2006-07-05

A “saga” dos magriços

Agora que tanto se tem falado desse episódio longínquo de 1966, gostaria de dar também o meu testemunho do facto.
E posso bem fazê-lo porque o vivi “in loco”, em Inglaterra, onde, com os meus 16 anos passava umas férias escolares num campo de trabalho, apanhando morangos e bolbos de túlipa.
Os campos de trabalho eram os “Erasmos” daquela época, a oportunidade para um jovem correr mundo sem arruinar o orçamento familiar.
Naquele tempo eu era como Pacheco Pereira, não queria saber de futebol, as minhas preocupações passavam mais pelas jovens “Suecas”, companheiras de trabalho e que designo entre aspas porque algumas delas não eram de facto Suecas, as míticas, eram apenas “gajas” porreiras de diferentes nacionalidades, livres da moralidade então vigente na nossa longa noite “fascista”.
No fim do período de trabalho passei uma semana em Londres, gastando os lucros da operação, dormindo em “pousadas da juventude” e percorrendo a cidade. Foi no período exacto em que decorria o Campeonato do Mundo de Futebol de 1966.
O que foi para mim notável, foi que Portugal, nessa época era, para os ingleses um país obscuro, velho aliado, sabiam da história, mas meio pateta e analfabeto, todavia, com os crescentes sucessos de Eusébio e companhia, saltou de repente para as luzes da ribalta.
Passei a ser melhor olhado na cidade, mas o mais significativo foi que todas as lojas, grandes e pequenas, começaram a colocar letreiros nas montras dizendo “fala-se português”.
De onde viria esse súbito conhecimento da nossa língua que parecia não haver cão nem gato que não a falasse ?
O meu divertimento e do meu colega Miranda que compartilhou comigo esta aventura, foi o de entrar em todas as lojas com o tal letreiro e “exigir” falar em português.
Foi aí e então que comecei a perceber os mecanismos do “espectáculo”.
Na realidade eram poucas as lojas onde tinham alguém que falasse a nossa língua, aparecia-nos de tudo, desde o “Sim, temos um funcionário que fala português mas hoje, infelizmente não veio” até ao caixeiro que tinha passado as últimas férias no Algarve e sabia dizer “bom dia” e “obrigado”, passando pelos que falavam algum espanhol (para eles mais ou menos a mesma coisa que o português) e até um ou outro, raríssimo, que de facto falava português.. Portugal, naquele momento entrou no mapa para os ingleses e, queiram ou não, foi o futebol que fez esse milagre.

2006-07-04

Exames

For some reason my most vivid memories concern examinations. Big amphitheater in Goldwin Smith. Exam from 8 a.m. to 10:30. About 150 students-- unwashed, unshaven young males and reasonably well-groomed young females. A general sense of tedium and disaster. Half-past eight. Little coughs, the clearing of nervous throats, coming in clusters of sound, rustling of pages. Some of the martyrs plunged in meditation, their arms locked behind their heads. I meet a dull gaze directed at me, seeing in me with hope and hate the source of forbidden knowledge. Girl in glasses comes up to my desk to ask: "Professor, Kafka, do you want us to say that . . . ? Or do youwant us to answer only the first part of the question?" The great fraternity of C-minus, backbone of the nation, steadily scribbling on. A rustle arising simultaneously, the majority turning a page in their blue books, good team work. The shaking of a cramped wrist, the failing ink, the deodorant that breaksdown. When I catch eyes directed at me, they are forthwith raised to the ceiling in pious meditation. Windowpanes getting misty. Boys peeling off sweaters. Girls chewing gum in rapid cadence. Ten minutes, five, three, time's up.

Vladimir Nabokov
(entrevista à Playboy – 1964)

2006-07-01

Lá comemos os bifes

Mas tinham muito nervo.

A aristocracia e o povo

Li algures que a “nobreza”, a “educação”, o “chá”, enfim espero que se perceba o que quero dizer, estão nestas duas pontas da estratificação social: na aristocracia e no povo.
Pelo meio está esse vasto mundo da “burguesia” do “dinheiro” do “status” com um esquema de valores inteiramente diferente.
Eu, que sou do povo, por acasos da vida, de quando em vez viajo de avião em “1ª classe”. Digo 1ª classe porque é assim que o povo chama e conhece aquelas designações de “business”, “executive” e expressões equivalentes que usam as burguesas companhias aéreas, politicamente correctas.
Esta situação aconteceu-me hoje no meu regresso da Ilha Terceira, onde estive na passada semana e, nesta curta viagem de duas horas, aconteceram-me duas insólitas situações que passo a relatar:
Para os “burgueses”, meus companheiros de 1ª classe, como mesmo para aqueles que não viajam em 1ª classe, o cúmulo do prazer em viagens de avião parece ser o de se reclinarem nas cadeiras até ao limite mecânico destas e isto independentemente de se levantarem das ditas cadeiras com uma enorme frequência, talvez para irem, dezenas e vezes às casas de banho.
Na 1ª classe a principal vantagem que se tem, nestas viagens curtas, é precisamente o espaço e a distância entre filas que é considerável. Pois, não obstante esta distância considerável o meu companheiro da frente após várias tentativas que começaram com o avião ainda no terreno, conseguiu reclinar-se de tal maneira que derrubou uma garrafa que estava sobre a minha mesinha, a talvez uns 80 cm de distância das suas costas, quando direitas.
Depois, houve este diálogo, quase textual, entre mim e a hospedeira:
- Com o café gostaria de beber uma água ardente, pode ser ?
- Água ardente não temos, só Cognac.
- Cognac está óptimo, aliás não é mais do que uma água ardente.
- Sim, de certo modo.
Pouco depois, vem o Cognac e esta declaração que me imprimiu tendências assassinas, diz-me ela assim:
- Peço desculpa de não ser branco mas não há Cognac branco !
Apeteceu-me responder-lhe:
- Sim, sim, é o cognac e o guarda-chuva da minha enteada !
Mas fiquei simplesmente saboreando o meu cognac e meditando sobre o estranho mundo que se passaria naquela linda cabecinha.

2006-06-24

Uma coisa é certa

Tudo, por melhor que seja, pode ser sempre ainda melhor.
Deixem pois os inimigos de Scollari destilar o seu ódio até ao fim.

2006-06-22

Trabalho de casa

Nas minhas aulas de polaco, como é habitual nestas situações, tenho trabalhos de casa.
O último que me propuseram colocou-me problemas para além dos habituais.
Tratava-se de narrar, em polaco naturalmente, uma história apresentada em quadradinhos sem legendas.
A história era, aparentemente bem conhecida em muitas culturas diferentes, contada a crianças em muitíssimas línguas, a história dos 3 porquinhos com casas, respectivamente de palha, madeira e pedra que são atacadas, com sucesso, pelo lobo mau, com excepção da firme casa de pedra.
No trabalho também me era pedido que redigisse em polaco a moral da história.
Na verdade nunca tinha pensado no assunto embora pense que passará pela importância de nos protegermos bem contra as agruras da vida ou de que os esforços para assegurar a segurança são recompensados.
De qualquer modo, aquele exercício trazia uma rasteira, um último quadradinho mostrava o lobo mau a avançar para a casa de pedra sentado numa potente escavadoura, o fim da casa de pedra mostrava-se inevitável.
Perante a fatalidade só me lembrei de uma moral: “O poder estraga a vida de toda a gente” e foi isso que verti para polaco.
Na correcção, para além dos inevitáveis erros de polaco, o pessoal riu-se da minha conclusão moral, parece-me que a história lhes sugeria mais a importância da tecnologia ou algo assim.
Voltei a ver e a rever os quadradinhos e, para mim, a única evidência era a que escrevi:
Os poderosos ganham em todas as situações !

2006-06-19

A voz dos avós que nos há de guiar à vitória

Quando Dulce Pontes cantou (aliás pessimamente) o hino nacional durante a cerimónia da bandeira das mulheres, a certo ponto cantou assim:

Oh Pátria ergue-se a voz
Dos teus egrégios avós
que hão-de guiar-te à vitória

Ora o que Henrique Lopes de Mendonça escreveu foi outra coisa:

Oh Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória.

Quer dizer: nem a voz se ergueu nem são os avós, coitados que já morreram, que nos vão guiar à vitória, nada disso, é sua voz que se sente que o fará.
Todavia, quando isso se passou, eu não liguei muito, a Dulce baralhou-se um pouco ou alguém a enganou.
O caso torna-se sério quando vemos que um juiz decidiu não conceder a nacionalidade a uma cidadã cá radicada há anos e com filhos portugueses só porque não sabia a letra do hino nacional e depois, quando ontem no programa “O eixo do mal” da SIC notícias os comentadores debatem a questão dos símbolos nacionais, reproduzem esta passagem de Dulce Pontes e apesar de ser um programa de achincalhamento permanente a tudo e a todos, não fazem a mínima observação ao facto mostrando que também eles, tal como Dulce Pontes não sabem o hino nacional.
Não admira que tenham batido tanto no tal juiz, que aliás deveria ser mais cuidadoso ou a nacionalidade estará em risco para muitíssima gente.

2006-06-16

Voltei hoje para ouvir isto

Ribeiro e Castro critica o governo, que reputa de esquerda, por promover uma lei do arrendamento que promove uma verdadeira expropriação por interesse privado.
Não percebo a sua crítica: expropriações por interesse privado não são mais do que a prática normal e diária do sistema deste e de todos os governos.

2006-06-02

Este Blogue encerra para férias

Reabre na segunda quinzena do mês para falar, talvez, das minhas aquisições na Feira do Livro, que estou a pensar digerir agora.
Ainda assim, até pode ser que apareça alguma porta de ecesso à net.
Nunca se sabe!

2006-05-30

Mensagem

Europa spoczywa podparta łokciami:
Od Wschodu do Zachodu spoczywa i patrzy,
Jej romantyczne włosy spadają na czoło,
Greckich oczu pamięci przysłaniając krasę

Łokieć lewy – cofnięty:
Prawy – oparty pod kątem
Tam Italia, gdzie pierrwszy;
Drugi to Anglia, odsunięty
By dłoń podeprzeć mogła głowę.

Ptrzy spojrzeniem Sfinksa, spojrzeniem fatalnym,
Na Zachód, co przyszłości wieści.
Patrzy na Zachód twarzą Portugalii

Fernando Pessoa

Assim abre uma muito recente edição em polaco da "Mensagem" ("Przesłanie") de Pessoa.
Lançada pelo Instituto de estudos ibéricos e ibero-americanos da Universidade de Warsóvia

Aqui fica também o magnífico original na nossa língua

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal

Fernando Pessoa

Auschwitz

O Papa esteve em Auschwitz e referiu que sendo alemão, (membro da juventude hitleriana, acrescento eu) não tinha palavras para se pronunciar. Compreendo-o..
Eu sou seguramente um dos poucos portugueses que melhor conhece Auschwitz.
Visitei n vezes o lugar, uma por mim, outra pela minha mulher quando me visitou na Polónia, e muitas mais por cada um dos franceses que se sucederam a me acompanhar no trabalho de formação, que foram muitos, sabendo que todos queriam visitar Auschwitz.
Eu levei-os lá.
Dizia, de brincadeira, que me poderia candidatar a guia oficial do campo, e, na verdade, podia.
As memórias que aí colhi sugerem-me muitas reflexões que poderei deixar em postes.
Talvez as vá escrevendo qualquer dia, por agora, queria apenas deixar a referência que me tocou mais fundo nesse local de massacre:
A frase que encima o portão de entrada no “campo”, que todos já viram na tv sem talvez nunca ter reparado nela e que diz::
“Harbeit Macht Frei”.
Cito o alemão de memória, perdoem-me qualquer erro, dizem-me que significa “O Trabalho Conduz à Liberdade”
Sabendo o que se passava naquele “campo de trabalho” a hipocrisia ali expressa, também contida nos concertos que prisioneiros músicos proporcionavam, junto a esse portão, para alegrar os cortejos de regresso do trabalho forçado dos seus colegas menos afortunados, esta presença simultânea entre a beleza e a mais abjecta crueldade, esta insuportável mas suportada contradição de termos, gravaram-se na minha memória, revelam-me muitíssimo sobre a condição humana.

2006-05-29

A ideia da Europa

Li finalmente o excelente ensaio de George Steiner: “A ideia da Europa”.
Finalmente, digo, porque quando o procurei pela primeira vez estava esgotado.
É um ensaio notável porque consegue captar exactamente aquilo a que se propõe: a ideia da Europa, fugindo a todos os lugares comuns e números "cabalísticos" que pretendendo dizer tudo nada conseguem dizer.
É um ensaio notável porque consegue revelar-nos o que está diante dos nossos olhos e raramente conseguimos ver.
É um ensaio notável porque consegue o paradoxo de traduzir simplesmente uma enorme complexidade sem, todavia, a simplificar.
Parte de 5 axiomas que Steiner construi e que refiro aqui, extraídos da sua própria pena:
«O café; a paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia; as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado (...); a nossa descendência dupla de Atenas e Jerusalém; e, por fim, a apreensão dum capítulo derradeiro, daquele famoso ocaso hegeliano que ensombra a ideia e a substância da Europa mesmo nas suas horas mais luminosas».
Agora que o ensaio está em quase todas as livrarias e na Feira do Livro de Lisboa, recomendo vivamente a sua leitura.
Isto a quem se interessar um pouco pela Europa, claro, porque é só disso que se trata.

2006-05-28

Uma reportagem exemplar

Na RTP 2, hoje sobre Timor em convulsão.
Entrevistaram-se pessoas avulsas no meio de uma multidão que rodeava uma casa.
- Queremos arroz, um pouco de arroz para minha família que dizem que vão distribuir.
Dentro da tal casa estava Ramos Horta que explicava:
- Temos arroz mas se abrimos a porta, entra a população de qualquer maneira e perdemos o controlo da situação.
Este é o grande problema: tão simples mas tão complicado que exigiu a presença do Ministro dos Negócios Estrangeiros timorense.
Não estou a falar ironicamente, sinto que está mesmo aqui a essência do problema.

2006-05-26

Elogio à globalização

Eu, que estou desagradado , com o rumo que o mundo vai tomando, e como a globalização vai eliminando o indivíduo, não quero deixar de manifestar a minha admiração pela forma como a sociedade global está a lutar contra o vírus da gripe das aves.
Eu, vivi na minha juventude a pandemia da gripe asiática, estive de cama com quase todos os meus irmãos e amigos e conheço testemunhos, da espanhola, e da pneumónica que afectou profundamente toda uma geração.
Sei que a estratégia dos vírus tem sido sempre a mesma: começa nas aves, e apenas passa das aves para homens até encontrar um determinado homem engripado que cria as ideais condições para uma mutação ou fusão entre os dois vírus, o das aves que contribui com a virulência e o vírus comum que fornece a capacidade de propagação.
Em termos simplistas o mecanismos é este, o que é diferente hoje é a globalização da espécie humana, e a máquina que montou de alerta, a monitorização das aves, o acompanhamento de todas as ocorrências sejam em Carrazedo de Monte Negro, sejam em Shin Huai na Ásia, em Bacu em Àfrica ou em Nova Iorque nos EUA, tentando protelar esse encontro fatal entre os dois vírus ou pelo menos estar próximo quando ele ocorrer.
Isto é uma situação única na história da humanidade, o vírus não contava com isto, é equivalente ao sonho da guerra das estrelas de Bush pai.
Até agora está a funcionar em plenos, os anos vão passando e a pandemia não aparece.
Eu vou acompanhando com um caso de estudo, ainda que me possa eventualmente matar, para ver até quando e, se vier, como será ?

2006-05-23

Notícia de rodapé do noticiário da SIC

Era qualquer coisa como isto:
“Governo diz que em dez anos acabará com o problema das espécies em vias de extinção”.
Desconheço o contexto desta notícia, pelas razões que expus no poste anterior, mas não estranhei:
Eu já desconfiava que o Governo de Sócrates estava pouco preocupado com as questões comezinhas que afligem os portugueses, ele vê muito mais longe, tem maiores ambições, quer pôr ordem na própria natureza e acabar com essa filosofia natural de fazer tudo com princípio meio e fim: apostar tanto na diversidade, provocar tanta mudança para que na essência tudo fique, mais ou menos, na mesma.
Para já, propõe-se terminar, em dez anos, com esse erro divino que permite a extinção das espécies. Basta !
Estivesse cá o Governo de Sócrates, há alguns (muitos) anos e ainda teríamos o prazer de ver os dinossauros, passeando felizes e contentes nas nossas auto-estradas.
Extinção de espécies nunca mais. Podem sossegar os linces da Malcata, se aguentarem mais dez anos, e os burros de Miranda.
Parece-me que o próximo passo na lógica governativa e que terá todo o meu apoio, será passar para a óptica intraespecífica, a questão dos próprios indivíduos, acabar com todo o tipo de extinção e ponto final parágrafo.
Sócrates vai-nos presentear com o elixir da longa vida.
O problema que o está a tolher parece ser apenas o de assegurar a viabilidade do sistema de segurança social, dado que pelas contas do governo se a esperança de vida cresce as pensões de reforma têm de diminuir e tenderão naturalmente para zero quando a esperança de vida tender para infinito !

2006-05-22

O Tribunal de Tomar

Hoje, pela segunda vês, estive no Tribunal de Tomar e, pela segunda vez, esperando até que me dissessem que fosse à minha vida e voltasse depois, no dia e na hora x.
Este meu encontro com o sistema judicial merecia um poste circunstanciado mas a réstia de respeito que vou nutrindo pela justiça faz-me calar.
Só não resisto a contar que fui confrontado com uma matilha de cães subindo e descendo a escadaria do Tribunal (não em sentido metafórico, eram cães mesmo) e por uma encarniçada luta de pombos pela posse de um beiral, provando que até os “símbolos da paz” podem perder a paciência algumas vezes.
De regresso, parei para almoçar na área de serviço da Santarém da A1 e, estando só, comi sentado em frente de um grande ecrã de TV que transmitia o noticiário da SIC mas sem som, apenas murmúrios.
Fui então vendo as imagens e lendo as notas que circulam em rodapé e nada têm a ver com as imagens, numa experiência estética notável, num real mundo su-real.
Retive duas dessas notas de rodapé, e das duas falarei nos próximos postes.
A primeira dizia assim: “Governo anuncia que em dez anos acabará com o problema das espécies em extinção !”.

2006-05-20

Entre-os-rios

Penso que quase todos sabem do que estou a falar.
Uma camioneta cheia de gente feliz, regressando de uma jornada organizada para ver amendoeiras em flor, jornada feliz de convívio, boa comida, descontracção, daqueles poucos momentos em que se podem esquecer os problemas da vida, passa na ponte Hintze Ribeiro em Entre-o-rios e a ponte cai, com ela, a camioneta e os passageiros que morrem inglória e desesperadamente afogados no Douro. Uma tragédia !.
Um Ministro, sensato, que provavelmente nem sabia bem de que ponte se tratava, adivinhando bem o que daí viria, pede imediatamente a sua demissão, assumindo a responsabilidade política e livrando-se imediatamente do problema.
Os média, e o pensamento único, encarniçam-se para punir os culpados:
“A culpa não pode morrer solteira !” era o que mais se ouvia e ainda se ouve.
Curiosamente, há centenas de anos, quando a civilização era mais simples e facilmente se podiam imputar responsabilidades, a opinião pública era sensível a influências estranhas, podia haver culpa dos deuses, do tempo, dos pecados do mundo, enfim haver a culpa de qualquer transcendência. mas agora, neste mundo global em que todos estamos alienados, sen nenhuma consciência do nosso papel no exército da produção, tempo em que todos nos limitamos a apertar um parafuso desta grande máquina e nem sabemos muito bem que parafuso é, tempo em que, por natureza, todas as responsabilidades estão diluídas, não toleramos nunca culpar as forças do sistema, tem que haver sempre um responsável humano: “a culpa não pode morrer solteira !”.
Eu estou a ver os técnicos que suspeitavam de que algo estava mal mas não os deixaram visitar o local, porque havia outras prioridades ou faltava verba para ajudas de custo e outros que o visitaram, e viram o que se passava e escreveram o que viram mas a quem ninguém ligou nenhuma, eram uns chatos com a mania do perfeccionismo, e outros ainda que também viram tudo, mas se limitaram a falar do assunto ao café porque sabiam já que a sua voz nunca seria ouvida.
E os vários chefes, na cadeia hierárquica, tentando conter o ímpeto despesista e alarmista dos técnicos, já que pilares corrompidos é o que para aí não faltará, a questão é apenas a de saber se a ponte vai cair e isso ninguém sabia ao certo, “com sorte ainda vai durar muitos anos” e duraria não fossem as maiores cheias do Douro dos últimos 300 anos que por azar vieram naquele preciso ano.
E é isto que os senhores juizes têm constatado ao aprofundar o assunto, embora o pensamento único, não aceite: “a culpa não pode morrer solteira”, e certamente alguém irá pagar, provavelmente o elo mais fraco do sistema, como sempre.
Pois eu, olhando para o mundo em que vivemos também estou a ver muitos pilares corrompidos e procuro ir alertando como posso.
Só espero não vira a pagar por isso quando o mundo ruir.
Aqui declaro que eu já avisei, a culpa não poderá ser-me imputada. Espero !

2006-05-15

O que eu não compreendo no vegetarianismo

O seu desprezo pelo reino vegetal que pode ser arrancado, morto, mutilado, tratado com água e óleos ferventes, mastigado e deglutido.
Será que é porque os infelizes não fogem, não gritam, e nem se queixam ?

2006-05-11

A árvore e a floresta

Muitas vezes utilizei esta metáfora:
- Não consegues ver a floresta por causa da árvore !
Hoje, cada vez mais, vou tendo que utilizar uma outra:
- Não consegues ver a árvore por causa da floresta !

Medida urgente para resolver os grandes problemas do país

Isto não é só as maternidades, tem que se encerrar todos os hospitais públicos, já.
Já viram as vantagens ?
O dinheiro que se poupava era imenso, em salários e manutenção.
Os edifícios podiam ser vendidos e proporcionar um magnífico encaixe para ajudar ainda mais a eliminar o défice.
A mortalidade, tenhamos esperança, deveria aumentar um pouco sem ter aquele aspecto antipático de matar os velhos diretamente (tem que haver um pouco de étical!) e assim se poupava um dinheirão em reformas, salvando-se a segurança social.
E o Governo de Sócrates rebolava-se de orgulho nesta sua caminhada para salvar o país.

2006-05-07

Os 150 anos de Freud

Não obstante se comemorar hoje os 120 anos da Coca-Cola, continuo a pensar que os recentes 150 anos de Freud ainda têm um maior significado.
Basta tentar perceber este aparentemente irracional ódio às maternidades, manifestado pelo Governo e em especial pelo Sr. Ministro da Saúde para termos que recorrer ao grande mestre austríaco.
De facto, penso que só Freud pode explicar esse comportamento absurdo.

2006-05-04

Sabedoria popular

Eu sou devedor à terra
A terra me está devendo
A terra paga-me em vida
Eu pago à terra em morrendo


Quadra tradicional, notável, do Cante Alentejano.
Revela todo o seu significado quando cantada pelo Grupo da Casa do Povo de Serpa

2006-05-01

A grande aldrabice da segurança social

Quando eu era pequenino, explicavam-me este sistema assim:
- Tu descontas todos os meses uma parte do que ganhas, essa poupança forçada vai ser aplicada pela mão de mestres financeiros e vai multiplicar-se de tal modo que quando fores velhinho vais ter lá á espera todo esse valor acumulado para assegurar a tua velhice
Quando eu era mais velhinho e pretendi reforçar essa poupança através da banca privada, até me fizeram uma simulação que me demonstrava por A+B que eu ficaria bem confortável, perto do limiar da riqueza, com o crescimento alucinante do meu reforço de poupança. Entretanto esse esquema já falhou e limitaram-se a devolver-me o que tinha lá posto, acrescido de alguns juros, bem poucos para o que diziam, não fiquei nada rico.
Agora, esqueceram-se já de toda esta conversa e surge a verdade nua e crua: afinal a minha poupança forçada está só a assegurar os reformados de agora, alguns até que nem descontaram nada e ainda estão activos mas vão já recebendo por causa das coisas.
Quando pergunto pela minha reserva, dizem-me que a pirâmide etária se modificou e mais não sei quê, que há menos activos a pagar e, enfim tenho que esperar mais e receber menos !
Quer dizer, afinal o sistema não era mais do que o famigerado “golpe dos postais”, o sistema da D. Branca: Os novos “patos” é que vão sustentando os sistema até ao previsível colapso.
A D. Branca foi presa, fico a aguardar quem vai ser preso quando gorarem de vez as minhas expectativas.

2006-04-28

Eu sou um senhor responsável

O Irão é que não.
Eu tive uma licença de porte de arma de defesa, porque sou responsável.
O Irão é que não.
Eu sou português, portanto pertenço a um país responsável com 900 anos..
O Irão é que não. Parece que já foi um império mas já ninguém se lembra, nem quer saber.
Portugal começa timidamente o caminho para utilizar a energia nuclear, está muito bem, Portugal é um país responsável.
O Irão, não pode, não é responsável, o que ele quer é a bomba, toda a gente sabe.
A bomba é só para países responsáveis.
O Irão não é um país responsável.
A bomba é só para a Europa, Israel, a Índia, enfim, os responsáveis que não a vão utilizar à doida. Era só o que faltava!.
Os EUA, que são os mais responsáveis de todos também podem ter a bomba, porque a não vão utilizar nos países responsáveis, só o fizeram no Japão quando ele não era responsável, agora já não vão deitar bombas no Japão, nem pensar!, agora e só se for preciso, só se deitam bombas no Irão !
E é bem feita, para ver se fica mais responsável.

2006-04-27

Reflexões privadas sobre Chernobil

Foi há 20 anos, a notícia chegou-me como as de todas as grandes catástrofes, tocou-me a razão e um pouco também o coração mas à distância, vivido na segurança de quem está longe, ainda que alguns profetas da desgraça não se cansassem de nos dizer que nem sequer aqui estávamos seguros.
Foi só há 2 anos na Polónia que senti Chernobil. Aí estava ainda na memória de todos: medos reais, restrições reais, 18 anos depois ainda estava bem presente o seu fantasma.
Mas foi aí também que senti outra catástrofe, a segunda guerra mundial, por todo o lado ainda, em muitos edifícios, em muitos rostos, sempre tão presente fazendo-me ganhar a consciência da fragilidade da Europa e, por outro lado, a da nossa singularidade.
Não sei se é Nossa Senhora de Fátima que nos protege, como se disse quando mudou o vento que fez devolver à Galiza o derrame do “Prestige” que os espanhóis tanto quiseram empurrar para nós, mas que temos sido um “ditoso reino” já não tenho qualquer dúvida.