Parei, nos meus zappings televisivos, num debate na 2 sobre a segurança rodoviária em Lisboa.
Falava um eminente convidado, fardado de GNR, apontando as devidas culpas aos piões, dado que a nossa atenção só se preocupa com os automobilistas mas os piões também são culpados (como se houvesse 2 raças, de piões e de automobilistas e não fossemos todos os mesmos).
Dizia ele, mais ou menos isto: Os piões habituados a atravessar a estrada em determinado sítio, que lhes é mais favorável, não se dão ao trabalho de procurar a passadeira que estará a 10 ou 20 metros e se vão para a passadeira atiram-se de qualquer maneira como se tivessem totalmente seguros.
Pobres piões, ninguém lhes faz as passadeiras nos sítios que lhe são mais convenientes tem de arriscar a vida em corridas e gincanas absurdas, todavia se prefere dar-se ao incómodo de procurar a passadeira para garantir a segurança, desiluda-se porque tem de passar na passadeira com os mesmíssimos cuidados.
Foi ele que disse e não eu, só não se questionou sobre os seus argumentos para atacar os piões e que afinal apenas os justificam.
Passeando por ruas de Paris, já me parei a meditar nesta coisa simples, afinal é possível fazer passadeiras no enfiamento dos passeios. Isto, que parece óbvio, é totalmente desconhecido em Lisboa, a cada quarteirão, para se seguir em frente, tem que se fazer uma chicane, todas as passadeiras estão deslocadas 1 ou 2 metros para dentro da rua que se atravessa, Porquê ? Vale-nos afinal o bom senso porque lá vamos seguindo em frente, fora da passadeira e, graças a Deus, escapando à multa.
2004-03-16
2004-03-14
O uso dos adjectivos
Sobre o 11 de Março em Madrid a única contribuição, que li, que transcende os lugares comuns habituais destas ocasiões é o excelente poste da renascida Formiga de Langton denominado “Lógicas estranhamente "Booleanas"”, sigam o link.
O meu comentário de hoje vai apenas para o ror de vezes que vi adjectivar este acto terrorista, como aliás já antes, o de 11 de Setembro, e os seus autores, como covarde (“tímido e medroso”, segundo o dicionário Houaiss).
De facto, é dos poucos atributos negativos que julgo não lhes podemos imputar.
Chamemo-lhes assim: cruéis, desumanos, assassinos ou ainda, o mais apropriado de todos que foi, aliás, o que o povo espanhol, na sua sabedoria, mais utilizou: “Hijos de puta”.
O meu comentário de hoje vai apenas para o ror de vezes que vi adjectivar este acto terrorista, como aliás já antes, o de 11 de Setembro, e os seus autores, como covarde (“tímido e medroso”, segundo o dicionário Houaiss).
De facto, é dos poucos atributos negativos que julgo não lhes podemos imputar.
Chamemo-lhes assim: cruéis, desumanos, assassinos ou ainda, o mais apropriado de todos que foi, aliás, o que o povo espanhol, na sua sabedoria, mais utilizou: “Hijos de puta”.
2004-03-13
Livro Fertagus 2
Já aqui dei conta de uma recomendação de Eduardo Prado Coelho que me ficou a buzinar ao ouvido. Tratava-se do livro “Vivermos e pensarmos como porcos” de Chatelier.
O que li na crónica de Eduardo PC referia a excelência académica do autor, um notável e muito lúcido matemático, todavia bruto e desajeitado, que se deixou enredar pelo seu editor num título e capa ultra kitch que poderia distrair os potenciais leitores levando-os a comprar não gato por lebre, mas antes lebre por gato.
Seria assim um ouro que parceria falso.
Se não fossem estas dicas nunca compraria, de facto, este livro, tudo me fazia lembrar um qualquer artigo tipo “Readers Digest”, produzido por um académico daqueles que quando tem uma ideia escreve um artigo e quando tem duas ideias já escreve um livro.
Li-o e considero-o realmente um “livro marco” embora reconheça que não é para todos, é um livro difícil, muito próprio de uma certa cultura intelectual francesa, para o compreender tem que se ser já iniciado na lucidez.
Para mim tornou-se uma daquelas obras de referência, importante para compreender o mundo em que vivemos hoje, ao nível de outras que cito às vezes, como o admirável “Admirável Mundo Novo” de Huxley, o “1984” de Orwell, o ensaio sobre a cultura de Dwight MacDonalds, a poesia de Fernando Pessoa e também alguma de Almada Negreiros, a obra de Akim Bey, além de muitas outras que não descobri ainda.
O que li na crónica de Eduardo PC referia a excelência académica do autor, um notável e muito lúcido matemático, todavia bruto e desajeitado, que se deixou enredar pelo seu editor num título e capa ultra kitch que poderia distrair os potenciais leitores levando-os a comprar não gato por lebre, mas antes lebre por gato.
Seria assim um ouro que parceria falso.
Se não fossem estas dicas nunca compraria, de facto, este livro, tudo me fazia lembrar um qualquer artigo tipo “Readers Digest”, produzido por um académico daqueles que quando tem uma ideia escreve um artigo e quando tem duas ideias já escreve um livro.
Li-o e considero-o realmente um “livro marco” embora reconheça que não é para todos, é um livro difícil, muito próprio de uma certa cultura intelectual francesa, para o compreender tem que se ser já iniciado na lucidez.
Para mim tornou-se uma daquelas obras de referência, importante para compreender o mundo em que vivemos hoje, ao nível de outras que cito às vezes, como o admirável “Admirável Mundo Novo” de Huxley, o “1984” de Orwell, o ensaio sobre a cultura de Dwight MacDonalds, a poesia de Fernando Pessoa e também alguma de Almada Negreiros, a obra de Akim Bey, além de muitas outras que não descobri ainda.
2004-03-11
O maior cego é o que não quer ver
Quando a 25 de Setembro do passado ano escrevi sobre os mortos na estrada (os mais curiosos poderão pesquisar no arquivo ) e sobre a hipocrisia e consequente inutilidade das campanhas pela segurança rodoviária que elegem sistematicamente para combate os “moinhos de vento” do álcool e do excesso de velocidade, não fazia ideia deste estudo, agora publicado e referido neste artigo do público, que aponta, como eu disse então, o sono, como uma das principais causas de acidente.
Não obstante o título deste artigo, que releva do estudo, ser “sono ao volante mata mais do que o álcool” a notícia que vi na TV referenciando este mesmo estudo dizia: fica assim demonstrando que o sono ao volante, depois do álcool e do excesso de velocidade é a terceira causa de acidentes de viação.
É caso para repetir que o maior cego é mesmo o que não quer ver
Não obstante o título deste artigo, que releva do estudo, ser “sono ao volante mata mais do que o álcool” a notícia que vi na TV referenciando este mesmo estudo dizia: fica assim demonstrando que o sono ao volante, depois do álcool e do excesso de velocidade é a terceira causa de acidentes de viação.
É caso para repetir que o maior cego é mesmo o que não quer ver
O título deste blogue
Macacos-Deuses, não é, como alguns pensarão, uma dicotomia elegante que fica bem em qualquer reunião social, não, nada disso o que eu quero dizer com este título é simplesmente que todos nós, todos nós, todos nós, todos nós, quero dizer todos nós, eu, tu que me lês, mas também todos os notáveis e os miseráveis e os sem abrigo, Bach, da Vinci, Bush, Hitler, Dutroux, o Sr. Videira jardineiro, o Sr. Bin Laden, todos, todos, todos, somos:
Macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, quero dizer macacos e também Deuses.
Hoje, em Espanha, morreram mais de uma centena de macacos, o que é triste, mas também, mais de uma centena de Deuses, o que é gravíssimo.
Aos Deuses que os mataram é preciso dizer, gritar um milhão de vezes, que se enganaram e não mataram macacos, mataram sim outros Deuses como eles.
Macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, macacos e Deuses, quero dizer macacos e também Deuses.
Hoje, em Espanha, morreram mais de uma centena de macacos, o que é triste, mas também, mais de uma centena de Deuses, o que é gravíssimo.
Aos Deuses que os mataram é preciso dizer, gritar um milhão de vezes, que se enganaram e não mataram macacos, mataram sim outros Deuses como eles.
2004-03-08
Opiniões
Charlotte prefere Julio Sosa a cantar “Cambalache”.
Ouvi com atenção esta versão que é, sem dúvida, também uma excelente interpretação, mas entre estas duas o meu coração não balança, prefiro Adriana Varela, de longe.
Ouvi com atenção esta versão que é, sem dúvida, também uma excelente interpretação, mas entre estas duas o meu coração não balança, prefiro Adriana Varela, de longe.
2004-03-07
Primeiro livro Fertagus
Referi abaixo que uma das maiores vantagens de viajar em combóio é a do tempo que se ganha para a leitura e disse também que aqui iria dar breve conta de algumas dessas leituras, a que chamarei livros Fertagus.
O primeiro livro de que vos dou conta é “A condição Humana” de André Malraux.
Confesso que foi a primeira vez que o li e foi mesmo a primeira obra de Malraux que passou sob os meus olhos. Foi-me recomendado por um amigo, cujo gosto e interesses literários preso muito e não me decepcionou, pelo contrário.
Diz o prefácio, de Jorge de Sena, que é um daqueles livros que não se poderá ler permanecendo indiferente, penso que é verdade.
O que me tocou neste livro é a forma brilhante como Malraux descreve, ao fazer-nos acompanhar a vida de diversos personagens actuantes no seio de um período histórico de grande importância, a revolução Chinesa no princípio do século XX, nos revela como é a condição humana, grandezas e misérias de homens e mulheres muito concretos que determinam de facto a sociedade e as transformações sociais.
Releva para a eterna questão: indivíduo vs. Sociedade.
Para quem ainda o não leu fica a minha recomendação veemente.
O primeiro livro de que vos dou conta é “A condição Humana” de André Malraux.
Confesso que foi a primeira vez que o li e foi mesmo a primeira obra de Malraux que passou sob os meus olhos. Foi-me recomendado por um amigo, cujo gosto e interesses literários preso muito e não me decepcionou, pelo contrário.
Diz o prefácio, de Jorge de Sena, que é um daqueles livros que não se poderá ler permanecendo indiferente, penso que é verdade.
O que me tocou neste livro é a forma brilhante como Malraux descreve, ao fazer-nos acompanhar a vida de diversos personagens actuantes no seio de um período histórico de grande importância, a revolução Chinesa no princípio do século XX, nos revela como é a condição humana, grandezas e misérias de homens e mulheres muito concretos que determinam de facto a sociedade e as transformações sociais.
Releva para a eterna questão: indivíduo vs. Sociedade.
Para quem ainda o não leu fica a minha recomendação veemente.
2004-03-06
Hoje
2004-03-03
O combóio da Fertagus
Troquei as longas bichas, enervantes, as sucessivas e programadas infracções, próprias de um velho “connaisseur” dos “podes e não podes” fazer em hora de ponta, que me concediam minutos preciosos naquela procissão diária, proporcionando-me um vão prazer, troquei tudo isto, pela calma destressada do combóio da ponte.
Foi uma decisão fácil para mim e tão óbvia, que continuo incrédulo ao ver diariamente as longas bichas que permanecem na estrada, logo ali em Corroios, junto à estação da Fertagus onde inicio a minha viagem diária de combóio. São loucos, penso diariamente.
As vantagens deste meio de transporte de que todos falam estão expressas num estudo de avaliação efectuado pela empresa e cujos os principais resultados constam de painéis espalhados pelas estações, o que lá não consta, porque não foi previsto, é o seu contributo para a cultura.
Sim senhor, é uma das maiores vantagens: o tempo para ler. Nunca li tanto, tão seguido, como agora e descobri que afinal a única razão para não ler suficientemente era mesmo a falta de tempo.
Em poucos meses superei largamente a média nacional de leitura e, dos livros que li nos últimos 2 meses, vou dar-vos conta em próximas crónicas.
Foi uma decisão fácil para mim e tão óbvia, que continuo incrédulo ao ver diariamente as longas bichas que permanecem na estrada, logo ali em Corroios, junto à estação da Fertagus onde inicio a minha viagem diária de combóio. São loucos, penso diariamente.
As vantagens deste meio de transporte de que todos falam estão expressas num estudo de avaliação efectuado pela empresa e cujos os principais resultados constam de painéis espalhados pelas estações, o que lá não consta, porque não foi previsto, é o seu contributo para a cultura.
Sim senhor, é uma das maiores vantagens: o tempo para ler. Nunca li tanto, tão seguido, como agora e descobri que afinal a única razão para não ler suficientemente era mesmo a falta de tempo.
Em poucos meses superei largamente a média nacional de leitura e, dos livros que li nos últimos 2 meses, vou dar-vos conta em próximas crónicas.
2004-03-01
Espectacularmente correcto
A preocupação de se manter no "mainstream", mesmo em águas tumultuosas, agarrando-se firmemente com uma mão à tábua de salvação e procurando com gestos desesperados da outra segurar o seu prestígio, o da sua ciência, o dos seus colegas de forma a que nada se perca e que ninguém se magoe demasiado, fizeram o nosso "sexólogo" de serviço, Júlio Machado Vaz, proceder a cambalhotas retóricas, que roçam o hilariante, no ataque moderado que tem, por dever do ofício do espectáculo, que fazer ao seu colega Villas Boas pelas suas polémicas, desalinhadas e arrojadas declarações que muitos blogues têm arrasado impiedosamente e sem qualquer vergonha.
Os exemplos são muitos, das suas diversas intervenções radiofónicas e televisivas mas o mais brilhante, para mim, foi o que lhe ouvi dizer ontem na rádio e que foi, quase exactamente, isto: Antes do mais, é importante que se saiba que factores sociais adquiridos têm um papel importante na determinação da orientação sexual mas a prova de que isto não é assim é que, a ser, deveria haver muito menos homossexuais do que os que existem na realidade, dado que a grande maioria das pessoas são educadas por casais heterossexuais que transmitem assim educacionalmente esta tendência.
Isto é:
É verdade a coisa mas também o seu contrário.
Os exemplos são muitos, das suas diversas intervenções radiofónicas e televisivas mas o mais brilhante, para mim, foi o que lhe ouvi dizer ontem na rádio e que foi, quase exactamente, isto: Antes do mais, é importante que se saiba que factores sociais adquiridos têm um papel importante na determinação da orientação sexual mas a prova de que isto não é assim é que, a ser, deveria haver muito menos homossexuais do que os que existem na realidade, dado que a grande maioria das pessoas são educadas por casais heterossexuais que transmitem assim educacionalmente esta tendência.
Isto é:
É verdade a coisa mas também o seu contrário.
2004-02-26
Já entendi tudo
Precisei repescar notícias em dias sucessivos mas progressivamente as coisas foram-se tornando transparentes.
Notícia 1: Há barcos de pesca espanhóis a pescar nos Açores
Notícia 2: O Governo Regional diz que é ilegal dado que a decisão que irá permitir isso não está ainda em vigor
Notícia 3: O Ministro da Agricultura diz que está ou não está legal, não tem importância nenhuma, que diferença faz um barquito espanhol ou outro.
Notícia 4: Os média dizem que a Comissão Europeia decidiu que os espanhóis têm razão e podem pescar já.
Notícia 6: O Deputado Europeu Paulo Casaco diz que essa mesma decisão ou outra parecida diz precisamente o contrário do que os média transmitiram: os espanhóis não podem pescar.
Ora vejam lá se isto não é tudo claro como a água.
Notícia 1: Há barcos de pesca espanhóis a pescar nos Açores
Notícia 2: O Governo Regional diz que é ilegal dado que a decisão que irá permitir isso não está ainda em vigor
Notícia 3: O Ministro da Agricultura diz que está ou não está legal, não tem importância nenhuma, que diferença faz um barquito espanhol ou outro.
Notícia 4: Os média dizem que a Comissão Europeia decidiu que os espanhóis têm razão e podem pescar já.
Notícia 6: O Deputado Europeu Paulo Casaco diz que essa mesma decisão ou outra parecida diz precisamente o contrário do que os média transmitiram: os espanhóis não podem pescar.
Ora vejam lá se isto não é tudo claro como a água.
2004-02-25
Santana Presidente
Confesso que há tempos pensava comigo próprio: será possível que venhamos a ter Santana Lopes como Presidente da República ?
Por outro lado via a alternativa Cavaco Silva, comendo bolo rei, de boca cheia, em convívio com os seus pares de todo o mundo e, tenho que reconhecer que era um magro consolo para a minha apreensão.
Mas eram tudo inquietudes minhas, via o espectáculo, como quase todos nós e parecia-me desenharem-se as opções supostamente naturais: será Santana, será Cavaco, talvez Guterres, embora o tenha ouvido sempre dizer que não e, por fim vejo levantarem-se os espectros, ainda assim mais agradáveis de Marcelo Rebelo de Sousa e Freitas do Amaral, tudo possível, tudo desejável, Santana ou Freitas é tudo a mesma coisa.
Felizmente, há dias, senti que não estava só nas minhas dúvidas, primeiro Pacheco Pereira insurge-se contra Santana e, depois Miguel Sousa Tavares é arrasador e diz, alto e bom som, tudo que eu pensava para mim.
Enchi-me de coragem e comentei alto, de forma aprovativa o artigo de MST.
Disse-o aliviado. Finalmente começava-se a gritar que o rei ia nu e pensava para comigo que a partir desse momento o bom senso iria imperar.
Foi a Fátima que me trouxe à realidade, quando lhe disse: De facto, onde isto chegou, será possível que venhamos a ter Santana como Presidente ?
Responde-me ela: qual é o espanto ? não temos já o Bush nos EUA.
Ah .... é verdade !
Por outro lado via a alternativa Cavaco Silva, comendo bolo rei, de boca cheia, em convívio com os seus pares de todo o mundo e, tenho que reconhecer que era um magro consolo para a minha apreensão.
Mas eram tudo inquietudes minhas, via o espectáculo, como quase todos nós e parecia-me desenharem-se as opções supostamente naturais: será Santana, será Cavaco, talvez Guterres, embora o tenha ouvido sempre dizer que não e, por fim vejo levantarem-se os espectros, ainda assim mais agradáveis de Marcelo Rebelo de Sousa e Freitas do Amaral, tudo possível, tudo desejável, Santana ou Freitas é tudo a mesma coisa.
Felizmente, há dias, senti que não estava só nas minhas dúvidas, primeiro Pacheco Pereira insurge-se contra Santana e, depois Miguel Sousa Tavares é arrasador e diz, alto e bom som, tudo que eu pensava para mim.
Enchi-me de coragem e comentei alto, de forma aprovativa o artigo de MST.
Disse-o aliviado. Finalmente começava-se a gritar que o rei ia nu e pensava para comigo que a partir desse momento o bom senso iria imperar.
Foi a Fátima que me trouxe à realidade, quando lhe disse: De facto, onde isto chegou, será possível que venhamos a ter Santana como Presidente ?
Responde-me ela: qual é o espanto ? não temos já o Bush nos EUA.
Ah .... é verdade !
2004-02-23
Carnaval
No meu quotidiano não tinha dado por nada mas tenho lido em diversos blogues que estamos no carnaval, talvez isso explique algumas coisas.
Vale e Azevedo
Não partilho o sentimento de perplexidade e revolta que dizem atingiu os portugueses, a partir da cena da libertação e prisão de Vale Azevedo.
A situação parece-me transparente: uma decisão, da Relação, de nulidade da prisão preventiva, por irregularidade na decisão inicial do juiz implica obviamente a libertação do homem e, quando se diz liberta, julgo que terá de facto de sair da prisão, chegar à rua (com a obsessão formalista que tomou conta dos nossos tribunais, imagino que se fosse preso dentro da judiciaria se iria argumentar que não foi cumprida a decisão de libertação, por esta não se ter concretizado e o imbróglio seria ainda maior).
O juiz da primeira instância, estando persuadido que o homem podia fugir (persuasão que eu partilho com toda a facilidade) apressa-se a prendê-lo, imediatamente, para corrigir o erro formal cometido.
Isto, quanto ao que se passou, o que me surpreende deveras, é o porquê da liberdade se Vale Azevedo não cumpriu ainda a totalidade da pena a que foi condenado ?
Dizem-me que, cumprida metade da pena, foi declarada a passagem a liberdade condicional, por bom comportamento do réu, e é isto que me parece absurdo, que o facto de existirem outros processos em investigação não tenha sido levado em conta na decisão de passagem a liberdade condicional.
Isto é: o nosso sistema judicial parece-me muito lesto a prender preventivamente, quando ainda há a presunção de inocência e sem que sejam dadas todas as garantias ao arguido e, por outro lado, quando uma sentença é proferida e a culpa já está estabelecida não tem a mínima preocupação em garantir que a sentença seja cumprida na totalidade, dando todas as garantias ao culpado, garantias essas que são negadas ao presumível inocente.
Algo vai mal no reino da justiça portuguesa, nisto estamos muitos de acordo.
A situação parece-me transparente: uma decisão, da Relação, de nulidade da prisão preventiva, por irregularidade na decisão inicial do juiz implica obviamente a libertação do homem e, quando se diz liberta, julgo que terá de facto de sair da prisão, chegar à rua (com a obsessão formalista que tomou conta dos nossos tribunais, imagino que se fosse preso dentro da judiciaria se iria argumentar que não foi cumprida a decisão de libertação, por esta não se ter concretizado e o imbróglio seria ainda maior).
O juiz da primeira instância, estando persuadido que o homem podia fugir (persuasão que eu partilho com toda a facilidade) apressa-se a prendê-lo, imediatamente, para corrigir o erro formal cometido.
Isto, quanto ao que se passou, o que me surpreende deveras, é o porquê da liberdade se Vale Azevedo não cumpriu ainda a totalidade da pena a que foi condenado ?
Dizem-me que, cumprida metade da pena, foi declarada a passagem a liberdade condicional, por bom comportamento do réu, e é isto que me parece absurdo, que o facto de existirem outros processos em investigação não tenha sido levado em conta na decisão de passagem a liberdade condicional.
Isto é: o nosso sistema judicial parece-me muito lesto a prender preventivamente, quando ainda há a presunção de inocência e sem que sejam dadas todas as garantias ao arguido e, por outro lado, quando uma sentença é proferida e a culpa já está estabelecida não tem a mínima preocupação em garantir que a sentença seja cumprida na totalidade, dando todas as garantias ao culpado, garantias essas que são negadas ao presumível inocente.
Algo vai mal no reino da justiça portuguesa, nisto estamos muitos de acordo.
2004-02-20
Hoje não escrevo mais nada
Tori Amos
Conheço-a e admiro-a há alguns anos e tem sido sempre uma presença garantida na minha colecção de CD e de MP3.
Mas há certos dias em que alguns corpos celestes se alinham de determinada forma, ou geram-se no nosso cérebro sinapses especiais ou, ainda, uma ou várias hormonas ultrapassam algum limiar cabalístico, permitindo-nos a possibilidade de perceber coisas que nos escapavam antes.
Foi o que se passou ontem comigo, ouvi Tori Amos, mais uma vez, mas percebi-a como se a ouvisse pela primeira vez: fiquei siderado e recomendo.
2004-02-19
Provado cientificamente
Muitos dos jovens do ensino secundário, que hoje se manifestaram contra a política do Governo, iniciaram as suas declarações com um magnífico “penedo de sabedoria”: está provado ou ainda, dando mais peso à sua razão, está provado cientificamente.
Não é, talvez, de estranhar que jovens, tão jovens, desconheçam os meandros da epistemologia e usem esse recurso para fundamentar as suas pretensões, nada disso, o que me faz pensar, o que me faz reflectir sobre o sentido da vida é como o mundo está, de facto, diferente.
A fase da descoberta, da rebeldia onde tudo se questiona e pode e deveria ser a base para a renovação, se mostra tão inserido no “establishment”, agarrando-se a essas certezas fluidas como um afogado se agarra à sua boia.
De facto, já não ouvimos: “somos realistas, queremos o impossível”, já nem os jovens sonham.
Mas também, tenho de reconhecer que estes são já os netos desses jovens de 68, eu.
No fundo, no fundo, quero dizer: a minha geração bem pode limpar as mãos à parede.
Fico aguardando os netos destes jovens para continuar a minha reflexão lá para 2040, entretanto vos digo que aqueles de hoje que despertaram mais a minha simpatia foram os, também muitos, que quando questionados sobre as críticas concretas que faziam à proposta de reforma do ensino secundário responderam eloquentemente: “Sei lá !”
Não é, talvez, de estranhar que jovens, tão jovens, desconheçam os meandros da epistemologia e usem esse recurso para fundamentar as suas pretensões, nada disso, o que me faz pensar, o que me faz reflectir sobre o sentido da vida é como o mundo está, de facto, diferente.
A fase da descoberta, da rebeldia onde tudo se questiona e pode e deveria ser a base para a renovação, se mostra tão inserido no “establishment”, agarrando-se a essas certezas fluidas como um afogado se agarra à sua boia.
De facto, já não ouvimos: “somos realistas, queremos o impossível”, já nem os jovens sonham.
Mas também, tenho de reconhecer que estes são já os netos desses jovens de 68, eu.
No fundo, no fundo, quero dizer: a minha geração bem pode limpar as mãos à parede.
Fico aguardando os netos destes jovens para continuar a minha reflexão lá para 2040, entretanto vos digo que aqueles de hoje que despertaram mais a minha simpatia foram os, também muitos, que quando questionados sobre as críticas concretas que faziam à proposta de reforma do ensino secundário responderam eloquentemente: “Sei lá !”
2004-02-18
Bom senso
Descartes dizia que o bom senso deve ser das coisas mais bem distribuídas no mundo dado que não se vê ninguém a queixar-se de o não ter suficiente.
Demos graças por ser assim porque se não fosse o bom senso como superaríamos todas as regras, normas e leis criadas para tornar a nossa vida impossível ?
Sampaio dizia há dias que não pode haver umas leis para cumprir e outras para não cumprir e isto é politicamente correcto e seria verdadeiro se fossemos regulados por legislação esclarecida e justa que verdadeiramente servisse os nossos interesses mútuos de convivência pacífica em sociedade. Infelizmente não é assim mas, felizmente também, vai havendo algum bom senso naqueles que regulam a sua aplicação.
Podemos assim circular a mais de 120 Km, nas auto-estradas quando as condições atmosféricas e de tráfego são boas, graças ao bom senso da polícia e tivemos uma sentença em Aveiro que demonstrou bom senso de um magistrado.
Espero, sinceramente, que Descartes tenha razão e que não venha a faltar o bom senso nos tempos mais próximos, embora me pareça ver, às vezes, fortes indícios de que ele vai faltando.
Demos graças por ser assim porque se não fosse o bom senso como superaríamos todas as regras, normas e leis criadas para tornar a nossa vida impossível ?
Sampaio dizia há dias que não pode haver umas leis para cumprir e outras para não cumprir e isto é politicamente correcto e seria verdadeiro se fossemos regulados por legislação esclarecida e justa que verdadeiramente servisse os nossos interesses mútuos de convivência pacífica em sociedade. Infelizmente não é assim mas, felizmente também, vai havendo algum bom senso naqueles que regulam a sua aplicação.
Podemos assim circular a mais de 120 Km, nas auto-estradas quando as condições atmosféricas e de tráfego são boas, graças ao bom senso da polícia e tivemos uma sentença em Aveiro que demonstrou bom senso de um magistrado.
Espero, sinceramente, que Descartes tenha razão e que não venha a faltar o bom senso nos tempos mais próximos, embora me pareça ver, às vezes, fortes indícios de que ele vai faltando.
2004-02-16
Ciberdúvidas
O ciberdúvidas da língua portuguesa é uma das minhas visitas preferidas na net que recomendo a todos os que se interessam um pouco pela nossa língua.
Ensinou-me muitas coisas mas confesso também que abalou algumas das minhas certezas, não por estarem erradas mas antes porque a profundidade de algumas análises tornam inseguro o meu saber de cor e de ouvido.
Mas há um ponto mais que me atrai neste sítio: são as resposta de José Neves Henriques.
Este nome faz-me voltar quase 40 anos atrás e a memórias nebulosas do meu velho 5º ano do liceu, no qual só não chumbei porque os meus pais tiveram a inteligência de me tirar do liceu, no derradeiro período, e dar-me o privilégio de 3 meses de professores privados.
O maior deles foi, sem dúvida, José Neves Henriques que me ensinou português e francês, disciplinas em que eu era sistematicamente um mau aluno, a que tinha algum asco e estavam a pôr em perigo a minha passagem de ano. Foi este homem que, ao contrário de todos os professores que tinha tido, me fez amar o português e me sobe mostrar a importância do domínio da língua, não para decorar umas regras gramaticais que me pareciam chatas e incompreensíveis, mas sobretudo para falar e escrever o melhor possível. Lembro-me que o seu ensino se baseou essencialmente em leituras e redacções que ele corrigia brilhantemente, não tanto no meu ponto mais fraco, ortograficamente, mas sobretudo na sua forma, no seu estilo e na sua compreensibilidade e na sua estética.
Erros ortográficos continuo a dar mas devo-lhe muito, bem haja.
Ensinou-me muitas coisas mas confesso também que abalou algumas das minhas certezas, não por estarem erradas mas antes porque a profundidade de algumas análises tornam inseguro o meu saber de cor e de ouvido.
Mas há um ponto mais que me atrai neste sítio: são as resposta de José Neves Henriques.
Este nome faz-me voltar quase 40 anos atrás e a memórias nebulosas do meu velho 5º ano do liceu, no qual só não chumbei porque os meus pais tiveram a inteligência de me tirar do liceu, no derradeiro período, e dar-me o privilégio de 3 meses de professores privados.
O maior deles foi, sem dúvida, José Neves Henriques que me ensinou português e francês, disciplinas em que eu era sistematicamente um mau aluno, a que tinha algum asco e estavam a pôr em perigo a minha passagem de ano. Foi este homem que, ao contrário de todos os professores que tinha tido, me fez amar o português e me sobe mostrar a importância do domínio da língua, não para decorar umas regras gramaticais que me pareciam chatas e incompreensíveis, mas sobretudo para falar e escrever o melhor possível. Lembro-me que o seu ensino se baseou essencialmente em leituras e redacções que ele corrigia brilhantemente, não tanto no meu ponto mais fraco, ortograficamente, mas sobretudo na sua forma, no seu estilo e na sua compreensibilidade e na sua estética.
Erros ortográficos continuo a dar mas devo-lhe muito, bem haja.
2004-02-13
Carta a António Carrapatoso, digníssimo Presidente da Vodafone Portugal
Como é sabido, as relações entre cliente e empresa, na Vodafone, variam com o tipo de contrato que nos une, daí alguma dificuldade que tive em arranjar o tom apropriado para relatar o meu caso que passa por duas situações contratuais.
Teve que ser assim:
Olá António
Sou o Nuno, um teu cliente Yorn.
A coisa agora anda mais ou menos fiche mas o que é certo é que já me meteste a mão no bolso, man. Vou-te contar:
Comecei por ser uma “vitamina” de V. Exa.
Tendo um número da TMN espalhado por todos os meus amigos, decidi solicitar a transferência desse número para o tarifário Vodafone, nos sistema homólogo ao que dispunha na TMN que, na presente situação, seria o Yorn.
Contactei assim os serviços de apoio a cliente da empresa que V. Exa dirige e procedi à tramitação necessária
Acontece que neste entretanto, tive necessidade de carregar a minha vitamina, tendo sido informado numa agência Vodafone que o respectivo saldo poderia ser transferido para a o futuro contrato, assim que ele se concretizasse.
E assim, passado uns dias, recebi a tua carta e tornei-me um cliente Yorn mas o saldo, nicles.
Falei então com a Vanessa que era bué simpática mas que me disse que o saldo da vitamina ia à vida e que a informação, contrária, de um agente não interessa nada porque eles não sabem nada e agora, olha que kargasse nisso. Tás a topar a minha situação ? fiquei fodido, António.
Vê lá o que podes fazer pá, que isto assim não dá.
Fica bem
Nuno Jordão
Teve que ser assim:
Olá António
Sou o Nuno, um teu cliente Yorn.
A coisa agora anda mais ou menos fiche mas o que é certo é que já me meteste a mão no bolso, man. Vou-te contar:
Comecei por ser uma “vitamina” de V. Exa.
Tendo um número da TMN espalhado por todos os meus amigos, decidi solicitar a transferência desse número para o tarifário Vodafone, nos sistema homólogo ao que dispunha na TMN que, na presente situação, seria o Yorn.
Contactei assim os serviços de apoio a cliente da empresa que V. Exa dirige e procedi à tramitação necessária
Acontece que neste entretanto, tive necessidade de carregar a minha vitamina, tendo sido informado numa agência Vodafone que o respectivo saldo poderia ser transferido para a o futuro contrato, assim que ele se concretizasse.
E assim, passado uns dias, recebi a tua carta e tornei-me um cliente Yorn mas o saldo, nicles.
Falei então com a Vanessa que era bué simpática mas que me disse que o saldo da vitamina ia à vida e que a informação, contrária, de um agente não interessa nada porque eles não sabem nada e agora, olha que kargasse nisso. Tás a topar a minha situação ? fiquei fodido, António.
Vê lá o que podes fazer pá, que isto assim não dá.
Fica bem
Nuno Jordão
2004-02-11
Vasco Graça Moura
Nem sempre estou de acordo com ele, direi mesmo, raramente me identifico com o seu discurso mas tenho de reconhecer que a crónica de Vasco Graça Moura, publicada hoje no Diário de Notícias é uma pérola preciosa que deve ser guardada.
Aqui fica o link mas como os links se tendem a perder com o tempo, deixo aqui também a transcrição, além disso vai permitir aos mais preguiçosos que não tiveram pachorra para a ler na fonte, saborea-la imediatamente:
Kolmi
1. Entom chegaram uns moços folgando mui joviais e arremetendo por antre as cavalgaduras. E encontrando seu Mestre lhe disseram rijamente: - Bofé, dom vilão, que nom queremos nós nem trívio nem quadrívio, ca filharemos outro mester lavrando pedra em Castela. E o Mestre, mui calado e mui torvo, se foi asinha.
2. Entra Domingas e diz: Eramá, esses bastardos / nada querem da labuta. / Muita parra, pouca fruta, / pouca ervilha e muitos cardos. / Triste vida fideputa! / Antes irei de bom grado / ver se acaso estou doente: / sempre o físico consente / em me passar atestado / e então folga toda a gente. / Ó filhos de Belzebú, / acaso perdeis o siso? / Aos livros limpai o cu, / ou metei-os no baú, / que os lerdes não é preciso (vai-se bailando).
3. Aquela pastora mui merencoriamente assentada olhava o rouxinol que se ia morrendo. E a senhora Arima lhe falou, por conhecer, de tantas mágoas que ali tão longe a tinham trazido, qual fosse então a causa. Ao que ela em seu fundo suspirar, gemia que um zagal a pusera em tão triste estado, por porfiar ele mais em dar-lhe os ensinamentos que soía quando ela menos os desejava.
4. Não mais, Musa, não mais, que o meu engenho / a moucos vem falar, empedernidos. / Nem querem já saber porque aqui venho, / nem de meu estro são agradecidos. / Ó caso singular, ó caso estranho, / ó ruído mais torpe entre os ruídos! Em vez de honesto estudo próprio de aula, / mais se diriam feras numa jaula!
5. Pegavam os santos do Império Romano num pergaminho sagrado, desatavam as fitas, desenrolavam a pele, assopravam o pó, alisavam as dobras, decifravam a letra, abriam o coração e recitavam aqueles cânticos inefáveis. E vós hoje vedes um cartapácio, e não quereis sopesar-lhe o cabedal, afagar-lhe a lombada, abrir suas folhas, ler nele escorreitamente alguma lição impressa e preparar assim o Império que há-de vir!
6. O almocreve desbarretou-se e coçou a cabeça devagar: "- Ora, meu fidalgo, eu cá nesta vida só aprendi três coisas: assinar de cruz, pensar as mulas e não falhar com esta clavina. Não preciso de mais". E assentou pesadamente a coronha do bacamarte na soleira da venda. "- Veja o fidalgo o senhor Morgado de Agra de Freimas: tanto leu, tanto leu, que tresleu e deu em léria, com perdão de V. Exa."
7. Nas nossas aulas, ao amanhecer, / evita-se a leitura, o baço tédio, / pois a escola encontrou outro remédio / e eu deixo o meu cigarro esmorecer. / Austera escola! Aplica o seu afã / e ensina entre chilreios aos rebentos / os úteis, impecáveis rudimentos / para engraxarem botas amanhã.
8. Com um sacudir impaciente da botina de verniz, Cecília arredou aquela resma de papel sorumbático. Que estavam ali a fazer a gramaticazinha esbeiçada, o caderninho de significados com nódoas de tinta, a selectazinha encardida de vetustos autores? Pela janela aberta de par em par, a brisa do Tejo entrava, luminosamente, maciamente azul, numa doce lufada matinal. E Roberto estava a chegar.
9. Karaças, meu! Par-tu-tos kornos se olhas pràs koxas da Çónia Çoraia. Topas? A gaja é kinda não topou, mas logo apalpu-lhe as tetas nem ke seja ko telemóvel. Ontem a setôra xamou os meus pais, mas eles absteram-se de ká vir, meu, e ela kaga-se toda só de pençar ke lhe póço ir às fussas. Kolmi.
À consideração superior: do presente documento, vê-se que só à nona tentativa é que foi possível encontrar-se uma linguagem adequada às capacidades e necessidades comunicacionais dos aprendentes. Propõe-se pois que os programas de língua portuguesa sejam elaborados em conformidade.
Aqui fica o link mas como os links se tendem a perder com o tempo, deixo aqui também a transcrição, além disso vai permitir aos mais preguiçosos que não tiveram pachorra para a ler na fonte, saborea-la imediatamente:
Kolmi
1. Entom chegaram uns moços folgando mui joviais e arremetendo por antre as cavalgaduras. E encontrando seu Mestre lhe disseram rijamente: - Bofé, dom vilão, que nom queremos nós nem trívio nem quadrívio, ca filharemos outro mester lavrando pedra em Castela. E o Mestre, mui calado e mui torvo, se foi asinha.
2. Entra Domingas e diz: Eramá, esses bastardos / nada querem da labuta. / Muita parra, pouca fruta, / pouca ervilha e muitos cardos. / Triste vida fideputa! / Antes irei de bom grado / ver se acaso estou doente: / sempre o físico consente / em me passar atestado / e então folga toda a gente. / Ó filhos de Belzebú, / acaso perdeis o siso? / Aos livros limpai o cu, / ou metei-os no baú, / que os lerdes não é preciso (vai-se bailando).
3. Aquela pastora mui merencoriamente assentada olhava o rouxinol que se ia morrendo. E a senhora Arima lhe falou, por conhecer, de tantas mágoas que ali tão longe a tinham trazido, qual fosse então a causa. Ao que ela em seu fundo suspirar, gemia que um zagal a pusera em tão triste estado, por porfiar ele mais em dar-lhe os ensinamentos que soía quando ela menos os desejava.
4. Não mais, Musa, não mais, que o meu engenho / a moucos vem falar, empedernidos. / Nem querem já saber porque aqui venho, / nem de meu estro são agradecidos. / Ó caso singular, ó caso estranho, / ó ruído mais torpe entre os ruídos! Em vez de honesto estudo próprio de aula, / mais se diriam feras numa jaula!
5. Pegavam os santos do Império Romano num pergaminho sagrado, desatavam as fitas, desenrolavam a pele, assopravam o pó, alisavam as dobras, decifravam a letra, abriam o coração e recitavam aqueles cânticos inefáveis. E vós hoje vedes um cartapácio, e não quereis sopesar-lhe o cabedal, afagar-lhe a lombada, abrir suas folhas, ler nele escorreitamente alguma lição impressa e preparar assim o Império que há-de vir!
6. O almocreve desbarretou-se e coçou a cabeça devagar: "- Ora, meu fidalgo, eu cá nesta vida só aprendi três coisas: assinar de cruz, pensar as mulas e não falhar com esta clavina. Não preciso de mais". E assentou pesadamente a coronha do bacamarte na soleira da venda. "- Veja o fidalgo o senhor Morgado de Agra de Freimas: tanto leu, tanto leu, que tresleu e deu em léria, com perdão de V. Exa."
7. Nas nossas aulas, ao amanhecer, / evita-se a leitura, o baço tédio, / pois a escola encontrou outro remédio / e eu deixo o meu cigarro esmorecer. / Austera escola! Aplica o seu afã / e ensina entre chilreios aos rebentos / os úteis, impecáveis rudimentos / para engraxarem botas amanhã.
8. Com um sacudir impaciente da botina de verniz, Cecília arredou aquela resma de papel sorumbático. Que estavam ali a fazer a gramaticazinha esbeiçada, o caderninho de significados com nódoas de tinta, a selectazinha encardida de vetustos autores? Pela janela aberta de par em par, a brisa do Tejo entrava, luminosamente, maciamente azul, numa doce lufada matinal. E Roberto estava a chegar.
9. Karaças, meu! Par-tu-tos kornos se olhas pràs koxas da Çónia Çoraia. Topas? A gaja é kinda não topou, mas logo apalpu-lhe as tetas nem ke seja ko telemóvel. Ontem a setôra xamou os meus pais, mas eles absteram-se de ká vir, meu, e ela kaga-se toda só de pençar ke lhe póço ir às fussas. Kolmi.
À consideração superior: do presente documento, vê-se que só à nona tentativa é que foi possível encontrar-se uma linguagem adequada às capacidades e necessidades comunicacionais dos aprendentes. Propõe-se pois que os programas de língua portuguesa sejam elaborados em conformidade.
2004-02-10
Há excesso de futebol na sociedade portuguesa
Disse Pacheco Pereira, que detesta futebol, e disse-o bem porque é verdade.
Há excesso de futebol como há excesso de Casa Pia, excesso de mamas da Janet Jacson, excesso de tricas do Governo e das oposições, excesso de merdinhas que vendem jornais e ocupam horas de telejornal, excesso de painéis e paineleireiros que nos querem ensinar tudo sobre tudo para que não precisemos de pensar em nada e até há excesso de Pachecos Pereiras.
Há excesso de futebol como há excesso de Casa Pia, excesso de mamas da Janet Jacson, excesso de tricas do Governo e das oposições, excesso de merdinhas que vendem jornais e ocupam horas de telejornal, excesso de painéis e paineleireiros que nos querem ensinar tudo sobre tudo para que não precisemos de pensar em nada e até há excesso de Pachecos Pereiras.
2004-02-07
Armas de destruição de massa
Sempre que vejo e leio todos aqueles analista e comentadores que a seu tempo apoiaram a invasão do Iraque com base no perigo para a civilização ocidental que ele representava, tentarem ultrapassar o seu desapontamento com cabriolas e piruetas dialécticas, não me apetece contra-argumentar, parece-me inútil, a única coisa que me apetece fazer é difícil de dizer por palavras.
Imaginem-me de calções, batendo ritmicamente com a mão direita fechada na palma aberta da esquerda, cantando ao som daquela melodia infantil, brilhantemente inventada para irritar terceiros:
É bem feita
Nha, nha nha nha
Este Nha, nha, nha, dito com a língua de fora entalada entre os dentes.
Era assim que me apetecia afirmar a minha eloquência, com esta argumentação, tão válida como a deles.
Imaginem-me de calções, batendo ritmicamente com a mão direita fechada na palma aberta da esquerda, cantando ao som daquela melodia infantil, brilhantemente inventada para irritar terceiros:
É bem feita
Nha, nha nha nha
Este Nha, nha, nha, dito com a língua de fora entalada entre os dentes.
Era assim que me apetecia afirmar a minha eloquência, com esta argumentação, tão válida como a deles.
2004-02-06
O relatório Hutton
Há dias, Jorge Sampaio, falando num dos primeiros eventos ligado à comemoração dos 30 anos do 25 de Abril, dizia qualquer coisa como isto:
A nossa democracia ainda está na infância, numa fase de aprendizagem e, para demonstrar o seu ponto de vista, deu um exemplo de uma sólida e velha democracia para que víssemos as diferenças: A Inglaterra e o inquérito Hutton.
Dizia ele: em Inglaterra quando a BBC levantou a suspeita sobre a credibilidade do Primeiro Ministro e as trágicas consequências que se seguiram, Blair nomeou Lord Hutton para dirigir um inquérito e a Inglaterra aceitou isto pacificamente. Aqui seria o fim do mundo se fosse Durão Barroso a nomear alguém para dirigir um inquérito que o envolvesse.
Não tenho dúvidas que assim seria mas vendo as conclusões do inquérito Hutton, fico a pensar comigo mesmo onde estará a maior infantilidade ? cá ? ou lá?
A nossa democracia ainda está na infância, numa fase de aprendizagem e, para demonstrar o seu ponto de vista, deu um exemplo de uma sólida e velha democracia para que víssemos as diferenças: A Inglaterra e o inquérito Hutton.
Dizia ele: em Inglaterra quando a BBC levantou a suspeita sobre a credibilidade do Primeiro Ministro e as trágicas consequências que se seguiram, Blair nomeou Lord Hutton para dirigir um inquérito e a Inglaterra aceitou isto pacificamente. Aqui seria o fim do mundo se fosse Durão Barroso a nomear alguém para dirigir um inquérito que o envolvesse.
Não tenho dúvidas que assim seria mas vendo as conclusões do inquérito Hutton, fico a pensar comigo mesmo onde estará a maior infantilidade ? cá ? ou lá?
2004-02-04
O Guia Gastronómico
Por iniciativa do ICEP e da Associação das Regiões de Turismo, Portugal vai editar o Guia de Restaurantes representantes da gastronomia portuguesa, para o Euro 2004.
Sem dúvida, uma excelente iniciativa. Sendo a gastronomia portuguesa um indiscutível valor nacional, reconhecido já como Património Cultural Português, a publicação deste guia, numa altura de grande fluxo turístico no nosso país, permitirá dar a conhecer aos turistas as várias “pérolas” da nossa gastronomia; evitando equívocos lamentáveis como aquele, a que já dolorosamente assisti, de ver servir, sistematicamente, sardinhas assadas com batatas fritas, na feira anual da sardinha assada, em Portimão.
Certamente o ICEP e as Associações das Regiões de Turismo, tiveram um extremo cuidado na escolha do patrocínio para essa iniciativa: uma entidade respeitada e com grandes provas dadas no cultivo e na defesa da gastronomia nacional.
Ao que parece, todavia, estão a chover críticas à selecção feita: a prestigiadíssima cadeia mundial de fast food MacDonalds.
É certo que a MacDonalds é do fast food quando a nossa gastronomia se enquadra mais no conceito de slow food; é certo que se dedica uniformemente, por todo o mundo, ao negócio dos hamburguers no pão, enquanto a nossa gastronomia se caracteriza pela extrema diversidade de produtos e modos de confecção; é certo que é uma multinacional americana, enquanto a nossa gastronomia é nossa, portuguesa, mas, que diabo, é a MacDonalds, pois então.
Eu acho louvável este esforço do ICEP e da Associação das Regiões de Túrismo:
A gastronomia nacional há de permanecer para além do Euro 2004, com ou sem MacDolnalds e talvez aquela cadeia aprenda alguma coisa e possamos ver, no futuro, servir nos seus balcões mundiais “Caldeirada à Fragateira”, “Chafana” ou “pezinhos de porco de coentrada”, tudo, the portuguese way.
Sem dúvida, uma excelente iniciativa. Sendo a gastronomia portuguesa um indiscutível valor nacional, reconhecido já como Património Cultural Português, a publicação deste guia, numa altura de grande fluxo turístico no nosso país, permitirá dar a conhecer aos turistas as várias “pérolas” da nossa gastronomia; evitando equívocos lamentáveis como aquele, a que já dolorosamente assisti, de ver servir, sistematicamente, sardinhas assadas com batatas fritas, na feira anual da sardinha assada, em Portimão.
Certamente o ICEP e as Associações das Regiões de Turismo, tiveram um extremo cuidado na escolha do patrocínio para essa iniciativa: uma entidade respeitada e com grandes provas dadas no cultivo e na defesa da gastronomia nacional.
Ao que parece, todavia, estão a chover críticas à selecção feita: a prestigiadíssima cadeia mundial de fast food MacDonalds.
É certo que a MacDonalds é do fast food quando a nossa gastronomia se enquadra mais no conceito de slow food; é certo que se dedica uniformemente, por todo o mundo, ao negócio dos hamburguers no pão, enquanto a nossa gastronomia se caracteriza pela extrema diversidade de produtos e modos de confecção; é certo que é uma multinacional americana, enquanto a nossa gastronomia é nossa, portuguesa, mas, que diabo, é a MacDonalds, pois então.
Eu acho louvável este esforço do ICEP e da Associação das Regiões de Túrismo:
A gastronomia nacional há de permanecer para além do Euro 2004, com ou sem MacDolnalds e talvez aquela cadeia aprenda alguma coisa e possamos ver, no futuro, servir nos seus balcões mundiais “Caldeirada à Fragateira”, “Chafana” ou “pezinhos de porco de coentrada”, tudo, the portuguese way.
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