2004-04-25

Sporting

O eng. Fernando Santos continua a dizer que o Sporting só depende de si.
É isto que me preocupa, porque por si está visto que não chega a lado nenhum.
O Porto deu todas as chances ao Sporting, teve um final de campeonato pobre, empates nas jornadas 27 e 31 e derrota na 29, o Sporting conseguiu fazer pior. Falhou sempre, sempre, nos momentos decisivos e acabou por entregar ao Porto o campeonato sem que este precise de jogar mais.
Preferia ver um Sporting a lutar e o Porto a não ceder a esta vergonha.
Tenho uma teoria, que os factos vão confirmando, que falseia o futebol mais do que o tráfico de influências: os jogadores profissionais quando estão insatisfeitos com o seu treinador, porque os chateia, têm uma arma terrível, deixam de jogar até que o homem saia, resulta sempre.
O Engenheiro obviamente já foi à vida e os adeptos têm que rezar para que se encontre um treinador com a única qualidade necessária: que caia no goto dos jogadores.

2004-04-23

Apito Dourado

Não restam dúvidas a PJ tem um excelente departamento de “marketing”.
O nome da operação “apito dourado” foi realmente genial.
Caiu no goto a toda a gente, já foi traduzida em várias línguas, mereceu imensa atenção, inclusive uma análise semântica de Eduardo Prado Coelho que lhe descobriu virtualidade que até a mim me escaparam, como o pito do apito e também vitupérios e críticas de outros pensadores: nome piroso, parece nome de café ranhoso de bairro.
Uma coisa é certa, entre aprovações e apupos, ninguém lhe ficou indiferente.
Em que consiste não se sabe bem, mas que tem um grande nome não há qualquer dúvida.

2004-04-22

Livros Fertagus 6

Pois é, não acabaram ainda as leituras de combóio.
De Almada Negreiros conhecia alguma poesia excelente, alguma parte da sua obra plástica e recordo-me ainda da sua presença marcante no velho Zip Zip que revelou ao jovem que eu era então o excelente pensador e conversador.
Tinha porém uma lacuna, o romance.
Ler “Nome de Guerra” foi a descoberta dessa nova faceta do multifacetado artista.
Não sei o que lhes diga, gostar posso dizer que gostei mas confesso que esperava um pouco mais.
Definitivamente prefiro a sua poesia e os seus ensaios.

2004-04-20

O Espectáculo

All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,

William Shakespeare: “As You Like It ”

2004-04-19

A Flor e a sua imagem

Corre agora um clip publicitário que traduz, sem palavras, aquilo que eu me esforço por ir dizendo aqui sobre o estado da nossa civilização.
É aquele anúncio em que 2 jovens rapazes disputam os favores de uma jovem rapariga, e onde vemos um colher uma flor e correr desesperadamente para a oferecer ao objecto do seu amor.
A moça, ingrata, despreza o estafado e suado rapaz, exibindo no seu telemóvel com ar triunfante uma fotografia de uma flor que lhe chegara primeiro electronicamente, enviada pelo comodista rival.
Pobre rapaz e ainda mais pobre rapariga.
Moral da história: o esforço e a dedicação nada valem face à esperteza saloia e mais vale a imagem mediática da flor do que a flor ela mesmo que se oferecia à vista ao tacto e ao olfacto.
Ora que grande porra de valores são aqui passados.

2004-04-18

O cabeça de lista

A coligação PSD/PP, pensou, pensou e lá conseguiu sair com um cabeça de lista para as europeias.
Imagino as dificuldades:
Gente capaz, interveniente que estude e viva os problemas com alguma profundidade, só causa problemas e incómodos.
Tem que ser alguém neutro que não levante ondas mas que tenha algum grau de charme, que se mova bem nos corredores, além de ter de ser mediático, para atrair votos.
Que não envergonhe o país, que saiba abrir ostras com elegância, que socialize nas recepções.
E eis que se faz a luz: João de Deus Pinheiro:
Como Ministro lá andou, sem levantar problemas, deixando os Secretários de Estado para lerem e estudarem os chatos “dossiers. Ele era Deus, além de Pinheiro.
Como Comissário Europeu é certo que foi apontado internacionalmente como a anedota dos Comissários, nunca estava, não sabia de nada, só jogava golfe, mas se não fez nada de bom, é certo que também não fez nada de mau e era charmoso, fazia boa figura nas recepções, nunca causou nenhum problema diplomático sério.
Tem que ser um cabeça de lista que caia bem ao povo e que não cause problemas sérios:
João de Deus Pinheiro é o homem indicado.
Os meus parabéns.

2004-04-16

Menopausa

Negócio de milhões, sem dúvida, e onde tudo é permitido.
Falo da terapêutica de substituição ou de compensação ou hormonal ou sei lá, apenas sei que também há um desinteressante debate semântico neste domínio.
Acontece agora que a mesma instituição que verificou cientificamente que essa terapêutica aumentava em 25% o risco de cancro, chega agora há conclusão, igualmente científica, que afinal o estrogénio até diminui o risco de cancro, isto sem por em causa o primeiro estudo.
Em que ficamos ?
O médico convidado pela 2 explicou o óbvio: Não se pode reportar assim, tem que se ler os estudos, as suas premissas, a metodologia e explicou claramente os ditos 25% de aumento:
Verificam-se normalmente 8 casos de cancro em 10 000 mulheres sujeitas a esta terapêutica, no estudo, registaram 10, em 10 000, logo mais 2 casos em 10, 2/10=0,2, aumentou 20% ! mas também pode ser 2 em 8 que até dá 25 % ? tanto faz, Clarissimamente.
Além disso parece que o estudo foi conduzido em mulheres na faixa etária entre os 70 e 80 anos.
Infelizmente não o deixaram prosseguir, mas também não tem importância, com números assim acho que se consegue provar tudo, o que interessa aos lobbies das terapêuticas não hormonais como aos das terapêuticas hormonais.
Vamos a ver quem tem mais força. A "ciência" cá está para o servir.

2004-04-15

Bush e Sharon

Já escrevi aqui algures que não são os EUA que apoiam Israel mas é antes Israel que controla os EUA. Via-o bem quem estava atento porque, de qualquer modo, havia sempre um pouco de pudor e a preocupação de disfarçar a realidade.
Agora já se perdeu a vergonha, porque Sharon é Sharon e Bush é Bush e nem um nem outro sabem nem sentem necessidade de disfarçar.
Quando Sharon mandou assassinar o Sheique, os EUA foram praticamente os únicos a não condenar Israel, obviamente.
Agora Sharon voltou aos EUA e ordenou maior apoio, para o muro, os colunatos, enfim, tudo o que queria e Bush lá deitou por terra várias resoluções das Nações Unidas e respondeu-lhe logo: OK Chefe.
Quem viu na televisão a conferência de imprensa, certamente reparou como Sharon cumprimentou Bush no final com palmadinhas nas costas e, embora houvesse voz off do comentador nacional, ouvia-se perfeitamente com os ouvidos da alma a expressão: “good dog”, enquanto afagava Bush que arfava de língua de fora.
É triste, é muito triste, sobretudo quando me vejo forçado a autoclassificar o meu país como lacaio do lacaio.

2004-04-14

Livro Fertagus 5

Já tinha lido os mais conhecidos, faltava-me este, “O Castelo”.
Mais um grande livro do dito maior autor do século XX, Franz Kafka, e este o mais belo dos seus romances depois de “O Processo” e “América” segundo reza a capa da minha edição da Europa-América.
Não li ainda “América” ou a sua nova edição que saiu com um outro nome, mas partilho a opinião que tenho ouvido a alguns interessados na obra de Kafka e considero este mais belo e abrangente do que “O Processo”.
Ninguém como Kafka conseguiu compreender e exprimir tão bem a angústia de viver nesta civilização ocidental, em que nos inserimos, cuja perfeição consideramos intocável e que estamos dando vidas para proteger.

2004-04-12

Revolução/Evolução

Involução, inovação, ovulação, ovação.... Who cares?

2004-04-11

Guerra Civil

Leio, cada vez com mais insistência que o Iraque está à beira de uma guerra civil, até eu já proferi essa sentença com o mesmo ânimo leve dos media.
Mas pensando um pouco, mesmo muito pouco, pode justamente perguntar-se “Onde está a guerra civil, quando os grandes inimigos da sociedade civil iraquiana se unem contra um inimigo exterior ?” “Será que as forças de ocupação são já parte da sociedade iraquiana ?” “Onde antes se viu Xeitas e Sunitas e mesmo alguns Curdos no mesmo lado da barricada ?”
Não, meus amigos, nunca se esteve tão longe de uma guerra civil no Iraque, o que cresce a olhos vistos é uma guerra de libertação.

2004-04-08

Auto-análise

Não sei bem porquê mas vibrei ontem mais com a vitória do Desportivo da Corunha do que com semelhante proeza do meu compatriota FC Porto.
Talvez porque me seduzam, sempre, as vitórias de David sobre Golias e o Porto é já um Golias.
Por outro lado o galego Desportivo é duplamente David:
David face ao gigante Milan que derrotou, também David face a Castela, que assistiu desesperada ao colapso do seu Real Madrid.

2004-04-02

Questões avulsas

Como se dirá o indizível ? Prometo-vos que quando souber vos digo.

Vi hoje, na 2, alguém saudar novas edições livreiras apenas pelos aspectos formais: a textura do papel, o formato, a presença de relevos na capa e aspectos como estes.
Eis que surge um livro fechado, lembram-se ? Eram todos assim há meia dúzia de anos e, de repente, parecem já tão distantes, já tinha esquecido completamente.
No entanto, ao recordar, descobri o prazer já perdido de desvirginar um livro novo, com a ajuda de um corta-papel ou, por vezes, tal era a ânsia de o abrir, de forma atabalhoada e grosseira com a os próprios nós dos dedos.

Identificação

No Mandarim, Eça de Queirós faz-nos meditar sobre o nosso envolvimento emocional em função da distância e da proximidade, geográfica ou cultural. Teodoro nunca teria assassinado o Mandarim se o conhecesse ou vivesse perto dele, mas pouco hesitou em fazê-lo quando ele lhe era totalmente estranho e vivia a milhares de quilómetros de distância.
Veio-me isto à memória ao observar as ondas emocionais geradas pelos atentados terroristas: julgo que morreram tantos mortos em Bali como em Madrid e foram muitos também no Iraque, Arábia Saudita e Marrocos, todos humanos como nós, mas estando Madrid aqui tão próximo, conhecendo nós tão bem os espanhóis, identificamo-nos muito mais com eles, e partilhamos mais facilmente a sua dor. Sentimos, podia mesmo ser connosco.
Também no conflito Israelo-Palestiniano, já li esta reflexão algures, mesmo quando ideologicamente estamos mais próximos dos palestinianos, dificilmente deixamos de nos perturbar mais quando rebenta uma bomba num autocarro ou num restaurante israelita.
Morre gente vestida como nós, que inocentemente almoçava num restaurante, como nós por vezes fazemos. Podíamos ser nós. A morte, igualmente cruel, de palestinianos, com seus trajes diferentes e modo de vida estranho é sempre mais suportável nas emoções.
Creio aliás que é só isto que permite manter o apoio a Israel naquela guerra desigual entre David e Golias mas onde David não é, neste caso, o futuro Rei de Israel.

2004-03-29

Livro FERTAGUS 4

Não sei se ando distraído ou se há muitos pouca gente a escrever sobre um período determinante da nossa história, que muitos de nós viveram intensamente.
Refiro-me ao que tem sido chamado como PREC, mas não a Otelos, nem a Conselhos de Revolução, Governos Provisórios, campanhas do MFA e aspectos, como estes, da superestrutura e das elites e vanguardas do PREC, não, sobre isto ainda se tem escrito alguma coisa, ao que eu me refiro é à vivência de gente anónima, das suas esperanças e desilusões e dos seus pequenos papéis na vivência de um período histórico singular e único.
Mesmo entre gente da mesma geração, que viveu tudo isto, pouco se fala e se recorda, é como se fosse um sonho sonhado dentro de um sono colectivo do qual já acordámos e de que não nos lembramos ou não nos queremos lembrar. Muitos de nós mesmo já não nos reconhecemos nesse sonho. Conheço imensos pequenos casos de “amnésia” e todos conhecemos, casos públicos como o do nosso actual Primeiro Ministro, que já ninguém consegue, sequer, imaginar a roubar a mobília da Faculdade de Direito.
Vem isto a propósito do livro “Crónicas Portuguesas” de John Reeve.
O autor, luso-francês, nado e criado no nosso país, viveu tudo isto. Residindo agora lá fora, tem talvez a distância necessária para analisar vários aspectos da nossa evolução pos-PREC, relacionando os anos 90 nacionais, data das crónicas, com as vivências desses gloriosos anos 70.
Trata-se de um excelente e muito interessante livro, sobretudo para os da minha geração.

2004-03-28

Castigo

Norah Jones não canta mal, não obstante um timbre de voz que Deus ou alguns genes lhe deram e que tem algo que me é desagradável, compõe e interpreta melodias bonitas, mais interessantes que a generalidade da música que nos vem pelas playing lists das nossas rádio.
Mas a sua presença constante que nos é imposta pelos media, em entrevistas, clips, presenças nas rádios, começam a tornar-se insuportáveis.
Já não a posso ouvir, é de mais, basta, têm conseguido destruir uma promessa que podia ser interessante no panorama da música popular, actual.
Deixem a rapariga em paz.

2004-03-27

Excomunhão

Numa entrevista, que vi, a Norman Mailer, um notável escritor e jornalista americano, ouvi-o dizer o seguinte:
“Neste país, os EUA, ainda não matamos pessoas por delitos de opinião, mas somos capazes de as arruinar e de as impedir de ganhar a vida seja onde for.”
É, de facto, esta a grande arma da civilização ocidental, não mata de facto fisicamente os seus filhos, como fazem os bárbaros, porque é feio e suja tudo de sangue, mas acaba com as suas vidas lentamente, excluindo-as do sistema e impedindo-as de viver, tudo isto sem o menor remorso ou comoção.

A Case Study

O Inglês fica hoje muito bem nos nossos blogues, muitos o usam a torto e a direito e quem sou eu para destoar, aqui fica assim um título em Inglês.
Mas do que queria falar agora era de um processo em curso que merece ser analisado como um estudo de caso, refiro-me ao caso Villas-Boas.
O Reputado Psicólogo, Villas-Boas, Director do Refúgio Aboim Ascensão, entre outras ocupações de destaque, conquistou uma imagem mediática notável. Quem não se lembra de um recém-nascido abandonado no aeroporto de Faro por uma turista inglesa, que foi acolhido pelo Refúgio, não obstante uma guerra com a justiça britânica que foi ganha em favor do bom senso e dos prestimosos cuidados que aí tinha, salvando-a de uma mãe instável e potencialmente iníqua.
Acontece que, ciente do seu estatuto, o reputado psicólogo tem, certo dia, um deslize e comete um crime de lesa espectáculo, ao atacar a adopção de crianças por casais homossexuais.
Crime dos crimes, como foi possível afrontar esse esteio do poder actual e sobreviver incólume como figura mediática e reconhecida.
Na realidade sobreviveu, inteligente, como é, conseguiu passar por todas as provações, como aqui já me referi noutra crónica, conseguindo encontrar mesmo alguns aplausos tímidos de alguns sectores resistentes que encontraram folgo para vir ao de cima .
Mas, não sejamos ingénuos, será que sobreviveu mesmo ?
Os “masters” estão atentos e o crime foi demasiado grave, procuraram, espiolharam e encontraram outro crime hediondo: Não é que o Refugio não aceita agora crianças deficientes, porque não tem estruturas para cuidar delas dignamente, diz, mas isso que importa, com capacidade ou não essa restrição é intolerável.
Julgo que o caso vai continuar e só acabará com o completo ostracismo de Villas- Boas. Vou seguir este caso atentamente.

2004-03-25

Não restam dúvidas

Saltou no debate de hoje na assembleia aquilo que eu já temia: só há uma ideia para a luta contra o terrorismo, consiste em não fazer o que os terroristas querem..
Foi assim que Durão justificou a não retirada dos GNR do Iraque: Se o fizéssemos os terroristas iam pular de contentes, não o podemos fazer agora.
E fica por aqui o génio humano, reduzido a um comportamento reactivo e de sentido contrário, tu puxa daí que eu puxo daqui e vamos ver quem tem mais força.
O fundamental é não fazer o que os terroristas querem. Creio que está assim explicado o recrudescer do conflito Israelo-Palestiniano, já estou a ouvir Durão e companhia: A paz na palestina é o que os terroristas querem, com a nossa ajuda nem pensar nisso.
Parece-me que assim não vamos lá e vozes lúcidas como a de Mário Soares há poucos dias, apelando há compreensão profunda do fenómeno, são arrasadas pela direita e pela esquerda.
Agora, quero ir comprar o “Ensaio sobre a Lucidez”, de Saramago mas tenho receio que seja isso que os terroristas querem.

2004-03-23

Livros Fertagus 3

"Os conquistadores" de Andre Malraux.

O meu encanto com a "Condição Humana" e o facto de ter encontrado "Os Conquistadores", numa estante a que tive acesso, despertou a minha curiosidade por mais esta outra obra de Malraux..
A mesma temática, a revolução chinesa no início do século XX, sem atingir no entanto o mesmo nível no seu conteúdo humano. Lido mais recentemente, já quase não retenho nada dele, para além dos aspectos gerais, enquanto que da Condição Humana me recordo ainda de ínfimos detalhes e creio que não esquecerei nunca a descrição das duas tentativas falhadas de atentados a Chag Kay Check.

2004-03-20

O Furacão

Lembro-me de “Hurricane”, uma canção de Bob Dylan, da minha juventude, que nem sequer era uma das minhas preferidas.
A letra, começa assim:

Pistol shots ring out in the barroom night
Enter Patty Valentine from the upper hall
She sees the bartender in a pool of blood,
Cries out, "My God, they killed them all!"
Here comes the story of the Hurricane,
The man the authorities came to blame
For somethin' that he never done.
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world.


Está em negrito o que ficou gravado no meu cérebro.
Muitos anos depois vejo o filme, “The hurricane”, julgo que em português se chama “O Furacão” e que me conta a história cantada por Bob Dylan, que já não recordo em detalhe, com excepção de um pequeno aspecto da filosofia do “Furacão” sobre a resistência ao seu martírio:
Tantos anos na prisão, fizeram-me compreender que o poder das autoridades deriva da chantagem sobre as coisas desejáveis pela maioria dos presos: tempo livre no parque da prisão, horas de convívio com outros presos, alguns privilégios. A única forma de luta a que me dediquei foi a de aprender a desprezar todas essas coisas.
Para desespero dos seus guardiões, o “Furacão” começou a dormir de dia e a viver na sua cela, sozinho, acordado à noite dedicado aos seus prazeres pessoais.
Foi assim que bateu o sistema.
Eu, aprendi muito deste elemento de lucidez do "Furacão"
Mutatis mutandis, julgo que isto é uma lição de sobrevivência no nosso quotidiano.

2004-03-18

Basta

Não queria escrever mais sobre isto mas os minutos finais do telejornal da TVI de hoje fizeram-me saltar a tampa.
A TVI anda entretida em deixar sacos em aeroportos para dizer que ninguém os encontra, a TVI trás bombas fingidas na mala de carros e insurge-se de não ser vistoriada em parques de estacionamento e, oh crime dos crimes, nem na fronteira portuguesa de Vila real, que o ministro disse que ia ser reforçada.
A TVI faz campanha por um Estado Policial.
A TVI quer destruir o longo caminhar até Shenguen, numa só penada.
A TVI faz esforços desesperados para provar coisas que todos nós sabemos. Quem não saberá que pode levar uma bomba na mala do seu carro e numa mochila e rebentar com ela onde quizer ? É precisamente por isso que há terrorismo, capice ?
A TVI anda distrair os meios de segurança. Imagino os telefonemas nervosos de ministros tipo Arnault .

Finalmente, a TVI muda de tema e mostra meninos e meninas modelos e este final de declaração de uma menina de 11 ou 12 anos:
Menina: E vi um homem a olhar intensamente para mim.
Jornalista: E o que é que sentistes ?
Menina: Que a fama estava perto !!!!!!!!!!
Será que estamos todos loucos ou serei só eu ?

O que querem os terroristas

Leio na imprensa declarações do tipo "eu não deixo de andar de comboio porque isso é o que os terroristas queriam". Será que é isso que os terroristas querem que as pessoas não andem de combóio ?
Já no 11 de Setembro se fazia o mesmo raciocínio relativamente ao avião.
Também, para muitos, o voto dos espanhóis foi o que os terroristas queriam, até ouvi, na TSF, um deputado espanhol, que presumivelmente vê o tacho a fugir, dizer que não sabe quem vai mandar em Espanha se Zapatero ou Bin Laden !
Seria isto que os terrorista queriam, que ganhasse o PSOE ?
Eu penso que se estão nas tintas para tudo isto, mas isso não vem à questão agora, o que quero dizer é que procuro fazer o que quero e penso que me convém, sem me importar se é ou não é o que os terroristas querem.

2004-03-16

Os piões

Parei, nos meus zappings televisivos, num debate na 2 sobre a segurança rodoviária em Lisboa.
Falava um eminente convidado, fardado de GNR, apontando as devidas culpas aos piões, dado que a nossa atenção só se preocupa com os automobilistas mas os piões também são culpados (como se houvesse 2 raças, de piões e de automobilistas e não fossemos todos os mesmos).
Dizia ele, mais ou menos isto: Os piões habituados a atravessar a estrada em determinado sítio, que lhes é mais favorável, não se dão ao trabalho de procurar a passadeira que estará a 10 ou 20 metros e se vão para a passadeira atiram-se de qualquer maneira como se tivessem totalmente seguros.
Pobres piões, ninguém lhes faz as passadeiras nos sítios que lhe são mais convenientes tem de arriscar a vida em corridas e gincanas absurdas, todavia se prefere dar-se ao incómodo de procurar a passadeira para garantir a segurança, desiluda-se porque tem de passar na passadeira com os mesmíssimos cuidados.
Foi ele que disse e não eu, só não se questionou sobre os seus argumentos para atacar os piões e que afinal apenas os justificam.
Passeando por ruas de Paris, já me parei a meditar nesta coisa simples, afinal é possível fazer passadeiras no enfiamento dos passeios. Isto, que parece óbvio, é totalmente desconhecido em Lisboa, a cada quarteirão, para se seguir em frente, tem que se fazer uma chicane, todas as passadeiras estão deslocadas 1 ou 2 metros para dentro da rua que se atravessa, Porquê ? Vale-nos afinal o bom senso porque lá vamos seguindo em frente, fora da passadeira e, graças a Deus, escapando à multa.

2004-03-14

O uso dos adjectivos

Sobre o 11 de Março em Madrid a única contribuição, que li, que transcende os lugares comuns habituais destas ocasiões é o excelente poste da renascida Formiga de Langton denominado “Lógicas estranhamente "Booleanas"”, sigam o link.
O meu comentário de hoje vai apenas para o ror de vezes que vi adjectivar este acto terrorista, como aliás já antes, o de 11 de Setembro, e os seus autores, como covarde (“tímido e medroso”, segundo o dicionário Houaiss).
De facto, é dos poucos atributos negativos que julgo não lhes podemos imputar.
Chamemo-lhes assim: cruéis, desumanos, assassinos ou ainda, o mais apropriado de todos que foi, aliás, o que o povo espanhol, na sua sabedoria, mais utilizou: “Hijos de puta”.