2005-10-09

O regresso do rebanho – Capítulo 2

Visitava mais uma queijaria no sul de França, em plena região demarcada do Roquefort.
Uma pequena queijaria artesanal como a generalidade das que se dedicam à fabricação deste notável queijo, famoso no mundo inteiro.
Meditava precisamente nesta contradição da vida moderna:
Aquela queijaria, tão precária e tão pouco higiénica, como já quase não há em Portugal, mantinha-se assim precisamente apenas por ser francesa, um dos grandes da Europa, mas irá ver, ainda assim, julgo eu, mesmo em França, o seu inexorável fim, ditado pelos zelosos guardiões da saúde pública, que não descansarão enquanto não nos obrigarem a todos a comer exclusivamente plástico esterilizado.
No entanto, não fosse precisamente a existência daquelas condições, naquele lugar e ainda hoje não teríamos a contaminação do queijo com Penicilium roquefortis, e a descoberta desse sabor único, responsável hoje por um negócio de milhões.
Enquanto o meu pensamento deambulava por estas paragens, começo a ouvir uma música estranha mas simultaneamente familiar de um imenso repicar de pequenos sinos.
A música casava na perfeição com a calma e a solidão do lugar.
Era o regresso do rebanho, centenas de ovelhas, cada uma com o seu badalo tinindo preso ao pescoço.
Comandava o seu percurso um cão guia, em frenética actividade, não permitindo que uma só se afastasse mais do que alguns metros do rebanho e se apartasse e os próprios latidos do cão emprestavam uma beleza estranha aquela “sinfonia” de sinos.
Calmamente o rebanho recolheu ao seu redil, são e salvo e, na minha memória, ficou gravado até hoje aquele instante magnífico.

2005-10-07

O Regresso do rebanho – Capítulo 1

Sou um homem urbano, nado e criado na cidade, não tenho, nunca tive, férias ou Natal na terra, as minhas raízes rurais perdem-se a 3 ou 4 gerações de distância, são apenas histórias vagas e nebulosas.
Apesar disso ou talvez por isso a ruralidade fascina-me, a sua dimensão humana, as relações simples entre pessoas concretas, Manéis e Marias, com todos os seus atributos, as suas prendas, as suas manias, as suas vantagens e os seus defeitos, e também a sua história que transportam consigo.
Na cidade somos anónimos, serei quanto muito o vizinho das barbas, para caras e pessoas que “conheço” há 30 anos, a quem digo bom dia diariamente, mas que não sei verdadeiramente quem são ou o que fazem ou qual é o seu papel na sociedade.
Mas sou de Lisboa, das avenidas novas, nem sequer dos velhos bairros e pátios onde se reproduziam um pouco as relações da aldeia, dentro da cidade, onde se mantinha uma dimensão humana pela qual ainda lutam ingloriamente sonhadores como o Arquitecto Ribeiro Teles e, talvez, José Sá Fernandes.
Todavia, tenho memórias de infância, passada na Av. António Augusto de Aguiar, mesmo em frente ao que é hoje, já há bastante tempo, a estação de metro do Parque, memórias estranhas na Lisboa de hoje, memórias de vestígios de uma ruralidade perdida:
Pelos meus 5 ou 6 anos, lembro-me, claramente, de correr diariamente para a varanda da casa, a determinadas horas, para ver passar um rebanho de ovelhas, com o seu pastor, que calmamente descia a Av. António Augusto de Aguiar vindo de não sei onde, e ali, à minha frente, subia para pastos verdejantes no Parque Eduardo VII, regressando mais tarde para o seu redil misterioso.

2005-10-02

2005-10-01

SPORTING

Tenho um amigo, que conhece bem o meio, e me diz que são geralmente os jogadores quem põe os treinadores na rua.
Se estão fartos deles basta deixarem de jogar, é claro que é sempre mais fácil mudar um treinador do que 20 jogadores.
Receio que o processo se tenha iniciado no Sporting e que Peseiro tenha já os seus dias contados.

2005-09-26

Clamando no deserto

Portugal é um país singular e só não estou estupefacto, como o Prof Cavaco, porque já sei há muito do que a casa gasta.
Diz-se, por todo o lado, que a corrupção campeia no país mas se alguém tenta lutar contra esta situação apontando algum caso sobre o qual tem uma forte suspeita, logo é ostracisado pela opinião pública:
- Tem provas do que diz ? não ? então esteja caladinho.
O cidadão é que tem que investigar e reunir provas para a polícia não ter muito trabalho.
Se alguém, porque está em risco de destruir a sua vida, tenta fazer uma denuncia anónima, que o proteja, é visto como abaixo de cão, e muitas vezes a denúncia é rasgada sem sequer ser lida.
É um paraíso para os infractores.
E isto porquê ? “Para proteger o bom nome dos cidadãos contra calúnias e invejas” dizem, mas isto só até um dado ponto, porque se, pelo contrário, o caso começa a ser investigado pela polícia, dispensa-se logo o julgamento, aí já não são precisas provas, bastam suspeitas e tem que se prender o homem logo, já !
O abuso da prisão preventiva é uma vergonha nacional, pode um cidadão estar anos na cadeia, sem culpa formada, com o bom nome nas ruas da armagura, até que depois, se se verifica em tribunal que afinal não havia fundamento para a acusação, dizer-se:
-“woops”, desculpe qualquer coisinha, pode ir para casa descansado.
Por outro lado, se se é condenado e se os factos são provados em tribunal, a prisão já é secundária, pode sair-se num ápice que ninguém se incomoda. “já pagou na preventiva, que é como deve ser” pensa-se.
E assim nos vamos queixando da situação mas fazendo tudo para que ela não se altere.
Felizmente vão aparecendo algumas “ilhas” de bom senso neste lamaçal da justiça, como a juiza que apreciou, recentemente, o caso de Fátima Felgueiras:
“Julgue-se primeiro e puna-se depois se for caso disso” decidiu.
Para a opinião pública e publicada esta juiza não sabe o que faz, o fundamental é prendê-la já, já, imediatamente, depois, logo se vê !

2005-09-19

E nós para aqui a dizermos mal !

Afinal, os submarinos que Portas queria comprar, longe de serem um gasto publico desnecessário só demonstram a clarividência do ex-ministro:
Ele já suspeitava que o país havia de chegar ao fundo, de tanta água que mete.

2005-09-17

Wisła Kraków

Sendo eu um dos pouquíssimos portugueses que têm algumas luzes sobre a língua polaca, permito-me falar com a segurança daquele rei zarolho e míope que governava um reino de cegos.
Ora, como todos sabemos, o Polaco é uma língua de raiz eslava que, ainda assim, utiliza na sua escrita o alfabeto latino e este simples facto é já por si significante do esforço de demarcação da diferença daquele povo, entalado e oprimido, ao longo da sua história, por germânicos, de um lado, e russos do outro.
O seu catolicismo visceral, mais do que uma religião foi sempre mais uma oposição.
O alfabeto latino, que vem da sua profunda ligação à Igreja de Roma, separa-os, pela escrita, dos seus irmãos eslavos da Rússia, de fala com alguma afinidade mas alfabeto cirílico enquanto que dos germânicos se afastam pela fala, ao ponto de, em Polaco, se chamar à Alemanha Niemięc o que significa, etimologicamente, “os que não falam” (nada de parecido com o Polaco, obviamente)
Mas este recurso ao alfabeto latino, que tem servido muito bem às línguas novi-latinas e germânicas, tem também o seu preço na sua adaptação a uma fonologia eslava e vêm-se forçados a juntar alguns signos, que constam no nosso “word” como “latim expandido – A”.
Um desses símbolos é o l barrado, ł que é, curiosamente, uma consoante que todavia se lê como a vogal U.
Se pensarmos bem também nos dava um jeitão, sobretudo para os brasileiros que poderiam dizer que são do “Brasiu”, como dizem, escrevendo Brasił mas continuando a ser brasileiros e para nós em palavras como “palco” e “talco” que na fala andam próximas do “pauco” e “tauco”.
No polaco também é assim o ł, que se lê U transforma-se, de novo, em l nalguns casos e nalgumas variações da palavra.
É por isto que me fere um pouco o ouvido quando ouço chamar ao ex-Papa Woitiła como “Voitila” e ao “Wisła Kraków”, que o Vitória de Guimarães arrasou há dias, como o “Visla” de Cracóvia.
Neste caso ainda porque tem uma tradução exacta em português: “Vístula de Cracóvia”, dado que Wisła não é mais do que o nome o rio que banha Cracóvia, rio que em Português se chama Vístula tendo incorporado, à nossa maneira, o U polaco contido no seu l barrado.
Desculpem-me esta deriva mas se há tantos blogues, conceituados, que usam o Inglês e o Francês a seu belo prazer, porque não poderei eu, de quando em vez , utilizar um pouco de Polaco ?

2005-09-16

Reflexões sobre a língua

Eu, como os leitores mais frequentes sabem, cometo frequentemente erros de ortografia de palmatória,
Reconheço-o e envergonho-me, porque não o faço por ignorância, muitas vezes sou eu próprio que os detecto, com as faces rubras de vergonha, mas também não por arrogância, por me sentir superior a essas “pequenas” questões, pelo contrário, acho que o culto da correcção na língua é um dever de todos os falantes.
Porque o faço então desde sempre ?(a minha primeira redacção, feita no primeiro ano da instrução primária é conhecida por toda a família por ter contido num só parágrafo 12 erros, 3 dos quais na assinatura e foi aí, nesse tempo, que compreendi literalmente nas minhas mãos o que significava a expressão “erro de palmatória” ).
Na verdade nem eu próprio sei exactamente porque sou assim mas aprendi recentemente que há uma vulgar disfunção cerebral a que se chama dislexia e que afecta este tipo de funções e eu reconheço que tenho outros sintomas que apontam para aí, como a perfeita incapacidade de escrever datas, sem parar para pensar, ainda que o tenha de fazer sucessivamente centenas de vezes.
Hoje, posso cobrir os meus erros de cabeça levantada: “desculpe mas sou, um pouco disléxico” e isso basta-me para me poupar da humilhação e sentir mesmo um pouco de simpatia nos meus interlocutores.
Colocados estes pontos nos is, queria dizer mesmo que entendo que o conhecimento da linguística é fundamental para compreender a sociedade, e as suas particularidades.
Não será por acaso que Noam Chomsky, um dos chamados pais da moderna linguística é, também, um dos mais lúcidos pensadores sobre a sociedade que nos rodeia.
Mas toda esta introdução é necessária para um outro poste que penso escrever apenas amanhã, para não chatear de uma só vez o leitor e que se chamará o “Wisła Kraków”.

2005-09-15

O Katrina

Ainda que digam:
“Foi porque os EUA não ratificaram Kioto”
ou
“Foi porque New Orleans era uma “sin city” onde meninas e senhoras exibiam as suas mamas nuas em público, no “mardi gras”, desafiando Deus e a sua moral e a devassidão imperava nos seus bares”
O Katrina, o castigo divino, terá sido apenas um grande par de açoites na cidade.
A verdade verdadeira é mais terrena:
O que destruiu mesmo Nova Orleães, o que trouxe o caos, a morte, a fome, a sede, o choro e o ranger de dentes à cidade, foi o rebentamento de diques, feitos por homens e bem ou mal conservados por decisões de homens, como o leitor ou eu.

2005-09-09

A situação na Ucrânia

José Milhazes, seguindo, certamente, a “vox populi” ucraniana, caracterizou a crise que atravessa a Ucrânia e conduziu à substituição do Governo como:
A luta dos milionários contra os multimilionários.
Eu, que não percebo nada do assunto, instintivamente, estou com os mais fracos, torço pelos milionários.

2005-09-05

Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

Já aqui falei deste excelente “site” de apoio aos falantes de português.
Competente, rápido, sempre prestável.
Para quem não o conhece basta consultar a sua vastíssima base de dados de dúvidas de português e os interessantíssimos debates que aí se geraram e que se mantêm “on line”, para se aperceber do serviço que desde há anos tem prestado a falantes de todos os Palop e a muitos estudantes da nossa língua de várias nacionalidades.
É um verdadeiro serviço público mantido com o esforço e a carolice de privados.
Não sei as “tricas” que estão a pôr em risco a sua manutenção mas sei que já fez o suficiente para merecer o reconhecimento do Estado Português pelos serviços prestados e para que todos os seus colaboradores possam exercer o seu trabalho sem estarem preocupados com quem paga as contas.
O cíberdúvidas está, mais uma vez, em risco de fechar definitivamente as portas.
Fala-se em transformá-lo em “site pago” o que restringiria o seu acesso apenas a profissionais e a alguns curiosos, perdendo quase toda a sua eficácia.
Se há situações em que não restarão dúvidas que o dinheiro dos contribuintes é bem empregue, será no apoio a iniciativas como esta.
O mínimo que podemos fazer é ir ao site do ciberdúvidas e assinar a petição aí contida, dirigida a várias instâncias governamentais e esperar que alguém, com a “faca e o queijo” na mão decida definitivamente salvar este “site” de serviço público.

2005-09-03

Nova Orleães

Afinal o Império tem pés de barro, como nós.

2005-08-31

Pontos de vista

Tem vindo a lume a notícia de que, possivelmente, o modelo Marraquesh da VW vai ser construído na Autoeuropa.
Não obstante a empresa ter decidido fabricar este modelo na Alemanha, só o fará, se os operários alemães aceitarem baixar os seus salários ou, em caso negativo, a fabricação mudará para Portugal onde, ainda assim, se paga um pouco menos aos operários portugueses.
Os nossos media e os trabalhadores da Autoeuropa têm a esperança que, talvez as negociações com os seus colegas alemães abortem e as perspectivas para o seu futuro se tornem mais risonhas.
O que é uma luz ao fundo do túnel, para nós, é uma espada sobre a cabeça dos alemães.
Imagino que na Roménia e alhures sigam com o mesmo interesse e torcendo para que não haja acordo, as negociações que conduzem ao encerramento de fábricas em Portugal e a sua deslocalização para esses países, mandando os nossos trabalhadores para uma semimiséria mas abrindo um caminho de esperança para eles.
De facto o grito “Operários de todo o mundo uni-vos”, já era.
Agora é mais “Salve-se quem puder”.
Isto digo eu facilmente, dado que o Marraquesh não me aquece nem me arrefece.
Rima e é verdade.

2005-08-28

Uma interessante questão semântica

A seca que, de tempos a tempos, vivemos em Portugal é muito perniciosa para a agricultura em geral e muitíssimo para a produção pecuária.
Todo os sistema de produção se desorganiza, não há pastos capazes e, se for o caso, têm que se comprar rações e nutrientes específicos que não seriam necessários normalmente e os custos de tudo isto podem ser muito significativos.
Naturalmente os agricultores querem partilhar estes custos com a sociedade, dizem: “não vêem como isto está ? querem continuar a comer borregos e queijo a preços razoáveis, têm que nos ajudar”.
A SIC, como os média em geral, vive num mundo encantado, onde as alegres ovelhas correm e saltam em prados verdejantes e bebericam agua de algum riacho e, estando o tempo de seca, logo as vê lacrimejantes procurando o seu sustento por entre as pedras e percorrendo quilómetros desesperadamente à procura de água perecendo, por vezes, nessa aventura. Morrendo à sede.
Esta forma de ver o mundo convém, naturalmente, aos agricultores que dão assim um toque emocional à defesa das suas carteiras e, de tempos a tempos lá temos imagens dessas ovelhas mortas ... à sede !.
Na realidade, enquanto as modernas máquinas tendem a “animar-se”, como tenho referido nalgumas crónicas, os animais domésticos, pelo contrário, e devido sobretudo a intenso “melhoramento” genético, tendem a “desanimar-se”, são, cada vez mais máquinas de fazer carne, leite e lã, desde que se meta comida, água e medicamentos, por um lado. Nada romântico, mas verdadeiro.
Os animais domésticos só bebem a água que lhes dão, se não lha derem morrem de facto à sede, mas qual o criador que lhes nega agua ? Antes de chegar a uma situação tão dramática, prefere, naturalmente abater o animal e quanto mais não seja, comer um belo ensopado.
Falando neste registo o Sr Ministro da Agricultura profere a frase do escândalo: “nenhum animal morre à sede na nossa lavoura”
A SIC fica estupefacta: “como assim ?, se as coitadinhas nem acham água com esta intensa seca”.
Corre a perguntar aos agricultores, estes, que perceberam bem o que o Sr. Ministro disse, e não lhes convém nada esta descida à terra, tratam de rasgar as vestes, ranger os dentes e alimentar o sonho, e lá vêm imagens de ovelhas mortas num ambiente hostil e o público confirma que o Sr. Ministro é uma besta insensível.
Só que todos os dias morrem ovelhas por causas ditas naturais, acidentes, infecções não detectadas, indigestões, envenenamentos, doenças diversas, isto com seca ou sem seca e assim será enquanto a genética não lhes tirar completamente a vida.
Assim se misturam dois mundos semânticos.
Uns falam em alhos e outros em Bugalhos.

2005-08-27

As listas negras de companhias aéreas

O capital que controla os Estados fortes e os seus aparelhos ideológicos, passa por cima de tudo e de todos para defender os seus interessesinhos.
Mais se justificava que Moçambique e todos nós interditássemos os voos da Air France.
Afinal, poucas companhias aéreas ceifaram tantas vidas duma vez só como a Air France com o seu Concorde.
Um pouco mais de vergonha na cara por favor.

2005-08-24

Provérbio que o povo ainda não inventou

"Em terra de zarolhos quem tem os dois olhos limpa sanitas."

2005-08-23

Quando assisto aos noticiários

Ouço sempre este murmúrio:

No céu cinzento
Sobre o astro mudo
Batendo as asas na noite calada
Vêm em bandos, com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

Como saberão, é um velho tema de Zeca Afonso, escrito ainda na “noite fascista”, mas, para mim, nunca esteve tão actual como agora.

2005-08-22

A corrida eleitoral

Há livros fabulosos (poucos) que, de uma maneira simples conseguem transmitir simultaneamente muitas mensagens para diferentes leitores.
As histórias de Alice, no país das maravilhas e por trás do espelho, são dois desses livros, para todas as idades.
Para ilustrar esta minha opinião e pelo prazer que proporciona lê-lo, deixo aqui um pequeno trecho sobre a “corrida eleitoral” que os personagens fantásticos decidiram fazer para se secarem de um banho forçado nas lágrimas de Alice.
Escolhi este por me ter parecido muito adequado ao momento que começamos a viver agora em Portugal no ano de 2005.

- O que eu ia dizer – disse Dodó, ofendido, - era que a melhor coisa para nos secar seria uma Corrida Eleitoral.
- O que é uma Corrida Eleitoral ? – inquiriu Alice, não tanto por querer saber, mas porque Dodó se calara como se pensasse que alguém devia falar, e mais ninguém parecia disposto a dizer fosse o que fosse.
- Ora, a melhor maneira de explicar é fazê-la – respondeu o Dodó. (E como vocês poderão querer experimentá-la, num dia invernoso, vou contar-vos como procedeu.)
Primeiro, desenhou uma pista de corridas, numa espécie de circunferência (“não interessa a forma exacta”, disse ele), e depois colocou cada um deles num ponto da pista. Não havia nenhum “um, dois, três, já”, mas principiava-se a correr quando se queria, e desistia-se também quando apetecia, de maneira que não era fácil de perceber quando terminava a corrida. Todavia, após terem corrido cerca de meia hora. E estarem de novo secos, o Dodó gritou de repente:
- Acabou a corrida !
E todos o rodearam, ofegantes, a perguntar: - Mas quem é que ganhou ?
O Dodó só pôde responder a esta questão depois de pensar longamente, e permaneceu durante muito tempo com um dedo apoiado na testa (a posição em que se costuma ver Shakespeare, nos retratos), enquanto os outros aguardavam em silêncio. Por fim, disse:
- Ganhámos todos e todos devemos receber prémios.

Lewis Carrol – “As aventuras de Alice no País das Maravilhas”

2005-08-21

Crónica do quotidiano

Termino o meu almoço de Domingo, só eu e a Fátima, com as notícias da SIC como pano de fundo.
O almoço esteve óptimo, frango de tomatada com batatas fritas às rodelas, batatas pequenas, velhas, que tinham de se comer antes de que se estragassem e o frango, que estava divinal, de tomatada, para o que contribuío o “tomate frito”; não sabem o que é ? é natural, nunca o vi à venda em Portugal, apesar de ser um produto de consumo de massas, não chegou ainda cá, faz parte das minhas compras, em quantidades industriais, sempre que dou um salto a Espanha.
Imagino que seja como os nossos vulgares tremoços. Em Portugal há-os por todo o lado e até são baratos mas nunca os vi em mais parte nenhuma do mundo, tirando alguns PALOP. Pobre de algum Sueco que seja amante de tremoços, deve sofrer...
Tive, aliás, um amigo inglês na minha juventude, o David, o seu pai era da marinha e ensinou-lhe o que Lisboa significava para si nas suas passagens por este porto: sardinhas e tremoços, isso tornou-se numa obsessão para David em Lisboa.
Enquanto vagueio o pensamento ouço na SIC que morreu o tal golfinho de que falei no último poste, isto apesar da competência e zelo do Zoo Marine que até já salvou uma tartaruga que nada agora feliz nas Caraíbas ou sítio parecido, dizem-nos.
Espero que o golfinho descanse em paz e nós também.
Recosto-me, saboreando aquele bem estar; um bom almoço também é psico-activo. Ensombra-me apenas a perspectiva de ter de me levantar, participar no arrumo da mesa.
Olho a televisão e falam-me de incêndios, gente desesperada correndo de um lado para o outro, impotentes para conter aquele castigo terrível que lhes destrui as vidas, apelando para tudo e para todos.
São as notícias que estou a ver e ouvir, o país real. Onde estarei eu então ? gozando o meu conforto ? num país irreal ? Que posso eu fazer por essa gente ?
Esta dicotomia incomoda-me, não tenho o direito a estar feliz quando me mostram aquele sofrimento e aquela realidade e, se não ma mostrassem, será que ela deixava de existir ?
Recordo-me que também eu já vivi situações em que os meus apelos desesperados são apenas escutados por gente mais preocupada em digerir bem o seu almoço e isso revoltou-me e fez-me pensar como as pessoas podem ser tão cegas à realidade.
Agora, estou eu deste lado, cego à realidade. Será ? ou será, pelo contrário que estou muito atento, à realidade, à minha realidade, à única realidade verdadeira para mim.
Pensando nisto, preparo-me para me levantar da mesa, quando me pergunta a Fátima:
- Então, não tomas o teu café ?
Esta questão trouxe-me verdadeira e definitivamente à realidade.

2005-08-19

Publicidade

Para alguns o significado desta palavra identifica-se com todo o “marketing”, para outros com uma parte deste, a promoção, mas na realidade para compreender o “marketing” precisamos utilizar a sua linguagem própria e aí o termo publicidade tem pouca serventia.
Publicidade recobre duas noções distintas: a de “advertising” que corresponde aos anúncios que vemos na TV, rádio, jornais, “outdoors” etc e a que poderemos, talvez, chamar em português publicidade paga e a de “publicity” que corresponde a eventos, notícias, entrevistas etc., referentes à empresa ou produto que se pretende promover, notícias essas que na realidade não pagamos directamente e poderemos, talvez chamar de publicidade não paga.
Conseguir a “publicity” não é tarefa fácil, porque não está directamente ao nosso alcance, embora seja naturalmente almejada por todos.
Algumas empresas, porém, por razões “misteriosas”, têm uma constante atenção mediática, que correspondem a ofertas de “publicity”, totalmente injustificadas e tão forçadas que roçam o escândalo: é o caso do “Zoo Marine” que, volta e meia, como hoje, capta a atenção dos média com golfinhos, supostamente salvos pelas suas “mãos hábeis” e que são depois acompanhados mediaticamente durante vários dias em horário nobre até à morte habitual do animal, certamente por excesso de atenção.
Já não há pachorra para isto.

2005-08-16

O chapéu de Bono

Estávamos em pleno PREC, corriamos para uma importante reunião na Casa do Povo do Ladoeiro. Em causa os eternos conflitos de interesses em torno da reforma agrária, que dividia o povo ao meio naquela região Beirã.
No caminho cruzámo-nos com o carro de uns colegas (da Administração) que voltavam em grande velocidade a caminho do hospital de Castelo Branco.
“O que se passou ?” perguntei eu, “uma confusão, está um ambiente de cortar à faca, o Capelo foi agredido e vai para o hospital, não vão lá sem a GNR” foi o que nos disseram.
Mas nós éramos então jovem e, um pouco inconscientes, “não há de ser nada” pensámos.
De facto não foi nada, as pessoas receberam-nos civilizadamente e a reunião decorreu sem mais sobressaltos.
Viemos a saber então o que se tinha passado com o Capelo:
“O homem entrou na Casa do Povo de chapéu na cabeça”, disseram.
Assim foi, Capelo, anacronicamente, usava sempre chapéu e entrou na reunião com o dito na cabeça.
Uns anos atrás, teria sido considerado um capricho do Sr. Engenheiro, afronta que o povo suportaria em silêncio, comentaria em privado e classificaria definitivamente o Sr. Engenheiro Capelo de mal criado, mas naquele tempo não, o povo é quem mais ordenava e não faltaram as vozes de “tira o chapéu”, num coro crescente, a que Capelo, na sua pose altiva de funcionário do Castelo, não obedeceu.
Até que alguém, mais afoito, se chegou a ele e com um gesto brusco lhe fez saltar o chapéu da cabeça. Capelo reagiu violentamente e o povo perdeu a cabeça e desancou o Engenheiro que teve que ser levado, pelos seus colegas presentes, a correr para o hospital.
Para justificar a sua acção, ao contarem-nos esta história disseram-nos:
“A Casa do Povo é como uma Igreja. Se na Igreja um homem de chapéu afronta Deus, na Casa do Povo afronta o povo”
Mesmo nesse momento quente da nossa história recente, quando se vivia uma profunda desagregação de valores, havia comportamentos simbólicos que mantinham o seu papel identificador.

Lembrei-me desta história que vivi, quando vi Bono, com o seu enorme “stetson” na cabeça, a ser condecorado por Jorge Sampaio.
Entristece-me este laxismo, esta falta de vergonha na cara, este achar tudo natural e engraçado, este gozo com símbolos nacionais.
Se a condecoração já foi mais do que duvidosa, naquelas condições foi repelente e creio que desvaloriza toda a “Ordem da Liberdade”, todos os que receberam já e todos os que a irão receber.
Foi um ultraje.
Eu, senti-me afrontado, como Português, e sei que muitos mais sentiram o mesmo, apesar de que na minha volta pelos jornais e pela blogosfera, não tenha detectado uma única referência ao caso.

Lamento que ninguém do protocolo lho tenha tirado, á força se preciso fosse. Era o mínimo.

2005-08-15

Ao ir mais longe

Ou ao ficar para trás
Ou ao lado
É indiferente ...
Fica-se só !

"Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
Porque são muito mais que as boas
E enche-se o tempo mais !"

Almada Negreiros (Cena do Ódio)

2005-08-12

From gosties and goolies ...

Modernamente, como nunca antes, a tecnologia é complexa e pluridisciplinar.
Enquanto há pouco tempo as máquinas estavam à nossa escala e se não as dominávamos podíamos encontrar alguém que o fazia, agora, um simples telemóvel ou computador com acesso à net, não há ninguém, literalmente ninguém, capaz de os dominar na totalidade. Alguns sabem bastante de um ou outro pequeno aspecto dessa tecnologia mas ninguém a domina totalmente sozinho.
Este facto, como ouvi há dias exprimir por um investigador português, confere um caracter “mágico” a essa tecnologia, como se ganhasse vida autónoma e tivesse os seus caprichos, já não sendo regida pelas leis da física.
Assim, curiosamente, voltamos, por excesso de civilização, a reviver velhos sentimentos mais medievais que nos levavam a abençoar o forno antes de fazer o pão e a culpar os nossos pecados pela má colheita, a chuva, a seca ou a doença.
É certo que ainda não fazemos benzeduras ao computador ou ao telemóvel, embora tenhamos já certos rituais e mezinhas, que alguém nos ensinou, e que talvez levem à cura das doenças ou comportamento estranho que essas máquinas por vezes têm. Às vezes resulta, outras não, e geralmente não sabemos porquê ou porque não, nem o que realmente estamos a fazer.
Dantes dizia-se:
“Vai ao cemitério, em noite de lua cheia, reza o responso de Santo Ildefonso 3 vezes, e enterra junto a um carvalho um lenço velho”
Hoje é mais isto:
“Quando aparecer aquela mensagem, carregas em control t, fazes 3 tabs, insert e page down e o problema desaparece.”, “ok, vou experimentar” e resulta.
Estas reflexões tomaram conta do meu espírito quando vivi aquela aventura que descrevi uns postes abaixo.
Toda a nossa ciência e arrogância é impotente perante as incongruências e a irracionalidade aparente deste “Brave new world”.
Em breve teremos que reeditar novas fórmulas de protecção perante a moderna tecnologia semelhantes aquela velha recomendação para viajantes utilizada na velha Inglaterra:
“From goasties and goollies and long legged beasties and things that go pump(ing) in the night, may the Lord protect us”
Se calhar, talvez nem precisemos de reinventar nada e esta mesma ainda nos sirva.

2005-08-09

Nagasaki

Comemora-se hoje a tragédia provocada pela bomba nuclear lançada sobre Nagasaki.
Há dias houve comemorações semelhantes em Hiroshima.
Sabemos que houve centenas de milhares de mortos nesses atentados contra humanidade.
Sabemos que não foram Ben Laden nem Sadam Hussein os responsáveis que aliás andam ainda a monte.

A indústria dos incêndios

Os incêndios fazem parte do ecossistema mediterrânico, sempre houve e haverá incêndios mas não é nada disto a que temos assistido ano após ano.
E as receitas que nos têm dado e que são muito boas para o controlo dos incêndios normais não resultam nem servem para a escala que se tem verificado.
Podem limpar muito bem cada centímetro de floresta, não acender um único cigarro, deixar de deitar foguetes e fazer fogueiras e passaremos a ter muitos, muitos incêndios em vez de muitos, muitos, muitos incêndios.
Felizmente há mais gente que vê isto claramente, está tudo aqui neste artigo de José Gomes Ferreira da SIC, chamado precisamente “A indústria dos incêndios” que, pela sua importância, para além do link, eu transcrevo aqui.


A indústria dos incêndios

A evidência salta aos olhos: o país está a arder porque alguém quer que ele arda. Ou melhor, porque muita gente quer que ele arda. Há uma verdadeira indústria dos incêndios em Portugal. Há muita gente a beneficiar, directa ou indirectamente, da terra queimada.

Oficialmente, continua a correr a versão de que não há motivações económicas para a maioria dos incêndios. Oficialmente continua a ser dito que as ocorrências se devem a negligência ou ao simples prazer de ver o fogo. A maioria dos incendiários seriam pessoas mentalmente diminuídas.
Mas a tragédia não acontece por acaso. Vejamos:
1 - Porque é que o combate aéreo aos incêndios em Portugal é TOTALMENTE concessionado a empresas privadas, ao contrário do que acontece noutros países europeus da orla mediterrânica?
Porque é que os testemunhos populares sobre o início de incêndios em várias frentes imediatamente após a passagem de aeronaves continuam sem investigação após tantos anos de ocorrências?
Porque é que o Estado tem 700 milhões de euros para comprar dois submarinos e não tem metade dessa verba para comprar uma dúzia de aviões Cannadair?
Porque é que há pilotos da Força Aérea formados para combater incêndios e que passam o Verão desocupados nos quartéis?
Porque é que as Forças Armadas encomendaram novos helicópteros sem estarem adaptados ao combate a incêndios? Pode o país dar-se a esse luxo?
2 - A maior parte da madeira usada pelas celuloses para produzir pasta de papel pode ser utilizada após a passagem do fogo sem grandes perdas de qualidade. No entanto, os madeireiros pagam um terço do valor aos produtores florestais. Quem ganha com o negócio? Há poucas semanas foi detido mais um madeireiro intermediário na Zona Centro, por suspeita de fogo posto. Estranhamente, as autoridades continuam a dizer que não há motivações económicas nos incêndios...
3 - Se as autoridades não conhecem casos, muitos jornalistas deste país, sobretudo os que se especializaram na área do ambiente, podem indicar terrenos onde se registaram incêndios há poucos anos e que já estão urbanizados ou em vias de o ser, contra o que diz a lei.
4 - À redacção da SIC e de outros órgãos de informação chegaram cartas e telefonemas anónimos do seguinte teor: "enquanto houver reservas de caça associativa e turística em Portugal, o país vai continuar a arder". Uma clara vingança de quem não quer pagar para caçar nestes espaços e pretende o regresso ao regime livre.
5 - Infelizmente, no Norte e Centro do país ainda continua a haver incêndios provocados para que nas primeiras chuvas os rebentos da vegetação sejam mais tenros e atractivos para os rebanhos. Os comandantes de bombeiros destas zonas conhecem bem esta realidade.
Há cerca de um ano e meio, o então ministro da Agricultura quis fazer um acordo com as direcções das três televisões generalistas em Portugal, no sentido de ser evitada a transmissão de muitas imagens de incêndios durante o Verão. O argumento era que, quanto mais fogo viam no ecrã, mais os incendiários se sentiam motivados a praticar o crime...
Participei nessa reunião. Claro que o acordo não foi aceite, mas pessoalmente senti-me indignado. Como era possível que houvesse tantos cidadãos deste país a perder o rendimento da floresta - e até as habitações - e o poder político estivesse preocupado apenas com um aspecto perfeitamente marginal?
Estranhamente, voltamos a ser confrontados com sugestões de responsáveis da administração pública no sentido de se evitar a exibição de imagens de todos os incêndios que assolam o país. Há uma indústria dos incêndios em Portugal, cujos agentes não obedecem a uma organização comum mas têm o mesmo objectivo - destruir floresta porque beneficiam com este tipo de crime.
Estranhamente, o Estado não faz o que poderia e deveria fazer:
1 - Assumir directamente o combate aéreo aos incêndios o mais rapidamente possível. Comprar os meios, suspendendo, se necessário, outros contratos de aquisição de equipamento militar.
2 - Distribuir as forças militares pela floresta, durante todo o Verão, em acções de vigilância permanente. (Pelo contrário, o que tem acontecido são acções pontuais de vigilância e combate às chamas).
3 - Alterar a moldura penal dos crimes de fogo posto, agravando substancialmente as penas, e investigar e punir efectivamente os infractores
4 - Proibir rigorosamente todas as construções em zona ardida durante os anos previstos na lei.
5 - Incentivar a limpeza de matas, promovendo o valor dos resíduos, mato e lenha, criando centrais térmicas adaptadas ao uso deste tipo de combustível.
6 - E, é claro, continuar a apoiar as corporações de bombeiros por todos os meios. Com uma noção clara das causas da tragédia e com medidas simples mas eficazes, será possível acreditar que dentro de 20 anos a paisagem portuguesa ainda não será igual à do Norte de África. Se tudo continuar como está, as semelhanças físicas com Marrocos serão inevitáveis a breve prazo.

José Gomes Ferreira