2004-05-23

A Engenharia do século XXI

Não sei o que se passa com a nossa ciência e a nossa tecnologia.
Fazemos coisas espantosas e nunca vistas como este simples facto de eu, simples cidadão, poder escrever aqui qualquer coisa imediatamente acessível a todo o mundo. Isto era inimaginável há 5 ou 6 anos, no entanto, hoje é banal.
Mas assim como admiro estas conquistas do Homo Sapiens, espanto-me sempre como, ao mesmo tempo, se vão perdendo outros saberes e outros fazeres.
Cair um teto de um edifício público sem causas demasiado improváveis não deveria ser possível no século XXI.
Há centenas de ano, houve uma “corrida” na Europa pela construção de catedrais mais e mais altas, colocando imensos problemas de engenharia, elevando esta tecnologia a um grau transcendente e misterioso para o comum dos mortais. Orgulhamo-nos do nosso Mestre Afonso Domingues que permaneceu sob a abóbada do mosteiro da Batalha para afirmar a confiança na sua engenharia.
Centenas de anos depois de Afonso Domingues a abóbada do mosteiro da batalha ainda lá está atraindo milhares de turistas e o mesmo se passa por diversas imponentes catedrais europeias que sobreviveram a guerras e a bombardeamentos.
Centenas de anos depois, cai o teto do novo terminal do aeroporto Charles Degaule, construído há menos de um ano, assim como o teto da piscina de Moscovo, construído havia meses.
Eu sei que o paradigma da engenharia de hoje não é construir para durar mas construir barato mas o mínimo que se pede é que haja competência e que as coisas não caiam por si.
A muitos engenheiros de hoje, como aos que conceberam o novo terminal do aeroporto sobre os ombros dos gigantes “maçons” de todos os tempos, não admito nenhuma desculpa, só posso dizer: "shame on you”.

2004-05-20

Metablogue n

Por vezes, nalguns pontos da jornada, surge algo em mim que me obriga a reflectir sobre o sentido daquilo que faço.
Este blogue, por exemplo, permite-me publicar (tornar público e acessível ao mundo) alguns aspectos que traduzem a minha visão do mundo.
Ainda que ninguém leia de momento, ainda que tudo aquilo que eu escreva possa ser ou não se interpretado de acordo com as minhas intenções e motivações, sei que há seres humanos para quem aquilo que eu escrevo, num determinado momento, pode abrir novas portas de percepção.
Tem-se passado isso comigo relativamente a outras coisas que leio ouço e vejo e vivo, às vezes onde menos espero.
Sei também que estes bits e bytes lançado no mundo são efémeros, na nossa perspectiva, ainda que não saiba se algum arqueólogo do futuro não virá a desencantar algumas destas linhas a que atribuirá algum significado acrescido, como nós hoje fazemos a singelas placas de textos quase incompreensíveis datados de há milhares de anos.
Quero com isto dizer que independentemente de agradar ou desagradar, estar ou não estar na moda, aquilo que procuro escrever aqui é aquilo que de algum modo foi importante para mim.
E pretendo fazê-lo sem mais preocupações.
Vem isto a propósito de, por vezes, não escrever aqui aquilo que deveras quero por não o poder fazer com o rigor e as referencias precisas que a comunicação actual exige e eu próprio costumo exigir.
De futuro, ainda que sejam sombras que me afectaram, vou tentar falar nelas.
Almada Negreiros escreveu a sua História de Portugal de Cor, explicando que “de cor” significa: como o coração se lembra.
Vou passar também a escrever alguns postes de cor: como o coração se lembra.

2004-05-18

Ando intrigadíssimo

Porque será que tanta gente pensa e diz que Baía é o melhor guarda-redes nacional ?
Como é que ninguém reconhece que Baía foi o principal carrasco da nossa selecção no último mundial ?
Felizmente estas verdades foram evidentes para o Sr. Scollari, valha-nos isso.

Ando preocupadíssimo

Ainda não me chegou o convite para a boda de Felipe e Letízia.

2004-05-17

Privatização

O Governo inicia o processo de privatização da água.
A TVI dá a notícia e, não sei em nome de quê, embora suspeite, afirma que actualmente os consumidores nem sequer são facturados por cerca de 40% da água que é distribuída e se perde pelo caminho, não entrando nas nossas torneiras.
Que felizardos temos sido ao não sermos facturados por essa água que não consumimos!
É certo que no preço que nos é facturado pelo metro cúbico de água consumida, esse e muitos outros custos associados ao processo, mesmo os ligados a ineficiências da empresa distribuidora são repercutidos, mas a TVI achava justo que na factura viesse descriminado: + 40% de água que nós lhe demos e que nunca aí chegou: n Euros.
É assim mesmo, aliás se, por exemplo, um trabalhador adoecer, também deverá vir facturado os respectivos dias de trabalho a dividir pelos consumidores servidos, e, porque não, um jantar oferecido pela administração.
A TVI quer transparência total, mas às vezes parece que vive noutro mundo.

2004-05-16

Aviso à navegação

Aproveitando as novas habilidades do blogger, introduzi a função “coment”, permitindo comentários a cada um dos “posts”.
Só agora percebi como funciona, tem de se clicar num # que aparece no fim de cada post e escrever o que lhes vai na alma.
Façam favor.

2004-05-12

Leitura recomendada

Aqui deixo um link para um excelente artigo de opinião de Álvaro Domingues, publicado hoje no público.

As imagens do Iraque

A CBS saiu à liça e depois vieram todos os outros e julgo que ainda virão mais.
Os maus tratos nas prisões iraquianas passaram a existir.
Os anti-Bush, como eu, exultam por mais este revés numa política néscia, os pro-Bush dizem, acertadamente, que maus tratos fazem-nos todos e pelo menos o nosso sistema democrático discute e resolve as questões abertamente.
Vasco Graça Moura, assim como o Abrupto, desenterram um documento de 143 páginas publicado em 1976 pela Presidência da República, sob o título de Relatório da comissão de averiguação de violências sobre presos sujeitos às autoridades militares, onde crimes semelhantes ou piores são cometidos por militantes do PC e da UDP no pós 25 de Abril.
E tudo isto é verdade, é triste mas é verdade, nenhum povo, nação ou família política está limpo destes crimes, a maldade reside na condição humana.
Só que, infelizmente, a democracia não previne de facto casos destes, só à força, quando as coisas entram pelos olhos dentro e não se conseguem abafar, foi assim com a pedofilia cá e noutros países, é assim com estes maus tratos. E, mesmo assim não resolve bem estas situações, só os pequenos são punidos, e a vida continua.
Todos os que conheciam, estimularam ou pelo menos não contrariaram e que tiveram a esperteza de não se deixar fotografar, em resumo os chamados responsáveis, esses nunca vão responder por coisa nenhuma.
Bush parece que não sabia de nada e, por acaso, neste caso até acredito nele porque vive num mundo de fantasia de "rambos" e "superman".
Eu, pelo contrário, mesmo sem saber, já sabia, ali, no Afganistão e em Guantânamo onde não se tiram fotografias Não preciso de as ver para saber, e nem penso que seja um exclusivo americano, nas prisões de Fidel também, nunca vi, mas sei que há, assim como na generalidade dos países árabes e por cá também, nalgumas esquadras.

2004-05-11

Ferro Rodrigues está feliz

A OCDE reviu em baixa as perspectivas económicas para o nosso país, afinal a retoma ainda vai esperar algum tempo e isto apesar do Governo ter cantado de galo, há uns dias no parlamento.

2004-05-08

Cena do Ódio

... Há tanta coisa a fazer, meu Deus, e esta gente entretida em guerras ...

Almada Negreiros

2004-05-07

As tenças

Ao ver como os governos compensam regiamente os homens sem qualidade que enxameiam o país, como muito bem diz Paulo de Almeida Sande no seu excelente artigo de opinião, hoje publicado no Diário de Notícias, vêm-me há memória tantos que bem mais mereciam, se não tantas benesses, ao menos uma vida digna.
Vem isto a propósito do manifesto apresentado por alguns atletas de alta competição, referenciado no jornal da 2 por Susana Feitor.
Dizia ela, com imensa razão, que jovens que entregam 15 anos da sua juventude a um esforço enorme, que engrandece o país e faz levantar a nossa, tão abalada auto-estima, quando vemos tocar o hino e subir a bandeira num qualquer palco do mundo, estão muitas vezes condenados à miséria, quando passado esse período áureo, o país se esquece deles e eles têm que enfrentar um futuro que não prepararam devidamente.
Tudo isto me fez lembrar as tenças reais, que já não se usam, mas que ajudavam a pagar essa dívida do pais.
Para mim, quem já ganhou uma medalha olímpica, pelo que deu ao país, merecia que o país lhe permitisse viver dignamente até à sua morte.
Mas tudo isto são problemas velhos: logo a seguir, na 2, no programa do Prof Saraiva sobre Afonso de Albuquerque, surge a referência à estrofe 24 do canto X de Os Lusíadas, onde Camões se queixa que:
“Isto fazem os reis, quando, embebidos
Numa aparência branda que os contenta,
Dão os prémios, de Aiace merecidos,
À língua vã de Ulisses, fraudulenta,
Mas vingo-me: que os bens mal repartidos
Por quem só doces sombras apresenta.
Se não os dão a sábios cavaleiros
Dão-os logo a avarentos lisonjeiros

2004-05-06

Figueiredo Lopes está confiante

Foi isso que ele disse: estou confiante que se o verão estiver como no ano passado vamos ter uma situação de novo muito grave relativamente aos fogos florestais.
O Governo não fez nada, como lhe competia, agora é só preciso que o tempo também se mantenha inalterado para que a situação se repita.
Com estes ministros podemos andar descansados porque eles velam para que tudo fique na mesma, agora se o tempo não estiver tão favorável lá nos arriscamos a ter menos fogos, mas isso, o que é que se pode fazer ?.

2004-05-05

Sem novidades

De qualquer modo também não é preciso, fica aqui um link para o artigo de opinião de Luís Fernandes, publicado hoje no público e que considero muito bom.

2004-05-03

Spam

Sem dúvida que devo ter muitos leitores em todo o mundo mas não consigo perceber qual dos meus posts suscitou o seguinte e-mail que recebi de Krystal Glover e que dizia assim:
Macaco-Deus size does matter, grow your penis today iwwK

2004-05-01

A Semântica e o Iraque

Foi na Formiga de Langton que vi a referência e o link para o excelente artigo de Terry Jones (lembram-se do mais sério dos Monty Pythons) sobre os problemas semânticos na guerra do Iraque.
Deixo também aqui o link para o texto original mas para que os leitores que não dominam o Inglês não percam o conteúdo segue adiante a minha tradução.


Um dos principais problemas da actual e emocionante aventura no Iraque é que ninguém consegue decidir que nome dar a todos os outros.
Na segunda guerra mundial nós lutávamos contra os alemães e os alemão lutavam contra nós, toda a gente sabia quem lutava contra quem e é assim que uma verdadeira guerra deve ser.
Contudo, no Iraque, não há sequer unanimidade quanto ao nome a dar aos americanos. Os Iraquianos insistem em chamá-los “americanos”, o que parece , aparentemente, razoável. Os americanos contudo insistem em se referir a si próprios como “forças da coligação”. É talvez primeira vez na história que os Estados Unidos tentam partilhar a sua glória militar com outros.
Holliwood, por exemplo, está-nos sempre a dizer que foram os americanos que ganharam a segunda Guerra mundial. Foi um americano que conduziu a fuga do campo Stalag Luft III no “The Greate Escape”; foram os americanos que capturaram a máquina Enigma no filme “U571”; e foi Tom Cruise que sozinho ganhou a Batalha de Inglaterra (no seu último projecto, “The Few”).
Sendo assim acho reconfortante ver os generais americanos no Iraque realçarem o papel dos parceiros da América na construção de uma vida melhor no Iraque.
Depois há o problema de como é que os americanos hão de chamar os Iraquianos – especialmente aqueles que eles matam. O leitor pode chamar por algum tempo, “terroristas fanáticos” a pessoas que defendem as suas casas de “rockets” e mísseis lançados de helicópteros e tanques. Eventualmente até os leitores de jornais começam a sentir que alguma coisa “cheira a esturro”.
Igualmente é tremendamente difícil fazer as pessoas aceitarem o rótulo de “rebeldes” para aqueles Iraquianos mortos por “snipers” americanos quando – como em Falluja – se verifica serem mulheres grávidas, miúdos de 13 anos, e velhos parados à porta das suas casas.
Também parece um pouco enganador chamar “guerrilheiros” a condutores de ambulância – quando foram mortos por tiros que atravessam o pára-brisas na altura em que conduzem feridos para o hospital – todavia que outro nome se lhes poderiam dar que não os transformassem em alvos ilegítimos.
Espero que comecem a perceber o problema.
A questão chave, parece ser, chamar aos mercenários americanos “civis” ou “contratantes civis” e aos civis Iraquianos “guerrilheiros” ou “rebeldes”.
Descrevendo o recente ataque a Najaf, o New York Times, alegremente, encontrou o termo “milícias”. Tem a vantagem de ser meio vago (ninguém sabe bem qual é o aspecto de um miliciano ou o que é que eles fazem), ao mesmo tempo fá-los parecer aquele tipo de estrangeiros que qualquer governo responsável deve executar no local.
Contudo o problema semântico do Iraque ainda vai mais fundo.
Por exemplo, há “a entrega do poder” que deverá vir a ter lugar a 30 de Junho. Como nenhum poder real vai ser entregue, os tipos da coligação tiveram que encontrar uma expressão menos conclusiva. Falam agora da entrega de “soberania”, que é uma noção convenientemente elástica. Alem disso entregar uma “noção” é muito mais fácil do que entregar alguma coisa concreta.
Ainda por outro lado os americanos insistem em que levaram a cabo “negociações” com os mojahedin em Falluja. Estas “negociações” consistiram nos americanos exigirem dos mojahediin a entrega de todos os seus lança granadas em troca do que o exército americano não rebentaria com a cidade. Há o perigo que isto pareça mais uma “ameaça unilateral” do que uma “negociação” – que geralmente implica algumas cedências de ambas as partes.
Quanto à palavra “cessar fogo”, já se torna difícil perceber o que significa. De acordo com testemunhos credíveis de Falluja, o actual conceito americano permite significativas concessões ao lançamento de bombas “cluster” e “flares”, e ao uso de artilharia e “snipers”.
Mas talvez o desenvolvimento linguístico mais interessante se encontre fora das áreas de conflito – na calma Sala Oval, onde muito poucas pessoas são mortas por espreitarem da janela. Aqui palavras como “estratégia” e “política” são diariamente utilizadas para a automática reacção de políticos e comandante militares que pensam que a força bruta é o único meio de resolver questões difíceis numa situação delicada. Como diz o Major Kevin Collins, um dos oficiais responsáveis pelos “marines” em Falluja, “Se decidirem começar uma luta, nós terminamo-la.”
No passado talvez utilizássemos uma frase como “rematada estupidez” em vez de “estratégia”. Mas as línguas têm uma vida própria ... o que já não podemos dizer de uma série de iraquianos inocentes.
Terry Jones, escritor, realizador de cinema e Python
Tradução: Nuno Jordão

2004-04-30

A forma e o conteúdo

Ouvi hoje falar do caso Carlisle e o que ouvi suscita-me algumas questões.
O BE atacou ferozmente o Primeiro Ministro, acusando-o de ter feito algumas diligências no sentido de favorecer o grupo Carlisle no processo de privatização da GALP.
O Primeiro Ministro ficou escamado e ofendido, sugerindo mesmo que talvez Louçã tenha interesses ocultos noutro concorrente.
O que me perece curioso neste incidente é que quem vai decidir a participação na privatização da GALP não é Deus, nem nenhuma entidade estranha ao governo é alguém controlado pelo Primeiro Ministro.
Se o Primeiro Ministro quer que ganhe a Carlisle e tem a faca e o queijo na mão para que isso aconteça por quê fazer telefonemas à CGD ou tomar outras medidas para favorecer este grupo, como insinuou Louçã ?
A razão parece-me óbvia: se bem que o conteúdo esteja assegurado, é preciso assegurar que a forma não o comprometa.
Tudo isto se insere no que já disse no post abaixo, os conteúdos estão no indivíduo a forma é determinada pela sociedade e é uma condição necessária à integração social.

2004-04-27

UTOPIAS

O grande debate ideológico que se tem imposto à humanidade, explicita ou implicitamente e que verdadeiramente importa, não se insere se não marginalmente, no conflito entre ricos e pobres, homens e mulheres, esquerda e direita, governos e governados, cristianismo ou islão, crentes e não crentes, católicos e protestantes, Norte e Sul, capitalismo e comunismo ou outras como estas dicotomias.
A grande dificuldade que se coloca ao homem reside num único conflito: indivíduo vs sociedade.
Vamos conhecendo, através da ciência e através da nossa própria experiência aquilo que nos interessa, a cada um de nós, mas temos de nos confrontar, a cada instante, com o modo com aquilo que nos convém afecta terceiros, e lhes impede de serem aquilo que lhes convém a que igualmente, legitimamente, têm direito.
É esta a grande dificuldade que resume em si todos os conflitos e todas as lutas sociais.
Como cada um de nós é um só, todas as utopias que construímos são feitas à nossa imagem e semelhança, são sempre os mundos onde nós nos sentíamos bem.
Foi este discurso sugerido, pelo programa que acabei de ver na dois, com a presença do Dr. Pádua e de um empresário que cuidadosamente construiu a sua empresa livre de fumo e onde se criticava sociedade e governo por não construírem essa utopia de gente trabalhadora, feliz, longe de fumo, fazendo desporto, bebendo leite desnatado e água nos “coffee brakes”, com apoio médico e psicológico permanente, como é o seu direito e naturalmente com grande produtividade no trabalho e chorudos lucros para os patrões (que, no entanto diziam, não percebem esta evidência).
Eu, na minha idiossincrasia, achei aquele mundo tenebroso e confesso que me via mais feliz num abiente pesado de fumo e álcool, junto de amigos cultores do espírito, cantando ou dizendo poesia ou discorrendo sobre o sentido da vida.
Trocava sem hesitar uma vida até aos 120 anos na utopia do Dr. Pádua por uma vida até aos 70 neste meu mundo.
É aqui que a porca torce o rabo e nunca chegaremos a acordo, os dois modelos não são compatíveis.
É por isto que o “Admirável Mundo Novo” de Huxley é uma obra notável.
Creio que tanto o Dr. Pádua como eu, assim como 99% dos homens e mulheres de hoje, gostaríamos de viver nesse admirável mundo novo, há poucas críticas a fazer a essa perfeita utopia.
No entanto, o selvagem suicida-se porque não era livre.... não tinha a simples liberdade de poder contrair febre amarela ...

2004-04-25

Sporting

O eng. Fernando Santos continua a dizer que o Sporting só depende de si.
É isto que me preocupa, porque por si está visto que não chega a lado nenhum.
O Porto deu todas as chances ao Sporting, teve um final de campeonato pobre, empates nas jornadas 27 e 31 e derrota na 29, o Sporting conseguiu fazer pior. Falhou sempre, sempre, nos momentos decisivos e acabou por entregar ao Porto o campeonato sem que este precise de jogar mais.
Preferia ver um Sporting a lutar e o Porto a não ceder a esta vergonha.
Tenho uma teoria, que os factos vão confirmando, que falseia o futebol mais do que o tráfico de influências: os jogadores profissionais quando estão insatisfeitos com o seu treinador, porque os chateia, têm uma arma terrível, deixam de jogar até que o homem saia, resulta sempre.
O Engenheiro obviamente já foi à vida e os adeptos têm que rezar para que se encontre um treinador com a única qualidade necessária: que caia no goto dos jogadores.

2004-04-23

Apito Dourado

Não restam dúvidas a PJ tem um excelente departamento de “marketing”.
O nome da operação “apito dourado” foi realmente genial.
Caiu no goto a toda a gente, já foi traduzida em várias línguas, mereceu imensa atenção, inclusive uma análise semântica de Eduardo Prado Coelho que lhe descobriu virtualidade que até a mim me escaparam, como o pito do apito e também vitupérios e críticas de outros pensadores: nome piroso, parece nome de café ranhoso de bairro.
Uma coisa é certa, entre aprovações e apupos, ninguém lhe ficou indiferente.
Em que consiste não se sabe bem, mas que tem um grande nome não há qualquer dúvida.

2004-04-22

Livros Fertagus 6

Pois é, não acabaram ainda as leituras de combóio.
De Almada Negreiros conhecia alguma poesia excelente, alguma parte da sua obra plástica e recordo-me ainda da sua presença marcante no velho Zip Zip que revelou ao jovem que eu era então o excelente pensador e conversador.
Tinha porém uma lacuna, o romance.
Ler “Nome de Guerra” foi a descoberta dessa nova faceta do multifacetado artista.
Não sei o que lhes diga, gostar posso dizer que gostei mas confesso que esperava um pouco mais.
Definitivamente prefiro a sua poesia e os seus ensaios.

2004-04-20

O Espectáculo

All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,

William Shakespeare: “As You Like It ”

2004-04-19

A Flor e a sua imagem

Corre agora um clip publicitário que traduz, sem palavras, aquilo que eu me esforço por ir dizendo aqui sobre o estado da nossa civilização.
É aquele anúncio em que 2 jovens rapazes disputam os favores de uma jovem rapariga, e onde vemos um colher uma flor e correr desesperadamente para a oferecer ao objecto do seu amor.
A moça, ingrata, despreza o estafado e suado rapaz, exibindo no seu telemóvel com ar triunfante uma fotografia de uma flor que lhe chegara primeiro electronicamente, enviada pelo comodista rival.
Pobre rapaz e ainda mais pobre rapariga.
Moral da história: o esforço e a dedicação nada valem face à esperteza saloia e mais vale a imagem mediática da flor do que a flor ela mesmo que se oferecia à vista ao tacto e ao olfacto.
Ora que grande porra de valores são aqui passados.

2004-04-18

O cabeça de lista

A coligação PSD/PP, pensou, pensou e lá conseguiu sair com um cabeça de lista para as europeias.
Imagino as dificuldades:
Gente capaz, interveniente que estude e viva os problemas com alguma profundidade, só causa problemas e incómodos.
Tem que ser alguém neutro que não levante ondas mas que tenha algum grau de charme, que se mova bem nos corredores, além de ter de ser mediático, para atrair votos.
Que não envergonhe o país, que saiba abrir ostras com elegância, que socialize nas recepções.
E eis que se faz a luz: João de Deus Pinheiro:
Como Ministro lá andou, sem levantar problemas, deixando os Secretários de Estado para lerem e estudarem os chatos “dossiers. Ele era Deus, além de Pinheiro.
Como Comissário Europeu é certo que foi apontado internacionalmente como a anedota dos Comissários, nunca estava, não sabia de nada, só jogava golfe, mas se não fez nada de bom, é certo que também não fez nada de mau e era charmoso, fazia boa figura nas recepções, nunca causou nenhum problema diplomático sério.
Tem que ser um cabeça de lista que caia bem ao povo e que não cause problemas sérios:
João de Deus Pinheiro é o homem indicado.
Os meus parabéns.

2004-04-16

Menopausa

Negócio de milhões, sem dúvida, e onde tudo é permitido.
Falo da terapêutica de substituição ou de compensação ou hormonal ou sei lá, apenas sei que também há um desinteressante debate semântico neste domínio.
Acontece agora que a mesma instituição que verificou cientificamente que essa terapêutica aumentava em 25% o risco de cancro, chega agora há conclusão, igualmente científica, que afinal o estrogénio até diminui o risco de cancro, isto sem por em causa o primeiro estudo.
Em que ficamos ?
O médico convidado pela 2 explicou o óbvio: Não se pode reportar assim, tem que se ler os estudos, as suas premissas, a metodologia e explicou claramente os ditos 25% de aumento:
Verificam-se normalmente 8 casos de cancro em 10 000 mulheres sujeitas a esta terapêutica, no estudo, registaram 10, em 10 000, logo mais 2 casos em 10, 2/10=0,2, aumentou 20% ! mas também pode ser 2 em 8 que até dá 25 % ? tanto faz, Clarissimamente.
Além disso parece que o estudo foi conduzido em mulheres na faixa etária entre os 70 e 80 anos.
Infelizmente não o deixaram prosseguir, mas também não tem importância, com números assim acho que se consegue provar tudo, o que interessa aos lobbies das terapêuticas não hormonais como aos das terapêuticas hormonais.
Vamos a ver quem tem mais força. A "ciência" cá está para o servir.

2004-04-15

Bush e Sharon

Já escrevi aqui algures que não são os EUA que apoiam Israel mas é antes Israel que controla os EUA. Via-o bem quem estava atento porque, de qualquer modo, havia sempre um pouco de pudor e a preocupação de disfarçar a realidade.
Agora já se perdeu a vergonha, porque Sharon é Sharon e Bush é Bush e nem um nem outro sabem nem sentem necessidade de disfarçar.
Quando Sharon mandou assassinar o Sheique, os EUA foram praticamente os únicos a não condenar Israel, obviamente.
Agora Sharon voltou aos EUA e ordenou maior apoio, para o muro, os colunatos, enfim, tudo o que queria e Bush lá deitou por terra várias resoluções das Nações Unidas e respondeu-lhe logo: OK Chefe.
Quem viu na televisão a conferência de imprensa, certamente reparou como Sharon cumprimentou Bush no final com palmadinhas nas costas e, embora houvesse voz off do comentador nacional, ouvia-se perfeitamente com os ouvidos da alma a expressão: “good dog”, enquanto afagava Bush que arfava de língua de fora.
É triste, é muito triste, sobretudo quando me vejo forçado a autoclassificar o meu país como lacaio do lacaio.