem excelência; apesar disso, se considerarmos o universo de curiosos e estudiosos que conhecem as suas obras certamente haverá alguns que não deixarão de descortinar algumas nódoas, verdadeiras ou imaginárias ou ainda as daquele tipo que só se vêm de determinados ângulos, menos habituais.
Por outro lado haverá também muitos homens do mesmo estatuto daqueles mas que poucos conhecem e, pelo contrário, existem também os “anti-midas”, perfeitamente incapazes da excelência, e finalmente a generalidade dos homens com alguns momentos de excelência, que surgem como ilhas num mar de mediocridade.
Vejamos ainda um outro caso mais concreto:
George Steiner é, sem dúvida, um dos grandes pensadores do século XX, que perdura ainda e que pode facilmente ser colocado no domínio da excelência., seja por mim apenas, seja pela generalidade das pessoas que o conhecem e ainda por quem o não conhece mas que aceitará como bom este juízo generalizado.
Quanto a mim, já aqui falei do seu excelente ensaio “A ideia da Europa” mas podia referir ainda variadíssimos textos de uma obra vastíssima, traduzida em muitas línguas e divulgada por todo o mundo.
George Steiner é também uma figura mediática, reconhecida num vasto meio cultural para além do académico, constantemente solicitado para expor o seu pensamento em diversos contextos.
Para mim tem, além disso, algum interesse particular.
Partilho com ele algumas preocupações que não serão tão comuns e por isso reforçam essa aproximação, como o reconhecimento da importância da memória na aprendizagem e no conhecimento, essa memória que a minha geração tanto desprezou em favor da razão e a que chamava maldosamente “empinanço” e que quase baniu do ensino, assim que teve poder para isso, com os péssimos resultados que se vêem.
Manifesta também uma fascinação pela língua dos homens e o pelo seu mistério, fascinação que também me toca.
Na sua obra “Os Logocratas”, numa entrevista a Ronald Sharp aí reproduzida, Steiner afirma o seguinte:

“Todos os meus adversários, todos os meus críticos lhe dirão a mesma coisa: sou um generalista demasiado superficial num tempo em que isso deixou de ser possível, num tempo em que todo o conhecimento responsável só poderá ser especializado. Quando saiu a primeira edição de “Depois de Babel”, um linguista eminente, um homem já de idade, e que continua vivo, alguém que muito respeito – o grande sacerdote dos mandarins – assinou uma recensão que começava assim:
“Depois de Babel é um livro muito mau, mas, infelizmente, é um clássico.” Escrevi então, ao professor e disse-lhe que nunca uma recensão me honrara tanto, tendo em conta, o infelizmente que lhe tinha arrancado. O bastante para me contentar. Ele escreveu-me a seguir uma coisa extremamente interessante. Explicou-me que tínhamos chegado a uma fase em que homem nenhum podia cobrir todo o campo da linguística e da poética da tradução. ...”

Esta passagem, para além da questão vertente do conhecimento generalista versus conhecimento especializado, que releva de uma. angústia, muito presente em Steiner e que também partilho: a impossibilidade do homem sonhar sequer vira a ser um dia um especialista de tudo, a verdadeira excelência ? coloca-me ainda uma interrogação:
Depois de Babel é um livro excelente (dizem-me, ainda não o li), é um clássico, como refere o Professor citado por Steiner, todavia esse professor de excelência, nalgum aspecto superior a Steiner, como ele próprio reconhece, considera-o um mau livro ! Haverá assim uma excelência da excelência ?
E quem será esse Professor que presumivelmente só alguns privilegiados conhecerão e que Steiner se recusa a nomear ? porquê ?
Voltando à “vaca fria” das minhas questões iniciais talvez, no fundo, as respostas tenham que ser sempre “sim”, a todas elas.

2006-08-25

A Liga Bwin e a ONU

Do caso Mateus e da embrulhada que deu, penso que todos já se deram conta, é a mediocridade e a incompetência no seu melhor.
Primeiro uma disposição desportiva absurda de que um amador tem que passar por um qualquer limbo antes de ser profissional, isto mesmo sem se saber bem o que é isso de um profissional ou de um amador no desporto.
Os Jovens que o Sporting vai trazendo de Alcochete como outros de outros lugares são já profissionais ? Se calhar são.
Depois a decisão, tarde e a más horas: pune-se o Gil Vicente que ganhou porque prevaricou e vai-se buscar o Belenenses que perdeu (porque se chama Belenenses evidentemente), um mínimo de bom senso exigiria que mesmo punindo o Gil Vicente este deveria ser substituido pelo Leixões (próximo a subir), julgo eu de que..
Mas bom senso é coisa que vai faltando e a grande confusão está aí.
Nós espectadores anónimos temos tendência a dizer: “isto só em Portugal !”
Mas podemos descansar, a ONU parece estar contaminada pela mesma lógica de desenrasca mal: Decide reforçar a sua força que se interpõe entre o Líbano e Israel e para ultrapassar as politiquices põe no comando, agora a França e depois a Itália, não digo um francês e depois um italiano, digo primeiro a França e depois a Itália, foi assim que ouvi.
Quer dizer que a França e depois a Itália é que vão mandar nas forças da ONU, que são de todo o mundo.
A mim, espectador anónimo, só me ocorre um comentário: “isto só no resto do mundo!”

2006-08-23

Mais uma prova de que o tabaco mata

Os conhecidos desenhos animados "Tom e Jerry" apareceram a fumar e foram imediatamente eliminados para não corromperem as criancinhas.

2006-08-18

Gunter Grass

Visto por uns e por outros

Para uns (como Luís Delgado) Gunter Grass é um “filho da puta” que dedicou a sua vida a tentar lixar o mundo:
Logo aos 17 anos, pensa e vê claramente que são as “Waffen-SS” que causam mais danos, adere, obviamente.
Depois, o mundo muda, as SS são agora mal vistas e Gunter Grass procura outras formas de chatear o mundo, estragar as nossas vidinhas, torna-se de “esquerda”, pois então, e escreve, escreve que se farta, engana até esses palermas do Nobel que lhe dão um prémio.
Mas a verdade vem sempre ao decima e agora já se sabe toda a verdade, vai-se finalmente lixar.

Para outros (eu, por exemplo) Gunter Grass é um homem que procura o sentido da vida e reflecte sobre as suas opções.
Aos 17 anos deixa-se fascinar pelas tropas de elite que ainda dominavam o mundo.
Quando a Alemanha perde a guerra todo aquele mundo se desmorona, vê claramente como estava enganado, reinicia a sua busca e envergonha-se das suas opções passadas embora tenha também vergonha dessa vergonha.
Perto dos 80 anos procura estar em paz com sigo próprio e mostra-se nu, tal como é, um Homem.

Para outros ainda (Lech Wałęsa, por exemplo) este filho da mâe alemão (niemęc, dito com o “nie” bem arrastado e com um esgar de boca) nascido em Danzig, cidade supostamente alemã que nós (ele) ensinámos ao mundo que se chamava, de facto, Gdansk.
Fizemo-lo cidadão honorário desta cidade porque ganhou um prémio Nobel mas mostrou agora a sua verdadeira natureza de alemão: tire-se-lhe o título já.

Para outros mais (como alguns blogues) Grass é um chico-esperto que tem levado a vida a enganar todo o mundo.
Quer estar sempre na mó de cima e, para ganhar mais uns cobres, até revela agora (quando isso já não o afecta) que se inscreveu voluntariamente nas Waffen SS.
Dito agora até parece “chic” e a venda do próximo livro vai “bombar”.

Para muitos outros: Gunter Grass ? Quem ? mas afinal quem é esse gajo ?

No fundo todos nos projectamos na imagem que fazemos dele enquanto Gunter Grass será apenas ele próprio, provavelmente tudo isto e nada disto.

2006-08-17

Afinal, foi o ovo ou a galinha ?

Biologicamente parece não haver dúvidas, foi mesmo o ovo, é só aí que estaria o património genético capaz de conferir o estatuto de galinha, mas subindo a um nível mais filosófico a questão persiste:
O pre-galo e a pre-galinha que produziram esse ovo, ao terem esse potencial e ao transmitirem essa capacidade não seriam já uma espécie de galo e galinha, a ser ?

Vem esta, eterna, questão a propósito de uma justa crítica que o leitor do público, Rui Marques, faz às paupérrimas novelas televisivas de grande audiência chamadas “Floribela” e “Morangos com Açúcar”.
A que se deve o seu sucesso ?
Tratarão essas nódoas televisivas de um mundo fictício, pobre e irreal que as televisões manipulam de forma a suscitar emoções gratuitas numa juventude desprevenida ? Como Rui Marques parece acreditar.
Ou será que é essa juventude que as idolatra que é já tão pobre de ideias e de valores que se limita a contempla-las como quem se contempla num espelho ?
Toda a esperança num mundo melhor passa por uma resposta a esta questão.

2006-08-10

A Excelência

À medida em que a globalização e o pensamento único procuram homogeneizar tudo e todos, tentam também resolver a sua própria contradição, desenvolvendo mecanismos que permitam alguma diferenciação no caldo morno e homogéneo que geram.
Procuram obstinadamente a excelência.
Mas onde estará ela ?
Afortunadamente a excelência ainda abunda, como sempre, o que está é camuflada na massa amorfa. Não é fácil vê-la. Não grita nem muda de cor para ser vista.
Há dias assisti a uma rápida entrevista de Mário Crespo ao Professor Alexandre Quintanilha a propósito do mau desempenho dos nossos alunos nas provas nacionais, sobretudo de física e matemática.
O Professor resumia assim de forma simples mas lúcida a sua visão do sistema de ensino:
Para grande parte das pessoas, que apenas a isto aspiram, tem que se lhes dar aqueles conhecimentos básicos que lhes permitem ser bem sucedidos na sociedade e exemplificava:
domínio da matemática elementar, saber fazer contas, domínio da sua língua, saber falar bem, e também a prática razoável do Inglês como língua universal, que todos precisamos de conhecer além do conhecimento geral das letras e da ciència que permitam ter um código mínimo de referencias.
Para outros, profissionais de vários ofícios, tem que se lhes fornecer tudo aquilo que já se sabe nos respectivos domínios de conhecimento de forma a se tornarem profissionais esclarecidos e competentes.
Para outros ainda, é importante dar-lhes a capacidade para irem mais longe no conhecimento, para produzirem novos conhecimentos para o mundo.
Isto é uma pirâmide, dizia ele.
Para Mário Crespo era a ponta dessa pirâmide que se deveria alargar, todos deveriam poder estar nesta ponta, na "ponta da excelência", pensava ele.
- Todos os que querem devem poder lá estar, sem dúvida, respondia o Professor, mas nem todos querem, a pirâmide traduz apenas a realidade, nem todos querem ser investigadores nem seria desejável que todos o fossem.
- Então e a excelência ? perguntava Crespo, como poderemos assim ter um ensino de excelência ou para a excelência ?
- A excelência, respondeu-lhe Alexandre Quintanilha, está em todos os níveis da pirâmide, pode haver excelência num calceteiro, num canalizador, num jornalista, num estivador, num cozinheiro, e também não a haver mesmo no topo da pirâmide, num investigador.
Não sei se Mário Crespo interiorizou este conceito, receio bem que não.

2006-08-05

A morte solitária de Gisberta

Sobre este caso não basta escrever um poste, era preciso um tratado que não sei escrever:
Revolta-me a barbárie daquele crime gratuito, cruel, maldoso, continuado, gratuito, inumano.
Revoltam-me os comentários viscerais sobre a brandura da sentença, como se a enormidade do crime se apagasse, com a lógica de uma punição violenta daqueles miúdos atarantados, sós, enganados, estúpidos, perdidos, despidos de valores e referências, embriagados de hormonas, abandonados por todos.
Revolta-me a apropriação mediática, da Gisberta pelo “lobby gay” como se o estatuto sexual de Gisberta tivesse alguma relevância para o peso e o significado da barbaridade cometida.
Revolta-me a postura dos Padres que tutelavam a formação daqueles miúdos criminosos pela tentativa patética de branquear a sua própria inoperância e falência.
Eu apenas choro por Gisberta, “minha irmã” ou “meu irmão”, pouco importa, que maltratada pela vida,. nem na rua, no seu canto, foi deixada em paz.
Deixo-lhe em homenagem o poema de uma canção de Bob Dylan, que ouço desde os meus anos de juventude e que certamente aqueles rapazes nunca ouviram e que embora se refira a uma situação totalmente diferente, não deixa de ser a mesma situação.

The lonesome death of Hattie Caroll.

William Zanzinger killed poor Hattie Carroll
With a cane that he twirled around his diamond ring finger
At a Baltimore hotel society gath'rin'.
And the cops were called in and his weapon took from him
As they rode him in custody down to the station
And booked William Zanzinger for first-degree murder.

But you who philosophize disgrace and criticize all fears,
Take the rag away from your face.
Now ain't the time for your tears.

William Zanzinger, who at twenty-four years
Owns a tobacco farm of six hundred acres
With rich wealthy parents who provide and protect him
And high office relations in the politics of Maryland,
Reacted to his deed with a shrug of his shoulders
And swear words and sneering, and his tongue it was snarling,
In a matter of minutes on bail was out walking.

But you who philosophize disgrace and criticize all fears,
Take the rag away from your face.
Now ain't the time for your tears.

Hattie Carroll was a maid of the kitchen.
She was fifty-one years old and gave birth to ten children
Who carried the dishes and took out the garbage
And never sat once at the head of the table
And didn't even talk to the people at the table
Who just cleaned up all the food from the table
And emptied the ashtrays on a whole other level,
Got killed by a blow, lay slain by a cane
That sailed through the air and came down through the room,
Doomed and determined to destroy all the gentle.
And she never done nothing to William Zanzinger.

But you who philosophize disgrace and criticize all fears,
Take the rag away from your face.
Now ain't the time for your tears.

In the courtroom of honor, the judge pounded his gavel
To show that all's equal and that the courts are on the level
And that the strings in the books ain't pulled and persuaded
And that even the nobles get properly handled
Once that the cops have chased after and caught 'em
And that the ladder of law has no top and no bottom,
Stared at the person who killed for no reason
Who just happened to be feelin' that way without warnin'.
And he spoke through his cloak, most deep and distinguished,
And handed out strongly, for penalty and repentance,
William Zanzinger with a six-month sentence.

Oh, but you who philosophize disgrace and criticize all fears,
Bury the rag deep in your face
For now's the time for your tears.

2006-08-03

Os juros estão a subir

Dizem-nos os “media” com aquela mesquinha satisfação de todos os profetas da desgraça.
- Agora a sua prestaçãozinha da casa vai subir, você está lixado, já reparou ?
E fazem todas as contas: quantos euros vamos pagar a mais. Entrevistam gente que se queixa da vida, mas que remédio, é a economia !
Eu vou pensando “pois bem, também a remuneração do nosso dinheiro investido vai ser superior” mas logo me desenganam, a notícia seguinte é que os juros dos certificados de aforro vão descer !?
E esta hem ? Quem é que me explica isto de maneira que se entenda ?
O que disseram foi que foi modificado o processo de cálculo dos juros dos certificados de aforro. !?
Quer dizer que temos que esquecer tudo o que aprendemos sobre matemática financeira, afinal há muitas maneiras de fazer contas. Até há umas que permitem remunerar menos juros quando as taxas de juro sobem !
Bom, se é assim, a minha proposta é a seguinte: alterem a forma de cálculo dos juros para compra de habitação de forma a que as prestações baixem quando as taxas de juro sobem, basta perguntar como aos que fizeram as contas para os certificados de aforro.

2006-08-02

Um Conto Exemplar

(Inspirado numa curta metragem que vi algures)

ANA e EVA

Ana e Eva eram duas irmãs de uma família humilde, criadas numa barraca, viveram uma infância simultaneamente triste e alegre, triste pelas privações materiais mas rica de amigos e de brincadeiras.

A história de Ana
Crescendo Ana, conseguiu um emprego de operária numa fábrica de confecções, com salário modestíssimo e trabalho intenso.
Conheceu aí um rapaz, operário como ela, de quem se engraçou, com quem casou e de quem teve 3 filhos.
Toda a sua vida reproduziu a vida dos seus pais. Um sacrifício imenso para criar os filhos e cuidar do marido, a quem foi fidelíssima toda a vida, até porque nem tinha tempo nem oportunidade para o trair.
Chegou a velhice, os filhos partiram para o mundo, o marido morreu alcoólico e Ana contraiu diversas maleitas que tornaram muito penosos os últimos anos da sua vida.
Um certo dia, ou melhor, uma certa noite a morte bateu-lhe à porta.
Mas Deus, que tudo vê, tinha acompanhado o sacrifício de Ana, ordenou que fosse levada, por Anjos, para o Céu, onde até agora está, gozando da sua justa recompensa e onde permanecerá para toda a eternidade.

A história de Eva
Eva conseguiu um emprego como a irmã, na mesma fábrica, mas não se conformava com aquela vida miserável.
Certo dia apareceu-lhe o Diabo, ele mesmo, sob a forma de um garboso e sedutor mancebo, que lhe propôs um contrato do tipo daqueles que o Diabo sempre propõe:
O Diabo satisfazia-lhe qualquer vontade, teria dinheiro e poder, mas ela deveria entregar-lhe a alma na hora da morte.
Eva não hesitou um segundo, perguntou logo “onde é que assino ?”.
O Diabo também assinou, entregou-lhe uma cópia e desapareceu..
A vida de Eva alterou-se num instante, no dia seguinte ganhou uma fortuna na lotaria onde nem mesmo tinha jogado. Comprou a fábrica onde havia trabalhado e ainda trabalhava a irmã e, depois desta, muitas outras fábricas e outras empresas.
Não casou mas teve imensos amantes, vivia em vários palácios em vários cantos do mundo e viveu todos os prazeres que a vida pode proporcionar.
Há até quem diga que foi feliz.
Mas a velhice chegou e com elas todas as doenças que ela foi debelando nos melhores hospitais e com os melhores médicos do mundo.
Mas a morte não a ignorou, bateu-lhe à porta também.
Foi nesse mesmo momento que Eva caiu em si.
Viu como toda a sua vida dissoluta tinha sido vazia e sem sentido e como tinha sido sempre má e mesquinha já que nem a sua pobre família tinha ajudado, nem a sua irmã e sobrinhos tinham sido aliviados do seu sofrimento, e como teria sido fácil para ela, mas havia-os esquecido, no turbilhão dos dias.
Sabia que dentro de breves instantes o Diabo iria reclamar a sua alma e para quê ? tudo tinha sido em vão.
Foi então que chorou profundamente e o seu coração se encheu do mais sincero arrependimento.
Como ela então desejava poder reverter o tempo para fazer tudo de novo e tudo diferente.
Porém Deus, que assistiu àquela contrição sincera, na Sua infinita misericórdia, olhou para as suas lágrimas e ordenou que fosse levada, por Anjos, para o Céu, onde até agora está, gozando a recompensa do seu arrependimento e onde permanecerá para toda a eternidade.

Parece é que o Diabo ficou bem furioso com a história mas foi muito bem feito para não andar por cá a desencaminhar as almas.

2006-07-31

Consciência profissional

O mesmo Professor, citado num poste anterior, despedia-se sempre assim dos seus alunos finalistas, na sua última aula:
- Ide ajudar os ricos a serem mais ricos e os pobres a serem mais pobres !

2006-07-30

Estou como a Europa

E como grande parte do resto do mundo.
Estou aqui calmamente a jantar, estou a ver aqueles dois cães engalfinhados que já conheço de outros jantares.
Tento concentrar-me na minha refeição, mas os cães perturbam-me, ladram, ganem, vão esfolando a mobília e derrubando mesas na sua luta..
E há crianças no restaurante, daqui a pouco talvez alguém se aleije a sério.
Tento não ver o que se passa e vou pensando que alguém tem que pôr cobro àquilo.
Não sei bem que cão terá razão, parece-me que ambos têm os seus pontos de vista, de qualquer forma não têm nada a ver comigo.
Ouço vozes a gritar:
- Vá “judeu” aperta-lhe a garganta, arruma com ele !.
E outras não se ficam atrás:
- Anda “palestiniano” não te deixes abater !
Pressinto que corre dinheiro de apostas sobre as mesas.
Olho para os cães:
Um é de raça pura, tem um pelo lindo, e tem a força e todas as técnicas de combate, o outro é um rafeiro valente, sujo e andrajoso como aquele “cão de ataque” dos “Amores Perros”, ninguém dava nada por ele mas tinha um coração de gigante e não se vergava nunca.
- Será que estes cães não têm um dono que ponha ordem nisto ?
Penso eu, tentando não olhar.
Começo a ouvir crianças a gritar. Crianças que os pais vão retirando da mesa para as proteger.
Alguém vai se aleijar por certo.
Começo a estar farto.
Não tarda nada levanto-me e nem pago o jantar.
- Chega porra será que ninguém vê que isto não é tempo nem lugar para estas coisas ? isto ainda vai acabar mal !

2006-07-27

A regra de Ouro

Como dizia sabiamente um velho Professor de “Reading”, que infelizmente não conheci pessoalmente, a Regra de Ouro é:
“Quem tem o ouro faz as regras”.