Muitos dos jovens do ensino secundário, que hoje se manifestaram contra a política do Governo, iniciaram as suas declarações com um magnífico “penedo de sabedoria”: está provado ou ainda, dando mais peso à sua razão, está provado cientificamente.
Não é, talvez, de estranhar que jovens, tão jovens, desconheçam os meandros da epistemologia e usem esse recurso para fundamentar as suas pretensões, nada disso, o que me faz pensar, o que me faz reflectir sobre o sentido da vida é como o mundo está, de facto, diferente.
A fase da descoberta, da rebeldia onde tudo se questiona e pode e deveria ser a base para a renovação, se mostra tão inserido no “establishment”, agarrando-se a essas certezas fluidas como um afogado se agarra à sua boia.
De facto, já não ouvimos: “somos realistas, queremos o impossível”, já nem os jovens sonham.
Mas também, tenho de reconhecer que estes são já os netos desses jovens de 68, eu.
No fundo, no fundo, quero dizer: a minha geração bem pode limpar as mãos à parede.
Fico aguardando os netos destes jovens para continuar a minha reflexão lá para 2040, entretanto vos digo que aqueles de hoje que despertaram mais a minha simpatia foram os, também muitos, que quando questionados sobre as críticas concretas que faziam à proposta de reforma do ensino secundário responderam eloquentemente: “Sei lá !”
2004-02-19
2004-02-18
Bom senso
Descartes dizia que o bom senso deve ser das coisas mais bem distribuídas no mundo dado que não se vê ninguém a queixar-se de o não ter suficiente.
Demos graças por ser assim porque se não fosse o bom senso como superaríamos todas as regras, normas e leis criadas para tornar a nossa vida impossível ?
Sampaio dizia há dias que não pode haver umas leis para cumprir e outras para não cumprir e isto é politicamente correcto e seria verdadeiro se fossemos regulados por legislação esclarecida e justa que verdadeiramente servisse os nossos interesses mútuos de convivência pacífica em sociedade. Infelizmente não é assim mas, felizmente também, vai havendo algum bom senso naqueles que regulam a sua aplicação.
Podemos assim circular a mais de 120 Km, nas auto-estradas quando as condições atmosféricas e de tráfego são boas, graças ao bom senso da polícia e tivemos uma sentença em Aveiro que demonstrou bom senso de um magistrado.
Espero, sinceramente, que Descartes tenha razão e que não venha a faltar o bom senso nos tempos mais próximos, embora me pareça ver, às vezes, fortes indícios de que ele vai faltando.
Demos graças por ser assim porque se não fosse o bom senso como superaríamos todas as regras, normas e leis criadas para tornar a nossa vida impossível ?
Sampaio dizia há dias que não pode haver umas leis para cumprir e outras para não cumprir e isto é politicamente correcto e seria verdadeiro se fossemos regulados por legislação esclarecida e justa que verdadeiramente servisse os nossos interesses mútuos de convivência pacífica em sociedade. Infelizmente não é assim mas, felizmente também, vai havendo algum bom senso naqueles que regulam a sua aplicação.
Podemos assim circular a mais de 120 Km, nas auto-estradas quando as condições atmosféricas e de tráfego são boas, graças ao bom senso da polícia e tivemos uma sentença em Aveiro que demonstrou bom senso de um magistrado.
Espero, sinceramente, que Descartes tenha razão e que não venha a faltar o bom senso nos tempos mais próximos, embora me pareça ver, às vezes, fortes indícios de que ele vai faltando.
2004-02-16
Ciberdúvidas
O ciberdúvidas da língua portuguesa é uma das minhas visitas preferidas na net que recomendo a todos os que se interessam um pouco pela nossa língua.
Ensinou-me muitas coisas mas confesso também que abalou algumas das minhas certezas, não por estarem erradas mas antes porque a profundidade de algumas análises tornam inseguro o meu saber de cor e de ouvido.
Mas há um ponto mais que me atrai neste sítio: são as resposta de José Neves Henriques.
Este nome faz-me voltar quase 40 anos atrás e a memórias nebulosas do meu velho 5º ano do liceu, no qual só não chumbei porque os meus pais tiveram a inteligência de me tirar do liceu, no derradeiro período, e dar-me o privilégio de 3 meses de professores privados.
O maior deles foi, sem dúvida, José Neves Henriques que me ensinou português e francês, disciplinas em que eu era sistematicamente um mau aluno, a que tinha algum asco e estavam a pôr em perigo a minha passagem de ano. Foi este homem que, ao contrário de todos os professores que tinha tido, me fez amar o português e me sobe mostrar a importância do domínio da língua, não para decorar umas regras gramaticais que me pareciam chatas e incompreensíveis, mas sobretudo para falar e escrever o melhor possível. Lembro-me que o seu ensino se baseou essencialmente em leituras e redacções que ele corrigia brilhantemente, não tanto no meu ponto mais fraco, ortograficamente, mas sobretudo na sua forma, no seu estilo e na sua compreensibilidade e na sua estética.
Erros ortográficos continuo a dar mas devo-lhe muito, bem haja.
Ensinou-me muitas coisas mas confesso também que abalou algumas das minhas certezas, não por estarem erradas mas antes porque a profundidade de algumas análises tornam inseguro o meu saber de cor e de ouvido.
Mas há um ponto mais que me atrai neste sítio: são as resposta de José Neves Henriques.
Este nome faz-me voltar quase 40 anos atrás e a memórias nebulosas do meu velho 5º ano do liceu, no qual só não chumbei porque os meus pais tiveram a inteligência de me tirar do liceu, no derradeiro período, e dar-me o privilégio de 3 meses de professores privados.
O maior deles foi, sem dúvida, José Neves Henriques que me ensinou português e francês, disciplinas em que eu era sistematicamente um mau aluno, a que tinha algum asco e estavam a pôr em perigo a minha passagem de ano. Foi este homem que, ao contrário de todos os professores que tinha tido, me fez amar o português e me sobe mostrar a importância do domínio da língua, não para decorar umas regras gramaticais que me pareciam chatas e incompreensíveis, mas sobretudo para falar e escrever o melhor possível. Lembro-me que o seu ensino se baseou essencialmente em leituras e redacções que ele corrigia brilhantemente, não tanto no meu ponto mais fraco, ortograficamente, mas sobretudo na sua forma, no seu estilo e na sua compreensibilidade e na sua estética.
Erros ortográficos continuo a dar mas devo-lhe muito, bem haja.
2004-02-13
Carta a António Carrapatoso, digníssimo Presidente da Vodafone Portugal
Como é sabido, as relações entre cliente e empresa, na Vodafone, variam com o tipo de contrato que nos une, daí alguma dificuldade que tive em arranjar o tom apropriado para relatar o meu caso que passa por duas situações contratuais.
Teve que ser assim:
Olá António
Sou o Nuno, um teu cliente Yorn.
A coisa agora anda mais ou menos fiche mas o que é certo é que já me meteste a mão no bolso, man. Vou-te contar:
Comecei por ser uma “vitamina” de V. Exa.
Tendo um número da TMN espalhado por todos os meus amigos, decidi solicitar a transferência desse número para o tarifário Vodafone, nos sistema homólogo ao que dispunha na TMN que, na presente situação, seria o Yorn.
Contactei assim os serviços de apoio a cliente da empresa que V. Exa dirige e procedi à tramitação necessária
Acontece que neste entretanto, tive necessidade de carregar a minha vitamina, tendo sido informado numa agência Vodafone que o respectivo saldo poderia ser transferido para a o futuro contrato, assim que ele se concretizasse.
E assim, passado uns dias, recebi a tua carta e tornei-me um cliente Yorn mas o saldo, nicles.
Falei então com a Vanessa que era bué simpática mas que me disse que o saldo da vitamina ia à vida e que a informação, contrária, de um agente não interessa nada porque eles não sabem nada e agora, olha que kargasse nisso. Tás a topar a minha situação ? fiquei fodido, António.
Vê lá o que podes fazer pá, que isto assim não dá.
Fica bem
Nuno Jordão
Teve que ser assim:
Olá António
Sou o Nuno, um teu cliente Yorn.
A coisa agora anda mais ou menos fiche mas o que é certo é que já me meteste a mão no bolso, man. Vou-te contar:
Comecei por ser uma “vitamina” de V. Exa.
Tendo um número da TMN espalhado por todos os meus amigos, decidi solicitar a transferência desse número para o tarifário Vodafone, nos sistema homólogo ao que dispunha na TMN que, na presente situação, seria o Yorn.
Contactei assim os serviços de apoio a cliente da empresa que V. Exa dirige e procedi à tramitação necessária
Acontece que neste entretanto, tive necessidade de carregar a minha vitamina, tendo sido informado numa agência Vodafone que o respectivo saldo poderia ser transferido para a o futuro contrato, assim que ele se concretizasse.
E assim, passado uns dias, recebi a tua carta e tornei-me um cliente Yorn mas o saldo, nicles.
Falei então com a Vanessa que era bué simpática mas que me disse que o saldo da vitamina ia à vida e que a informação, contrária, de um agente não interessa nada porque eles não sabem nada e agora, olha que kargasse nisso. Tás a topar a minha situação ? fiquei fodido, António.
Vê lá o que podes fazer pá, que isto assim não dá.
Fica bem
Nuno Jordão
2004-02-11
Vasco Graça Moura
Nem sempre estou de acordo com ele, direi mesmo, raramente me identifico com o seu discurso mas tenho de reconhecer que a crónica de Vasco Graça Moura, publicada hoje no Diário de Notícias é uma pérola preciosa que deve ser guardada.
Aqui fica o link mas como os links se tendem a perder com o tempo, deixo aqui também a transcrição, além disso vai permitir aos mais preguiçosos que não tiveram pachorra para a ler na fonte, saborea-la imediatamente:
Kolmi
1. Entom chegaram uns moços folgando mui joviais e arremetendo por antre as cavalgaduras. E encontrando seu Mestre lhe disseram rijamente: - Bofé, dom vilão, que nom queremos nós nem trívio nem quadrívio, ca filharemos outro mester lavrando pedra em Castela. E o Mestre, mui calado e mui torvo, se foi asinha.
2. Entra Domingas e diz: Eramá, esses bastardos / nada querem da labuta. / Muita parra, pouca fruta, / pouca ervilha e muitos cardos. / Triste vida fideputa! / Antes irei de bom grado / ver se acaso estou doente: / sempre o físico consente / em me passar atestado / e então folga toda a gente. / Ó filhos de Belzebú, / acaso perdeis o siso? / Aos livros limpai o cu, / ou metei-os no baú, / que os lerdes não é preciso (vai-se bailando).
3. Aquela pastora mui merencoriamente assentada olhava o rouxinol que se ia morrendo. E a senhora Arima lhe falou, por conhecer, de tantas mágoas que ali tão longe a tinham trazido, qual fosse então a causa. Ao que ela em seu fundo suspirar, gemia que um zagal a pusera em tão triste estado, por porfiar ele mais em dar-lhe os ensinamentos que soía quando ela menos os desejava.
4. Não mais, Musa, não mais, que o meu engenho / a moucos vem falar, empedernidos. / Nem querem já saber porque aqui venho, / nem de meu estro são agradecidos. / Ó caso singular, ó caso estranho, / ó ruído mais torpe entre os ruídos! Em vez de honesto estudo próprio de aula, / mais se diriam feras numa jaula!
5. Pegavam os santos do Império Romano num pergaminho sagrado, desatavam as fitas, desenrolavam a pele, assopravam o pó, alisavam as dobras, decifravam a letra, abriam o coração e recitavam aqueles cânticos inefáveis. E vós hoje vedes um cartapácio, e não quereis sopesar-lhe o cabedal, afagar-lhe a lombada, abrir suas folhas, ler nele escorreitamente alguma lição impressa e preparar assim o Império que há-de vir!
6. O almocreve desbarretou-se e coçou a cabeça devagar: "- Ora, meu fidalgo, eu cá nesta vida só aprendi três coisas: assinar de cruz, pensar as mulas e não falhar com esta clavina. Não preciso de mais". E assentou pesadamente a coronha do bacamarte na soleira da venda. "- Veja o fidalgo o senhor Morgado de Agra de Freimas: tanto leu, tanto leu, que tresleu e deu em léria, com perdão de V. Exa."
7. Nas nossas aulas, ao amanhecer, / evita-se a leitura, o baço tédio, / pois a escola encontrou outro remédio / e eu deixo o meu cigarro esmorecer. / Austera escola! Aplica o seu afã / e ensina entre chilreios aos rebentos / os úteis, impecáveis rudimentos / para engraxarem botas amanhã.
8. Com um sacudir impaciente da botina de verniz, Cecília arredou aquela resma de papel sorumbático. Que estavam ali a fazer a gramaticazinha esbeiçada, o caderninho de significados com nódoas de tinta, a selectazinha encardida de vetustos autores? Pela janela aberta de par em par, a brisa do Tejo entrava, luminosamente, maciamente azul, numa doce lufada matinal. E Roberto estava a chegar.
9. Karaças, meu! Par-tu-tos kornos se olhas pràs koxas da Çónia Çoraia. Topas? A gaja é kinda não topou, mas logo apalpu-lhe as tetas nem ke seja ko telemóvel. Ontem a setôra xamou os meus pais, mas eles absteram-se de ká vir, meu, e ela kaga-se toda só de pençar ke lhe póço ir às fussas. Kolmi.
À consideração superior: do presente documento, vê-se que só à nona tentativa é que foi possível encontrar-se uma linguagem adequada às capacidades e necessidades comunicacionais dos aprendentes. Propõe-se pois que os programas de língua portuguesa sejam elaborados em conformidade.
Aqui fica o link mas como os links se tendem a perder com o tempo, deixo aqui também a transcrição, além disso vai permitir aos mais preguiçosos que não tiveram pachorra para a ler na fonte, saborea-la imediatamente:
Kolmi
1. Entom chegaram uns moços folgando mui joviais e arremetendo por antre as cavalgaduras. E encontrando seu Mestre lhe disseram rijamente: - Bofé, dom vilão, que nom queremos nós nem trívio nem quadrívio, ca filharemos outro mester lavrando pedra em Castela. E o Mestre, mui calado e mui torvo, se foi asinha.
2. Entra Domingas e diz: Eramá, esses bastardos / nada querem da labuta. / Muita parra, pouca fruta, / pouca ervilha e muitos cardos. / Triste vida fideputa! / Antes irei de bom grado / ver se acaso estou doente: / sempre o físico consente / em me passar atestado / e então folga toda a gente. / Ó filhos de Belzebú, / acaso perdeis o siso? / Aos livros limpai o cu, / ou metei-os no baú, / que os lerdes não é preciso (vai-se bailando).
3. Aquela pastora mui merencoriamente assentada olhava o rouxinol que se ia morrendo. E a senhora Arima lhe falou, por conhecer, de tantas mágoas que ali tão longe a tinham trazido, qual fosse então a causa. Ao que ela em seu fundo suspirar, gemia que um zagal a pusera em tão triste estado, por porfiar ele mais em dar-lhe os ensinamentos que soía quando ela menos os desejava.
4. Não mais, Musa, não mais, que o meu engenho / a moucos vem falar, empedernidos. / Nem querem já saber porque aqui venho, / nem de meu estro são agradecidos. / Ó caso singular, ó caso estranho, / ó ruído mais torpe entre os ruídos! Em vez de honesto estudo próprio de aula, / mais se diriam feras numa jaula!
5. Pegavam os santos do Império Romano num pergaminho sagrado, desatavam as fitas, desenrolavam a pele, assopravam o pó, alisavam as dobras, decifravam a letra, abriam o coração e recitavam aqueles cânticos inefáveis. E vós hoje vedes um cartapácio, e não quereis sopesar-lhe o cabedal, afagar-lhe a lombada, abrir suas folhas, ler nele escorreitamente alguma lição impressa e preparar assim o Império que há-de vir!
6. O almocreve desbarretou-se e coçou a cabeça devagar: "- Ora, meu fidalgo, eu cá nesta vida só aprendi três coisas: assinar de cruz, pensar as mulas e não falhar com esta clavina. Não preciso de mais". E assentou pesadamente a coronha do bacamarte na soleira da venda. "- Veja o fidalgo o senhor Morgado de Agra de Freimas: tanto leu, tanto leu, que tresleu e deu em léria, com perdão de V. Exa."
7. Nas nossas aulas, ao amanhecer, / evita-se a leitura, o baço tédio, / pois a escola encontrou outro remédio / e eu deixo o meu cigarro esmorecer. / Austera escola! Aplica o seu afã / e ensina entre chilreios aos rebentos / os úteis, impecáveis rudimentos / para engraxarem botas amanhã.
8. Com um sacudir impaciente da botina de verniz, Cecília arredou aquela resma de papel sorumbático. Que estavam ali a fazer a gramaticazinha esbeiçada, o caderninho de significados com nódoas de tinta, a selectazinha encardida de vetustos autores? Pela janela aberta de par em par, a brisa do Tejo entrava, luminosamente, maciamente azul, numa doce lufada matinal. E Roberto estava a chegar.
9. Karaças, meu! Par-tu-tos kornos se olhas pràs koxas da Çónia Çoraia. Topas? A gaja é kinda não topou, mas logo apalpu-lhe as tetas nem ke seja ko telemóvel. Ontem a setôra xamou os meus pais, mas eles absteram-se de ká vir, meu, e ela kaga-se toda só de pençar ke lhe póço ir às fussas. Kolmi.
À consideração superior: do presente documento, vê-se que só à nona tentativa é que foi possível encontrar-se uma linguagem adequada às capacidades e necessidades comunicacionais dos aprendentes. Propõe-se pois que os programas de língua portuguesa sejam elaborados em conformidade.
2004-02-10
Há excesso de futebol na sociedade portuguesa
Disse Pacheco Pereira, que detesta futebol, e disse-o bem porque é verdade.
Há excesso de futebol como há excesso de Casa Pia, excesso de mamas da Janet Jacson, excesso de tricas do Governo e das oposições, excesso de merdinhas que vendem jornais e ocupam horas de telejornal, excesso de painéis e paineleireiros que nos querem ensinar tudo sobre tudo para que não precisemos de pensar em nada e até há excesso de Pachecos Pereiras.
Há excesso de futebol como há excesso de Casa Pia, excesso de mamas da Janet Jacson, excesso de tricas do Governo e das oposições, excesso de merdinhas que vendem jornais e ocupam horas de telejornal, excesso de painéis e paineleireiros que nos querem ensinar tudo sobre tudo para que não precisemos de pensar em nada e até há excesso de Pachecos Pereiras.
2004-02-07
Armas de destruição de massa
Sempre que vejo e leio todos aqueles analista e comentadores que a seu tempo apoiaram a invasão do Iraque com base no perigo para a civilização ocidental que ele representava, tentarem ultrapassar o seu desapontamento com cabriolas e piruetas dialécticas, não me apetece contra-argumentar, parece-me inútil, a única coisa que me apetece fazer é difícil de dizer por palavras.
Imaginem-me de calções, batendo ritmicamente com a mão direita fechada na palma aberta da esquerda, cantando ao som daquela melodia infantil, brilhantemente inventada para irritar terceiros:
É bem feita
Nha, nha nha nha
Este Nha, nha, nha, dito com a língua de fora entalada entre os dentes.
Era assim que me apetecia afirmar a minha eloquência, com esta argumentação, tão válida como a deles.
Imaginem-me de calções, batendo ritmicamente com a mão direita fechada na palma aberta da esquerda, cantando ao som daquela melodia infantil, brilhantemente inventada para irritar terceiros:
É bem feita
Nha, nha nha nha
Este Nha, nha, nha, dito com a língua de fora entalada entre os dentes.
Era assim que me apetecia afirmar a minha eloquência, com esta argumentação, tão válida como a deles.
2004-02-06
O relatório Hutton
Há dias, Jorge Sampaio, falando num dos primeiros eventos ligado à comemoração dos 30 anos do 25 de Abril, dizia qualquer coisa como isto:
A nossa democracia ainda está na infância, numa fase de aprendizagem e, para demonstrar o seu ponto de vista, deu um exemplo de uma sólida e velha democracia para que víssemos as diferenças: A Inglaterra e o inquérito Hutton.
Dizia ele: em Inglaterra quando a BBC levantou a suspeita sobre a credibilidade do Primeiro Ministro e as trágicas consequências que se seguiram, Blair nomeou Lord Hutton para dirigir um inquérito e a Inglaterra aceitou isto pacificamente. Aqui seria o fim do mundo se fosse Durão Barroso a nomear alguém para dirigir um inquérito que o envolvesse.
Não tenho dúvidas que assim seria mas vendo as conclusões do inquérito Hutton, fico a pensar comigo mesmo onde estará a maior infantilidade ? cá ? ou lá?
A nossa democracia ainda está na infância, numa fase de aprendizagem e, para demonstrar o seu ponto de vista, deu um exemplo de uma sólida e velha democracia para que víssemos as diferenças: A Inglaterra e o inquérito Hutton.
Dizia ele: em Inglaterra quando a BBC levantou a suspeita sobre a credibilidade do Primeiro Ministro e as trágicas consequências que se seguiram, Blair nomeou Lord Hutton para dirigir um inquérito e a Inglaterra aceitou isto pacificamente. Aqui seria o fim do mundo se fosse Durão Barroso a nomear alguém para dirigir um inquérito que o envolvesse.
Não tenho dúvidas que assim seria mas vendo as conclusões do inquérito Hutton, fico a pensar comigo mesmo onde estará a maior infantilidade ? cá ? ou lá?
2004-02-04
O Guia Gastronómico
Por iniciativa do ICEP e da Associação das Regiões de Turismo, Portugal vai editar o Guia de Restaurantes representantes da gastronomia portuguesa, para o Euro 2004.
Sem dúvida, uma excelente iniciativa. Sendo a gastronomia portuguesa um indiscutível valor nacional, reconhecido já como Património Cultural Português, a publicação deste guia, numa altura de grande fluxo turístico no nosso país, permitirá dar a conhecer aos turistas as várias “pérolas” da nossa gastronomia; evitando equívocos lamentáveis como aquele, a que já dolorosamente assisti, de ver servir, sistematicamente, sardinhas assadas com batatas fritas, na feira anual da sardinha assada, em Portimão.
Certamente o ICEP e as Associações das Regiões de Turismo, tiveram um extremo cuidado na escolha do patrocínio para essa iniciativa: uma entidade respeitada e com grandes provas dadas no cultivo e na defesa da gastronomia nacional.
Ao que parece, todavia, estão a chover críticas à selecção feita: a prestigiadíssima cadeia mundial de fast food MacDonalds.
É certo que a MacDonalds é do fast food quando a nossa gastronomia se enquadra mais no conceito de slow food; é certo que se dedica uniformemente, por todo o mundo, ao negócio dos hamburguers no pão, enquanto a nossa gastronomia se caracteriza pela extrema diversidade de produtos e modos de confecção; é certo que é uma multinacional americana, enquanto a nossa gastronomia é nossa, portuguesa, mas, que diabo, é a MacDonalds, pois então.
Eu acho louvável este esforço do ICEP e da Associação das Regiões de Túrismo:
A gastronomia nacional há de permanecer para além do Euro 2004, com ou sem MacDolnalds e talvez aquela cadeia aprenda alguma coisa e possamos ver, no futuro, servir nos seus balcões mundiais “Caldeirada à Fragateira”, “Chafana” ou “pezinhos de porco de coentrada”, tudo, the portuguese way.
Sem dúvida, uma excelente iniciativa. Sendo a gastronomia portuguesa um indiscutível valor nacional, reconhecido já como Património Cultural Português, a publicação deste guia, numa altura de grande fluxo turístico no nosso país, permitirá dar a conhecer aos turistas as várias “pérolas” da nossa gastronomia; evitando equívocos lamentáveis como aquele, a que já dolorosamente assisti, de ver servir, sistematicamente, sardinhas assadas com batatas fritas, na feira anual da sardinha assada, em Portimão.
Certamente o ICEP e as Associações das Regiões de Turismo, tiveram um extremo cuidado na escolha do patrocínio para essa iniciativa: uma entidade respeitada e com grandes provas dadas no cultivo e na defesa da gastronomia nacional.
Ao que parece, todavia, estão a chover críticas à selecção feita: a prestigiadíssima cadeia mundial de fast food MacDonalds.
É certo que a MacDonalds é do fast food quando a nossa gastronomia se enquadra mais no conceito de slow food; é certo que se dedica uniformemente, por todo o mundo, ao negócio dos hamburguers no pão, enquanto a nossa gastronomia se caracteriza pela extrema diversidade de produtos e modos de confecção; é certo que é uma multinacional americana, enquanto a nossa gastronomia é nossa, portuguesa, mas, que diabo, é a MacDonalds, pois então.
Eu acho louvável este esforço do ICEP e da Associação das Regiões de Túrismo:
A gastronomia nacional há de permanecer para além do Euro 2004, com ou sem MacDolnalds e talvez aquela cadeia aprenda alguma coisa e possamos ver, no futuro, servir nos seus balcões mundiais “Caldeirada à Fragateira”, “Chafana” ou “pezinhos de porco de coentrada”, tudo, the portuguese way.
2004-02-03
Imagens das imagens
Sábado na SIC, Pacheco Pereira insurgiu-se contra a repetição da obsessiva das imagens da morte de Fehér, isto enquanto as mesmas imagens passavam, por trás, para que não tivéssemos dúvidas de que imagens eram.
Domingo, na Quadratura do Círculo, quase metade do programa que se dedica a rever os assuntos da semana, são utilizados na crítica à repetição exaustiva das mesmas imagens.
Foram todas as televisões, diz Pacheco Pereira, para não hostilizar demasiado a TV que lhe passa os cheques e assim, criticando a exposição se continua o espectáculo, até à exaustão.
Domingo, na Quadratura do Círculo, quase metade do programa que se dedica a rever os assuntos da semana, são utilizados na crítica à repetição exaustiva das mesmas imagens.
Foram todas as televisões, diz Pacheco Pereira, para não hostilizar demasiado a TV que lhe passa os cheques e assim, criticando a exposição se continua o espectáculo, até à exaustão.
Cuidado com o Estrela
Está meio mundo surpreendido com o mau perder (ou mau empatar) de José Mourinho no final do jogo com o Sporting.
A mim parece-me que a cabeça perdida é mais que justificável quando ouvimos que para Mourinho o Sporting é tal qual como o Estrela da Amadoura ou o Leiria.
Na realidade ainda falta muito campeonato e o Estrela ou outros semelhantes ainda estão no caminho do Porto. Se o homem tem razão as coisas estão pretas para o Mourinho.
A mim parece-me que a cabeça perdida é mais que justificável quando ouvimos que para Mourinho o Sporting é tal qual como o Estrela da Amadoura ou o Leiria.
Na realidade ainda falta muito campeonato e o Estrela ou outros semelhantes ainda estão no caminho do Porto. Se o homem tem razão as coisas estão pretas para o Mourinho.
2004-01-29
O BESCL
Foi o Adriano quem me chamou a atenção para o óbvio: como, talvez sem crer, o recente anúncio televisivo do BESCL acertou em cheio na música que escolheu.
“Tudo o que te dou, tu me dás a mim ...”
De facto, este pequeno pedaço da letra de Abrunhosa traduz, em poucas palavras, toda a essência da actividade bancária.
“Tudo o que te dou, tu me dás a mim ...”
De facto, este pequeno pedaço da letra de Abrunhosa traduz, em poucas palavras, toda a essência da actividade bancária.
2004-01-28
Livros
Hoje, pensei para comigo:
Em vez de fazer estes postes desconchavados, gostaria de escrever 3 livros.
Um primeiro sobre a relação do indivíduo com a máquina judicial, imensa, absurda, como um monstro bio-mecânico que tudo tritura, numa (i)racionalidade implacável e em relação à qual um modesto cidadão, como eu, sente a enormidade da sua impotência.
Tenho este livro na cabeça, chamar-lhe-ia “O Processo”.
Um outro relataria a actividade impotente de cada um de nós, relativamente ao peso de uma, ou melhor, de todas as administrações burocráticas, com a sua (i)lógica própria e toda poderosa.
Também já tenho a ideia, dar-lhe-ia o nome de “O Castelo”.
Um terceiro trataria da precariedade da relação de um homem ou mulher normal com o seu próprio quotidiano e da instabilidade dos modelos em que assenta.
A este, daria o nome de “A Metamorfose”.
Se tivesse o talento necessário, que não tenho, deveriam ser 3 livros magníficos que me poupariam muitos postes.
Em vez de fazer estes postes desconchavados, gostaria de escrever 3 livros.
Um primeiro sobre a relação do indivíduo com a máquina judicial, imensa, absurda, como um monstro bio-mecânico que tudo tritura, numa (i)racionalidade implacável e em relação à qual um modesto cidadão, como eu, sente a enormidade da sua impotência.
Tenho este livro na cabeça, chamar-lhe-ia “O Processo”.
Um outro relataria a actividade impotente de cada um de nós, relativamente ao peso de uma, ou melhor, de todas as administrações burocráticas, com a sua (i)lógica própria e toda poderosa.
Também já tenho a ideia, dar-lhe-ia o nome de “O Castelo”.
Um terceiro trataria da precariedade da relação de um homem ou mulher normal com o seu próprio quotidiano e da instabilidade dos modelos em que assenta.
A este, daria o nome de “A Metamorfose”.
Se tivesse o talento necessário, que não tenho, deveriam ser 3 livros magníficos que me poupariam muitos postes.
2004-01-26
Jantávamos
em família, calmamente, conversávamos, entre garfadas, sobre o lúgubre tema da morte ou, mais precisamente, sobre diferentes atitudes do homem face à morte.
Percorríamos diferentes casos de familiares e amigos, casos de lutadores pela vida, casos de outros que parecem desistir de viver, dos que temem a morte, dos que a desejam e de outros que lhe são indiferentes.
Recordámos como a morte nos é apresentada neste universo espectacular, como algo perfeitamente evitável que apenas aparece por desleixo nosso: os cigarros que matam, os exercícios e dietas que não se fazem, a falta de cuidado e vigilância médica, enfim, essa ideia que se generaliza nos subconscientes de que morremos apenas porque queremos, e é bem feita.
Estávamos nesta conversa, na mesa um saboroso cabrito assado, sentindo-nos confortados pelo suave prazer de continuarmos vivos meditando na morte, quando, inesperadamente, violentamente, cruamente, brutalmente, destruindo, num ápice, todas as teorias que formulávamos, a morte, ela própria, em directo e ao vivo, nos chega pela TV. Um breve sorriso de Fehér logo seguido da morte, fulminante.
Apenas o tempo necessário para a sinistra ceifeira, numa gadanhada rápida, roubar uma vida jovem, que não fumava, seria assistida medicamente e teria uma alimentação cuidada.
Percorríamos diferentes casos de familiares e amigos, casos de lutadores pela vida, casos de outros que parecem desistir de viver, dos que temem a morte, dos que a desejam e de outros que lhe são indiferentes.
Recordámos como a morte nos é apresentada neste universo espectacular, como algo perfeitamente evitável que apenas aparece por desleixo nosso: os cigarros que matam, os exercícios e dietas que não se fazem, a falta de cuidado e vigilância médica, enfim, essa ideia que se generaliza nos subconscientes de que morremos apenas porque queremos, e é bem feita.
Estávamos nesta conversa, na mesa um saboroso cabrito assado, sentindo-nos confortados pelo suave prazer de continuarmos vivos meditando na morte, quando, inesperadamente, violentamente, cruamente, brutalmente, destruindo, num ápice, todas as teorias que formulávamos, a morte, ela própria, em directo e ao vivo, nos chega pela TV. Um breve sorriso de Fehér logo seguido da morte, fulminante.
Apenas o tempo necessário para a sinistra ceifeira, numa gadanhada rápida, roubar uma vida jovem, que não fumava, seria assistida medicamente e teria uma alimentação cuidada.
2004-01-23
Opiniões
Carvalho da Silva, acha que esta greve na Função Pública pode obrigar o Governo a alterar a sua política.
Eu, por acaso, acho que não
Eu, por acaso, acho que não
2004-01-19
Sinal dos tempos
Vemos diariamente na TV um grupo de miúdos vangloriando-se das proezas dos seus progenitores.
Diz o primeiro
- O meu pai sabe tudo ...
Perguntar-se-ia, porquê ? Porque é cientista, professor catedrático, filósofo, bruxo ?
A resposta a esta questão vem logo, arrastando todo o peso do senso comum:
- Porque é jornalista !
Diz o primeiro
- O meu pai sabe tudo ...
Perguntar-se-ia, porquê ? Porque é cientista, professor catedrático, filósofo, bruxo ?
A resposta a esta questão vem logo, arrastando todo o peso do senso comum:
- Porque é jornalista !
2004-01-18
Quem guarda os nossos guardas
É interessante verificar como se construi a nossa idiossincrasia, o nosso sistema de valores e de crenças que determinam as nossas atitudes sobre todas as questões.
É interessante ver como de forma inconsciente acumulamos pedras nessa construção ou desprezamos outras que parecem não se encaixar bem ou ainda como tentamos, por vezes, a escopro e a martelo, adaptar outras que nos pesam demasiado e, no entanto, permanecem determinando as nossas contradições até que em momentos de lucidez as conseguimos expulsar.
Vem esta introdução a propósito deste pequeno trecho de Aldous Huxley que, como outros, ficou retido no meu imaginário desde que o li pela primeira vez, há quase 30 anos e permanece firme na minha construção:
“Os súbditos do ditador do futuro serão governados sem dor por um corpo de Engenheiros Sociais altamente instruídos. “O desafio lançado pela engenharia social do nosso tempo”, escreve um advogado entusiástico desta nova ciência, “é como o desafio lançado pela engenharia técnica há cinquenta anos. Se a primeira metade do século XX foi a era dos engenheiros técnicos, a segunda metade bem pode ser a era dos engenheiros sociais” – e o século XXI, suponho, será a era dos Administradores do Mundo, do sistema científico das castas e do Admirável Mundo Novo.
À pergunta quis custodiet custodes ? – quem montará guarda em volta dos nossos guardas, quem será o engenheiro desses engenheiros ? – a resposta é uma serena negação de que eles necessitem de qualquer supervisão.
Parece ser uma crença tocante, entre os doutorados em sociologia, a de que os doutorados em sociologia nunca serão corrompidos pelo poder.
Tais como Sir Galahad, a força deles é como a força de dez porque o seu coração é puro – e o coração deles é puro porque são cientistas e tiveram seis mil horas de aulas sobre Ciências Sociais.”
Aldous Huxley – Regresso ao Admirável Mundo Novo
É interessante ver como de forma inconsciente acumulamos pedras nessa construção ou desprezamos outras que parecem não se encaixar bem ou ainda como tentamos, por vezes, a escopro e a martelo, adaptar outras que nos pesam demasiado e, no entanto, permanecem determinando as nossas contradições até que em momentos de lucidez as conseguimos expulsar.
Vem esta introdução a propósito deste pequeno trecho de Aldous Huxley que, como outros, ficou retido no meu imaginário desde que o li pela primeira vez, há quase 30 anos e permanece firme na minha construção:
“Os súbditos do ditador do futuro serão governados sem dor por um corpo de Engenheiros Sociais altamente instruídos. “O desafio lançado pela engenharia social do nosso tempo”, escreve um advogado entusiástico desta nova ciência, “é como o desafio lançado pela engenharia técnica há cinquenta anos. Se a primeira metade do século XX foi a era dos engenheiros técnicos, a segunda metade bem pode ser a era dos engenheiros sociais” – e o século XXI, suponho, será a era dos Administradores do Mundo, do sistema científico das castas e do Admirável Mundo Novo.
À pergunta quis custodiet custodes ? – quem montará guarda em volta dos nossos guardas, quem será o engenheiro desses engenheiros ? – a resposta é uma serena negação de que eles necessitem de qualquer supervisão.
Parece ser uma crença tocante, entre os doutorados em sociologia, a de que os doutorados em sociologia nunca serão corrompidos pelo poder.
Tais como Sir Galahad, a força deles é como a força de dez porque o seu coração é puro – e o coração deles é puro porque são cientistas e tiveram seis mil horas de aulas sobre Ciências Sociais.”
Aldous Huxley – Regresso ao Admirável Mundo Novo
2004-01-15
ONG 2
A posição de Mana Lu sobre as ONG, referida abaixo não é única e fez-me recordar um episódio que vivi há alguns anos no primeiro encontro mundial do desenvolvimento local realizado em Sherbrook, no Canada.
Retive várias vivências marcantes, positivas e negativas, desse encontro, sendo uma das quais, que quero contar agora, o conteúdo do discurso de um dos participantes africanos que disse mais ou menos isto numa lógica inquestionável:
“Consideram-se as ONG como a grande solução para promover o desenvolvimento e a sua presença justifica-se, naturalmente, nos países menos desenvolvidos como o meu país.
Acontece porém que os seu número tem aumentado exponencialmente nos últimos tempos, cada nova para prover o desenvolvimento que as instaladas há mais tempo não conseguiram, mostrando que em lugar do desenvolvimento tem persistido sempre o subdesenvolvimento. Para quê então as ONG ?”
Foi a primeira vez que ouvi criticar o papel destas agências.
Depois, acompanhei no terreno o trabalho de algumas e questionei-me nalguns casos se não se verificava aquele hipócrita fenómeno referido por Mana Lu: “Muitos aproveitaram a pobreza, miséria e destruição total do território apenas para pedir em nosso nome”.
Lembro-me aliás de uma interessante comédia da BBC, centrada numa ONG, onde esta transformação de agências de desenvolvimento em máquinas de auto sustentação era brilhantemente caricaturada.
Retive várias vivências marcantes, positivas e negativas, desse encontro, sendo uma das quais, que quero contar agora, o conteúdo do discurso de um dos participantes africanos que disse mais ou menos isto numa lógica inquestionável:
“Consideram-se as ONG como a grande solução para promover o desenvolvimento e a sua presença justifica-se, naturalmente, nos países menos desenvolvidos como o meu país.
Acontece porém que os seu número tem aumentado exponencialmente nos últimos tempos, cada nova para prover o desenvolvimento que as instaladas há mais tempo não conseguiram, mostrando que em lugar do desenvolvimento tem persistido sempre o subdesenvolvimento. Para quê então as ONG ?”
Foi a primeira vez que ouvi criticar o papel destas agências.
Depois, acompanhei no terreno o trabalho de algumas e questionei-me nalguns casos se não se verificava aquele hipócrita fenómeno referido por Mana Lu: “Muitos aproveitaram a pobreza, miséria e destruição total do território apenas para pedir em nosso nome”.
Lembro-me aliás de uma interessante comédia da BBC, centrada numa ONG, onde esta transformação de agências de desenvolvimento em máquinas de auto sustentação era brilhantemente caricaturada.
ONG
A irmã Lurdes fundadora e dirigente de um Instituto Católico de apoio aos mais pobres de Timor, conhecida como Mana Lu, proferiu numa entrevista ao Público do passado dia 11, entre outras, as afirmações que transcrevo:
“MANA LU - Tivemos a estratégia necessária para mandar embora os indonésios, mas não estávamos preparados para a independência. Ficámos muito dependentes, sobretudo depois da presença das ONG [Organizações Não-Governamentais] internacionais. Muitos aproveitaram a pobreza, miséria e destruição total do território apenas para pedir em nosso nome. Agora já regressaram [aos países de origem], mas destruíram a nossa mentalidade de independência, tornando-nos dependentes.”
Sendo as ONG um instrumento moderno, apontado como exemplo da acção da sociedade civil para colmatar as limitações e ineficácia das organizações públicas, não podemos ler esta passagem sem reflectir.
Será que Mana Lu rejeita, por despeito ou inveja a acção destes concorrentes do seu Instituto ? ou será que há alguma verdade no que diz ?
Como é já tarde, apenas amanhã ou dentro de algumas horas, voltarei a este assunto.
“MANA LU - Tivemos a estratégia necessária para mandar embora os indonésios, mas não estávamos preparados para a independência. Ficámos muito dependentes, sobretudo depois da presença das ONG [Organizações Não-Governamentais] internacionais. Muitos aproveitaram a pobreza, miséria e destruição total do território apenas para pedir em nosso nome. Agora já regressaram [aos países de origem], mas destruíram a nossa mentalidade de independência, tornando-nos dependentes.”
Sendo as ONG um instrumento moderno, apontado como exemplo da acção da sociedade civil para colmatar as limitações e ineficácia das organizações públicas, não podemos ler esta passagem sem reflectir.
Será que Mana Lu rejeita, por despeito ou inveja a acção destes concorrentes do seu Instituto ? ou será que há alguma verdade no que diz ?
Como é já tarde, apenas amanhã ou dentro de algumas horas, voltarei a este assunto.
2004-01-13
Situação preocupante
Fez-se um concurso de spots publicitários anti Bush e parece até que um milionário americano disse estar disposto a pagar para que Bush não seja reeleito.
Quer dizer: ver e ouvir o que se passa não chega, é preciso fazer desenhos.
Com estes sinais acho que o homem está para ficar.
Quer dizer: ver e ouvir o que se passa não chega, é preciso fazer desenhos.
Com estes sinais acho que o homem está para ficar.
2004-01-09
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Contou-me há dias o meu sábio amigo Eng. Gusmão, que tem registos do facto:
No princípio do século XX, uma operação mediática que entusiasmou o país.
Sua Magestade mais meia Corte e vassalos, organizam uma grandiosa expedição ao Norte de Portugal.
Para quê ?
Para a suprema glória de matar a última cabra do Gerês !
No princípio do século XX, uma operação mediática que entusiasmou o país.
Sua Magestade mais meia Corte e vassalos, organizam uma grandiosa expedição ao Norte de Portugal.
Para quê ?
Para a suprema glória de matar a última cabra do Gerês !
2004-01-08
Ouvi hoje
Pela milésima quatrocentésima trigésima sétima vez: “a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade dos outros” e, pela milésima quatrocentésima trigésima sétima vez, perguntei a mim próprio: o que será que querem dizer com isto ?.
O contexto em que a ouço, na maioria das vezes, aponta para o cerceamento das mesmas liberdades, nos outros, é claro. Leva ao seguinte raciocínio: a liberdade de todos termina onde começa a minha, gerando justificação para uma prepotência pseudodemocrática.
Quase nunca se lê assim: a minha liberdade termina onde começa a de todos os outros, felizmente, porque gera uma autoanulação insuportável.
Vejamos um exemplo:
Imaginemos que seguem dois carros por uma via única: o da frente segue lentamente travando necessariamente o de trás, que quereria ir mais depressa.
Apliquemos a velha fórmula a esta situação:
A liberdade de ir devagar, que é reconhecida ao da frente, termina onde começa a liberdade do de trás que quer ir mais depressa, logo este deve acelerar.
A liberdade do de trás, de ir mais depressa, termina onde começa a liberdade do da frente de ir mais devagar, logo este deve sujeitar-se ao andamento lento.
Em resumo, a velha fórmula, ainda que aparentemente bonita, não resolve nenhum problema e é absolutamente inútil. Espanta-me como é tão repetida e tão consensualmente aceite.
O contexto em que a ouço, na maioria das vezes, aponta para o cerceamento das mesmas liberdades, nos outros, é claro. Leva ao seguinte raciocínio: a liberdade de todos termina onde começa a minha, gerando justificação para uma prepotência pseudodemocrática.
Quase nunca se lê assim: a minha liberdade termina onde começa a de todos os outros, felizmente, porque gera uma autoanulação insuportável.
Vejamos um exemplo:
Imaginemos que seguem dois carros por uma via única: o da frente segue lentamente travando necessariamente o de trás, que quereria ir mais depressa.
Apliquemos a velha fórmula a esta situação:
A liberdade de ir devagar, que é reconhecida ao da frente, termina onde começa a liberdade do de trás que quer ir mais depressa, logo este deve acelerar.
A liberdade do de trás, de ir mais depressa, termina onde começa a liberdade do da frente de ir mais devagar, logo este deve sujeitar-se ao andamento lento.
Em resumo, a velha fórmula, ainda que aparentemente bonita, não resolve nenhum problema e é absolutamente inútil. Espanta-me como é tão repetida e tão consensualmente aceite.
2004-01-06
Voltei
Há alguns dias que não escrevo, não leio, em resumo, não tenho querido saber de posts e de blogs.
Na realidade não sei por quê, foram as festas, talvez.
Mas hoje, ao voltar à rotina, não é que vejo na Euronews uma notícia digna de ser assinalada:
Uma professora Finlandesa, corria para a sua escola de bicicleta, como sempre mas, nesse dia, um pouco nervosa porque ia encontrar um grupo de estudantes de uma escola austríaca, de visita à sua escola finlandesa, ao abrigo de um Programa Comunitária cujo o nome não retive.
Pensei para comigo: que programa interessante, o intercâmbio de jovens do ensino secundário, fazendo-os viver um pouco da experiência dos seus colegas europeus de uma remota aldeia da Finlândia. Creio que é mesmo assim que se construi a Europa e se cria esse espírito transnacional de tolerância e de pertença a uma nova realidade baseada, não na homogeneidade, mas, precisamente, nas especificidades de diversas diferenças que tornam mais colorido um padrão comum.
Como não conhecia o programa, pensei que talvez poucos o conhecessem cá e que era pena se os portugueses o não o utilizavam.
Engano meu, na mesma notícia, logo a seguir, se precisava que eram alunos austríacos e também uma delegação da escola de Silvares de Portugal, só que desta só vinham professores porque não havia verba para os alunos.
É assim Portugal: num programa de intercâmbio de alunos só há verbas para os professores ....
Apetece-me dizer como o saudoso Peça: E esta, hem ?
Na realidade não sei por quê, foram as festas, talvez.
Mas hoje, ao voltar à rotina, não é que vejo na Euronews uma notícia digna de ser assinalada:
Uma professora Finlandesa, corria para a sua escola de bicicleta, como sempre mas, nesse dia, um pouco nervosa porque ia encontrar um grupo de estudantes de uma escola austríaca, de visita à sua escola finlandesa, ao abrigo de um Programa Comunitária cujo o nome não retive.
Pensei para comigo: que programa interessante, o intercâmbio de jovens do ensino secundário, fazendo-os viver um pouco da experiência dos seus colegas europeus de uma remota aldeia da Finlândia. Creio que é mesmo assim que se construi a Europa e se cria esse espírito transnacional de tolerância e de pertença a uma nova realidade baseada, não na homogeneidade, mas, precisamente, nas especificidades de diversas diferenças que tornam mais colorido um padrão comum.
Como não conhecia o programa, pensei que talvez poucos o conhecessem cá e que era pena se os portugueses o não o utilizavam.
Engano meu, na mesma notícia, logo a seguir, se precisava que eram alunos austríacos e também uma delegação da escola de Silvares de Portugal, só que desta só vinham professores porque não havia verba para os alunos.
É assim Portugal: num programa de intercâmbio de alunos só há verbas para os professores ....
Apetece-me dizer como o saudoso Peça: E esta, hem ?
2003-12-21
Christmas sucks
Canta Tom Waits com Peter Murphy:
“This Holiday season is all the more reason to die”
Porque será que esta época, supostamente de amor e alegria, desperta em tanta, tanta gente esta espécie de melancolia mórbida ?
Enquanto não tenho a resposta, aqui vão os meus desejos de boas festas para os milhões de visitantes desta página.
“This Holiday season is all the more reason to die”
Porque será que esta época, supostamente de amor e alegria, desperta em tanta, tanta gente esta espécie de melancolia mórbida ?
Enquanto não tenho a resposta, aqui vão os meus desejos de boas festas para os milhões de visitantes desta página.
2003-12-20
O pacto leonino
Manuela Leite decidiu vender uma quantidade enorme de impostos incobravéis ao City Bank. Parece que o valor acordado para a transação é de cerca de 1/6 do valor total dos incobráveis.
Considerando que essas dívidas já se arrastam há vários anos, que muitos dos credores já morreram ou as firmas se desfizeram que o Estado com toda a sua máquina já desesperava de ver daí um tostão, pensei que a recuperação de pelo menos 1/6 era já um evento de elevado risco para o City Bank.
Curiosamente, os jornalistas acharam pouquíssimo esse valor e anteviam uma grande negociata para o City Bank.
Mas o Governo já esclareceu os jornalista, se o City Bank conseguir cobrar mais, essa mais valia também vai para o Estado. Ou seja o Estado ganha sempre e tem todos os direitos, o City Bank tem todo o esforço e todas as obrigações e se tinha em mira algum proveito pode tirar o cavalinho da chuva.
Este tipo de contrato tem um nome: Pacto Leonino e é considerado nulo pela nossa lei.
Os jornalistas ficaram felizes.
Eu, pelo contrário, comecei a ficar preocupado, esta versão da história parece-me muito mal contada.
Considerando que essas dívidas já se arrastam há vários anos, que muitos dos credores já morreram ou as firmas se desfizeram que o Estado com toda a sua máquina já desesperava de ver daí um tostão, pensei que a recuperação de pelo menos 1/6 era já um evento de elevado risco para o City Bank.
Curiosamente, os jornalistas acharam pouquíssimo esse valor e anteviam uma grande negociata para o City Bank.
Mas o Governo já esclareceu os jornalista, se o City Bank conseguir cobrar mais, essa mais valia também vai para o Estado. Ou seja o Estado ganha sempre e tem todos os direitos, o City Bank tem todo o esforço e todas as obrigações e se tinha em mira algum proveito pode tirar o cavalinho da chuva.
Este tipo de contrato tem um nome: Pacto Leonino e é considerado nulo pela nossa lei.
Os jornalistas ficaram felizes.
Eu, pelo contrário, comecei a ficar preocupado, esta versão da história parece-me muito mal contada.
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