Regressado de Varsóvia, corrigido o erro ortográfico no “até à vista” do título do passado poste, resta-me contar as primeiras impressões desta visita relâmpago à Polónia:
E é mesmo verdade, num ano a Polónia mudou, Varsóvia está com mais carros do que nunca e carros novos, passei por engarrafamentos nunca antes vistos, mesmo tendo em conta que apanhei a primeira neve do ano. O caos era total.
Os pequenos agricultores, que apenas há um ano lideravam a oposição à integração na UE, estão eufóricos com as torneiras de zlotis que jorram de Bruxelas e já não querem outra vida.
A Polónia está a mudar e a mudar rápido.
2004-11-21
2004-11-17
Do Widzenia
Novo salto a Varsóvia, por uns dias.Devo voltar já com o orçamento aprovado e a tempo de gozar a prosperidade prometida.
2004-11-15
Referendo
Sampaio disse que é fundamental ratificar o tratado constitucional europeu se não vem o dilúvio.
Cavaco disse que não deveria a haver referendo. Resumidamente, porque o povo não sabe o que quer e é capaz de votar contra só para chatear, pondo em causa uma coisa seríssima que ele não compreende minimamente.
O povo que diga o que eu quero, diz um, ou é melhor que esteja calado, diz outro.
Grandes democratas, digo eu.
Cavaco disse que não deveria a haver referendo. Resumidamente, porque o povo não sabe o que quer e é capaz de votar contra só para chatear, pondo em causa uma coisa seríssima que ele não compreende minimamente.
O povo que diga o que eu quero, diz um, ou é melhor que esteja calado, diz outro.
Grandes democratas, digo eu.
2004-11-12
Reflexão sobre a justiça 2
Que a lei tem pouco a ver com a justiça é um facto, para mim, adquirido há muito e se mais razões não houvesse, bastaria verificar que a classificação de um acto como justo ou injusto, não se limita à consideração do acto em si mas a uma infinitude de circunstâncias objectivas, em que ele é praticado, além de condições subjectivas de quem o pratica, motivações, conhecimentos, crenças, atitudes, saúde mental e não sabemos mesmo se o nosso livre arbítrio será tão livre assim ou será antes ouigualmente condicionado por factores inscritos no nosso código genético.
Nenhuma lei pode prever tudo isto, naturalmente, e é por isso que deveriam existir juizes, como homens bons (ou mulheres) e sensatos que mesmo com as suas limitações humanas deveriam analisar os actos concretos, incorporar a informação acessória, deduzir das circunstâncias subjectivas, enfim aproximar um pouco a lei da justiça.
Como exemplo comezinho poderei referir o seguinte:
Existe uma lei, a que felizmente ninguém liga, que me impede de atravessar a rua fora de uma passadeira de peões, se esta existir creio que a menos de 50 metros, todavia se eu visse à minha frente, do outro lado da rua, um cidadão que precisasse da minha ajuda urgente e o trânsito o permitisse, creio que a justiça exigiria e quase ninguém hesitaria um milésimo de segundo entre atravessar imediatamente ou procurar a passagem de peões a 20 ou 30 metros.
A lei tinha sido quebrada mas a justiça tinha sido feita e julgo que qualquer juiz deveria absolver esse alguém sem hesitação, apenas porque sim.
Infelizmente, tendemos, no nosso sistema judicial, para que o juiz não o faça ou que para o fazer tenhamos que recorrer à mentira consentida e estimulada dizendo, por exemplo, que desconhecíamos a existência da passagem de peões ou que pensávamos que estava a mais de 50 metros ou algo no género e felizmente vamos tendo juizes que fingem que acreditam.
Nenhuma lei pode prever tudo isto, naturalmente, e é por isso que deveriam existir juizes, como homens bons (ou mulheres) e sensatos que mesmo com as suas limitações humanas deveriam analisar os actos concretos, incorporar a informação acessória, deduzir das circunstâncias subjectivas, enfim aproximar um pouco a lei da justiça.
Como exemplo comezinho poderei referir o seguinte:
Existe uma lei, a que felizmente ninguém liga, que me impede de atravessar a rua fora de uma passadeira de peões, se esta existir creio que a menos de 50 metros, todavia se eu visse à minha frente, do outro lado da rua, um cidadão que precisasse da minha ajuda urgente e o trânsito o permitisse, creio que a justiça exigiria e quase ninguém hesitaria um milésimo de segundo entre atravessar imediatamente ou procurar a passagem de peões a 20 ou 30 metros.
A lei tinha sido quebrada mas a justiça tinha sido feita e julgo que qualquer juiz deveria absolver esse alguém sem hesitação, apenas porque sim.
Infelizmente, tendemos, no nosso sistema judicial, para que o juiz não o faça ou que para o fazer tenhamos que recorrer à mentira consentida e estimulada dizendo, por exemplo, que desconhecíamos a existência da passagem de peões ou que pensávamos que estava a mais de 50 metros ou algo no género e felizmente vamos tendo juizes que fingem que acreditam.
2004-11-09
Acho graça
A como alguns pregadores, comentadores bloguistas e jornalistas se afadigam para nos explicar que os EUA são um grande país e nós, que não vamos lá de 15 em 15 dias como eles, não percebemos nada da sua grandeza e complexidade.
Eu, de facto, em toda a minha vida, só estive nos EUA 4 vezes, mas não me deixo intimidar, pela minha suposta ignorância, como disse Lars Van Trier, que já fez pelo menos 2 filmes supostamente passados nos EUA, também eu posso dizer: "Nunca fui aos EUA nem preciso de lá ir para os conhecer bem porque eles entram constantemente pela minha casa dentro, até à exaustão".
Mas mesmo que não tivesse qualquer ideia poderia inferir, que lá, como na Lapónia ou no Cordistão onde nunca estive, os homens devem ser mais ou menos como os de cá que eu conheço, brilhantes uns imbecis outros.
O que difere de facto é o caldo cultural que determina atitudes e comportamentos e aí, para além de ser o aspecto que mais me entra pela casa dentro em todas as suas nuances, é de esperar que num país novo e de imigração diversificada, as diferenças sejam mais do que muitas mas há uma resultante de todas essas forças contraditórias que se traduz nas suas grandes opções políticas, queridas ou consentidas, e aí não restam dúvidas, os homens escolheram mesmo o Bush outra vez.
Isto é um facto objectivo que nenhum analista pode desmentir, sobre o qual eu tenho todo o direito de opinar e opino como o Daily Mirror, também eu digo:
Como é que 55 054 087 pessoas poderam ser tão burras ?
Cá, também aturamos um Santana Lopes mas, pelo menos, podemos dizer orgulhosos que nem um português votou nele, antes assim.
Eu, de facto, em toda a minha vida, só estive nos EUA 4 vezes, mas não me deixo intimidar, pela minha suposta ignorância, como disse Lars Van Trier, que já fez pelo menos 2 filmes supostamente passados nos EUA, também eu posso dizer: "Nunca fui aos EUA nem preciso de lá ir para os conhecer bem porque eles entram constantemente pela minha casa dentro, até à exaustão".
Mas mesmo que não tivesse qualquer ideia poderia inferir, que lá, como na Lapónia ou no Cordistão onde nunca estive, os homens devem ser mais ou menos como os de cá que eu conheço, brilhantes uns imbecis outros.
O que difere de facto é o caldo cultural que determina atitudes e comportamentos e aí, para além de ser o aspecto que mais me entra pela casa dentro em todas as suas nuances, é de esperar que num país novo e de imigração diversificada, as diferenças sejam mais do que muitas mas há uma resultante de todas essas forças contraditórias que se traduz nas suas grandes opções políticas, queridas ou consentidas, e aí não restam dúvidas, os homens escolheram mesmo o Bush outra vez.
Isto é um facto objectivo que nenhum analista pode desmentir, sobre o qual eu tenho todo o direito de opinar e opino como o Daily Mirror, também eu digo:
Como é que 55 054 087 pessoas poderam ser tão burras ?
Cá, também aturamos um Santana Lopes mas, pelo menos, podemos dizer orgulhosos que nem um português votou nele, antes assim.
2004-11-08
Pontos Cardeais
A minha visita ao Sulitânia, casa de comes e bebes, e o reconhecimento da importância daquele Sul na Sulitânia, trouxe-me à consciência a minha particular relação emocional com os Pontos Cardeais:
Gosto também do Sul, de todos os Sul, de Portugal e do Mundo; não nutro grandes simpatias pelos Norte, tirando talvez o verdadeiro Norte mais perto do polo e esse país, para mim mítico desde a infância, que dá pelo nome de Canadá. Todavia, talvez o que mais me atraia seja mesmo o NE, todos os NE.
Será que Freud explica isto ?
Gosto também do Sul, de todos os Sul, de Portugal e do Mundo; não nutro grandes simpatias pelos Norte, tirando talvez o verdadeiro Norte mais perto do polo e esse país, para mim mítico desde a infância, que dá pelo nome de Canadá. Todavia, talvez o que mais me atraia seja mesmo o NE, todos os NE.
Será que Freud explica isto ?
2004-11-04
Reflexões sobre a justiça
A sentença do julgamento de há dias, da jovem que com 17 anos terá provocado um aborto, tendo sido denunciada à polícia por um enfermeiro, apresenta-se como um caso exemplar.
A juíza decidiu com justiça, mas teve que fazê-lo de forma ínvia, ignorando factos e dispensando testemunhas essenciais para o conhecimento da verdade, porque o seu depoimento iria, certamente, dificultar a justa decisão já tomada.
Ao ouvir as sensatas palavras da Meritíssima, pensei para comigo: não tenho dúvida de que a lei foi quebrada pela jovem mas a justiça foi feita e para que o fosse inteiramente o enfermeiro "bufo", amante da lei, deveria apanhar uma talhada para deixar de ser tão "bom cidadão".
Logo a seguir veio a notícia que eu queria ouvir: a Ordem dos Enfermeiros abriu um processo disciplinar ao "bufo" por ter revelado informações adquiridas no exercício da sua actividade profissional.
Bem feita, digo eu.
A juíza decidiu com justiça, mas teve que fazê-lo de forma ínvia, ignorando factos e dispensando testemunhas essenciais para o conhecimento da verdade, porque o seu depoimento iria, certamente, dificultar a justa decisão já tomada.
Ao ouvir as sensatas palavras da Meritíssima, pensei para comigo: não tenho dúvida de que a lei foi quebrada pela jovem mas a justiça foi feita e para que o fosse inteiramente o enfermeiro "bufo", amante da lei, deveria apanhar uma talhada para deixar de ser tão "bom cidadão".
Logo a seguir veio a notícia que eu queria ouvir: a Ordem dos Enfermeiros abriu um processo disciplinar ao "bufo" por ter revelado informações adquiridas no exercício da sua actividade profissional.
Bem feita, digo eu.
2004-11-03
As eleições espectáculo
Bush ganhou, tá bem, se eles acham que sim quem sou eu para duvidar, mas não é das eleições que quero falar mas da sua cobertura noticiosa, se é que há alguma diferença entre as duas coisas.
Assisti ontem à noite, até certo ponto, ao painel de notáveis que comentava as eleições americanas na SIC-notícias..
Ora estava Bush à frente, ora Kerry, entretanto havia o fantasma da Florida que tanto trabalho tinha dado nas anteriores eleições, todos queríamos saber quem ganhava na Florida.
A dada altura um jornalista explica que Bush vai à frente na Florida, por poucos votos mas ainda falta cerca de 1 milhão de votos por correspondência e afins, que só começariam a ser contados na próxima quinta-feira.
Os especialistas, presentes explicam logo, tratando por tu a situação:
- Sim, na Florida é assim mesmo, há muitos votos de soldados que estão no Iraque e mais outros que já votaram antes etc. etc.
Conformei-me, só depois de quinta-feira saberíamos alguma coisa.
Fui para a cama, assim no escuro e quando acordo de manhã, por milagre certamente, a Florida já está toda contada e Bush ganhou. Sobre aquela questão da quinta-feira, que todos os especialistas conheciam tão bem, nem mais uma palavra ou explicação: já está tudo contado e pronto, agora o problema é Ohio, aí sim, ainda falta um montão de votos provisórios e os democratas não desistem enquanto não contarem todos.
No entanto os republicanos estão a pressionar para que Kerry reconheça a derrota, porque se assim fizer fica já o caso arrumado e não é preciso contar mais nada.
Entretanto eram sempre tratado ao mesmo nível, votos reais e previsões à boca das urnas, de todos os dados que vejo e leio não sei se são uma coisa ou outra e suspeito bem que o jornalista que os transmite também não sabe.
Eu penso, para mim: afinal que porra de eleições são estas da "pátria da democracia" que eu não estou a perceber nada ?
Assisti ontem à noite, até certo ponto, ao painel de notáveis que comentava as eleições americanas na SIC-notícias..
Ora estava Bush à frente, ora Kerry, entretanto havia o fantasma da Florida que tanto trabalho tinha dado nas anteriores eleições, todos queríamos saber quem ganhava na Florida.
A dada altura um jornalista explica que Bush vai à frente na Florida, por poucos votos mas ainda falta cerca de 1 milhão de votos por correspondência e afins, que só começariam a ser contados na próxima quinta-feira.
Os especialistas, presentes explicam logo, tratando por tu a situação:
- Sim, na Florida é assim mesmo, há muitos votos de soldados que estão no Iraque e mais outros que já votaram antes etc. etc.
Conformei-me, só depois de quinta-feira saberíamos alguma coisa.
Fui para a cama, assim no escuro e quando acordo de manhã, por milagre certamente, a Florida já está toda contada e Bush ganhou. Sobre aquela questão da quinta-feira, que todos os especialistas conheciam tão bem, nem mais uma palavra ou explicação: já está tudo contado e pronto, agora o problema é Ohio, aí sim, ainda falta um montão de votos provisórios e os democratas não desistem enquanto não contarem todos.
No entanto os republicanos estão a pressionar para que Kerry reconheça a derrota, porque se assim fizer fica já o caso arrumado e não é preciso contar mais nada.
Entretanto eram sempre tratado ao mesmo nível, votos reais e previsões à boca das urnas, de todos os dados que vejo e leio não sei se são uma coisa ou outra e suspeito bem que o jornalista que os transmite também não sabe.
Eu penso, para mim: afinal que porra de eleições são estas da "pátria da democracia" que eu não estou a perceber nada ?
2004-10-31
O caso Venezuela
O tratamento dos media ao caso da prisão da tripulação e passageiros de um voo charter para Lisboa, por posse de 400 Kg de cocaína, é um caso deveras interessante de seguir.
A última notícia que ouvi, dita como se fosse o caso mais natural do mundo:
- O juiz decidiu a libertação da tripulação do avião, no entanto a acusação opôs-se e eles continuaram presos !
A última notícia que ouvi, dita como se fosse o caso mais natural do mundo:
- O juiz decidiu a libertação da tripulação do avião, no entanto a acusação opôs-se e eles continuaram presos !
2004-10-29
Se ele há tanto curso por aí
Quando é que aparece um curso para a gente aprender a viver sob o Governo de Santana Lopes.
2004-10-27
Sei que não sou o único
Embora muito poucos tenham esta sensibilidade:
Respeito as touradas, onde os touros se comportam como touros e os homens como homens.
Respeito a caça, mesmo à raposa, onde as presas se comportam como presas e o homem como o predador que é.
Não tolero, incomoda-me, acho uma falta de respeito inaceitável, transformar um burro num palhaço e pô-lo a comentar a Quinta das Celebridades com a Júlia Pinheiro, como se um burro que se preze ligasse o mínimo aquela palhaçada humana.
Respeito as touradas, onde os touros se comportam como touros e os homens como homens.
Respeito a caça, mesmo à raposa, onde as presas se comportam como presas e o homem como o predador que é.
Não tolero, incomoda-me, acho uma falta de respeito inaceitável, transformar um burro num palhaço e pô-lo a comentar a Quinta das Celebridades com a Júlia Pinheiro, como se um burro que se preze ligasse o mínimo aquela palhaçada humana.
2004-10-26
2004-10-25
Discurso politicamente correcto
Vejam o exemplo vivo de como se pode enriquecer apenas do trabalho.
Ganhando apenas o salário mínimo nacional mas com muita poupança e ponderação: levando a lancheira de casa para não desperdiçar dinheiro nos restaurantes, usando transportes públicos, apagando as luzes desnecessárias, aquecendo-se com mantinhas, no Inverno, para controlar a conta da EDP, enfim com uma vida muito regrada, de grande sacrifício e sem luxos, lá se pode ir conseguindo acumular poupança, comprar uns prédiozitos e outros bens e até já se pode dispensar os transportes públicos e deslocar-se num dos seus carros.
E depois pode haver vozes invejosas a dizer que foge aos impostos e não sei quê, ora, quem não foge um bocadinho aos impostos se puder ?
Cambada de invejosos preguiçosos a exigir mais salário e melhores condições de vida: trabalhem e poupem meus amigos, o salário mínimo chega muito bem, façam como o Victor Santos.
Ganhando apenas o salário mínimo nacional mas com muita poupança e ponderação: levando a lancheira de casa para não desperdiçar dinheiro nos restaurantes, usando transportes públicos, apagando as luzes desnecessárias, aquecendo-se com mantinhas, no Inverno, para controlar a conta da EDP, enfim com uma vida muito regrada, de grande sacrifício e sem luxos, lá se pode ir conseguindo acumular poupança, comprar uns prédiozitos e outros bens e até já se pode dispensar os transportes públicos e deslocar-se num dos seus carros.
E depois pode haver vozes invejosas a dizer que foge aos impostos e não sei quê, ora, quem não foge um bocadinho aos impostos se puder ?
Cambada de invejosos preguiçosos a exigir mais salário e melhores condições de vida: trabalhem e poupem meus amigos, o salário mínimo chega muito bem, façam como o Victor Santos.
2004-10-18
Isabel
Eu tinha então 24 anos, trabalhava em Angola, no Andulo, nos seus últimos meses de colónia, Isabel era uma nossa empregada doméstica com apenas 12 ou 13 anos.
Pagava-lhe uma miséria, ligeiramente superior à miséria habitual, dormia num colchão no chão contra a opinião de todos os casais amigos que criticavam a minha mulher por “esse luxo” que lhe proporcionávamos:
- Vai fazer xixi e estragar o colchão e, até dorme mal porque eles não estão habituados. Deve dormir numa esteira, aí é que ela se há de sentir bem.
Nunca demos ouvidos a essas críticas, sempre pensei que as costas humanas não conhecem escravo nem amo.
Aliás, Isabel não se queixava, vivia feliz, cantarolava, ria-se muito quando eu, no meu umbundo mal arranhado, lhe dizia de brincadeira: Isabel, “nena vava”, querendo dizer “traz-me água” mas certamente tão mal dito que lhe despertava sempre um riso sincero ou seria do prazer que lhe dava a ida à fonte ?
A ida diária para buscar água de uma determinada fonte era o seu grande momento de prazer e liberdade, aí se encontrava com as amigas, conversava sobre o dia, brincava e levava sempre muito mais tempo do que o razoavelmente necessário.
Nós sempre lhe tolerámos esse “abuso” porque a fazia feliz e não nos prejudicava, nem um pouco, já que todo o trabalho era feito a tempo e horas mas, mais uma vez a minha mulher foi muito criticada, Isabel perturbava a paz social: as suas amigas, empregadas de outros casais, usavam a liberdade de Isabel para apoiar as suas reivindicações e muitas vezes também se demoravam desculpando-se com Isabel.
Depois veio o 25 de Abril, a minha difícil decisão de regressar a Portugal, grandes períodos de ausência do Andulo para a então Nova Lisboa e Luanda na preparação da nossa partida e, quando regressávamos, dias depois, Isabel lá aparecia sempre para nos encontrar e retomar o serviço.
Contaram-nos que diariamente Isabel esperava sentada no chão da rua aguardando ansiosa qualquer janela aberta ou luz acesa que lhe indicasse o nosso regresso.
Decidimos voltar a Portugal e despedimo-nos de Isabel definitivamente, nunca mais a voltámos a ver. Apesar de tudo tivemos, alguns dias depois, notícias do Andulo dizendo-nos que Isabel continuava a ficar na rua, em frente da nossa casa, à espera do nosso impossível regresso.
Desde esse tempo que me lembro, muitas vezes, de Isabel, especulo sobre o que terá sido a sua vida ou a sua provável prematura morte, dado os anos brutais e selvagens que se seguiram em Angola.
Lembro-me e invade-me sempre uma estranha sensação de vazio, de incompletude, de que o meu efémero e aparentemente insignificante contacto com Isabel não pode ter terminado ainda.
Foi a minha primeira experiência de patrão, quando eu era ainda um miúdo pouco maior do que ela e o episódio Isabel na minha vida foi determinante na minha formação e visão do Mundo.
Não me conformo que tenha sido tão breve, penso que se olhar para o Sul, e pensar com muita força “nena vava”, terei que ver um dia, de novo, Isabel voltando da fonte, rindo e contente, carregando a sua vasilha de água fresca.
Pagava-lhe uma miséria, ligeiramente superior à miséria habitual, dormia num colchão no chão contra a opinião de todos os casais amigos que criticavam a minha mulher por “esse luxo” que lhe proporcionávamos:
- Vai fazer xixi e estragar o colchão e, até dorme mal porque eles não estão habituados. Deve dormir numa esteira, aí é que ela se há de sentir bem.
Nunca demos ouvidos a essas críticas, sempre pensei que as costas humanas não conhecem escravo nem amo.
Aliás, Isabel não se queixava, vivia feliz, cantarolava, ria-se muito quando eu, no meu umbundo mal arranhado, lhe dizia de brincadeira: Isabel, “nena vava”, querendo dizer “traz-me água” mas certamente tão mal dito que lhe despertava sempre um riso sincero ou seria do prazer que lhe dava a ida à fonte ?
A ida diária para buscar água de uma determinada fonte era o seu grande momento de prazer e liberdade, aí se encontrava com as amigas, conversava sobre o dia, brincava e levava sempre muito mais tempo do que o razoavelmente necessário.
Nós sempre lhe tolerámos esse “abuso” porque a fazia feliz e não nos prejudicava, nem um pouco, já que todo o trabalho era feito a tempo e horas mas, mais uma vez a minha mulher foi muito criticada, Isabel perturbava a paz social: as suas amigas, empregadas de outros casais, usavam a liberdade de Isabel para apoiar as suas reivindicações e muitas vezes também se demoravam desculpando-se com Isabel.
Depois veio o 25 de Abril, a minha difícil decisão de regressar a Portugal, grandes períodos de ausência do Andulo para a então Nova Lisboa e Luanda na preparação da nossa partida e, quando regressávamos, dias depois, Isabel lá aparecia sempre para nos encontrar e retomar o serviço.
Contaram-nos que diariamente Isabel esperava sentada no chão da rua aguardando ansiosa qualquer janela aberta ou luz acesa que lhe indicasse o nosso regresso.
Decidimos voltar a Portugal e despedimo-nos de Isabel definitivamente, nunca mais a voltámos a ver. Apesar de tudo tivemos, alguns dias depois, notícias do Andulo dizendo-nos que Isabel continuava a ficar na rua, em frente da nossa casa, à espera do nosso impossível regresso.
Desde esse tempo que me lembro, muitas vezes, de Isabel, especulo sobre o que terá sido a sua vida ou a sua provável prematura morte, dado os anos brutais e selvagens que se seguiram em Angola.
Lembro-me e invade-me sempre uma estranha sensação de vazio, de incompletude, de que o meu efémero e aparentemente insignificante contacto com Isabel não pode ter terminado ainda.
Foi a minha primeira experiência de patrão, quando eu era ainda um miúdo pouco maior do que ela e o episódio Isabel na minha vida foi determinante na minha formação e visão do Mundo.
Não me conformo que tenha sido tão breve, penso que se olhar para o Sul, e pensar com muita força “nena vava”, terei que ver um dia, de novo, Isabel voltando da fonte, rindo e contente, carregando a sua vasilha de água fresca.
2004-10-16
Bom Conselho
Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio vento na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
Chico Buarque de Holanda
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio vento na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
Chico Buarque de Holanda
2004-10-14
Um programa paradigmático
O Tudo em família, na RTP2 a seguir ao almoço, é um programa excelente, paradigmático, uma fonte inesgotável de postes neste blogue.
De facto, se reflectirem um pouco sobre o nome deste blogue, talvez percebam melhor o que quero dizer e que não é nada irrelevante:
O tudo em família é uma voz isolada, no meio do espectáculo, a tentar gritar que também somos macacos. Mas fá-lo de forma confusa, instintiva, oscilando entre o espectáculo e o bom senso.
No programa que vi hoje fiquei a saber que estudos científicos rigorosos (espectáculo), baseados na observação de creches na China e na Roménia (países de macacos, como todos sabem) descobriram que o colo e o contacto de pele a pele pode ser mais importante para o bebé que o simples fornecimento de alimentos.
Observaram também que experiências com macacos (propriamente ditos) preferiam o contacto com “mães” com pelos do que “mães” metálicas.
A minha questão, aquilo que me preocupa, é que seja preciso que os média nos digam aquilo que está inscrito (supunha eu que indelevelmente) nos nossos genes.
Será que hoje, alguma mãe, alertada por qualquer estudo, rigorosamente científico, que prove que no beijo são transmitidos muitos agentes infecciosos e maléficos (o que eu não tenho dúvida que é verdade e qualquer estudo o poderá demonstrar) deixe de beijar o seu filho, para o proteger ?
Numa sociedade onde começam a proliferar cursos de paternidade e de maternidade, receio bem que sim.
Desculpem este meu desvario mas eu não tenho culpa de ser filho de uma mãe fumadora e que não teve aulas de amamentação, como foi proposto à minha filha, e de os meus pais não terem tido nenhum curso de paternidade (por apena 100 Euros).
Dou graças a Deus por ter sobrevivido até hoje, apesar de tudo.
De facto, se reflectirem um pouco sobre o nome deste blogue, talvez percebam melhor o que quero dizer e que não é nada irrelevante:
O tudo em família é uma voz isolada, no meio do espectáculo, a tentar gritar que também somos macacos. Mas fá-lo de forma confusa, instintiva, oscilando entre o espectáculo e o bom senso.
No programa que vi hoje fiquei a saber que estudos científicos rigorosos (espectáculo), baseados na observação de creches na China e na Roménia (países de macacos, como todos sabem) descobriram que o colo e o contacto de pele a pele pode ser mais importante para o bebé que o simples fornecimento de alimentos.
Observaram também que experiências com macacos (propriamente ditos) preferiam o contacto com “mães” com pelos do que “mães” metálicas.
A minha questão, aquilo que me preocupa, é que seja preciso que os média nos digam aquilo que está inscrito (supunha eu que indelevelmente) nos nossos genes.
Será que hoje, alguma mãe, alertada por qualquer estudo, rigorosamente científico, que prove que no beijo são transmitidos muitos agentes infecciosos e maléficos (o que eu não tenho dúvida que é verdade e qualquer estudo o poderá demonstrar) deixe de beijar o seu filho, para o proteger ?
Numa sociedade onde começam a proliferar cursos de paternidade e de maternidade, receio bem que sim.
Desculpem este meu desvario mas eu não tenho culpa de ser filho de uma mãe fumadora e que não teve aulas de amamentação, como foi proposto à minha filha, e de os meus pais não terem tido nenhum curso de paternidade (por apena 100 Euros).
Dou graças a Deus por ter sobrevivido até hoje, apesar de tudo.
Bush vs Kerry
Assisti aos 3 debates televisivos entre Bush e Kerry e, não obstante o que diz Luís Delgado, só vejo duas hipóteses:
Ou o povo americano é completamente imbecil, o que, infelizmente, não é uma hipótese a desprezar de todo, ou Kerry tem estas eleições no papo.
Ou o povo americano é completamente imbecil, o que, infelizmente, não é uma hipótese a desprezar de todo, ou Kerry tem estas eleições no papo.
2004-10-12
O discurso do nosso Primeiro Ministro
Tem sido mal interpretado, não há cidadão, comentador político ou económico que não lance as suas dúvidas e não saliente a sua incoerência com as palavras de Bagão Félix de há um mês.
Oh homens de pouca fé, então não vêem ?
Não se aperceberam que enquanto nós nos distraímos com a novela Marcelo Rebelo de Sousa, e com o empate contra o Lichen quê?, Santana Lopes trabalhava arduamente no que é importante para os portugueses e as portuguesas ?
Não viram como ele resolveu, neste último mês, com suor e muita competência, todos os nossos problemas financeiros ?
Pois foi, agora estão criadas as condições para a fartura.
Tudo o que seja trabalhar menos e ganhar mais, eu apoio com todas as minhas forças, não sou como aquele manhoso do Marcelo que só para destilar ódios pessoais se insurgiu contra a tolerância de ponto.
Contraditório
Tás mas é xéxé oh Nuno, não pode ser, ninguém é capaz de mudar num mês a situação de um défice financeiro descontrolado, os analistas têm razão, pá.
Oh homens de pouca fé, então não vêem ?
Não se aperceberam que enquanto nós nos distraímos com a novela Marcelo Rebelo de Sousa, e com o empate contra o Lichen quê?, Santana Lopes trabalhava arduamente no que é importante para os portugueses e as portuguesas ?
Não viram como ele resolveu, neste último mês, com suor e muita competência, todos os nossos problemas financeiros ?
Pois foi, agora estão criadas as condições para a fartura.
Tudo o que seja trabalhar menos e ganhar mais, eu apoio com todas as minhas forças, não sou como aquele manhoso do Marcelo que só para destilar ódios pessoais se insurgiu contra a tolerância de ponto.
Contraditório
Tás mas é xéxé oh Nuno, não pode ser, ninguém é capaz de mudar num mês a situação de um défice financeiro descontrolado, os analistas têm razão, pá.
2004-10-08
A pressão
Acho curioso como se discute a existência de eventual pressão neste episódio com Marcelo Rebelo de Sousa.
É uma mera questão de semântica, como em tantos casos.
Pressão ou pressões é o que não tem faltado neste caso: O discurso do Ministro Gomes da Silva foi inequivocamente uma pressão, bastante forte; a audiência de S. Exa o Presidente da República não deixa também de ser uma pressão, de sentido contrário, todas as declarações que se têm feito sobre o caso são também pressões e até eu estou aqui a tentar fazer uma micro-pressão.
A questão não é saber se houve ou não houve pressão do Governo ou do capital, isso houve sem dúvida nenhuma, a questão é saber se houve ou não houve chantagem, só isto.
Contraditório
Olha que não, Nuno; olha que não.
É uma mera questão de semântica, como em tantos casos.
Pressão ou pressões é o que não tem faltado neste caso: O discurso do Ministro Gomes da Silva foi inequivocamente uma pressão, bastante forte; a audiência de S. Exa o Presidente da República não deixa também de ser uma pressão, de sentido contrário, todas as declarações que se têm feito sobre o caso são também pressões e até eu estou aqui a tentar fazer uma micro-pressão.
A questão não é saber se houve ou não houve pressão do Governo ou do capital, isso houve sem dúvida nenhuma, a questão é saber se houve ou não houve chantagem, só isto.
Contraditório
Olha que não, Nuno; olha que não.
2004-10-07
2004-10-06
O ranking das escolas
Publicado, há dias, é uma coisa muito boa.
Agora, basta os pais dos alunos da escola Básica Integrada de Pampilhosa da Serra, tratarem de matricular os seus filhos no Colégio de Nossa Senhora da Boavista em Vila Real e fica tudo resolvido.
Agora, basta os pais dos alunos da escola Básica Integrada de Pampilhosa da Serra, tratarem de matricular os seus filhos no Colégio de Nossa Senhora da Boavista em Vila Real e fica tudo resolvido.
2004-10-02
5 de Outubro
É já na próxima terça feira, 5 de Outubro que sai o novo cd de Tom Waits: “Real Gone”.
Embora se possa comprar no escuro qualquer disco de Tom Waits, este já o ouvi e posso confirmar que é fabuloso.
Ah, também se comemora a implantação da República em Portugal, 5 de Outubro é de facto um dia a assinalar.
Embora se possa comprar no escuro qualquer disco de Tom Waits, este já o ouvi e posso confirmar que é fabuloso.
Ah, também se comemora a implantação da República em Portugal, 5 de Outubro é de facto um dia a assinalar.
2004-09-30
Esquerda e Direita
Enquanto intelectuais, comentadores e políticos se acotovelam para bem se posicionar à esquerda e à direita, o povo que os motiva continua com uma única preocupação, na dimensão vertical:
Só quer sair de baixo.
Só quer sair de baixo.
2004-09-29
Luis Delgado de novo
Na sua crónica de hoje no DN, Luis Delgado diz que Bush tem todas as condições para ter uma maioria mais folgada do que em 2000.
Esperemos que sim, porque, como é sabido, a maioria de 2000 teve tão pouca folga que, ao que parece, nem chegou a ser maioria.
Esperemos que sim, porque, como é sabido, a maioria de 2000 teve tão pouca folga que, ao que parece, nem chegou a ser maioria.
2004-09-24
Experiência
O meu primeiro Chefe dizia muito esta verdade:
Há pessoas que têm 20 anos de experiência, enquanto outras têm 1 ano, repetido 20 vezes.
Há pessoas que têm 20 anos de experiência, enquanto outras têm 1 ano, repetido 20 vezes.
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