2006-01-05
Como eu vejo a Bolsa de Valores
Bolas de sabão
Umas sobem, outras descem,
Umas são baças e lentas no seu vaguear,
Outras resplandecem de luz com todas as cores do arco iris,
Mesmo as cores que se não vêem.
E sobem orgulhosas como se tivessem o mundo na mão.
Mas, todas, todas sem excepção,
Rebentam e morrem, quando as queremos agarrar.
Só as crianças se fatigam nesse trabalho inútil.
2006-01-03
Morreu Cáceres Monteiro
Um dia, e um só dia, cruzei a minha vida com a de Cáceres Monteiro.
Partilhamos a palavra num Seminário em Trancoso, jantamos e conversamos no jantar que se seguiu.
Desse brevíssimo encontro ficou um registo no meu espírito:
Simpático ? Era-o, sem duvida, mas quem não é simpático num encontro social como aquele.
Interessante ? também, mas uma amiba, o movimento de uma folha ao vento, podem ser igualmente muito interessantes.
Outras qualidades humanas ? não me foi permitido avaliar com precisão, a partir desse fugaz encontro e dos escritos que deixou e que eu li.
Ficou apenas uma certeza, a mais importante, a cada vez mais rara e mais digna de respeito:
Cáceres Monteiro era, seguramente um “Homo sapiens”
Partilhamos a palavra num Seminário em Trancoso, jantamos e conversamos no jantar que se seguiu.
Desse brevíssimo encontro ficou um registo no meu espírito:
Simpático ? Era-o, sem duvida, mas quem não é simpático num encontro social como aquele.
Interessante ? também, mas uma amiba, o movimento de uma folha ao vento, podem ser igualmente muito interessantes.
Outras qualidades humanas ? não me foi permitido avaliar com precisão, a partir desse fugaz encontro e dos escritos que deixou e que eu li.
Ficou apenas uma certeza, a mais importante, a cada vez mais rara e mais digna de respeito:
Cáceres Monteiro era, seguramente um “Homo sapiens”
2006-01-01
Ideias de Portugal
É normal, quando nos identificamos como portugueses perante alguém estrangeiro num país diferente, que o nosso interlocutor procure qualquer elo de contacto, qualquer referência que o ligue ao nosso país. e todos teremos a experiência habitual de ouvir citar Figo, Eusébio, nalguns casos, entre gente mais cosmopolita, Amália Rodrigues ou Fátima.
Ouve dois casos que ficaram na minha memória pela sua singularidade:
O primeiro foi com um francês, hóspede do mesmo hotel, já não sei em que país, com o qual entabulei uma conversação rápida num elevador:
- Ah, Portugal, belo país, o melhor café do mundo
Fiquei surpreendido. De facto eu também sei que Portugal serve o melhor café do mundo, mesmo que seja italiano e preparado em máquinas italianas, não sei que jeito lhe damos que fica melhor que em Itália, mas isto sabemos nós portugueses e só nós, a fama do nosso café não corre por esse mundo fora, é clandestina, excepto para aquele francês que numa ou duas visitas ao nosso país descobriu o segredo, notável
O segundo encontro foi ainda mais estranho:
Num bar de hotel em Szczecin na Polónia, fui abordado por um bêbado polaco. Completamente bêbado, ao ponto do meu péssimo polaco, um pouco de inglês e mesmo algum português terem permitido uma conversação aparentemente fluente.
Com este parceiro, quando lhe referi a minha nacionalidade, para ele, inesperadíssima naquele canto da Polónia, disse-me assim:
- Portugalia ? ah tak, “Vasco de Gama”
Foi por esta e outras que me deixei fascinar por aquele país.
Ouve dois casos que ficaram na minha memória pela sua singularidade:
O primeiro foi com um francês, hóspede do mesmo hotel, já não sei em que país, com o qual entabulei uma conversação rápida num elevador:
- Ah, Portugal, belo país, o melhor café do mundo
Fiquei surpreendido. De facto eu também sei que Portugal serve o melhor café do mundo, mesmo que seja italiano e preparado em máquinas italianas, não sei que jeito lhe damos que fica melhor que em Itália, mas isto sabemos nós portugueses e só nós, a fama do nosso café não corre por esse mundo fora, é clandestina, excepto para aquele francês que numa ou duas visitas ao nosso país descobriu o segredo, notável
O segundo encontro foi ainda mais estranho:
Num bar de hotel em Szczecin na Polónia, fui abordado por um bêbado polaco. Completamente bêbado, ao ponto do meu péssimo polaco, um pouco de inglês e mesmo algum português terem permitido uma conversação aparentemente fluente.
Com este parceiro, quando lhe referi a minha nacionalidade, para ele, inesperadíssima naquele canto da Polónia, disse-me assim:
- Portugalia ? ah tak, “Vasco de Gama”
Foi por esta e outras que me deixei fascinar por aquele país.
2005-12-24
Reflexões sobre o Natal
Assim como o cristianismo se apropriou dos ritos sociais que desde as sociedades mais primitivas marcavam os ritmos cíclicos da natureza, introduzindo-lhes novos significados, novos conteúdos, começa a provar agora do mesmo veneno.
O “Deus Mercantilista”, insidiosa e persistentemente impõe uma nova alienação.
Para os cristãos é o nascimento de Cristo que se celebra e, por extensão, mesmo para os não cristãos, é também uma festa da família, da criança, dos grupos de vizinhança e da solidariedade em geral.
A sua importância na ordem social é ainda enorme. Dizia-me um advogado brasileiro especializado em divórcios, que, no Brasil, um dos aspectos determinantes que só um advogado muito inexperiente deixa passar em branco é o da formalização de regras claras e inequívocas sobre as futuras celebrações do Natal dos filhos do casal separado.
Os presépios que desde S. Francisco ou talvez mesmo desde os primeiros cristãos se construem nesta época, marcavam simbolicamente de forma directa a unidade familiar e a solidariedade. Muitas tradições regionais vão no mesmo sentido, doações a pobres, o perdão de faltas, o manter a mesa tão farta quanto possível e aberta a quem apareça, ou essa tradição lindíssima da consoada tradicional polaca, a “Vigilia” (ler o g como em gato) onde se põe na mesa sempre mais um lugar do que o necessário, pronto para quem chegue e, se alguém chega mesmo e o ocupa, novo lugar livre deve ser criado, são tudo tradições simbólicas daquilo que se denomina como “espirito de Natal” cristão.
Vestígios das velhas tradições pre-cristãs também se mantêm, sobretudo em certos ritos gastronómicos específicos da época.
Mas para o “Deus mercantilista” não se comemora nada, apenas se pretende aproveitar a tradicional boa vontade natalícia para encher o seu “ventre” ávido e trata de arranjar a sua estória e os seu próprios símbolos, que persistentemente se vão impondo ao Natal.
Falo, claro, do chamado “Pai Natal”, figura grotesca que vive no Polo Norte, e se desloca anualmente num trenó puxado por renas voadoras. Para explicar este absurdo e fingir que ainda estão na tradição cristã dizem que é um tal S. Nicolau Bispo da Ásia Menor e que, não sei porque artes, se viu assim condenado ao gelo polar.
Eu, não suporto o Pai Natal e as suas renas, que estão a matar o Natal. Aida por cima se deixa abandalhar despudoradamente pelos media.
Morra o Pai Natal ! Morra! pim!
O “Deus Mercantilista”, insidiosa e persistentemente impõe uma nova alienação.
Para os cristãos é o nascimento de Cristo que se celebra e, por extensão, mesmo para os não cristãos, é também uma festa da família, da criança, dos grupos de vizinhança e da solidariedade em geral.
A sua importância na ordem social é ainda enorme. Dizia-me um advogado brasileiro especializado em divórcios, que, no Brasil, um dos aspectos determinantes que só um advogado muito inexperiente deixa passar em branco é o da formalização de regras claras e inequívocas sobre as futuras celebrações do Natal dos filhos do casal separado.
Os presépios que desde S. Francisco ou talvez mesmo desde os primeiros cristãos se construem nesta época, marcavam simbolicamente de forma directa a unidade familiar e a solidariedade. Muitas tradições regionais vão no mesmo sentido, doações a pobres, o perdão de faltas, o manter a mesa tão farta quanto possível e aberta a quem apareça, ou essa tradição lindíssima da consoada tradicional polaca, a “Vigilia” (ler o g como em gato) onde se põe na mesa sempre mais um lugar do que o necessário, pronto para quem chegue e, se alguém chega mesmo e o ocupa, novo lugar livre deve ser criado, são tudo tradições simbólicas daquilo que se denomina como “espirito de Natal” cristão.
Vestígios das velhas tradições pre-cristãs também se mantêm, sobretudo em certos ritos gastronómicos específicos da época.
Mas para o “Deus mercantilista” não se comemora nada, apenas se pretende aproveitar a tradicional boa vontade natalícia para encher o seu “ventre” ávido e trata de arranjar a sua estória e os seu próprios símbolos, que persistentemente se vão impondo ao Natal.
Falo, claro, do chamado “Pai Natal”, figura grotesca que vive no Polo Norte, e se desloca anualmente num trenó puxado por renas voadoras. Para explicar este absurdo e fingir que ainda estão na tradição cristã dizem que é um tal S. Nicolau Bispo da Ásia Menor e que, não sei porque artes, se viu assim condenado ao gelo polar.
Eu, não suporto o Pai Natal e as suas renas, que estão a matar o Natal. Aida por cima se deixa abandalhar despudoradamente pelos media.
Morra o Pai Natal ! Morra! pim!
2005-12-19
As desistências
Candidato que desista não tira votos a ninguém, dá-os apenas.
No caso presente é óbvio que ninguém, com um mínimo de senso, que pretenda votar em Cavaco Silva mudará o seu voto para Soares alegando que os outros desistiram. Di-lo o bom senso e as próprias sondagens que já abordaram o assunto.
No entanto é isto que afirmam mentes supostamente iluminadas, do PS e também Marcelo Rebelo de Sousa.
São burros ? não, simplesmente desonestos:
Marcelo quer promover Cavaco à primeira volta tentando manter uma imagem de comentador imparcial.
No PS parecem pretender evitar a humilhação de uma derrota de Soares com um número insignificante de votos ou será que no fundo, no fundo também eles querem uma vitória rápida de Cavaco ?
No caso presente é óbvio que ninguém, com um mínimo de senso, que pretenda votar em Cavaco Silva mudará o seu voto para Soares alegando que os outros desistiram. Di-lo o bom senso e as próprias sondagens que já abordaram o assunto.
No entanto é isto que afirmam mentes supostamente iluminadas, do PS e também Marcelo Rebelo de Sousa.
São burros ? não, simplesmente desonestos:
Marcelo quer promover Cavaco à primeira volta tentando manter uma imagem de comentador imparcial.
No PS parecem pretender evitar a humilhação de uma derrota de Soares com um número insignificante de votos ou será que no fundo, no fundo também eles querem uma vitória rápida de Cavaco ?
2005-12-17
Sol na eira e chuva no nabal
Foi o que colhi das notícias sobre o acordo financeiro alcançado na UE nesta madrugada.
A nós deram-nos muitos milhões, ainda mais milhões do que os da anterior proposta luxemburgueza.
Os novos Estados Membros também são bem contemplados.
A França mantém por mais algum tempo a sua PAC.
A Inglaterra fica com o seu cheque e perspectivas de o aumentar ainda mais, disse Blair.
Enfim, tudo feliz, não sei para que foi tanto barulho embora pressinta que alguém foi bem enganado.
A nós deram-nos muitos milhões, ainda mais milhões do que os da anterior proposta luxemburgueza.
Os novos Estados Membros também são bem contemplados.
A França mantém por mais algum tempo a sua PAC.
A Inglaterra fica com o seu cheque e perspectivas de o aumentar ainda mais, disse Blair.
Enfim, tudo feliz, não sei para que foi tanto barulho embora pressinta que alguém foi bem enganado.
2005-12-06
O « Debate »
Viram o debate ? A Alegre Cavaqueira como ouvi hoje referir na rádio, com muito humor mas pouco tino ? Porque, de facto, não foi cavaqueira, nem alegre.
Eu aguentei até ao intervalo, largos minutos portanto, posso mesmo dizer que vi praticamente tudo, só que não foi um debate, foi uma dupla entrevista, não simultânea mas alternada.
Parece que o modelo americano de debates entrou para ficar: O fundamental é o tempo, o que é importante e democrático é que ambos os candidatos falem o mesmo número de minutos e segundos. As emoções próprias de um debate, o “espírito” ou a “presença de espírito”, já não são valores a considerar, apenas a capacidade que cada um demonstra de dizer qualquer coisa, com um mínimo de sentido, em x minutos e y segundos, é preciso reduzir os debates a um concurso, a um “quiz show”.
Ah que saudades do: “olhe que não, olhe que não !”.
Eu aguentei até ao intervalo, largos minutos portanto, posso mesmo dizer que vi praticamente tudo, só que não foi um debate, foi uma dupla entrevista, não simultânea mas alternada.
Parece que o modelo americano de debates entrou para ficar: O fundamental é o tempo, o que é importante e democrático é que ambos os candidatos falem o mesmo número de minutos e segundos. As emoções próprias de um debate, o “espírito” ou a “presença de espírito”, já não são valores a considerar, apenas a capacidade que cada um demonstra de dizer qualquer coisa, com um mínimo de sentido, em x minutos e y segundos, é preciso reduzir os debates a um concurso, a um “quiz show”.
Ah que saudades do: “olhe que não, olhe que não !”.
2005-12-02
Portugal – peças soltas
Nevoeiro
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
Fernando Pessoa – in Mensagem-
2005-11-28
Este país não estaria melhor
Se Sócrates fosse apenas um venerável filósofo Grego ?
Se Cavaco não fosse mais que aquele excelente crustáceo açoreano semelhante à lagosta ?
Se Mário se limitasse à condição de canalizador em jogo de computador ?
Se Alegre fosse só o estado normal da nossa população ?
Se Jerónimo referisse exclusivamente um antigo e muito notável Chefe Índio ?
Se Louçã não se substantivasse e se limitasse à sua condição de adjectivo significando “ornado, enfeitado” ?
Se Partido não fosse mais do que quebrado ?
Se PS não significasse mais nada do que “post scriptum” ?
Eu acho que sim.
Se Cavaco não fosse mais que aquele excelente crustáceo açoreano semelhante à lagosta ?
Se Mário se limitasse à condição de canalizador em jogo de computador ?
Se Alegre fosse só o estado normal da nossa população ?
Se Jerónimo referisse exclusivamente um antigo e muito notável Chefe Índio ?
Se Louçã não se substantivasse e se limitasse à sua condição de adjectivo significando “ornado, enfeitado” ?
Se Partido não fosse mais do que quebrado ?
Se PS não significasse mais nada do que “post scriptum” ?
Eu acho que sim.
2005-11-27
Portugal
Ouço dizer que não sei que legionário ou historiador romano, referindo-se aos nossos avós lusitanos tê-los-á classificado como um povo que não se deixava governar nem se sabia governar sozinho
Eu confesso que esta observação, feita certamente com grande desprezo por nós e com o intuito de nos colocar ao nível das bestas, desperta em mim um imenso orgulho nacional.
O gajo topou-nos bem, o malandro do romano, só que apesar de tudo, cá continuamos há quase 900 anos, mesmo sem nos sabermos governar, o que é um facto indesmentível, e até contribuímos para esta abominável civilização global, muito mais do que a maioria dos povos deste mundo, mesmo os que mais partido tiram dela, o que também é inegável e é precisamente essa contradição que me fascina, essa capacidade de vivermos entre a miséria e a maior grandeza, ao mesmo tempo e igualmente bem.
Partilho com Agostinho da Silva uma certa ideia “messiânica” de Portugal, ou talvez não, a única coisa de que estou seguro é de que pertenço e me identifico com um país singular, único, diferente de todos os outros.
Para meu próprio proveito irei deixar aqui, de tempos a tempos, algumas peças para este “puzzle” que não está ainda perfeitamente elaborado na minha cabeça.
Eu confesso que esta observação, feita certamente com grande desprezo por nós e com o intuito de nos colocar ao nível das bestas, desperta em mim um imenso orgulho nacional.
O gajo topou-nos bem, o malandro do romano, só que apesar de tudo, cá continuamos há quase 900 anos, mesmo sem nos sabermos governar, o que é um facto indesmentível, e até contribuímos para esta abominável civilização global, muito mais do que a maioria dos povos deste mundo, mesmo os que mais partido tiram dela, o que também é inegável e é precisamente essa contradição que me fascina, essa capacidade de vivermos entre a miséria e a maior grandeza, ao mesmo tempo e igualmente bem.
Partilho com Agostinho da Silva uma certa ideia “messiânica” de Portugal, ou talvez não, a única coisa de que estou seguro é de que pertenço e me identifico com um país singular, único, diferente de todos os outros.
Para meu próprio proveito irei deixar aqui, de tempos a tempos, algumas peças para este “puzzle” que não está ainda perfeitamente elaborado na minha cabeça.
2005-11-24
Discurso esotérico
Eu, que escolhi viver na margem, vou dar hoje um mergulho mesmo no âmago do “main stream”, apenas porque tenho a coisa.
A água vai estar fria e é, naturalmente, pouco profunda.
A água vai estar fria e é, naturalmente, pouco profunda.
2005-11-20
A greve dos Professores
Não foi no Uíge em Angola, foi em Carmona, no Estado de Angola e se bem que geograficamente não haja diferenças entre estes dois locais elas existem e são necessárias para precisar o contexto.
Como de costume, passava as terdes de fim de semana no aeródromo, confraternizando com os pára-quedistas amadores e beberricando cervejas no bar do aeródromo.
Naquele dia, enquanto conversava numa mesa, um rapaz lavava energicamente os largos painéis de vidro que separavam o bar da esplanada.
Terminada a tarefa, surgiu a patroa para apreciar o trabalho feito e, ainda que todos nós víssemos vidros limpos, resplandecentes, ela apenas via grandes manchas de sujidade, não sei bem se no vidro se na sua cabeça: “este trabalho está uma porcaria”, disse, “não mereces o que comestes, hoje não te pago”. O rapaz calou-se, pesou o semblante mas resignou-se e eu percebi como é tão natural quebrar contratos quando se tem toda a força e o poder na mão.
Aliás esta prepotência é velhíssima ainda mesmo antes de Labão, pai de Raquel, serrana bela, e persiste ainda com naturalidade quando Sócrates diz aos funcionários públicos “O vosso trabalho é uma porcaria, estão a arruinar o Estado, têm de trabalhar mais 5 anos antes de se reformarem”. Nós, também não gostamos mas calamo-nos, para quê refilar se são eles que têm toda a força e o poder.
Foi assim interessado que vi os professores passarem à acção, julgando eu que para combater a prepotente alteração de contrato decidida pelo Governo, mas não, segundo o que fui ouvindo, a questão principal não era essa, antes pelo contrário, o grande motivo de descontentamento era uma simples medida racional do Governo: que professores disponíveis na escola substituam os seus colegas que faltem ainda que noutra matéria ou com outra actividade.
Os Professores parece que têm uma concepção da educação aos quadradinhos, no horário de inglês não se pode aprender matemática ou filosofia, ou vice-versa, só a matéria que estava previamente definida, parece que o cérebro dos jovens não capta a essência da “química” nas horas em que se preparou previamente para os segredos da biologia, prevista no horário.
Afinal é isto que apoquenta os professores, ora que porra !
Como de costume, passava as terdes de fim de semana no aeródromo, confraternizando com os pára-quedistas amadores e beberricando cervejas no bar do aeródromo.
Naquele dia, enquanto conversava numa mesa, um rapaz lavava energicamente os largos painéis de vidro que separavam o bar da esplanada.
Terminada a tarefa, surgiu a patroa para apreciar o trabalho feito e, ainda que todos nós víssemos vidros limpos, resplandecentes, ela apenas via grandes manchas de sujidade, não sei bem se no vidro se na sua cabeça: “este trabalho está uma porcaria”, disse, “não mereces o que comestes, hoje não te pago”. O rapaz calou-se, pesou o semblante mas resignou-se e eu percebi como é tão natural quebrar contratos quando se tem toda a força e o poder na mão.
Aliás esta prepotência é velhíssima ainda mesmo antes de Labão, pai de Raquel, serrana bela, e persiste ainda com naturalidade quando Sócrates diz aos funcionários públicos “O vosso trabalho é uma porcaria, estão a arruinar o Estado, têm de trabalhar mais 5 anos antes de se reformarem”. Nós, também não gostamos mas calamo-nos, para quê refilar se são eles que têm toda a força e o poder.
Foi assim interessado que vi os professores passarem à acção, julgando eu que para combater a prepotente alteração de contrato decidida pelo Governo, mas não, segundo o que fui ouvindo, a questão principal não era essa, antes pelo contrário, o grande motivo de descontentamento era uma simples medida racional do Governo: que professores disponíveis na escola substituam os seus colegas que faltem ainda que noutra matéria ou com outra actividade.
Os Professores parece que têm uma concepção da educação aos quadradinhos, no horário de inglês não se pode aprender matemática ou filosofia, ou vice-versa, só a matéria que estava previamente definida, parece que o cérebro dos jovens não capta a essência da “química” nas horas em que se preparou previamente para os segredos da biologia, prevista no horário.
Afinal é isto que apoquenta os professores, ora que porra !
2005-11-13
Um facto indesmentível
Apesar de tudo, Nossa Senhora de Fátima é muito mais mediática e atrai muito mais gente do que a Madona.
Subscrevo
Penso que este texto de Miguel Sousa Tavares merece ser lido, mesmo por quem não compra o Público.
Aqui fica:
Viva Campo de Ourique!
Miguel Sousa Tavares
Tarde na manhã de sábado vou ao mercado de Campo de Ourique, um quadrado ocupando todo um quarteirão e com entradas por cada um dos lados dos pontos cardeais. Cheira a fruta e a legumes, ainda orvalhados da terra, cheira a cebolas, a coentros, a maçãs e a laranjas: nenhum supermercado cheira assim. Uma peça de fruta nunca é igual à outra, há que escolhê-las uma a uma, porque algumas têm bicho e outras não, algumas estão maduras de mais e outras ainda verdes. Saboreio este prazer de escolher peça a peça a fruta e os legumes, as saladas e os temperos, sem ter de levar, e sem poder escolher, embalagens já prontas de fruta asséptica e normalizada, legumes de sabor sempre igual trazidos de Espanha em camiões TIR pelas auto-estradas que construímos para lhes facilitar a vida. Aqui, até há pêras de Alcobaça, grandes e castanhas, em que se tem de pegar delicadamente para que o seu sumo não escorra pelas mãos, há tangerinas e laranjas que não vêm de Israel já com o selo colado na casca, mas dos pomares que ainda restam à volta de Lisboa, há uvas tardias, mas moscatel ou D. Maria genuínas, e não aquelas uvas monstruosas e que não sabem rigorosamente a nada, que vêm da África do Sul e que encontramos inevitavelmente, como sinal de boas-vindas, nos quartos de hotel em qualquer paragem do mundo. E há frutos secos a granel e a peso: figos, passas, castanhas, ameixas, amendoins, pinhões, nozes. E azeitonas verdadeiras e tremoços, meu Deus!Depois vou até às bancas de mármore das peixeiras, onde o peixe vindo de madrugada de Sesimbra ou de Peniche brilha com uma humidade prateada, misturada com uma quase imperceptível camada de gordura ainda à flor da pele, sinal iniludível da frescura do dia. O sol da manhã de Outono entra disfarçado pelas janelas altas do mercado e reflecte-se nos olhos dos peixes, que repousam nas bancas como se ainda estivessem vivos. E eis o peixe mais fantástico do mundo, esse verdadeiro luxo que ainda nos resta: pregados, linguados, imperadores, salmonetes, besugos, carapau francês, peixe-galo, garoupa, cherne, lulas e choquinhos com tinta: tenho pena do resto do mundo dito civilizado, onde nem sequer se conhecem os peixes pelo nome!Um bairro para viver tem de começar assim: com um mercado que é uma festa para os sentidos, um regresso aos sabores e aos cheiros que nos educaram. Campo de Ourique começa assim e continua depois, com tudo aquilo que faz deste bairro quase um milagre de espaço urbano perfeito: ruas largas, onde se passeiam casais, carrinhos de crianças e empregados no intervalo do almoço; comércio tradicional e personalizado, com algumas lojas ainda conhecidas pelo nome dos donos - a florista, o cabeleireiro, a loja de comida feita, o electricista, o oculista, a loja de ferragens, a papelaria-tabacaria, a casa das fechaduras, a loja de surf; e os cafés, com esplanadas conquistadas ao passeio e ao Millenium-BCP, com os seus quiosques de jornais cujos donos nos conhecem já tão bem que os dias nem sequer começariam sem o bom-dia deles. Campo de Ourique tem tudo isso, mais o jardim central, os seus pequenos restaurantes de culto, os seus excêntricos ou loucos já familiares a todos. Outras coisas felizmente não tem e muito do prazer de andar nestas ruas deve-se a essas ausências: prédios em altura e de fachadas preconceituosas, porteiros e seguranças de prédios, polícias de trânsito a tentar tornar a vida impossível. Aqui funciona como que uma auto-regulação da via pública, com um sentido natural de comunidade, em que ninguém se mete com os outros e toda a autoridade se torna dispicienda graças ao respeito mútuo pela liberdade de cada um. O melhor exemplo deste espírito de liberdade e tolerância mútua que aqui presenciei é um exemplo muito politicamente incorrecto, ocorrido manhã cedo, no café onde sempre tomo o pequeno-almoço. Uma senhora, cliente habitual, pediu um café e acendeu um cigarro. Nessa altura, um sujeito que eu nunca ali tinha visto e nunca voltei a ver, empertigou-se todo e, rico de novos conhecimentos adquiridos, interpelou-a: "Minha senhora, o cheiro do seu cigarro está-me a incomodar!" E ela, sem sequer se voltar, soltou de lado, mas alto e bom som: "Olhe, também o seu cheiro me está a incomodar, mas eu não lhe ia dizer nada." E o intruso saiu, de rabo entre as pernas e perante os sorrisos cúmplices dos habituées (oh, eu sei, um bando de selvagens!).Pensando na explosão de ódio e de revolta que agora se vive à roda das cidades francesas, naquelas comunidades inteiras de populações imigrantes que não se sentem ligadas cultural e afectivamente aos locais onde vivem, que vêem o bairro como uma prisão e a rua como um terreno de confronto, dou-me conta até que ponto Campo de Ourique (não sei se por gestação espontânea, se porque alguém planeou e previu bem as coisas) é um bairro modelar, em termos de integração social interclassista e intergeracional, de justo equilíbrio entre comércio, serviços e habitação, entre espaços públicos e privados. E, afinal, este tão raro exemplo de harmonia e qualidade de vida urbana não precisa de nenhuma grande construção de referência, nenhuma urbanização de encher o olho, nenhum centro comercial (antes pelo contrário, o segredo é não o ter), nenhuma piscina municipal nem pavilhão gimnodesportivo, nenhuma rotunda com canteiros e estátuas pseudomodernas, enfim, nada que encha o olho e que mostre dinheiros públicos ou fortunas privadas. Apenas bom senso, sentido de equilíbrio e proporção humana. Depois, as pessoas fazem o resto: andam na rua sem pressa nem atropelos, param para conversar à porta das lojas, saúdam-se nas esquinas, passeiam as crianças, os velhos ou os cães, namoram ou lêem o jornal nas esplanadas, almoçam a horas certas na sua mesa de sempre dos seus pequenos restaurantes, numa palavra, vivem a cidade, não se limitam a sofrê-la ou a passar por ela. Certamente que aqui também há gente triste, sozinha, com vidas terríveis. Mas, pelo menos, a rua não os agride: conforta-os, distrai-os e, acima de tudo, dá-lhes um sentido de pertença a uma comunidade - que hoje é coisa tão rara e tão preciosa numa cidade, como o são o peixe, a fruta e os legumes do mercado de Campo de Ourique.Sei que este texto pode parecer um bocado absurdo, no meio desta eterna agitação em que vivemos. Mas trata-se de uma dívida de gratidão para com o "meu" bairro, que eu precisava de saldar um dia. E também, já agora e aproveitando a oportunidade, trata-se igualmente de um apelo que faço a quem manda e a quem pode: por favor, não estraguem Campo de Ourique! Não é preciso muito: basta não fazerem nada. Jornalista
Aqui fica:
Viva Campo de Ourique!
Miguel Sousa Tavares
Tarde na manhã de sábado vou ao mercado de Campo de Ourique, um quadrado ocupando todo um quarteirão e com entradas por cada um dos lados dos pontos cardeais. Cheira a fruta e a legumes, ainda orvalhados da terra, cheira a cebolas, a coentros, a maçãs e a laranjas: nenhum supermercado cheira assim. Uma peça de fruta nunca é igual à outra, há que escolhê-las uma a uma, porque algumas têm bicho e outras não, algumas estão maduras de mais e outras ainda verdes. Saboreio este prazer de escolher peça a peça a fruta e os legumes, as saladas e os temperos, sem ter de levar, e sem poder escolher, embalagens já prontas de fruta asséptica e normalizada, legumes de sabor sempre igual trazidos de Espanha em camiões TIR pelas auto-estradas que construímos para lhes facilitar a vida. Aqui, até há pêras de Alcobaça, grandes e castanhas, em que se tem de pegar delicadamente para que o seu sumo não escorra pelas mãos, há tangerinas e laranjas que não vêm de Israel já com o selo colado na casca, mas dos pomares que ainda restam à volta de Lisboa, há uvas tardias, mas moscatel ou D. Maria genuínas, e não aquelas uvas monstruosas e que não sabem rigorosamente a nada, que vêm da África do Sul e que encontramos inevitavelmente, como sinal de boas-vindas, nos quartos de hotel em qualquer paragem do mundo. E há frutos secos a granel e a peso: figos, passas, castanhas, ameixas, amendoins, pinhões, nozes. E azeitonas verdadeiras e tremoços, meu Deus!Depois vou até às bancas de mármore das peixeiras, onde o peixe vindo de madrugada de Sesimbra ou de Peniche brilha com uma humidade prateada, misturada com uma quase imperceptível camada de gordura ainda à flor da pele, sinal iniludível da frescura do dia. O sol da manhã de Outono entra disfarçado pelas janelas altas do mercado e reflecte-se nos olhos dos peixes, que repousam nas bancas como se ainda estivessem vivos. E eis o peixe mais fantástico do mundo, esse verdadeiro luxo que ainda nos resta: pregados, linguados, imperadores, salmonetes, besugos, carapau francês, peixe-galo, garoupa, cherne, lulas e choquinhos com tinta: tenho pena do resto do mundo dito civilizado, onde nem sequer se conhecem os peixes pelo nome!Um bairro para viver tem de começar assim: com um mercado que é uma festa para os sentidos, um regresso aos sabores e aos cheiros que nos educaram. Campo de Ourique começa assim e continua depois, com tudo aquilo que faz deste bairro quase um milagre de espaço urbano perfeito: ruas largas, onde se passeiam casais, carrinhos de crianças e empregados no intervalo do almoço; comércio tradicional e personalizado, com algumas lojas ainda conhecidas pelo nome dos donos - a florista, o cabeleireiro, a loja de comida feita, o electricista, o oculista, a loja de ferragens, a papelaria-tabacaria, a casa das fechaduras, a loja de surf; e os cafés, com esplanadas conquistadas ao passeio e ao Millenium-BCP, com os seus quiosques de jornais cujos donos nos conhecem já tão bem que os dias nem sequer começariam sem o bom-dia deles. Campo de Ourique tem tudo isso, mais o jardim central, os seus pequenos restaurantes de culto, os seus excêntricos ou loucos já familiares a todos. Outras coisas felizmente não tem e muito do prazer de andar nestas ruas deve-se a essas ausências: prédios em altura e de fachadas preconceituosas, porteiros e seguranças de prédios, polícias de trânsito a tentar tornar a vida impossível. Aqui funciona como que uma auto-regulação da via pública, com um sentido natural de comunidade, em que ninguém se mete com os outros e toda a autoridade se torna dispicienda graças ao respeito mútuo pela liberdade de cada um. O melhor exemplo deste espírito de liberdade e tolerância mútua que aqui presenciei é um exemplo muito politicamente incorrecto, ocorrido manhã cedo, no café onde sempre tomo o pequeno-almoço. Uma senhora, cliente habitual, pediu um café e acendeu um cigarro. Nessa altura, um sujeito que eu nunca ali tinha visto e nunca voltei a ver, empertigou-se todo e, rico de novos conhecimentos adquiridos, interpelou-a: "Minha senhora, o cheiro do seu cigarro está-me a incomodar!" E ela, sem sequer se voltar, soltou de lado, mas alto e bom som: "Olhe, também o seu cheiro me está a incomodar, mas eu não lhe ia dizer nada." E o intruso saiu, de rabo entre as pernas e perante os sorrisos cúmplices dos habituées (oh, eu sei, um bando de selvagens!).Pensando na explosão de ódio e de revolta que agora se vive à roda das cidades francesas, naquelas comunidades inteiras de populações imigrantes que não se sentem ligadas cultural e afectivamente aos locais onde vivem, que vêem o bairro como uma prisão e a rua como um terreno de confronto, dou-me conta até que ponto Campo de Ourique (não sei se por gestação espontânea, se porque alguém planeou e previu bem as coisas) é um bairro modelar, em termos de integração social interclassista e intergeracional, de justo equilíbrio entre comércio, serviços e habitação, entre espaços públicos e privados. E, afinal, este tão raro exemplo de harmonia e qualidade de vida urbana não precisa de nenhuma grande construção de referência, nenhuma urbanização de encher o olho, nenhum centro comercial (antes pelo contrário, o segredo é não o ter), nenhuma piscina municipal nem pavilhão gimnodesportivo, nenhuma rotunda com canteiros e estátuas pseudomodernas, enfim, nada que encha o olho e que mostre dinheiros públicos ou fortunas privadas. Apenas bom senso, sentido de equilíbrio e proporção humana. Depois, as pessoas fazem o resto: andam na rua sem pressa nem atropelos, param para conversar à porta das lojas, saúdam-se nas esquinas, passeiam as crianças, os velhos ou os cães, namoram ou lêem o jornal nas esplanadas, almoçam a horas certas na sua mesa de sempre dos seus pequenos restaurantes, numa palavra, vivem a cidade, não se limitam a sofrê-la ou a passar por ela. Certamente que aqui também há gente triste, sozinha, com vidas terríveis. Mas, pelo menos, a rua não os agride: conforta-os, distrai-os e, acima de tudo, dá-lhes um sentido de pertença a uma comunidade - que hoje é coisa tão rara e tão preciosa numa cidade, como o são o peixe, a fruta e os legumes do mercado de Campo de Ourique.Sei que este texto pode parecer um bocado absurdo, no meio desta eterna agitação em que vivemos. Mas trata-se de uma dívida de gratidão para com o "meu" bairro, que eu precisava de saldar um dia. E também, já agora e aproveitando a oportunidade, trata-se igualmente de um apelo que faço a quem manda e a quem pode: por favor, não estraguem Campo de Ourique! Não é preciso muito: basta não fazerem nada. Jornalista
2005-11-08
Óbidos
Fez uma aposta certeira numa das drogas legais, ao escolher o chocolate como base da sua estratégia de “marketing” territorial.
O festival do chocolate de Óbidos tornou-se já um acontecimento nacional que atrai àquela Vila, anualmente, milhares de visitantes.
Este ano decidiu ainda aliar o chocolate ao cinema, propondo-se apresentar várias figuras do mundo cinematográfico feitas em chocolate, branco ou castanho conforme o mais apropriado.
Um dos atractivos previstos será o de Marilin Monroe totalmente construída em chocolate.
Um só senão, parece que, mesmo assim, a organização não permite que satisfaçamos uma velha fantasia da minha juventude:
Nem assim podemos comer a Marilin Monroe ! Que pena !
O festival do chocolate de Óbidos tornou-se já um acontecimento nacional que atrai àquela Vila, anualmente, milhares de visitantes.
Este ano decidiu ainda aliar o chocolate ao cinema, propondo-se apresentar várias figuras do mundo cinematográfico feitas em chocolate, branco ou castanho conforme o mais apropriado.
Um dos atractivos previstos será o de Marilin Monroe totalmente construída em chocolate.
Um só senão, parece que, mesmo assim, a organização não permite que satisfaçamos uma velha fantasia da minha juventude:
Nem assim podemos comer a Marilin Monroe ! Que pena !
2005-11-06
França
Tenho para mim que o caminho que o mundo trilha no início deste século XXI, será tudo menos sustentável.
Não obstante nós, que escrevemos e lemos blogues, podermos viver nalgum conforto, todos os dias nos vão entrando ao jantar pela televisão, alguns “fantasmas anónimos” tentando saltar os muros de Melilha, manifestando-se à frente de uma fábrica que fecha, chorando convulsivamente, tendo nos braços um filho morto por um mundo absurdo.
Esta é apenas uma minoria mediática do imenso exército de “escumalha” que esta civilização segrega.
É certo que tememos já o terrorismo anónimo e artesanal que nos tem apoquentado e, os mais pessimistas, vão já receando que esse terrorismo ultrapasse a sua fase artesanal e entre na era nuclear ou da guerra biológica, acabando definitivamente com a nossa paz relativa.
A insustentabilidade desta civilização parece-me transparente como a água, apenas me espanta que a reacção se tenha limitado a grupos mais ou menos sofisticados, meio inseridos no sistema, como a chamada “Al Caida”.
Certo dia, pude ver na tv uma interessante reportagem sobre jovens delinquentes que vandalizavam os comboios suburbanos de Paris:
Dizia um jovem: “estou desempregado, quase toda a minha família também está, onde moro não há empregos, para vir para o centro da cidade tenho que vir de comboio, como não tenho dinheiro para o bilhete o que quer que eu faça ?”
Apesar da reportagem mostrar as fugas aos revisores, os assaltos a cidadão pacatos para roubar uns cobres, e todo o antipático comportamento desses jovens, não pude deixar de pensar que o rapaz tinha razão.
Tão simples como isto: Onde está a saída ? Que solução tem esta civilização global para estas situações ?
Um dia isto tem de rebentar, pensei.
E rebentou, em França, a revolta dessa “escumalha” que quer deixar de o ser.
Penso que o que se passa agora em França só poderá repetir-se noutros lugares e aumentar de intensidade.
O que será quando toda essa gente ouvir a canção heróica de Lopes Graça e acordar ?
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
José Gomes Ferreira
Não obstante nós, que escrevemos e lemos blogues, podermos viver nalgum conforto, todos os dias nos vão entrando ao jantar pela televisão, alguns “fantasmas anónimos” tentando saltar os muros de Melilha, manifestando-se à frente de uma fábrica que fecha, chorando convulsivamente, tendo nos braços um filho morto por um mundo absurdo.
Esta é apenas uma minoria mediática do imenso exército de “escumalha” que esta civilização segrega.
É certo que tememos já o terrorismo anónimo e artesanal que nos tem apoquentado e, os mais pessimistas, vão já receando que esse terrorismo ultrapasse a sua fase artesanal e entre na era nuclear ou da guerra biológica, acabando definitivamente com a nossa paz relativa.
A insustentabilidade desta civilização parece-me transparente como a água, apenas me espanta que a reacção se tenha limitado a grupos mais ou menos sofisticados, meio inseridos no sistema, como a chamada “Al Caida”.
Certo dia, pude ver na tv uma interessante reportagem sobre jovens delinquentes que vandalizavam os comboios suburbanos de Paris:
Dizia um jovem: “estou desempregado, quase toda a minha família também está, onde moro não há empregos, para vir para o centro da cidade tenho que vir de comboio, como não tenho dinheiro para o bilhete o que quer que eu faça ?”
Apesar da reportagem mostrar as fugas aos revisores, os assaltos a cidadão pacatos para roubar uns cobres, e todo o antipático comportamento desses jovens, não pude deixar de pensar que o rapaz tinha razão.
Tão simples como isto: Onde está a saída ? Que solução tem esta civilização global para estas situações ?
Um dia isto tem de rebentar, pensei.
E rebentou, em França, a revolta dessa “escumalha” que quer deixar de o ser.
Penso que o que se passa agora em França só poderá repetir-se noutros lugares e aumentar de intensidade.
O que será quando toda essa gente ouvir a canção heróica de Lopes Graça e acordar ?
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
José Gomes Ferreira
2005-11-04
Bem me parecia !
Eu já desconfiava que aquele argumento, mil vezes repetido, por comentadores e políticos e até, sobretudo, por comentadores-políticos, segundo o qual o aumento das remunerações de gestores públicos e políticos é fundamental para atrair os mais qualificados, não é perfeitamente linear.
A minha desconfiança fundamenta-se em duas ordens de razão:
Em primeiro lugar a simples observação: vemos agora que as remunerações de políticos e gestores públicos têm aumentado muito significativamente, quer de forma directa quer indirecta, sem que se descortine a tal qualidade desejada, antes pelo contrário, (a má moeda tem, de facto, expulsado a boa).
Em segundo lugar o mero raciocínio lógico: A partir de certo nível o acréscimo de remuneração atrai, mais do que a qualidade, a mais sórdida ambição.
Lembro-me aliás de um interessante modelo formal apresentado pelo saudoso Professor Alfredo de Sousa que correlacionava os níveis de remuneração com os da produtividade, concluindo que essa correlação era positiva até certo limite (o que permite uma vida com um quotidiano confortável) tornando-se negativa a partir desse ponto.
Ou seja: o excesso de rendimento só parece ser útil se puder ser usufruído e, para isso, exige mais lazer (se não quando é que eu posso passear no meu iate ?) e consequentemente com menor dedicação ao trabalho que confere a dita remuneração.
Se esse excesso o permitir até poderei pagar a alguém para fazer o trabalho que eu deixo de fazer, remunerando-o ao nível que, no fundo, deveria ser o meu.
Por tudo isto quando ouço esse argumento de que os políticos e gestores públicos estão mal pagos, soa-me sempre a “canção do bandido” para levar discretamente a água ao seu moinho.
Mas isto sou eu que penso assim porque a generalidade dos media e da opinião pública tem tido este argumento como bom.
Foi assim com espanto que ouvi hoje o Sr. Ministro Alberto Costa dizer esta coisa espantosa:
- As defesas oficiosas que o Estado paga, a advogados, para assegurarem a defesa de cidadãos mais pobres têm sido muito deficientes, logo:
- Vamos reduzir a metade a dotação para o efeito.
Ao contrário do “coro” habitual o raciocínio de Alberto Costa é:
- Pague-se menos que tudo vai correr melhor !
E a verdade é que, desta vez. se arrisca a ter razão.
A minha desconfiança fundamenta-se em duas ordens de razão:
Em primeiro lugar a simples observação: vemos agora que as remunerações de políticos e gestores públicos têm aumentado muito significativamente, quer de forma directa quer indirecta, sem que se descortine a tal qualidade desejada, antes pelo contrário, (a má moeda tem, de facto, expulsado a boa).
Em segundo lugar o mero raciocínio lógico: A partir de certo nível o acréscimo de remuneração atrai, mais do que a qualidade, a mais sórdida ambição.
Lembro-me aliás de um interessante modelo formal apresentado pelo saudoso Professor Alfredo de Sousa que correlacionava os níveis de remuneração com os da produtividade, concluindo que essa correlação era positiva até certo limite (o que permite uma vida com um quotidiano confortável) tornando-se negativa a partir desse ponto.
Ou seja: o excesso de rendimento só parece ser útil se puder ser usufruído e, para isso, exige mais lazer (se não quando é que eu posso passear no meu iate ?) e consequentemente com menor dedicação ao trabalho que confere a dita remuneração.
Se esse excesso o permitir até poderei pagar a alguém para fazer o trabalho que eu deixo de fazer, remunerando-o ao nível que, no fundo, deveria ser o meu.
Por tudo isto quando ouço esse argumento de que os políticos e gestores públicos estão mal pagos, soa-me sempre a “canção do bandido” para levar discretamente a água ao seu moinho.
Mas isto sou eu que penso assim porque a generalidade dos media e da opinião pública tem tido este argumento como bom.
Foi assim com espanto que ouvi hoje o Sr. Ministro Alberto Costa dizer esta coisa espantosa:
- As defesas oficiosas que o Estado paga, a advogados, para assegurarem a defesa de cidadãos mais pobres têm sido muito deficientes, logo:
- Vamos reduzir a metade a dotação para o efeito.
Ao contrário do “coro” habitual o raciocínio de Alberto Costa é:
- Pague-se menos que tudo vai correr melhor !
E a verdade é que, desta vez. se arrisca a ter razão.
2005-11-03
Tempos estranhos !
People are crazy and times are strange
I am locked in time, I am out of range
I used to care but ... things have changed.
Bob Dylan
I am locked in time, I am out of range
I used to care but ... things have changed.
Bob Dylan
2005-11-01
Quotidiano
Na frente ocidental nada de novo
O povo continua a resistir
Sem ninguém que lhe valha.
Segue e trabalha
Até cair
Miguel Torga
O povo continua a resistir
Sem ninguém que lhe valha.
Segue e trabalha
Até cair
Miguel Torga
2005-10-29
Pontos de vista
Imaginemos que, amanhã, logo de madrugada, esse tema permanentemente latente no nosso imaginário, que gera filmes e romances de grande sucesso mediático se transforma de facto em realidade.
Somos invadidos por extraterrestres !
É fácil imaginar como o pânico nos invadiria, como faríamos tudo para ripostar e afastar essa ameaça e como lamentaríamos que não fosse, desta vez, mais um filme, e que Bruce Willis não estivesse lá para nos salvar milagrosamente.
Todavia, racionalmente, podemos perguntar; “salvar de quê ?”.
Esses invasores com tecnologia suficientemente evoluída para cá chegar antes que a nossa tecnologia suspeitasse sequer da sua existência, não auguraria com certeza um futuro melhor ?
Os excessos que provavelmente cometeriam os invasores não seriam justificados pelo nosso primitivismo relativo e a nossa incapacidade para falar na sua língua superior ?
Não desprezaríamos os “traidores” que tendo uma visão mais utilitária do mundo se apressariam em tentar passar para o inimigo, obtendo de imediato alguns privilégios invejáveis ?
Provavelmente, alguns “intelectuais marginais” dessa cultura de invasores lutariam contra os excessos cometidos pelos seus pares, falando de alguns valores que os terráqueos também tinham e diriam que alguns mesmo estão a fazer um grande esforço de adaptação e já se integram minimamente na nossa cultura, os tais, para nós, “traidores”
Foi esta a impressão que colhi, ao ouvir a entrevista ao jornalista da SIC que acompanhou a luta dos Índios “Ianomanis”, parece que é assim que se transcreve, da Amazónia, em luta contra a invasão da nossa civilização “superior” e global.
“Estes ainda não falam português, mas têm valores tradicionais e comunitários de grande interesse, embora as mâes matem os filhos que não têm hipótese de sobreviver mas a missão católica já está a actuar contra estes aspectos, o problema são os fazendeiros, bla, bla, bla”
É este discurso inocentemente hipócrita que eu já não posso ouvir, para mim é tudo mais simples:
Deixem os índios “Ianomanis”, viver em paz, sem terem de aprender português à força ou fazer seja o que for não queiram.
A terra é ocupada por eles há séculos e mesmo segundo as nossas normas de justiça, têm direito a continuar aí na sua “sacrossanta propriedade”, “quietos no seu galho”. Ponto. Mais argumentos para quê ?
Somos invadidos por extraterrestres !
É fácil imaginar como o pânico nos invadiria, como faríamos tudo para ripostar e afastar essa ameaça e como lamentaríamos que não fosse, desta vez, mais um filme, e que Bruce Willis não estivesse lá para nos salvar milagrosamente.
Todavia, racionalmente, podemos perguntar; “salvar de quê ?”.
Esses invasores com tecnologia suficientemente evoluída para cá chegar antes que a nossa tecnologia suspeitasse sequer da sua existência, não auguraria com certeza um futuro melhor ?
Os excessos que provavelmente cometeriam os invasores não seriam justificados pelo nosso primitivismo relativo e a nossa incapacidade para falar na sua língua superior ?
Não desprezaríamos os “traidores” que tendo uma visão mais utilitária do mundo se apressariam em tentar passar para o inimigo, obtendo de imediato alguns privilégios invejáveis ?
Provavelmente, alguns “intelectuais marginais” dessa cultura de invasores lutariam contra os excessos cometidos pelos seus pares, falando de alguns valores que os terráqueos também tinham e diriam que alguns mesmo estão a fazer um grande esforço de adaptação e já se integram minimamente na nossa cultura, os tais, para nós, “traidores”
Foi esta a impressão que colhi, ao ouvir a entrevista ao jornalista da SIC que acompanhou a luta dos Índios “Ianomanis”, parece que é assim que se transcreve, da Amazónia, em luta contra a invasão da nossa civilização “superior” e global.
“Estes ainda não falam português, mas têm valores tradicionais e comunitários de grande interesse, embora as mâes matem os filhos que não têm hipótese de sobreviver mas a missão católica já está a actuar contra estes aspectos, o problema são os fazendeiros, bla, bla, bla”
É este discurso inocentemente hipócrita que eu já não posso ouvir, para mim é tudo mais simples:
Deixem os índios “Ianomanis”, viver em paz, sem terem de aprender português à força ou fazer seja o que for não queiram.
A terra é ocupada por eles há séculos e mesmo segundo as nossas normas de justiça, têm direito a continuar aí na sua “sacrossanta propriedade”, “quietos no seu galho”. Ponto. Mais argumentos para quê ?
2005-10-26
O regresso do rebanho – Epílogo
Obras ema casa obrigaram-me a passar uns dias no Alto Lumiar, local que se chamava Musgueira até nascer uma nova e moderna urbanização que progressivamente se vai enchendo de jovens casais da média burguesia lisboeta.
É, nesta forma, um bairro novo da cidade, que já tem “sites” na internete, e blogues como este, entre outros, mas ao que falta ainda “alma”, procura ainda o seu “spiritus loci”.
Como sempre, há duas forças dominantes a moldar esse espírito:
Uma, dessas forças, nasce daquelas mentes modernas ou pós-modernas que conceberam o bairro e ainda o dominam de certa forma.
Visa a “ordem” e a homogeneização.
Nada de consentir rasgos de criatividade individual, que estraguem a “estética” do conjunto.
Estendais de roupa, nem pensar, “era só o que faltava sermos confrontados com esse símbolo do gosto individual como umas cuecas às bolinhas ondulando orgulhosamente ao vento como uma bandeira a declarar: aqui moro Eu”.
Não o fizeram ainda abertamente mas gostariam de regulamentar, os trajes apropriados para frequentar os átrios das casas, e o tempo concedido a brincadeiras das crianças, nos espaços públicos.
É um condomínio aberto mas tem horror a “estranhos”, todos os que não são dos “nossos”. Gostariam de fechar tudo à chave. Eu, para me mover no condomínio preciso dumas 8 ou 9 chaves e faltam-me algumas...
Na garagem colectiva está escrito junto à porta de saída, que, assim que sair, devo bloquear o acesso até que o portão se feche novamente, não vá entrar algum “estranho”, sem se lembrarem de que assim nunca deixaremos todos de ser estranhos uns para os outros.
Outras forças porém, de alguns moradores que querem apenas viver em paz e harmonia com os seus semelhantes, vão lentamente procurando impor novas regras que humanizem o bairro.
Tenho esperança que dentro de alguns anos se possa já viver ali alegremente, agora ainda não e foi assim que certo dia, ao fim da tarde, quando me dirigia ao meu carro, estacionado no interior da garagem, para sair, vi com espanto, ao longe, os portões permanentemente escancarados.
O que se passaria ali, seria uma revolução ou simplesmente uma avaria no mecanismo de abertura e fecho do portão ?
Percorri o caminho até à saída até que comecei a distinguir uma fila de carros que, um a um, calmamente, recolhia à garagem. À porta, dirigindo este fluxo, estava um agente da segurança privada que vela pelo condomínio, cumprimentado todos e detendo-se, de vez em quando, a trocar breves palavras com um ou outro.
Todas aquelas imagens de rebanhos que descrevi atrás, assaltaram o meu espírito:
Tudo aquilo me pareceu o regresso de um rebanho, neste caso, rebanho de quadros técnicos ou administrativos que regressavam ao “redil” após um dia de “pastagem” em diversas empresas e repartições. Até tinham o seu “pastor”, o segurança, a quem me pareceu ouvir murmurar: “anda “bonita”, vai “malhada”, como está a tua mamite “lanzuda” ?”.
Aprendi depois que tudo isto se repete diariamente.
Vários anos depois pude ver, de novo, em Lisboa, um “regresso do rebanho”, só que deste eu também faço parte, por vezes.
É, nesta forma, um bairro novo da cidade, que já tem “sites” na internete, e blogues como este, entre outros, mas ao que falta ainda “alma”, procura ainda o seu “spiritus loci”.
Como sempre, há duas forças dominantes a moldar esse espírito:
Uma, dessas forças, nasce daquelas mentes modernas ou pós-modernas que conceberam o bairro e ainda o dominam de certa forma.
Visa a “ordem” e a homogeneização.
Nada de consentir rasgos de criatividade individual, que estraguem a “estética” do conjunto.
Estendais de roupa, nem pensar, “era só o que faltava sermos confrontados com esse símbolo do gosto individual como umas cuecas às bolinhas ondulando orgulhosamente ao vento como uma bandeira a declarar: aqui moro Eu”.
Não o fizeram ainda abertamente mas gostariam de regulamentar, os trajes apropriados para frequentar os átrios das casas, e o tempo concedido a brincadeiras das crianças, nos espaços públicos.
É um condomínio aberto mas tem horror a “estranhos”, todos os que não são dos “nossos”. Gostariam de fechar tudo à chave. Eu, para me mover no condomínio preciso dumas 8 ou 9 chaves e faltam-me algumas...
Na garagem colectiva está escrito junto à porta de saída, que, assim que sair, devo bloquear o acesso até que o portão se feche novamente, não vá entrar algum “estranho”, sem se lembrarem de que assim nunca deixaremos todos de ser estranhos uns para os outros.
Outras forças porém, de alguns moradores que querem apenas viver em paz e harmonia com os seus semelhantes, vão lentamente procurando impor novas regras que humanizem o bairro.
Tenho esperança que dentro de alguns anos se possa já viver ali alegremente, agora ainda não e foi assim que certo dia, ao fim da tarde, quando me dirigia ao meu carro, estacionado no interior da garagem, para sair, vi com espanto, ao longe, os portões permanentemente escancarados.
O que se passaria ali, seria uma revolução ou simplesmente uma avaria no mecanismo de abertura e fecho do portão ?
Percorri o caminho até à saída até que comecei a distinguir uma fila de carros que, um a um, calmamente, recolhia à garagem. À porta, dirigindo este fluxo, estava um agente da segurança privada que vela pelo condomínio, cumprimentado todos e detendo-se, de vez em quando, a trocar breves palavras com um ou outro.
Todas aquelas imagens de rebanhos que descrevi atrás, assaltaram o meu espírito:
Tudo aquilo me pareceu o regresso de um rebanho, neste caso, rebanho de quadros técnicos ou administrativos que regressavam ao “redil” após um dia de “pastagem” em diversas empresas e repartições. Até tinham o seu “pastor”, o segurança, a quem me pareceu ouvir murmurar: “anda “bonita”, vai “malhada”, como está a tua mamite “lanzuda” ?”.
Aprendi depois que tudo isto se repete diariamente.
Vários anos depois pude ver, de novo, em Lisboa, um “regresso do rebanho”, só que deste eu também faço parte, por vezes.
2005-10-21
Para que queremos um Presidente da República
A constituição dá-nos algumas pistas: nomeia o Governo, promulga leis, nomeia para alguns altos cargos, é o Supremo Comandante das Forças Armadas, essa “ociosidade organizada”, como lhe chamava Eça, e pode também, em certas situações, dissolver a Assembleia da República.
Para fazer tudo isto e coisa no género (visto que não conheço a constituição de cor) terá que ter bom senso, indiscutivelmente, um mínimo de bom senso, mas pode também contar com inúmeras ajudas: tem a sua Casa Civil, a Casa Militar, o Conselho de Estado, pode ouvir quem quiser, pedir conselhos, enfim, se não for muito alvoreado, lá sobreviverá mais ou menos, mesmo que a história lhe faça alguma partida como a de levar Santana Lopes ou alguém no género à condição de poder ser poder.
É claro também, que poderá surgir uma situação difícil imponderável, sei lá, sermos invadidos militarmente, por exemplo, mas aí creio que teremos que fazer mais por nós, do que esperar que o Presidente resolva as coisas.
Há no entanto uma outra função, o Presidente é um símbolo nacional, como o hino ou a bandeira, o Presidente tem de conviver com Chefes de Estado, Presidentes e Reis, participar em banquetes elegantíssimos, frequentar palácios, sentar-se em bons sofás, sem dar pulinhos para lhes experimentar as molas (como se viu Bush fazer) e tem que fazer tudo isso com “saber estar”, com educação, com etiqueta, direi mesmo, de forma que não envergonhe o país. Voltando às palavras de Eça (embora dirigidas ao corpo diplomático, também se aplicam aqui) deve saber comer ostras com elegância.
Ora para isto não há Casa Civil nem Chefe de Protocolo que lhe valha, isto não se ensina, ou se tem ou se não tem.
Em resumo, um bom candidato tem que ter: bom senso e boa presença.
Analisemos a esta luz os candidatos que se perfilam:
Francisco Louçã, parece que nem sabe usar gravata, não o consigo ver de gravata, foge-lhe o pé para a palhaçada, que fora do contexto habitual poderia ser dramático e bom senso não sei se o terá em suficiência.
Jerónimo de Sousa, bom senso tem, e apresenta-se bem, é um homem culto, vê-se que leu muito, mas operário é sempre operário e não o vejo à vontade em certos ambientes mais refinados.
Mário Soares, estará como peixe na água nos altos círculos que dominam o mundo, muito à vontade, direi mesmo talvez até um pouco à vontade demais. Não nos envergonharia mas uma gafe ou outra não se poderá evitar, quanto a bom senso parece ter quanto baste.
Cavaco Silva, bom senso tem para dar e vender mas é demasiado hirto, tímido, como ele próprio diz, parece que nunca cabe bem no fato que veste e não há um dia em que se fale na sua provável vitória, que não tenha o pesadelo de o ver a comer bolo rei, de boca aberta em frente ao Papa, credo !
Resta-nos Manuel Alegre e este sim tem boa presença, tem tudo o que se pode esperar, até cria e diz poesia lindamente o que fica muito bem em qualquer salão. Adivinha-se que sabe valsar, é brilhante na conversação, com este sim, Portugal estará bem representado e bom senso terá quanto baste.
Meus amigos, a escolha não parece nada difícil: O melhor candidato é Manuel Alegre e juro que nem ele me pagou para dizer isto, nem me prometeu nada, nem mesmo me meteu em nenhuma Comissão de Honra ou de outra coisa qualquer, nem sequer o conheço, é mesmo o que eu acho, através de análise racional e objectiva.
Vão por mim que vão bem.
Para fazer tudo isto e coisa no género (visto que não conheço a constituição de cor) terá que ter bom senso, indiscutivelmente, um mínimo de bom senso, mas pode também contar com inúmeras ajudas: tem a sua Casa Civil, a Casa Militar, o Conselho de Estado, pode ouvir quem quiser, pedir conselhos, enfim, se não for muito alvoreado, lá sobreviverá mais ou menos, mesmo que a história lhe faça alguma partida como a de levar Santana Lopes ou alguém no género à condição de poder ser poder.
É claro também, que poderá surgir uma situação difícil imponderável, sei lá, sermos invadidos militarmente, por exemplo, mas aí creio que teremos que fazer mais por nós, do que esperar que o Presidente resolva as coisas.
Há no entanto uma outra função, o Presidente é um símbolo nacional, como o hino ou a bandeira, o Presidente tem de conviver com Chefes de Estado, Presidentes e Reis, participar em banquetes elegantíssimos, frequentar palácios, sentar-se em bons sofás, sem dar pulinhos para lhes experimentar as molas (como se viu Bush fazer) e tem que fazer tudo isso com “saber estar”, com educação, com etiqueta, direi mesmo, de forma que não envergonhe o país. Voltando às palavras de Eça (embora dirigidas ao corpo diplomático, também se aplicam aqui) deve saber comer ostras com elegância.
Ora para isto não há Casa Civil nem Chefe de Protocolo que lhe valha, isto não se ensina, ou se tem ou se não tem.
Em resumo, um bom candidato tem que ter: bom senso e boa presença.
Analisemos a esta luz os candidatos que se perfilam:
Francisco Louçã, parece que nem sabe usar gravata, não o consigo ver de gravata, foge-lhe o pé para a palhaçada, que fora do contexto habitual poderia ser dramático e bom senso não sei se o terá em suficiência.
Jerónimo de Sousa, bom senso tem, e apresenta-se bem, é um homem culto, vê-se que leu muito, mas operário é sempre operário e não o vejo à vontade em certos ambientes mais refinados.
Mário Soares, estará como peixe na água nos altos círculos que dominam o mundo, muito à vontade, direi mesmo talvez até um pouco à vontade demais. Não nos envergonharia mas uma gafe ou outra não se poderá evitar, quanto a bom senso parece ter quanto baste.
Cavaco Silva, bom senso tem para dar e vender mas é demasiado hirto, tímido, como ele próprio diz, parece que nunca cabe bem no fato que veste e não há um dia em que se fale na sua provável vitória, que não tenha o pesadelo de o ver a comer bolo rei, de boca aberta em frente ao Papa, credo !
Resta-nos Manuel Alegre e este sim tem boa presença, tem tudo o que se pode esperar, até cria e diz poesia lindamente o que fica muito bem em qualquer salão. Adivinha-se que sabe valsar, é brilhante na conversação, com este sim, Portugal estará bem representado e bom senso terá quanto baste.
Meus amigos, a escolha não parece nada difícil: O melhor candidato é Manuel Alegre e juro que nem ele me pagou para dizer isto, nem me prometeu nada, nem mesmo me meteu em nenhuma Comissão de Honra ou de outra coisa qualquer, nem sequer o conheço, é mesmo o que eu acho, através de análise racional e objectiva.
Vão por mim que vão bem.
2005-10-18
Peseiro saiu
Enquanto os media se preocupam com o orçamento de Estado para 2006, a SIC notícias avançou com as notícias verdadeiramente importantes, que eu amplifico aqui para o mundo:
1. PESEIRO JÁ SAÍU DO SPORTING !
2. A Princesa Letízia teve contracções, sempre acompanhada pelo Príncipe, todavia o herdeiro ainda não nasceu.
1. PESEIRO JÁ SAÍU DO SPORTING !
2. A Princesa Letízia teve contracções, sempre acompanhada pelo Príncipe, todavia o herdeiro ainda não nasceu.
2005-10-17
O regresso do rebanho – capítulo 4
Numa unidade de turismo rural, perto de Vila Flor, existe uma varanda ampla e larga, debruçada sobre um pequeno vale que logo se levanta numa colina que deixa adivinhar novo vale, desenhando o ondulado típico da paisagem de montanha que se contempla aí.
Eu, preparava-me para sair para a minha vida, quando vejo na referida varanda um grupo de turistas nórdicos, sentados lado a lado, debruçados sobre a balaustrada como se estivessem numa frisa de camarote.
Eu sei que a paisagem é linda, mas estranhei aquela postura.
Parecia-me melhor usufruir a beleza do lugar de forma mais descontraída, fazendo uma roda de cadeiras, conversando amenamente, talvez beberricando num copo, deixando a calma do lugar envolver-nos suavemente.
Mas eles lá estavam em silêncio, um pouco tensos de expectativa, esperavam qualquer coisa, o quê ?
Perguntei, à minha hospedeira, o que estariam a fazer aqueles turistas ali. Seria qualquer espectáculo invulgar que se passaria mesmo por baixo da varanda e que eu não descortinava do ponto em que me encontrava ?
“não” disse-me ela, “aguardam o regresso do rebanho, que já não tarda”.
Ao meu espírito afluíram duas imagens, “teatro”, “rebanho”. O regresso do rebanho também pode ser... é, um espectáculo.
Eu, preparava-me para sair para a minha vida, quando vejo na referida varanda um grupo de turistas nórdicos, sentados lado a lado, debruçados sobre a balaustrada como se estivessem numa frisa de camarote.
Eu sei que a paisagem é linda, mas estranhei aquela postura.
Parecia-me melhor usufruir a beleza do lugar de forma mais descontraída, fazendo uma roda de cadeiras, conversando amenamente, talvez beberricando num copo, deixando a calma do lugar envolver-nos suavemente.
Mas eles lá estavam em silêncio, um pouco tensos de expectativa, esperavam qualquer coisa, o quê ?
Perguntei, à minha hospedeira, o que estariam a fazer aqueles turistas ali. Seria qualquer espectáculo invulgar que se passaria mesmo por baixo da varanda e que eu não descortinava do ponto em que me encontrava ?
“não” disse-me ela, “aguardam o regresso do rebanho, que já não tarda”.
Ao meu espírito afluíram duas imagens, “teatro”, “rebanho”. O regresso do rebanho também pode ser... é, um espectáculo.
Infelizmente
O que eu escrevi relativamente ao Sportimg, parece confirmar-se:
os jogadores estão decididos a não jogar até que Peseiro saia.
A Direcção está a fazer um braço de ferro que perderá forçosamente, mais cedo ou mais tarde.
Pelo caminho vão ficando estragos difíceis de reparar.
os jogadores estão decididos a não jogar até que Peseiro saia.
A Direcção está a fazer um braço de ferro que perderá forçosamente, mais cedo ou mais tarde.
Pelo caminho vão ficando estragos difíceis de reparar.
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