2003-11-07

Números-2

Há ainda outras formas de manipular números e estas tão ingénuas que chegamos a estranhar como conseguem ser eficientes. Mas são-no.
Se leram o 1984 de Orwell, recordar-se-ão que toda a acção decorre sob um pano de fundo de uma guerra, onde as notícias de vitórias e derrotas mudavam diariamente, ao ponto de uma derrota de ontem ser hoje uma vitória e poder tornar-se em derrota, de novo amanhã. Não estamos no mundo do 1984, mas nunca estivemos tão próximos e fenómenos desse tipo começam a passar-se apoiados no grande fluxo de informação que se vai sempre neutralizando com nova informação.
Há vários exemplos, falo agora, apenas, dos americanos mortos no Iraque. Se estiverem atentos verão que não há coerência e, após o mesmo facto, as notícias vão variando. Hoje por exemplo, na TSF houve 4 mortos num helicóptero e na SIC 6 no mesmo helicóptero.
O total de mortos pós guerra vai crescendo e decrescendo e ninguém sabe exactamente. Hoje ouvi centena e meia, na BBC, há alguns meses, falavam em mil e cem, incluindo estropiados. No New York Times li que a informação exacta era sempre muito difícil de obter junto das forças armadas americanas.
Estou a ver que sim.
Espero que, pelo menos, as infelizes famílias, vão recebendo correctamente os seus sacos pretos.

2003-11-05

Números

Não, não é o respectivo livro da Bíblia que quero reproduzir aqui.
Apenas uma reflexão sobre a utilização de números para fazer vingar uma ideia.
Exemplo 1.
Ontem vi o Primeiro Ministro, na Assembleia, arrasar a oposição com o custo das estradas sem portagem, bastou falar em milhões. Quantos já não sei, duvido que alguém que tenha ouvido, sem estar minimamente envolvido no assunto, se recorde do número, mais ou menos, exacto e é precisamente esse efeito que se pretende. Para nós, milhões exigem lápis e papel.
Nada melhor, para nos atrapalhar, do que falar em milhões; à nossa escala, milhões só tem um significado qualitativo: é muito.
Para explicar o que pretendo dizer atente-se neste exemplo:
Se se falar em 2 pacote de manteiga, todos sabemos o que é e que espaço ocupam num frigorífico. O mesmo se passará se falarmos em 20 ou 30 pacotes de manteiga; se porém eu disser um milhão de pacotes de manteiga gostava que imaginassem e sem recorrer a contas me dissessem: cabem num frigorífico ? suponho que não, e numa sala média ? já não sei, numa grande armazém, também não sei; nesta escala, estou disposto a acreditar, praticamente, em tudo o que me disserem ; Só sei uma coisa: é muita manteiga.
É assim que o argumento do Sr. Primeiro Ministro não me diz nada e, de qualquer forma, é sempre um pau de 2 bicos: Significa exactamente que é preciso que os utentes das SCUT paguem em portagens esses milhões e como são tantos parece-me que vão ficar todos na miséria, por várias gerações. Como disse o nosso Primeiro Ministro, são eles que irão permitir que haja algumas obras públicas em Portugal.
Exemplo 2
Se tiver um preço de 100 unidades e reduzir 70%, de cabeça digo que passará para 30, porém, se o preço for de 30 e aumentar 70%, não passará para 100 mas, também de cabeça, digo que andará pelos 50.
No entanto falamos sempre dos mesmos 70%.
Falar em percentagens é assim um tanto traiçoeiro, como se costuma dizer, e as manipulações psicológicas das percentagens são mais do que muitas, basta não dizer x% de quê, precisamente.
Exemplo 3
Um anúncio da PT diz que a diferença de preço do telefone fixo para o móvel é de 15 vezes, reparem, não fala em percentagens mas em valores absolutos, significa que se eu gasto 100 no fixo gastaria 1 500 no móvel e vice-versa.
Esta afirmação não sei desmontar, porque não me disseram como fizeram as contas, mas não corresponde nada ao que eu vejo nas minhas facturas, não condiz nada com a minha experiência, não acredito.

2003-11-04

Saez

Quando falava ontem dos jovens, referia-me, evidentemente ao “jovem médio”, o que está nas estatísticas, o que interessa aos média, “jovem médio” no sentido de Chàteliet, no livro “Vivermos e pensarmos como porcos” de que já falei numa outra crónica e que, entretanto, já tive o prazer de ler.
Felizmente, há ainda muitos que se conservam, teimosamente, macacos-deuses.
Queria hoje falar dum deles: Damien Saez.
Pouca gente o conhece hoje em Portugal, os seus discos não estão cá à venda, ainda, no entanto é um músico fabuloso, juntando qualidades de excelente músico, intérprete magnífico e muito bom poeta.
As suas canções lembram imenso Brel, tem 26 anos apenas e publicou o seu primeiro disco com 23. Não tenho dúvidas que dentro de alguns anos toda gente conhecerá o seu nome.
Infelizmente não domino, ainda, a tecnologia para por ficheiros de som no blog e só poderei dar uma pálida imagem do seu valor transcrevendo um texto de uma das suas canções, escolhi este mas poderiam se muitos outros::

Usé

Usé par les hommes
Par le bruit qui rend fou
Usé par la vie
Par les hurlements
Usé par le silence
Usé par le vent
Usé par l'oubli
On oublie pourtant
Qu'un jour on s'est aimé,
Qu'un jour on a vécu,
Que la vie est passée,
Que le passé n'est plus
Qu'un jour on s'est aimé
Que ce jour n'est plus
Qu'une postérité
Noyée dans l'inconnu

Usé par un monde
Qu'on ne comprends plus
Qu'on a jamais compris
Mais qu'il continue
A tourner encore
A tourner toujours plus
A faire tourner la tête
A nos âmes perdues
A nos cœurs qui appellent
Et hurlent au secours
Mais non y a plus de ciel
Et non, y a plus d'amour
Et plus que des troupeaux
Des vendus, des vautours
Des vendeurs de merveilles
Des joueurs de tambours

Usé par l'avenir
Usé par un meilleur
Qui ressemble au pire
Et oui, ça fait mal au cœur !
Usé par l'ironie
Qui tua ma jeunesse
Usé par la comédie
Usé par les promesses
Usé par la folie
Usé par le dégoût
Usé d'être incompris
De marcher à genou
Usé par l'usure
Usé par les regrets
D'avoir fui l'aventure
D'avoir fui la beauté
Te voilà qui revient
Te voilà toi mon frère
Qui me dit prends ma main
Marchons vers la lumière

Et le cœur plein d'espoir
Et le cœur infini
On oublie qu'il fait noir
Alors enfin on vit
Et loin de leur tambours
Et loin de l'inhumain
On redevient fou à chaque matin
Un jour on s'est aimé
Et ce jour c'est demain
Un jour d'humanité
Un jour de gloire
Un jour on s'est aimé
Et ce jour c'est demain
Un jour d'humanité
Un jour d'humain

2003-11-03

Jovens

O processo de desumanização que nos ameaça faz-se sentir de forma acelerada entre a juventude.
É talvez natural que na fase de descoberta que se vive na juventude, se verifique a inserção quase automática, sem crítica, na sociedade do espectáculo ou na intrujice da civilização para a qual caminhamos apressadamente.
Será assim em todas as gerações, o que diferencia esta, pela própria natureza da sociedade global que se construi pela primeira vez na história é que a castração de humanidade que se verifica poderá vir a transformar esta juventude em adultos impotentes e apáticos.
Lamentavelmente, o inconformismo que também é apanágio dos jovens e que poderia conduzir a uma inserção mais atenta e independente, não parece resultar neste modelo de sociedade, onde alguma assimetria é também condição da sua manutenção e o radicalismo juvenil é incorporado no sistema, transformando uma suposta marginalização no alinhamento mais puro.
É assim que vemos a juventude, utilizando o argumento da afirmação da diferença, vestir verdadeiros uniformes, quase militares, de roupa de marca normalizada pelo mercado, típicos da respectiva tribo urbana, tornando difícil descortinar qualquer elemento da individualidade que pensam afirmar.
São mais que alinhado, são alinhadíssimos, previsíveis, fiéis intérpretes de modelos estereotipados; tornando-se mais clara a inserção no processo de homogeneização social que vivemos, constituído verdadeiros exércitos de replicantes.
Preocupante é já, neste processo de desumanização da juventude o abastardamento da expressão humana:
Os jovens já dificilmente conversam, o vocabulário reduz-se drasticamente a alguns substantivos, poucos adjectivos, e um mínimo de verbos.
Nos "chats" cibernéticos, onde são exímios, as própria palavras, já de si limitadas, são despidas de sílabas e de letras reduzindo-se a uma expressão minimamente significante, quando não são substituídas por rudimentos da língua internacional: o “broken English".
Qualquer forma de raciocínio abstracto torna-se inexprimível e, assistimos já ao horror de ver, com demasiada frequência, em publicidade dirigida à juventude, reduzir a expressão oral a grunhidos de besta, do tipo Reeereeereeereeeumreee ou ihaaahuuuu, ihaaaaahuuuuu, entrecortados com gritos lancinantes de dor ou de prazer.
Parece-me, sem dúvida, preocupante esta tendência e para que não estereotipem esta minha posição, enquadrando-a, apressadamente, no conflito geracional, amanhã falarei de franjas de resistência e de esperança de alguma juventude mais esclarecida.
Como diz o Poeta Alegre: "mesmo na noite mais escura do tempo de solidão; há sempre alguém que resiste; há sempre alguém que diz não.

2003-10-31

José Alvalade

Hoje acordei com uma pequena angústia, inspirada pelas eleições do Benfica.
Sou adepto do Sporting, desde que nasci. Porquê ? não sei explicar racionalmente, creio mesmo que essa adesão profundamente emotiva, teve uma origem meramente aleatória; o meu pai, sem ser amante do futebol, era já simpatizante do Sporting e assim ficámos eu e os meus irmãos e irmãs.
Este sportinguismo não foi com as vitórias que se cimentou, pelo contrário, foram os longos anos de derrotas, que vivemos, que reforçaram esse espirito de pertença (os dois, relativamente recentes, campeonatos nacionais deram-me forças para mais 17 ou ainda mais anos de jejum) e me deram sempre aquele secreto conforto de pertencer a uma minoria suficientemente valorosa para poder ganhar, mas eternamente vítima de injustiças e de todo um rol de adversidades.
Gerou-se esta afeição como a natural simpatia, que muitos partilhamos, pelos índios em relação aos “cow-boys” e, em geral pelos mais fracos relativamente aos seus opressores.
Se virmos a história, porém, o Sporting nunca foi fraco, pelo contrário, foi sempre um clube das elites economicamente poderosas e é, de facto, o Benfica, o clube de Lisboa que nasceu do povo e lutou com garra para conquistar a sua posição cimeira.
Não obstante todas as vicissitudes da história, as eleições do Benfica continuam sempre recordar-nos essa origem popular e combativa.
No Sporting e na generalidade dos grandes clubes, mudam as direcções num nível etéreo (não duvido que muito legal e estatutariamente correcto) talvez de forma mais acertada e conduzindo a melhores soluções, mas que a luta pelo poder e as eleições disputadas do Benfica são um espectáculo bonito de se ver, ninguém pode desmentir.
Não obstante e porque estamos num domínio meramente emocional, onde o cérebro não tem nada a dizer, continuo a ser de alma e coração do Sporting.
Vem tudo isto trazer-me à memória os nomes dos novos estádios:
O da Luz passa a Catedral, procurando fazer subir o Benfica a esse nível quase divino a que eles se assumem com direito.
O das Antas passa a Estádio do Dragão, elevando o FC Porto ao nível mitológico, maravilhoso, onde eles se sentem estar.
O José de Alvalade passa a Alvalade XXI, talvez para dizer que este é que é o nosso século, vamos a ver, mas Alvalade porquê ? Quem foi afinal o José de Alvalade que nomeou um importante bairro de Lisboa, um importante estádio e persiste todavia para todo o século XXI, ombreando com uma Catedral e com um Dragão.
Quem foi José de Alvalade ? Não faço ideia nenhuma, já pesquisei na net e só encontro referências ao estádio seu referenciado.
A sua notoriedade faz-me pensar que sou só eu que não sei e daí a minha pequena angústia.
Talvez a Duquesa Charlotte, que muito sabe, me possa elucidar, por mim fico aguardando ajuda e, só espero, que ele não seja apenas um qualquer “pato bravo” endinheirado.

2003-10-30

A frase do dia

“O Governo PS era mau, mas este não é melhor !”
Anónima, manifestante da CGTP

2003-10-29

Os bandos

Como primatas organizamo-nos em bandos, é assim que nos sentimos bem, é a escala que dominamos.
Os problemas e o mal estar surgem quando se pretende construir o “bando global” bem contra a nossa natureza e os nossos interesses e reagimos, naturalmente, organizando os nossos próprios bandos, de interesses, de conformidade de ideias, estilos de vida etc,
O fenómeno é bem nítido na blogosfera: há um grupo de notáveis que se conhecem todos pelo nome, se encontram em jantares e reuniões sociais, “lincam-se” (perdoe-se-me o estrangeirismo, inevitável) e citam-se mutuamente, vão quase todos às FNAC e outros centros de cultura, têm o culto da escrita, escrevem geralmente muito bem (é essa estética que me atrai neles), rondam a medicultura, aquela franja que procura mimar o génio que lhes falta, são light, light, light., interessam-se vivamente por coisa tão diversas como animais domésticos, DVD, política, quanto baste, livros, muitos livros, lugares do mundo, futebol também, um pouco, outros desportos, centros de lazer, restaurantes “in”, não os de verdadeiro culto à gastronomia e dão a tudo isto o mesmo peso e a mesma medida.
Gosto imenso de os ler, não são bons nem maus mas não são, decididamente, não são macacos do meu bando.
Os macacos do meu bando não têm ainda muitos blogs.

2003-10-28

Dois factos insólitos

Hoje assisti, de uma assentada, a dois factos insólitos:
Primeiro
Um ministro que nunca tinha visto antes, o do ambiente, a dar uma conferência de Imprensa contra o governo. Nem mais, o Ministro contra o governo de que parece fazer parte.
Todavia parece que a estratégia resultou e o governo inverteu a sua posição ou pelo menos definiu-se.
Pensando bem, no entanto, não há razão para o meu espanto, tudo faz parte do espectáculo, existem precedentes, veio-me logo à memória quando no governo anterior o Ministro, Gomes da Silva, participou numa manifestação de protesto contra a sua própria política assim como outras cenas semelhantes a que assisti em importantes fora da administração.
Na realidade é assim que se faz política, se perde e se ganha.
Segundo
A Provedora da Casa Pia, Catalina Pestana, deu também uma conferência de imprensa desancando a justiça portuguesa e depois, quando foi questionada sobre a sua confiança na justiça respondeu inequivocamente: sim confio na justiça.
O que faria se não confiasse ? nem quero imaginar.

2003-10-27

O paradoxo de Bush

Hoje dizem que foi o dia mais sangrento da guerra no Iraque, aquele em que a reacção à ocupação Americana e Inglesa mais vítimas produziu.
Todavia não se iludam, tratou-se apenas de uma reacção desesperada aos claros progressos que estão a ser feitos em prol da democratização e pacificação do país.
Na realidade a guerra intensifica-se, simplesmente porque a paz avança.
É preciso compreender bem estas evidências.

2003-10-24

Ecologia

Recebi um cartão da Óptimus informando-me que para defender a ecologia e evitar a acumulação de tanto papel que entra pela nossa caixa de correio, vai deixar de enviar os extractos mensais.
Graças a Deus que a Óptimus está assim tão preocupada com a ecologia e defende assim tão bem os nossos interesses.
Uma nota apenas me não caiu bem: se pagar 1,25 Euros, já mandam lixar a ecologia e enviam-me os extractos.
Caraças, para a Óptimus a ecologia só vale 1,25 Euros !

A Rainha Vermelha

São assim as actuais tecnologias de informação:
Pouco tempo após a publicação do meu post anterior, a minha filha Joana, lê o post nos EUA, onde está temporariamente, e contacta-me, via “messenger”, dando-me conta do princípio da Rainha Vermelha.
Para saber o que isto é poderão encontrar aqui Informação mais detalhada mas, em termos gerais, posso dizer que se trata de um interessante princípio da área da biologia que traduz um fenómeno semelhante ao que eu tinha aplicado no meu post anterior num contexto macro-económico.
O nome provem do segundo livro de Alice, de Lewis Carroll: “Alice por de trás do espelho”, se não me engano e da observação que a Rainha Vermelha aí faz a Alice dizendo-lhe que, naquele lugar, era necessário correr muito para se ficar no mesmo sítio.
No linque referido vem um exemplo de determinadas situações florestais, onde as árvores têm que crescer para aceder à luz solar e continuar a viver e se ficam para trás são sombreadas pelas outras e sofrem com isso. O mais interessante neste exemplo é a constatação que se todas se mantivessem pequenas teriam todas beneficiado e poupado muitos recursos.
A verdade é que nós não somos árvores e, não obstante as leis naturais, poderíamos exercer o nosso livre arbítrio e escolher a nossa própria dimensão.

2003-10-23

Afinal, corremos para onde ?

É uma “verdade” insofismável, diz o Governo e a Oposição, temos que apanhar a Europa, o pelotão da frente, é preciso crescer mais que os outros. Roemo-nos de inveja pelo crescimento Irlandês, gozamos de prazer quando a bendita Grécia nos tira do último lugar de alguma coisa.
Mas afinal, estamos a correr para onde ?
Com tanta corrida já devíamos estar a atingir um nirvana de felicidade.
Um raciocínio simples poderia dizer: sinto-me bem, se não crescer mais ... que se lixe, continuo assim que não é tão mau.
É isso aliás o que sinto quando visito os tais países do pelotão da frente: afinal lá atrás não se está assim tão mal, nalguns casos, muitos, antes pelo contrário.
A realidade é que estamos a correr apenas para sobrevivermos. A ausência de crescimento não significa ficar na mesma, não, aumenta o desemprego, a miséria, de facto, andamos para trás, ficamos pior.
É isto que é a “intrujice da civilização” de que falava, (desculpem-me a insistência, não é, está longe de ser, o único lúcido mas está aqui a jeito) Almada Negreiros.
Vivemos um modelo civilizacional onde progredimos ou morremos, como que mergulhados numa piscina onde procuramos sempre tirar a cabeça de dentro de água, mas onde o nível sobe permanentemente e mesmo que tenhamos a ventura de chegar à tona e respirar, nem aí poderemos descansar e usufruir esse sucesso, se pararmos afundamo-nos de novo.
Ora a grande porra.

2003-10-22

Responsabilidade

Na construção da organização civilizacional, é normal atribuir-se àqueles homens e mulheres que assumem uma posição de direcção, de comando, uma capacidade de orientar o devir num determinado sentido, a uma determinada escala, a designação genérica de “responsáveis”.
É um princípio facilmente aceite e compreendido: Quem tem o privilégio de determinar ou influenciar resultados específicos, deverá igualmente responder pela qualidade dos seus actos e pelo facto de estes servirem mais ou menos a comunidade em geral.
A responsabilidade é assim o reverso da medalha da chefia ou direcção e encarado, pela generalidade das pessoas, como a contrapartida ou o ónus que recai sobre quem exerce e funções de chefia e como contrapartida de eventuais benefícios associados a essa função.
Porém, o que se assiste, cada vez mais, é a procura do melhor dos dois mundos, chegando-se, no nível organizacional moderno, a constatar que os responsáveis muito raramente respondem por coisa alguma.
As tácticas são duas: “sacudir a água do capote” se algo acontece de mal ou, melhor ainda, fazer o menos possível para que nada ou pouco aconteça.
Veio-me esta velha constatação à memória com as recentes notícias sobre o famigerado caso da fuga de informação no processo da Casa Pia e o relatório sobre o acidente da passagem de piões do IC19.
É tão natural esta desresponsabilização que a generalidade das pessoas já equacionou o termo responsável exclusivamente à função de direcção, despindo-a do seu significado real.
Daí aquela frase sábia e desesperada que vi, já há alguns anos, num cartaz em Sines, reclamando umas obras inadiáveis: “Já que os responsáveis se mostram incapazes, apelamos para os irresponsáveis”.

2003-10-20

Finalmente, um verdadeiro metapost

Porquê um blog ?
Porque tenho muitas coisas a dizer
Porquê os posts?
Porque são a forma que este “media” admite para comunicar.

É certo que procuro sempre o post dos posts: aquele em que num pequeno parágrafo consiga resumir tudo o que é para mim importante dizer.
Mas sei já, também que isso é impossível e chego, por vezes, a não escrever nada vencido pela montanha de coisas a dizer.
O que eu pretende transmitir são as sensações e/ou emoções que determinadas vivências me provocam, talvez só a mim porque foram vividas num momento e em circunstâncias únicas e me tocaram especialmente por se articularem e despertarem um conjunto de outras vivências pessoais, recordações, sensações e emoções diversas, tornando o resultado indizível num discurso articulado e racional mas antes, apenas atingível numa forma de expressão artística, se possuísse o necessário talento para isso, é claro.
Essa expressão artística teria qualidade se conseguisse despertar em quem a usufrui uma emoção que lhe permitisse antever o que supostamente o artista viveu e quer transmitir.
Por mim, limito-me a ter esperança que alguém que leia este blog, no conjunto dos seus posts, ao ver os vários ângulos deste difícil discurso possa, pelo menos, antever a complexidade que eu gostaria de transmitir num jacto apenas.

Jornalistas

Na blogosfera falam muito e fala-se muito de jornalistas.
Conheço-os. A última vez que os vi estavam satisfeitíssimos vasculhando o lixo à porta de um tribunal.

2003-10-16

Hoje aprendi

Que é fundamental comer cereais ao pequeno almoço.
Mas cereais já não são o trigo, milho, aveia, centeio e cevada, entre outros, como eu tinha aprendido antes, nem são mesmo os alimentos provenientes da sua transformação que o homem foi inventando na sua história civilizacional como a farinha e tudo o que se pode fazer com ela, os cuscuz, e o pão, nada disso, cereais, hoje, são exclusivamente uma espécie de batatas fritas contidas em caixas de diversas marcas entre as quais a Kellogs.
Sendo este um derivado produzido já no século XX, questiono-me como terá sido possível a humanidade sobreviver e prosperar sem consumir os ditos cereais ao pequeno almoço.
Aprendi também que Paulo Pedroso recuperou hoje mais um sapato que tinha deixado na sua cela., visto que ontem já tinha assistido à recuperação de um sapato esquecido nas mesmas circunstâncias.
Reconstituído assim o par, espero que amanhã não tenha que ver de novo Paulo Pedroso tomar o seu pequeno almoço junto a Vera jardim (e ao que me pareceu sem cereais) e a recuperar novo sapato na penitenciária.

2003-10-14

Uma tentativa de metapost

Nelson Heitor, um reputado enófilo e enógrafo da nossa praça, disse-me um dia que se irritava sumamente quando algum seu convidado de jantar, ao ser-lhe proporcionado um excelente vinho branco, lhe demonstrava o prazer que lhe era proporcionado com este elogio bastante comum:
Está bom, está fresquinho !
De facto, para quem conhece profundamente um vinho e os segredos que ele desvenda, destacar como qualidade determinante o estar fresquinho é extremamente pobre.
Era tão bom que assim fosse, todos poderíamos extrair o profundo prazer de um vinho branco baixando a sua temperatura apenas.
Hoje e a propósito, meditei também num comentário que ouvi a uma lindíssima “top model” que, depois de pensar um pouco, resumiu a qualidade do vestido que envergava como sendo:
Muito feminino !
Ao ver aquela inequívoca mulher lindíssima questionei-me:
Porquê procurar apenas ou determinantemente num traje a confirmação da sua já óbvia feminilidade ?
Será que na riqueza e complexidade de um ser humano o relevante mesmo é esse estado, meramente aleatório que nos impõe um género ?
Mas é assim: uns contentam-se em beber um vinho fresquinho, outras em ser suficientemente femininas.
São estas situações que me recordam permanentemente aqueles 3 versos determinantes de Almada Negreiros que já transcrevi num post abaixo:

Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
A boiar à tona d`água, à mercê dos ventos
Sem nunca saber que fundo que é o Mar

Eu, também como disse Almada, quero mais, eu quero sempre muito mais !

2003-10-13

O Homem da voz doce

Vindo de fundo dos tempos, cavalgando as ondas da radio, o homem da voz doce e olhar profundo e penetrante abre-nos, diariamente, a janela do mundo revelando-nos sinais.
Sinais de um quotidiano sempre repetido e sempre renovado, brotando sangue ou rindo e gargalhando nos dias claros e escuros sob o sol escaldante do verão ou entre a chuva e o frio árctico de todos os Invernos.

Falo de quem ? De Fernando Alves, obviamente.

Porra, Fernando Alves, creio que já ninguém o suporta diariamente na TSF, alardeando esses textos pseudo-poéticos de um enorme mau gosto, conseguindo a proeza de transformar alguns temas interessantes numa massa homogénea e ridícula de linguagem ultra "Kitsch".
É a medicultura na sua plenitude.
Parece que se confirmam os meus piores receios relativos à substituição de Carlos Andrade na TSF: O fim de alguma objectividade e oportunidade, que colocaram essa estação num lugar único entre todas as rádios, e o nascimento de uma grelha medíocre e homogeneizadora, com muito Fernando Alves, construída, supostamente, para agradar às massas, seja lá o que isso for.
Isto para não falar da música mas sobre isso já se pronunciou, muito bem, o "Muro sem vergonha.

2003-10-11

Reciclagem

Se bem que me considere macaco, notem bem que assumo essa qualidade sim mas complementada por uma chama Divina e, não esperava, absolutamente não esperava, ter mais dificuldade em separar ecologicamente o meu lixo do que o chimpanzé da televisão que, dizem, aprendeu essa tarefa em tempo relâmpago.
A realidade é a seguinte:
Tenho 4 contentores, um que diz pilhas, outro embalagens, outro papel/cartão e ainda outro que diz vidro.
Os detritos que eu produzo em maior abundância são garrafas de vinho; claramente de vidro, mas geralmente com rótulos de papel e que são, igualmente para todos os efeitos embalagens.
O instinto diz-me que é o vidro que é determinante mas não me apetecendo retirar o rótulo para colocar no depósito de papel, o depósito de embalagens torna-se mais tentador.
Felizmente que após uma vista a uma fábrica da Barbosa e Almeida aprendi que o processo de reciclagem suporta o papel dos rótulos que são eliminados e as garrafas vão assim para o depósito do vidro, embora, quando não são de vinho e têm tampa metálica, por minha iniciativa, retire a tampa e a enfie no contentor das embalagens, para onde vão todas as latas de cerveja, sardinha, atum etc.
Defini assim a minha rotina embora apenas ao fim de algum tempo.
Hoje a minha mulher perguntou-me onde poria uns cacos de barro produzidos por um acidente caseiro.
Pensei, pensei, pensei mas não arranjei solução, tive que lhe dizer: Tens de perguntar ao chimpanzé.

2003-10-10

Eu estava lá

Não, não fui assistir ao desfile de Eanes, como candidato a PR em Évora.
Estava naquele dia, naquele exacto momento, com a minha filha no parque infantil donde, do alto, se domina a rua por onde passava o desfile.
Ouvi os tiros e vi Eanes, imediatamente, erguer-se bem de pé na sua viatura, oferecendo o seu peito às balas que todavia nunca chegaram para ele.
Lembro-me de pensar no momento, este homem veio completamente cacimbado da Guiné.
O gesto é sem dúvida bonito e, no momento, exultou o povo que assistia, mas, na realidade revelava uma enorme imprudência, direi mesmo inconsciência. Se alguém o quisesse ferir ou matar tinha-o feito ali com a maior das facilidades.
Só hoje, passados 25 anos, soube que morreu um homem com uma bala perdida que o atingiu sobre o muro onde estava sentado, também com a sua filha que teria idade próxima da minha.
Só hoje, passados 25 anos, soube que, muito presumivelmente, as balas terão surgido da própria segurança de Eanes.
O que me passa pela cabeça é demasiado obsceno para o revelar aqui.

2003-10-08

Enganar a Fome

Os especialistas da fome no mundo (há muitos e trabalham em conjunto com outros especialistas empenhados em fazer-nos acreditar que vivemos num reino de abundantes delícias, embora nenhuma "grande farra" se vislumbre ...) vêm comunicar-nos os seus cálculos: o planeta será capaz de produzir a quantidade suficiente de cereais para que ninguém passe fome, mas o que é perturbante nessa visão idílica é o facto dos "paises ricos" consumirem abusivamente metade dos cereais, só para alimentação do seu gado. Mas quando se conhece o gosto desastroso da carne que nos chega dos matadouros, proveniente da engorda acelarada à base de cereais, poderá falar-se de "paises ricos" ? Certamente que não. Não é para nos fazer viver no sibaritismo que uma parte do planeta tem de morrer à fome: é para nos fazer viver na lama. O eleitor, contudo, adora ser lisonjeado quando lhe lembram que o seu coração pode estar a ficar um pouco insensível - ele a viver tão bem enquanto outros países contribuem, à custa de cadáveres dos filhos, stricto sensu, para que vá engordando. O que agrada ao eleitor, neste discurso, é ouvir dizer que vive como um rico.
Sente-se bem a acreditar nisso.

Parte do texto "Enganar a Fome" por Abat-Faim
(atribuído a Guy Debord)


Fiquei atónito

Os factos todos os conhecem, levaram à demissão de 2 Ministros.
O que me deixou atónito, todavia, foi a nota do MNE desta manhã que, segundo as transcrições que pude ler na imprensa, referem que o Secretário de Estado das Comunidades, José Cesário elaborou uma proposta de alteração da lei de acesso ao ensino superior que previa a alteração da excepção em causa de forma a limitar a exigência de frequência do 11º ano no estrangeiro e não do 12º como a actual lei exige e que foi próprio Ministro que não autorizou que essa proposta avançasse.
Ouviram bem ? Foi o próprio Ministro que não autorizou que a proposta seguisse, quer dizer, o Ministro não concordava com a proposta, o Ministro não concordava com a excepção que legalizaria a admissão da sua filha.
Então o que é isto ? Não concorda com a alteração que permite enquadrar a situação e autoriza que a sua filha faça um requerimento no sentido de que seja interpretada a lei no sentido que ele não concorda ?
Curiosamente não vi nenhum jornalista ou comentador a salientar este aspecto, pelo contrário, criticavam a apresentação da proposta por parte do Secretário de Estado, e deixaram passar o deveras espantoso que é a recusa do Ministro.
Entretanto as coisas vão-se superando, só falta perguntar agora: e o Director Geral cuja informação desencadeou todo este imbróglio e meteu os pés pelas mãos nas entrevistas que concedeu e até falou das “leis que não estão na lei”, é um anjinho ? está bem no lugar ?, parece que sim porque dele quase ninguém fala.

2003-10-06

Reflexão sobre o “light”

Sei muito pouco sobre poesia e embora goste imenso dessa forma de expressão, é um puro amor de amante e não de especialista, gosto ou não gosto quase por sentimento, pelas emoções que me desperta ou não e pela consonância dessas emoções com o que penso ser as intenções do autor, mas não sei explicar por quê, julgo aliás que, por definição, a arte nunca se explica ou perderia a dimensão artística e transformar-se-ia num ensaio mais ou menos racional
Dos versos que se seguem gosto muitíssimo. É raro o dia em que eles me não vêem à memória ao ler alguns blogs:
...
Eu queria que a vida fosse tão divinal
Como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
A boiar à tona d`água, à mercê dos ventos
Sem nunca saber que fundo que é o Mar|
...
Pequeníssimo trecho da “Cena do ódio” de José de Almada Negreiros

2003-10-03

Não, não vou falar dos Srs. Ministros

Hoje limito-me a dizer adeus à Formiga de Langton que encontrou a sua auto-estrada e partiu.
Boa viagem
O meu link, porém, vai ainda permanecer alguns dias

2003-10-02

Falando Sério

Foram apreendidos, em Portugal uma série de DVD piratas oriundos, parece, da Malásia.
Em Varsóvia, como alguns conhecem, existe o chamado mercado russo.
Uma espécie de feira de Carcavelos ou semelhante, mas em grande, em muito grande escala, que domina um estádio, quase no centro da cidade, e que consta de todos os guias turísticos, onde grande parte dos turistas vão, e onde os táxis ultrapassam qualquer barreira linguística e nos conduzem prontamente a partir de qualquer expressão, mesmo mal pronunciada de “Russian market”, “marché russe” e, creio, ainda que não tenha experimentado, “mercado russo”, ou “Rynek russky” ou algo semelhante. Não se pode falhar.
Comprei aí, muito em conta, alem de outras coisas, diversos DVD e CD pirata.
Ao longo de vários meses deste ano vivi várias situações relativas à atitude da polícia naquele mercado.
Primeiro, em Fevereiro, comprei abertamente: quando a polícia, sempre presente, passava, os tendeiros cobriam com decoro o escaparate que logo reabriam quando os guardas ultrapassavam os 2 metros de distância.
Meses passados, após o referendo de adesão à UE, voltei a comprar mas já como, suponho, se compra droga ou algo assim: falando ao ouvido, entrando em meandros esconsos, por baixo de balcões.
Um pouco mais tarde, depois de assistir a aparentes prisões públicas, pela minha timidez, já não consegui comprar nada do tipo.
Alguns dizem: é a Polónia a entrar na legalidade, na perspectiva da adesão à UE.
A minha reflexão foi um pouco diferente:
O que vi naquele mercado, a princípio, foi o capitalismo liberal em acção, “laisser faire laisser passer”, com o tempo e a evolução descrita e a intervenção da polícia, do Estado, verifiquei “Isto é o capitalismo global em luta contra o capitalismo local”.
Extrapolando para os DVD apreendidos em Portugal questiono-me: A quem está a proteger de facto a polícia com esta apreensão ?
A mim e ao comum dos cidadãos não é de certeza porque me impede o acesso à livre concorrência e a beneficiar dos mesmos bens a muito melhor preço.
Dizem-me, que não estou a ver bem, que é para salvaguardar os direitos de autor e impedir que outros usufruam do trabalho árduo dos verdadeiros criadores.
Reconheço que a questão é muito complexa mas quando vejo a opulência dos referidos criadores e das distribuidoras globais, penso que todos já foram regiamente pagos pelo seu trabalho e quando imagino os desgraçados malaios que copiaram com engenho e arte aqueles DVD para mo proporcionarem a preços acessíveis, julgo que são mais merecedores do meu dinheiro, embora tenha também consciência que uns e outros são pedras de um mesmo sistema e veja, com clareza, que quem vai beneficiar mais, mesmo da compra dos DVD piratas, não são os pobres malaios mas será sempre o mesmo capital.
Fico a aguardar pela aldeia de macacos onde deveríamos viver e onde esta complexidade se simplifica de modo mais simples, em dimensão humana e onde uma maior equidade poderia reinar.